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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, e agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana optamos pela miscelânea. Um pouco daqui, um pouco dali, e prova-se do que a BD é capaz.

Uma BD por dia, não sabe o bem que lhe fazia - até ao primeiro dia de 2020!



Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, mas só agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Na semana do MOTELx, festival de cinema de terror de Lisboa, ficam umas sugestões de BDs desse lado tenebroso da literatura.

Black Hammer de Jeff lemire - Dark Horse


A editora portuguesa Levoir iniciou, recentemente, a publicação da série de BD Black Hammer, do autor Jeff Lemire, cuja premissa é a exploração de conceitos e arquétipos dos super-heróis, sempre com uma visão que mistura modernismo com muita da abordagem clássica destas mitologias. A série, cujas raízes são alicerçadas na pura BD, constitui um sucesso de crítica e de vendas. Já aqui focamos o primeiro volume, Black Hammer: Secret Origins, um dos dois publicados pela Levoir. Entretanto, para além da continuação (já editada também em Portugal), saiu, em inglês e em TPB, o igualmente bom Sherlock Frankenstein and the Legion of Evil, que explora, dentro do universo criado por Lemire, alguns dos adversários dos heróis da série. Aguardem que saia igualmente em terras lusas. 

David Rubín - Beowulf, Hero e Sherlock Frankenstein


Nos últimos tempos, o nosso vizinho da Galiza, David Rubín, tem demonstrado uma certa e determinada ubiquidade  - ou então foram os nossos olhos que abriram-se para ele. Os seus desenhos têm estado presentes em obras em nome próprio publicadas deste e do outro lado do Atlântico, em colaborações com colegas de Espanha e em parceria com autores a trabalhar para os EUA. O seu estilo cartoonesco, dinâmico e cheio de velocidade narrativa é atraente, divertido e capaz de contar a história de forma fluída. É impossível não admirar a síntese da sua composição narrativa, misturada com cor e explosão de movimento. É uma forma comum a muitos artistas que fizeram a transição da animação para a Banda Desenhada e que prova que esta última é, antes de mais nada, não uma sequência de desenhos bonitos mas antes uma arte onde deve ser privilegiada o contar da história. A habilidade do artista em "partir a história" em quadradinhos pode ensinar-se - como tudo -,  mas existem aqueles que o fazem melhor que outros. David Rubín é um deles.

Uma BD aqui, outra BD ali, 19

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! É um prazer que rezo para nunca acabar. De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei. Só isso: gostado. Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

The Terrifics número 4 de Jeff Lemire e Evan "Doc" Shaner (DC Comics)

O conceito por detrás deste The Terrifics é familiar para os fãs de BD. São uma muito pouco discreta homenagem (ou plágio, ou cópia) do Quarteto Fantástico da Marvel.

Uma BD aqui, outra BD ali, 11

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

The Terrifics número 1 de Jeff Lemire e Ivan Reis (DC Comics)


Sempre tive dificuldade em perceber porque é que o Quarteto Fantástico da Marvel tem problemas em afirmar-se nos tempos modernos. Porque é que tem problemas para encontrar uma equipa criativa estimulante. Será porque os associamos de tal forma aos autores originais, Stan Lee e Jack Kirby, e à sua lendária sequência de histórias, que todos os outros ficam aquém em comparação? No que a mim diz respeito, John Byrne, na década de 80, conseguiu replicar o trabalho desses dois génios da BD, mas e os outros? Que dificuldades existem para que um dos conceitos mais originais da 9.ª Arte, mais estimulantes e multifacetados, tão próximo das infinitas possibilidades desta Arte, para que esse conceito falhasse ao ponto de não termos uma revista mensal há quase dois anos?

A DC Comics, em jeito de provocação, decide preencher esse vácuo com os Terrifics, uma equipa construída sob o mesmo conceito: exploradores do desconhecido compostos por um génio, um homem elástico, um homem-forte de aspecto monstruoso e coração puro e uma mulher intangível (uma variação de invisível). Na sequência da ainda incompleta série Dark Knight Metal surge esta nova equipa de super-heróis, com o objectivo de explorar os cantos desconhecidos do Multiverso e do Multiverso Negro, fazendo-se valer de tecnologia fantástica e de personagens maiores que a vida com olhar curioso. Este primeiro número segue o espírito do Quarteto Fantástico, com apontamentos de homenagem a essa equipa - um quadrado de duas páginas faz lembrar uma amálgama de Galactus e da história de Ego, O Planeta Vivo escrita e desenhada por John Byrne; o portal para o Multiverso Negro lembra a entrada para a Zona Negativa.

Quer Lemire, quer Reis, estão ao seu mais alto nível, especialmente este último. O brasileiro continua a afirmar-se como um dos mais cativantes desenhadores a trabalhar nos super-heróis. Se há um apontamento negativo a fazer a este número é que sabemos que Reis apenas trabalhará nos três primeiros meses desta revista - segue para o Super-Homem de Bendis. Fora isso, Terrifics é perfeito.

Batman (2016) número 41 de Tom King e Mike Janin (DC Comics)


Quem diria que seria a Hera Venenosa a fazer o Batman duvidar de si mesmo. Tom King continua a sua aclamada sequência de histórias no Cavaleiro das Trevas, desta vez focado-se em mais um embate entre o herói e uma das suas mais antigas adversárias. Contudo, a vilã manipuladora de plantas e dos corações dos homens não é apenas mais um vilão du jour, afirmando-se, antes, como uma antagonista à escala global. Não mais uma piada sexista, a Hera cresce em estatuto de forma orgânica (hum... há uma piada aqui algures) e, ao mesmo tempo, prova que o Batman, apesar de estar sempre bem preparado, não o está para todas as eventualidades.

Tom King continua a escrever argumentos cativantes e únicos. O monólogo interno de Hera é o anzol que nos agarra e, ao mesmo tempo, é o comentário às cenas que se desenrolam - sabemos que é ela mas, ao mesmo tempo, a revelação final da sua aparição como vilã é uma surpresa: pela frieza; pelo poder; pela escala da ameaça. O escritor também prossegue o desenvolvimento da relação do Batman com a Mulher-Gato, procurando transpor a sua experiência pessoal para as vidas destas personagens (como também está a fazer com o essencial Mr. Miracle). Neste entrelaçar de aventura e relações pessoais, King tem se revelado um exímio contador de histórias.

A seu lado, volta a estar Mike Janin como desenhista. E que desenhista. Não só fotografa personagens com alma e carácter, como o faz de forma entusiasmante. A sua Hera é de uma terrível e temível beleza. 

Este é o primeiro capítulo de Everybody Loves Ivy. Mais uma vitória de King e de Janin. 

Rapidinhas de BD - Black Hammer vol. 1; Empowered vol. 10; A Última Nota

Black Hammer vol. 1: Secret Origins de Jeff Lemire e Dave Stewart (Dark Horse)

Jeff Lemire é conhecido pelo ecletismo das suas escolhas para histórias na BD. Pode fazer incursões em super-heróis, como o seu maravilhoso, menosprezado e esquecido Superboy, ou entrar por territórios mais pessoais e independentes, como nos deliciosos Sweet Tooth ou The Nobody. Black Hammer situa-se a meio destes dois, uma viagem às recordações doces deste autor enquanto lia as aventuras dos homens de collants, mas também uma perspectiva idiossincrática que evoca visões mais sérias. Tudo se passa anos após uma batalha apocalíptica de super-heróis arquetípicos contra uma Deus do Mal. Depois dessa batalha o grupo é misteriosamente exilado para um mundo paralelo, e afastados das lides de defesa da justiça. Os vários membros da equipa adaptam-se o melhor que podem, uns bem e outros menos bem. É nesse equilíbrio da adaptação que Lemire explora as várias vidas das personagens. Não só elas são adaptações assumidas de arquétipos conhecidos (Super-Homem; Shazam; Monstro do Pântano; etc.), como as suas histórias funcionam como reflexões de enredos dessas mesmas personagens. O escritor consegue um perfeito equilíbrio entre o elogio/pastiche/cópia, a homenagem e a inovação, conseguindo dar algo de novo e algo de velho ao mesmo tempo. Esperemos que o segundo volume permaneça neste nível de qualidade.

Empowered vol. 10 de Adam Warren (Dark Horse)

Para quem lê este blog não será segredo que a BD Empowered de Adam Warren tem em mim um assumido fã. Já escrevi algo sobre ela (leiam aqui) e um dos artigos mais lidos da história do Acho que Acho foi (curiosamente) O Sexo na BD. Este volume 10 é mais do mesmo mas o mesmo é mesmo bom. A nossa heroína continua com problemas de auto-confiança, ainda que um dos enredos desta nova história tenha a ver com (spoiler) o ingresso numa equipa análoga à Liga da Justiça/Vingadores deste universo. Continua a tendência softcore, bondage e "all around titilating" que são as aventuras da voluptuosa e sensual personagem, toda ela um comentário à hipersexualização das mulheres na BD, mas assumindo (ironicamente ou não) esse comentário, devolvendo-nos uma exploração excitante que agarra o leitor. Outra das marcas de Warren são os diálogos entretidos, naturais e que oscilam entre uma oralidade assumida e uma verborreia intelectual e aliterativa cativante (até eu já me entrei pela hiper-adjectivação das frases). Empowered é uma mistura deliciosa entre guilty-pleasure e uma análise intelectual da BD. Não sei o que é na realidade, mas sei que adoro. 

A Última Nota de André Mateus e Filipe Duarte (Escorpião Azul)

A editora Escorpião Azul tem explorado a edição de autores portugueses desconhecidos. O ano passado deram-nos uma aventura deliciosa no Caderno da Tangerina de Rita Alfaiate, com um equilíbrio bastante interessante entre história e desenho. Recentemente, fui nova e agradavelmente surpreendido com este A Última Nota, uma exploração curiosa do mundo da música e de como nascem as lendas neste meio. A história acompanha dois amigos de infância, a aventura que têm com uma amada em comum e, anos depois, as consequências desse amor. Um deles transformou-se num ícone pop internacional, mas que procura a legitimação artística sonhada pelos músicos. Nesse demanda, irá reencontrar o amigo e reacender velhas memórias. A obra apresenta um enredo bastante interessante e entretido, com algumas reviravoltas que cativam o leitor. O desenho, apesar de conseguir algum breakdown da história fluído, apresenta falhas de técnica, sendo o elo fraco desta BD. Ainda assim, porque faço parte da escola história primeiro/imagem depois, A Última Nota revelou-se uma surpresa e uma delícia. 

Uma BD aqui, outra BD ali, 2

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Doomsday Clock número 2 de Geoff Johns e Gary Frank (DC Comics)

Esta é daquelas BDs onde os apreciadores dividem-se. Escrita por Geoff Johns e desenhada por Gary Frank, é uma assumida sequela da "maior BD de sempre", os Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons. Este tipo de genealogia leva a que seja necessária uma enorme coragem - ou um gigantesco ego -  para prosseguir com a intenção. DClock vem também na senda do conceito-chapéu do universo de super-heróis da DC, DC Rebirth, iniciado em 2016 pelo próprio Johns e que tem como intenção reabilitar a esperança e a luminosidade dos homens de collants da editora. Assim sendo, esta mini-série de 12 números junta o universo distópico e realista dos Watchmen com a fantasia dos super-heróis DC, procurando uma análise de ambos à luz de cada um deles. Se os Watchmen eram uma reflexão, entre outras, sobre o que significa o conceito de super-herói, usando, para isso, arquétipos baseados no Super-Homem, no Batman, na Mulher-Maravilha, este DClock junta a matéria prima original com os análogos para uma análise meta-textual de ambos. Vou ser claro, Geoff Johns e Gary Frank não são Moore e Gibbons e esta mini-série não parece querer trilhar a mesma complexidade temática. Não é também - e de todo - só entretenimento, seguindo uma via mais reflectida e filosófica que espelha as preocupações dos autores. Por outro lado, Johns parece querer tecer uma complexa tapeçaria para o Universo DC, o que se pode depreender pelas quatro páginas de texto de noticias que fecham este segundo capítulo. É uma ambição interessante e cativante que, se der os frutos certos, poderá transformar este DClock numa obra seminal. A qualidade global desta história será difícil de avaliar antes da última página, o que acontecerá apenas daqui a dez meses, mas estamos num excelente começo. Até lá, mal posso esperar por cada novo número do que espero ser uma obra que, não sendo os Watchmen, fique, pelo menos, na sua sombra - o que não é um mau lugar onde se estar.

Hawkman Found número 1 de Jeff Lemire e Brian Hitch (DC Comics)

Não sei qual a razão porque gosto tanto do Hawkman. Será por causa de uma BD que li há muitos anos, The Shadow War of Hawkman, ou da sequência de histórias de Geoff Johns? Exista algo na mitologia da personagem que me atrai. O arqueólogo-guerreiro, o super-herói com asas ao estilo Conan, a história de dois amantes destinados a morrerem e ressuscitarem eternamente. Eu acho que acho que isto é material de primeira para um grande filme. E para uma fabulosa BD. Fiquei com pena que Johns tivesse abandonado a sua história a meio e adorava que James Robinson (do maravilhoso Starman) o escreve-se (com Rags Morales a regressar ao desenho do herói). É daquelas personagens que a DC possui no seu catálogo e que é repetidamente mal aproveitada - leia-se, mal escrita. Pode ser que seja desta. Hawkman é peça central da saga Dark Nights - Metal, de Scott Snyder e Greg Cappulo, e este especial procura dar algumas respostas (spoiler) à última página do número quatro dessa série. Infelizmente, apesar de bem executado pelos autores, respostas não são muitas. Não é de estranhar. Snyder já repetiu que toda a história está contida nas páginas da sua série (o que me parece muito bem). Apesar de ser um número apenas razoável mas bem feito, fica a esperança de que Hawkman venha a ver melhores dias, nas mãos de autores capazes de o levar às alturas (pois, estava mesmo a pedi-las) que ele merece.

Spider-Men II números 1 a 5 de Brian Michael Bendis e Sara Pichelli (Marvel)


Esperei que tivessem saído os cinco números desta mini-série para a ler de uma assentada, o que fiz em menos de trinta minutos - acho que alguns autores e editoras exageram na síntese (não que a qualidade se meça ao metro de palavras). É a sequela de uma primeira que une as duas personagens que actualmente usam o nome de Homem-Aranha no universo da Marvel: a versão que todos conhecemos e amamos, Peter Parker; e a criada  por Bendis, Miles Morales. Miles vem de uma terra paralela que, entretanto, fundiu-se com a "nossa" (sim, super-heróis é isto). Essa outra Terra fazia parte de uma linha editorial da Marvel que começou no início do século XXI chamada Ultimate e que procurava cativar novos leitores ao reiniciar a história do Homem-Aranha, dos Vingadores, dos X-Men, do zero, com novas versões e novas histórias. O trepa-paredes foi exclusivamente escrito por Bendis (sim, desde há 17 anos). A início era uma versão de Peter Parker mas, entretanto, morreu e foi substituído por Morales. As duas terras fundiram-se no evento Secret Wars e agora coexistem no mesmo universo (agora voltem a ler isto sem se rirem). Esta mini-série parece servir vários propósitos e todos ligados ao legado de Bendis na Marvel. Independentemente de se gostar ou não, este autor marcou o século XXI da editora, com histórias, conceitos e personagens que oscilaram entre o entusiasmante e o sofrível. Dois deles foram, sem dúvida, o Homem-Aranha Ultimate e o universo onde estava inserido. Antes de sair para a DC, o escritor parece querer deixar alguma arrumação na casa e uns presentes-surpresa aqui e acolá. As últimas páginas de Spider-Men II são exactamente isso. Abre portas que se julgavam fechadas e deixa o trabalho para os que quiserem aproveitar. 

De resto, é uma união de dois personagens ímpar, num confronto pessoal mas, em última análise, redundante. Muito mais interessante é o tratamento que Bendis faz aos antagonistas, dedicando-lhes um capítulo inteiro para explicar motivações, personalidades, etc. Esses, sim, são os verdadeiros heróis desta mini-série. Quem lê e gosta da mitologia da Marvel é obrigado a ler esta história. Os outros poderão encontrar interesse nos vilões mas pouco mais.

Rapidinhas de BD - Descender vol. 1 de Jeff Lemire, Dustin Nguyen e Lex Luthor de Brian Azzarello, Lee Bermejo



A Image, editora de BD dos EUA, permanece como um dos actuais antros da melhor 9.ª Arte a nível mundial. No fundo, no fundo, segue a pegadas da DC Comics tal como esta era antes. Ou seja, uma editora que não só continua o seu trabalho de publicação de personagens mais conhecidos e "mainstream" (Invincible, The Walking Dead, Spawn, Savage Dragon), como arrisca forte em trabalhos de "autor". A DC já foi o mesmo: uma casa-mãe que publicava os melhores super-heróis do mundo e as várias imprints, das quais se destacava a Vertigo, onde escreveram-se e desenharam-se algumas das mais importantes obras da História da BD. A gigante DC está a passar por um momento de mudança de paradigma  que os fãs como eu esperam que os leve a bom porto. A Image já mudou há algum tempo e a vitória tem acontecido em (quase) todas as frentes.

Um dos novos exemplos desta vitória da Image é Descender de Lemire e Nguyen, autores habituados e trabalhar para as grandes. É a história de uma galáxia distante, de um robô-miúdo e de estranhos seres gigantescos (uma espécie de A.I. de Spielberg/Kubrick meets Eternals de Jack Kirby). Ao contrário de trabalhos anteriores de Lemire, mais esotéricos e kubrickianos (Trillium, Sweet Tooth), este Descender pende para um lado mais de entretimento com profundidade temática e dramática, mais Spielberguiano. O valor comercial desta obra não parece escapar aos autores e aos produtores de Hollywood que poderão estar a chegar a um acordo para uma adaptação à 7.ª Arte. Com certeza que perderá muito da paleta de cores e do traço do soberbo trabalho de Nguyen, que assume um lado diferente da sua arte, mais ligada à aguarela, fornecendo uma camada de ironia ao estilo dos livros de ilustração infantil. Não sendo ainda uma BD fabulosa, não deixa de estar já num patamar de qualidade confortável e merecido.

Lex Luthor de Azzarello e Bermejo é o 9.º volume da colecção da Levoir/Público e o único que ainda não tinha tido o prazer de ler no original. Faz já parte da recta final da fase da DC que eu adorava e é um de dois volumes concebidos pelos autores e dedicados aos dois maiores vilões do universo de super-heróis da editora (o outro é o Joker, também publicado pela Levoir). Azzarello tem um estilo de escrita que funciona de forma perfeita na língua original, na medida em que usa trocadilhos e subentendidos que jogam com expressões idiomáticas e duplos sentidos. Não li o original mas não tenho a sensação de perda nesta tradução. Verdade seja dita que o script do escritor, combinado com o "partir-de-página" do desenhador, demonstra trabalho profundo de colaboração, que carregam a história e a ironia de forma soberba. Ambos abordam um dos mais paradigmáticos e complexos personagens da editora não só do ponto de vista de fãs mas também mais transversal - a sequência inicial é particularmente deliciosa, pura Azzarello e pura Luthor. Sem dúvida uma grande BD numa grande colecção.

O que vou lendo! - Trillium de Jeff Lemire

Umas das mais interessantes características de alguns autores de BD que trabalham para os Comics é a sua capacidade de se adaptarem ao canto para onde o mercado os chama. Podem começar por escrever no sector independente mas depressa aparecem no radar das grandes editoras como a Marvel, a DC, a Dark Horse ou a Image. São contactados e muitos optam por escrever personagens conhecidos como o Super-Homem ou o Homem-Aranha. Com certeza que existirão criadores que preferem a exclusividade de um ou outro lado da fronteira mas, regra geral, não se coíbem de explorarem os dois países. Muitas vezes ao mesmo tempo.

É o caso do escritor/desenhista canadiano Jeff Lemire que começou a sua carreira em obras como Essex County e depressa foi "pescado" pela grande DC para trabalhar na Vertigo, onde criou livros como The Nobody ou Sweet Tooth. Contudo, não contentes na "exploração" do talento do rapaz, decidem trazê-lo para o universo dos super-heróis onde escreveu runs muito aclamadas em títulos como o Homem-Animal e Superboy. Como um bom filho à casa torna, regressou à "seriedade" e ao independente (ainda que novamente com Vertigo) deste Trillium, uma obra de ficção científica com um forte cunho pessoal. 

Num futuro distante, uma doença senciente matou a maior parte da raça humana. A humanidade vagueia pelo universo e mantêm-se em contacto com outras raças. Num planeta distante, uma cientista vê-se confrontada com o dilema: destruir um povo alienígena pelos tesouros que têm e que podem salvar o Homem ou deixar-se levar pela compaixão e esperar que o universo recompense o seu altruísmo.  Na busca de uma solução bondosa envolve-se com a dita raça alienígena, com viagens no tempo e com a natureza circular e mística do universo. Trillium  é um projeto altamente idiossincrático para Lemire , explorando nestes temas as suas crenças e filosofias, ao mesmo tempo que visita soluções narrativas pouco comuns em BD. É uma obra fantástica e incrivelmente fácil de entrar, apesar da temática complexa. O autor brinca com o formato da BD, encontrando soluções curiosas para abordar os temas que se propôs a abordar. Algo que, à partida, afastaria o leitor causal seria o tipo de traço de Lemire. Chega a ser infantil, inacabado, o que, na realidade, é parte integrante do que tenta nos contar. Mas a capacidade narrativa do autor e o controle da qualidade de diálogos e texto  afastam-nos destes preconceitos. 

Esta foi uma das boas surpresas de leituras de BD este ano. Muito recomendável.  

O que vou lendo! – Green Arrow vol. 4, The Killing Machine de Jeff lemire e Andrea Sorrentino

As críticas em relação a este volume de histórias eram boas demais para eu as descurar. Fiquei particularmente curioso quando se afirma que o que Lemire e Sorrentino estavam a fazer se assemelhava (em forma) a trabalhos iconográficos como os de Frank Miller no Demolidor. Este primeiro volume coleciona uma quantidade apreciável de números da revista mensal que conta as aventuras do famoso Oliver Queen e do seu alter-ego super-heroístico, o Green Arrow. Mas o que é que distingue estas histórias de outras para que recebam tão rasgados elogios? Na minha opinião, duas coisas: Lemire reinventa de raiz a mitologia do personagem (daí as semelhanças com Miller); Sorrentino é uma desenhista e contadora de histórias superlativa.

Nunca fui o maior apreciador do arqueiro esmeralda. Colecionei algumas das histórias mais iconográficas, como as de Mike Grell e de Kevin Smith, mas a maior parte da minha exposição ao personagem advém da participação do mesmo na Liga da Justiça e na impressionantemente boa série de TV que protagoniza (para quem não sabe, Arrow). Esta reinvenção do personagem no contexto do universo DC Novo 52 tinha acompanhado apenas na revista Justice League of America (Novo 52 é o nome que o novo universo DC tem desde que foi reiniciado do zero em 2011). Confesso que me tinha sabido a “mais do mesmo”.


O nome Lemire, por seu lado, não o afasto à partida. Respeito o trabalho deste senhor desde que li Sweet Tooth, The Nobody e a versão Novo 52 de Animal Man. Portanto, fiquei curioso quando tantos elogios eram direcionados para este novo trabalho. Foi uma bela surpresa, não tão grande quanto esperaria tendo em consideração o pedigree com que era comparado. Lemire pega em tudo o que faz o personagem e a mitologia funcionarem, destrói o supérfluo e introduz ou reintroduz temas, locais e personagens que fazem sentido à essência do mesmo. O escritor chega mesmo a introduzir elementos da série de TV sem contudo parecer “vendido”. Esta fórmula não é nova no mundo dos super-heróis mas, quando bem executada como aqui o é, funciona e reintroduz surpresa no prazer da leitura (vejam o trabalho de Jim Starlin em Warlock na década de 70, Alan Moore em Swamp Thing na de 80 e o já referido Miller). Por outro lado, existe o brilhante trabalho de Sorrentino, que constrói páginas de beleza estética e narrativa como muito dificilmente se encontra nos super-heróis. Nada aqui é convencional mas antes imbuído de fluidez narrativa e toneladas de inovação. Pitadas de surrealismo alucinogénio reforçam determinados momentos da história, ao mesmo tempo que o ambiente noir e urbano-depressivo são bem aproveitados pela desenhista para construir um quadro negro e empolgante. Em suma, leitura recomendada (ainda que não tão inovadora quanto mo venderam).