Mostrar mensagens com a etiqueta Marvel. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marvel. Mostrar todas as mensagens

Avengers Endgame dos Irmãos Russo

Escrever sobre Avengers Endgame é uma dança entre os pingos da chuva. Como é que se fala sobre um filme, que, entre outras coisas, foca-se no enredo e na surpresa, sem estragar o que quer que seja? Não se preocupem que eu vou conseguir dizer o que necessito dizer, sem que, para isso, estrague o prazer que (inevitavelmente) terão ao ir ao cinema. Resumindo... não há spoilers neste artigo.

O que é achei deste filme?

Captain Marvel (Capitão Marvel) de Anna Boden e Ryan Fleck

Desde 2008 que a Marvel tem tomado conta do cinema de entretenimento. Filme após filme, tem crescido em ambição e na construção de um universo único e coeso, que aproveita um dos elementos mais viciantes dos super-heróis, a partilha de um mesmo mundo. Agora que se aproxima o fim de um primeiro grande ciclo, com o filme Avengers Endgame, a produtora tem procurado por soluções para continuar a explorar estas personagens. Em breve, provavelmente, veremos o fim de Chris Evans como Capitão América e de Robert Downey JR como o Homem de Ferro, e há que encontrar substitutos. Para o primeiro, a Marvel escolheu explorar a Capitão Marvel, uma super-heroína na matriz de um Super-Homem. Infelizmente, o filme fica aquém do legado que quer continuar.

Uma BD aqui, outra BD ali, 29 - Quarteto Fantástico

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei.  Não são nem melhor nem pior que outras coisas.


Fantastic Four (2018) número 5 ou Fantastic Four (1961) número 650 de Dan Slott, Mike Allred, Adam Hughes e Aaron Kuder (Marvel)

Tenho um segredo para vos contar: eu adoro o Quarteto Fantástico. Quase que arrisco a dizer que é a minha equipa favorita de super-heróis. Quem me conhece e lê este Blog, sabe da minha forte inclinação para a DC. Mas o que não sabem é que comecei a ler BD graças ao Homem-Aranha e as personagens da Marvel foram, durante muitos anos, companheiros fiéis e favoritos. Um desses foi o Quarteto Fantástico, que conheci, pela primeira vez, na aventura onde conhecem os Inumanos, criada pelos eternos Stan Lee e Jack Kirby

Uma BD aqui, outra BD ali, 28 - Comics favoritos de 2018, parte 2

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei.  Não são nem melhor nem pior que outras coisas.



Também tinha de fazer uma lista dos comics que, mensalmente, número após número, mais me entusiasmam. Estes são aqueles que migram para o topo da pilha que chega todos os meses, religiosamente, da minha loja de BD. 

Não é, nem de longe nem de perto, uma tentativa de dizer que são os melhores. São aqueles que são escolhidos pelo meu gosto e pelas minhas manias e que, ainda assim, destacam-se de todos os restantes dessa pilha. Notem que há muito DC (nesta segunda parte há uma excepção), pela simples razão que é a editora que mais leio neste formato.

Hoje publicamos a segunda e última parte.

Ant-Man and the Wasp (Homem-Formiga e a Vespa) de Peyton Reed

Os estúdios cinematográficos da Marvel continuam a afirmar-se, ano após ano e lançamento após lançamento, como a maior força produtiva do Cinema vindo de Hollywood - o que, por definição, a transforma na maior do mundo. O que começou há 10 anos, cresceu ao ponto de transformar-se na bitola segundo a qual todos os aspirantes a Reis de Bilheteira se regem. A sua influência é gigante e omnipresente. Quem diria que um grupo muito pequeno de geeks da BD da década de 60 daria origem a este monstro financeiro que gera receitas raramente vistas? O irónico é que é a imaginação desses geeks ou daqueles que se sentiram inspirados (também) por eles que controlam a indústria cinematográfica dos EUA nesta primeira metade do século XXI. Não se esqueçam do Avatar de James Cameron, ou do Star Wars de George Lucas.

Uma BD aqui, outra BD ali, 23 - Homem-Aranha



Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! É um prazer que rezo para nunca acabar. De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei. Só isso: gostado. Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

Amazing Spider-Man (2018) número 1 de Nick Spencer, Ryan Ottley e Humberto Ramos (Marvel)


Dez anos é muito tempo. E é um sinal da idade quando parecem ter passado apenas metade deles. O escritor Dan Slott guiou os destinos da trupe do Trepador de Paredes durante uma década, marcando a personagem e, mais importante, uma geração de leitores, que se habituou à sua versão e apenas à sua versão. Alguns de nós que andam nestas andanças das leituras de BD há mais tempo têm outras visões - não somos nem melhores nem piores, somos apenas mais velhos. 

Uma BD aqui, outra BD ali, 20

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! É um prazer que rezo para nunca acabar. De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei. Só isso: gostado. Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

Justice League: No Justice números 1 a 4 de vários (DC Comics) e Amazing Spider-Man número 800 de vários (Marvel)


Os leitores de BD debatem-se com a questão do que é mais importante: a escrita ou o desenho. É uma variação do que é melhor para a pizza: a massa ou o que vai para cima dela. Este debate leva a situações interessantes, como o facto de na França o nome do desenhador aparecer primeiro que o do escritor e nos EUA ser o contrário.

Uma BD aqui, outra BD ali, 19

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! É um prazer que rezo para nunca acabar. De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei. Só isso: gostado. Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

The Terrifics número 4 de Jeff Lemire e Evan "Doc" Shaner (DC Comics)

O conceito por detrás deste The Terrifics é familiar para os fãs de BD. São uma muito pouco discreta homenagem (ou plágio, ou cópia) do Quarteto Fantástico da Marvel.

Filmes favoritos baseados em BDs (parte 1 de 2)

Esta é uma lista pessoal, como não poderia deixar de ser. Misturam-se inclinações, preferências, uma pitada de coração, algum cérebro e, acima de tudo, a vontade de os querer rever sempre. Seguem em baixo, por ordem alfabética.

Podem consultar aqui uma lista de todos os filmes, passados e futuros, baseados em BD. Escusado será dizer que vi apenas uma pequena parcela deles.

300 de Zack Snyder (2006)

Zack Snyder é um dos realizadores mais polarizadores para os fãs de BD. Existem os que odeiam o seu trabalho e outros (como eu) que gostam da forma com que trabalha personagens e livros da 9.ª Arte.

Deadpool 2 de David Leitch

O segundo pode ser sempre o mais difícil. Principalmente depois de um primeiro filme sensação. Deadpool foi uma das surpresas do ano de 2016, maioritariamente para quem não conhecia a personagem. Quem já a lia na BD sabia perfeitamente no que se estava a meter. A Fox estava fora de si quando deixou os autores fazerem o que quisessem num  tipo de filme que, até então, era reservado aos jovens adultos e ao entretenimento familiar: o filme de super-heróis. Ou estavam distraídos, desesperados ou as duas coisas, porque o que saiu foi super-divertido, adulto e cheio de piadas para maiores de 18. Em suma, uma lufada de ar fresco. Ryan Reynolds fazia jus à sua pretensão de fazer o Deadpool que sempre quis e que precisava de ser feito (não aquela coisa abominável que apareceu no filme do Wolverine). Deadpool 2 é mais do mesmo, com uma escala maior, mais dinheiro, alguma repetição e muitas surpresas (alguma devastadoras e outras hilariantes).

Obviamente que o que funcionava bem no anterior é repetido neste, o que acaba por desgastar o entretenimento. Contudo, graças ao carisma das personagens e principalmente ao Deadpool de Reynolds, a história segue de forma frenética e divertida, entre momentos de acção e de piadas. O humor é puxado para cima, distribuindo oneliners e zingers a torto e a direito. Ninguém escapa ileso e a DC Comics, a distinta concorrência da Marvel, é alvo de quatro piadas (uma que já conhecem dos trailers e mais umas quantas, todas deliciosas - e eu sou um maior fã da DC que da Marvel). Conseguem-se alguns momentos inusitados que funcionam no contexto da história e do estilo do filme. Um deles envolve a equipa que Deadpool reúne, a X-Force, e que consegue ser um dos mais divertidos. 

O enredo é mais sólido e convincente que o do primeiro, com um terceiro acto mais interessante, provando que conseguiram fazer melhor uso do dinheiro disponível. Regressam todos os que participaram na versão anterior:  Colossus; a fabulosa Negasonic Teenage Warhead (mas ainda assim, pouco utilizada) Morena Baccarin; etc; e são adicionados novos bonecos como Cable, Domino, Yukio e surpresas que não quero estragar. 

Para os fãs da BD, existem easter eggs espalhados amiúde: referências directas a BDs; personagens que já era altura de aparecerem no grande ecrã; uma referência deliciosa ao criador do Deadpool, Cable e Domino, Rob Liefeld; e muito mais. A cena pós-créditos é uma das mais hilariantes de toda a história do cinema de super-heróis (provavelmente a melhor, ainda que seja necessário algum conhecimento para estar dentro da piada). 

Contudo, nem tudo são rosas. O efeito novidade desaparece um pouco e, tirando alguns momentos chave, essa sensação de repetição acontece por todo o filme. Cable acaba por ser uni-dimensional, o que é uma pena, isto depois de Josh Brolin nos ter dado um maravilhoso Thanos. A acção, quando apenas isso, é, regra geral, sem virtuosismo, mas quando misturada com o humor de assinatura Deadpool, melhora significativamente. Apesar de tudo isso, é um filme entretido, divertido e que continua a ser uma lufada de ar fresco. Venham a X-Force e um terceiro Deadpool.

Uma BD aqui, outra BD ali, 17

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! É um prazer que rezo para nunca acabar. De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei. Só isso: gostado. Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

Avengers (2018) número 1 (ou 691) de Jason Aaron e Ed McGuiness (Marvel)

Jason Aaron tem construído a sua fama de forma calma e decidida. Deu-se a conhecer com o excelente Scalped da DC/Vertigo e foi invertendo para os super-heróis sem descurar a veia mais "independente". Na Marvel, continuou com uma inclinação que oscilava entre o humorístico soft de Wolverine & The X-Men, o másculo do Wolverine ou o divino cósmico do Thor. Este último abriu-lhe as portas do universo mais mainstream dos super-heróis da editora e, especificamente, o dos Vingadores, que estreia a escrever neste primeiro número de uma nova versão da revista da equipa.

Ed McGuiness é o desenhista que mistura influências mangá, cartoonescas e épicas e que tão bem lhe serviram no Deadpool, no Hulk ou no Super-Homem. É capaz de desenhar a "grandiloquência colossal" de forma divertida e entusiasmante, com um traço carnavalesco e hiperbólico tão bem adaptado à ópera cósmica que (também) são os super-heróis e, especificamente, os Vingadores da Marvel.

Ora, estes dois talentos começaram a trabalhar na mais famosa equipa da BD. O resultado só poderia ser o esperado: bom, muito bom. Escolhem seguir o caminho do cósmico e do divino, sendo diferente de outros autores como Bendis (que preferia os seus Vingadores mais terra-a-terra) e parecido ao de Jonathan Hickman. Por outro lado, não se esquecem que estão numa revista da Marvel, em que as personagens principais podem não dar-se particularmente  bem, como é ilustrado na conversa da trindade que são o Capitão América, o Thor e o Homem de Ferro. Estes são três amigos com marcadas diferenças de opinião (exacerbadas, é verdade, nos últimos 20 anos) e que, ainda assim, encontram suficientes pontos em comum para juntarem-se e enfrentar perigos e adversários cuja escala é impensável para a maior parte dos colegas de profissão. Sim, os Vingadores são a Liga da Justiça da Marvel.

Aaron e McGuiness conseguem, ao mesmo tempo, transmitir a enormidade da ameaça e a dinâmica entre as personalidades. O que poderia perder-se no cósmico incompreensível é antes alicerçado pela familiaridade de quem se parece connosco e com os nossos amigos. Esta capacidade é equilibrada pelos textos e diálogos do primeiro e pela destreza do desenho maior-que-a-vida-mas-cartoonesco do segundo. Nos dias de hoje, em que, infelizmente, o desenhista raramente consegue aguentar mais que seis números seguidos, há que aproveitar esta oportunidade e nos deliciarmos num espectáculo ainda maior que o que aparece nas salas de cinema. 

Avengers Infinity War (Vingadores: Guerra do Infinito) dos Irmãos Russo


O que começa tem de acabar. O primeiro grande arco de história do universo cinematográfico da Marvel chega ao fim neste Vingadores: Guerra do Infinito. O vilão, que apareceu, pela primeira vez, misterioso, no final do primeiro filme deste grupo de heróis, e depois em mais alguns momentos escolhidos, finalmente é revelado em toda a sua magnífica e terrível presença. Thanos, o titã louco, irá tentar reunir todas as seis jóias do infinito, objectos omnipotentes e omniscientes, e transformar-se em Deus. E, com isso, dizimar metade da vida consciente do universo.

Repararam que não fiz alusão aos personagens titulares? Os Vingadores são, claro, os heróis, mas é Thanos a estrela do filme, é dele a motivação e a tragédia, é ele o motor e o objectivo da narrativa. Depois de Loki, depois de Killmonger, a Marvel apresenta um novo vilão digno desse nome. Thanos é multifacetado e tridimensional. Thanos é compelido por uma missão terrível e de racionalidade abjecta. Thanos não é uma colecção de diálogos generalistas de demonstração de poder e sobranceria, mas antes o reflexo de uma personalidade complicada e capaz, até mesmo, de amar. Thanos é um dos melhores antagonistas da cultura pop, transformado em realidade pela magia da 7.ª Arte. Digo-o aqui já: Darth Vader tem um rival na História do Cinema.

Um filme desta envergadura, complexidade e expectativa poderia ter corrido muito mal. O número de personagens é gigantesco, as interacções múltiplas, a luta por atenção feroz e o enredo pesado. Contudo, depois de passarmos 11 anos a conhecer estas versões cinematográficas dos super-heróis da Marvel, estamos mais do que preparados para os absorver sem grandes explicações e com total familiaridade. A editora/produtora dos EUA fez um extraordinário trabalho de construir um universo coerente, de entretenimento e puro abandono. Entramos nesta geografia cósmica com os olhos de quem quer esquecer-se do real e mergulhar na fantasia.

Obviamente que a realização não é de autor, nem pretende ser. O espaço é todo dado ao enredo, à história e às personagens. É através delas que absorvemos a fantasia escabrosa que é o universo dos super-heróis, maior que a vida e de uma escala quase divina. A assinatura do estilo Marvel está em todo o lado e principalmente na picardia entre as diferentes personalidades (egos?), uma das marcas de água da editora, quando foi criada por Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko na década de 60. Estes heróis não  têm de, necessariamente, dar-se bem. Existem confrontos de personalidade a cada virar de esquina espacial. E assim é que tem graça.

O divertimento cinematográfico de super-heróis não está morto, bem pelo contrário, muito para o desapontamento de alguns críticos, realizadores e afins. 

Uma BD aqui, outra BD ali, 16

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Amazing Spider-Man número 799 de Dan Slott e Stuart Immonen (Marvel)

O caminho inexorável para mais um histórico número do Homem-Aranha continua. Dan Slott, que escreve a personagem há 10 anos, está na recta final deste seu canto do cisne, Go Down Swinging. Neste (e a partir de aqui há spoilers), Peter Parker enfrenta o seu maior adversário, Norman Osborn, o Duende Verde. Esta é uma inimizade antiga, que já deu fruto a enormes tragédias, a maior das quais a morte de uma das namoradas do herói. O conflito tem sido explorado até às últimas consequências, ou assim o pensávamos.  Slott concebeu uma nova perspectiva ao aumentar o já significativo nível de ameaça que Osborn representa. O escritor fundiu-o a um outro vilão, o alienígena Carnage, um parasita de forma viscosa e tendências (ultra) psicopatas. Assim nasceu Red Goblin, cem vezes mais louco que o Duende Verde e 1000 vezes mais mortífero. Uma máquina de matar sem remorsos e perto do imbatível.

O nível de perigo foi apropriadamente aumentado para níveis ridículos. O vilão é invencível e maníaco, sabe a identidade secreta do nosso herói e a combinação destes dois factos só pode significar uma gigantesca dor de cabeça para o Homem-Aranha, que terá de fazer das tripas coração para salvar os seus e a própria pele. 

Como já o disse nesta rubrica, Slott está a recuperar de um certo e determinado arrufo que havia provocado com alguns fãs. O Homem-Aranha de Go Down Swinging é O Homem-Aranha. Colocado numa situação desesperada, Peter Parker evoca todas os seus recursos, não só como super-herói mas também como cientista e indivíduo. Ao mesmo tempo, o vilão, mais poderoso fisicamente, é uma espada de Damocles prestes a cair no mundo pessoal do herói, evocando tragédias passadas e preparando os leitores para uma possível nova. Sinceramente, não se deveria pedir muito mais de uma história do Aranhiço.

Action Comics número 1000 de vários (DC Comics)

Oitenta. É este o número de anos que acumularam-se desde que o Super-Homem viu, pela primeira vez, a luz do dia em 1938. É ele o arquétipo-base de todo um estilo literário. É ele o molde do qual nasceram todos os outros. Até o Batman

Ontem, a revista que o viu nascer atingiu o histórico número 1000, a primeira de toda a BD americana a chegar a esse histórico marco. Um momento tão importante teria de ser aproveitado de forma exemplar e única. Foram vários os artistas convidados para criar pequenas homenagens ao maior de todos os super-heróis. Todos trouxeram o melhor das suas habilidades para produzir pequenos elogios ao Homem de Aço. Como não poderia deixar de ser, o produto final depende da inspiração e do talento.

Tom King destaca-se. O escritor de títulos lendários como Batman, Mr. Miracle ou Vision consegue, uma vez mais, retirar da cartola um sentido e emocional elogio, desta vez ao Super-Homem. Coloca-o no futuro longínquo, nos últimos dias da Terra, para que deseje um último adeus a quem deu-lhe tudo o que ele é. King percebe, nestas simples cinco páginas tudo o que faz esta personagem: um homem, apenas um homem, com os poderes de um deus. 

Outros conseguem obras também relevantes, como a já costumeira parelha Tomasi/Gleason, que transportam o nosso herói para múltiplas evoluções de si mesmo. Ou Scott Snyder e Rafael Albuquerque, que escolhem focar-se na inimizade com Lex Luthor, o seu maior adversário. Também Paul Dini e o maravilhoso José Luis Garcia-Lopez fazem uma homenagem através de um outro dos vilões históricos do Super, ao ponto de parecer estarmos a ler uma história escrita por Alan Moore. Meltzer e Cassaday são parcimoniosos, e abordam os incríveis poderes desta personagem maior que a vida. 

Muitos outros juntaram-se à festa, mas, antes de terminar, terei de destacar a inauguração da sequência de histórias de Brian Michael Bendis, que aqui é acompanhado por Jim Lee no desenho. Bendis é quem escreverá o Homem de Aço no futuro próximo e a DC tem feito bastante questão de o publicitar aos quatro ventos. É ainda cedo para qualquer julgamento, nem que seja porque muito pouco é esclarecido. A descompressão e diálogos típicos do escritor estão lá e, claro, uma revelação bombástica (que de bombástico tem muito pouco porque já tinha sido revelada na net). Os fãs do Super-Homem querem que continue a ser o que ele foi neste últimos 80 anos. Seja bem-vindo Sr. Bendis e que nos dê o que de melhor o Homem de Aço é capaz. 

Uma BD aqui, outra BD ali, 15

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Immortal Men número 1 de James Tynion IV, Jim Lee e Ryan Benjamin (DC Comics)

Depois da mini-série Dark Nights: Metal, a DC Comics decidiu apostar num conceito inovador. As duas grandes editoras dos EUA têm sofrido, de algumas décadas a esta parte, de um grave problema: raramente apostam em novas criações. Devido à política de direitos exercidos sobre conceitos que habitam os universos partilhados de super-heróis, muitos autores não têm vantagem em fornecer boas ideias, quando não são eles a lucrar com elas. Depois de exemplos como Siegel e Shuster, os criadores do Super-Homem, ou de Jack Kirby, uma das mentes que originou a BD nos EUA, é normal que os seus herdeiros artísticos refugiem o melhor da imaginação no domínio do privado. 

Esperemos que algo se tenha modificado neste contexto para que tantas novas personagens aparecessem na DC - ainda que exista algo de estranhamente familiar nelas. Já falei aqui do The Terrifics, ou aqui de Damage. Ambos são homenagens mal disfarçadas ao Quarteto FantásticoHulk, respectivamente, e estes Immortal Men, ainda que tangencialmente, fazem lembrar os X-Men (estes também já eram inspirados na Doom Patrol da DC, portanto "ladrão que rouba a ladrão"...). Ainda assim, o conceito por detrás deste grupo aborda ideias já antigas intrínsecas à DC, como o Immortal Man, o Vandal Savage, etc., mas com uma maior abrangência tentacular na História Secreta do Universo. Tynion cria novas ideias e novas personagens e alicerça-as numa luta que dura há milénios no interstício escondido do mundo. O resultado é divertido q.b., ainda que denso, dificultando um pouco o entretenimento. Teremos de esperar pelos números que se seguem mas, do que aqui é mostrado, e tendo em consideração o trabalho do escritor na revista Detective Comics, estou disposto a dar o benefício da dúvida.

Um dos selling points desta nova leva de revistas pós-Dark Nights:Metal era a aposta nos desenhistas. Seriam o centro das atenções. A eles seria seria dada carta de alforria para descarrilar a imaginação. Neste Immortal Men a tarefa cabe ao lendário Jim Lee. Acontece que ele desenha apenas parte do título, partilhando muitas páginas com Ryan Benjamin, que não tem o mesmo talento. Depois de tanto alarido, parece que as promessas da DC caíram em saco roto, o que, infelizmente, não fornece muita confiança no produto e no seu futuro. Provavelmente, será melhor confiar no escritor, já que estes artistas não são, de todo, Jack Kirby.

Captain America número 700 de Mark Waid e Chris Samnee (Marvel)

Infelizmente, está a chegar ao fim a terceira leva de histórias do escritor Mark Waid para o Capitão As duas primeiras têm já quase 20 anos e eram, na opinião deste fã, do melhor que foi produzido para o Sentinela da Liberdade. Waid tem inclinação para escrever super-heróis à moda antiga, não só porque é um uber-geek com talento, mas também porque possui um optimismo vincado e militante (leiam o seu Kingdom Come, por exemplo). Os seus homens de collants são bastiões de bondade e de verdade, constantemente na luta pelo que é Bom e Belo - percebem porque escrevi super-heróis à antiga?

Esta terceira tentativa não é diferente. 

Waid recorre a um dos mais antigos e usados clichés da BD: o distópico futuro alternativo (inaugurado no essencial X-Men: Days of Future Past dos lendários Claremont e Byrne). Sobre este faz uma pequena modificação, usada para analisar a personalidade daquela que é repetida e injustamente considerada como a personagem mais canastrona da Marvel (muito à semelhança do que acham ser o Super-Homem). A história segue à velocidade de um Tintin de Hergé, com rapidez de acção e determinação no enredo, não desviando-se do propósito que é seu desde o início: descrever quem é o Capitão América.

Auxiliado pela linha clássica e clara de Samnee, temos em mãos uma saga que poderá vir a figurar no melhor que já foi feito sobre a personagem e que ficará bem na prateleira numa edição Deluxe. Aliás, declaro minha esta previsão e este pedido: façam um filme desta história, quem sabe até um último hino de Chris Evans, se convencido a ficar ou se sobreviver à Infinity War - que estreia nos cinemas no próximo dia 25 de Abri.

Uma BD aqui, outra BD ali, 14

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Action Comics número 999 de Dan Jurgens e Will Conrad (DC Comics)

Às portas do histórico número 1000 da mais antiga revista de super-heróis do mundo, aquela onde, em 1938, nasceu a mais importante personagem desse estilo, Dan Jurgens, também ele um histórico escritor e desenhista do Homem de Aço, oferece-nos uma coda para a sua segunda sequência de histórias com o Super-Homem. Ainda haverá um especial, mas este número tem um sabor diferente, um sabor a fim.

Jurgens é conhecido mais pelo seu trabalho que pelo nome. No número 75 da versão da revista do Super da altura (1992), foi o responsável pela mediática morte do maior de todos os super-heróis - fez capa do jornal O Público, entre outros. Bastou isso para entrar no panteão dos grandes que trabalharam no Homem de Aço. Regressou recentemente (em 2016) e parecia voltar a algumas velhas histórias e conceitos da sequência de histórias da década de 90. E se havia algumas dúvidas, este número 999 dissipou-as a todas.

O autor escreve uma carta de adeus disfarçada de enredo gordo: um vilão que ajudou a criar encontra um tipo de redenção; Lois Lane confronta-se filosoficamente com o pai; e o Super-Homem prova porque ser bondoso nunca deveria sair de moda. Não é um prodígio de escrita (Jurgens nunca almejou a essas alturas), mas funciona como uma forma elegante de despedir-se de uma personagem cuja História ajudou a escrever. Esta sequência teve muitos altos e baixos e, de uma forma geral, nunca excedeu o mediano. Contudo, o número 999 é surpreendentemente bom e um tributo elegante à verdadeira mensagem do Homem de Aço.

Amazing Spider-Man número 798 de Dan Slott e Stuart Immonen (Marvel)


A frase "just when I thought I was out... they pull me back in" é apropriada. A mais recente fase de Slott no Aranha não era do meu agrado (depois de 10 anos consecutivos a escrevê-lo). Peter era um homem de negócios de sucesso, o seu uniforme um prodígio tecnológico. Em suma, uma versão do Homem de Ferro. Não era o Trepador com que cresci, o de Lee/Ditko, de Lee/Romita, de Wein/Andru. Um Peter com problemas de dinheiro, cujo uniforme por vezes tresandava ou tinha de ser remendado. Os vilões eram mais que antagonistas, eram ameaças à sua vida pessoal, aos seus amigos, às suas namoradas (uma delas morre nas mãos do seu pior adversário, o Duende Verde). A vida de super-herói do Homem-Aranha era o oposto de glamorosa. No piadas que usava para lidar com os temíveis inimigos escondia-se um sofrimento e uma tragédia prestes a acontecer. A vida de Peter parecia estar sempre a um segundo de descambar numa irremediável hecatombe. E quando esta acontecia (e aconteceu várias vezes) a força dos seus princípios e do seu carácter impulsionavam-no a lutar mais um segundo com aquela réstia de força que afinal ainda tinha. Peter era o homem comum que sobrevive a tudo. Essa é e sempre será a verdadeira força do Homem-Aranha, provavelmente a melhor criação da Marvel.

Slott estava a guardar esta última saga para o final. É verdade que já tinha dado provas de que sabia lidar com a personagem mas, no que a mim diz respeito, parou de o fazer antes do Dr. Octopus tomar conta do corpo do Aranhiço (não que tenha sido uma fase que desgoste totalmente). O escritor escolhe focar o confronto entre Peter e o seu maior inimigo, Norman Osborn, o Duende Verde, que, nesta história, foi transformado numa ameaça ainda maior. Provavelmente a maior parte de vós já sabe do que se trata, mas não irei aqui estragar a surpresa a quem não navega sofregamente pelos sites de fãs de comics. A ideia por detrás desta ameaça é particularmente criativa e cria a expectativa de um confronto aterrador (a revelação da dita ameaça deixa o herói sem palavras, ou melhor, com umas poucas mas coloridas). Ao mesmo tempo, paira sobre a sua família e amigos um manto de tragédia. Digamos que deveremos esperar o pior do histórico número 800. Como já perceberam é assim que, para este vosso fã, se escreve uma história do Homem-Aranha.

Rapidinhas de BD - Astro City vol. 14 e Thor By Jason Aaron & Russell Dauterman Vol. 2

A parceira de Kurt Busiek, Brent Anderson e Alex Ross na série Astro City dura há 20 anos, sem sinais de abrandar na qualidade e produtividade. Começaram na editora Image e na label de Jim Lee, a Wildstorm, mas desde então passaram para a DC Comics, quando esta adquiriu a primeira. Ultimamente têm sido publicados debaixo do selo da lendária Vertigo, ainda que a temática e a abordagem nada tenham a ver com a inclinação sobrenatural e com o terror sofisticado que classificaram esta durante mais de duas décadas.

Astro City é um mundo de super-heróis inteiramente concebido pelos autores, com o propósito de comentário meta-textual ao original da Marvel e da DC. Por outro lado, procuram a perspectiva do man on the street, do comum mortal, ainda que essa visão seja menos presente nos volumes mais recentes. Agora também procuram outros pontos de vista, desde vilões a seres extra-terrestres, passando, claro, pelos heróis propriamente ditos. Interessa aos autores a visão sobre eventos que são lugar comum na mitologia dos super-heróis. Kurt Busiek, o escritor, é um assumido geek destes universos e faz bom uso dessa inclinação, ao explorar de forma inventiva cada pormenor que passaria de outra forma despercebido nas histórias das duas grandes.

Neste 14.º volume não abranda este olhar clínico e inventivo, ao focar-se em seres que ajudam um ditador extra-dimensional na batalha contra análogos do Quarteto Fantástico, num casal de ex-vilões, agora com uma relação mais saudável com a Lei, e no também análogo do Super-Homem - esta última como comemoração dos 20 anos de publicação. Todas estas histórias enriquecem de forma independente a rica tapeçaria deste mundo criado do zero, que continua a ser uma das mais cativantes visitas a universos de fantasia. 

Entretanto, os autores já noticiaram a desistência da publicação mensal clássica para focarem-se em livros de contagem de páginas mais extensas ao estilo europeu.

A Marvel, do ponto de vista criativo, não anda a ter os seus melhores dias. Ainda assim, existem equipas que seguem a nobre tradição de clássicos como Lee/Kirby, Lee/Ditko, Claremont/Byrne, Simonson, etc. Jason Aaron no Thor é uma delas. Primeiro trabalhou com Esad Ribic e agora com Russell Dauterman, para produzir aquela que considero a mais interessante publicação mensal desta editora. Parece que a Marvel sabe disso e tem lançado estas edições formato grande a que chama Deluxe e que coleccionam, em média, cerca de 12 números da revista mensal. Valem a pena o preço e a (longa) espera entre volumes. É neste formato que as aventuras mitológicas da agora versão feminina do Deus do Trovão devem ser apreciadas. Num palco cósmico de grandiosidade épica.

Aaron mistura o mundo empresarial do mundo real com a mitologia Viking para criar ameaças ao mesmo tempo credíveis e fantasiosas. Concebe diálogos ricos que desenvolvem as personalidades dos protagonistas e que avançam a narrativa de forma sempre entretida. Constrói personalidades que vão para lá dos estereótipos e da bidimensionalidade a que estávamos habituados ao longo de décadas no Thor da Marvel (não sempre, claro, mas de forma recorrente). Acima de tudo, cria uma leitura que não conseguimos largar de tão entusiasmante que é. O único defeito que aponto é a velocidade com que queremos ler já o próximo volume - e nem noticia de para quando o seu lançamento.

Entretanto, a G.Floy publicou o volume que se segue ao lançado há uns anos pela Panini (infelizmente, os portugueses nunca verão a conclusão do Chacinador de Deuses) e a Goody irá, em breve, começar a fase da Thor versão feminina. 

Uma BD aqui, outra BD ali, 12

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Amazing Spider-Man número 797 de Dan Slott e Stuart Immonen (Marvel)

(com spoilers de números anteriores)

É por causa do Homem-Aranha que estou aqui. É por causa dele que escrevo sobre BD. É por causa dele que amo BD. 

Começou há quase 40 anos e não parou desde então. O meu apego à personagem é grande e é sempre com um peso no coração (que não deveria existir porque estamos a falar de alguém que não é real) que vejo quando os autores o desviam da essência do que eu acho que é uma história do Trepador de Paredes. Eu acompanhei a histórica sequência do escritor Dan Slott desde o seu começo, há 10 anos atrás. Parei quando decidiu transformar Peter Parker num CEO de sucesso, dono de uma empresa multinacional. Se calhar não deveria ter abandonado, mas tentei regressar pelo menos uma vez e as narrativas não me entusiasmaram (no fundo era só isso e existem tantas outras onde gastar dinheiro). Entretanto, aproxima-se o fim do trabalho de Slott no Aranha - irá acontecer no número 800 da revista Amazing Spider-Man (que leio desde o 157, versão portuguesa). Soube que Peter Parker já não era um CEO, que voltou a ter problemas de dinheiro e que o seu pior inimigo, Norman Osborn, fundiu-se com o maior psicopata da galeria de vilões do herói: Carnage. O meu interesse foi espicaçado para esta última grande celebração de Slott chamada Go Down Swinging, composta por quatro partes e que aparenta ser um clássico instantâneo.

Slott toca na perfeição todas as notas que escrevem uma boa história do Homem-Aranha. Uma ameaça, pessoal, tenebrosa e poderosa, espera nas sombras para cair sobre o seu mundo e sobre as pessoas que ama. Essa ameaça é Norman Orborn e Carnage, juntos numa entidade chamada Red Goblin. Sabemos que alguém poderá morrer no final destes quatro capítulos e a tensão desse medo é palpável. Sabemos que a resiliência de Peter Parker o ajudará, mas a tragédia é sempre uma constante espada de Damocles sobre a sua cabeça. Que mais é que o mundo colocará no seu caminho, depois de já tanta desgraça? Será que poderemos esperar por um pequeno, minúsculo, final feliz? Neste momento, é impossível saber. Apesar de as histórias de super-heróis serem conhecidas pela morte não ser definitiva, ainda assim somos arrastados pela tensão.

É com antecipação que leio esta última história de Slott (ou penúltima, já que haverá ainda uma no número 801). É com antecipação que quero que seja uma merecedora coda.

Savage Dragon número 232 de Erik Larsen (Image)

Provavelmente, um dia, Savage Dragon (SD) será a mais longa sequência de histórias de BD escritas e desenhadas de forma ininterrupta pelo mesmo autor. Esse título (penso) cabe a Dave Sim com o seu Cerebus, que durou 300 números.  SD não pretende atingir os níveis de intelectualismo (ou pedantismo, por vezes confundem-se) que esta última obra independente assumiu querer. Larsen deseja apenas uma BD entretida, hiperbólica, com muitas mamas, sexo, acção super-heroísta escabrosa e twists a torto e a direito. O estilo é o mesmo desde a primeira página do primeiro número da mini-série original e, fora um decréscimo de detalhe no desenho, assim tem sido há mais de 25 anos.

Um dos pormenores interessantes é que 25 anos no nosso mundo são também 25 anos na BD. As personagens envelheceram, casaram, tiveram filhos. Os filhos casaram e tiveram eles também filhos. No meio disso tudo existem os vilões e, ao contrário do que é costumeiro nos super-heróis, a morte tem o péssimo hábito de ser definitiva. Existe o "perigo real" de o leitor afeiçoar-se a uma personagem que Larsen, num assomo de fúria, mata no segundo a seguir - literalmente, já que a velocidade, crueza e surpresa dos acontecimentos é uma das marcas do seu SD. Convém vir preparado com um desfibrilador.

Neste número 232 continuamos a oscilar entre cenas da vida conjugal do filho do Dragon original, ele próprio com mulher e três filhos a viver em Toronto, uma dimensão paralela onde acompanhamos a mãe deste filho, agora uma vilã, e mais uns enredos paralelos. Tudo feito com a assinatura narrativa que descrevi acima. Tudo feito de forma divertida, descontraída e de leitura rápida (talvez rápida demais, isto será melhor em TPB). Em suma, uns cinco minutos bem passados ao custo de 3,99 dólares (pouco menos de 5€ numa loja portuguesa). A história acaba com dois twists interessantes que só fazem desejar pelo próximo mês. A ver onde isto vai dar!

Rapidinhas de BD - Robôs também irão ser humanos: Vision e Battle Angel Alita: The Last Order vol. 1


(NOTA de blogger - Antes de mais nada, calma. Os puristas que se acalmem que eu sei que o Visão dos Vingadores da Marvel é um sintozóide e a Alita/Gally de Yukito Kishiro é uma ciborgue)

O que é ser humano? Esta pergunta parece fácil de responder. Para todos nós bastaria olhar para o espelho. Mas será suficiente? A Religião, a Filosofia, a Ciência e a Literatura todos os dias tentam responder. Elaborar e complexificar a resposta, a solução, a verdade. Mas ao virar da esquina está o advento da inteligência artificial (IA). O que acontecerá a partir daí? A resposta será assim tão menos complicada? Bastará continuar a olhar apenas para o espelho? Ou, seguindo a via cartesiana, bastará pensar para existir?

A Literatura primeiro e o Cinema depois têm sido profícuas em narrativas acerca de IA. Nomes como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Stanislaw Lem, Philip K. Dick, Stanley Kubrick, Ridley Scott, Alex Garland, Denis Villeneuve, etc, têm explorado de forma inventiva e filosófica as implicações do aparecimento do pensamento robótico. Como não poderia deixar de ser, a Banda Desenhada tem seguido um caminho similar, que oscila entre o existencial e o entretenimento ou, ainda, uma mistura dos dois. Eis então que surgem estes dois exemplares: Vision de Tom King Gabriel Hernandez Walta e Battle Angel Alita: The Last Order Omnibus vol. 1 de Yukito Kishiro

Visão é um sintozóide criado na década de 60 por Roy Thomas e John Buscema, sendo, a início, antagonista dos Vingadores, que acaba por transformar-se, logo na primeira história, num dos seus mais relevantes membros. Muitas das narrativas à sua volta tinham a ver com a óbvia dualidade de ser uma forma de vida artificial com pensamentos (e sentimentos) muito humanos. Nesse balançar, vários autores encontraram ouro para minar, resultando em variadíssimas histórias, dentre as quais uma delas resultava no casamento da personagem com a Feiticeira Escarlate, humana. Tom King vai mais longe e planta na alma cibernética do Visão a necessidade de ter uma vida ao estilo Norman Rockwell. Para isso cria uma família (já divorciado da Feiticeira - não vou elaborar porquê). O que segue é, nas mãos inspiradas de King, uma reflexão existencialista do que significa "ser um humano". O escritor recorre não tanto a solilóquios verborreicos (leia-se, a personagem falar pelos cotovelos de forma teatral), mas antes a pequenas acções, que somadas revelam a verdadeira alma das personagens. No início do quarto capítulo, por exemplo, possui um dos momentos mais belos da BD moderna, com uma subtil e arquitectada ligação entre uma conhecida cena da cultura popular, a revelação de personalidade das personagens e um comentário à pergunta maior desta obra. O final segue de forma brilhante os trâmites da tragédia clássica, escolhendo antes a inteligência e a emotividade do leitor para que ele descortine o climáx da história. Visão é uma das mais cativantes leituras dos últimos anos e um dos melhores livros que li na vida. Quase que afirmo que temos aqui os Watchmen da Marvel (em breve será editado em Portugal pela Goody).

Battle Angel Alita: The Last Order é a continuação da primeira "temporada" desta conhecida Mangá, marco da BD e do ciberpunk (já falei neste link da primeira temporada). Neste ano da adaptação para o Cinema nas mãos de James Cameron e Robert Rodriguez, decidi revisitar a leitura desta obra, que tinha iniciado na década de 90. The Last Order retoma onde a anterior história havia acabado e expande o universo e o alcance da mensagem de Gunnm (o nome original japonês da obra). Yukito Kishiro prova que, mesmo passados 20 anos, o mundo actual está ainda a apanhar a sua visão distópica e reflectida do mundo tecnológico que continua a ser construído. Os seus conceitos são tão poderosos que muitas obras ainda minam a inspiração que suscita (a recente série Carbono Alterado da Netflix parece dever também muito a Gunnm). No meio de vertiginosa e (muito) violenta acção, o autor japonês reflecte, uma vez mais, sobre o que significa essa coisa de ser um homem. Será o corpo ou a mente que nos torna mais reais? Será a combinação dos dois? Serão as nossas memórias? O verdadeiramente interessante é a assustadora previsão do que o futuro poderá ser, se não controlarmos o fascínio que temos pela tecnologia. No Japão, que está décadas à frente (para o bem e para o mal) em relação à prática destas questões, Gunnm tem a virtude da auto-análise. Para os restantes, é um conto que alerta para os dilemas que se avizinham.

As BD Vision e Battle Angel Alita, usando personagens robóticas, reflectem sobre a questão "o que é ser um humano?". Dificilmente irão encontrar melhor resposta a essa pergunta e, ainda por cima, em obras que escolhem focar-se na vida artificial (será assim tão artificial?).

Uma BD aqui, outra BD ali, 10

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Brave And The Bold Batman And Wonder Woman número 1 de Liam Sharp (DC Comics)

Liam Sharp foi o desenhista responsável por metade das histórias mais recentes que Greg Rucka escreveu para a Mulher-Maravilha. Veterano do lápis e tinta da china (perdoem a minha ignorância no mundo do desenho), decide tentar a sua sorte (não sei se pela primeira vez) na arte da escrita. A DC Comics tem recentemente arriscado mini-séries com Diana como co-protagonista. Uma primeira junto com o conhecido Conan, O Bárbaro (comprem, porque vale a pena) e agora com o ainda mais conhecido Batman, o seu companheiro de armas na Liga da Justiça

No que respeita à escrita, Liam vai soberbo, conseguindo equilíbrio entre a exposição necessária para trazer o leitor para dentro do mundo fantástico do Folclore Irlandês (peça central da história), e momentos mais intimistas, principalmente com a super-heroína. Para quem leu a sua colaboração com Rucka, este primeiro número representa uma pequena recompensa. A primeira cena com Diana é poderosa a reveladora do amor do desenhista à personagem mas também da imagem que ela representa dentro do mundo fictício da DC. O Batman aparece parcimoniosamente, mas o suficiente para revelar o controlo que Sharp tem sobre a sua personalidade. 

Finalmente, no que respeita à arte, o autor excede-se, entregando uma BD francamente bela e bem estruturada. O seu traço é particularmente apropriado ao mundo de Fadas da mitologia irlandesa e cada página merece ser um poster - mas sem perder um átomo do storytelling. A continuar assim teremos em mãos uma das minhas BDs favoritas do ano (e não só porque tem a Diana como co-protagonista). Já agora, Sharp continua a desenhar uma das mais expressivas e bonitas interpretações de Diana, ao ponto de eu, como fã, ter dificuldade em não a considerar como uma favorita (ao lado da de George Pèrez). 

Defenders (2017) número 10 de Brian Michael Bendis e David Marquez (Marvel)


Chega ao fim a Era Bendis da Marvel. Depois de 17 anos de uma produção polémica mas profícua, um dos mais importantes escritores a trabalhar na auto-professa Casa das Ideias muda-se para a Distinta Concorrência (DC, para os que não estão dentro destes acrónimos). Ficou conhecido pelo trabalho em várias personagens, mas em nenhuma mais do que nos conhecidos como street-level heroes. O Demolidor. Luke Cage. Jessica Jones (que co-criou). Homem-Aranha. É, portanto, apropriado, que termine com este Defenders, que reúne na mesma equipa os três primeiros mais o Punho de Ferro (que escreveu nos Vingadores). E, mais ainda, junto com o desenhista David Marquez, com quem tinha previamente trabalhado em Miles Morales e em Civil War II.

Como já referi em posts anteriores, Bendis não poderia acabar a sua prestação na Marvel de melhor forma. Defenders é das obras mais conseguidas do autor, ombreando com trabalhos como o Demolidor (talvez o seu ponto alto), Ultimate Spider-Man e New Avengers (os meus três favoritos). Parece que Bendis tirou da cartola mais um conjunto de ferramentas de storytelling para impressionar os detractores e os fãs. "Eu ainda sou capaz de vos surpreender pela qualidade, estão a ver?!". Quem gosta do seu trabalho, apesar de saber que ele ainda tinha muito para dar, não esperava que a qualidade da sua escrita ainda pudesse brilhar tanto, mesmo empregando muitos dos seus cartões de visita: a verborreia; os plot-twists; a reinterpretação de velhos vilões e de antigos heróis; o baralhar de geografias e conceitos do universo da Marvel. Bendis brilha em cada página e em cada frase destes 10 números dos  Defenders 2017, defendendo o seu legado sem egoísmos, dizendo um sentido adeus e deixando a página aberta aos que se seguem. 

Mas nenhum elogio aos Defenders pode estar completo sem falar de David Marquez, um dos seus recentes colaboradores e que nestes 10 números brilhou como nunca. Cada rosto é único, cada cena de acção coreografada de forma belíssima, cada enquadramento apropriado.

Bendis diz adeus e eu sigo-o para o Super-Homem. Até mais logo, Marvel.

Black Panther de Ryan Coogler

(sem spoilers)

O novo filme do universo cinematográfico da Marvel é algo diferente. Não falo do facto de se passar longe das ruas de Nova Iorque ou mesmo do continente americano. Falo de um filme que parece mais preocupado em ser cinema e menos parte de uma oleada máquina que existe desde 2008. Faz parte do Universo da Marvel, mas não é necessário saber nada para seguir a história, divertir-se e gostar deste Black Panther. Falo de um filme que corrige algumas das falhas que têm sido apontadas a estas máquinas fazedoras de dinheiro. Mas estou a adiantar-me.

A história segue de perto a mitologia criada nas páginas da BD. Por um lado, temos a mais avançada nação do mundo em termos tecnológicos que é a Wakanda criada por Stan Lee e Jack Kirby na revista do Quarteto Fantástico. Por outro, temos o vilão, Killmonger, pensado pela mente de Don McGregor numa sequência de histórias criadas por este escritor na década de 70 - e que são consideradas a primeira (e informal) novela gráfica da Marvel (esta história foi compilada recentemente na Epic Collection do Black Panther, que podem encomendar em qualquer loja física ou online que venda BD). Finalmente, temos a politização e engajamento social do trabalho de outro escritor, Christopher Priest, também ele criador das Dora Milage (já falo delas) e dos Lobos Brancos (já escrevi sobre este criador neste link). Portanto, para os fãs desta personagem (que é relativamente desconhecida, mesmo para os mais acérrimos leitores) e de BD, a matéria-prima é respeitada de forma clara. Não quer isto dizer que não existam desvios em relação ao original. Especificamente, o vilão tem matizes mais cinzentos que o puro Mal que representava na BD, o que acaba por funcionar neste filme e transforma o Killmonger de Michael B. Jordan no melhor vilão da Marvel desde o Loki (finalmente).

As mulheres. É discutível se não serão elas as personagens mais interessantes deste filme. A Nakia de Lupita Nyong'o é o impulso motivador de T'Challa, o Pantera Negra, mas não perde com isso um átomo da sua personalidade e força. A mãe, protagonizada pela maravilhosa Angella Basset, não é o papel mais forte, mas prefigura uma presença maternal poderosa. Okoye de Danai Gurira é a melhor guerreira de Wakanda, a líder das Dora Milaje, as soldados desta nação, e talvez a mais mesmerizante personagem de todo o filme.  Só não ganha esse título porque ainda existe Letitia Wright no papel de Shuri, irmã do protagonista e a mente mais brilhante e genial deste universo fictício (sim, mais que Tony Stark). Para quem está atento a estas coisas, já a tínhamos visto no último episódio da quarta temporada de Black Mirror, mas aqui ela atinge um outro nível de encanto. Letitia rouba cada cena em que entra. No filme Thor Ragnarok, a Valquíria de Tessa Thompson era também o melhor do filme, mas nada que se compare a este santíssimo quarteto.

O argumento é outros dos fortes deste filme, quando comparado com esforços anteriores da Marvel. Este é uma história, enredo e personagens com um alcance mais complexo e maduro. A temática da raça e do drama histórico dos africanos é a peça central, abordada de forma convincente dentro dos limites de um filme de entretenimento, que procura agradar o mais possível e desagradar ao menor número de pessoas. Este é o primeiro filme da Marvel que arrisca para além das fronteiras auto-impostas da pura diversão e do escapismo. Só por isso já é um dos melhores (se não mesmo o melhor) deste universo cinematográfico. E, ao contrário de Thor Ragnarok, os argumentistas conseguem um melhor equilíbrio entre drama e humor.

Chadwick Boseman, ainda que outra das forças do filme, é marginalmente eclipsado pelas quatro mulheres e pelo vilão. Por outro lado, o seu T'Challa ainda não é o herói confiante, altamente inteligente e pragmático desenvolvido por Christopher Priest na BD e seguido por outros autores como Jonathan Hickman, Al Ewing, Reginald Hudlin ou Ta-Nehisi Coates. Os efeitos especiais são maravilhosos excepto em algumas cenas, principalmente na climática da batalha final entre os antagonistas, que acaba por ser pouco interessante.

Black Panther é (provavelmente) o melhor filme da Marvel até o momento. Pela força do protagonista, das quatro mulheres que o acompanham, pelo vilão e pela temática mais complexa e madura.