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(título gentilmente inventado pelo Filipe Faria)

Quantas e quantas vezes os fãs de BD ouvem a frase "isso é coisa de miúdos"? Pode acontecer quando estamos sossegados a ler na esplanada ou quando queremos sugerir algo e convencer que BD é Arte como outra qualquer. Às vezes, até dentro dos fãs de BD, existe a eterna divisão entre os que gostam de super-heróis ou da Disney e os outros que consideram que, uma vez mais, "isso é coisa de miúdos". 

O que vou lendo! - Thanos, The Infinity Revelation por Jim Starlin

(a bold podem encontrar links relevantes para antigos posts deste blog)


O personagem Thanos começa a ficar conhecido do público em geral, isto depois de brevíssimas aparições nos filmes dos Vingadores e Guardiões da Galáxia. Os fãs de BD sabem o que os espera. Vou fazer um esforço para daqui para a frente não estragar a surpresa para os outros, ainda que possam ir navegar na net e descobrir facilmente do que se trata. Mesmo assim, não me parece ser segredo para (quase) ninguém que a Marvel prepara Thanos para ser o Adversário (sim, com A capital) no filme que concluirá a primeira grande fase do seu universo cinematográfico: Vingadores 3 - até já se começa a falar em dividir este em dois.

Thanos é um dos maiores vilões do universo Marvel. Foi criado na década de 70 pela brilhante e criativa mente de Jim Starlin num conjunto de histórias que se tornaram lenda (neste link podem ler o que achei de uma colecção que as compila e que é de leitura obrigatória para se prepararem para este personagem). Desde então, tem sido usado variadíssimas vezes como um dos inimigos definitivos e mais temíveis aos heróis, sendo que as histórias mais relevantes foram quase sempre escritas pelo pai criativo de Thanos. Contudo, porque este é um personagem que é propriedade da Marvel, vários outros criadores colocaram os seus talentos ao serviço do Titã Louco (um dos epítetos do personagem), com diferentes graus de fidelidade para os fãs mas quase nenhuma para Jim Starlin. Ao contrário do que até é costume em monolíticas editoras como a Marvel e a DC, a primeira decidiu trazer de volta o original e devolver as rédeas criativas de Thanos ao seu pai para este mais novo volume de BD originais em formato mais devedor ao franco-belga, pelo menos em contenção e número de páginas (os volumes anteriores incluem os Vingadores, X-Men e Homem-Aranha). 

Ainda bem por esta decisão, porque Starlin continua a demonstrar enorme inclinação criativa para históricas de cariz cósmica e existencial, cujo ápice atingiu em Adam Warlock, também na década de 70. É no palco universal e cosmogónico que este artista parece movimentar-se com muito à vontade, não tendo perdido um átomo da sua força depois de quatro décadas. A falta de esforço é tal que parece que tudo estaria planeado desde há muito tempo e a evolução que agora se verifica no personagem ter sempre sido a prevista. Esta consistência é difícil e, mais ainda, sem parecer revisitação mercantilista (que, não tenhamos dúvidas, também o é). Particularmente complicado será também perpetuar algum sentimento de novidade, de "ainda não tinha visto isto", e desde as primeiras páginas nos apercebemos que existe qualquer coisa de diferente. Não só uma nova escala é introduzida no universo Marvel como, na conclusão da história, estamos perante um status quo diferente e que, com certeza, terá relevância para outros cantos do universo BD da editora. Mesmo os leitores da Panini em Portugal vão se aperceber que Thanos terá incrível importância para as histórias dos Vingadores de Jonathan Hickman. Imaginem para o futuro de 2015 nos EUA.

Este é um volume essencial não só para fãs, que começam a ver parte do complexo puzzle que se avizinha no futuro da Marvel, como para os iniciados, podendo, assim, melhor conhecer um dos mais complexos e importantes vilões da galeria da editora. 

O que vou lendo! – Warlock by Jim Starlin – The Complete Collection

Enquanto relia este pedaço de nostalgia da minha infância ocorreu-me algo que, à altura, não tinha informação para concluir: a trágica história de Adam Warlock, escrita e desenhada por Jim Starlin, é precursora dos trabalhos de Frank Miller, Alan Moore e Neil Gaiman. Para os fãs de BD americana, esta frase pode ser interpretada como herética e, parece-me, poucos, nem o próprio Starlin, alguma vez teve a presunção de a proferir. Passo a explicar porque o digo.

Nos idos da década de 80, na saudosa revista brasileira Heróis da TV da editora Abril, eram publicadas as aventuras de Warlock pela imaginação e desenhos do grande Jim Starlin. Com o passar das décadas, estas histórias, originalmente lançadas nos EUA entre 1975 e 1977, adquiriram o estatuto de lenda, status de que não gozaram na altura. Aliás, foram lançados poucos capítulos e, com a re-leitura, nota-se que o fim foi apressado. Jim Starlin afirma que, ainda assim, e após o cancelamento da revista homónima, foi-lhe dada a oportunidade de escrever e desenhar dois anuais, dos Vingadores e de Marvel Two-in-One, nos quais teve oportunidade de acabar a saga do Gladiador Dourado. Este volume coleciona todos os capítulos e conseguiu ser um prazer e, ao mesmo tempo, uma revelação. Prazer porque a escrita e os desenhos envelheceram maravilhosamente, não tendo ganho o pó da irrelevância. Revelação pelo que referi no primeiro parágrafo.

Usando um personagem que não lhe pertencia, Starlin consegue imbuí-lo das suas próprias filosofias e pontos de vista. Ao mesmo tempo, modificou-o de forma tão irreversível e idiossincrática que para sempre o carimbou como seu - isto não faz lembrar o trabalho de Miller no Demolidor e Moore em Swamp Thing? Adam Warlock não só é um personagem de BD de super-heróis cósmicos, como um verborreico filósofo estelar e personagem trágico na senda dos clássicos gregos. Os seus solilóquios são ao mesmo tempo profundos e kitsh, numa combinação perfeita que tanto caracteriza um certo tipo de BD. Ao mesmo tempo, o desenho está à frente de qualquer outro na época, quer em qualidade, quer em sofisticação estética. Por exemplo, a construção de mundos alienígenas mistura, de forma sublime, múltiplas referências: medievais; tecnológicas; místicas; terror.

Para quem ler este volume de uma assentada, aperceber-se-á que Jim Starlin tinha um plano com princípio, meio e fim. O artista pretendia ter tempo para contar a sua história de forma mais ou menos serena, mais ou menos contida, culminando na morte e, ao mesmo tempo, redenção do trágico herói (o que, aliás, se vem a verificar nos anuais que lhe são permitidos produzir). E, nesse sentido, esta era uma atitude inovadora no panorama da BD mainstream da altura, que se caracterizava, essencialmente, pelas eternas telenovelas dos super-heróis (não que haja nada de errado com elas). Não reconhecem nesta atitude muito do que Neil Gaiman faria 10 anos mais tarde com Sandman? Não só isso mas também a escrita sofisticada, adulta, literata. Mesmo nos parcos capítulos que foram possíveis produzir, Starlin arranjou espaço para um delicioso episódio com palhaços, onde criticava os estúdios da Marvel e os seus editores (sim, os mesmo que lhe publicavam Warlock). E que tal a revelação – recente – de que Pip, o Troll, coadjuvante do herói, era na realidade Jack Kirby, o Rei da BD americana?


Ficção científica cósmica noir será uma forma de descrever a fabulosa saga de Warlock. Mas qualquer epíteto é redutor. Exceto este: esta foi uma BD visionária que os anos recompensaram - mas não o suficiente. Comprem este fabuloso e essencial volume e chorem de pena pelo facto dos diferentes imperativos da altura terem ditado o seu cancelamento muito prematuro.

PS - Esta BD tem especial interesse nos dias que correm, em que os filmes dos Vingadores encaminham-se para o inevitável confronto com o Deus Louco, Thanos. Para quem quer saber como  ganhou fama suficiente para ter o estatuto de um dos piores Inimigos da Panteão da Marvel, bem como onde surgiram pela primeira vez as gemas cósmicas (que estão a aparecer em todos os filmes), só tem de ler esta fabulosa coleção. Nela temos o segundo grande confronto entre Thanos e os Vingadores.

Rapidinhas de BD – Avengers vs Thanos; Fables volume 19

Avengers vs Thanos de Jim Starlin


Outro clássico da juventude. Tal como já aqui havia referido, o primeiro confronto dos Vingadores com o Titã Louco, conhecido pelos amigos como Thanos, é um dos momentos que melhores recordações tenho dos meus anos adolescentes a ler BD. Uns anos mais tarde, a editora Abril, uma das responsáveis pelo amor que tenho a esta Arte, criou uma compilação que colecionava a história completa deste vilão. À altura, foi através desta compilação que tive pela primeira vez contacto com o confronto original entre os Vingadores e Thanos. Contudo, no início de saga, o supergrupo fora apenas uma nota de pé de página no confronto do equilíbrio universal, sendo o principal antagonista do Deus Louco o Capitão Marvel, herói cósmico por excelência.

O volume americano de que aqui falo coleciona não só esta história como também uma outra, a mais famosa, a que me ocupou a imaginação naqueles nostálgicos anos, a do Warlock pelo escritor e desenhista Jim Starlin – esta última fica para uma próxima vez, quando falar do livro homónimo. Após ler o volume 9.º da Epic Collection dedicada aos Vingadores, decidi voltar atrás na cronologia e dedicar-me a este. Uma vez mais e ao contrário do que eu esperava, reler estas histórias na língua original não foi uma surpresa negativa, onde os excessos foleiros de linguagens funcionavam como detrimentos, mas antes uma muito, mesmo muito, agradável surpresa. Jim Starlin estava a começar, sendo o Capitão Marvel o seu primeiro grande trabalho na BD, e logo de partida cria um dos mais memoráveis vilões e mitologias da enorme tapeçaria que é o Universo Marvel – só posso pensar que a editora apenas poderá agradecer financeiramente a este e outros gigantes que lhes deram estas histórias, com que agora entretêm públicos maiores. Não só o enredo atinge excessos maravilhosos de demência imaginativa, refletindo em muito o espírito iconoclasta e místico da década onde nascia (a de 70), como é alicerçado num tipo de diálogos quase-shakespearianos de que a editora era forte usuária. Tudo funciona nestes primeiros capítulos da Saga de Thanos e não são apenas os meus olhos pintados do cor-de-rosa da boas recordações de infância. Uma leitura muito boa para fãs dos Vingadores da BD e do Cinema.

Fables vol. 19: Snow White de Bill Willingham e Mark Buckingham
(contém spoilers no final do terceiro parágrafo)



Infelizmente o fim está próximo. Um dos meus livros favoritos a serem publicados na BD americana, este Fables da editora Vertigo, está prestes a chegar ao fim. E este 19.º volume já começa a cheirar a despedidas e a um longo choro de adeus.

Como dizia alguém em jeito de comentário ao título, quando um volume desta saga tem o nome de um dos personagens algo de verdadeiramente trágico pode estar para acontecer ao dito cujo ou a entes queridos próximos. Se acontece ou não isso agora não interessa para nada, mas nota-se, desde já, que Willingham prepara a sua despedida e tece as últimas palavras que terá a dizer acerca deste mundo que criou há mais de dez anos. Um mundo delicioso, onde coabitam todos os contos de fada que alguma vez foram contados junto à lareira, ou sussurrados para nos ajudar a adormecer. Pelas nossas mães. Pelos nossos pais. Pelos nossos avós. 

Mas estes não são os personagens e contos a que estávamos habituados. Aqui, (spoilers para quem nunca leu ou não quer saber pormenores mais adiantados) a Branca de Neve casou com o Lobo Mau e tiveram uma legião de filhos, herdeiros do aterrador Vento do Norte. E é exatamente sobre este pequeno mas poderoso agregado familiar que incide a história deste importante 19.º volume.


Que mais posso dizer de uma BD que já elogiei muitas e repetidas vezes? Continua boa? Sim. Tenho pena que vá acabar? Um grande sim. Este é mais um excelente volume? Podem ter a certeza que sim.

Descobrir as diferenças.

Parte desta agradeço à Carla.

parte da série Céu Estrelado, entitulado Primeiro Vôo para as Estrelas, Illarion G. Nekrasov, 1966




Captain Marvel número 29, Jim Starlin, Novembro de 1973