Mostrar mensagens com a etiqueta BD 2014. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta BD 2014. Mostrar todas as mensagens

Multiversity # 4 de Grant Morrison e Frank Quitely

O quarto número da nova série do escritor Grant Morrison para a DC é, provavelmente, o melhor até à data. E isso é dizer muito. Não só regressa a uma colaboração já com longas décadas e excelentes obras de arte, a com o desenhista Frank Quitely, como aproveita para homenagear uma das maiores (há quem diga que a maior) BD da história desta arte: Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons.

É no mínimo meta-textual a escolha de Morrison para fazer esta homenagem. Recorreu aos personagens que, originalmente, Moore tinha ficado encarregue de ressuscitar quando foi contactado para escrever a sua mais famosa obra. Os heróis da defunta editora Charlton Comics tinham sido adquiridos na década de 80 pela DC e Moore escreveu a sua história tendo-os como personagens principais, ainda que bastante modificados. Por exemplo, o Capitain Atom passava a ser o Dr. Manhattan e o Blue Beetle chamava-se agora Nite Owl. Os personagens originais da Charlton acabariam por regressar em várias publicações regulares da DC, isto depois do seu universo original ter morrido junto com tantos outros na famosa Crise nas Terras Infinitas e se "fundido" com aquele onde viviam os clássicos Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha.

Nestas coisas da BD americana nada é definitivo. O multiverso da DC, as múltiplas terras, tinham acabado na Crise mas acabariam por regressar sensivelmente 20 anos mais tarde e, como já disse em posts anteriores, seria de Morrison a tarefa de mapear este novo universo. Obviamente que um dos universos obrigados a regressar seria o da antiga editora Charlton. Mas o que o escritor escocês fez neste seu Pax Americana é muito, muito mais que isso. Pax é o mito do eterno retorno, uma trip temporal dentro e fora da BD. 

Muito à semelhança do modo como Alan Moore abordava o personagem do Dr. Manhattan, Pax Americana desenvolve-se no sentido oposto em como experimentamos a progressão das horas, dos dias e dos anos. Começa na conclusão e acaba no princípio. A coleção de acontecimentos que contribuem para o todo é nos dada em flashes, não só de imagens (nas quais o trabalho de Quitely é fenomenal) mas também na já recorrente linguagem "gaga" de Morrison. O que aparenta ser ininteligível é, na realidade, mais uma peça na misteriosa tapeçaria  de Pax (e de Multiversity). 

A simbiose perfeita entre seres dois autores escoceses é mítica e este último trabalho apenas consolida essa já robusta colaboração. Existe calma e pensamento. Inteligência e sobriedade. Amor e entusiasmo. Queria que todas as artes dedicassem tempo a nos dar obras desta envergadura.

O que vou lendo! - Lazarus vol. 1 e 2 de Greg Rucka e Michael Lark



A editora de BD Image continua a conseguir aliciar alguns dos maiores nomes da atualidade artística da 9.ª Arte para publicar sob a sua égide. Quem perdem são as grandes, DC Comics e Marvel, e quem ganham são os leitores e, acima de tudo, a Banda Desenhada. Dados rédea solta, estes criadores estão a poder fazer aquilo que sabem fazer melhor, escrever e desenhar as suas melhores histórias, colocar para fora tudo o que há ainda por dizer.

Greg Rucka e Michael Lark são dois artistas conhecidos por trabalhos não só nas grandes da BD americana como por alguns projetos paralelos pessoais. Trabalharam em personagens tão conhecidos como Mulher-Maravilha, Wolverine, Demolidor, Batman, etc., mas também em produções independentes como Queen & Country e Whiteout. Trabalharam juntos na lendária Gotham Central, série passada na cidade ficcional do Batman, colaboração que lhes conferiu o estatuto de culto, e regressaram com este LazarusGotham Central contava ainda com a imprescindível colaboração de Ed Brubaker, conhecido por trabalhos no Demolidor, Criminal e Fatale .

A arte de ambos estes artistas oferece-se a uma conjugação perfeita de ambiente e estilo, militarismo misturado com noir. Não é portanto de estranhar que algo desta veia seja aquilo que aparece em Lazarus, uma série passada num futuro distópico, onde famílias governam a paisagem norte-americana, tendo-a dividida por coutadas. São essas mesmas famílias aquelas que dispensam “benesses” pelo resto da população, que vive em diferentes estados de escravatura, diferenciados apenas pela proximidade ou não dos benfeitores. O cenário metafórico construído é simples, eficaz e óbvio e, nas mãos de outros criadores (como aliás sempre o digo) poderia ser algo perfeitamente esquecível. Contudo, as idiossincrasias de ambos, principalmente as da escrita de Rucka, imbuem a história de uma certa forma de verdade que a tornam não só profunda como relacionável. O relacionamento que temos é essencialmente feito através da heroína, Forever, uma espécie de polícia/soldado de uma das famílias, mas também mais do que isso. Não só é filha do patriarca, como também foi aprimorada física e psicologicamente de modo a melhor levar a cabo as suas missões. Contudo, e como não poderia deixar de ser, possui um código moral que, aparentemente, é bastante diferente do do seu progenitor e irmãos, o que a levará a uma inevitável rota de colisão – ou pelo menos assim se espera. Pode parecer comida requentada mas não é.


Não sendo uma das mais originais premissas a surgir em tempos recentes é, contudo, uma mistura de outras que, conjugadas pela imaginação de Rucka e Lark criam um todo único e singular. 

O que vou lendo! - League of Extraordinary Gentlemen Century por Alan Moore e Kevin O'Neill

Isto é Alan Moore light. Mas mesmo mesmo sendo leve não é de todo simples. Com este escritor nada é. 

Com LOEG: Century o autor continua a exploração da ideia de juntar personagens conhecidos da literatura dos finais do século XIX, princípios do XX, numa única equipa similar em motif à dos super-heróis. Contudo, apesar de ser fácil reconhecer nas roupagens e em alguma abordagem os cânones deste último tipo de literatura, assume de forma mais sublinhada a da primeira, a prosa. 

Os dois primeiros volumes não só relatavam a famosa origem deste grupo de personagens (desta encarnação, sublinhe-se, porque a Liga existe desde tempos imemoriais), como aventuras subsequentes. O sucesso e originalidade da premissa deu origem até a um (deplorável) filme, mas Moore, que é conhecido pelo forte antagonismo à face mais corporativa da actividade de publicação, retirou a LOEG das mãos da "vil" DC Comics e entrou pela porta aberta da Knockabout, onde agora explora, junto com o imprescindível desenhista Kevin O'Neill, aventuras mais recentes desta nova iteração da Liga.

Century passa-se em dois períodos distintos do século XX (1910 e 1969) e entra no nosso XXI, especificamente em 2009. A equipa é constituída pelos recorrentes Mina Murray (dos romances do Drácula) e Alan Quatermain (das Minas de São Salomão, obra bem conhecida dos portugueses), e pelo novo Orlando (de Virginia Woolf). No meio deste trio passeiam-se uma infinidade de outros personagens, todos ligados à literatura. A LOEG é um verdadeiro quebra-cabeças de "quem é este personagem?", "qual é este lugar?", algo que já era bem presente nos volumes anteriores e que continua. As referências passam despercebidas aos menos conhecedores (a mim passaram-me ao lado muitas), mas não em detrimento do apreciar da história como um todo. O enredo principal anda à volta de algo bastante comum em histórias de fantasia e de super-heróis, a da eventual ascensão de um anti-cristo, um ser demoníaco apocalíptico - existe mesmo uma referência deliciosa ao filme Rosemary's Baby de  Roman Polanski. A descoberta de quem é este anti-cristo é, ao mesmo tempo, vintage  Alan Moore e algo que irá irritar os fãs de um personagem da literatura muito famoso. 

LOEG continua com o mesmo nível de qualidade e densidade dos anteriores volumes, sublinhando porque este é dos melhores escritores de BD de todos os tempos. Não é do nível de profundidade dramática e conceptual que, por exemplo, From Hell ou Promethea, mas faz ansiar pelo regresso não só de outros volumes deste conceito como também de algo bastante saudoso do mesmo autor: Top 10.

Miracleman, A Dream of Flying de Alan Moore, Garry Leach e Alan Davis

Em relação a este livro não me vou poupar a elogios. 

Nunca tinha tido o prazer de ler esta obra. Não tinha tido sorte ou a persistência para encontrar algo que (diziam-me) ser muito difícil de encontrar. Todos os fãs conhecem os impedimentos legais que impossibilitaram que fosse compilada mais cedo. Os que não conhecem também não interessa conhecer. O que interessa é irem já a uma loja de BD em Portugal ou a uma qualquer loja online e comprarem este primeiro volume daquela que será a primeira coleção completa de Miracleman. Garanto-vos que não só têm história de BD nas vossas mãos, como algo de qualidade impar.

Já tinha lido e relido milhares de opiniões acerca da revolução que esta obra terá representado na BD, principalmente a de língua inglesa. Mas, para mim, essas opiniões não passavam disso mesmo. Agora, depois de ter lido apenas o primeiro volume, posso dizer que concordo. Miracleman foi publicado pela primeira vez numa revista de antologia inglesa de nome Warrior nos inícios da década de 80 e, à altura, era o ressurgir de um velho personagem da década de 50 que fazia parte integrante do imaginário dos agora adultos ingleses. O personagem tem uma história conturbada. Nos idos do pós-Grande Guerra eram publicadas no Reino Unido as aventuras do Capitão Marvel, um super-herói americano com poderes muito semelhantes ao Super-Homem, excepto pelo facto do seu alter-ego ser um miúdo pré-adolescente de nome Billy Batson, que quando gritava a palavra Shazam se transformava no poderoso super-herói - ou seja, num seu eu adulto. Exatamente pelas semelhanças com o Super-Homem a revista seria cancelada nos EUA e, claro, também no Reino Unido. Não querendo perder o dinheiro que advinha de vendas bastantes apreciáveis, os ingleses criaram um personagem, Marvelman, que basicamente era uma versão britânica do Capitão Marvel, com algumas modificações na origem (agora mais cientifica e menos mística), no uniforme e na palavra que gritava: Kimota (atomik ao contrário).  O personagem seria um enorme sucesso durante uns poucos anos, até ao momento em que foi permitido importar revistas originais dos super-heróis americanos, da Marvel e DC, e o Marvelman acabaria por cair no esquecimento. Isto até a década de 80, quando um editor com boas recordações resolve entregar o personagem às mãos do génio louco que já era Alan Moore - sim, o responsável pelos Watchmen, Swamp Thing e o "amadurecimento" da BD americana.

Acontece que estes dois trabalhos do autor já estavam presentes, de uma forma ou outra, neste brilhante Miracleman. Por um lado, a desconstrução do arquétipo do super-herói que o criador depois aperfeiçoou nos Watchmen. Moore agarra em toda a mitologia que faz funcionar este personagem em particular e os super-heróis de uma forma geral, e torce-a, vira-a de cabeça para baixo, parte-a aos bocados, espalha-a em cima da mesa e volta a montá-la - mas com uma forma completamente diferente. Analisa cada pormenor com clareza de espírito mas sem (nunca) perder o deslumbramento pela arte. Por outro lado, reinventa o personagem de uma forma que tornar-se-ia banal nos tempos que se seguiriam: o molde "tudo o que conhecem acerca do personagem e universo estava errado". Ele voltaria a fazer isso - com resultados igualmente maravilhosos - no seu Swamp Thing, mas é aqui que aperfeiçoa a técnica, torna-a natural.  Nada é  forçado na escrita de Moore. Mesmo com seis a oito páginas por cada capitulo (não esquecer que era uma revista de antologia), o escritor consegue algo que parece tão difícil nos dias de hoje: fluidez. Nada parece forçado ou rápido demais. Depois existem as suas capacidades como tecedor de palavras. Numa fase em que a BD parece se resumir aos diálogos entre personagens (ao estilo do cinema e que o próprio Moore já utiliza), aqui há espaço para texto descritivo, refletido, filosófico e poético. O que se passa no quadradinho é complementado pelo texto e não descrito pelo mesmo. A prosa ao serviço do desenho. 

E por falar em desenho? Que dizer do trabalho de Leach e Davis que estão a par da fabulosa escrita e imaginação de Moore. Uma imaginação frenética, profunda e intemporal. Tudo o que aqui se lê não tem sabor de velho, tem de contemporâneo. Isso porque para aqueles que têm o prazer de acompanhar esta Arte há tanto anos irão reconhecer em Miracleman uma revolução.  Um passo que se deu em frente e cujas pegadas estão de tal forma desenhadas em pedra que é impossível não as seguir. 

Obrigado Marvel e Neil Gaiman por nos terem devolvido Miracleman. Por este coleção, pelas novas cores que nos entregam traços velhos e palavras intemporais

PS - Não sei se repararam mas, entre as décadas de 50 e 80, o personagem mudou de nome Marvel para Miracle. Um outro problema de direitos de autor sobre a palavra Marvel (adivinhem de quem) obrigou à mudança. 

O que vou Lendo! - Sex Criminals de Matt Fraction e Chip Zdarsky

Como vos dizer o que quer que seja acerca deste singular livro sem estragar um átomo de surpresa? Já várias vezes vos disse neste blog que, para mim, parte imprescindível do prazer de apreciar qualquer história, independentemente da forma, reside na descoberta. Eu já leio BD há tantos anos que, muitas vezes, apenas sei de um autor ou personagem e imediatamente salto para a leitura sem querer saber muito mais pormenores. Assim foi com este excepcional Sex Criminals. Conhecia o trabalho de Matt Fraction. Conhecia a recente produção da editora Image. Sabia que a probabilidade de isto ser algo bom era elevada. Desta vez acertei - como, aliás, tenho acertado muito no que respeita a esta editora.

Não vos vou, como disse, revelar nada do enredo. Posso, ainda assim, vos revelar que envolve sexo e criminosos. Ah... e acho que não cometo nenhum spoiler se disser que também envolve a passagem do tempo, ou melhor, a ausência de passagem. Curiosos? Deveriam estar! Que é que estes três coisas têm em comum? Como é que Matt Fraction consegue construir o que quer que seja usando estas três palavras? 

Há medida que ia lendo apercebi-me que, quando tentasse explicar o conceito base desta BD, seria difícil não considerá-lo, quer para mim quer para quem eu tentasse "vendê-la", como kitsh, argumento de série B ou mesmo Z. Havia um lado de lixo na premissa. Mas lixo que, executado da forma soberba como o é pela dupla de autores, acaba por ser divertido, humano e emocionante. Este é daqueles conceitos que muito dificilmente imaginamos a nascer de outra arte que não a BD, tal o despropósito. E ainda bem, porque prova o quanto ela é suprema. Desligada de qualquer grilhão realista, e assumindo-se como tal, consegue aceitar o ridículo como ele é e, nas mãos de dois artífices superiores, ser algo verdadeiramente bom.  Divertido e complexo.

Perceberam que gostei da BD, não? Verdadeiramente, apenas posso continuar a insistir nos rasgados elogios à editora que atrai e arrisca, mesmo com autores provados como Fraction, mas deixa-os brincar à vontade e correr riscos deste nível. O futuro parece brilhante, não só para Sex Criminals, como para a Image.

O que vou lendo! - East of West vol. 2 - We Are All One de Jonathan Hickman e Nick Dragotta

Bill Maher e Jon Stewart, dois fantásticos comediantes americanos, reflectiam, numa entrevista do segundo ao primeiro, que os EUA eram o único país desenvolvido onde a religião tinha um peso verdadeiramente relevante em todos os aspectos da vida pública, nomeadamente na política. Mais depressa chegaria uma mulher ou um homossexual à presidência do que um ateu. Para quem vai sabendo um ou outro pormenor da sociedade norte-americana sabe que isto é verdade. Este "estado de alma" tem que, obrigatoriamente, entrar com força e determinação naqueles que reflectem e pensam sobre o mundo que os rodeia. Um desses grupos são os artistas, que insistentemente procuram as verdades onde as mentiras se erguem. E os artistas podem ser vários e de diferentes formas, quer sejam cineastas, poetas ou escritores e desenhistas de BD.

Num post anterior já tinha dado um pequeno vislumbre deste East of West (leiam aqui). Talvez por experiência ou, pura e simplesmente, por falta de tempo, tinha decidido não me alongar nos (já certos) elogios a esta mais recente obra de Hickman. Depois de ler este segundo volume essa contenção é já impossível, na medida em que estive defronte de uma das melhores leituras dos últimos tempos. Nas mãos de alguém menos versado na arte da escrita, a salada russa que é este East of West sairia pretensiosa e confusa, mas nas destras capacidades de Hickman sai um prato que não só nos permite saborear individualmente cada tempero como ter um sorriso na boca o tempo todo. Isto é entretenimento para a cabeça e é cabeça para o entretenimento. Cowboy que assume a identidade da Morte dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, mistura-se com arautos do fim do mundo prometidos à nascença. Totems demoníacos nativo-americanos  coabitam com crianças criadas com ligações diretas à internet versão delírios de Steve Jobs. Tudo marinado num caldo de religiosidade, redenção e esperança. 

Que final alucinado pode esperar-se desta obra louca de Hickman? Não sei, mas a viagem é maravilhosa demais para preocupar em perder-me neste surrealismo calculado. Esta obra é prova de que a Image é a Vertigo deste século XXI. Viva a Image

Rapidinhas de BD - Spider-Man - Family Business e X-Men - No More Humans

A Marvel, famosa editora de BD dos EUA, tem se imiscuído pelos caminhos da BD franco-belga ao publicar  histórias originais fora do formato comics, ou seja, do da pequena revista mensal de 22 páginas.  Apesar de este ser O formato por excelência nos EUA, a tradição, é também tradicional experimentar, inovar, não estagnar. Assim, a editora tem lançado regularmente histórias com mais páginas, finitas e contidas, protagonizadas por um personagem ou grupo de personagens do seu enorme catálogo. Os primeiros foram os Vingadores (que já foquei aqui) e agora seguiram-se outros dois dos mais conhecidos: Homem-Aranha e X-Men.

Spider-Man - Family Business de Mark Waid, James Robinson e Gabrielle Del'Otto

O grande chamariz para esta história era a descoberta de uma irmã perdida de Peter Parker, o alter-ego do Homem-Aranha. Esta descoberta leva o famoso personagem a envolver-se num enredo típico de James Bond, com a participação do Rei do Crime, famoso arqui-inimigo do Demolidor mas originalmente do trepador-de-paredes, e ainda dos seus falecidos pais (e que continuam falecidos nesta história). Infelizmente, este livro é muito pouco mais que isso mesmo.  Um chamariz interessante mas cujo sumo é sem-saborão, valendo por pouco mais que os desenhos do italiano Del'Otto. Provavelmente terá a ver por este ser um ambiente pouco apropriado para o Homem-Aranha, mas faço mais parte da escola que não são os personagens que são fracos, antes são os artistas que produzem a história. Tratando-se de Waid e Robinson, dois excelentes escritores de BD com muitas provas dadas, esperar-se-ia muito mais que lugares comuns e um desenvolvimento de enredo que oferece pouca surpresa.  Mesmo a irmã de Peter é pouco mais desenvolvida do que a descrição que temos nas sinopses desta história, tendo pouco mais espessura que aquela do papel onde nos é apresentada.  Prometem um terremoto no universo do personagem. O que nos entregam é um chocalhar. 

X-Men - No More Humans de Mike Carey e Salvador Larroca

Aqui a coisa já pia de forma diferente. O conceito apesar de ser grandiloqüente como o anterior é mais apropriado aos mutantes mais famosos da Marvel: de um dia para o outro todos os homo sapiens desaparecem da Terra. Sobram apenas os mutantes. O responsável é um dos mais recentes e interessantes vilões da galeria de excelentes inimigos dos X-Men, mas este evento coloca a comunidade num dilema moral óbvio: estamos melhor? Deveremos fazer algo para evitar? Em suma, deveremos defender o sonho de coexistência pacífica entre homo sapiens e homo superior idealizado pelo Gandhi mutante, o falecido Charles Xavier, ou deveremos aproveitar a oportunidade e viver o resto das nossas vidas sem a constante perseguição e racismo? Estas perguntas tem várias respostas, dependendo do personagem que estamos a falar. Este problema filosófico é, contudo, servido com muita ação típica de super-heróis, conceitos e situações maiores que a vida, ou seja, toda a receita apropriada. Quer Carey, o escritor, quer Larroca, o desenhista, não são novatos a lidar com os X-Men e aproveitam-se bem do atual status quo dos personagem, a cisão entre Ciclope e Wolverine,  para construir uma história muito divertida e envolvente, que se lê com rapidez e ansiedade.  Muito recomendável para fãs e não só.

Rapidinhas de BD - Invincible vol. 19 e Chew vol. 8

Invincible vol. 19: The War at Home de Robert Kirkman e Ryan Ottley

Neste blog já escrevi tanto sobre o Invincible de Kirkman que começo a sentir a falta de palavras. Principalmente porque, 110 capítulos ou 19 volumes depois, não há retrocesso na qualidade. Não falo de qualidade literária mas da de entretenimento. Falo da qualidade super-heroística. É por isso que não me poupo a elogios ao trabalho de Kirkman nesta sua criação original. Invincible, pelo facto de ser um universo contido em si mesmo, continua a ser uma BD verdadeiramente divertida e envolvente. Os personagens evoluem e são influenciados pelos acontecimentos que os circundam. Status quo é uma palavra e conceito que Kirkman não aplica a quase nada nesta sua obra. Este novo volume é, uma vez mais, prova disso mesmo. Depois das revelações e acontecimentos de volumes anteriores, a vida do personagem titular não será mais a mesma. Mas o passado continua a ensombrá-lo na forma de antigos inimigos e velhos amigos que, agora, se preparam para ser algo mais que isso. Tudo evoluindo de forma orgânica, como se Kirkman, desde o já longínquo primeiro capitulo, sempre tivesse estes desenvolvimentos na cabeça. Volto a repetir: esta é a vantagem de um universo contido, sem múltiplos títulos paralelos para seguir. Contudo, Invincible não deixa de ser uma longa novela super-heroística, extremamente divertida e cujo próximo volume espero sempre com muita ansiedade.

Chew vol. 8: Family Recipes de John Layman e Rob Guilloroy


Mais um sucesso da editora Image (junto com Invincible e tantas, tantas outras). Imaginação desenfreada, conceitos inovadores, controlo total pelo destino dos personagens, visão autoral. Chew é uma das mais interessantes, originais e divertidas BD da atualidade norte-americana. Num futuro alternativo muito próximo, a gripe das aves mudou o panorama mundial. Político e social, quero eu dizer. Ao mesmo tempo, seres com poderes extraordinários relacionados com comida multiplicam-se e propagam-se por todas as esferas da atividade humana. O herói, Tony Chu, é um cibopata, capaz de saber todo o passado do alimento (vegetal ou animal) que ingere. Naturalmente, torna-se agente da mais importante organização policial dos EUA: a Food and Drug Admnistration, a ASAE lá do sítio. Contudo, nada do que parece, é. A história da gripe das aves não está bem contada. Um outro cibopata, vilão e serial killer, movimenta-se pelo mundo em busca de algo ainda desconhecido. Este volume, que entra no ato final da série, inicia o longo descortinar dos mistérios que envolvem a narrativa desde o início. Os personagens começam a ser posicionados para o fim que, já se antevê, não está muito longe. Mas os dois autores não se perdem na exposição e avanço puro dos acontecimentos, antes imergem-se nos deliciosos pormenores de cada um dos personagens que criaram, dando alma e diversão. Esta é uma série que sabe a uma espécie de X-Files com comida e cheia, cheia de humor. Outras daquelas leituras em que mal posso esperar pelo volume que se segue.

O que vou lendo! – The Manhattan Projects de Hickman e Pitarra

A editora estado-unidense de BD, a Image, continua a conquistar território. Paulatinamente, não só se afirma como a única e digna herdeira da lendária Vertigo da senhora Karen Berger (não mo canso de repetir), como importa a sensibilidade europeia de fazer BD, aquela que delega a responsabilidade da qualidade e do conteúdo da Arte aos que sempre a fizeram, os artistas. Apesar de, para o meu gosto, este The Manhattan Projects de Hickman e Pitarra não ser do melhor que a editora já publicou, admito que outros gostos o acharão interessante. Não me interpretem mal! Gostei bastante deste trabalho do escritor (Hickman), que conheço de Pax Romana, SHIELD, Quarteto Fantástico e Vingadores, mas achei um pouco redundante, não só quando comparado com anteriores trabalhos do mesmo como também do de outros autores.

A história, como o próprio título indica, anda à volta do famoso Projecto Manhattan da 2.ª Guerra Mundial, patrocinado pelo governo dos EUA e que deu origem à bomba atómica e consequente bombardeamento de Hiroxima e Nagasaki. No plural do título da BD é que está o busílis da série. Acontece que, à boa maneira das várias iterações das teorias da conspiração, a construção da bomba era o projeto de menos importância. Por detrás desse, e absorvendo verbas astronómicas, existiam outros projetos, muito mais relevantes e insanos. Imaginem todas estas teorias metidas no mesmo saco, misturem-nas bem misturadas, juntem sal, pimenta, muito picante, LSD e peiote, e têm os Projectos Manhattan. Aqui há espaço para Roswell, realidades paralelas, multiversos, contactos extraterrestres, importação de cientistas nazis para o EUA, etc.


Como para muita outra coisa, o que conta não é a originalidade do tema mas a da abordagem. O tema desta BD não é uma grande novidade, pelo menos para nós que já acompanhamos a Arte há alguns anos, ou que vemos ou lemos filmes, séries de TV e livros sobre o tema. A abordagem é típica de Hickman, menos louco mas da escola Grant Morrison e Alan Moore. O discurso é marginalmente real, os personagens completamente imersos em conceitos maiores que a vida, física teórica movida a alucinogénios. Contudo, por enquanto, sabe ainda ao provérbio americano “been there, done that!”. O melhor elogio que posso fazer? Vou comprar e ler o 2.º volume. Pode ser que sobre o próximo tenha outras palavras para escrever.

O que vou lendo! - Fatale vol. 4, Pray for Rain de Ed Brubaker e Sean Philips

A mais recente colaboração Brubaker / Philips ao estilo da literatura noir continua de boa saúde. Se posso dizer algo é que melhora com cada volume, à medida que nos aproximamos do final. Para quem não leu os posts anteriores sobre esta maravilhosa BD (que vergonha! Procurem-nos aqui), podem ter a certeza que não consigo conter-me nos elogios bem cuidados. O trabalho destes dois senhores mistura o dito romance noir com mitologia lovecraftiana. Um casamento feito (reparem agora na inspiração) … no inferno.

No anterior volume (que falei aqui) fizemos uma breve passagem pelo passado remoto. Neste, fazemos uma viagem temporal mais pequena, mas que ainda não nos situa firmemente no presente. Estamos na altura do advento e morte do movimento musical Grunge, sito na cidade de Seattle, e acompanhamos a história de um grupo que descobre o corpo amnésico da heroína de Fatale, a misteriosa Josephine, para estes uma mera Jane Doe. Liberta inconscientemente das amarras místicas e psicológicas que autoimpõe sobre a sua natureza predadora, começa, paulatinamente, a devorar cada membro do jovem grupo de música. Um repasto inconsciente, movido não pela maldade mas pelo instinto. Contudo, o fim é sempre o mesmo. Aqui reside um dos trunfos deste quarto volume da saga composta por Brubaker e Philips. Finalmente presenteiam-nos com toda a terrível glória da sua criação, a tenebrosa e trágica mulher fatal que é a centenária Josephine. Todos sucumbem à sua inconsciente natureza, uma sinfonia de prazer e sexo que arrasta todos os homens para o abismo de perdição (a linguagem que uso, tendo em consideração o estilo de literatura, é mais que apropriado).

A escolha do cenário para este novo relato parece algo pessoal aos autores, mas também apropriado. No isolamento chuvoso da mansão, perdida nas florestas do estado de Washington, desenrola-se a tragédia pessoal dos membros do grupo Amsterdam, bem como a inevitabilidade dos eventos que se sucedem após a descoberta do corpo nu de Josephine por um deles (homem, claro). A história não só acrescenta à mitologia mais larga como pode ser lida sozinha, sendo um dos melhores volumes da coleção.


A simbiose entre escritor (Brubaker) e desenhista (Philips) é já espontânea e escorreita, não saltando uma nota ou havendo um som desafinado (mas que grande trocadilho). Imagino que um escreve para o outro e o outro desenha para o um. 


Demolidor – Ler sem medo! – parte última – The End of Days

(leiam anteriores Ler Sem Medo do Demolidor aqui)

Esta deambulação pela leitura essencial do Demolidor está longe de acabar, mas a aquisição recente deste The End of Days, que conta a última das histórias do personagem, é demasiado urgente para deixar passar.

A Marvel tem por hábito contar a derradeira história de alguns dos seus mais famosos personagens. Uma espécie de ponto final na interminável telenovela. Ao longo dos anos têm-no feito para alguns dos nomes mais conhecidos, geralmente recorrendo aos artistas mais emblemáticos que trabalharam nos mesmos. Para o Quarteto Fantástico até fizeram duas, uma escrita e desenhada por Alan Davis (na minha opinião a melhor), e uma segunda, escrita por um dos criadores, Stan Lee, e desenhada pelo não menos lendário John Romita JR. Os X-Men foram alvo de um gigantesco épico (que não li) fruto da imaginação do homem por detrás do todo o sucesso dos mutantes mais famosos do mundo, o inimitável Chris Claremont.

Chegou a vez do Demolidor, que caiu nas mãos de cinco dos seus mais importantes artistas: Brian Michael Bendis; David Mack; Klaus Janson; Bill Sienkiewicz; Alex Maleev. Infelizmente, não foi possível ter a presença do “mestre-absoluto-do-Demolidor”, Frank Miller, mas Klaus Janson, o desenhista principal de The End of Days, marcou a comparência dessa saudosa fase, já que ele colaborou com Miller. Com estes nomes será que a entrega esteve de acordo com a promessa? Na minha opinião, a resposta é um enorme sim.

Não vou, de modo algum, estragar o prazer da surpresa de folhear, desde a primeira à última página, cada novo evento cuidadosamente inserido para fazer jus à enorme história que este personagem tem construído ao longo de 5 décadas. Mas posso adiantar que todos e (principalmente) todas as suspeitas do costume fazem parte da tapeçaria. Sim, as mulheres. Aquelas que foram a mais importante constante na vida de Matt Murdock, desde a mãe até à assassina que foi o primeiro grande amor de Demolidor, Elektra Natchios. Por aqui passam, além destas duas, Natasha Romanoff, a Viúva Negra (agora bastante conhecida por ser interpretada nos filmes dos Vingadores por Scarlett Johansson), Typhoid Mary, Echo, etc. Cada qual uma peça no puzzle imenso que foi a conturbada vida do Homem sem Medo.

Também aqui estão os vilões, mas apenas os essenciais: o Kingpin; Bullseye; Gladiador; a organização secreta ninja de nome A Mão. E, finalmente, um dos seus maiores amigos, Ben Urich, o repórter do Clarim Diário incumbido de uma missão pessoal bastante importante para a história deste The End of Days.


Estamos na posse de uma novela onde os artistas dão forma a uma ode ao amor que nutrem por um personagem que tanto marcou as suas carreiras. Uma espécie de quid pro quo. O Demolidor permitiu que alguns tivessem uma carreira impressionante. Eles decidem dar-lhe um remate final apropriado, de qualidade inquestionável. Uma gigantesca obra que permite algo tão pouco comum na BD americana, algo apenas reservado a alguns personagens e a alguns autores: um fecho; um puxar de cortinas. Lidas todas as anteriores histórias do Demolidor, esta é um mais que apropriado “The End”.


Rapidinhas de BD – Avengers vs Thanos; Fables volume 19

Avengers vs Thanos de Jim Starlin


Outro clássico da juventude. Tal como já aqui havia referido, o primeiro confronto dos Vingadores com o Titã Louco, conhecido pelos amigos como Thanos, é um dos momentos que melhores recordações tenho dos meus anos adolescentes a ler BD. Uns anos mais tarde, a editora Abril, uma das responsáveis pelo amor que tenho a esta Arte, criou uma compilação que colecionava a história completa deste vilão. À altura, foi através desta compilação que tive pela primeira vez contacto com o confronto original entre os Vingadores e Thanos. Contudo, no início de saga, o supergrupo fora apenas uma nota de pé de página no confronto do equilíbrio universal, sendo o principal antagonista do Deus Louco o Capitão Marvel, herói cósmico por excelência.

O volume americano de que aqui falo coleciona não só esta história como também uma outra, a mais famosa, a que me ocupou a imaginação naqueles nostálgicos anos, a do Warlock pelo escritor e desenhista Jim Starlin – esta última fica para uma próxima vez, quando falar do livro homónimo. Após ler o volume 9.º da Epic Collection dedicada aos Vingadores, decidi voltar atrás na cronologia e dedicar-me a este. Uma vez mais e ao contrário do que eu esperava, reler estas histórias na língua original não foi uma surpresa negativa, onde os excessos foleiros de linguagens funcionavam como detrimentos, mas antes uma muito, mesmo muito, agradável surpresa. Jim Starlin estava a começar, sendo o Capitão Marvel o seu primeiro grande trabalho na BD, e logo de partida cria um dos mais memoráveis vilões e mitologias da enorme tapeçaria que é o Universo Marvel – só posso pensar que a editora apenas poderá agradecer financeiramente a este e outros gigantes que lhes deram estas histórias, com que agora entretêm públicos maiores. Não só o enredo atinge excessos maravilhosos de demência imaginativa, refletindo em muito o espírito iconoclasta e místico da década onde nascia (a de 70), como é alicerçado num tipo de diálogos quase-shakespearianos de que a editora era forte usuária. Tudo funciona nestes primeiros capítulos da Saga de Thanos e não são apenas os meus olhos pintados do cor-de-rosa da boas recordações de infância. Uma leitura muito boa para fãs dos Vingadores da BD e do Cinema.

Fables vol. 19: Snow White de Bill Willingham e Mark Buckingham
(contém spoilers no final do terceiro parágrafo)



Infelizmente o fim está próximo. Um dos meus livros favoritos a serem publicados na BD americana, este Fables da editora Vertigo, está prestes a chegar ao fim. E este 19.º volume já começa a cheirar a despedidas e a um longo choro de adeus.

Como dizia alguém em jeito de comentário ao título, quando um volume desta saga tem o nome de um dos personagens algo de verdadeiramente trágico pode estar para acontecer ao dito cujo ou a entes queridos próximos. Se acontece ou não isso agora não interessa para nada, mas nota-se, desde já, que Willingham prepara a sua despedida e tece as últimas palavras que terá a dizer acerca deste mundo que criou há mais de dez anos. Um mundo delicioso, onde coabitam todos os contos de fada que alguma vez foram contados junto à lareira, ou sussurrados para nos ajudar a adormecer. Pelas nossas mães. Pelos nossos pais. Pelos nossos avós. 

Mas estes não são os personagens e contos a que estávamos habituados. Aqui, (spoilers para quem nunca leu ou não quer saber pormenores mais adiantados) a Branca de Neve casou com o Lobo Mau e tiveram uma legião de filhos, herdeiros do aterrador Vento do Norte. E é exatamente sobre este pequeno mas poderoso agregado familiar que incide a história deste importante 19.º volume.


Que mais posso dizer de uma BD que já elogiei muitas e repetidas vezes? Continua boa? Sim. Tenho pena que vá acabar? Um grande sim. Este é mais um excelente volume? Podem ter a certeza que sim.

Panini Portugal - Homem-Aranha Superior # 1

Quando nos EUA, há cerca de um ano e meio, foi revelado o nome de uma nova revista mensal para o Homem-Aranha, o mistério adensou-se e preocupou os vários fãs do já cinquentenário super-herói. Acontece que os fiéis seguidores do aracnídeo têm algumas razões para se preocuparem. Ao longo dos últimas cinco décadas eles têm sido francamente postos à prova. 

O Homem-Aranha é provavelmente o mais famoso personagem da editora Marvel, e com muita razão. Peter Parker, o alter-ego do personagem, não tinha particulares vantagens em ser super-herói, o que, à altura, era uma considerável revolução no modo como se viam estes tipos de conceitos. Ser um "fazedor do bem" trazia consigo não um conjunto de benesses, mas antes dificuldades e tragédias. Peter Parker era um adolescente, órfão de pai e mãe, a viver com uma tia idosa e recorrentemente doente. Além disso, tinha problemas de dinheiro, de namoradas e era mal-tratado pelos colegas de liceu. Portanto, enfrentar o vilão du jour acabava por ser uma benesse para o seu difícil dia-a-dia.

Esta maravilhosa matriz, tão facilmente identificável pelo público alvo desta BD e, veio a revelar-se, pelo mundo inteiro em geral, acabaria por ser a maior vantagem e o maior detrimento do personagem. Mudar, nem que seja um átomo, disrruptava a essência e afastava Peter Parker daquilo que o faz tão famoso no mundo da literatura. Ainda assim, e à revelia de algum bom-senso, a editora mudou várias vezes o personagem, por vezes de tal forma que se viu obrigada a desfazer o que havia feito, tal a reacção extremada de muitos fãs. Peter Parker casou-se e, num acto de Deus (neste caso do Diabo), deixou de ser casado. A sua muito querida Tia May morre e, de repente, afinal não tinha falecido, mas antes sido afastada da vida do sobrinho pelas maquinações de um vilão. No princípio da década de 90, veio a descobrir-se que o Homem-Aranha dos últimos 15 anos era um clone. Mais tarde, após vários anos da infame Saga do Clone, a editora voltou atrás. Isto apenas para mencionar as mais polarizadoras.

Podem perceber o receio dos apreciadores do Aranhiço, quando o seu querido personagem estava no limiar de uma outra (prometia a editora) enorme mudança: a vinda do Homem-Aranha Superior. Nem a competente imaginação do escritor Dan Slott, convicto adorador do personagem e já um provado tecedor de grandes estórias para Peter Parker, sossegou os fãs. Quer antes, quer depois da revelação de quem estava por detrás da máscara.  

Os fãs do nosso Português vão poder apreciar e tirar as suas próprias conclusões  a partir da próxima quarta-feira, dia 19 de Fevereiro. Eu, que acompanho o original, já sei onde isto vai dar e, muito sinceramente, apreciei muito o percurso que Dan Slott desenhou, construindo uma run que, ao contrário do que seria de esperar,  não foi outra Saga do Clone

O que vou lendo! – Avengers Epic Collection vol. 9: The Final Threat

Não sei se será igual para todos, mas quando releio algo que, na juventude ou infância, teve um especial significado para mim, tenho uma de duas sensações: desapontamento ou encantamento. Com este 9.º volume da coleção da Marvel, Epic Collection, dedicada aos Vingadores, estive totalmente subjugado à segunda.

Os leitores mais velhos de BD lembrar-se-ão da publicação, deste período da vida dos Vingadores, nas saudosas revistas Heróis da TV e Grandes Heróis Marvel da Editora Abril. Na altura, terão sido dos primeiros contactos com alguns grandes desenhistas da BD americana: George Pérez e John Byrne (já tínhamos tido contacto com este último no Iron Fist, pelo menos). Contudo, o valor deste período não reside exclusivamente na qualidade dos desenhistas, mas nas histórias, que acabaram por marcar gerações e calcificar-se como A época da vida dos Vingadores. Estas são afirmações perigosamente radicais, mas reler os números individuais aqui compilados (do 150 ao 166 e mais umas coisitas), permitiu-me concluir algo muito importante: as histórias envelheceram bastante bem.

Já há muitos anos que andava a namorar a possibilidade de ter os originais das BD que me haviam causado tão boa impressão nos idos da década de 80. Aquelas maravilhosas histórias que envolviam os Vingadores clássicos como o Capitão América, o Thor, o Homem de Ferro, o Visão, a Feiticeira Escarlate, etc. Histórias onde defrontaram inimigos como o Conde Nefária, Ultron, Thanos, em suma, alguns dos mais tenebrosos nomes da galeria de vilões da Marvel. Tudo engendrado pelas mentes de Gerry Conway e Jim Shooter e pelas mãos artísticas de Byrne e Pérez, como já referi, mas também do grande John Buscema, o seu irmão Sal Buscema e o maravilhoso Jim Starlin. Estas mentes conseguiram agarrar na impressionante fundação lançada por Stan Lee, Jack Kirby, Roy Thomas e, novamente, John Buscema,  e construir uma das mais memoráveis runs destes heróis do Universo Marvel. Perguntam vocês, os que nunca as leram: mas por que é que estas histórias são assim tão boas? O conselho mais óbvio que vos posso dar é... leiam-nas e concluam por vocês mesmos. Contudo, também vos posso dizer que se tratam de momentos que ficaram para sempre gravados na minha memória, essa coisa que parece transparente quando nos lembramos de momentos da juventude: a saga da noiva de Ultron, um dos primeiros esforços de Jim Shooter com os Vingadores e um dos mais ricos e adultos, misturando a tragédia de Édipo Rei com uma outra, a de Hank Pym / Janet Van Dyne / Ultron (e quem é que não quer saber como é que é o vilão do próximo filme dos Vingadores?); o tempestuoso regresso de Wonder Man, que tantos dissabores trouxe para os recém-casados Visão e Feiticeira Escarlate (Wonder Man era Magnum em português... não o gelado, claro); o épico confronto com o proto-Super-Homem, Conde Nefária, numa batalha tão gigante que foi necessária a intervenção do Deus do Trovão, Thor, para pôr cobro aos avanços terroristas do vilão.

Este volume tem, ainda, uma outra curiosidade, principalmente para nós, leitores da Abril. A editora escolhia não publicar todas as histórias que saíam nos EUA, e esta época dos Vingadores foi particularmente vilipendiada. Quem de vocês não quer saber como se passou o confronto tripartido do supergrupo contra Attuma, Dr. Destino e Namor? Ou como foi o primeiro encontro com o enormemente poderoso Graviton, também criado por Jim Shooter que, junto com o já mencionado Conde Nefária, parecia determinado em crirar inimigos à altura do poderio desta coleção impressionante de super-heróis?

O volume acaba da melhor forma possível, com o primeiro grande confronto entre os Vingadores e aquele que certamente será o vilão do terceiro filme estrelando estes personagens: Thanos, o Titã Louco, enamorado pela personificação da Morte (quem viu a cena no meio dos créditos do primeiro filme já sabe de quem eu falo). É ele a Ameaça Final do título deste volume. É ele que representa o zénite das ameaças que os Vingadores  nasceram para prevenir. Os dois capítulos aqui incluídos, escritos e desenhados pelo grande Jim Starllin, criador de Thanos, são o culminar de uma outra saga, a de Warlock, e representa outro dos pontos altos das minhas leituras da década de 80.


Que gozo extraordinário foi reler estas histórias! É disto que o prazer é feito! Não preciso de muito mais! Que venham os próximos volumes da coleção Epic, uma das melhores ideias da Marvel dos últimos anos.