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Deadpool 2 de David Leitch

O segundo pode ser sempre o mais difícil. Principalmente depois de um primeiro filme sensação. Deadpool foi uma das surpresas do ano de 2016, maioritariamente para quem não conhecia a personagem. Quem já a lia na BD sabia perfeitamente no que se estava a meter. A Fox estava fora de si quando deixou os autores fazerem o que quisessem num  tipo de filme que, até então, era reservado aos jovens adultos e ao entretenimento familiar: o filme de super-heróis. Ou estavam distraídos, desesperados ou as duas coisas, porque o que saiu foi super-divertido, adulto e cheio de piadas para maiores de 18. Em suma, uma lufada de ar fresco. Ryan Reynolds fazia jus à sua pretensão de fazer o Deadpool que sempre quis e que precisava de ser feito (não aquela coisa abominável que apareceu no filme do Wolverine). Deadpool 2 é mais do mesmo, com uma escala maior, mais dinheiro, alguma repetição e muitas surpresas (alguma devastadoras e outras hilariantes).

Obviamente que o que funcionava bem no anterior é repetido neste, o que acaba por desgastar o entretenimento. Contudo, graças ao carisma das personagens e principalmente ao Deadpool de Reynolds, a história segue de forma frenética e divertida, entre momentos de acção e de piadas. O humor é puxado para cima, distribuindo oneliners e zingers a torto e a direito. Ninguém escapa ileso e a DC Comics, a distinta concorrência da Marvel, é alvo de quatro piadas (uma que já conhecem dos trailers e mais umas quantas, todas deliciosas - e eu sou um maior fã da DC que da Marvel). Conseguem-se alguns momentos inusitados que funcionam no contexto da história e do estilo do filme. Um deles envolve a equipa que Deadpool reúne, a X-Force, e que consegue ser um dos mais divertidos. 

O enredo é mais sólido e convincente que o do primeiro, com um terceiro acto mais interessante, provando que conseguiram fazer melhor uso do dinheiro disponível. Regressam todos os que participaram na versão anterior:  Colossus; a fabulosa Negasonic Teenage Warhead (mas ainda assim, pouco utilizada) Morena Baccarin; etc; e são adicionados novos bonecos como Cable, Domino, Yukio e surpresas que não quero estragar. 

Para os fãs da BD, existem easter eggs espalhados amiúde: referências directas a BDs; personagens que já era altura de aparecerem no grande ecrã; uma referência deliciosa ao criador do Deadpool, Cable e Domino, Rob Liefeld; e muito mais. A cena pós-créditos é uma das mais hilariantes de toda a história do cinema de super-heróis (provavelmente a melhor, ainda que seja necessário algum conhecimento para estar dentro da piada). 

Contudo, nem tudo são rosas. O efeito novidade desaparece um pouco e, tirando alguns momentos chave, essa sensação de repetição acontece por todo o filme. Cable acaba por ser uni-dimensional, o que é uma pena, isto depois de Josh Brolin nos ter dado um maravilhoso Thanos. A acção, quando apenas isso, é, regra geral, sem virtuosismo, mas quando misturada com o humor de assinatura Deadpool, melhora significativamente. Apesar de tudo isso, é um filme entretido, divertido e que continua a ser uma lufada de ar fresco. Venham a X-Force e um terceiro Deadpool.

Uma BD aqui, outra BD ali, 5

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Detective Comics números 969 a 971 de James Tynion IV, Joe Bennet e  Miguel Mendonça (DC Comics)

A revista que viu nascer o Batman continua a sua caminhada inexorável para o número 1000. James Tynion IV, desde o início do evento DC Rebirth, tem tomado as rédeas da escrita, focado-se não apenas no Cavaleiro das Trevas mas também, e essencialmente, nos seus ajudantes: Red Robin; Batwoman; Cassie Cain; Spoiler; Azrael; Batwing; Clayface. Formam uma equipa paramilitar com o óbvio intuito de trazer paz, lei e ordem às ruas caóticas da cidade mais criminosa do universo DC, Gotham City. Isto a despeito das forças democráticas de segurança. Ora é sobre este tema que parece focar-se a história incluída nestes números e que, conjuntamente, são três capítulos de uma saga apelidada de The Fall of the Batmen. O objectivo da história pode estar no título mas raramente assim o é.

Tynion aparenta escrever o culminar de enredos que começou na primeira página da sua sequência em Detective Comics. Muitas das personagens e eventos estão a confluir paraum final - nem que seja porque estamos a aproximar-nos do número 975, um marco sempre importante. A escrita é cativante, palavrosa (ao contrário de muitos comics os dele demoram a ler, graças a deus) e tem-se feito acompanhar de um conjunto de talentosos desenhistas. Este mês os portugueses têm o bónus, ao ver a arte de um conterrâneo seu, Miguel Mendonça, que já tinha agraciado as páginas dos últimos números da Mulher-Maravilha, versão Novos 52. A qualidade do trabalho continua a crescer a olhos vistos. É com enorme orgulho que vemos alguém tão talentoso da nossa pátria a trabalhar em ícones tão gigantes da cultura pop internacional. E o facto de estar a contribuir para uma das mais interessantes sequências de histórias da história recente do Batman é (quase) só um bónus.

X-Men - The Grand Design número 2 de Ed Piskor (Marvel)


Neste link escrevi sobre o primeiro número desta nova mini-série da Marvel com enfoque nos X-Men. O autor independente Ed Piskor tem por objectivo contar a história dos primeiros 300 números da revista Uncanny X-Men, um dos períodos mais marcantes do worldbuilding nos super-heróis dos EUA. Com este segundo número fecha uma das fases, comummente conhecida como a dos X-Men Originais. Logo a seguir viria a fase mais emblemática, a dos Novos X-Men, escrita maioritariamente por Chris Claremont e protagonizada por Wolverine, Tempestade, Nocturno, Kitty Pryde, Fênix, etc.

O objectivo de Piskor torna-se perfeitamente claro com este segundo número - que fecha a primeira de várias séries planeadas. O autor unifica toda(s) a(s) história(s), agregando-as sob o chapéu de algumas macro-histórias, nomeadamente as da perseguição dos mutantes por um cabal global e da reencarnação da entidade Fênix. Quem lê The Grand Design fica exactamente com essa sensação: de que sempre existiu um plano superior para toda a mitologia dos X-Men. Todos os enredos, todas as personagens, de forma directa ou indirecta, mais ou menos retorcida, contribuíram para um arco de história que ocupou mais de trinta anos. Piskor faz um trabalho quase documental mas cativante. Leitores velhos e novos ficarão agarrados a cada página. Para os primeiros readquire-se algum do lustro e mesmo da surpresa. Para os novos um deslumbramento de olhos inocentes. 

Agora espera-se pela segunda mini-série lá para os finais de 2018.

Uma BD aqui, outra BD ali, 3

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Phoenix Resurrection - The Return of Jean Grey número 1 de Matthew Rosenberg e Leinil Francis Yu (Marvel)

Uma das mais queridas histórias da BD dos EUA é a Saga da Fênix Negra, escrita por Chris Claremont e desenhada por John Byrne. Estes dois autores são uma das mais lendárias equipas de BD graças à colaboração nos X-Men e, especificamente, nesta conhecida saga - que culminou na morte da personagem Jean Grey/Fênix, uma heroína que sacrificava-se em prol do universo. Em termos de preferência dos leitores, e de acordo com o mais recente inquérito do site Comic Book Resources, esta história é apenas superada pelos Watchmen - reparem na importância. Entretanto, e como é natural nas histórias de super-heróis, Jean Grey ressuscitou, para morrer outra vez às mãos de outro grande escritor, Grant Morrison. Ora, era apenas uma questão de tempo para que, uma vez mais, Jean Grey voltasse à vida. É com pouca surpresa que a morte e inevitável ressurreição de qualquer super-herói é encarada. Uns vêem-na com naturalidade, outros com gozo e os mais sérios como parte integrante da mitologia.

Se é inevitável, sobra então a qualidade da "empreitada", porque é disso que falamos. Muitas destas histórias nascem de imperativos editoriais e pouco ou nada têm a ver com inclinação ou inspiração artística, chamemos-lhe assim. Nada de mal com isso, estas são personagens detidas por corporações. It's the name of the game, you vote with your wallet. A execução desta segunda ressurreição é pouco mais que uma obrigação contratual, desinspirada na escrita e, principalmente, no desenho. Jean Grey é uma de três ressureições (aparentemente) e qualquer uma das restantes não são tanto surpresas mas mais "a sério? Também estes? pois... lá está, já se esperava". Desperdício de talento e de papel. Faziam isto em um único número e poupavam-nos o trabalho de ler. Eu, por mim, leio a síntese algures pela net.

Savage Dragon números 227 a 230 de Erik Larsen (Image)


Quando um conjunto de artistas decidiu abandonar a Marvel no início da década de 90 para criar a sua própria editora, a Image, Erik Larsen estava entre eles. O compromisso de todos era produzir material concorrente às duas grandes. Durante algum tempo foi assim, até que a maior parte deles não conseguiu cumprir com prazos. Outros cometeram o maior dos crimes: lançaram ideias mal executadas e preguiçosas. Aos poucos, os leitores abandonaram a Image mas a revolução estava feita. A BD dos EUA nunca mais seria a mesma. Erik Larsen, contudo, lançou o seu Savage Dragon em Julho de 1992 e desde então não parou. Acompanhei a revista mensal nos primeiros 100 números, sensivelmente, regressei um tempo depois e voltei a abandonar. Larsen, como não gosta de perder leitores, tem feito esforços para os recuperar, com algumas chamadas de atenção mediáticas e demagógicas que me agarraram (sou um tonto!).

Voltar passados estes anos para uma BD da Marvel ou DC poderia significar não ver grande mudanças. Com Savage Dragon não é assim. Erik Larsen sempre fez questão de avançar as suas personagens à velocidade do tempo real e, portanto, a revista conta histórias desde há 25 anos neste mundo fictício. Ao reabrir estas páginas o Dragon original não existe mais, substituído pelo filho que já tem 20 anos, é casado e tem ele próprio três filhos. Uma das tais mudanças mediáticas foi que Malcolm (o filho) mudou-se com a sua família para o Canadá, porque Trump (sim, ele existe nesta BD) não quer extra-terrestres nos EUA.

Contudo, a grande mudança não é essa. Larsen abandonou qualquer pretensão infanto-juvenil e adolescente e abraçou uma visão mais "adulta". O sexo é explícito, as relações são maduras, a nudez um lugar-comum (principalmente a das mulheres, vá se lá saber porquê). Nada contra. O ritmo continua o mesmo, com uma ou duas páginas de um lado da história, automaticamente passando para outro de forma abrupta mas raramente desconcertante. Usa muito shock-value para tornar a história entretida e agarrar o leitor. Os truques são os mesmos. Umas vezes são interessantes, outras não. O que faz pena são os desenhos. Na larga maioria das vezes são preguiçosos, apressados e quase-esboços (faz lembrar Frank Miller dos dias de hoje e isso não é bom). Larsen é capaz de muito melhor e adorava voltar a ver isso. De uma forma geral, lê-se bem mas este artista é capaz de melhor.

Batman, Creature of the Night número 2 de Kurt Busiek e John Paul Leon (DC Comics)


Em 2004, Kurt Busiek e John Paul Leon publicaram uma das mais interessantes histórias sobre o Super-Homem chamada Secret Identity (que considerei aqui como uma das 10 melhores do Homem de Aço). Tratava-se de um twist curioso, uma simbiose entre o mundo "real" e fictício. Nele o Super-Homem era uma personagem de BD mas alguém do mundo real adquiria os seus poderes. A sensibilidade e emoção com que Busiek contava a história da personagem principal não só reflectia as aspirações e sonhos do autor, confesso apaixonado destas mitologias, como explorava de forma inédita o que significa o conceito de Super-Homem. Treze anos depois, os dois regressam ao conceito mas com o Batman neste Creature of the Night.  A base é a mesma mas com um arquétipo bem diferente, o do Cavaleiro das Trevas, que se empresta a interpretações mais sombrias.

Busiek e Leon navegam as fronteiras entre o real e o imaginário com a  elegância que já os tinha elevado no volume do Homem de Aço. É a história de um órfão inspirado pelas histórias aos quadradinhos do Homem-Morcego, de como a batalha contra o crime carrega uma mente marcada por uma tragédia. Serve como história e como comentário meta-textual sobre a importância destes ícones. Os super-heróis não são apenas fantasias de escape e de empoderamento. São também cautionary tales e contos moralistas, por vezes bússolas de ética. Os autores compreendem isso e passam essa "mensagem" sem serem pregadores, antes alicerçam-na numa história bem construída e estruturada. Avizinha-se outro triunfo por parte de Busiek e Leon. Venha a Mulher-Maravilha logo a seguir.

Uma BD aqui, outra BD ali, 1

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Dark Nights - Metal número 4 de Scott Snyder e Greg Cappulo (DC Comics)

Eu tenho uma paixão pela mitologia pura, não filtrada, dos super-heróis. Aquela em que a escala da luta é multi-universal, em que os vilões são a consumada encarnação do Mal, seres hiperpoderosos capazes de destruir a Realidade com um estalar dos dedos. Dark Nights  - Metal é isso e muito mais. É a Liga da Justiça, é o Super-Homem, é o Batman, é a Mulher-Maravilha, contra versões negras e maléficas do Homem-Morcego. É o palco escancarado da Cosmologia DC pronto a ser absorvido sem limites, como uma orgia em Las Vegas. Ou melhor, como um concerto metálico com todos as cabeças de cartaz dos vossos sonhos. Este número tem a  delícia de, uma vez mais, reescrever a Cosmogonia do multiverso da DC. Mas não é redundante, antes a evolução do trabalho de mestres como Marv Wolfman e Grant Morrison. Não é fácil de chegar a cada pormenor desta história porque é necessário ser doutorado em DC para perceber as implicações de cada palavra e de cada acção mas, ainda assim, é possível o leitor casual entreter-se (acho!). Scott Snyder e Greg Cappulo estão a divertir-se à brava e eu com eles. Nunca mais chegam os números cinco e seis, com a conclusão deste delírio orgiástico protagonizado pelos homens de collants.

Defenders (2017) número 8 de Brian Michael Bendis e David Marquez (Marvel)

Eu gosto do Bendis. Não de tudo, claro. Adorei o seu Ultimate Spider-Man, New Avengers e Demolidor. Não gostei dos seus Guardiões da Galáxia (o maior pecado na Marvel). Defenders é a sua praia. Tem Luke Cage, o seu herói favorito. Tem o Demolidor, que escreveu de forma soberba. Tem Jessica Jones, que criou para  Marvel. Tem o Punho de Ferro. É acção e intriga ao nível da rua, da criminalidade organizada. E, neste número oito, tem ainda Deadpool, com cuja voz Bendis safa-se muito bem. Defenders vai ser um dos adeus de Bendis à Marvel quando migrar para a DC. Ao ler estes primeiros oito números fico com uma gigantesca pena que não continue. Têm sido perfeitos, no que a mim diz respeito. Equilíbrio entre acção e a verborreia que caracteriza o escritor. Claro que é ajudado pelo traço e talento de David Marquez, que depois de Ultimate Spider-Man e Guerra Civil II atinge aqui outros níveis de excelência. De perfeição. Não tem existido, até à data, um único número abaixo de uma elevada fasquia de qualidade. É o canto do cisne apropriado para a Marvel de Bendis.




X-Men - The Grand Design número 1 de Ed Piskor (Marvel)

Um dos grande dramas de quem gosta dos X-Men é tentar convencer a namorada, namorado ou amigos a lerem-nos. Invariavelmente, terá de dizer: "aquilo lê-se muito bem mas é complicado". X-Men é O teste definitivo de resiliência dos que querem entrar na BD dos EUA. Os 50 anos de história(s) cresceram para um nível de complexidade apenas equiparável à Teoria Quântica. Ed Piskor é conhecido da BD alternativa com a obra Hip-Hop Family Tree mas, como o próprio o diz, antes de entrar no mundo autoral (termo que não gosto mas assim simplifico-vos a vida) adorava X-Men. Principalmente os 300 primeiros números da revista Uncanny X-Men. Quando foram escritos e desenhados por mestres como Stan Lee, Jack Kirby, Neal Adams, Roy Thomas, Len Wein, Dave Cockrum, Chris Claremont, John Byrne, Paul Smith, John Romita Jr., Marc Silvestri, Jim Lee, Arthur Adams, etc, etc, etc. Chris Claremont, principalmente, escreveu durante 16 anos a revista dos mutantes da Marvel e construiu uma mitologia incomparável. Complexa mas sedutora. Complicada mas inebriante. A ele a Marvel e a cultura pop devem uma dívida gigantesca. Ed Piskor propõe-se resumir, ao longo de seis números, esses 300 números de histórias. Se este primeiro é prova do que aí vem, os fãs já não terão desculpas para não introduzir novos leitores aos X-Men. Ed Piskor está a tratar disso, numa BD que será de leitura obrigatória para fãs destes mutantes, de BD e de world building. Mitologia moderna é isto. Venham os números que seguem (um obrigado ao Gonçalo pela sugestão).

Logan de James Mangold

Dizem que chega ao fim. Dizem que Hugh Jackman encerra a sua prestação como Wolverine e que Patrick Stewart diz adeus aos poderes psíquicos do Professor X. Para os que não conhecem, falamos de dois personagens do grupo de super-heróis da editora Marvel, os X-Men, mutantes por nascença e perseguidos (não) por opção. O que são os mutantes? Segundo a mitologia criada por Stan Lee e Jack Kirby e desenvolvida por Chris Claremont, John Byrne, Len Wein e Dave Cockrum, mutantes são a evolução da Humanidade, o que o Homo Sapiens Sapiens foi para o Homo Sapiens Neanderthalensis. Os mutantes são o Homo Superior, o novo estado na evolução, uma espécie melhor adaptada. 

Graças aos autores que enumerei, os X-Men têm sido, de forma continuada, um dos maiores sucessos da editora de BD dos EUA, dando origem a spinoffs, desenhos animados, merchandise, jogos de computador e, claro, a muitos e muitos filmes. Começou em 2000, com o primeiro a ser realizado por Brian Singer, arauto da maior mania do Cinema do século XXI: os super-heróis. À altura, a Marvel ainda não era o poderio cinematográfico que de hoje e vendeu os direitos de adaptação à Fox, que continua, inexoravelmente, a lançar filme após filme (muito para descontentamento da editora, que já mais que uma vez tentou recuperar os direitos). Tal como na BD, Wolverine acabou por transformar-se num sucesso por si mesmo, não só graças ao personagem mas também ao carisma de Hugh Jackman. Para ser totalmente sincero, o actor era o um dos poucos elementos que salvava os dois filmes anteriores.  O primeiro era uma obra-prima do sofrível e do incoerente. O segundo tem bastante mais lustro (não era difícil) mas, ainda assim, longe da BD e da obra que procurava adaptar (I, Wolverine de Chris Claremont e Frank Miller, publicada recentemente pela Salvat na coleção Graphic Novels da Marvel).

Eis que surge Logan de James Mangold, apresentado com o pedigree de também adaptar uma obra da BD: Old Man Logan de Mark Millar e Steve McNiven (publicada pela Levoir junto com o jornal O Público), onde estes dois autores avançavam no tempo para nos retratar um Wolverine idoso e derrotado. A banda desenhada era um exercício típico de Millar: uma "grande ideia" com execução cinematográfica - grandes paisagens, momentos surpreendentes e tragédia operática. O enredo de Logan apenas partilha com esta BD da idade do personagem principal. Tudo o resto diverge fortemente. Os anos passaram e Wolverine é um homem completamente diferente, cansado, com o corpo a funcionar lentamente, uma miragem do vigor da juventude. Com ele habitam um Professor X também debilitado e Caliban. Paralelamente, entra em cena uma nova mutante, jovem com características familiares a Wolverine, perseguida por uma organização de propósitos poucos benévolos.

Logan foi classificado "para adultos" e todos os envolvidos fazem bom uso dessa etiqueta, aumentando os palavrões (a primeira palavra do filme logo o sublinha), a complexidade das emoções e a violência. Num filme que tem como protagonista um guerreiro ultra-violento com garras, a violência é primeira natureza e Mangold explora-a à exaustão. Existem inúmeras sequências de brutalidade sanguinária como quase nunca se viu em nenhum filme de super-heróis (e mesmo em muitos filmes de guerra). Mas isto pouco mais seria do que apontamentos de estética se o enredo, realizador e actores não entregassem uma história com peso. O que é o caso. A passagem do tempo e o obsoletismo são o tema deste Logan, sublinhado em vários momentos de relevância e peso variáveis. A diferença entre a maturidade (por vezes niilista) e a capacidade para esperança da juventude são um dos mais interessantes aspectos deste Logan, com Wolverine como centro desta reflexão. Esta é uma história sobre deixarmo-nos ir, mesmo quando temos um factor de cura que nos torna quase imortais.  É sobre envelhecer e partir, deixando a esperança de um mundo diferente e melhor para os que se seguem. É um filme de acção para adultos, violento e o adeus de um actor a um personagem cuja pele vestiu durante 17 anos. Que venha o próximo Wolverine (eu, por mim, voto em Tom Hardy - agora é altura de termos um Logan baixinho e louco). 

As (minhas) melhores histórias do Wolverine!

Escolher as melhores histórias de Wolverine é uma tarefa, para mim, ao mesmo tempo complicada e fácil. Primeiro porque existe um número bastante considerável de livros publicados com Logan como personagem principal ou secundário e, ficam avisados, não li nem um átomo dos disponíveis. Segundo, as histórias estendem-se por longos períodos de tempo, com conexões e cruzamentos entre elas, fazendo bom uso da serialização que funciona como vantagem e, ao mesmo tempo, detrimento da mitologia dos super-heróis. É difícil isolar um momento no tempo com um claro princípio, meio e fim. Ainda assim, e com este personagem, a tarefa não é insuperável.

Ao longo dos seus primeiros 30 anos de vida, uma das características mais interessantes de Wolverine residiu no mistério em que o seu passado estava envolto. Proliferavam os enigmas e as contradições, pessoas e eventos eram revelados a conta gotas e de forma críptica, pintando um puzzle desconexo (porque, vamos ser honestos, sem plano)  mas cativante. Parte da “mística” do personagem residia em acompanhar esta lenta descoberta. Por isso tento apresentar os contos que mais gosto de forma a melhor aproveitar essa particularidade, ou seja, não na cronologia de vida da personagem mas na forma como esse mistério foi apresentado aos leitores.

A Saga da Fênix Negra e Dias de Um Futuro Esquecido de Chris Claremont e John Byrne

Estas histórias, emblemáticas no universo dos super-heróis (pelos autores, pelos personagens, pelo enredo), são excelentes pontos de entrada para conhecer o universo de Logan e, já agora, dos X-Men. Não são histórias do Wolverine mas antes do grupo de super-heróis com o qual é mais associado, escritas e desenhadas pela mais importante equipa de artistas que neles trabalharam, os responsáveis pela fama de que ainda hoje gozam. Paulatinamente, é revelada a personalidade de Wolverine, uma natureza animalesca e violenta temperada por um coração bondoso e doce. Nestas obras, ocorre o momento-chave em que o potencial do personagem é descortinado (desafio-vos a descobri-lo). Ambas as sagas foram publicadas em Portugal pela Levoir/Público.

Eu, Wolverine de Chris Claremont e Frank Miller

A primeira aventura a solo de Wolverine, escrita por um do seus mais importantes criadores e desenhada pelo lendário Frank Miller, o mesmo de 300 e Sin City - inspiração (mas só isso) para o segundo filme do personagem. A mitologia de Wolverine ganha corpo, com a exploração da sua ligação à cultura japonesa e, especificamente, aos samurais - a contradição da violência junto com a honra colam-se na perfeição a Logan. Por outro lado, temos o prazer de ver um dos mais interessantes trabalhos de Frank Miller (cujo passado a escrever e a desenhar ninjas teve alguma coisa a ver com ter sido escolhido para esta história) que, a titulo de curiosidade, é o primeiro a desenhar as garras do personagem como espadas e não tanto como espigões. Esta história existe em português de Portugal, numa versão da editora Devir e outra, mais recente, da colecção Graphic Novels da Salvat.

Arma X de Barry Windsor Smith

Como é que o Wolverine conseguiu as garras e esqueleto inquebráveis? Esta é a história que descreve a experiência inumana à qual Logan é sujeito, a traumatizante dor física e psicológica de que é alvo, enquanto um grupo de cientistas de uma instituição governamental o usam como cobaia num processo de criação do super-soldado. Escrita e desenhada por um artista no seu apogeu, tratou-se de um marco no personagem, ao contar, de forma definitiva, como as garras de metal inquebrável foram criadas mas, acima de tudo, é um extraordinário momento de literatura. Foi também publicada pela Levoir/Público.






Wolverine, Inimigo do Estado de Mark Millar e John Romita JR

 Este é o filme que deveria ser feito sobre Wolverine. Mas como existe em BD, podem lê-lo na melhor forma possível. A premissa é operática, tal como muitas da escrita de Millar: e se um vilão se apoderasse física e mentalmente de Wolverine e o usasse para a sua agenda? O que acontece é um massacre de proporções épicas enquanto a arma viva e indestrutível que é Logan avança como uma força bíblica pelo universo Marvel, cortando, dilacerando, inexoravelmente, de encontro ao seu alvo. Entretenimento no seu melhor publicado em Portugal pela Devir.




Logan de Brian K. Vaughan e Eduardo Risso

Só pelos dois artistas envolvidos já vale a pena ir a correr à vossa livraria e comprar esta edição portuguesa da G.Floy. A sinopse diz "Wolverine viaja até uma misteriosa montanha no Japão, para tentar conseguir fazer as pazes com os fantasmas de um terrível incidente do seu passado quase esquecido, um momento no tempo que o recriou, nas chamas do amor, da morte e da destruição". Mas isto não interessa quase nada porque é escrita por Vaughan e desenhada por Risso. Só por isso já é obrigatória.




A Origem de Paul Jenkins e Andy Kubert

É exactamente o referido no título. Sem confusões ou meias palavras, são revelados os primeiros anos de Wolverine, o seu verdadeiro nome (não é Logan), a infância, a descoberta de que é mutante. O pacote é especialmente embelezado pelas palavras de Jenkins e pelos desenhos de Kubert que, segundo as directivas editoriais da altura (início do século XXI), decidem finalmente revelar um dos segredos mais bem guardados da BD. As revelações são inusitadas e, mais uma vez, contribuíram para o crescendo da mitologia do personagem. Publicada pela Devir e pela G.Floy em Portugal.






A Morte de Wolverine de Charles Soule e Steve McNiven

Sim, aconteceu e (surpresa) ainda não foi revertida. Como é já perfeitamente normal e portanto um cliché na mitologia dos super-heróis, a Marvel tinha que publicar a morte do Wolverine. Aconteceu em 2014, quase desprovido dos seus poderes mutantes, Logan enfrenta os piores vilões e acaba por cair. A história é encomendada (como é óbvio) mas graças ao talento dos artistas envolvidos não é apenas um evento para "marcar calendário". Desde então, surgiram não um mas dois substitutos: uma versão feminina, X-23 (que, aliás, aparece neste novo filme);  uma outra do futuro e mais velha (vejam a próxima sugestão). Até hoje, os fãs continuam à espera do regresso do "one and true" Wolverine, mas a Marvel já fez saber que as novas versões, principalmente a feminina, são para ficar. Ainda não publicado em Portugal.

Velho Logan de Mark Millar e Steve McNiven

E se acabássemos estas sugestões com uma história passada num futuro (alternativo, claro está, porque Wolverine está morto)? Onde o personagem está não só velho, casado e com filhos, como também derrotado, anémico, destituído de vontade de lutar, resignado a uma vida mediana? Neste futuro pós-apocalíptico, onde os vilões do universo Marvel venceram e dividiram o mundo entre si, Wolverine foi ludibriado a perpetrar um dos mais hediondos crimes contra a super-humanidade. Caído em desgraça, um trapo, um fantasma da sua anterior personalidade, esta é a história da lenta recuperação (obviamente). Com inspiração em vários filmes do género de vingança, faroeste e futuros distópicos, este é o Wolverine protagonizado por um Clint Eastwood um pouco mais novo, a percorrer uma paisagem ao estilo Mad Max meets Once Upon a Time In The West. Dizem que este último filme, Logan, inspirou-se na obra. Publicada pela Levoir/Publico.

X-Men: Apocalypse de Bryan Singer



Será que há filmes de super-heróis a mais? Este ano foram já o Deadpool, Batman v Superman, Captain America: Civil War, este X-Men: Apocalypse e ainda faltam Suicide Squad e Dr. Strange. Isto apenas para falar da 7.ª Arte, porque na TV são cada vez em maior número as séries baseadas em personagens e livros de BD. Quando comecei, há pouco mais de 35 anos, a ler estes universos, fazia parte de um número restrito de pessoas e aquilo que adorava era conhecido por poucos e relegado ao plano do marginal por outros. Hoje é ubíquo. Existem em todo o lado. Será que "too much of a good thing" irá estragar o prazer? E eis que chega este X-Men: Apocalypse, um perfeito exemplo não só do que falo como também de outro fenómeno que começa a notar-se neste tipo de filmes: a proximidade em relação à BD. Mas, perguntam vocês, e tendo em consideração a minha paixão  pelo tema, não é isso bom?

Este filme fecha uma segunda trilogia de adaptações cinematográficas do universo dos X-Men da Marvel detido pela produtora Fox. O primeiro filme da primeira trilogia, também realizado por Bryan Singer, datado de 2000, foi um dos inauguradores desta vaga de filmes de super-heróis que dura há quase 20 anos. A distância entre aquele e este é abissal, com as histórias a ficarem mais complexas, com mais personagens e, devido ao sucesso financeiro destes filmes, com  muito mais orçamento. O que nem sempre é algo de bom. Os nossos amigos dos EUA são capazes de tudo, do melhor e do pior e, quando vêem-se com dinheiro "sem limites" podem enveredar pelo caminho do "quanto mais, melhor". Pergunto-me se este X-Men: Apocalypse não é um pouco (muito?) disso.

Os arcos de história que envolvem vários dos personagens desta nova trilogia parecem conseguir algum tipo de fecho, principalmente aqueles interpretados pelos actores mais relevantes: Fassbender como Magneto (provavelmente o melhor deste filme); Jennifer Lawrence como Mystique; James McAvoy como Charles Xavier. Estes são a tão necessária âncora emocional neste excesso de mutantes, efeitos especiais e caos. Excesso porque o que não faltam são muitos personagens, novos e velhos, muitas batalhas de pirotecnia e carnaval espectaculares, muitos efeitos especiais estonteantes. Tudo é muito, ao ponto de questionar-me se não será demais. Até que limite do digital podemos ir sem que não nos sentimos a ver um jogo de computador e menos algo "real"? Apesar, ou melhor, por causa da premissa verdadeiramente extravagante que são os super-heróis, é necessário algo humano que agarre-nos ao mundo, geralmente algo ligado às emoções e a uma verdade profunda, caso contrário corremos o risco de perder o norte e afundar neste universos fictícios. Neste filme, apesar de estar plenamente confortável nas referências que desfilavam (era BD pura), perguntava-me se, para o espectador menos habituado, tudo não era excessivo. Talvez não, porque estes espectáculos continuam a fazer muito e mais dinheiro e os estúdios anunciam cada vez mais e mais projectos. 

Parece que não gostei do filme, não é? Nada mais longe da verdade. Adorei, mas eu faço parte do público-alvo perfeito, porque este X-Men: Apocalypse é um fato talhado à minha medida, à medida de quem gosta de BD de super-heróis e lê-a há muitos anos. Existem muitos mutantes, aparecimentos fugazes de vários personagens, enredo tipicamente super-heroístico (o recrutamento dos Quatro Cavaleiros do Apocalypse é BD de super-heróis vintage) e um vilão maior que a vida. Este último, especialmente, é um delicioso exemplo de como nós, da BD, estamos habituados a inimigos extravagantes, incrivelmente maléficos mas cuja densidade dramática e psicológica não vai muito para além de "quero conquistar o mundo porque posso". Não se iludam, o Apocalypse da BD é exactamente assim, mesmo aquele da memorável e muito divertida saga da década de 90, Age of Apocalypse. Finalmente, tenho que destacar o trabalho feito com Jean Grey (a preparar o quarto filme, já anunciado), o Nocturno e, novamente, o Mercúrio (Quicksilver, no original). por outro lado, foi pena personagens como o Anjo, Psylocke e a Tempestade (todos vilões) terem tido pouco tempo para crescerem. É esperar pelo próximo. 

BD é tempo e noite.

"Before the beginning was the night. And the night was without boundaries and the night was without end. 


In the beginning was time. The relentless beat in which things could happen, in which everything could become, dust could coalesce, matter could exist."

Capítulo quatro de Sandman Overture, escrito por Neil Gaiman.

Desenhos de Jim Lee.

Fênix, aka Marvel Girl, aka Jean Grey dos X-Men


Dr. Destino, aka Victor Von Doom 


Batman, Hera Venenosa e Mulher-Gato


Quarteto Fantástico


Mulher-Maravilha, Super-Homem e Batman


Batman


Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 20.º Volume: Vingadores e X-Men parte II

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Difícil mas…

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 20 de Novembro, junto com Público e custa 8,9€


Quando os heróis já enfrentaram por diversas vezes os seus habituais inimigos fica difícil inovar. Ao mesmo tempo, uma das histórias com quase tanta barba quanto a do aparecimento do super-herói é a do confronto entre dois ou mais super-heróis. Quantas e quantas vezes o Super-Homem encontrava-se com, por exemplo, o Capitão Marvel (não sabem quem é? Para o efeito, não interessa), e a primeira reação de ambos era a de desentendimento, seguida do confronto e, só depois, da junção para enfrentar o verdadeiro problema, geralmente um super-vilão. Existe um lado muito atraente para os fãs em ver personagens que são geralmente aliados a lutarem um contra o outro. Não só ajuda a responder à juvenil pergunta de “quem é o mais forte?” como possui uma carga dramática verdadeiramente cativante.

A editora Marvel, nos últimos 10 anos, tem levado este confronto para um lado inesperado, não se cingido aos eventuais desentendimentos mas indo mais longe, para o lado das diferenças filosóficas entre heróis. Este rol de encontros começou com Dinastia M, onde os Vingadores estavam de um lado diferente do dos X-Men. Continuou, desta vez só com os Vingadores, com a Guerra Civil (ambas estas histórias foram publicadas pela Levoir) e com as consequências da mesma – e que, ao que parece, serão adaptadas no terceiro filme do Capitão América, já que a base da titular guerra era a do confronto entre o Sentinela da Liberdade e o seu colega Vingador, o Homem de Ferro. Alguns anos e muitas histórias e sagas depois, eis que surge um confronto paradoxal mas esperado entre duas das maiores equipas da Marvel. Esta é a história que imediatamente antecede as publicadas nas revistas mensais da Panini Portugal, nomeadamente as dos Vingadores e dos X-Men, e funciona como importante complemento para perceber o ponto onde se encontra, principalmente, a equipa de mutantes.

São vários os escritores e desenhistas que trabalharam nesta saga, que sofre de vários defeitos, ainda que tenha importantes virtudes. Algo pelo qual não tenho particular afinidade é exatamente o facto de ser trabalhada por vários autores que, ainda que detentores de enorme talento, acabam por contribuir para um todo incoerente – cheira ao trabalho de encomenda que na realidade é. Por outro lado, é o culminar de uma multitude de outras histórias vindas de outros volumes (como Dinastia M), obrigando a um enciclopédico conhecimento dos meandros em que estes estes personagens se movimentaram na última década. Não que isso não deva funcionar como detrimento, como aliás sempre digo no final de cada um destes posts. Por outro lado, as vantagens residem nas mesmas características que são também defeitos. Não só estamos defronte do trabalho de alguns dos mais interessantes escritores e desenhistas de BD de super-heróis, como muita da magia da mitologia dos personagens reside no conturbado historial que os rodeia. Em suma, uma maneira curiosa de culminar esta coleção da Marvel de 2014: não com um Fim mas sim com um Continua…

Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.


Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 19.º Volume: Vingadores e X-Men parte I

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Difícil mas…

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 13 de Novembro, junto com Público e custa 8,9€


Quando os heróis já enfrentaram por diversas vezes os seus habituais inimigos fica difícil inovar. Ao mesmo tempo, uma das histórias com quase tanta barba quanto a do aparecimento do super-herói é a do confronto entre dois ou mais super-heróis. Quantas e quantas vezes o Super-Homem encontrava-se com, por exemplo, o Capitão Marvel (não sabem quem é? Para o efeito, não interessa), e a primeira reação de ambos era a de desentendimento, seguida do confronto e, só depois, da junção para enfrentar o verdadeiro problema, geralmente um super-vilão. Existe um lado muito atraente para os fãs em ver personagens que são geralmente aliados a lutarem um contra o outro. Não só ajuda a responder à juvenil pergunta de “quem é o mais forte?” como possui uma carga dramática verdadeiramente cativante.

A editora Marvel, nos últimos 10 anos, tem levado este confronto para um lado inesperado, não se cingido aos eventuais desentendimentos mas indo mais longe, para o lado das diferenças filosóficas entre heróis. Este rol de encontros começou com Dinastia M, onde os Vingadores estavam de um lado diferente do dos X-Men. Continuou, desta vez só com os Vingadores, com a Guerra Civil (ambas estas histórias foram publicadas pela Levoir) e com as consequências da mesma – e que, ao que parece, serão adaptadas no terceiro filme do Capitão América, já que a base da titular guerra era a do confronto entre o Sentinela da Liberdade e o seu colega Vingador, o Homem de Ferro. Alguns anos e muitas histórias e sagas depois, eis que surge um confronto paradoxal mas esperado entre duas das maiores equipas da Marvel. Esta é a história que imediatamente antecede as publicadas nas revistas mensais da Panini Portugal, nomeadamente as dos Vingadores e dos X-Men, e funciona como importante complemento para perceber o ponto onde se encontra, principalmente, a equipa de mutantes.

São vários os escritores e desenhistas que trabalharam nesta saga, que sofre de vários defeitos, ainda que tenha importantes virtudes. Algo pelo qual não tenho particular afinidade é exatamente o facto de ser trabalhada por vários autores que, ainda que detentores de enorme talento, acabam por contribuir para um todo incoerente – cheira ao trabalho de encomenda que na realidade é. Por outro lado, é o culminar de uma multitude de outras histórias vindas de outros volumes (como Dinastia M), obrigando a um enciclopédico conhecimento dos meandros em que estes estes personagens se movimentaram na última década. Não que isso não deva funcionar como detrimento, como aliás sempre digo no final de cada um destes posts. Por outro lado, as vantagens residem nas mesmas características que são também defeitos. Não só estamos defronte do trabalho de alguns dos mais interessantes escritores e desenhistas de BD de super-heróis, como muita da magia da mitologia dos personagens reside no conturbado historial que os rodeia. Em suma, uma maneira curiosa de culminar esta coleção da Marvel de 2014: não com um Fim mas sim com um Continua…


Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.