Mostrar mensagens com a etiqueta Scott Snyder. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Scott Snyder. Mostrar todas as mensagens

Uma BD por dia, não sabe o bem que lhe fazia - até ao primeiro dia de 2020!



Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, mas só agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Na semana do MOTELx, festival de cinema de terror de Lisboa, ficam umas sugestões de BDs desse lado tenebroso da literatura.

Uma BD aqui, outra BD ali, 25 - Liga da Justiça

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei. Só isso: gostado. Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

Justice League (2018) número 7 de Scott Snyder e Jim Cheung (DC Comics)

Chega ao fim o primeiro grande arco de história do escritor Scott Snyder na Liga da Justiça. Nos desenhos teve a colaboração de Jim Cheung e Jorge Jiménez e, num interlúdio, o argumento de James Tynion IV com Doug Mahnke na arte. E como é que se safou nestes primeiros números? 

Uma BD aqui, outra BD ali, 21 - Liga da Justiça

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! É um prazer que rezo para nunca acabar. De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei. Só isso: gostado. Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

Justice League (2018) número 1 de Scott Snyder e Jim Cheung (DC Comics)

Os super-heróis são uma novela interminável. Uma história que nunca acaba verdadeiramente. É algo que faz parte da mitologia e que funciona a seu favor e contra. Os artistas que trabalham neles têm que lidar com esta realidade - que se tem agravado nos últimos tempos. Quer a DC, quer a Marvel, para estimular as vendas, perpetuam essa novela, aliciando a próxima história no final de outra. É um ciclo autofágico que, por vezes, tem bons resultados e, por outras, não. Tudo depende da qualidade  da história e do talento dos artistas.

Uma BD aqui, outra BD ali, 20

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! É um prazer que rezo para nunca acabar. De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei. Só isso: gostado. Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

Justice League: No Justice números 1 a 4 de vários (DC Comics) e Amazing Spider-Man número 800 de vários (Marvel)


Os leitores de BD debatem-se com a questão do que é mais importante: a escrita ou o desenho. É uma variação do que é melhor para a pizza: a massa ou o que vai para cima dela. Este debate leva a situações interessantes, como o facto de na França o nome do desenhador aparecer primeiro que o do escritor e nos EUA ser o contrário.

Uma BD aqui, outra BD ali, 13


Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Dark Nights: Metal número 6 de Scott Snyder e Greg Cappullo (DC Comics)

Nos últimos tempos a DC ou ficou descarada ou desesperada. Abraçaram todas as idiossincrasias e contradições da sua linha editorial, desde o universo de super-heróis até à Vertigo (onde publicaram o Sandman), e  enveredaram pela junção de ambas num todo narrativo. Dark Nights: Metal de Snyder e Cappullo é isso, com uma carrada de divertimento metido pelo meio. É grande, é barulhento, é garrido, é, como dizem os autores, um concerto rock à antiga com o som puxado à séria para cima.

DN:M é descaradamente e sem remorsos uma história de pura pornografia super-heroística DC. A narrativa pode ser desfrutada por todos mas integralmente percebida apenas por alguns "iluminados", geeks como eu, que conhecem cada minúcia da História, histórias, cosmologia e cosmogonia da editora. É uma salada russa com multiversos, versões alternativas de super-heróis, um Mal Maior Que Qq Coisa Já Vista, heroísmo  à antiga, sem concessões ou ambivalências, em suma, uma história de super-heróis como elas merecem ser.

DN:M chegou ao final com este número seis e agora posso dizer, sem reservas, que é um daqueles raros eventos de super-heróis que merecem o hype. Prometeu ser um terramoto para o multiverso da DC e assim o foi. Saímos da última página com os olhos abertos para uma imensidão de oportunidades e terreno por desbravar. Como escreve Snyder: o actual multiverso DC é um aquário despejado num Oceano. E agora vamos explorar essa imensidão. Mas desenganem-se se pensam que DN:M é apenas um monte de enredos sem coração. Esse fica a cargo, primeiro, da minha Diana, a Mulher-Maravilha, que tem um dos grandes momentos do seu historial, e depois, claro, do Batman, o catalisador narrativo de Metal. Ambos têm momentos inesquecíveis e clássicos instantâneos. 

Nas últimas páginas somos presenteados com uma promessa e um elogio. A promessa é a do oceano à espera dos nossos heróis. O elogio é à antiga DC, aquela dos super-amigos, dos sorrisos e do companheirismo entre heróis. DN:M começou com as notas da música celestial e acaba com os acordes de uma canção clássica rock 'n' roll. Vamos ouvir e dançar todos juntos.

Uma BD aqui, outra BD ali, 1

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Dark Nights - Metal número 4 de Scott Snyder e Greg Cappulo (DC Comics)

Eu tenho uma paixão pela mitologia pura, não filtrada, dos super-heróis. Aquela em que a escala da luta é multi-universal, em que os vilões são a consumada encarnação do Mal, seres hiperpoderosos capazes de destruir a Realidade com um estalar dos dedos. Dark Nights  - Metal é isso e muito mais. É a Liga da Justiça, é o Super-Homem, é o Batman, é a Mulher-Maravilha, contra versões negras e maléficas do Homem-Morcego. É o palco escancarado da Cosmologia DC pronto a ser absorvido sem limites, como uma orgia em Las Vegas. Ou melhor, como um concerto metálico com todos as cabeças de cartaz dos vossos sonhos. Este número tem a  delícia de, uma vez mais, reescrever a Cosmogonia do multiverso da DC. Mas não é redundante, antes a evolução do trabalho de mestres como Marv Wolfman e Grant Morrison. Não é fácil de chegar a cada pormenor desta história porque é necessário ser doutorado em DC para perceber as implicações de cada palavra e de cada acção mas, ainda assim, é possível o leitor casual entreter-se (acho!). Scott Snyder e Greg Cappulo estão a divertir-se à brava e eu com eles. Nunca mais chegam os números cinco e seis, com a conclusão deste delírio orgiástico protagonizado pelos homens de collants.

Defenders (2017) número 8 de Brian Michael Bendis e David Marquez (Marvel)

Eu gosto do Bendis. Não de tudo, claro. Adorei o seu Ultimate Spider-Man, New Avengers e Demolidor. Não gostei dos seus Guardiões da Galáxia (o maior pecado na Marvel). Defenders é a sua praia. Tem Luke Cage, o seu herói favorito. Tem o Demolidor, que escreveu de forma soberba. Tem Jessica Jones, que criou para  Marvel. Tem o Punho de Ferro. É acção e intriga ao nível da rua, da criminalidade organizada. E, neste número oito, tem ainda Deadpool, com cuja voz Bendis safa-se muito bem. Defenders vai ser um dos adeus de Bendis à Marvel quando migrar para a DC. Ao ler estes primeiros oito números fico com uma gigantesca pena que não continue. Têm sido perfeitos, no que a mim diz respeito. Equilíbrio entre acção e a verborreia que caracteriza o escritor. Claro que é ajudado pelo traço e talento de David Marquez, que depois de Ultimate Spider-Man e Guerra Civil II atinge aqui outros níveis de excelência. De perfeição. Não tem existido, até à data, um único número abaixo de uma elevada fasquia de qualidade. É o canto do cisne apropriado para a Marvel de Bendis.




X-Men - The Grand Design número 1 de Ed Piskor (Marvel)

Um dos grande dramas de quem gosta dos X-Men é tentar convencer a namorada, namorado ou amigos a lerem-nos. Invariavelmente, terá de dizer: "aquilo lê-se muito bem mas é complicado". X-Men é O teste definitivo de resiliência dos que querem entrar na BD dos EUA. Os 50 anos de história(s) cresceram para um nível de complexidade apenas equiparável à Teoria Quântica. Ed Piskor é conhecido da BD alternativa com a obra Hip-Hop Family Tree mas, como o próprio o diz, antes de entrar no mundo autoral (termo que não gosto mas assim simplifico-vos a vida) adorava X-Men. Principalmente os 300 primeiros números da revista Uncanny X-Men. Quando foram escritos e desenhados por mestres como Stan Lee, Jack Kirby, Neal Adams, Roy Thomas, Len Wein, Dave Cockrum, Chris Claremont, John Byrne, Paul Smith, John Romita Jr., Marc Silvestri, Jim Lee, Arthur Adams, etc, etc, etc. Chris Claremont, principalmente, escreveu durante 16 anos a revista dos mutantes da Marvel e construiu uma mitologia incomparável. Complexa mas sedutora. Complicada mas inebriante. A ele a Marvel e a cultura pop devem uma dívida gigantesca. Ed Piskor propõe-se resumir, ao longo de seis números, esses 300 números de histórias. Se este primeiro é prova do que aí vem, os fãs já não terão desculpas para não introduzir novos leitores aos X-Men. Ed Piskor está a tratar disso, numa BD que será de leitura obrigatória para fãs destes mutantes, de BD e de world building. Mitologia moderna é isto. Venham os números que seguem (um obrigado ao Gonçalo pela sugestão).

Dark Nights: Metal #2 de Scott Snyder e Greg Capullo



Aviso à navegação: o segundo número do evento de 2016 da DC Comics não é para os que nunca leram nada da editora. A narrativa é alicerçada na sua História, cosmogonia e cosmologia. A referência a eventos passados publicados há muito tempo é constante e pode (e vai) confundir os que não são versados na complexa tapeçaria deste multiverso (e mesmo os que são). Este é um aviso que já tinha feito aqui, quando falei do primeiro número, e continua a ser válido (se não mais ainda) para este segundo capítulo.

Esta também não é uma história para os que gostam das narrativas reais, lógicas e cheias de significado filosófico-existencial. Aqui há, por vezes, coisas que não fazem sentido, momentos de puro ridículo, subtileza narrativa de um Ferrari acidentado na auto-estrada. E há uma outra coisa para quem gosta de super-heróis: puro entretenimento, regozijo em ver os homens de collants em situações escabrosas, ópera pop, explosões, vilões ultra-negros e heróis mega-puros. Tudo é barulho, som e fúria, como numa canção metaleira. Composta por Snyder e Cappulo.

(a partir daqui há muitos spoilers)

A primeira leitura de uma história destas é feita a correr, na ânsia de chegar ao fim, de virar a página e descobrir a próxima surpresa. Existem pormenores que escapam, exigências que não são feitas. Este segundo capítulo conta-nos a perseguição levada a cabo pela Liga da Justiça para capturar Batman, que roubou uma curiosa arma cósmica: o bebé Darkseid. Batman acredita que a versão infantil do Deus de Todo O Mal do Universo DC é a chave para impedir a invasão do Dark Multiverse. Não sabe que está a ser enganado. No final, e pela primeira vez em muito tempo (ou mesmo sempre), o Batman perde e a Liga dos Batmen Negros e Maus Como as Cobras chega com fúria e desespero. Entretanto, sabemos que o vilão-chefe desta saga, Barbatos, conheceu o Cavaleiro das Trevas quando, na saga Final Crisis, escrita por Grant Morrison, Darkseid (ainda não era um bebé) o exila para a Idade da Pedra. No penoso regresso que Bruce Wayne faz para chegar ao presente, Barbatos molda a História do Mundo DC e de Batman de acordo com os seus desígnios bem esconsos. Complicado? Muito! Rebuscado? Sem dúvida! Argumento típico de super-heróis? Oh meus deus... sim! Ou se gosta ou então é melhor nem passar por aqui. 

Imaginem o oposto do que se deve fazer para cativar uma audiência. Tentem ser o mais herméticos possível. Dificultem a mensagem. Isto não deve ser feito, certo? Snyder e Cappulo atiram pela janela o livros de regras dos marketistas e deixam-se levar pela pura geekisse e pelo puro prazer de escrever uma história para eles e para os malucos (como eu!) que sabem destes assuntos mais do que é saudável saber. Pormenores que não interessam a quase ninguém. Mas, no meio de tudo, conseguem entreter e divertir e isso é a única coisa que pode ser esperada de uma história destas. Abandono total.

Subtil como uma fotografia de David Lachappele (tinha de fazer uma referencia mais intelectual para não destruir as minhas credenciais), o número dois de Dark Nights: Metal é entretenimento ao som de guitarra metaleira. Ajuda ser fã à séria da DC? Ajuda! Mas não está na moda aceitarmos "desafios"? Pois eu acho que sim!

Dark Nights: Metal # 1, Review (with spoilers)

It all starts here: DC Comics event Dark Nights: Metal, by the creative team of Scott Snyder and Greg Capullo. It's supposed to be an epic, multiversal roller-coaster ride filled with awe-inspiring moments.  In June and July we were treated with not one but two prologues, Dark Night: The Forge and Dark Night: The Casting, that put all the pieces on the table – or so we thought. The mythology was laid bare to prepare us for what was coming. However, what the authors gave us in this first issue was an even bigger canvas where we will be amazed and entertained in.

(from here on out there will be spoilers)

Let me say one thing before continuing: I’m a big fan of comics in general, super-heroes in particular and DC Comics is my favorite universe of this subgenre. I love the archetypical nuances of its characters and the religion-like cosmology that seems to tie all its stories together. Conscious or unconsciously, some of the storytellers that worked for this company in the past three decades want every single issue of its 75-year-plus history to count for the tapestry that is the DC multiverse. One of the biggest names is, of course, Grant Morrison, but also Geoff Johns, Mark Waid, et al. All of them tried, for lack of a better term, to tie everything together. Now you can add another author: Scott Snyder. He goes into full cosmology mode and it’s a wondrous sight to behold.

I love it when super-heroes go cosmic. Don’t get me wrong, I want to read Batman and Daredevil as much as the next guy, the street-level story, but when these characters travel to the end of time, battle impossibly-dark-and-evil-Gods and unravel reality, that’s when I love them the most. That’s why Morrison’s JLA is one of my all-time favorites. Speaking of the mad Scottish writer, he is one of the Snyder's spiritual gurus. He gets a lot of love in this first issue. Be it the Multiversity Map or the reference to Batman’s travel to the far past at the end of Final Crisis, Snyder references these cosmic stories in big and revealing ways. Hawkman’s lore is also a huge part of what it’s trying to be achieved here – don’t forget that this comic is called Metal and one the most important parts of it is the Nth Metal

It’s, of course, still too early to judge the story's quality. We’re at the beginning, but one thing is certain: this is not for the initiated in DC mythology. You have to be knee-deep into a lot of the cosmology minutiae that is part and parcel to this universe (or multiverse, if you want to be accurate). That is, of course, part of its charm but it will, for those less adventurous, be a strenuous read. Think of it like I did when I was on my early teens and read Crisis on Infinite Earths: marvel at the colorful menagerie of characters and geographies that populate the page; absorb every detail with child-like awe; maybe if you drop the adult-vision you’ll be rewarded.

Finally, that last page (huge spoiler ahead). Super-heroes comics revel in the use of surprise endings. Metal has a doozy of an ending, similar to last-year’s DC Rebirth Special: Neil Gaiman’s Sandman pays a visit to Batman – the Daniel version, not Morpheus. It is very similar to adding Alan Moore’s Watchmen to the regular DC multiverse (on the above mentioned DC Rebirth) but not as radical, though some people seem to think so. Don't get me wrong, it’s a huge thing and if done right adds gravitas to the story (I’ll judge its quality in the end). But, if you were paying attention to Grant Morrison’s Multiversity Map, you’ll find that the Endless and Sandman were already an integral part of DC’s cosmogony. Furthermore, Daniel was also used in Morrison’s JLA. So, there’s that.

Scott Snyder and Greg Capullo promised us a grand ride. If the following chapters are to be judged by this one, we’re in for one. So, please, fasten your seat belts. 

Rapidinhas de BD - Vertigo is Dead, Long Live Vertigo



O título não é exagero. O famoso selo da editora norte-americana de BD, a DC Comics, está moribundo. Desde o seu início, no princípio da década de 90,  que a Vertigo não tinha tão poucos livros a serem lançados. Esta foi a casa fundada pela famosa Karen Berger, a lendária editora de BD, a mulher que deu-nos o Alan Moore dos EUA, o Sandman de Neil Gaiman, o Preacher de Garth Ennis e Steve Dillon, o 100 Bullets de Brian Azzarello e Eduardo Risso. São inúmeros os legados deixados por Berger e pela casa que fundou. A História da BD dos EUA e do mundo passa pelos seus corredores e pelo seu catálogo.

Legado também é a palavra correcta para falar destes dois títulos: um é já um antigo amigo, American Vampire de Scott Snyder com Rafael Albuquerque (no seu sétimo volume); outro uma adição, mas com uma equipa já conhecida, o Moonshine de Brian Azzarello e Eduardo Risso. Ambos bebem de um mesmo lugar, da marca de inspiração Vertigo/Berge. Existe a apetência para o terror adulto, negro e deprimido e, nestes dois casos, com inclinação sobrenatural. Poderia ser o horror do serial killer, poderia ser o fantástico pós-modernista. Contudo, os autores ingressam no puro e mais primordial dos horrores, recorrendo a monstros do fabulário e imaginário europeu/ocidental. São duas obras com vampiros e lobisomens, mas arquitectadas por autores que têm algo de novo a dizer acerca destes arquétipos muito conhecidos.

American Vampire é exactamente sobre o que título sugere. Skinner e Pearl são dois vampiros dos EUA, com características bem diferentes dos originais das terras europeias. Ao longo dos seis volumes anteriores assistimos ao seu nascimento e à sua luta para sobreviver, desde o faoreste do século XIX até aos fabulosos anos 20. Os conflitos são contra a sua própria natureza, contra vampiros de outras raças e contra a Humanidade. Neste sétimo volume o confronto é de natureza bíblica. Estamos na década de 60 e um mal primordial ressurge e persegue, indiscriminadamente, a raça de sugadores de sangue. Pode parecer banal mas, uma vez mais e como sempre, é o dedo dos autores que carrega aquilo que é normal e já visto para o reino do entretenimento de qualidade. O conceito deste livro (publicado pela DC e pela Vertigo) é da autoria do conhecido escritor de terror, Stephen King, mas cabe a Snyder a tarefa de levar a bom porto o conceito. E consegue fazê-lo de forma exemplar, demonstrando que, apesar de ter sido esta uma das primeiras obras que o tornou conhecido, continua a entretê-lo e a entreter-nos.

Moonshine vem com a marca de uma das novas Vertigos, a Image, que tem recebido em sua casa autores de várias editoras, para produzir, livremente e detendo os seus direitos, obras de temática diferente. O regresso da parceria Azzarello/Risso a uma obra mais longa era esperado desde a altura do seu essencial 100 Bullets. Voltam atrás no tempo para o final da década de 20 dos EUA, na altura da depressão e da lei seca, onde criminosos e personalidades menos solarengas pareciam multiplicar-se na ficção. Em suma, o casamento perfeito com as sensibilidades de ambos os autores, noir do átomo do cabelo (cheio de brilhantina) à molécula da unha (negra e ressequida) do pé. Existem produtores de whiskey (ou bourbon) clandestinos, homens com passado, mulheres fatais, hillbilly's sanguinários, gangsters violentos... e lobisomens. Que mais pode pedir-se a Azzarello e Risso? Nada excepto: muito bem-vindos de volta. 

Wytches de Scott Snyder e Jock

São muitos os estudiosos da arte de contar histórias, dos enredos que regem a narrativa. Há quem diga que o número mágico são sete, que ocorrem apenas sete tipos de história na História das Artes narrativas. Vamos acreditar nestes mestres escolásticos: existe um número limitado de conflitos que são explorados nos livros que lemos, nos filmes que vemos, nas pinturas que observamos. O que as diferencia não é, portanto, a originalidade do enredo mas a forma como esse enredo é abordado pela personalidade do(s) autore(s). O prisma. O ponto de vista.

Uma realidade dos dias de hoje é que graças à propagação da democracia no mundo ocidental, ao desenvolvimento económico, a produção e consequente procura de Arte é esmagadora. Existem milhares de livros, milhões de músicas a serem produzidas diariamente. Associemos a isso o advento da Internet nos últimos 20 anos e temos a receita para o crescimento exponencial da oferta.  A concorrência é extrema e a originalidade necessária para um autor destacar-se é cada vez maior (pressupondo que esta é a única razão para que um autor se destaque).

Muitas são as vezes em que esta busca de originalidade "obriga" a sucessivas iterações sobre um mesmo tema ou um mesmo arquétipo, na desesperante procura de algo novo. Veja-se a moda dos vampiros de há uns anos atrás. A versão original de Bram Stoker foi diluindo-se em sucessivas versões mais brandas, de sexualidade que oscilava entre o soft porn e o erotismo juvenil (não há nada de mal com isto, sublinhe-se). Em resposta, outros autores tentam o regresso à versão original da história, na maior parte das vezes mais crua (quem nunca leu sobre o facto de a Disney diluir as versões originais dos contos de fada não sabe o que perde). É o caso de Scott Snyder que não só fez regressar uma versão aterrorizante das bruxas, devolvendo o nome maldito de que gozaram durante séculos, como o fez socorrendo-se do próprio passado, fornecendo a esta história um cunho pessoal.

Não irei focar-me sobre o enredo deste Wytches, esperando que as poucas palavras que escrevo aticem a vossa curiosidade. Snyder é muito conhecido pelo actual trabalho em Batman mas entrou na BD dos EUA pelas mãos do mestre da Literatura de Terror, Stephen King, com a obra American Vampire. Wytches, publicada pela que acho ser a melhor editora de BD  das terras do Tio Sam, a Image, é uma nova exploração nesse género, desta feita com o desenhador Jock. O complemento entre os dois é feliz mas, para mim, a apreciação do género do Terror na BD é sempre algo particularmente limitado. São raros os casos em que me causam o mesmo impacto que no Cinema, onde tenho mais contacto com este tipo de narrativa. Mas Wytches não deixa de ser um triunfo interessante (mas não genial) da 9.ª Arte, feito com as melhores ferramentas de dois excelentes artistas. A arte de Jock, quase sempre um esboço mal definido, funciona particularmente bem para o argumento, ao tornar as ameaças difusas e quase psicológicas.

Em suma, fico à espera (ainda que não totalmente entusiasmado) pelo segundo volume.

O que vou lendo! - Superman Unchained de Scott Snyder e Jim Lee

O Super-Homem é considerado por muitos como um personagem datado e enfadonho, parte de uma visão antiquada do herói: nobre; altruísta; semi-divino. Neste início do século XXI, aparentemente, estas características tornam qualquer pessoa ou personagem desinteressante. Eu não poderia estar mais afastado da visão. Sou dos que considera o personagem um dos mais interessantes de toda a quantidade de super-heróis disponíveis. Não só porque é o original, a base arquetípica sobre a qual todo um género foi erigido, mas também porque a sua mitologia é uma das mais interessantes, inovadoras e únicas na literatura ocidental (leiam este post).

O mais reconhecível dos super-heróis existe há mais de 75 anos. Foram inúmeros os escritores e desenhadores a colocar parte da sua inspiração e talento na construção do mito. Consequentemente, é muito difícil inovar, dizer algo de novo. Scott Snyder (escritor) e Jim Lee (desenhador) conseguem com Superman Unchained o feito de contar algo raramente dito e numa história para a qual não necessitamos de um doutoramento em BD para a assimilar. Conseguem uma história profunda, relevante e divertida  sobre o Super-Homem, uma pérola que ficará nos anais do personagem e na biblioteca essencial de muitos fãs e não só. Este feito é conseguido de forma muito simples. O enredo foca-se de forma sintética no personagem principal e em poucos personagens coadjuvantes: Lois Lane; Sam Lane, pai de Lois; Batman; Mulher-Maravilha; Lex Luthor; Jimmy Olsen. Com estes, Scott Snyder tem o seu trabalho simplificado. Estão de tal forma presentes no imaginário associado ao Homem de Aço que a interacção com o mesmo flui e não requer explicações. Isso deixa espaço para que o escritor explore pormenores que o interessam mais. E são estes que transformam Superman Unchained  em algo diferente.

Scott Snyder escolhe focar dois aspectos importantes da filosofia por detrás do personagem: ser alienígena; possuir poderes quase divinos e escolher não interferir nos destinos da humanidade. Ambos estes pontos de vista já foram várias vezes abordados por diferentes autores mas Snyder consegue descobrir algo que, pelo menos nas palavras escolhidas, estava "esquecido". Ao mesmo tempo, consegue abordar questões antigas relativas ao papel do super-herói nestes universos fictícios - colocando um interessante contra-ponto em relação às palavras de Alan Moore na imortal obra Watchmen. O Super-Homem é um dos mais interessantes personagens da mitologia Americana, e é sempre relevante quando ao mesmo tempo ao autores focam o seu lado de entretenimento (as batalhas, os cenários e situações maiores que a vida) e a filosofia e meta-texto que fazem parte de si. Sem pedantismos e lições.

As obsessões de Snyder estão uma vez mais presentes neste Superman Unchained. Também as encontramos na exploração que faz de Batman, de Swamp Thing e mesmo de American Vampire. Nas histórias do escritor, o passado muitas vezes funciona como motor do enredo. Esconde sempre algo, um segredo, um mistério, algo não revelado no palco da História. Muitas vezes são sociedades secretas que sempre estiveram por detrás dos eventos mais relevantes. Outras vezes são personagens que, secretamente, desempenharam importantes papéis. Existe um Passado que assombra os personagens.

Jim Lee volta a a desenhar o Super-Homem  - já o tinha feito em Para Amanhã junto com Brian Azzarello (publicado pela Levoir em Portugal). Mas, desta vez, Snyder oferece-lhe um palco mas espectacular e menos circunspecto, abrindo-lhe toda uma panóplia de momentos de acção onde o artista se pode exceder.

Um obra importante para os que querem conhecer melhor esse maravilhoso personagem que é o Super-Homem.

O que vou lendo!


American Vampire de Scott Snyder e Stephen King (argumento e co-criação)– 4.º Volume

Esta série da Vertigo, imprint pertencente à DC Comics, foi co-criada por um dos grandes da literatura de Terror, Stephen King, juntamente com um dos mais prolíficos argumentistas do actual cenário da BD americana, Scott Snyder. O quadro da produção fica completo com os desenhos de Rafael Albuquerque ainda que, neste 4.º volume, receba ajuda do lendário desenhista catalão, Jordi Bernet, e de Roger Cruz.
O nome da série não foi escolhido por acaso. Relata a história de um novo tipo de vampiro (não, não brilham como diamantes à luz do Sol, nem são bonzinhos e fofinhos), personificada em Skinner Sweets e na sua descendência, Pearl Jones. Estas duas criaturas fazem parte de uma nova espécie dos famosos sugadores de sangue, capazes de sobreviver à luz do Sol e apenas vulneráveis a ouro. A metáfora parece óbvia, já que se tratam de vampiros nascidos e criados em solo americano, mas Scott Snyder, que assumiu o lugar de exclusivo argumentista na série, vai nos trazendo episódio atrás de episódio com estes dois personagens em momentos chave da variada história norte-americana, não sendo este 4.º volume, obviamente, excepção.
Desta feita, na primeira história desenhada por Jordi Benet, somos transportados para a infância e adolescência de Skinner Sweets na América do século XIX, num momento de guerra entre os invasores descendentes de europeus (vulgo actuais americanos) e os nativos do continente. Na segunda história, com Rafael Albuquerque, Snyder transporta-nos para as vidas rápidas dos jovens da década de 50 que, contudo, são aqui muito mais que uma simples tarde passada num Diner a beber batidos de morango e a ouvir música Yeah-Yeah. A última história é, provavelmente, a melhor das três, relatando um episódio na vida de um terceiro membro desta nova espécie de Vampiros, este afro-americano, enquanto lida com alguns dos clichés associados aos estados do Sul e reflecte sobre a capacidade de mudança, sua e de todos à volta.

Berserk de Kentaro Miura (argumento e desenho) – volumes 19, 20 e 21

É mera coincidência que as duas séries que hoje vos trago são ambas de terror. Ainda que sejam bichos muito diferentes.
Berserk é um Mangá (BD japonesa) e inclui-se ainda no estilo Espada e Magia/Medieval/Alta Fantasia actualmente tão em voga com o sucesso de O Senhor do Anéis e Guerra dos Tronos. Quando comparado com estes, contudo, podem ter a certeza tratar-se de um bicho mesmo muito diferente.
Não há nada de meigo e idílico no universo de Berserk, antes está repleto de terrores primordiais, sexo com monstros mucosos saídos dos mais profundos dos infernos e anti-heróis ultraviolentos. O personagem principal desta série é Guts, um guerreiro solitário que brande uma espada descomunal, impulsionado por uma intensa fúria dirigida aos seres demoníacos que lhe arruinaram a vida e a de seus companheiros de batalha.
A série, até o momento em que a li, dividiu-se em três grandes arcos narrativos: um relatando a luta de Guts contra vários servos dos tenebrosos demónios que ameaçam regressar o Inferno á terra; uma segunda que narra o seu passado e de como acabou neste caminho da vingança; uma terceira, na qual me encontro, em que tenta resgatar a amada das mãos de um destino infinitamente pior que a morte.
Berserk não é, de maneira nenhuma, para crianças, adolescentes e mesmo para alguns adultos, já que a sua imagética é fortíssima no grafismo da violência, da sexualização e do terror infligido nos vários personagens. Mas o enredo é viciante, tratando da luta de um solitário herói contra as forças negras dos infernos, à semelhança de um Frodo e de um Sauron.