Álbuns para Sempre, 60

Existem músicas que permanecem. São mais do que prazeres. São memórias, felizes ou tristes. São nossas e dos outros. Como em nenhuma outra arte, a Música é comunhão. Quer por estarmos num concerto, quer porque a ouvimos no conforto de casa.

Todos os fins-de-semana vão poder ouvir um álbum que me marcou. Esta semana cabe aos Them Crooked Vultures e ao LP Them Crooked Vultures.


Uma BD aqui, outra BD ali, 10

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Brave And The Bold Batman And Wonder Woman número 1 de Liam Sharp (DC Comics)

Liam Sharp foi o desenhista responsável por metade das histórias mais recentes que Greg Rucka escreveu para a Mulher-Maravilha. Veterano do lápis e tinta da china (perdoem a minha ignorância no mundo do desenho), decide tentar a sua sorte (não sei se pela primeira vez) na arte da escrita. A DC Comics tem recentemente arriscado mini-séries com Diana como co-protagonista. Uma primeira junto com o conhecido Conan, O Bárbaro (comprem, porque vale a pena) e agora com o ainda mais conhecido Batman, o seu companheiro de armas na Liga da Justiça

No que respeita à escrita, Liam vai soberbo, conseguindo equilíbrio entre a exposição necessária para trazer o leitor para dentro do mundo fantástico do Folclore Irlandês (peça central da história), e momentos mais intimistas, principalmente com a super-heroína. Para quem leu a sua colaboração com Rucka, este primeiro número representa uma pequena recompensa. A primeira cena com Diana é poderosa a reveladora do amor do desenhista à personagem mas também da imagem que ela representa dentro do mundo fictício da DC. O Batman aparece parcimoniosamente, mas o suficiente para revelar o controlo que Sharp tem sobre a sua personalidade. 

Finalmente, no que respeita à arte, o autor excede-se, entregando uma BD francamente bela e bem estruturada. O seu traço é particularmente apropriado ao mundo de Fadas da mitologia irlandesa e cada página merece ser um poster - mas sem perder um átomo do storytelling. A continuar assim teremos em mãos uma das minhas BDs favoritas do ano (e não só porque tem a Diana como co-protagonista). Já agora, Sharp continua a desenhar uma das mais expressivas e bonitas interpretações de Diana, ao ponto de eu, como fã, ter dificuldade em não a considerar como uma favorita (ao lado da de George Pèrez). 

Defenders (2017) número 10 de Brian Michael Bendis e David Marquez (Marvel)


Chega ao fim a Era Bendis da Marvel. Depois de 17 anos de uma produção polémica mas profícua, um dos mais importantes escritores a trabalhar na auto-professa Casa das Ideias muda-se para a Distinta Concorrência (DC, para os que não estão dentro destes acrónimos). Ficou conhecido pelo trabalho em várias personagens, mas em nenhuma mais do que nos conhecidos como street-level heroes. O Demolidor. Luke Cage. Jessica Jones (que co-criou). Homem-Aranha. É, portanto, apropriado, que termine com este Defenders, que reúne na mesma equipa os três primeiros mais o Punho de Ferro (que escreveu nos Vingadores). E, mais ainda, junto com o desenhista David Marquez, com quem tinha previamente trabalhado em Miles Morales e em Civil War II.

Como já referi em posts anteriores, Bendis não poderia acabar a sua prestação na Marvel de melhor forma. Defenders é das obras mais conseguidas do autor, ombreando com trabalhos como o Demolidor (talvez o seu ponto alto), Ultimate Spider-Man e New Avengers (os meus três favoritos). Parece que Bendis tirou da cartola mais um conjunto de ferramentas de storytelling para impressionar os detractores e os fãs. "Eu ainda sou capaz de vos surpreender pela qualidade, estão a ver?!". Quem gosta do seu trabalho, apesar de saber que ele ainda tinha muito para dar, não esperava que a qualidade da sua escrita ainda pudesse brilhar tanto, mesmo empregando muitos dos seus cartões de visita: a verborreia; os plot-twists; a reinterpretação de velhos vilões e de antigos heróis; o baralhar de geografias e conceitos do universo da Marvel. Bendis brilha em cada página e em cada frase destes 10 números dos  Defenders 2017, defendendo o seu legado sem egoísmos, dizendo um sentido adeus e deixando a página aberta aos que se seguem. 

Mas nenhum elogio aos Defenders pode estar completo sem falar de David Marquez, um dos seus recentes colaboradores e que nestes 10 números brilhou como nunca. Cada rosto é único, cada cena de acção coreografada de forma belíssima, cada enquadramento apropriado.

Bendis diz adeus e eu sigo-o para o Super-Homem. Até mais logo, Marvel.

Música à Quarta! Wednesday Music!


Todas as semanas, todos os dias e, quem sabe, todas as horas, são lançados inúmeros LP'sEP'sSingles. Não sou melómano, apenas um ouvinte. Selecciono o que oiço pelo estilo, pelos nomes de artistas que conheço, pelo que oiço na rádio, pelos algoritmos do Spotify e pelos gostos e sugestões dos amigos. Sei que apenas oiço uma pequena parte do que existe.

Neste Blogtodas as quartas-feiras, compilo uma lista de álbuns que ouvi durante a semana e faço um post com ligação ao Spotify  onde podem ouvir o que ouvi. Em baixo podem encontrar a lista. Destaco a bold os álbuns que mais gostei.

Every week, every day and, who knows, every hour, there's a new LP, EP or Single out. I'm not a music geek, just a listener. I choose based on style, on the names of artists I know, on what I heard on the radio, on Spotify's algorithms, and on friends tastes and suggestions. I know I hear only a small part of what is out there.

In this Blog, every Wednesday, I put together a list of albums I heard during the last week, and post it with links to Spotify. You can find that list below. In bold I highlight the albums I liked the best.

Wallflower de Jordan Rakei - 2017 (Soul)
Cloak de Jordan Rakei - 2016 (Soul)
Fifteen (Best Of) de Nostalgia 77 - 2018 (Nu Jazz)
Last Night All My Dreams Came True de Wild Beasts - 2018 (Indie Pop)
Morning of the Earth My Island de Blank & Jones - 2018 (Electronica)
The Outpost Reconstructed de Blueneck - 2018 (Electronica)
Dunes de Dunes - 2018 (Indie Pop)
Picture:Karmon de Karmon - 2018 (Electronica)
The Futurist de Let Em Riot - 2018 (Indie Pop)
Vertige Exhaussé de Pendentif - 2018 (Indie Pop)
Present Lives de Wet Leather - 2018 (Indie Pop)

Visages, Villages (Olhares, Lugares) de Agnés Varda e JR

Agnès Varda já deveria dispensar apresentações. Realizadora e documentalista francesa de 88 anos, exerce há mais de 60, e é contemporânea (e amiga) de nomes tão importantes para a arte de fazer cinema como o são Jean-Luc Godard. O seu olhar vem de uma escola que não se ensina, e mesmo agora que a visão começa a falhar (a física) o seu ponto de vista é mais válido, único e acutilante que 99% dos realizadores em exercício, (todos) mais novos que ela. E o extraordinário Olhares, Lugares é prova disso. Contudo, não pensem que esta senhora deixa-se afundar pelo peso dos anos e pela sobranceria da experiência. Antes pelo contrário. Agnès faz-se acompanhar de JR, jovem fotógrafo e artista plástico, pelas aldeias, paredes e rostos de uma França pouco visitada.

Este filme-documentário acompanha a viagem dos dois artistas, enquanto exploram as vidas de uma multitude de pessoas e experiências na França rural. Um filme humano, sobre pessoas primeiro - sempre pessoas primeiro. Profundamente social e com engajamento como muitos poucos, escolhe a calma e pacífica observação do relato das vidas dos muitos rostos que encontram no percurso. Uma carrinha com uma enorme câmara e impressora percorre as veias do campo francês, encontra comunidades, fotografa-as e expõe as gigantescas impressões a preto e branco em prédios, armazéns, habitações, praias, como testemunho, claro, mas, acima de tudo, como força. A força das vidas que devem ser expostas e sublinhadas antes de qualquer outra coisa. 

Um dos momentos mais fortes ocorre logo no início, quando uma senhora resiste a viver numa rua em que ela é a única habitante. Como contrapeso, quase no final, a impressão colada a uma estrutura abandonada numa praia expõe a brevidade a que estamos sujeitos aos olhos da força do mar. A própria Agnès chora em frente à câmara, expondo a sua humanidade, quando visita um amigo de longa data.

Gosto de pensar no artista como o anti-estatístico, o anti-gestor. A ele as médias não interessam. Na força e dilúvio dos números perdem-se os olhares e os rostos únicos que todos queremos ser. Todos. Sem excepção. Este essencial e obrigatório Olhares, Lugares é um testemunho de todos esses rostos. Que existem e devem ser (sempre) mais perenes que as habitações e os museus. O homem é a única obra de arte da Humanidade que interessa. E este filme relembra-nos isso.

Basicamente e sem esforço um dos melhores filmes de 2018.

Black Panther de Ryan Coogler

(sem spoilers)

O novo filme do universo cinematográfico da Marvel é algo diferente. Não falo do facto de se passar longe das ruas de Nova Iorque ou mesmo do continente americano. Falo de um filme que parece mais preocupado em ser cinema e menos parte de uma oleada máquina que existe desde 2008. Faz parte do Universo da Marvel, mas não é necessário saber nada para seguir a história, divertir-se e gostar deste Black Panther. Falo de um filme que corrige algumas das falhas que têm sido apontadas a estas máquinas fazedoras de dinheiro. Mas estou a adiantar-me.

A história segue de perto a mitologia criada nas páginas da BD. Por um lado, temos a mais avançada nação do mundo em termos tecnológicos que é a Wakanda criada por Stan Lee e Jack Kirby na revista do Quarteto Fantástico. Por outro, temos o vilão, Killmonger, pensado pela mente de Don McGregor numa sequência de histórias criadas por este escritor na década de 70 - e que são consideradas a primeira (e informal) novela gráfica da Marvel (esta história foi compilada recentemente na Epic Collection do Black Panther, que podem encomendar em qualquer loja física ou online que venda BD). Finalmente, temos a politização e engajamento social do trabalho de outro escritor, Christopher Priest, também ele criador das Dora Milage (já falo delas) e dos Lobos Brancos (já escrevi sobre este criador neste link). Portanto, para os fãs desta personagem (que é relativamente desconhecida, mesmo para os mais acérrimos leitores) e de BD, a matéria-prima é respeitada de forma clara. Não quer isto dizer que não existam desvios em relação ao original. Especificamente, o vilão tem matizes mais cinzentos que o puro Mal que representava na BD, o que acaba por funcionar neste filme e transforma o Killmonger de Michael B. Jordan no melhor vilão da Marvel desde o Loki (finalmente).

As mulheres. É discutível se não serão elas as personagens mais interessantes deste filme. A Nakia de Lupita Nyong'o é o impulso motivador de T'Challa, o Pantera Negra, mas não perde com isso um átomo da sua personalidade e força. A mãe, protagonizada pela maravilhosa Angella Basset, não é o papel mais forte, mas prefigura uma presença maternal poderosa. Okoye de Danai Gurira é a melhor guerreira de Wakanda, a líder das Dora Milaje, as soldados desta nação, e talvez a mais mesmerizante personagem de todo o filme.  Só não ganha esse título porque ainda existe Letitia Wright no papel de Shuri, irmã do protagonista e a mente mais brilhante e genial deste universo fictício (sim, mais que Tony Stark). Para quem está atento a estas coisas, já a tínhamos visto no último episódio da quarta temporada de Black Mirror, mas aqui ela atinge um outro nível de encanto. Letitia rouba cada cena em que entra. No filme Thor Ragnarok, a Valquíria de Tessa Thompson era também o melhor do filme, mas nada que se compare a este santíssimo quarteto.

O argumento é outros dos fortes deste filme, quando comparado com esforços anteriores da Marvel. Este é uma história, enredo e personagens com um alcance mais complexo e maduro. A temática da raça e do drama histórico dos africanos é a peça central, abordada de forma convincente dentro dos limites de um filme de entretenimento, que procura agradar o mais possível e desagradar ao menor número de pessoas. Este é o primeiro filme da Marvel que arrisca para além das fronteiras auto-impostas da pura diversão e do escapismo. Só por isso já é um dos melhores (se não mesmo o melhor) deste universo cinematográfico. E, ao contrário de Thor Ragnarok, os argumentistas conseguem um melhor equilíbrio entre drama e humor.

Chadwick Boseman, ainda que outra das forças do filme, é marginalmente eclipsado pelas quatro mulheres e pelo vilão. Por outro lado, o seu T'Challa ainda não é o herói confiante, altamente inteligente e pragmático desenvolvido por Christopher Priest na BD e seguido por outros autores como Jonathan Hickman, Al Ewing, Reginald Hudlin ou Ta-Nehisi Coates. Os efeitos especiais são maravilhosos excepto em algumas cenas, principalmente na climática da batalha final entre os antagonistas, que acaba por ser pouco interessante.

Black Panther é (provavelmente) o melhor filme da Marvel até o momento. Pela força do protagonista, das quatro mulheres que o acompanham, pelo vilão e pela temática mais complexa e madura. 

Álbuns para Sempre, 59

Existem músicas que permanecem. São mais do que prazeres. São memórias, felizes ou tristes. São nossas e dos outros. Como em nenhuma outra arte, a Música é comunhão. Quer por estarmos num concerto, quer porque a ouvimos no conforto de casa.

Todos os fins-de-semana vão poder ouvir um álbum que me marcou. Esta semana cabe aos Fleetwood Mac e ao LP Tango in the Night.

O que ler antes e depois do filme do Pantera Negra - a escrita de Christopher Priest.

O filme do Pantera Negra está nas salas de cinema. A editora Goody, que detém parte dos direitos das publicações da Marvel em Portugal, lançou recentemente uma mini-série com a sequência de histórias do autor Ta-Nehisi Coates, que podem adquirir aqui numa bela promoção. Mas não é só deste escritor que a História do regente da nação fictícia de Wakanda é feita. Muito pelo contrário. Diversos artistas já deram ar da sua criatividade desde a década de 60, quando a personagem apareceu pela primeira vez no número 52 da revista Fantastic Four, da autoria dos essenciais Stan Lee e Jack Kirby. Contudo , não é deles que aqui vos venho falar porque, apesar de terem sido os seus criadores, não foram dos que mais contribuíram para a personagem (excepto, talvez, o segundo). Hoje escrevo umas breves palavras sobre o primeiro volume de uma colecção de quatro que compilam toda a sequência de histórias do final da década de 90 e início do século XXI escrita por Christopher Priest.

Por vezes é necessária uma catástrofe para facilitar a mudança (já o dizia a personagem Destruição da obra Sandman de Neil Gaiman). No final da década de 90, a Marvel estava em apuros. Tinha entrado em bancarrota e necessitava de tempo para recuperar das dívidas aos seus credores. Uma das soluções foi contratualizar parte do seu catálogo de personagens a editores externos. Joe Quesada chegou-se à frente com um conjunto de autores de topo e ficou com alguns nomes sonantes: Demolidor; Justiceiro; o Pantera Negra. Já nesta altura, a personagem era pouco utilizada para além de algumas mini-séries, aparições em equipas de super-heróis (Vingadores), e a única revista regular remontava à década de 70. Ainda assim, a personagem tinha tido um historial rico, trabalhado por autores como Don McGregor, Rick Buckler, Gil Kane, Jack Kirby. Eis que surge Christopher Priest, cujo trabalho duraria 62 números na revista homónima da personagem, todos compilados nesta colecção de quatro volumes.

O tom de Priest é claramente mais adulto e politicamente engajado, focando-se nas peripécias típicas de super-heróis mas principalmente no papel de T'Challa (o nome verdadeiro do Pantera) como monarca de um nação soberana. Como o próprio refere nestas histórias, muito esquecem-se que estamos a falar de um Rei. Mas o escritor não e faz uso desse enquadramento para construir histórias complexas sobre a necessidade e sacrifício de um regente para gerir os destinos da sua nação. T'Challa não é um inocente super-herói com visões altruístas, mas antes um homem atento, inteligente e sagaz que não tem pejo em fazer qualquer acto (violento, conspirador) para levar o seu país pelo melhor caminho. Uma nação não só a mais tecnologicamente avançada do mundo como a detentora de riquezas naturais desejadas por muitos países civilizados. Ao mesmo tempo, decide construir uma mitologia mais robusta em volta da personagem, adicionando conceitos novos e relevantes (alguns serão utilizados no filme como as Dora Milaje, por exemplo) e não se esquecendo do trabalho de autores que o antecederam.

Priest é um dos maiores contribuidores para o Pantera Negra que vemos hoje em dia escrito por Ta-Nehisi Coates ou por Jonathan Hickman nos Vingadores, mas também aquele que veremos nas salas de cinema. Leitura essencial para perceber quem é T'Challa.

(quando acabar de ler os restantes três volumes darei conta do que achei que achei. Até lá, comprem à confiança este primeiro. Ou então, Goody, G.Floy, que tal pegarem nisto?)

Música à Quarta! Wednesday Music!


Todas as semanas, todos os dias e, quem sabe, todas as horas, são lançados inúmeros LP'sEP'sSingles. Não sou melómano, apenas um ouvinte. Selecciono o que oiço pelo estilo, pelos nomes de artistas que conheço, pelo que oiço na rádio, pelos algoritmos do Spotify e pelos gostos e sugestões dos amigos. Sei que apenas oiço uma pequena parte do que existe.

Neste Blogtodas as quartas-feiras, compilo uma lista de álbuns que ouvi durante a semana e faço um post com ligação ao Spotify  onde podem ouvir o que ouvi. Em baixo podem encontrar a lista. Destaco a bold os álbuns que mais gostei.

Every week, every day and, who knows, every hour, there's a new LP, EP or Single out. I'm not a music geek, just a listener. I choose based on style, on the names of artists I know, on what I heard on the radio, on Spotify's algorithms, and on friends tastes and suggestions. I know I hear only a small part of what is out there.

In this Blog, every Wednesday, I put together a list of albums I heard during the last week, and post it with links to Spotify. You can find that list below. In bold I highlight the albums I liked the best.

Humdrum Star de GoGo Penguim - 2018 (Jazz)
Misophonia de Chris Joss - 2018 (New Jazz)
Expectations de Wild Child - 2018 (Indie Rock)
Escape Unlikely de Chris Joss - 2017 (New Jazz)
Point of View de Zoo Brazil - 2018 (Electronica)
Lionheart de H.C. McEntire - 2018 (Indie Folk)
Born Again de RAIGN - 2018 (Indie Pop)
Brighter Wounds de Son Lux - 2018 (Electronica)
Beautiful People Will Ruin Your Life de The Wombats - 2018 (Indie Pop)
Boom Boom Boom (The Going Going Going Remixes) de Tosca - 2018 (Electronica) 
How to Measure the Distance Between Lovers de Mija - 2018 (Electronica)

Rapidinhas de BD - Black Hammer vol. 1; Empowered vol. 10; A Última Nota

Black Hammer vol. 1: Secret Origins de Jeff Lemire e Dave Stewart (Dark Horse)

Jeff Lemire é conhecido pelo ecletismo das suas escolhas para histórias na BD. Pode fazer incursões em super-heróis, como o seu maravilhoso, menosprezado e esquecido Superboy, ou entrar por territórios mais pessoais e independentes, como nos deliciosos Sweet Tooth ou The Nobody. Black Hammer situa-se a meio destes dois, uma viagem às recordações doces deste autor enquanto lia as aventuras dos homens de collants, mas também uma perspectiva idiossincrática que evoca visões mais sérias. Tudo se passa anos após uma batalha apocalíptica de super-heróis arquetípicos contra uma Deus do Mal. Depois dessa batalha o grupo é misteriosamente exilado para um mundo paralelo, e afastados das lides de defesa da justiça. Os vários membros da equipa adaptam-se o melhor que podem, uns bem e outros menos bem. É nesse equilíbrio da adaptação que Lemire explora as várias vidas das personagens. Não só elas são adaptações assumidas de arquétipos conhecidos (Super-Homem; Shazam; Monstro do Pântano; etc.), como as suas histórias funcionam como reflexões de enredos dessas mesmas personagens. O escritor consegue um perfeito equilíbrio entre o elogio/pastiche/cópia, a homenagem e a inovação, conseguindo dar algo de novo e algo de velho ao mesmo tempo. Esperemos que o segundo volume permaneça neste nível de qualidade.

Empowered vol. 10 de Adam Warren (Dark Horse)

Para quem lê este blog não será segredo que a BD Empowered de Adam Warren tem em mim um assumido fã. Já escrevi algo sobre ela (leiam aqui) e um dos artigos mais lidos da história do Acho que Acho foi (curiosamente) O Sexo na BD. Este volume 10 é mais do mesmo mas o mesmo é mesmo bom. A nossa heroína continua com problemas de auto-confiança, ainda que um dos enredos desta nova história tenha a ver com (spoiler) o ingresso numa equipa análoga à Liga da Justiça/Vingadores deste universo. Continua a tendência softcore, bondage e "all around titilating" que são as aventuras da voluptuosa e sensual personagem, toda ela um comentário à hipersexualização das mulheres na BD, mas assumindo (ironicamente ou não) esse comentário, devolvendo-nos uma exploração excitante que agarra o leitor. Outra das marcas de Warren são os diálogos entretidos, naturais e que oscilam entre uma oralidade assumida e uma verborreia intelectual e aliterativa cativante (até eu já me entrei pela hiper-adjectivação das frases). Empowered é uma mistura deliciosa entre guilty-pleasure e uma análise intelectual da BD. Não sei o que é na realidade, mas sei que adoro. 

A Última Nota de André Mateus e Filipe Duarte (Escorpião Azul)

A editora Escorpião Azul tem explorado a edição de autores portugueses desconhecidos. O ano passado deram-nos uma aventura deliciosa no Caderno da Tangerina de Rita Alfaiate, com um equilíbrio bastante interessante entre história e desenho. Recentemente, fui nova e agradavelmente surpreendido com este A Última Nota, uma exploração curiosa do mundo da música e de como nascem as lendas neste meio. A história acompanha dois amigos de infância, a aventura que têm com uma amada em comum e, anos depois, as consequências desse amor. Um deles transformou-se num ícone pop internacional, mas que procura a legitimação artística sonhada pelos músicos. Nesse demanda, irá reencontrar o amigo e reacender velhas memórias. A obra apresenta um enredo bastante interessante e entretido, com algumas reviravoltas que cativam o leitor. O desenho, apesar de conseguir algum breakdown da história fluído, apresenta falhas de técnica, sendo o elo fraco desta BD. Ainda assim, porque faço parte da escola história primeiro/imagem depois, A Última Nota revelou-se uma surpresa e uma delícia. 

The Post de Steven Spielberg

No que a mim diz respeito, Steven Spielberg é um dos mais importantes realizadores da História do Cinema mas também dono de uma filmografia desequilibrada. Não falo do ecletismo, da alternância entre filmes de entretenimento pop e outros mais cerebrais. Falo de filmes em que se nota todo um esforço do realizador e outros que (aparentam) ser mais preguiçosos. Por outro lado, os meus favoritos são os três primeiros Indiana Jones, o segundo Jurassic ParkGuerra dos Mundos e Minority Report (A.I., ainda que maravilhoso, é uma parceria entre ele e Stanley Kubrick). Existem outros dos quais reconheço a importância narrativa e histórica mas que ficaram longe desta lista dos meus favoritos: Resgate do Soldado Ryan; Tubarão, Encontros Imediatos; A Lista de Schindler. Nenhum destes filmes é preguiçoso. São marcos que sublinham uma carreira de autor dedicada à 7.ª Arte. Infelizmente, não se pode dizer nada disto em relação a este The Post.

The Post é um filme clara e sofregamente politico. É um filme feito à pressa para os Óscares e para fazer-se notar neste momento da História dos EUA, com a ascensão de um Presidente da República de moralidade ambígua e comportamentos que desafiam a Democracia. A obra segue os trâmites do filme de jornalista, em que um conjunto de pessoas lutam contra as instituições para fazer prevalecer uma verdade. Verdade esta que, no caso de The Post, passa pelo derrube de moralidades falsas do Governo dos EUA. O jornalista, desde muito cedo na história do cinema estado-unidense, funciona como um desafio à imagem de excepcionalismo que este país tem de si mesmo, uma forma de anti-John Wayne. Funcionam, em muitos casos, como forma de mostrar as falhas da Democracia deste país, que se apregoa como "a maior do mundo e da história". Contudo, e ao mesmo tempo, são uma forma do país, catarticamente, analisar-se e autoelogiar estes outros (anti) heróis que fazem funcionar o mesmo sistema que tentam "destruir". No meio desta dança entre patriotismo e anti-patriotismo, a mensagem é sempre agri-doce e não apoteótica. O filme do jornalismo acaba por reconhecer as próprias limitações da profissão, quando confrontada com a complexidade da realidade.

Uma das formas porque falha este The Post passa por não conseguir resistir a uma certa inocência. Spielberg vê necessidade em ver uma vitória clara na missão deste homens e destas mulheres. No Chefe da Redacção de Tom Hanks. Na dona da empresa detentora do jornal Washington Post, protagonizada por Merryl Streep. Nos muitos jornalistas. No whistle blower. Spielberg vê-se obrigado a discursos apoteóticos de vitória contra as instituições governamentais. Essa necessidade é Histórica e patológica mas as audiências não são as mesmas de há uns anos atrás (pelo menos as europeias).  Sabemos o que veio a seguir, sabemos do estado do jornalismo actual, da ingerência do lucro na procura da Verdade incómoda que o Jornalismo deve almejar, sabemos de quem ocupa actualmente a Casa Branca.

Consta que Spielberg despachou este filme entre outras produções para se colar ao momento actual e aos óscares. Isso nota-se. Apesar dos grandes nomes envolvidos, este The Post é um exercício simplista para uma questão complexa. Pedia-se mais do realizador e da história.