Colecção Liga da Justiça da Levoir, vol. 3: O Prego - Teoria do Caos de Alan Davis

Aproveitando o lançamento do filme homónimo, a editora Levoir está a publicar uma colecção de cinco volumes deste grupo de super-heróis entre o dia 9 de Novembro e 7 de Dezembro. Aqui no Acho que Acho, porque adoramos a DC e a Liga, queremos que vocês não se sintam perdidos na História, Cosmologia e Cosmogonia da editora. Por isso, vamos tentar dar-vos um pequeno Travel Guide. A Lonely Planet que se roa.


A editora DC Comics é conhecida pelo uso descontraído da galeria de personagens ao seu dispor. O Super-Homem, a Mulher-Maravilha e o Batman, para mencionar os mais importantes e conhecidos, são algumas das personagens de BD mais conhecidas dentro e fora do mundo da 9.ª Arte. Não só existem há oito décadas, como já ultrapassaram as fronteiras desta indústria e transformaram-se em arquétipos. Os super-heróis são julgados pelo modelo que criaram. Graças a esta transversalidade e ao aspecto icónico dos mesmos, muitos são os autores que agarram no molde e adaptam-no a circunstâncias diferentes do cânone, analisando o próprio arquétipo e o mundo real. Estes "desvios" começaram a aparecer desde cedo e, nos finais da década de 80 e com mais força a partir da de 90, a editora passou a catalogá-los com o nome de Elseworlds - mundos que, por acaso do destino, têm minúsculas ou significativas diferenças em relação ao "nosso". Não deixavam de ser reconhecíveis mas, ao mesmo tempo, diferentes. Foi assim que apareceu o Super-Homem criado na Rússia Comunista, o Batman da Época Vitoriana (ambas já publicadas pela Levoir), etc.

Este terceiro volume da colecção da Liga volta a visitar um mundo alternativo, desta vez inteiramente criado pelo veterano Alan Davis, muito apreciado pelos fãs de BD de super-heróis, por causa do seu traço dinâmico e adaptado a estas mitologias. Nele, o escritor/desenhador parte de um poema de George Herbert, publicado na colectânea Jacula Prudentum (1651), para imaginar um mundo onde o Super-Homem não é criado pelo casal Kent e o universo ficcional da DC cresce sem a presença do maior dos seus super-heróis. 

"Por falta de um prego perdeu-se a ferradura; por falta da ferradura perdeu-se o cavalo; por falta do cavalo perdeu-se o cavaleiro, por falta do cavaleiro, perdeu-se a guerra." É este o poema que Davis usou como inspiração. Este é um mundo onde o Batman, a Mulher-Maravilha, Lois Lane (a eterna paixão do Homem de Aço), Jimmy Olsen (o melhor amigo), Lex Luthor (o arqui-inimigo), a Liga da Justiça, estão longe dos caminhos "normais". 

Esta reflexão de Davis não entra tanto pela filosofia ou política mas mais pelo lado pop das histórias da DC, pontuada por um elogio à Idade de Prata da editora (década de 60 e início da de 70), procurando mais um "o que aconteceria se?..." leve, descomprometido e, acima de tudo, entretido. Os menos conhecedores da galeria das personagens desta Idade não se sintam desmotivados com o aparecimento de tantos uniformes de cores garridas. Pensem antes no prazer da descoberta. No prazer de irem vasculhar a net e tentarem saber quem é a Patrulha Destino (Doom Patrol), os Novos Titãs (Teen Titans), a Batwoman, etc. 

O sucesso seria de tal forma significativo que aconteceria uma sequela com o sugestivo nome de Another Nail.

Uma BD leve e divertida para ler nestas noites frias. A capacidade de adaptação da mitologia DC é uma das razões porque muitos (como eu!) são fãs da editora. Recentemente, e depois de alguns anos sem Elseworlds, a DC regressou a este conceito com Nightwing - The New Order e Batman - White Knight (e ainda bem!).

(seguem previews)




Música à Quarta!


Todas as semanas, todos os dias e, quem sabe, todas as horas, são lançados inúmeros LP'sEP'sSingles. Não sou melómano, apenas um ouvinte. Selecciono o que oiço pelo estilo, pelos nomes de artistas que conheço, pelo que oiço na rádio, pelos algoritmos do Spotify e pelos gostos e sugestões dos amigos. Sei que apenas oiço uma pequena parte do que existe.

Neste Blogtodas as quartas-feiras, compilo uma lista de álbuns que ouvi durante a semana e faço um post com ligação ao Spotify  onde podem ouvir o que ouvi. Em baixo podem encontrar a lista. Destaco a bold os álbuns que mais gostei.

Blurred de Kiasmos  - 2017 (Electronica)
Are You Anywhere de Submerse - 2017 (Electronica)
Bad As Me remastered de Tom Waits - 2017 (Waits é Waits)
Glitter and Doom (Live) remastered de Tom Waits - 2017 (Waits é Waits)
Chase Atlantic de Chase Atlantic - 2017 (Indie Pop)
Night Gallery de High Contrast  - 2017 (Electronica)
Aetherlight (intrumental album) de Mt Wolf - 2017 (Electronica)
Stargazing for Beginners de Pale Seas - 2017 (Indie Pop)
There is No Love in Fluorescent Light de Stars - 2017 (Indie Pop)
The Wild de The Rural Alberta Advantage - 2017 (Indie Rock)
Mirror Touch de Wild Ones - 2017 (Indie Pop)
Tropical de Living Room - 2017 (Downtempo)

O que vou lendo! L'Apprentie Geisha de Kazuo Kamimura

Cada vez que leio um Mangá de Kazuo Kamimura lembro-me de um conterrâneo seu, o cineasta Kenji Mizoguchi. Ambos apresentam as mesmas obsessões. Esta partilha é tanto mais curiosa quanto melhor conhecemos a sociedade japonesa e especificamente tudo o que está relacionado com as mulheres. Os japoneses (como aliás muitos povos, inclusive o nosso) tiveram de forma continuada comportamentos misóginos. Ainda no século XX, este pendor manifestava-se de forma clara em terras nipónicas, com uma forte estratificação de papéis e posição social. Essa clausura, esse cerco, que a sociedade japonesa fazia (e faz) ao sexo feminino, foi de tal forma tema na obra de Mizoguchi que transformou-se numa assinatura autoral. Na maioria dos seus filmes, escolhia o ponto de vista feminino para contar as histórias ou, não sendo explícito nessa escolha, procurava temáticas que focassem a injustiça de que o género era alvo - quer falasse da sua contemporaneidade, quer da antiguidade (leiam o que escrevi sobre este realizador aqui). Kazuo Kamimura partilhava deste ponto de vista ou, pelo menos, assim o parecem demonstrar alguns dos seus livros e, especificamente, este Aprendiz de Gueixa (infelizmente inédito no nosso país).

Um dos temas mais queridos a Mizoguchi eram as gueixas de Kyoto, tendo dedicado alguns filmes a estas. Kamimura, neste seu livro, viaja para norte e para Tokyo, para relatar, de forma episódica, o percurso de vida de uma jovem gueixa, O-Tsuru, desde os primeiros anos como aprendiz até transformar-se numa gueixa renomada e apreciada. Ao longo de mais de 300 páginas e 14 capítulos, o autor de Mangá irá não só focar-se no percurso e manias da jovem protagonista mas também de todo um mundo à sua volta. Desde a patrona da casa de gueixas até aos homens que passam pelo seu caminho. Estes são observados do ponto de vista da jovem simultaneamente com carinho e com um olhar distante. Os comportamentos e atitudes dos homens devem ser julgados pelo peso da subjectividade histórica ou sobre um olhar mais específico, mais humano? 

Kamimura balança de forma elegante entre a sexualidade e a tristeza deste mundo, com o qual poderá ter contactado quando alugava um escritório num mesmo edifício de um conhecido bairro de gueixas em Tokyo. Esse equilíbrio é conseguido pela estrutura das histórias e pelo enredo, que estão cheios de um sabor agridoce suave e discreto mas, paradoxalmente, pungente e sublinhado. O seu traço ondulante e quase etéreo é perfeitamente  adaptado a este mundo de sexo e lágrimas, conferindo uma terrível e terrena poesia a actos sobre os quais temos dificuldade em descortinar a bondade ou maldade dos mesmos. Kamimura não procura respostas moralistas ao mundo das gueixas, deixando que as histórias e o seu traço falem por si - como qualquer contador deveria fazer. 

Kazuo Kamimura foi um mestre que abandonou-nos cedo demais (aos 45 anos). A sua obra é repleta das obsessões que constroem o trabalho autoral. Mas é no produto final, nas linhas do desenho e na escolha das palavras, que se vislumbra o génio que é imperativo conhecer. Não só um autor de Mangá obrigatório mas também de uma literatura que importa não esquecer.  

Álbuns para Sempre, 46

Existem álbuns e músicas que permanecem. São mais do que prazeres. São memórias.  São pedaços de um tempo, um momento, feliz ou triste. São reflexo de existir e, por isso, nossos - mas também dos outros. Como em nenhuma outra arte a música é comunhão. Quer por estarmos num concerto, quer porque ouvimos um mesmo álbum, cada um no conforto de casa.

Todos os fins-de-semana vão poder ouvir um álbum que me marcou. Esta semana cabe a Janaelle Monaé e ao LP ArchAndroid.


Justice League de Zack Snyder (Liga da Justiça)

A que é que nos leva a paixão? 

Esperem!... Acho que já leram esta pergunta algures neste blog de cada vez que se começa a falar de algo sobre o qual será difícil ser objectivo. Ou, pelo menos, o objectivo que se deveria ser quando escreve-se sobre uma peça de arte ou de entretenimento. Nestas coisas da "crítica" todos temos um ponto de vista. O meu é de alguém que ama Banda Desenhada, lê-a há quase 40 anos, sempre foi apaixonado pela mitologia dos super-heróis e, principalmente, é alguém que adora a editora DC Comics. A Mulher-Maravilha é a minha personagem favorita de qualquer arte e a Liga da Justiça é uma das equipas destes personagens de ficção que mais me entusiasma. Portanto, seguem daqui para a frente por vossa conta e risco.

Dizer que os fãs esperavam há décadas por um filme deste grupo é usar a figura do eufemismo de forma eufemística. Se os filmes da Marvel foram um marco importante na passagem da BD à 7.ª Arte, para os que gostam da DC e do universo desta editora este é o Santa Graal (para mim foi antes o filme da Diana, mas adiante). Falamos dos maiores ícones da 9.ª Arte dos EUA. Falamos da reunião do Super-Homem (não pode ser considerado spoiler dizer que ele volta à vida), da Mulher-Maravilha, do Batman, do Flash, do Aquaman - e ainda do Cyborg (vamos ser claros, nada tenho contra a personagem mas não tem a mesma importância dos cinco primeiros). Durante duas horas vão poder ser entretidos pela dinâmica entre as personalidades destas seis figuras que se unem sobre a égide de uma ameaça global. E é esse um dos maiores méritos deste filme: o entretenimento. Se a seriedade e negritude do Batman v Superman vos fez impressão, então a Liga da Justiça é a antítese que precisavam (eu adorei os dois). se gostam de duas horas sentados numa sala de cinema com a cabeça desligada, então preparem-se porque este filme é para vocês. Argumento simples (talvez simples demais), directo, com uma ameaça que os heróis têm que derrotar depois de conciliarem as diferentes personalidades. 

E que personalidades. Essa é maior força do filme. As trocas de picardias e de miminhos entre as personagens são descontraídas, sérias quando necessário e, acima de tudo, ditas por personalidades únicas. Apesar do Batman sorrir mais do que o Batman deveria sorrir, é ele quem tenta motivar os seus companheiros de equipa a se unirem. Flash assume o lado humorístico e deslumbrado mas não deixa de ser um herói na busca da sua coragem. Aquaman é uma torrente (perdoem o trocadilho) de força bárbara e de masculinidade (talvez o mais diferente da versão da BD). Cyborg é um homem conturbado pelo seu aspecto físico e por poderes que desconhece e o perturbam. E a Diana é a cola que os une. Gal Gadot continua a deslumbrar no papel da Mulher-Maravilha, cada vez mais assumindo ser um dos maiores casting (se não o maior) de sempre em filmes de super-heróis. Por causa do sucesso do filme homónimo temos muito de Diana no filme e a Liga só tem a ganhar com isso. Ela é, tal como esta personagem deve ser, força, graça, determinação e, acima de tudo, compaixão e compreensão. É ela a líder que a Liga precisa e tem.

A história é épica, como todas as histórias da Liga devem ser. O vilão deveria ser mais complexo mas parece que a DC decidiu inflectir para o caminho da Marvel e dar mais atenção aos heróis e menos ao vilão. Ainda assim, somos presenteados com o passado do antagonista, que aparece contextualizado numa visão unida do universo dos super-heróis desta versão de cinema. Poderiam ter ido mais longe? Poderiam e muito, mas para quem acha que estas coisas devem ser servidas de forma parcimoniosa, então têm o prato perfeito. 

Os detractores do estilo de Zack Snyder podem ficar descansados - dos quais não faço parte porque adoro Man of Steel e BvS. O factor Joss Whedon teve o efeito desejado. Existe mais humor e descontracção. A palete de cores é luminosa (o que podem confirmar comparando os trailers pré e pós contratação de Whedon). Ainda assim, a assinatura de Snyder não está completamente ausente. Existe, abordada muito ao de leve, uma temática transversal às personagens: os progenitores dos membros da Liga. Todos têm uma relação ou situação conturbada com os pais, o que é sublinhado em mais do que uma circunstância. Nota-se existir um linha narrativa mais profunda relacionada com esta temática mas que, infelizmente, não é explorada o suficiente. É francamente pena.

Sim, adorei o filme mas nem tudo são rosas. O maior problema é o bigode do Super-Homem. Sim, eu não me enganei a escrever. Quando fizeram refilmagens no verão passado, Henry Cavill trabalhava já no Missão Impossível, onde usa um bigode que não podia cortar. Esse bigode é apagado digitalmente e nota-se - muito. Outro problema, também relacionado com os efeitos digitais, é o uso desnecessário dos mesmos. Quando é que os produtores de grandes blockbusters irão aprender que um pôr-do-sol é mais belo quando verdadeiro e não feito por computador? Os directores de fotografia estão ali para isso. Não será difícil encontrar um bom pôr-do-sol ou, faltando, um ambiente realista capaz de veicular o peso emocional da cena. Num filme desta envergadura e com este orçamento estas duas falhas são grandes demais para passarem despercebidas e serem desculpadas. 

Um filme divertido e entretido em que as personalidades são o forte. Um enredo simplista mas que funciona melhor do que estava à espera.

PS - Não se esqueçam de esperar pelas duas cenas pós-crédito que são, ao mesmo tempo, um gigantesco presente para os fãs da DC e uma preparação para o próximo filme da Liga.

Colecção Liga da Justiça da Levoir, vol. 2: O Virus Amazo de Geoff Johns e Jason Fabok



Aproveitando o lançamento do filme homónimo, a editora Levoir irá publicar uma colecção de cinco volumes deste grupo de super-heróis entre o dia 9 de Novembro e 7 de Dezembro. Aqui no Acho que Acho, porque adoramos a DC e a Liga, queremos que vocês não se sintam perdidos na História, Cosmologia e Cosmogonia da editora. Por isso, vamos tentar dar-vos um pequeno Travel Guide. A Lonely Planet que se roa.

Em 2011 a DC Comics estava em apuros. As vendas não andavam entusiasmantes. Sendo que os super-heróis são o pão que alimenta a casa, fez-se necessária uma injecção de adrenalina para espevitar os leitores a quererem ler as histórias das suas personagens. Surge o Novos 52. De uma forma nunca vista, a DC Comics reinicia do zero todo o seu universo dos homens de collants. Surgem uma batelada de números um (52, para ser exacto), mesmo para as duas mais antigas revistas da editora: Action Comics, onde, em 1938, nasceu o Super-Homem; Detective Comics onde, em 1939, apareceu o Batman.

A revista que deu o pontapé de saída a esta tão drástica "evolução" foi a da Liga da Justiça, escrita por Geoff Johns e desenhada por Jim Lee - e que a Levoir já publicou numa anterior colecção. Numa história de seis números (escrever para o Trade, como agora se gosta de fazer), as mais poderosas e relevantes personagens da editora encontraram uma razão para se juntarem. O vilão chamava-se Darkseid, o Deus do Mal, criação do eterno Jack Kirby. Os heróis eram o Super-Homem, o Batman, a Mulher-Maravilha, o Aquaman, Lanterna Verde, o Flash e o Cyborg. Os que ligam a estas coisas notam, desde logo, uma diferença: a ausência do Caçador de Marte, substituído pelo último da lista. 

Cyborg foi criado nos princípios da década de 80 por Marv Wolfman e por George Pérez como parte da equipa Novos Titãs. À altura era um adolescente transformado num ciborgue pela ciência do seu pai após ter sido vítima de um terrível acidente. Atormentado pela transformação que o desfigurou, sempre viveu consumido pelas cicatrizes que carregava - uma nova versão do Coisa da Marvel. A sequência de histórias de Wolfman e Pérez marcaria,  pela sua qualidade, uma época e uma geração. Geoff Johns terá sido um deles e decidiu, nesta reinvenção da Liga, mudar a sua já longa História e a formação original. Continuariam a ser os Big 7 mas com uma "pequena" modificação. Esta é a equipa que veremos no segundo volume desta colecção e também no filme que estreia hoje.

O adversário de O Virus Amazo também ele é uma evolução de um clássico inimigo da Liga. Amazo era um robô criado por outro antagonista, o Professor Ivo, que possuía a peculiar qualidade de duplicar qualquer super-poder. No fundo, era uma forma dos escritores contornarem o poder quase divino da Liga da Justiça: virar as suas próprias capacidades contra ela. Geoff Johns procura transformar um conceito considerado datado e adaptá-lo à paranóia do mundo moderno, para tal fazendo uso de Lex Luthor, o eterno némesis do Super-Homem, que assume um papel particularmente importante nesta história. Note-se que este volume segue-se imediatamente após a saga Mal Eterno, publicada na colecção da Levoir dedicada aos vilões da DC No Coração das Trevas. No final dessa, Lex passou a ser membro da Liga. Escusado será dizer que as tensões são mais que muitas.

(seguem previews)




Música à Quarta!


Todas as semanas, todos os dias e, quem sabe, todas as horas, são lançados inúmeros LP'sEP'sSingles. Não sou melómano, apenas um ouvinte. Selecciono o que oiço pelo estilo, pelos nomes de artistas que conheço, pelo que oiço na rádio, pelos algoritmos do Spotify e pelos gostos e sugestões dos amigos. Sei que apenas oiço uma pequena parte do que existe.

Álbuns para Sempre, 45

Existem álbuns e músicas que permanecem. São mais do que prazeres. São memórias.  São pedaços de um tempo, um momento, feliz ou triste. São reflexo de existir e, por isso, nossos - mas também dos outros. Como em nenhuma outra arte a música é comunhão. Quer por estarmos num concerto, quer porque ouvimos um mesmo álbum, cada um no conforto de casa.

Todos os fins-de-semana vão poder ouvir um álbum que me marcou. Esta semana cabe a Tori Amos e ao LP Under the Pink.


Colecção Liga da Justiça da Levoir, vol. 1: Nova Ordem Mundial de Grant Morrison e Howard Porter

(podem também ler este post onde já faziamos uma pequena resenha sobre esta versão da Liga da Justiça)

Aproveitando o lançamento do filme homónimo, a editora Levoir irá publicar uma colecção de cinco volumes deste grupo de super-heróis entre o dia 9 de Novembro e 7 de Dezembro. Aqui no Acho que Acho, porque adoramos a DC e a Liga, queremos que vocês não se sintam perdidos na História, Cosmologia e Cosmogonia da editora. Por isso, vamos tentar dar-vos um pequeno Travel Guide. A Lonely Planet que se roa.


A Liga Justiça da América é a união dos maiores personagens da BD dos EUA. Quando foi criada em 1960 no número 28 da revista Brave and The Bold da DC Comics, reunia sete dos mais relevantes nomes dessa editora: Super-Homem; Batman; Mulher-Maravilha; Aquaman; Flash, Lanterna Verde e Caçador de Marte. Os dois primeiros, os mais relevantes e conhecidos, nem sempre fariam parte das aventuras da Liga nos seus primeiros anos mas, ao longo do tempo,  foram estando mais e mais presentes. Também à medida que os anos passaram, o número de membros foi aumentando até transformar-se num verdadeiro exército, o maior e mais poderoso do universo da 9.ª Arte. 

Muitas foram as iterações desta equipa, com algumas das mais conhecidas e apreciadas a serem desvios da formação inicial dos Big 7. Uma acontece depois da famosa saga Crise nas Terras Infinitas (quando a DC decidiu recomeçar o seu universo de super-heróis do zero), em que os autores Keith Giffen, J.M.DeMatteis e Kevin Maguire, ao não conseguir "brincar" com os principais personagens da Liga, invertem para uma abordagem ao estilo sitcom que parecia arriscada mas que transformou-se numa das mais memoráveis sequências de histórias desta equipa de super-heróis. Qualquer coisa como cinco anos depois a DC decide voltar ao ritmo habitual mas sem o sucesso quer da versão humorística quer da saudosa que reunia os Big 7 e outros.

Em 1997, quando a Liga estava num ciclo descendente de qualidade e vendas, surge o escritor escocês Grant Morrison, que a DC já tinha publicado na imprint adulta Vertigo. A sua abordagem era um misto de regresso às origens e do injectar de sensibilidades modernas. Do lado das origens, Morrison mina a sua adorada Idade da Prata (o período da BD dos EUA que vai da década de 60 até início da de 70), onde as histórias eram deliciosamente escabrosas. Da modernidade, buscaria a sua própria sensibilidade carnavalesca, maior que a vida, operática, na tangente do teatral, para orquestrar sagas que ficariam para a História da Liga. As ameaças que a equipa tinha de enfrentar eram ridiculamente macro-cósmicas e multiuniversais. Deuses eram apontamentos nas vidas destes super-heróis. Convenhamos: quando Morrison consegue, pela primeira vez em muitos anos, voltar a reunir os Big 7, que mais poderia-se-ia esperar? Só podíamos ter adversários que apenas o Super-Homem, o Batman, a Mulher-Maravilha, o Aquaman, o Flash, o Lanterna Verde e o Caçador de Marte tinham capacidade de derrotar.

Os menos versados na História da DC poderão entrar nestas aventuras e não conhecer certas caras. Claro que sabem quem é o Super-Homem, o Batman e a Mulher-Maravilha. Eles são o Clark Kent/Kal-El, o Bruce Wayne e a Diana que todos conhecem. O Aquaman continua a ser Arthur Curry, filho de mãe atlanteana e pai humano, rei da Atlântida e do maior país do mundo, o dos sete mares. À altura desta BD, era escrito por Peter David, que decidiu cortar-lhe a mão e substituí-la por um arpão e que, acima de tudo, transformou-o num rei decidido e duro.  Mas o Flash não é Barry Allen mas antes Wally West, o parceiro que, após a morte do mentor na Crise nas Terras Infinitas, deixa cair a sua identidade de Kid Flash para se transformar no maior velocista do universo da DC. O Lanterna também não é Hal Jordan mas Kyle Rayner. Hal havia invertido para o lado do mal e Kyle era agora o único ser no universo a usar o famoso anel verde - ou, como Morrison o chamaria nesta Liga, a mais poderosa máquinas de desejos do mundo. O Caçador de Marte continua a ser o mesmo mas poucos, fora dos fãs da DC, o conhecem. É o ultimo sobrevivente do planeta Marte, possuidor da maior variedade de poderes de qualquer personagem da DC; voo; invulnerabilidade; intangibilidade; telepatia; metamorfose; super-força; visão marciana. Tudo isto e apenas uma franqueza: o fogo. O Super-Homem considera-o um dos poucos capaz de o derrotar no corpo a corpo e o Batman respeita-o pela sua inteligência, capacidade estratega e por corporizar "o verdadeiro espírito da Liga" (foi membro de todas as suas iterações).

Este volume colecciona alguns dos primeiros números da Liga de Grant Morrison e Howard Porter. Numa das histórias enfrentam o Hiperclã, uma misteriosa equipa de super-heróis disposta a corrigir os problemas do mundo e a tornar a Liga obsoleta. Na outra, a escala de ameaça sobe e confrontam nada mais nada menos que os anjos da mitologia cristã. Nesta última, os leitores vão ser confrontados com uma versão bem diferente do Super-Homem: um Homem de Aço eléctrico. Mérito seja feito a Morrison que consegue fazer limonada com o mais azedo dos limões, ao aproveitar esta estranha evolução e extrair não um mas dois dos momentos mais antológicos da vida do último sobrevivente de Krypton.

O trabalho de Morrison e de Porter continuaria por mais anos com sagas como Rock of Ages, DC One Million ou World War III e, na opinião deste vosso bloguista, ambos entregariam as maiores e mais relevantes aventuras da História da Liga da Justiça. É rezar para que o resto seja editado cá por terras Lusas. Tudo depende de vocês.

Seguem em baixo previews.




Música à Quarta!



Todas as semanas, todos os dias e, quem sabe, todas as horas, são lançados inúmeros LP'sEP'sSingles. Não sou melómano, apenas um ouvinte. Selecciono o que oiço pelo estilo, pelos nomes de artistas que conheço, pelo que oiço na rádio, pelos algoritmos do Spotify e pelos gostos e sugestões dos amigos. Sei que apenas oiço uma pequena parte do que existe.