5.º volume da Colecção Mulher-Maravilha Levoir/Público: Deuses de Gotham de Phil Jimenez

Tudo o que é bom acaba. A colecção que marcou o ano para o Acho que Acho chega hoje ao último volume. A nossa Diana deixa-nos, desta vez pela imaginação de um dos seus maiores admiradores e um dos maiores artistas que trabalharam as suas histórias: Phil Jimenez. 

E, mais uma vez (e perdoem-me por estar a ser chato e repetitivo) fui convidado a escrever umas palavras para a introdução.

Novamente, quero agradecer à Levoir e José Hartvig de Freitas pela honra e previlégio que me deram por participar e escrever para esta colecção. Um bem hajam!



Chegou ao fim de mais uma colecção DC COMICS da Levoir e do jornal Público. Neste último volume, o quinto da colecção, Mulher-Maravilha: Deuses de Gotham, escrita por Phil Jimenez e J. M. DeMatteis, e ilustrada pelo próprio Jimenez e Andy Lanning pode ser apreciada uma das melhores histórias deste grupo criativo.

Este volume inclui as 3 ilustrações vencedoras do Concurso Mulher-Maravilha, cujos autores são:
- Filipe Dias

-Joel Sousa

-Nuno Rodrigues


Os mais terríveis deuses gregos regressam ao mundo, os deuses da discórdia, medo e terror, e combinam a sua essência com a dos piores supervilões de Gotham City, Joker, Espantalho e Hera Venenosa. Batman irá nesta história necessitar de toda a ajuda da Mulher-Maravilha para os derrotar, mas quando os deuses também conseguem possuir Batman, a Princesa Amazona descobre que mesmo a ajuda de outros protectores de Gotham, como o Asa Nocturna e o Robin, bem como da sua própria protegida, Donna Troy, a Wonder Girl, podem não ser suficientes para acabar com o reinado maligno dos deuses do submundo. 

Sabias que:
O conhecido logotipo da Mulher-Maravilha, com o duplo WW, foi criado em 1982 pelo famoso designer Milton Glaser, criador do icónico I ❤ NY. Não foi essa a única colaboração de Glaser com a DC, pois o designer foi também responsável pelo mais duradouro logotipo da DC Comics, conhecido.





Música à Quarta!


Todas as semanas, todos os dias e, quem sabe, todas as horas, são lançados inúmeros LP'sEP'sSingles. Não sou melómano, apenas um ouvinte. Selecciono o que oiço pelo estilo, pelos nomes de artistas que conheço, pelo que oiço na rádio, pelos algoritmos do Spotify e pelos gostos e sugestões dos amigos. Sei que apenas oiço uma pequena parte do que existe.

Neste Blogtodas as quartas-feiras, compilo uma lista de álbuns que ouvi durante a semana e faço um post com ligação ao Spotify  onde podem ouvir o que ouvi. Em baixo podem encontrar a lista. Destaco a bold os álbuns que mais gostei.

À esquerda e em cima no Blog podem ouvir os álbuns da semana.


Gallery de ARIZONA - 2017 (Indie Pop)
Purple de Leslie Clio - 2017 (Pop)
Truth is a Beautiful Thing de London Grammar - 2017 (Indie Pop)
Connect the Dots de MisterWives - 2017 (Indie Pop)
100% de Monogem - 2017 (Electronica)
How Did We Get So Dark? de Royal Blood - 2017 (Rock 'n' Roll)
Subtemple/Beachfires de Burial - 2017 (Electronic)
Notilus de Notilus - 2017 (Electronica)
Remixed 2 de Roosevelt - 2017 (Electronica)
Another.Not Me. I'm Done. de Sofi de la Torre - 2017 (Indie Pop)
Blessings de Tom Walker - 2017 (Indie Pop)
Something More! de WATERS - 2017 (Indie Rock)

Ciclo Kenji Mizoguchi no cinema Nimas em Lisboa



Está quase a terminar um dos eventos cinematográficos do ano (da década?) em Lisboa: a exibição, no Nimas, de nove filmes de Kenji Mizoguchi. Está longe de ser uma incursão exaustiva mas é uma mais que merecida, essencial para conhecer a História do Cinema mas, e acima de tudo, histórias intemporais e gigantes. Oportunidade para entrar no pensamento de um realizador que elevou a 9.ª Arte sem a tornar inacessível. É como se Mizoguchi seguisse (sem o sequer considerar) a linha de pensamento de Tolstoy no seu O Que é a Arte? Os filmes do japonês podem (e, acima de tudo, devem) ser apreciados por qualquer pessoa, qualquer credo, religião, geografia. No que a mim diz respeito, estamos na presença de uma das mais admiráveis figuras da cultura mundial.

Qualquer palavra ou elogio que possamos escrever irá parecer desnecessária e pequena. O que interessa é submergirmos na imagem, no enredo e nas personagens de Mizoguchi. Será melhor começar no Mizoguchi feudal, o dos Contos da Lua Vaga, dos Amantes Crucificados, do Intendente Sansho, d'A Senhora Oyu, d'O Conto dos Crisântemos Tardios? Ou será melhor o Mizoguchi da sua época, o de Festa de Gion, d'A Rua da Vergonha, d'A Mulher de quem se Fala? Pouco interessa. Tudo é extraordinário e, mais, tudo é sobre o mesmo homem. 

Os grandes artistas têm (quase) sempre manias. Temas recorrentes. Obsessões. As de Mizoguchi centram-se nas mulheres e na estratificação social. Ou melhor, no Japão, essa geografia (omni)presente na temática do realizador (por razões óbvias e outras nem tanto). Dizer que este país é um lugar estranho é resumir aquilo que não pode ser resumido. É necessário entrar na História de uma ilha que chegou a isolar-se do mundo durante três séculos, para estar sob o jugo de um Shogunato implacável e ditatorial que marcou indelevelmente uma sociedade que, ainda hoje, é reflexo desse regime.  Por mais mistificante e atraente que o Japão seja hoje, ele é produto de algo e Mizoguchi não poupa-se a tentar encontrar esse "algo", ou melhor, a explicá-lo e a expô-lo, com narrativas lineares mas profundamente pungentes e sociais. O realizador não escolhe o caminho do floreado. Para relatar a história, escolhe o directo, a simples estrutura de um conto, mas é nos elementos desta, no enredo, nas personagens, que foca-se nos temas que lhe são caros.

A estratificação social rígida do Japão é, em filmes como Os Amantes Crucificados, Os Contos da Lua Vaga ou O Conto dos Crinsântemos Tardios, um dos elementos mais marcantes, sendo ao mesmo tempo o móbil da narrativa mas também o seu enfoque, com uma critica que nota-se porque Mizoguchi escolhe os momentos de forma declarada mas subtil. Quer seja no período Edo (o do Shogunato), quer na década de 50, a rígida e quase inconquistável estratificação social é omnipresente. Sair dessa prisão (que perpetua-se nas gerações) é impossível, segundo Mizoguchi.

Mas são as mulheres a maior fixação do realizador, pelo menos no que nestes filmes diz respeito. Quer sejam as protagonistas, em películas como Festa de Gion, A Mulher de Quem se FalaA Imperatriz Yang Kwei Fei, quer sejam mais um dos elementos da narrativa, como em Os Amantes Crucificados, Os Contos da Lua Vaga ou O Conto dos Crinsântemos Tardios, Mizoguchi escolhe expor a condição do sexo feminino no Japão. Ora sacrificada, ora submissa, ora cingida à condição de gueixa (outra recorrência nas suas narrativas), não deixa de ser uma força que apaixona o lado humano e social deste realizador. Existe uma cruzada e uma militância que se explica pela sua história de vida, de um pai alcoólico que vendeu a filha para ser gueixa. Existe em cada poro da narrativa e da realização. Mas desenganem-se se pensam estarmos a olhar para um outro mundo e uma outra época. Não existe aqui distanciamento. Mizoguchi é verdadeiramente universal e intemporal.

O ciclo irá, a partir do próximo dia 22 de Junho, repor todos os filmes para os possam rever ou ver. Um dos acontecimentos culturais do ano, imperdível e essencial. 




Lançamento Devir: O Homem que Passeia de Jiro Taniguchi



O ano de 2017 está a tonar-se num dos grandes no que respeita a lançamentos de BD em Portugal de traduções no nosso português. Agora é a vez de iniciar-se uma nova colecção, desta vez pela Devir, de grande autores japoneses, começando por Jiro Taniguchi e pela obra O Homem que Passeia. O lançamento ocorrerá na Festa do Japão no próximo dia 24 de Junho.

A obra será a primeira do que aqui o Acho que Acho espera serem muitas. Já está planeada a seguinte: Nonnonba de Shigeru Mizuki.

SÍNTESE

Um homem contempla os subúrbios da sua cidade. Caminhando devagar, escuta e cheira. Para e observa. 

É impossível não nos sentirmos alheios e indiferentes ao mundo, em contraste com este olhar puro. Passeando por estas páginas reaprendemos a olhar, talvez a viver, mais atentos às pequenas coisas. 

O AUTOR

(1947-2017) Publica a sua primeira obra no início da década de 1970. A descoberta da banda desenhada europeia, marca uma viragem na obra de Taniguchi,que opta por trabalhar sozinho, escrevendo e desenhando as suas próprias histórias. A partir de 1991, a sua obra assenta na sua experiência pessoal e na atenta observação, profundamente humana, dos seus semelhantes e do seu quotidiano.

A obra de Taniguchi espelha sentimentos positivos, um reconhecimento sincero pelas tradições culturais, uma forte ligação à família e o regresso à infância como forma de redescobrir as suas origens.

Principais distinções
1992: Prémio do Mangá Shogakukan.
1993: Prémio da Associação de Mangaka Japoneses.
1998: Prémio cultural Osamu Tezuka.
FICHA TÉCNICA
244 páginas a preto
Formato: 170x240 mm
ISBN: 978-989-559-304-0 
PREÇO: €19,99 PVR





Álbuns para Sempre, 24

Existem álbuns e músicas que permanecem. São mais que prazeres. São memórias.  São pedaços de um tempo, um momento, feliz ou triste. São resultado de existirmos e, por isso, nossos - mas também de outros. Como nenhuma outra arte, a música é comunhão. Quer por estarmos juntos num concerto, quer porque ouvimos um mesmo álbum, cada qual no conforto da sua casa.

Todos os fins-de-semana vão poder ouvir um álbum que me marcou. Esta semana cabe a U2 e ao LP The Joshua Tree.


Colecção Mulher-Maravilha Levoir/Público - 4.º volume: Homens e Deuses de George Pérez, Len Wein e Greg Potter



Existem momentos que valem a pena recordar e permanecer para sempre na memória. Um desses momentos foi aquele em que li, pela primeira vez, a Mulher-Maravilha de George Pérez - numa das saudosas revistinhas da Editora Abril. Foi a partir daí que o meu amor pela personagem começou, já lá vão 30 anos. Por isso, Diana continua a ser a minha favorita da BD.

Foi, portanto, com orgulho, honra e um outro indefinível e grande sentimento, que fui convidado para participar na colecção da Levoir/Público da Diana e a data de hoje é muito especial. 

Houve alguma falta de juízo a quem disse para eu escrever a introdução do volume que sai hoje, o dedicado a essas histórias e a esse autor que tanto marcaram o meu percurso na BD - e na vida, não o vou diminuir. Desculpam a falta de modéstia, mas este é um momento particularmente especial.

Contudo, o que interessa mesmo é vocês também se apaixonarem pela Diana de George Pérez. Espero que o consigam mas, se não conseguirem, não se apoquentem: tudo a seu tempo.

E agora o press-release da Levoir.

O volume de Mulher-Maravilha: Homens e Deuses é o terceiro da colecção e sai em banca a 15 de Junho, por mais 11,90€ com o jornal Público e na FNAC.


Na mítica ilha de Temiscira, uma orgulhosa e feroz raça guerreira de amazonas criou uma filha de beleza, graça e força inauditas – a princesa Diana, também conhecida como Mulher-Maravilha. Quando um piloto de caça do Exército, Steve Trevor, pára na ilha, a rebelde e obstinada Diana desafia a lei das amazonas ao acompanhar Trevor de volta à civilização. Enquanto isso, Ares (o deus da guerra) escapou de sua prisão nas mãos das Amazonas e decidiu exigir a sua vingança: uma guerra mundial que não só durará séculos como acabará com todos os seres vivos do planeta! Cabe à Princesa Diana salvar seu povo e o mundo, usando os seus poderes para provar que merece o nome de Mulher-Maravilha. O início da épica e incontornável remodelação da Mulher-Maravilha, levada a cabo por George Pérez na sequência das alterações no Universo DC provocadas pela saga Crise nas Terras Infinitas.





Música à Quarta!


Todas as semanas, todos os dias e, quem sabe, todas as horas, são lançados inúmeros LP'sEP'sSingles. Não sou melómano, apenas um ouvinte. Selecciono o que oiço pelo estilo, pelos nomes de artistas que conheço, pelo que oiço na rádio, pelos algoritmos do Spotify e pelos gostos e sugestões dos amigos. Sei que apenas oiço uma pequena parte do que existe.

Neste Blogtodas as quartas-feiras, compilo uma lista de álbuns que ouvi durante a semana e faço um post com ligação ao Spotify  onde podem ouvir o que ouvi. Em baixo podem encontrar a lista. Destaco a bold os álbuns que mais gostei.

À esquerda e em cima no Blog podem ouvir os álbuns da semana.


3:33 AM de Amber Mark - 2017 (Pop)
Rouge de Thomas Azier - 2017 (Indie Pop) 
This is My Kingdom Now de Justin Currie - 2017 (Indie Folk)
Flying Out Of Solitude de The Hermit - 2017 (Electronica)
Dorothy de Diagrams - 2017 (Indie Pop)
Good Times de Mando Diao - 2017 (Indie Pop)
Time is a Riddle de Luke Sital-Singh - 2017 (Indie Folk)
The Wave de Los Colognes - 2017 (Indie Pop)

Mulher-Maravilha de Lauren Montgomery: Edição Comemorativa

Pode encontrar-se nas lojas em Portugal este DVD, uma re-edição comemorativa da animação produzida em 2009 pela DC e protagonizada por Diana, Princesa de Themyscira, a Mulher-Maravilha. Obviamente que o propósito é capitalizar no filme live-action que passa nas salas do cinema, e constitui uma diferente interpretação do mito que, em termos filosóficos, permanece fiel aos princípios inerentes do mundo de Diana.

O filme segue o enredo criado por William Moulton Marston, o criador da Mulher-Maravilha, mas com algumas modificações para melhor alicerçá-lo na narrativa de um filme animado de uma hora e um quarto e também no mundo moderno. As Amazonas são vistas como guerreiras eficientes que lutaram, na Antiguidade Clássica, para libertarem-se do jugo e escravidão a que estiveram impostas pelo Deus da Guerra, Ares. É ele o antagonista desta narrativa, servindo como motor e propósito das Amazonas e de Diana. Surge ainda Steve Trevor, o homem que despenha-se na Ilha de Themyscira (o lar das Amazonas) e é ele que enceta o desejo, junto com Ares, de Diana abandonar o seu lar. 

Este filme não é para crianças, ainda que esteja marcado para Maiores de 6 Anos e vendido na secção infantil de DVD's (da FNAC, por exemplo). Os temas, a violência e modo de contar a história, são menos infantis do que se poderia esperar e, assumidamente, não é aconselhável a crianças impressionáveis (estamos muito longe de Frozen e de produtos do género). Ainda assim, é um filme que pode (e deve) ser apreciado pela maior parte da família, com momentos que oscilam entre a acção e o humor e com uma mensagem feminista sublinhada (tão importante ao mito da Diana). A história apresenta algumas falhas e a interpretação de Diana não é a minha favorita, mas esta possui peso o suficiente para suportar a narrativa. Esta versão da Mulher-Maravilha não tem a ver com os olhos inocentes com que Patty Jenkins e Gal Gadot a desenharam no filme live-action (e inspirado em George Pérez, o escritor/desenhador que reformulou a personagem em 1987).

Uma das forças deste DVD são os extras. Poderemos ver uma elucidativa biografia do seu criador (que, ainda assim, escapa-se a abordar temas mais lascivos), vários criadores a falar (alguns, de forma muito emotiva) sobre o que faz esta personagem respirar e ser o ícone que é, entre outros momentos que ilustram de forma clara o significado de Diana no contexto da Banda Desenhada, da História e da sua relevância enquanto símbolo.

Um DVD para perceber quem é a Mulher-Maravilha enquanto mito e enquanto personagem de ficção.

Álbuns para Sempre, 23

Existem álbuns e músicas que permanecem. São mais que prazeres. São memórias.  São pedaços de um tempo, um momento, feliz ou triste. São resultado de existirmos e, por isso, nossos - mas também de outros. Como nenhuma outra arte, a música é comunhão. Quer por estarmos juntos num concerto, quer porque ouvimos um mesmo álbum, cada qual no conforto da sua casa.

Todos os fins-de-semana vão poder ouvir um álbum que me marcou. Esta semana cabe a Fleetwood Mac e ao LP Mirage.



Grant Morrison: Teatro na BD (primeira parte)

(este artigo contem spoilers ao trabalho de Morrison em Animal Man, Kingdom, Final Crisis, Superman Beyond, e a histórias como Infinite Crisis, 52)

Começa com o homem que copia animais

Uma das imagens mais emblemáticas do trabalho de Grant Morrison em Animal Man (1988-1990) é a da personagem principal, Buddy Baker/Animal Man, a virar-se para o público, num close-up de página inteira do seu rosto, e a proferir as palavras "Eu consigo ver-vos!". A ideia não era nova mas na BD de super-heróis foi, à altura, surpreendente. A personagem descobria fazer parte de uma história impressa numa revista a duas dimensões. A quarta parede era quebrada de forma bem sonora. 

O local onde Buddy o descobre era, também em si, estranho: um Limbo do universo da DC Comics, uma dimensão para onde Morrison imaginava gravitarem os personagens esquecidos da editora. 
A mega-saga Crise nas Terras Infinitas (1985-1986) era recente na memória e Morrison, acabado de chegar à DC, decidiu, ainda assim, homenagear as triliões de vidas (ficcionais) ceifadas nesse evento. A Crise fora utilizada pela DC para "limpar a casa" e transformar a confusão pluri-universal (o Multiverso) num único e simples universo, fácil de entender para os potenciais novos leitores. Milhões de universos morreriam e triliões de vidas extinguir-se-iam. Pior. Nunca existiram.

Apaixonado pela Idade de Prata da DC (histórias de finais da década de 50, década de 60 e princípios da de 70), Morrison decide homenageá-la numa elegia meta-textual. Buddy Baker passava a conhecer a Verdade: as suas aventuras eram o resultado dos ditames editoriais e do totalitarismo de fãs que o liam mês após mês. O que tinha começado, no número cinco da revista, com uma versão do Will E. Coyote (o do Bip-Bip) a questionar Deus sobre a sua vida de sofrimento, acabava numa conversa com a verdadeira entidade divina na BD: o escritor. No final e num momento Deus Ex Machina, Morrison apaga todos os eventos catastróficos a que tinha sujeito a personagem, fechando a reflexão meta sobre a narração e o poder das histórias.

Desenganem-se se acham que o escritor ficar-se-ia pelas páginas do Homem-Animal. A história estava apenas a começar. Não quero afirmar que Morrison tinha um plano (é certo que não, já que era ainda muito novo no mundo da BD). Não falo de uma intenção consciente mas de uma temática transversal e autoral. São os tiques e as manias que acontecem de forma recorrente, como um leit motif numa ópera. Morrison faz parte dos autores que têm algo mais a dizer. Uma intenção. Um misto de inconsciência e crença. Pode não ser boa, podemos não gostar, mas ela existe.

O tempo que era hiper

No que respeita ao universo dos super-heróis da DC, Morrison parece construir uma cosmogonia muito própria e que tem sido abraçada, de forma mais ou menos relutante e mais ou menos consciente, pela editora. Depois de Animal Man, ele voltaria, anos mais tarde, ao universo convencional da DC com JLA, considerada por muitos como a interpretação definitiva da maior equipa de super-heróis do mundo ficcional da BD: a Liga da Justiça. Estas temáticas esotéricas não apareceriam nesta sequência de histórias mas dariam o ar da sua graça numa outra que Morrison ajudou a criar: Kingdom. Nesta, é dado o primeiro indício de uma ideia querida a ele e a outros escritores da editora, a de que todas as histórias da DC tinham de facto ocorrido, de que o multiverso não havia morrido na Crise. À altura chamaram-lhe Hipertempo. Pressupunha (e vou tentar ser simples) que existe uma linha temporal principal (imaginem o Tejo) e tributários e afluentes que entram e saem desse rio, ou que correm paralelamente a ele, influenciado o caudal com pequenas variações ou pura e simplesmente dando ar da sua graça, sem consequências de maior.

Esta ideia ficaria adormecida durante mais de uma década, com pequenas aparições em algumas histórias de uma ou outra personagem.



Uma e mais outra crise

O multiverso acabaria, finalmente, por regressar numa saga que nada tinha a ver com Morrison:  Infinite Crisis de Geoff Johns (2005-2006). Para além deste esperado regresso, Johns reintroduziu alguns personagens que os leitores DC não viam há 20 anos. Destacamos o que viria a ser conhecido como Superboy Prime. Esta versão jovem do Super-Homem era oriundo de uma Terra Paralela que existia antes da Crise nas Terras Infinitas chamada Terra-Prime. Esta versão do nosso mundo tinha uma peculiaridade: era mesmo o nosso mundo, aquele onde eu e tu e os escritores de BD da DC viviam. O Superboy Prime era o seu único super-herói, com os mesmos poderes do Homem de Aço e um conhecimento extra: era leitor assíduo das revistas da DC Comics publicadas na sua/nossa Terra. Geoff Johns transforma-o no vilão de Infinite Crisis e usa-o como comentário aos geeks da BD que a vivem e criticam de forma obsessiva. Não sendo uma criação de Morrison, Superboy-Prime partilha de algumas das suas (meta)manias. Voltarei a ele mais tarde.

Numa minissérie semanal que se seguiu chamada 52, era revelado que o multiverso era composto por 52 universos. À altura (2007) Morrison prometia explorá-los num trabalho futuro: chamar-se-ia Multiversity mas iria demorar nove anos a ficar completo. Antes teve tempo de escrever Final CrisisFinal Crisis era uma homenagem de Morrison à imaginação do Rei dos Comics, Jack Kirby, e às suas criações para o universo DC, principalmente os Novos Deuses e o maior adversário da tapeçaria da editora: Darkseid, o Deus Omega, O Aniquilador Definitivo. 

Numa minissérie paralela escrita por si e desenhada por Doug Mankhe, Superman Beyond, Morrison regressa aos conceitos que tinha introduzido em Animal Man, ao mesmo tempo que dava-nos alguns novos. Volta a visitar o limbo das personagens esquecidas (pelos leitores e escritores), mas desta vez com a sua favorita, o Super-Homem, que estaria predestinado a enfrentar, de acordo com esta narrativa, um mal absoluto, Mandrakk

Ao mesmo tempo, Morrison volta a visitar a noção de que o universo DC era criado/escrito num outro plano de existência (o nosso). Morrison liga esta Crise Final à Teoria-M da Física Quântica, que postula a possível existência de 11 dimensões (as nossas três, o tempo e mais sete - pelo menos é o que diz a wikipédia). Apesar da estranheza do conceito, interessa reter que qualquer universo pode ser a criação (e estar a ser lido) por um outro de dimensão superior. As nossas vidas podem ser as páginas de um livro. A ligação ao mundo da BD, lido em páginas coloridas, é óbvia. A noção de "quebrar a quarta parede" adquire uma nova interpretação. 

Uma curiosidade: esta BD era parcialmente lida em 3D, uma opção que era mais narrativa do que estética. O leitor e os personagens eram convidados a aceder a uma dimensão superior (a terceira) para conseguir ler a história.




Provavelmente já vos perdi mas existe ainda um outro conceito caro a este escritor e que é abordado, pela primeira vez, em Superman Beyond. Para Morrison as histórias são uma forma de acesso a uma dimensão superior, um reflexo de uma realidade além da percepção dos sentidos. Para acedermos a planos paralelos teremos de usar de linguagem nas suas diferentes formas, quer seja ela escrita ou cantada. Porque os universos são separados por diferentes vibrações, estes podem ser acedidos ao mudar o timbre de uma nota ou de uma canção.

O mal inominável que mencionei acima, o ser chamado Mandrakk, era também um Monitor Negro. Os Monitores são seres mais do que divinos que observam e preservam a realidade, a que chamam Orrery. Esta é uma estrutura metafísica que, segundo Morrison, alberga o Multiverso da DC. O opositor de Mandrakk era, acima de tudo, o super-herói original, o Super-Homem, mas também Nix Uotan, um jovem Monitor que, no final da Final Crisis, seria o último sobrevivente da sua espécie e subsequentemente exilado.

(to be continued eram as palavras no final de Superman Beyond, as que o Super-Homem escolheria para escrever no seu epitáfio. E são também as minhas até o próximo post sobre este assunto que só a mim interessa)