O que é preciso saber para ler a Guerra do Corpo Sinestro?

BD de super-heróis podem ser frustrantes. A fama de serem complicadas de seguir é merecida.

Esta semana e na anterior, na Colecção Coração das Trevas DC, a sair junto com o Público pela chancela da Levoir, é umas dessas histórias. 

Quando a li na altura em que saiu, o prazer que retirei não se devia apenas à qualidade dos autores. O conhecimento da mitologia DC também ajudou. É como uma telenovela.

Vou tentar descrever o que lembro-me e o que acho ser relevante para tirar o máximo de entretenimento possível desta obra - ainda que também ache que parte do prazer de ler super-heróis é descobrir, à posteriori, as histórias dos personagens que lemos.



  • Os Lanternas Verdes são um corpo policial que tem como missão proteger o universo. Têm uma anel de energia que "cria  desejos", o que, na imaginação limitada de muitos deles, queria dizer criar bolhas para aprisionar criminosos e luvas gigantes para os derrubar. Claramente não eram um Tolstoy ou um Frank Lloyd Wright;
  • Os patrões dos Lanternas são os Guardiões do Universo, originários do planeta Oa, situado no centro geométrico do universo. São seres quase omniscientes e omnipotentes. Eram muito mandões e mal dispostos. Deviam ter um complexo de inferioridade por serem pequerruchos e terem cabeças grandes;
  • Os Guardiões dividiram o universo em 3600 sectores (tipo esquadras), cada qual com o seu Lanterna Verde (posteriormente passaram a dois);
  • O sector da Terra é o 2814 - não me ocorre dizer nada de engraçado à conta disto;
  • Por várias razões, à altura da Guerra do Corpo Sinestro, existem quatro Lanternas no sector da Terra, todos homens: Hal Jordan, o protagonista da série; Guy Gardner; John Stewart; Kyle Rayner - sendo os escritores homens e originários do planeta Terra as razões parecem óbvias;
  • Kyle Rayner foi o Lanterna Verde que substituiu Hal Jordan. Este último enlouqueceu, destruiu o Corpo dos Lanternas Verdes, transformou-se no vilão Parallax, redimiu-se e morreu sacrificando-se pela salvação da Terra (entretanto ficou melhor, como sempre  acontece com os super-heróis);
  • Sinestro, o vilão desta história (nome kitsh mas fica clarinho qual o lado da balança para onde pende), foi, originalmente, um Lanterna Verde e mentor de Hal Jordan. Devido às inclinações despóticas e ao facto de ter infligido um regime totalitário no seu planeta natal, Korugar, foi expulso deste Corpo - no shit;
  • No planeta Qward, também no centro geométrico mas de um universo de Anti-Matéria, oposto ao "nosso", Sinestro encontrou um anel amarelo, com as mesmas propriedades do anel dos Lanternas Verdes;
  • A cor amarela foi, durante décadas, a única fraqueza do anel verde dos Lanternas. Não podiam directamente infligir qualquer acção num objecto ou pessoa com esta cor  - esta é a fraqueza mais ridícula de todos os super-heróis. O Poupas dava conta dum Lanterna Verde;
  • A Crise nas Terras Infinitas foi uma saga pan-cósmica que envolveu todos os heróis e vilões da DC na década 80 (leiam aqui para saber mais sobre a mesma). O vilão desta saga chamava-se Anti-Monitor e, sim, veio de Qward (ou de uma sua lua), sito no universo de anti-matéria. (SPOILER) Ele morre no final desta Crise;
(eu sei que isto está a ficar complicado. Sorry!)
  • Algures na história dos arrufos com Hal Jordan, Sinestro é aprisionado no interior da grande bateria de Oa, a fonte de energia dos Lanternas Verdes - será que há casa-de-banho dentro de uma bateria gigante?;
  • Num racional digno de uma BD de super-heróis, Sinestro continua consciente e descobre uma verdade escondida: o facto de os Lanternas não conseguirem influenciar a cor amarela deve-se a um ser que vive dentro da bateria, tipo carrapato. Esse ser chama-se Parallax;
  • Parallax é a manifestação física do Medo que, na mitologia das cores DC, é representada pelo amarelo (esta caiu do céu... eu sei! Já explico);
  • Sinestro liberta Parallax que apodera-se do corpo de Hal Jordan - daí ele ter ficado louco, como disse algures acima (engenhoso, não?!);
  • Anos mais tarde, já depois de mortinho e enterrado, Hal Jordan ressuscita, sem Parallax, e o Corpo dos Lanternas Verdes é recriado. A criatura, entretanto anda por aí à solta;
  • Descobre-se, nesta ressurreição, que existe uma coisa chamada Espectro de Emoções, com sete emoções no total, cada qual com a sua cor. O verde é a Esperança. O amarelo o Medo, como já disse. As outras não conto porque quero que leiam o que vem a seguir à Guerra do Corpo Sinestro. É engraçada esta mania dos escritores de super-heróis de materializar sentimentos. Isto para andar, literalmente, à porrada aos nossos medos, ambições e amores. Nada Freudiano.
E é mais ou menos isto. 

Existem ainda coisas relacionadas com dois dos vilões aliados de Sinestro:
  • Superboy-Prime - originário de uma Terra, que no multiverso DC, é a nossa. É o primeiro herói dessa Terra e acabou por transformar-se num temível e poderoso super-vilão. Tem os mesmos poderes do Super-Homem e, metaforicamente, representa os fãs de BD que ligam a cada pormenor de história e são pouco permeáveis à mudança (eu não sou um deles... juro);
  • Cyborg-Superman (muitas cópias do Super-Homem  faz a DC, meu deus)  - é o que o nome diz. Um humano num corpo de ciborgue com um uniforme do Super-Homem (não estou para contar o resto da história que são mais uns quantos bullets points).

Plano Editorial da Levoir 2017

No passado dia 10 de Março a Levoir apresentou no Festival de BD de Coimbra parte do seu plano editorial para 2017, vimos agora acrescentar algumas novidades ao mesmo que ainda não foram comunicadas.

MULHER-MARAVILHA

Teremos o lançamento de uma colecção de 5 volumes da Mulher-Maravilha, personagem que acaba de celebrar o seu 75.º aniversário. São cinco títulos inéditos em português de Portugal, edição de capa dura com a qualidade que nos é habitual, e que estará disponível no final de Maio.

Títulos:
Mulher-Maravilha: Homens e Deuses (George Pérez)
Mulher-Maravilha: Deuses de Gotham (Phil Jimenez)
Mulher-Maravilha: A Hiketeia (Greg Rucka e J.G.Jones)
Mulher-Maravilha: Terra Um (Grant Morrison e Yanick Paquette )
Mulher-Maravilha: Um por todos (Christopher Moeller)




A Levoir já editou dois títulos desta personagem: Quem é a Mulher-Maravilha na colecção de 2013 (George Pérez, Phil Jimenez, Allan Heinberg, Terry Dodson ) e Super-Homem & Mulher Maravilha, Par Perfeito (Charles Soule, Tony S. Daniel) mais recentemente em 2016.

NOVELAS GRÁFICAS

Ainda no primeiro semestre de 2017, teremos o lançamento de uma nova colecção de Novela gráfica, sendo que podemos anunciar 3 títulos do selo Vertigo:

- RONIN de Frank Miller
- Dark night true story de Paul Dini e ilustrações de Eduardo Risso, presente também nas nossas edições no Batman Noir e no Parque Chas.
- The books of Magic de Neil Gaiman, autor da nossa colecção SANDMAN.




A BD franco-belga marcará também presença na nova série, de entre os quais destacamos:

- Os Ignorantes de Étienne Davodeau; autor com extensa obra e galardoado com vários prémios entre os quais destacamos o Prémio do melhor argumento e o Prémio do Público do Festival de BD de Angoûleme em 2012.

- Polina do jovem autor francês Bastien Vivès que se tem vindo a afirmar em  França e conta já com vários títulos editados. Polina recebeu o Prémio dos livreiros de BD em 2011 e o Grand Prix de l´ACBD (Associations des critiques et des journalistes de BD) em 2012, sendo que a obra foi adaptada ao cinema e tem estreia prevista em Portugal ainda este ano.




E como em todas as nossas colecções de Novela Gráfica, teremos um título do que de melhor se faz nos  fumetti (nome dado à Banda Desenhada em Itália) Dylan Dog, o investigador do oculto vegetariano, abstémio e com vertigens, criado por Tiziano Sclavi para a editora Bonelli. Iremos publicar Mater Morbi, escrita por Roberto Recchionni, o actual responsável pela coordenação da série Dylan Dog é uma reflexão sombria sobre a doença e das melhores histórias do detective do pesadelo das últimas décadas, muito bem ilustrada por Massimo Carnevale. Esta obra ganhou em 2016, ano do seu 30º aniversário,  o Prémio de melhor novela gráfica de terror pelos prestigiados The Ghastly Award.

Música à Quarta!




Todas as semanas, todos os dias e, quem sabe, todas as horas, são lançados inúmeros LP'sEP'sSingles. Não sou melómano, apenas um ouvinte. Selecciono o que oiço pelo estilo, pelos nomes de artistas que conheço, pelo que oiço na rádio, pelos algoritmos do Spotify e pelos gostos e sugestões dos amigos. Sei que apenas oiço uma pequena parte do que existe.

Neste Blogtodas as quartas-feiras, compilo uma lista de álbuns que ouvi durante a semana e faço um post com ligação ao Spotify  onde podem ouvir o que ouvi. Em baixo podem encontrar a lista. Destaco a bold os álbuns que mais gostei.

À esquerda e em cima no Blog podem ouvir os álbuns da semana.


Ripe Dreams, Pipe Dreams de Cameron Avery - 2017 (Indie Rock)
Feel Infinite de Jacques Greene - 2017 (Electronica)
False Touth Etecetera de Roadkill Ghost Choir - 2017 (Indie Rock)
Heartworms de The Shins - 2017 (Indie Pop)
Alice Jemina de Alice Jemina - 2017 (Indie Pop)
Void X de ChiHei Hatakeyama - 2017 (Ambient)
stuff i used to do de Deadmau5 - 2017 (Electronica)
Spirit de Depeche Mode - 2017 (Synthpop)
Wild Heart de Desiree Dawson - 2017 (Indie Pop)
Acoustic de Jones - 2017 (Pop)
Play me Again de Kid Francescoli - 2017 (Electronica)
Tropical Lounge Trip de Living Room - 2017 (Lounge)
No Resolution de Tim Kasher - 2017 (Indie Rock)
We Sell Drugs de Tribe Society - 2017 (Indie Pop)

Colecção No coração das Trevas DC - volume 2 Sinestro: A Guerra do Corpo Sinestro 2


O volume 3 da colecção “No coração das trevas DC”, “Sinestro: A Guerra do Corpo Sinestro 2” vai para bancas na próxima quinta-feira. Começou a batalha de Ranx, e o alvo de Sinestro é a Terra, onde as duas forças inimigas se vão encontrar, com consequências devastadoras para o planeta, e com o destino do próprio Multiverso em jogo.


Neste volume poderemos também ver a interacção entre dois dos Lanternas Verdes da Terra, Hal Jordan e Kyle Rainer: Jordan tenta livrar Kyle da influência de Parallax, que o domina, e descobrimos um pouco da história de Kyle, das suas paixões, da sua morte, e também as razões que levaram a que Parallax o conseguisse dominar tão facilmente.

A continuação da saga da Guerra do Corpo Sinestro, a conclusão de uma das grandes sagas da DC no século 21, num volume com arte de alguns dos melhores desenhadores dos comics actuais, incluindo Ivan Reis, Patrick Gleason e Ethan Van Sciver.

Esta e outras histórias para ler a partir de 23 de Março com o jornal Público pelo PVP de 9,90€.




Rapidinhas de BD - Autumnlands vol.2, The Goddamned vol. 1 e Paper Girls vol. 2

Depois do primeiro volume ser uma das mais interessantes leituras de 2015, eis que finalmente nos chega o segundo Autumnlands de Kurt Busiek e Benjamin Dewey.  Continuamos neste estranho mundo ao melhor estilo Tolkienesco mas com personagens antropomorfizados. 

Este volume continua a centrar-se num dos seus habitantes, meio homem, meio canídeo, enquanto acompanha, em estilo viagem de demanda, o profetizado salvador humano. Busiek e Dewey conseguem manter-nos interessados, com um promissor world-building, personagens cativantes e mais do que uma surpresa, agora que começamos a embrenhar-nos nos segredos por detrás deste mundo de Fantasia. O que os autores têm reservado para os leitores não é uma narrativa fracturante e inédita, mas antes um valor seguro de diversão que é um verdadeiro page-turner. Se o primeiro volume foi uma surpresa, este segundo é a confirmação.

A parelha artística que nos deu o fabuloso Scalped da Vertigo regressa com The Goddamned, Before the Flood. Contudo, Jason Aaron e r.m.Guéra escolhem um tema bem diferente da história, ao estilo Sopranos, de nativos norte-americanos, o tema da sua anterior colaboração. Aqui entramos pelo terreno bíblico e acompanhamos a narrativa do primeiro filho caído, o criador do assassinato, Caim. Num mundo selvagem e violento que faz a Ciméria de Conan, o Bárbaro parecer uma Ilha dos Amores, o protagonista irá ter de se defrontar com outro personagem bíblico de renome, Noé,  e descobrir a melhor forma de atingir o seu maior desejo: morrer. Amaldiçoado com a imortalidade, este Caim lembra a interpretação que Saramago também faz do mesmo, com mais sangue e vísceras mas com o mesmo desdém e ódio pelo Deus que o condenou a esta morte em vida.

Se o primeiro volume desta colaboração entre Brian K. Vaughan e Cliff Chang, Paper Girls, não foi bem aquilo que estava à espera, este segundo mais do que recupera essa meia-decepção inicial.  Como alguém já referiu, isto é a série de TV Stranger Things mas sem o delicodoce da nostalgia. 

É sobre as recordações mal lembradas da década de 80 mas com um toque de cinismo pós-modernista. É sobre viagens no tempo, correcções temporais, raparigas cheias de "tomates" e entretenimento inconfessável. São versões de personagens que vêem do presente, do passado e de futuros que  se espera alterar. É cheio de surpresas e de violência inesperada e trágica, tão típicas de Vaughan.

A editora Image continua a dar-nos algumas das mais interessantes BD's do panorama mundial desta arte e estas três são excelentes exemplos disso mesmo. Longa vida a Image.

Álbum para Sempre, 11

Existem álbuns e músicas que permanecem. São mais do que prazeres. São memórias.  São pedaços que cristalizam um tempo, um momento, feliz ou triste. São fruto de existirmos e, por isso, nossos - e também de tantos outros. Como nenhuma outra arte, a música é comunhão. Quer por estarmos juntos num concerto em ritual de partilha, quer porque ouvimos um mesmo álbum, cada qual no conforto da sua casa. 

Todos os fins-de-semana vão poder ouvir um álbum que me marcou. Esta semana cabe a Michael Jackson e ao LP Bad


Reading Habits - Legend of Wonder Woman by Renae de Liz and Ray Dillon

It's a real shame. 

It's a shame that the excellent Legend of Wonder Woman by Renae de Liz and Ray Dillon has been canceled. I will not go into the coming and goings of the falling off between DC and the authors but I will express my disappointment. This volume, collecting all of the online issues, is not only one of the best stories starring my favorite comic book character, Diana of Themyscira, but a fine good comic at that.

Renae de Liz, the writer, chooses (or DC chose for her) to, once again, retell the origin story of Diana, transporting the mythos back to its original time period, the Second World War.  However, there are notable differences between this interpretation and previous ones, both in form and intention. 

Ranae changes the plot just enough not to feel derivative and enough to feel fresh. There are subtle modifications to the story, plot points here and there that are changed not for the sake of novelty but because the authors want to tell a good and entertaining narrative. Hippolyta, the mother of Diana and queen of the Amazons, is not exactly the same, Themyscira, her home, also - I won't number or describe all the changes because I want you to discover for yourself. 

Furthermore, the pace. The slow and steady pace with which she develops the first days in the life of Diana is both a breath of fresh air and an accomplishment. In each story beat she lingers on personality development, adds little quirks to every one, while still ringing true to the archetypes, and enjoys herself in lengthy exchanges of dialogue that are entertaining and meaningful. Besides Diana, the writer spends a lot of time developing Etta Candy's personality, making her so much more than part of the WW supporting cast.

Here, slow pace doesn't mean decompressed storytelling. Each moment is filled with meaningful world-building, rich characters and trivial situations elevated to the status of mythic, simply by the amount of care dedicated to each detail. Ranae also sculpts (pun intended) a cosmogony very different from previous Wonder Woman incarnations, makes it new and, at the same time, gives a cool nod to DC fans. It's noticeable that she is (note that I use present tense - wishful thinking) trying to make a tale for the ages. And in this hardcover she delivers on that promise.

All that is relevant to the Princess of Themyscira mythology is, in some way, touched upon in these pages. Truth, above all, is one of the most prevalent parts of her message, and it shines through in this tale. The War/Peace dichotomy, so integral to WW, comes forth and is justifiable. Ranae knows her Wonder Woman.

Legend of Wonder Woman is an exceptional accomplishment. One that should continue, due to the fact that Diana deserves it but manly because this amount of love and dedication to the Wonder Woman mythos should be appreciated and encouraged. DC, please let the authors finish their story.

O que vou lendo! Legend of Wonder Woman de Renae de Liz e Ray Dillon

É uma pena. É uma pena que a excelente série Legend of Wonder Woman de Renae de Liz e Ray Dillon tenha sido cancelada. Não vou entrar nas coscuvilhices do desaguisado entre a DC e os autores mas não posso deixar de expressar o meu descontentamento. Este volume, que colecciona todos os números online, não é apenas uma das melhores histórias feitas com o meu personagem de BD favorito, Diana de Themyscira, a Mulher-Maravilha, mas um bom livro de mérito próprio. 

Renae de Liz, escritora, escolhe (ou a DC escolheu por ela), uma vez mais, contar a história da origem de Diana, transportando o personagem de regresso ao seu período original, a Segunda Guerra Mundial. No entanto, existem diferenças notáveis ​​entre esta interpretação e anteriores, tanto na forma como na intenção. 

Ranae muda o enredo apenas o suficiente para não parecer derivado e o suficiente para ser fresco. Existem alterações subtis, pormenores de enredo que são diferentes, não apenas para que sejam novidade mas porque os autores querem contar uma narrativa interessante e divertida. Hippolyta, a mãe de Diana e rainha das Amazonas, não é exactamente a mesma, Themyscira, a terra-mãe do personagem, também não - não vou enumerar ou descrever todas as mudanças porque quero que descubram por vocês mesmos. 

O ritmo lento mas seguro com que desenvolve os primeiros dias na vida de Diana é uma lufada de ar fresco. Desenvolve personalidades, acrescenta -lhes pequenas peculiaridades, mantém-se fiel aos arquétipos e diverte-se nas longas e relevantes trocas de diálogo. Além de Diana, a escritora passa algum tempo a desenvolver Etta Candy, transformando-a em muito mais do que um personagem coadjuvante da Mulher-Maravilha.

Ritmo lento não significa, por outro lado, descompressão da história. Cada momento está repleto de world-building, de personagens ricos e de situações triviais elevadas a um status quase mítico, simplesmente pela qualidade do cuidado dedicado a cada detalhe. Ranae também esculpe (pun intended) uma cosmogonia diferente da de encarnações anteriores da Mulher-Maravilha e que é, ao mesmo tempo, original e uma piscadela de olho aos antigos fãs de DC. É notável que tente fazer um conto de Diana para a posteridade (reparem que uso ainda presente, em jeito de esperança). E nesta compilação cumpre essa promessa. 

Tudo o que é relevante para a mitologia da Princesa de Themyscira é, de alguma forma, abordado nestas páginas. A Verdade é, acima de tudo, uma das mais importantes partes da mensagem da Mulher-Maravilha e esta brilha no conto. A dicotomia Guerra / Paz, tão integral à MM, é sublinhada e justificada. De facto, Ranae conhece em profundidade ao personagem. 

Legend of Wonder Woman é uma obra excepcional. Deveria continuar, principalmente porque a Diana merece mas essencialmente porque este nível de amor e de dedicação à mitologia da Mulher-Maravilha deve ser apreciada e encorajada. DC, por favor, deixe os autores terminarem a história.

Aquarius de Kleber Mendonça Filho


O tema do filme Aquarius de Kleber Mendonça Filho não poderia ser mais actual quando temos em consideração a evolução de Portugal nos últimos anos. A pressão turística que surgiu de forma célere tem levado a uma revolução nos centros das cidades mais relevantes do nosso país, Lisboa e Porto, como é amplamente noticiado. Com todos os aspectos positivos relacionados com a reabilitação de imóveis que não viam obras há anos, acarreta também vários aspectos negativos, todos eles ligados aos residentes e às actividades que contribuíam para uma vida julgada inexistente nesses mesmos centros. Nos dias que correm, para facilitar a argumentação junto de grupos de pressão que pedem por Planeamento no Turismo, existe uma narrativa, perpetrada por interessados e desconhecedores, de que esses centros não tinham vida. Não só tinha vida como vidas. Pessoas que fizeram do passar dos anos aquelas ruas, aqueles prédios, muito mais que a sua casa e habitação. Foram elas que contribuíram para a prosa colorida e floreada dos guias de Turismo que louvavam a vida patusca e verdadeira de bairros, ruas e colinas, de edifícios cheios de gritos e rachas. As cidades são pessoas e património entregues a uma sinfonia de caos. Não perceber isso é não perceber a passagem do tempo, esse unificador e democrata gestor do mundo.

Aquarius passa-se no Brasil e conta a história de uma residente de um prédio (o que dá nome ao filme) que, depois de décadas a viver naquele local, vê o descanso da sua terceira idade ameaçado por uma empresa que adquiriu todos os apartamentos e quer também comprar o seu, para dar lugar a blocos modernos. Recusa-se determinantemente, não por a casa ser o último recurso de uma vida sem nada (o argumento tem a convicção de tornar a protagonista uma mulher de posses, de modo a obviar a argumentações que não quer aqui abordar) mas porque gosta efectivamente daquele lugar, aquele que guarda todos os anos que acumulou de vida. Foi uma mulher de casamento feliz, biógrafa de músicos brasileiros, que acumula nas paredes da casa inúmeros discos de vinil, os quais gosta de retirar da prateleira e provar aos mais novos que a História fazia-se antes de nascerem. 

A riqueza da história provem de uma incrível simplicidade em explorar as temáticas a que se propõe. Fala-nos deste Tempo que passa e que, na nossa mortalidade e fugacidade, não reconhecemos como algo que é também o acumular de todos e tudo o que veio antes. E essa ironia vale não só para novos como também para velhos. Mas, para além do quase esoterismo desta abordagem (que, na minha opinião, de esoterismo nada tem), segue o caminho de uma temática actual e pertinente que tem permeado as conversas e reflexões: o crescimento económico em prol de quem e à custa de quem. Nesse contexto, Aquarius foi uma escolha em Cannes por razões que não são inocentes - junto com outros filmes como o vencedor da Palma D'Ouro I, Daniel BlakeUm filme que procura reflectir sobre um mundo novo que desenvolve-se à velocidade da internet. Como dizia Pacheco Pereira, fazemos parte de sociedades "em que deixou de haver silêncio, tempo para pensar" e  filmes como este ajudam-nos a subverter esse erro. 

Colecção No coração das Trevas DC - volume 2 Sinestro: A Guerra do Corpo Sinestro 1

A Levoir e o Público apresentaram dia 9 de Março a sua nova colecção de banda desenhada, composta por 10 volumes dedicados aos maiores vilões do universo DC, com o PVP de 9,90€ cada volume.

Amanhã, 16 de Março, é lançado o segundo volume da colecção: Sinestro: A Guerra do Corpo Sinestro 1.

Em A Guerra do Corpo Sinestro, o maior adversário do Lanterna Verde recebe por fim o seu há muito merecido destaque. Outrora o maior dos Lanternas Verdes, Sinestro tornou-se no seu mais implacável inimigo, movido apenas pelo rancor e desejo de vingança. Mas, agora, revelará o seu novo e terrível propósito, numa saga épica que fez de Green Lantern o título de referência da DC Comics no final dos anos 2000.

Sinestro: A Guerra do Corpo Sinestro é um dos títulos mais emblemáticos da nova DC, e também um dos que maior sucesso crítico e comercial obteve. Lançado inicialmente em Junho de 2007, foi nesse mesmo ano nomeado pela Comic Book Resources como uma das melhores obras do ano. Esgotou toda a edição do primeiro número num só dia.

Segundo o IGN.com a história era um “êxito descomunal” e a Newsarama referiu-se à saga como “uma aventura da DC repleta de acção”.

Escrita por Geoff Johns, também ele considerado um dos melhores escritores de 2007, viu também Ethan Van Sciver, um dos desenhadores da saga, ser nomeado para um prémio Eisner pelo seu trabalho em Guerra do Corpo Sinestro.