O que vou lendo! Injustice Gods Among Us, Year One, The Complete Collection de Tom Taylor e vários

Ideias simples e novas são as mais difíceis. A frase "já tudo foi inventado" é provável que seja verdadeira - mas tenho dificuldades em acreditar. Desviar-nos para um novo ponto de vista poderá ser o proverbial "ovo de Colombo". Basta inclinar a cabeça, a perspectiva muda e conseguimos algo inovador. Basta abraçarmos a nossa personalidade para vermos algo nunca visto. Alan Moore, o famoso escritor (também) de BD, conseguiu-o na década de 80 e em duas obras consideradas essenciais: Miracleman e Watchmen (ambas publicadas em Portugal pela GFloy e Levoir, respectivamente). Moore importou o "mundo real" para o do super-heróis e transformou-o. Desde então, muitos foram os autores que de alguma forma o copiaram, e outros tantos os que, em oposição, tentaram repor o maravilhamento da fantasia juvenil. Frank Miller, escritor e desenhador americano de Comics, fez algo a uma escala diferente mas que, a par do anterior autor, também significou uma mudança de paradigma na BD dos EUA. Injustice Gods Among Us é um estranho filho das sensibilidades e histórias destes dois gigantes da 9.ª Arte.

Injustice Gods Among Us nasceu de um jogo de computador com o mesmo nome e trata-se de uma reinterpretação pós-apocalíptica do universo dos super-heróis - é a Chris Claremont e a John Byrne que deve-se a primeira iteração destes distopias com o seu X-MenDays of Future Past, já transposto para o cinema. Nestas histórias, que de serem já tantas são parte integrante da mitologia dos super-heróis (ou um cliché, se preferirem), os personagens vivem numa paisagem subjugada a um dos seus inúmeros inimigos (X-Men: Age of Apocalypse, por exemplo), ou são eles próprios os causadores desse futuro distópico (Kingdom Come). Esta obra está integrada na segunda categoria. Neste universo alternativo, e na sequência de um evento catastrófico, o Super-Homem transforma-se num dos piores vilões da História. Constituem-se facções, uma de apoio ao Homem de Aço e outra contra, liderada por Batman - reflexos de Frank Miller e do seu Dark Knight Returns. Esta queda do anjo evolui para uma cruzada do Super-Homem e dos seus aliados para livrar o mundo de todos os conflitos, uma empreitada cheia de boas intenções e um caminho que apenas pode levar à derrocada moral dos envolvidos - pequenas inspirações de Watchmen.

Ao contrário da seminal obra de Alan Moore, Injustice Gods Among Us de Tom Taylor afasta-se (mas não totalmente) da profundidade intelectual e escolhe o espectáculo pirotécnico, o enredo surpreendente e a força das personalidades destes ícones da BD dos EUA. As versões dos personagens nem sempre são facilmente reconhecíveis para os fãs mais radicais (a queda do Super-Homem parece precipitada e a Mulher-Maravilha nada tem a ver com versões mais consensuais) mas não deixa de ser uma interpretação valorosa e, acima de tudo, cativante. Virar a página com sofreguidão para descobrir "o que vem a seguir" é um dos maiores atractivos desta série e do seu primeiro ano, compilado neste único volume. Não deixa de ser uma versão negra do universo DC, onde é difícil conseguir encontrar luz de esperança por detrás de motivações tão despóticas e sombrias. Contudo, os fãs da DC anseiam por este tipo de versões - aliás, para o bem e para o mal (mais para mal, pelo que dizem mas eu não sou um deles), foi desta visão que Zack Snyder partilhou para conceber o seu Batman v Superman. É óbvio que o prazer desta obra muito se deve à familiaridade que o leitor tem com a DC Comics mas, mesmo que tangencialmente, todos temos uma ideia de quem são o Super-Homem e o Batman. Conhecer este dois é ponte mais que suficiente para embrenharem-se na história.

Injustice Gods Among Us pode ser e é uma visão sombria do universo da DC, mas, devido a um enredo com muitas surpresas e a um conhecimento único das personalidades destes personagens, transforma-se numa leitura viciante. 

Álbuns para Sempre, 7

Existem álbuns e músicas que permanecem. São mais do que prazeres. São memórias.  São pedaços que cristalizam um tempo, um momento, feliz ou triste. São fruto de existirmos e, por isso, nossos - e também de tantos outros. Como nenhuma outra arte, a música é comunhão. Quer por estarmos juntos num concerto em ritual de partilha, quer porque ouvimos um mesmo álbum, cada qual no conforto da sua casa. 

Todos os fins-de-semana vão poder ouvir um álbum que me marcou. Esta semana cabe aos GoGo Penguin e ao LP v2.0

Cliquem na imagem da capa para o ouvirem em Spotify


Moonlight de Barry Jenkins

Os Óscar nem sempre são bons. Tantas vezes os filmes escolhidos, quer para shortlist, quer como vencedores, não são os mais dignos exemplos da arte de fazer Cinema. Lembrem-se de Shakespeare in Love ou de Chicago, apenas para citar dois exemplos sofríveis. Mas, outras vezes, acertam. É sempre com prazer que recordo-me de O Senhor dos Anéis, cujo esforço cinematográfico de uma enorme equipa criativa foi recompensado de forma sublinhada, eterna e mais do que merecida. Prémios são prémios, sem dúvida, e eles raramente são reflexo da qualidade e, mais importante que tudo, do papel na Historia de alguém ou de alguma coisa. Lembrem-se que Hitchcock, já várias vezes reconhecido na sua genialidade pelos pares, críticos e público, nunca recebeu um Óscar. Mas, lá está, a História pouco quer saber de prémios - ainda que também possam contribuir para isso, nem que seja porque estar na shortlist ou ser vencedor de um Óscar aumenta a visibilidade (momentânea) de um filme. O que é o caso deste maravilhoso Moonlight  de Barry Jenkins.

Depois de, no ano passado, os Óscar terem sido criticados pela falta de diversidade étnica, sexual e de género, eis que, em 2017, corrigem-se sublinhadamente e, ainda por cima, com qualidade a este nível. Moonlight é a história de uma comunidade afro-americana, de um rapaz cuja inclinação sexual o transforma em alvo de perseguição e chacota e de como, esse mesmo rapaz, tenta vencer todas as barreiras que estas duas circunstâncias lhe impõem. Barry Jenkins não desculpa ninguém nem transforma quem quer que seja em vítima inerte das circunstancias. Existe reacção. Existe grito, ainda que o protagonista seja (muito) parco em palavras. Existe, acima de tudo, poesia no silêncio, nas acções e nos olhares, no carinho, na resistência e no amor entre duas pessoas,. Amor que persiste mesmo na passagem do tempo e na distância que a vida alonga. O filme assume a palete de cores do luar, suavizando a experiência, certo, mas transformando-a também em algo mais perene, mais duradouro. A poesia do olhar tem a vantagem de unir as diferenças e este Moonlight é mestre nessa Arte. A Arte de transformar todas as experiências em humanas. 

Com uma realização eloquente, fotografia arrebatadora e interpretações emotivas constrói-se um filme que merece todas as nomeações e prémios que possa receber. Temos realizador e temos Cinema. 

Música à Quarta!


Todas as semanas, todos os dias e, quem sabe, todas as horas, são lançados inúmeros LP'sEP'sSingles. Não sou melómano, apenas um ouvinte. Selecciono o que oiço pelo estilo, pelos nomes de artistas que conheço, pelo que oiço na rádio, pelos algoritmos do Spotify e pelos gostos e sugestões dos amigos. Sei que apenas oiço uma pequena parte do que existe.

Neste Blogtodas as quartas-feiras, compilo uma lista de álbuns que ouvi durante a semana e faço um post com ligação ao Spotify  onde podem ouvir o que ouvi. Em baixo podem encontrar a lista. Destaco a bold os álbuns que mais gostei.

À esquerda e em cima no Blog podem ouvir os álbuns da semana.



Garden of Ashes de Duke Garwood - 2017 (Indie Folk)
Little Fictions de Elbow - 2017 (Indie Rock)
About U de Muna - 2017 (Indie Pop)
Hit the Light de Ten Fé - 2017 (Indie Rock)
N-A-I-V-E-S de Naives - 2017 (Indie Pop)
Promise de Pictures - 2017 (Indie Rock)
Microclimate de Porcelain Raft - 2017 (Dreampop)
Love HZ de Satchmode - 2017 (Indie Pop)
Bloodshot Tokyo de The Dig - 2017 (Indie Rock)

Super-Heróis Marvel, O Vício - Fevereiro de 2017



Já são muitos anos a virar frangos. Desde os cinco anos de idade a ler Banda Desenhada em geral e de super-heróis em particular. Começou pelo Homem-Aranha e progrediu para todos os outros. Transformou-se em mais do que um vício, que continua até hoje. Todos os meses desloco-me à minha loja de BD favorita e de lá venho com A Pilha. Alguns dos livros dessa pilha leio com mais prazer do que outros, é verdade, mas leio tudo.

Neste link falei da DC, hoje é a vez da Marvel.

A calmaria antes da tempestade 

É curioso que, no que respeita às duas grandes editoras de super-heróis, os momentos mais interessantes são os que ocorrem entre grandes eventos. Verdade seja dita que a DC Comics tem conseguido conter a sua sede-de-eventos mas a realidade é que esta editora encontra-se neste momento em um, ainda que espraiado por várias revistas e com uma duração prevista de cerca de dois anos. A Marvel, por seu lado, não consegue conter-se. Denota o comportamento de um viciado. Segue um evento com outro e anuncia, ao mesmo tempo, um terceiro.  Antes do fim da saga de 2015, Secret Wars os leitores sabiam de Civil War II. Também antes do fim desta já conhecíamos Monsters Unleashed, um evento-soft, e, recentemente, foi anunciado Secret Empire. Não há como parar esta editora, que salta de mega-acontecimento para mega-acontecimento, sem descanso, gerindo a expectativa dos leitores viciados neste novela eterna. Sou também umas das vítimas mas, no que respeita à Marvel, em menor escala.

Este mês e graças aos deuses marvelescos, todas as revistas estão isentas de ligações a estes acontecimentos. É por isso que as minhas favoritas da editora continuam a ser histórias valiosas por si mesmas. Falo dos perenes Ultimates de Al Ewing e Travel Foreman e da nova adição, Champions  de Mark Waid e Humberto Ramos. No primeiro, continua a batalha das ideias macro-cósmicas, com a realidade literalmente aprisionada por um inimigo ainda desconhecido, isto enquanto as personificações do Caos e da Ordem redefinem a sua existência e, consequentemente, a realidade do multiverso Marvel. A escala é esta. Os conceitos são estes. Algo que pode apenas  acontecer em histórias de super-heróis. Num lado menos esotérico e mais terreno, continua a excelente surpresa que são os Champions, onde Waid e Ramos produzem uma run que tem tudo para transformar-se num clássico. Este mês temos um confronto com a Atlântida mas numa perspectiva entusiasmante. O escritor insiste em focar-se mais nas personalidades e dinâmicas entre os vários personagens e menos no vilão ou confronto do mês. A qualidade da revista ganha com isso. Mesmo o envolvimento do grupo de super-heróis adolescentes com uma estranha versão de Deadpool não distrai a leitura nem abranda o ritmo e intenção.

No lado místico da editora, Scarlet Witch  de James Robinson e Dr. Strange de Jason Aaron e Chris Bachalo, são vitórias mês sim, mês sim. No primeiro, chega ao fim o arco de história que começou no primeiro número, com a revelação do vilão e a coda para o relacionamento da personagem com a sua progenitora (finalmente revelada depois de 50 anos). Também o Dr. Estranho chega ao penúltimo capítulo do confronto com a sua (impressionante) galeria de vilões, aproveitando o  mediatismo do personagem de forma idiossincrática e reveladora das inclinações humorísticas do escritor, Jason Aaron. Pela consistência mensal, estas duas revistas são do melhor que a Marvel continua a publicar.

Conseguimos, finalmente, ler o último capítulo do primeiro (e único) arco de Warren Ellis em Karnak. Infelizmente os atrasos e os diferentes artistas prejudicaram a história que, ainda que com a assinatura de qualidade de Ennis, perdeu lustro e interesse. É com muita pena que o escrevo porque prometia ser uma corajosa tentativa da Marvel em publicar algo diferente e único, à semelhança do que estão a fazer com Scarlet Witch: entregar um personagem secundário a um autor de renome.

No que respeita a autores e ao seu trabalho em personagens talhados para a sua sensibilidade, temos o excelente exemplo de Joe Kelly e Ed McGuiness em Spiderman/Deadpool. Apesar das constantes interrupções mensais com outras equipas criativas porque o segundo não consegue desenhar todos os meses um capítulo, é motivo de festejo quando ambos regressam. Este mês, os personagens viajam para um mundo de magia e as motivações de ambos são colocadas em causa, principalmente as do Homem-Aranha. Não é excepcional mas divertido.

Spiderwoman continua a saga do confronto da heroína com um vilão conhecido do mundo Marvel, mas a qualidade que conhecemos nos primeiros números desta nova iteração decresceu significativamente desde a saída do seu desenhista original, Javier Rodriguez. Por seu lado, os Avengers  de Mark Waid e Mike Del Mundo melhoram marginalmente este mês, também por focarem o vilão da história, mas continua a ser uma nova (e gasta)  exploração do confronto do grupo de heróis com este um já muito antigo inimigo. Estes dois títulos estão muito perto de saírem da Pilha mas ainda há esperança.

Álbuns para Sempre, 6

Existem álbuns e músicas que permanecem. São mais do que prazeres. São memórias.  São pedaços que cristalizam um tempo, um momento, feliz ou triste. São uma cor, um pôr-do-sol, um beijo, um sorriso. São fruto de nós existirmos e, por isso, nossos - mas também de tantos outros. A música é comunhão como nenhuma outra arte. Quer por estarmos num concerto em ritual de partilha, quer porque ouvimos todos um mesmo álbum, cada qual no conforto da sua casa. 

Todos os fins-de-semana vão poder ouvir um álbum que me marcou. Esta semana cabe aos Led Zeppelin e ao LP IV

Cliquem na imagem da capa para o ouvirem em Spotify


Super-Heróis DC, o Vício - Fevereiro 2017




Já são muitos anos a virar frangos. Desde os cinco anos de idade a ler Banda Desenhada em geral e de super-heróis em particular. Começou pelo Homem-Aranha e progrediu para todos os outros. Transformou-se em mais do que um vício, que continua até hoje. Todos os meses desloco-me à minha loja de BD favorita e de lá venho com A Pilha. Alguns dos livros dessa pilha leio com mais prazer do que outros, é verdade, mas leio tudo.

Hoje falo da DC e Segunda-Feira da Marvel.

Mulher-Maravilha

Wonder Woman # 14-15

Wonder Woman de Rucka, Sharp e Scott é, sistematicamente, uma das melhores publicações da DC todos os meses. Rucka e Scott acabam o seu Ano Um, uma nova versão da origem da Princesa de Themyscira com a dose certa de evocação à versão que todos idolatramos, a de George Pérez. Focam-se no confronto físico e filosófico entre Diana e o seu maior némesis, o Deus Grego da Guerra, Ares. Por seu lado, Rucka e Sharp decidem colocar a Mulher-Maravilha no manicómio na nova saga The Truth, que promete reintroduzir alguns dos maiores inimigos de Diana ao mesmo tempo que aprofunda A Mentira que é a vida do personagem até este momento. Esta parceira de criadores continua a ser um dos melhores e mais atmosféricos trabalhos alguma vez realizados na Amazona.

Batman

Batman # 14-15-16
Detective Comics # 948-949

Batman de Tom King permanece em crescendo de qualidade e, este mês, recupera o parceiro inicial, o desenhista David Finch, para o que promete ser mais um interessante confronto com o arqui-inimigo Bane - sim, o do filme e o responsável pelo afastamento "definitivo" do Cavaleiro das Trevas na década de 90. Mas antes de passar a essa saga, King explora o relacionamento de Batman com a sua eterna por-vezes-namorada-outra-vezes-vilã: a Mulher-Gato. Os dois capítulos intitulados Rooftops são particularmente felizes, ao explorarem de forma ao mesmo tempo nova e reciclada o relacionamento entre estes dois personagens maiores da BD de super-heróis. Quanto ao confronto com Bane é esperar pelo mês que se segue para perceber o real alcance da saga que, a DC promete, será relevante na vida de Batman

Do lado de Detective Comics temos uma pequena paragem na programação oficial para focar Batwoman e preparar o lançamento da revista homónima da personagem no próximo mês.

Super-Homem

Action Comics # 971-972
Superman # 14-15-16 

Superman de Tomasi é a maior desilusão do mês. Foi a primeira revista que li d'a Pilha, à espera de uma história à minha medida, uma aventura cósmica com os vários Super-Homens do Multiverso. Prometia ser uma sequela ao brilhante Multiversity de Grant Morrison, mas apesar do talento envolvido (Ivan Reis no desenho do primeiro capítulo, por exemplo)  pareceu pouco mais que uma maneira forçada de extorquir dinheiro aos leitores fãs da DC. História apressada. Desenhos apressados. Sem qualquer tipo de pathos e interesse.

Action Comics de Dan Jurgens ganha este mês a Superman apenas porque continua na linha nostálgica e banal que não aquece nem arrefece. Funciona mas pouco mais se espera do trabalho dos artistas envolvidos. Um dos mais importantes personagens da DC merece (muito) mais.

Liga da Justiça

Justice League # 12-13-14
Justice League of America Special: Atom # 1
Justice League of America Special: Vixen # 1
Justice League of America Special: Killer Frost # 1
Justice League of America Special: Ray # 1
Justice League v Suicide Squad # 3-4-5-6 

E enquanto o Super-Homem foi a decepção do mês, a revista principal da Liga, Justice League, foi a maior surpresa. Não só o trabalho de substituição do escritor Tim Seeley foi superior à média de meses anteriores, como Brian Hitch escreve (e, este mês, felizmente, desenha) a sua melhor história, até ao momento, na revista. Seeley foca-se no evento Justice League vs Suicide Squad, escolhendo histórias com o vilão Maxwell Lord e o namorado da Mullher-Maravilha, Steve Trevor.  Hitch aproveita uma invasão à escala macro-cósmica para analisar as personalidades e dinâmicas entre os vários membros da Liga, com resultados bastante positivos. Espero que continue nesta veia.

A saga Justice League vs Suicide Squad acaba de forma divertida mas não reveladora ou excepcional.  O final apresenta surpresas que de surpresa nada têm e acaba por ser um belíssimo representante de "a montanha pariu um rato". A DC poderia ter vendido este evento apenas como uma boa história mas decidiu classificá-la como um "Acontecimento". Acabou por prejudicar.

Os especiais Justice League of America, com enfoque nos membros do grupo que estreia para o próximo mês, Killer Frost, Atom, Vixen e Ray, foram também uma boa surpresa, principalmente pelo trabalho de Steve Orlando no argumento. Nada de excepcional mas uma exploração interessante e agradável das personalidades e passados dos personagens.

Young Animal

Cave Carson has a Cibernetic Eye # 4
Doom Patrol # 4
Shade, the Changing Girl # 04 

A linha de substituição da Vertigo continua com grande força. Doom Patrol é a a melhor das quatro revistas, com Gerard Way e Nick Derrigton a excederem-se na qualidade do trabalho, com enredos surreais q.b., evocativos de Grant Morrison e altamente viciantes. Um dos melhores títulos da DC neste momento.

Cave Carson has a Cibernetic Eye, por seu lado, está apenas uns poucos furos abaixo de Doom Patrol. A aventura subterrânea continua, adensando o mistério, não perdendo a forte sensibilidade estilo Era de Prata mas com uma visão bastante mais madura. Outra vitória da linha Young Animal.

Finalmente, Shade, the Changing Girl, que, no meu entender, perpetua alguns dos tiques menos interessantes de uma escrita "adulta" e "literária" na BD. Diálogos truncados que podem querer veicular confusão mas que criam um fluxo narrativo soluçado. A história continua a acompanhar a jovem alienígena que alojou-se no corpo de uma adolescente suburbana dos EUA mas de forma, a meu ver, pouco entusiasmante.

Outros

Kamandi Challenge # 1
Earth 2: Society # 21
Trinity # 5

Estreou este mês a excentricidade Kamandi Challenge. O conceito assenta em todos os meses uma equipa criativa diferente resolver o cliffhanger elaborado pela equipa do mês anterior.  A revista serve para celebrar os 100 anos do nascimento do rei dos Comics, Jack Kirby, através do regresso a uma dos suas mais queridas e perenes criações para a DC: Kamandi, O Último Rapaz. Estamos num mundo pós-apocalíptico em que animais antropomorfizados governam, divididos por clãs, uma paisagem devastada. História divertida que convida talentos de primeira água para a sua elaboração. 

Earth 2: Society é pornografia para os fãs da DC. A promessa do regresso da Sociedade da Justiça original é um dos pilares do enredo e quase apenas a única razão porque a acompanho. O trabalho do escritor inglês Dan Abnett é, contudo, eficiente, ainda que longe de momentos mais geniais da sua carreira como os Guardiões da Galáxia.

Trinity é uma oportunidade perdida. Poderia ser um dos melhores títulos da DC ao reunir, nas suas páginas, a Santíssima Trindade, mas o trabalho de Francis Manapul é mediano (excepto no desenho onde, aí sim, excede-se). O vilão que acompanha esta aventura desde o primeiro número é, finalmente, revelado, mas sem grande surpresa. O enredo revolve à volta da (outra vez) reciclagem de um outro criado pelo brilhante Alan Moore mas sem a inventividade e maturidade do mesmo.

Música à Quarta!


Todas as semanas, todos os dias e, quem sabe, todas as horas, são lançados inúmeros LP'sEP'sSingles. Não sou melómano, apenas um ouvinte. Selecciono o que oiço pelo estilo, pelos nomes de artistas que conheço, pelo que oiço na rádio, pelos algoritmos do Spotify e pelos gostos e sugestões dos amigos. Sei que apenas oiço uma pequena parte do que existe.

Neste Blogtodas as quartas-feiras, compilo uma lista de álbuns que ouvi durante a semana e faço um post com ligação ao Spotify  onde podem ouvir o que ouvi. Em baixo podem encontrar a lista. Destaco a bold os álbuns que mais gostei.

À esquerda e em cima no Blog podem ouvir os álbuns da semana.


Infrared de Dawn Richard - 2017 (Electronic)
ZILLA de Fenech-Soler - 2017 (Electropop)
Trials & Truths de Horse Thief - 2017 (Indie Rock)
Process de Sampha - 2017 (Trip Hop)
The Pace of the Passing de Toothless - 2017 (Indie Pop)
Young Mopes de Louise Burns - 2017 (Indie Pop)
As Far As I Run de Ashley Corryn  - 2017 (Indie Folk)
Cairobi de Cairobi - 2017 (Indie Rock)
I Hope You Don't Mind Me Writing de Lucy Spraggan - 2017 (Indie Pop)
Tropical Suite de Poni Hoax - 2017 (Indie Rock)
Heraldic Black Cherry de Sun Airways - 2017 (Indie Pop)
Tess de Tess - 2017 (Pop)
Visionaries de Parallels - 2016 (Synth Pop)

Ama-San de Cláudia Varejão

Viajar no Japão, para um português, pode ser uma experiência reveladora. As diferenças culturais em relação à nossa latinidade são grandes o suficiente para provocar, sim, espanto, mas, acima de tudo, deslumbramento. O silêncio das ruas. O profundo sentido de comunidade revelado no mais ínfimo dos pormenores. O respeito pelo espaço de todos. Estas e tantas outras disparidades poderiam separar-nos. Mas, e paradoxalmente, existe um magnetismo que atrai um e outro povo, um insondável comum que nos aproxima. Poderia ser o facto de termos sido os primeiros ocidentais a pisar a ilha, os primeiros a dar-lhes o contacto com armas de fogo, estrangeiros (gaijin, para os japoneses) que os tentaram evangelizar, com os resultados que conhecemos.  Mas não acredito nisso. Porque razão os Madredeus tiveram sucesso no Japão? Porque é que aquela voz de mar da Teresa Salgueiro, aquele canto que se prolonga em eco aquoso, porque é que lhes interessou assim tanto?  Não sei... mas talvez a realizadora de Ama-San tenha percebido. 

As Ama-San do título são mulheres mergulhadoras que se dedicam "à recolha de abalones, algas, pérolas e outros tesouros marinhos" (in Publico). Utilizando nada mais que a própria capacidade para suster a respiração, fazem do mergulho a sua vida e o sustento de uma comunidade parcialmente matriarcal, algo que, para quem conhece algo da história e cultura do Japão, é uma raridade. Cláudia Varejão acompanhou o dia-a-dia destas mulheres, da sua família e da comunidade, relatando, de forma relativamente distante e particularmente bela, a silenciosa luta para sobreviver através da perpetuação de uma economia ancestral e, aparentemente, deslocada em relação ao mundo do século XXI. 

Portugal parece imiscuir-se no documentário. Será o meu olho ou as semelhanças em relação ao nosso país são apenas traços comuns a muitas culturas?  A partilha alegre da mesa de jantar. As cantorias em karaoke. O riso a bom e alto som, enchendo de voz as pequenas salas de restaurantes e casas. O escavar da terra com as mãos. O tenaz agarrar a velhas tradições como grito de permanência. Isto e mais Cláudia escolhe para falar das suas Ama-San. Um testamento à História, à diferença, à capacidade de perpetuar um modo de estar e de viver. Um documentário de uma portuguesa sobre o Japão e que une milhares de quilómetros de distância com o fio de uma mesma alegria. A verem antes que saia dos cinemas.

O que vou lendo! La Femme Serpent de Kazuo Umezo

La Femme Serpent é o terceiro livro do histórico mangaka Kazuo Umezo editado pela Lézard Noir. Antecedeu-lhe La Maison aux Insectes e Le Voeu Maudit, obras dentro da mesma linha a que o autor habituou os leitores: o Terror. Umezo é um lendário autor nipónico de Mangá, as suas obras tendo marcado uma ampla geração de leitores com tenebrosos e retorcidos contos, ao ponto das introduções destas três edições francesas serem escritas por romancistas, editores de Mangá e realizadores de Cinema japoneses. Parece não existir escapatória (em mais sentidos do que um) às infâncias marcadas pelas histórias do autor, cada um dos "introdutores" sentindo necessidade de relatar as emoções violentas e os sonhos roubados por Umezo. Ou melhor, os pesadelos gerados.

Os ocidentais tiveram o seu primeiro grande contacto com o terror de marca japonesa em filmes como Ring  e Ju-On, leituras de vingança e de apropriação de espaços familiares para extrapolar cenários de horror verdadeiramente atemorizante. Neste filmes estamos perante figuras que, de alguma forma, haviam feito parte do reino dos mortais mas que, por alguma razão sobrenatural, assombravam agora o mundo dos vivos. Um envolvia uma mulher de longos cabelos negros que materializava-se numa cassete de VHS que passava de mão em mão. Outro era a figura de um rapazinho que assombrava numa casa aconchegadoramente suburbana.

La Femme Serpent é um pouco como Ring, em que o "monstro" é uma mulher, também ela de longos cabelos negros e hábito japonês, mas que, ao contrário deste, habita o mundo dos vivos. O nome, Mulher-Serpente, indica claramente do que se trata, e este é, ao contrário dos dois primeiros volumes da Lezard Noir, um único conto de cerca de 300 páginas que envolve a titular personagem e a perseguição que enceta a jovens raparigas pré-adolescentes. O monstro já havia aparecido em Le Voeu Maudit, mas aqui assume protagonismo e destaque. Nesta obra, o autor escolhe cingir-se a personagens femininos, focando, uma vez mais, o terreno das relações filiais entre personagens. Esta mania de Umezo, ao evocar, no caso de La Femme Serpent, a relação entre mães e filhas, avós e netas, coloca-nos imediatamente num terreno justificadamente assustador. Ao escolher as roupagens da segurança, neste caso a da família, o mangaka coloca-nos numa posição de desconforto, o que contribuiu para  a intensificação das situações de horror, mesmo daquelas que poderiam ser, à partida, apenas para entretenimento. Como diz Hitomi Kanehara na introdução, Umezo entretém e atemoriza em igual medida. 

O desenho, o estilo de desconstrução da história, a mise en scéne, contribuem para contos atmosféricos de Terror que, apesar do meio, o da BD, não diminui o impacto das sombras que o autor procura construir. Do lado da história Umezo também se excede, construindo camadas e acabando onde começou, entrando de forma decidida em alguns dos cânones do Horror: nada acaba; não existe escapatória possível; as forças do Mal serão incansáveis na perseguição; não existe lugar seguro, nem na família, nem em casa, nem no Tempo.