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Os gostos têm tendência em unir pessoas na amizade. Eu e o Filipe Faria - escritor extraordinaire da saga Crónicas de Allaryia e tradutor incansável - temos uma devoção imortal pelos mundos da DC Comics. Ele é fã incontestável do Super-Homem e eu devoto da igreja da Diana de Themyscira. O Filipe tem uma colecção de momentos curiosos dos 80 anos de publicações desta editora. Todas as Sextas ele vai tentar colocar aqui um. Eu apenas publico e nada mais. 

Hoje, é a vez do Batman e da sua capacidade de fraseamento pouco convencional (ou fora de contexto).  

Os gostos têm tendência em unir pessoas na amizade. Eu e o Filipe Faria - escritor extraordinaire da saga Crónicas de Allaryia e tradutor incansável - temos uma devoção imortal pelos mundos da DC Comics. Ele é fã incontestável do Super-Homem e eu devoto da igreja da Diana de Themyscira. O Filipe tem uma colecção de momentos curiosos dos 80 anos de publicações desta editora. Todas as Sextas ele vai tentar colocar aqui um. Eu apenas publico e nada mais. 

Hoje visitamos a dupla dinâmica mais famosa do mundo.

Uma BD aqui, outra BD ali, 25 - Universo DC



Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei.  Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

Doomsday Clock número 7 de Geoff Johns e Gary Frank,
Batman Damned número 1 de Brian Azzarello e Lee Bermejo e
Heroes in Crisis número 1  de Tom King e Clay Mann

(com alguns spoilers)

É-me difícil ser imparcial. Desde há mais de 30 anos que a DC Comics e as suas personagens são as minhas favoritas da BD. Nesse tempo, existiram altos e baixos. O final da década de 80, princípios da de 90 e algum do início do século XXI foram anos de muitos prazeres. Depois, estes foram diminuindo gradualmente até atingir o ponto mais baixo, sempre com excepções, por volta de 2016. Mas em meados desse ano, surge o selo DC Rebirth, onde a editora inicia um lento plano de recuperação do lustro que muito de nós sabiam existir. Os três títulos dos quais venho falar são belíssimos exemplos deste renascimento.

Batman: O Príncipe Encantado das Trevas vol. 1 e 2 de Marini (Levoir)


A editora de BD dos EUA, a DC Comics, tem, nos dois últimos anos, mudado a sua visão editorial. Tem procurado diversificar a plataforma de ofertas, apelando a diferentes formatos, a diferentes tipos de púbico e, em última análise, convencendo autores de outras alas a contribuírem com a sua perspectiva para as personagens do catálogo. Para os que a acompanham desde há algum tempo, não é uma posição nova. No rescaldo do terremoto que foi a série Crise nas Terras Infinitas, a DC, no desespero de vendas anémicas, apelou a talento de todo o lado para energizar as suas personagens. Assim, tivemos os Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons, o Batman de Frank Miller, o Animal Man de Grant Morrison, o Super-Homem de John Byrne, a Mulher-Maravilha de George Pérez e, claro, o corolário, o nascimento do selo Vertigo. As décadas de 80 e 90 foram terreno fértil para abordagens diferentes e maduras.

Uma BD aqui, outra BD ali, 24 - Batman

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! É um prazer que rezo para nunca acabar. De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei. Só isso: gostado. Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

Batman (2016) números 51 a 53 de Tom King e Lee Weeks (DC Comics)


O Batman é das personagens da BD americana com um dos mais gloriosos historiais da 9.ª Arte e, quem sabe, de qualquer Literatura. Nela trabalharam alguns dos maiores desenhadores e escritores da Arte. Não deixa, portanto, de ser impressionante, que Tom King esteja a construir uma das melhores sequências da já longa carreira do Homem-Morcego. Começada em 2016 na alvorada do DC Rebirth (uma tentativa da editora de energizar a sua linha de publicações), King não tem parado de explorar o universo gótico da personagem, com uma aproximação que não se cola tanto aos eventos surpreendentes ou catastróficos (uma muleta tantas vezes utilizada por outros escritores), mas mais pela exploração do lado psicológico.

Injustice Gods Among Us: Year Three Complete Collection de Tom Taylor, Brian Buccelatto, Bruno Redondo e Mike S. Miller

Depois de mais de um ano sem visitar esta narrativa distópica do universo dos super-heróis da DC Comics, regressamos para ler os novos pesadelos de alto valor de entretenimento que os autores conseguiram sonhar. Para quem não sabe do que esta série trata, podem sempre ler as análises que fizemos aos anos um (aqui) e dois (aqui).

Uma BD aqui, outra BD ali, 22 - Batman

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! É um prazer que rezo para nunca acabar. De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei. Só isso: gostado. Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

Batman (2016) números 48 a 50 de Tom King, Mikel Janin e outros (DC Comics)



Uma das críticas que mais se faz à literatura de super-heróis é a permanência do status quo. Quanto mais as coisas mudam, mais permanecem iguais - sim, eu citei O Leopardo. Essa critica talvez seja verdade no longo prazo, mas no curto e médio existem várias mudanças que acontecem e que permanecem. Por exemplo, o Super-Homem casou-se há mais de duas décadas com Lois Lane e o matrimónio mantem-se. Têm um filho em comum desde há dois anos e, até agora, essa realidade permanece. Isto apenas para falar de um dos maiores ícones da BD dos EUA. O outro é aquele que vos traz este post: o Batman, que, desde há um ano, pediu em casamento uma das suas maiores adversárias/amigas, a Mulher-Gato.

Uma BD aqui, outra BD ali, 13


Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Dark Nights: Metal número 6 de Scott Snyder e Greg Cappullo (DC Comics)

Nos últimos tempos a DC ou ficou descarada ou desesperada. Abraçaram todas as idiossincrasias e contradições da sua linha editorial, desde o universo de super-heróis até à Vertigo (onde publicaram o Sandman), e  enveredaram pela junção de ambas num todo narrativo. Dark Nights: Metal de Snyder e Cappullo é isso, com uma carrada de divertimento metido pelo meio. É grande, é barulhento, é garrido, é, como dizem os autores, um concerto rock à antiga com o som puxado à séria para cima.

DN:M é descaradamente e sem remorsos uma história de pura pornografia super-heroística DC. A narrativa pode ser desfrutada por todos mas integralmente percebida apenas por alguns "iluminados", geeks como eu, que conhecem cada minúcia da História, histórias, cosmologia e cosmogonia da editora. É uma salada russa com multiversos, versões alternativas de super-heróis, um Mal Maior Que Qq Coisa Já Vista, heroísmo  à antiga, sem concessões ou ambivalências, em suma, uma história de super-heróis como elas merecem ser.

DN:M chegou ao final com este número seis e agora posso dizer, sem reservas, que é um daqueles raros eventos de super-heróis que merecem o hype. Prometeu ser um terramoto para o multiverso da DC e assim o foi. Saímos da última página com os olhos abertos para uma imensidão de oportunidades e terreno por desbravar. Como escreve Snyder: o actual multiverso DC é um aquário despejado num Oceano. E agora vamos explorar essa imensidão. Mas desenganem-se se pensam que DN:M é apenas um monte de enredos sem coração. Esse fica a cargo, primeiro, da minha Diana, a Mulher-Maravilha, que tem um dos grandes momentos do seu historial, e depois, claro, do Batman, o catalisador narrativo de Metal. Ambos têm momentos inesquecíveis e clássicos instantâneos. 

Nas últimas páginas somos presenteados com uma promessa e um elogio. A promessa é a do oceano à espera dos nossos heróis. O elogio é à antiga DC, aquela dos super-amigos, dos sorrisos e do companheirismo entre heróis. DN:M começou com as notas da música celestial e acaba com os acordes de uma canção clássica rock 'n' roll. Vamos ouvir e dançar todos juntos.

Uma BD aqui, outra BD ali, 11

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

The Terrifics número 1 de Jeff Lemire e Ivan Reis (DC Comics)


Sempre tive dificuldade em perceber porque é que o Quarteto Fantástico da Marvel tem problemas em afirmar-se nos tempos modernos. Porque é que tem problemas para encontrar uma equipa criativa estimulante. Será porque os associamos de tal forma aos autores originais, Stan Lee e Jack Kirby, e à sua lendária sequência de histórias, que todos os outros ficam aquém em comparação? No que a mim diz respeito, John Byrne, na década de 80, conseguiu replicar o trabalho desses dois génios da BD, mas e os outros? Que dificuldades existem para que um dos conceitos mais originais da 9.ª Arte, mais estimulantes e multifacetados, tão próximo das infinitas possibilidades desta Arte, para que esse conceito falhasse ao ponto de não termos uma revista mensal há quase dois anos?

A DC Comics, em jeito de provocação, decide preencher esse vácuo com os Terrifics, uma equipa construída sob o mesmo conceito: exploradores do desconhecido compostos por um génio, um homem elástico, um homem-forte de aspecto monstruoso e coração puro e uma mulher intangível (uma variação de invisível). Na sequência da ainda incompleta série Dark Knight Metal surge esta nova equipa de super-heróis, com o objectivo de explorar os cantos desconhecidos do Multiverso e do Multiverso Negro, fazendo-se valer de tecnologia fantástica e de personagens maiores que a vida com olhar curioso. Este primeiro número segue o espírito do Quarteto Fantástico, com apontamentos de homenagem a essa equipa - um quadrado de duas páginas faz lembrar uma amálgama de Galactus e da história de Ego, O Planeta Vivo escrita e desenhada por John Byrne; o portal para o Multiverso Negro lembra a entrada para a Zona Negativa.

Quer Lemire, quer Reis, estão ao seu mais alto nível, especialmente este último. O brasileiro continua a afirmar-se como um dos mais cativantes desenhadores a trabalhar nos super-heróis. Se há um apontamento negativo a fazer a este número é que sabemos que Reis apenas trabalhará nos três primeiros meses desta revista - segue para o Super-Homem de Bendis. Fora isso, Terrifics é perfeito.

Batman (2016) número 41 de Tom King e Mike Janin (DC Comics)


Quem diria que seria a Hera Venenosa a fazer o Batman duvidar de si mesmo. Tom King continua a sua aclamada sequência de histórias no Cavaleiro das Trevas, desta vez focado-se em mais um embate entre o herói e uma das suas mais antigas adversárias. Contudo, a vilã manipuladora de plantas e dos corações dos homens não é apenas mais um vilão du jour, afirmando-se, antes, como uma antagonista à escala global. Não mais uma piada sexista, a Hera cresce em estatuto de forma orgânica (hum... há uma piada aqui algures) e, ao mesmo tempo, prova que o Batman, apesar de estar sempre bem preparado, não o está para todas as eventualidades.

Tom King continua a escrever argumentos cativantes e únicos. O monólogo interno de Hera é o anzol que nos agarra e, ao mesmo tempo, é o comentário às cenas que se desenrolam - sabemos que é ela mas, ao mesmo tempo, a revelação final da sua aparição como vilã é uma surpresa: pela frieza; pelo poder; pela escala da ameaça. O escritor também prossegue o desenvolvimento da relação do Batman com a Mulher-Gato, procurando transpor a sua experiência pessoal para as vidas destas personagens (como também está a fazer com o essencial Mr. Miracle). Neste entrelaçar de aventura e relações pessoais, King tem se revelado um exímio contador de histórias.

A seu lado, volta a estar Mike Janin como desenhista. E que desenhista. Não só fotografa personagens com alma e carácter, como o faz de forma entusiasmante. A sua Hera é de uma terrível e temível beleza. 

Este é o primeiro capítulo de Everybody Loves Ivy. Mais uma vitória de King e de Janin. 

Uma BD aqui, outra BD ali, 10

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Brave And The Bold Batman And Wonder Woman número 1 de Liam Sharp (DC Comics)

Liam Sharp foi o desenhista responsável por metade das histórias mais recentes que Greg Rucka escreveu para a Mulher-Maravilha. Veterano do lápis e tinta da china (perdoem a minha ignorância no mundo do desenho), decide tentar a sua sorte (não sei se pela primeira vez) na arte da escrita. A DC Comics tem recentemente arriscado mini-séries com Diana como co-protagonista. Uma primeira junto com o conhecido Conan, O Bárbaro (comprem, porque vale a pena) e agora com o ainda mais conhecido Batman, o seu companheiro de armas na Liga da Justiça

No que respeita à escrita, Liam vai soberbo, conseguindo equilíbrio entre a exposição necessária para trazer o leitor para dentro do mundo fantástico do Folclore Irlandês (peça central da história), e momentos mais intimistas, principalmente com a super-heroína. Para quem leu a sua colaboração com Rucka, este primeiro número representa uma pequena recompensa. A primeira cena com Diana é poderosa a reveladora do amor do desenhista à personagem mas também da imagem que ela representa dentro do mundo fictício da DC. O Batman aparece parcimoniosamente, mas o suficiente para revelar o controlo que Sharp tem sobre a sua personalidade. 

Finalmente, no que respeita à arte, o autor excede-se, entregando uma BD francamente bela e bem estruturada. O seu traço é particularmente apropriado ao mundo de Fadas da mitologia irlandesa e cada página merece ser um poster - mas sem perder um átomo do storytelling. A continuar assim teremos em mãos uma das minhas BDs favoritas do ano (e não só porque tem a Diana como co-protagonista). Já agora, Sharp continua a desenhar uma das mais expressivas e bonitas interpretações de Diana, ao ponto de eu, como fã, ter dificuldade em não a considerar como uma favorita (ao lado da de George Pèrez). 

Defenders (2017) número 10 de Brian Michael Bendis e David Marquez (Marvel)


Chega ao fim a Era Bendis da Marvel. Depois de 17 anos de uma produção polémica mas profícua, um dos mais importantes escritores a trabalhar na auto-professa Casa das Ideias muda-se para a Distinta Concorrência (DC, para os que não estão dentro destes acrónimos). Ficou conhecido pelo trabalho em várias personagens, mas em nenhuma mais do que nos conhecidos como street-level heroes. O Demolidor. Luke Cage. Jessica Jones (que co-criou). Homem-Aranha. É, portanto, apropriado, que termine com este Defenders, que reúne na mesma equipa os três primeiros mais o Punho de Ferro (que escreveu nos Vingadores). E, mais ainda, junto com o desenhista David Marquez, com quem tinha previamente trabalhado em Miles Morales e em Civil War II.

Como já referi em posts anteriores, Bendis não poderia acabar a sua prestação na Marvel de melhor forma. Defenders é das obras mais conseguidas do autor, ombreando com trabalhos como o Demolidor (talvez o seu ponto alto), Ultimate Spider-Man e New Avengers (os meus três favoritos). Parece que Bendis tirou da cartola mais um conjunto de ferramentas de storytelling para impressionar os detractores e os fãs. "Eu ainda sou capaz de vos surpreender pela qualidade, estão a ver?!". Quem gosta do seu trabalho, apesar de saber que ele ainda tinha muito para dar, não esperava que a qualidade da sua escrita ainda pudesse brilhar tanto, mesmo empregando muitos dos seus cartões de visita: a verborreia; os plot-twists; a reinterpretação de velhos vilões e de antigos heróis; o baralhar de geografias e conceitos do universo da Marvel. Bendis brilha em cada página e em cada frase destes 10 números dos  Defenders 2017, defendendo o seu legado sem egoísmos, dizendo um sentido adeus e deixando a página aberta aos que se seguem. 

Mas nenhum elogio aos Defenders pode estar completo sem falar de David Marquez, um dos seus recentes colaboradores e que nestes 10 números brilhou como nunca. Cada rosto é único, cada cena de acção coreografada de forma belíssima, cada enquadramento apropriado.

Bendis diz adeus e eu sigo-o para o Super-Homem. Até mais logo, Marvel.

Uma BD aqui, outra BD ali, 9

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Dark Nights Metal número 5 de Scott Snyder e Greg Cappulo (DC Comics)


Ainda falta um capítulo (e um especial) para Dark Nights Metal chegar ao fim. A promessa é que será em Março. No que a mim diz respeito, esta é provavelmente uma mini-série/evento/saga que será uma marca no historial da DC... mas não só. Será o critério pelo qual muitas outras mini-séries/eventos/sagas serão julgadas. Ainda falta um capítulo (e um especial) e estou convencido disso. Será que a DC aprendeu com todos os erros do passado e daqui para a frente adoptarão esta metodologia? (Doomsday Clock parece ser outro excelente passo no bom caminho). Apenas o futuro o dirá mas espero que tenham aprendido a lição. Para que os leitores se sintam motivados, na carteira e na vontade, é urgente as editoras de super-heróis perceberam que os seus fãs não precisam de fazer assaltos a bancos para seguir as histórias das suas personagens favoritas. Também existiram pequenos crossovers e alguns especiais em Dark Nights Metal mas não só não eram imprescindíveis como, se os lessem (e eu li todos), eram recompensados com (imaginem só esta revolução) qualidade.

Como já disse em análises anteriores, Dark Night Metal NÃO é para o leitor ocasional da DC. Poderão divertir-se mas nunca será a mesma coisa. Lamento, mas a DC, Scott Snyder e Greg Cappulo parece que não se importam com isso. Aqui não existe a versão Politicamente Correcta da BD dos EUA: que todo o leitor tem de ser apaparicado e perceber o que se passa. Impossível! Este é apenas mais um episódio de uma longa novela. Ainda bem. E que episódio! Tudo o que interessa a quem gosta da DC está aqui: os super-heróis bastiões da luz e de virtudes; apoteoses da moralidade Humana; lutarem contra tudo, mesmo quando não há esperança aparente; enfrentarem vilões sem uma réstia de cinzento, eles próprios a apoteose do Mal; o Super-Homem, o Batman e a Mulher-Maravilha como os representantes máximos de heroísmo, perseverança e Bondade. Este é um filme blockbuster como nunca será feito. É entretenimento puro e duro, sem remorsos ou concessões. É aquilo que BD (também) deve ser!

The Flash Annual (2018) número 1 de Joshua Williamson e vários (DC Comics)

Continuando no leit motif "histórias-apenas-para-ser-consumidas-por-quem-adora-a-DC-e-é-doutorado-na-editora": The Flash. Sou fã da versão pós-Crise, a de Wally West (já comecei a ser hermético). Sou fã do trabalho que Mike Baron, Bill Messner-Loebs, Mark Waid, Grant Morrison e Geoff Johns fizeram no velocista. Li apenas parcialmente o que seguiu-se ao último escritor que mencionei.  Fiquei curioso com a saga que começa neste Anual e que se intitula Flash War. Achei que poderia ter tudo aquilo que gosto da mitologia da personagem: a noção de legado; os melhores vilões depois do Batman e do Homem-Aranha; viagens temporais; paradoxos temporais; Flash Reverso; Wally West; a arte de Howard Porter; e ligação forte ao DC Rebirth. Tem, de facto, tudo isto. E é bom?

É entretido, lá isso é. Mas Joshua Williamson não é nenhum dos escritores que mencionei e isso nota-se. Não existe, pelo menos neste seu trabalho, a inventividade que caracterizava cada um dos seus antecessores. Existe, isso sim, uma certa deferência a esse maravilhoso passado mas (e eu sei que pareço estar a contradizer-me) isso não é suficiente. Podemos regressar a casa mas devemos ir com roupas diferentes, nem que seja para termos o elemento de surpresa do nosso lado. Não me interpretem mal. Eu gostei muito de ler este Anual e adorei rever alguns antigos conhecidos. Foi delicioso voltar a ver Wally West como protagonista de uma revista do Flash. Foi excitante folhear e ser surpreso por alguns regressos. Mas, na realidade, já vimos isto tudo. Falta o golpe de asa para que esta saga não seja mais que um retorno ao status quo. Geoff Johns está a fazê-lo no Doomsday Clock. A ver se Williamson consegue sentir-se inspirado por ele. Continuarei a ler mas preciso de mais. O Flash de Wally West merece.

Uma BD aqui, outra BD ali, 5

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Detective Comics números 969 a 971 de James Tynion IV, Joe Bennet e  Miguel Mendonça (DC Comics)

A revista que viu nascer o Batman continua a sua caminhada inexorável para o número 1000. James Tynion IV, desde o início do evento DC Rebirth, tem tomado as rédeas da escrita, focado-se não apenas no Cavaleiro das Trevas mas também, e essencialmente, nos seus ajudantes: Red Robin; Batwoman; Cassie Cain; Spoiler; Azrael; Batwing; Clayface. Formam uma equipa paramilitar com o óbvio intuito de trazer paz, lei e ordem às ruas caóticas da cidade mais criminosa do universo DC, Gotham City. Isto a despeito das forças democráticas de segurança. Ora é sobre este tema que parece focar-se a história incluída nestes números e que, conjuntamente, são três capítulos de uma saga apelidada de The Fall of the Batmen. O objectivo da história pode estar no título mas raramente assim o é.

Tynion aparenta escrever o culminar de enredos que começou na primeira página da sua sequência em Detective Comics. Muitas das personagens e eventos estão a confluir paraum final - nem que seja porque estamos a aproximar-nos do número 975, um marco sempre importante. A escrita é cativante, palavrosa (ao contrário de muitos comics os dele demoram a ler, graças a deus) e tem-se feito acompanhar de um conjunto de talentosos desenhistas. Este mês os portugueses têm o bónus, ao ver a arte de um conterrâneo seu, Miguel Mendonça, que já tinha agraciado as páginas dos últimos números da Mulher-Maravilha, versão Novos 52. A qualidade do trabalho continua a crescer a olhos vistos. É com enorme orgulho que vemos alguém tão talentoso da nossa pátria a trabalhar em ícones tão gigantes da cultura pop internacional. E o facto de estar a contribuir para uma das mais interessantes sequências de histórias da história recente do Batman é (quase) só um bónus.

X-Men - The Grand Design número 2 de Ed Piskor (Marvel)


Neste link escrevi sobre o primeiro número desta nova mini-série da Marvel com enfoque nos X-Men. O autor independente Ed Piskor tem por objectivo contar a história dos primeiros 300 números da revista Uncanny X-Men, um dos períodos mais marcantes do worldbuilding nos super-heróis dos EUA. Com este segundo número fecha uma das fases, comummente conhecida como a dos X-Men Originais. Logo a seguir viria a fase mais emblemática, a dos Novos X-Men, escrita maioritariamente por Chris Claremont e protagonizada por Wolverine, Tempestade, Nocturno, Kitty Pryde, Fênix, etc.

O objectivo de Piskor torna-se perfeitamente claro com este segundo número - que fecha a primeira de várias séries planeadas. O autor unifica toda(s) a(s) história(s), agregando-as sob o chapéu de algumas macro-histórias, nomeadamente as da perseguição dos mutantes por um cabal global e da reencarnação da entidade Fênix. Quem lê The Grand Design fica exactamente com essa sensação: de que sempre existiu um plano superior para toda a mitologia dos X-Men. Todos os enredos, todas as personagens, de forma directa ou indirecta, mais ou menos retorcida, contribuíram para um arco de história que ocupou mais de trinta anos. Piskor faz um trabalho quase documental mas cativante. Leitores velhos e novos ficarão agarrados a cada página. Para os primeiros readquire-se algum do lustro e mesmo da surpresa. Para os novos um deslumbramento de olhos inocentes. 

Agora espera-se pela segunda mini-série lá para os finais de 2018.

Uma BD aqui, outra BD ali, 4

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Batman (2016) números 36 e 37 de Tom King a Clay Mann (DC Comics)

É desta matéria que as boas histórias são feitas. É por causa de números como estes que as personagens da DC são-me tão queridas. Já muitos sabem que Tom King está a construir uma das mais interessantes sequências de histórias com o Homem-Morcego. O ex-agente da CIA tem-se revelado, no relativo pouco tempo em que escreve BD, como um dos escritores de maior imaginação e inteligência a trabalhar na 9.ª Arte. A perspectiva fresca com que escreve este maior ícone da DC tem revelado pormenores do Cavaleiro das Trevas que persistentemente escaparam a outros. I Am Suicide, The War of Jokes and Riddles, Batman Annual #2, Batman/Elmer Fudd, foram alguns dos momentos mais altos. Aos quais agora se juntam estes dois números.

Batman e Super-Homem há décadas que dançam pelos interstícios de uma relação de amizade e conflito. A início eram amigos, mas desde 1986 que Frank Miller e depois John Byrne decidiram que seria mais empolgante se fossem lados opostos de uma mesma questão filosófica. Esse conflito definiu a  relação mas também a personalidade de ambos. Eis que, no presente, o Homem de Aço está há muito casado com o amor da sua vida, Lois Lane, e o Batman pediu em casamento a anti-vilã, uma vezes amante, outras inimiga, Catwoman. Esse pedido leva a que ambos os casais decidam sair num double date (número 37), antecedido de uma análise do respeito que as duas figuras maiores da mitologia de super-heróis nutrem uma pela outra (número 36). 

Tom King é um homem adulto e isso é espelhado na riqueza dos diálogos entre as personagens. É revelado, em todo o seu esplendor, a tridimensionalidade de quatro figuras que fazem parte da cultura pop há 80 anos. Isto não é para quem nasceu há menos de 20 anos (mas também o é). Isto não é para a geração Disney, assexuada e sem humor (calma que também gosto de algumas coisas da Disney). Isto é para personalidades maduras, hetero ou homossexuais, de pensamento complexo e indefinido, visto pelo prisma de quatro arquétipos, que também são, acima de tudo e o mais importante, pessoas que respiram ar de papel. É por isto que adoro o Super-Homem, o Batman, a Lois Lane, a Catwoman e a DC Comics. Perfeição.

Exit Stage Left: The Snagglepuss Chronicles número 1 de Mark Russel e Mike Feehan (DC Comics)


A DC Comics, através da empresa accionista, a Time Warner, tem acesso a um conjunto de propriedades intelectuais da cultura pop bastante conhecidas. Os Looney Toons e as personagens da Hanna Barbera, por exemplo. Os portugueses de uma determinada geração conhecem o Top Cat, o Yogi Bear, os Jetsons e os Flintstones. Fazem parte de uma infância colectiva de desenhos animados dos fins-de-semana de manhã. Recentemente, a editora de BD tem resgatado algumas destas personagens e as reinventado através de um prisma adulto. Perderam-se os desenhos cartoonescos e as temáticas são agora maduras e complexas. Nunca tinha lido nada até este Snagglepuss e a surpresa foi significativa. 

A história ocorre na década de 50 dos EUA, durante um período da História deste país com relevantes convulsões sociais. Estávamos em plena Guerra Fria e esta foi usada como justificação de algumas agendas mais tradicionalistas para procederem a uma caça às bruxas mais ideológica que política. Snagglepuss é  um conhecido artista de Teatro que tem de esconder a sua preferência sexual. Ele é gay, um actor conhecido, mas o clima social e político não são propícios à sua liberdade pessoal.

Mark Russel escreve um enredo complexo e cativante, com diálogos inteligentes e adultos. Apesar da forma - os protagonistas são personagens antropomorfizados -, a história flui sem problemas e de forma séria. Não existe nenhuma necessidade de suspensão da descrença apesar de estarmos a falar de um leão das montanhas cor-de-rosa. Apesar de ainda muito no início, pela amostra deste primeiro capítulo, podemos já aqui ter uma das melhores BDs de 2018.

Captain America número 697 de Mark Waid e Chris Samnee (Marvel)


O Capitão está de volta. The All-American, applepie version. E ainda bem. Desde há uns anos a esta parte que esta personagem apenas sobrevive no ranking das competitivas vendas do EUA quando passa por um evento catastrófico. Primeiro pelas mãos de Ed Brubaker, que o matou e ressuscitou. Depois por Rick Remender, que lhe deu um filho e envelheceu-o. E mais recentemente pela versão nazi escrita por Nick Spencer. Depois desta última controvérsia, a Marvel decidiu regressar às origens da personagem, adoptando a fórmula DC Rebirth: os seus heróis, o Capitão inclusive, regressariam às versões clássicas (e, já agora, as revistas às numerações iniciais - como podem comprovar pelo número 697). Para que isso ocorresse de forma suave, ninguém melhor para escrever que Mark Waid, que não só é conhecido pelo seu gosto e talento clássico como também por ter escrito uma das melhores sequências de histórias do passado da personagem. Regressa com o auxílio de um  seu colaborador recente, Chris Samnee, com quem trabalhou no Demolidor e Viúva Negra.

Já estamos com três números no total com esta equipa criativa e, no que a mim diz respeito, é com este capítulo que Waid e Samnee entram no groove. Deixamos de lado a Real America e entramos na vertente super-heroística, com o conflito com Kraven, O Caçador, vilão do Homem-Aranha. A premissa é perfeitamente banal e a surpresa inexistente mas é uma história bem executada. Waid deixa a capacidade de storytelling de Samnee respirar, abstendo-se de diálogos e deixando a acção falar por si. A leitura torna-se parcimoniosa mas entretida e sem pretensões. Um conto de super-heróis sem grandes metáforas. Apenas uma aventura à antiga. Ou seja, ainda que não ofereça nada de inovador também não procura ser a próxima grande modificação do status quo para fazer aumentar as vendas. Duvido que a Marvel resista por muito mais tempo. É que a editora está viciada em reboots e grandes mudanças. 

Uma BD aqui, outra BD ali, 3

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Phoenix Resurrection - The Return of Jean Grey número 1 de Matthew Rosenberg e Leinil Francis Yu (Marvel)

Uma das mais queridas histórias da BD dos EUA é a Saga da Fênix Negra, escrita por Chris Claremont e desenhada por John Byrne. Estes dois autores são uma das mais lendárias equipas de BD graças à colaboração nos X-Men e, especificamente, nesta conhecida saga - que culminou na morte da personagem Jean Grey/Fênix, uma heroína que sacrificava-se em prol do universo. Em termos de preferência dos leitores, e de acordo com o mais recente inquérito do site Comic Book Resources, esta história é apenas superada pelos Watchmen - reparem na importância. Entretanto, e como é natural nas histórias de super-heróis, Jean Grey ressuscitou, para morrer outra vez às mãos de outro grande escritor, Grant Morrison. Ora, era apenas uma questão de tempo para que, uma vez mais, Jean Grey voltasse à vida. É com pouca surpresa que a morte e inevitável ressurreição de qualquer super-herói é encarada. Uns vêem-na com naturalidade, outros com gozo e os mais sérios como parte integrante da mitologia.

Se é inevitável, sobra então a qualidade da "empreitada", porque é disso que falamos. Muitas destas histórias nascem de imperativos editoriais e pouco ou nada têm a ver com inclinação ou inspiração artística, chamemos-lhe assim. Nada de mal com isso, estas são personagens detidas por corporações. It's the name of the game, you vote with your wallet. A execução desta segunda ressurreição é pouco mais que uma obrigação contratual, desinspirada na escrita e, principalmente, no desenho. Jean Grey é uma de três ressureições (aparentemente) e qualquer uma das restantes não são tanto surpresas mas mais "a sério? Também estes? pois... lá está, já se esperava". Desperdício de talento e de papel. Faziam isto em um único número e poupavam-nos o trabalho de ler. Eu, por mim, leio a síntese algures pela net.

Savage Dragon números 227 a 230 de Erik Larsen (Image)


Quando um conjunto de artistas decidiu abandonar a Marvel no início da década de 90 para criar a sua própria editora, a Image, Erik Larsen estava entre eles. O compromisso de todos era produzir material concorrente às duas grandes. Durante algum tempo foi assim, até que a maior parte deles não conseguiu cumprir com prazos. Outros cometeram o maior dos crimes: lançaram ideias mal executadas e preguiçosas. Aos poucos, os leitores abandonaram a Image mas a revolução estava feita. A BD dos EUA nunca mais seria a mesma. Erik Larsen, contudo, lançou o seu Savage Dragon em Julho de 1992 e desde então não parou. Acompanhei a revista mensal nos primeiros 100 números, sensivelmente, regressei um tempo depois e voltei a abandonar. Larsen, como não gosta de perder leitores, tem feito esforços para os recuperar, com algumas chamadas de atenção mediáticas e demagógicas que me agarraram (sou um tonto!).

Voltar passados estes anos para uma BD da Marvel ou DC poderia significar não ver grande mudanças. Com Savage Dragon não é assim. Erik Larsen sempre fez questão de avançar as suas personagens à velocidade do tempo real e, portanto, a revista conta histórias desde há 25 anos neste mundo fictício. Ao reabrir estas páginas o Dragon original não existe mais, substituído pelo filho que já tem 20 anos, é casado e tem ele próprio três filhos. Uma das tais mudanças mediáticas foi que Malcolm (o filho) mudou-se com a sua família para o Canadá, porque Trump (sim, ele existe nesta BD) não quer extra-terrestres nos EUA.

Contudo, a grande mudança não é essa. Larsen abandonou qualquer pretensão infanto-juvenil e adolescente e abraçou uma visão mais "adulta". O sexo é explícito, as relações são maduras, a nudez um lugar-comum (principalmente a das mulheres, vá se lá saber porquê). Nada contra. O ritmo continua o mesmo, com uma ou duas páginas de um lado da história, automaticamente passando para outro de forma abrupta mas raramente desconcertante. Usa muito shock-value para tornar a história entretida e agarrar o leitor. Os truques são os mesmos. Umas vezes são interessantes, outras não. O que faz pena são os desenhos. Na larga maioria das vezes são preguiçosos, apressados e quase-esboços (faz lembrar Frank Miller dos dias de hoje e isso não é bom). Larsen é capaz de muito melhor e adorava voltar a ver isso. De uma forma geral, lê-se bem mas este artista é capaz de melhor.

Batman, Creature of the Night número 2 de Kurt Busiek e John Paul Leon (DC Comics)


Em 2004, Kurt Busiek e John Paul Leon publicaram uma das mais interessantes histórias sobre o Super-Homem chamada Secret Identity (que considerei aqui como uma das 10 melhores do Homem de Aço). Tratava-se de um twist curioso, uma simbiose entre o mundo "real" e fictício. Nele o Super-Homem era uma personagem de BD mas alguém do mundo real adquiria os seus poderes. A sensibilidade e emoção com que Busiek contava a história da personagem principal não só reflectia as aspirações e sonhos do autor, confesso apaixonado destas mitologias, como explorava de forma inédita o que significa o conceito de Super-Homem. Treze anos depois, os dois regressam ao conceito mas com o Batman neste Creature of the Night.  A base é a mesma mas com um arquétipo bem diferente, o do Cavaleiro das Trevas, que se empresta a interpretações mais sombrias.

Busiek e Leon navegam as fronteiras entre o real e o imaginário com a  elegância que já os tinha elevado no volume do Homem de Aço. É a história de um órfão inspirado pelas histórias aos quadradinhos do Homem-Morcego, de como a batalha contra o crime carrega uma mente marcada por uma tragédia. Serve como história e como comentário meta-textual sobre a importância destes ícones. Os super-heróis não são apenas fantasias de escape e de empoderamento. São também cautionary tales e contos moralistas, por vezes bússolas de ética. Os autores compreendem isso e passam essa "mensagem" sem serem pregadores, antes alicerçam-na numa história bem construída e estruturada. Avizinha-se outro triunfo por parte de Busiek e Leon. Venha a Mulher-Maravilha logo a seguir.

Colecção Harley Quinn da Levoir vol. 2: Miúdas sem Regras de Jimmy Palmiotti e Amanda Conner

Harley Quinn, a namorada do Joker. Foi assim que, em Setembro de 1992, ela foi-nos apresentada no episódio Joker's Favor da série de desenhos animados de TV, Batman, The Animated Series. Voz esganiçada, sotaque sulista, devota ao seu amor. Psicopata, claro - porque quem mais poderia amar um lunático como o Joker? Esta estranha combinação funcionou e ela transformou-se num sucesso. Uma criação original da TV que ganharia tanta fama que passaria para a BD e não o contrário.

Mas esta realidade escondia uma outra, mais negra. Harley era abusada, física e moralmente, pelo Joker. Bem vistas as coisas, não poderia ser outra forma. O Joker é um psicopata obcecado por um sociopata com problemas parentais graves, o Batman. No meio da luta de egos e no meio de uma paixão claramente doentia estava uma rapariga que não era de todo inocente mas era, declaradamente, uma vítima. Muitos foram os anos em que o Príncipe do Crime abusou da sua relação com Harley. Até que algo rebentou. Pode ter sido a amizade que ela cultivou com Hera Venenosa, outra arqui-inimiga do Batman, e que tem uma paixão não correspondida pela nossa heroína. Pode ter sido um bom e velho sentido de amor-próprio, que a fez descolar da personalidade tóxica do Joker e enveredar pelo seu próprio caminho.

O que quer que tenha sido, é nessa circunstância que encontramos Harley nesta colecção da Levoir: livre e dona do seu próprio destino, que é onde ela e todas as mulheres devem estar.

Segue-se uma pequena síntese deste segundo volume e previews.

Harley Quinn: Miúdas sem regras

Russos e ursos, assaltos a bancos, peças de teatro e jogos de Roller Derby. Descoberto o mistério sobre quem lhe tinha colocado a cabeça a prémio, há ainda muito com que Harley Quinn se pode entreter, para variar do seu enfadonho negócio de ser proprietária de um edifício em Coney Island, Nova Iorque!

Sobretudo se conseguir juntar um grupo de amigas e não se deixar limitar por nenhumas regras. Regras que não existem no clube de combate clandestino que Harley descobriu, onde mais ganhas consoante os adversários que derrubares. Com um agente como Sy Borgman, o velho espião cheio de partes biónicas, a representá-la, Harley tem tudo para arrasar… em todos os sentidos.

Neste segundo volume, há ainda espaço para recontar, numa perspectiva diferente, a origem secreta de Harley Quinn, numa história ilustrada por Stéphane Roux.




Colecção Harley Quinn da Levoir vol. 1: À solta na cidade de Jimmy Palmiotti e Amanda Conner

Muitas foram as personagens da BD dos EUA que não começaram nas páginas da 9.ª Arte. Desde os remotos dias das emissões de rádio do Super-Homem na década de 40 que mitologias eram inventadas em outros meios que não o papel e só anos depois passavam para as tiras coloridas dos livros aos quadradinhos. Harley Quinn foi uma delas. A conhecida como "a namorada do Joker" começou na lendária série de TV Batman The Animated Series e no episódio Joker's Favor (setembro de 1992). O que a princípio era para ser apenas uma aparição fugaz, muito graças à força do conceito criado por Paul Dini e Bruce Timm e à voz maravilhosa e única que Arlee Sorkin criou para a Harley, transformaram-na num dos conceitos eternos associados à mitologia do Homem-Morcego. Tão eterno e tão poderoso que existe quem diga que a Santíssima Trindade da DC é agora um quarteto. Quem diria que a vilã apaixonada pelo psicopata obcecado pelo Batman estaria ao lado deste, da Mulher-Maravilha e do Super-Homem?

A primeira vez que a Dra. Harley Quinzel aparece nas páginas da BD é em 1994 e escrita pelo seu criador, Paul Dini, que escolhe contar a trágica transformação de uma pacata psicóloga na psicopata apaixonada pelo Joker. Chamou-lhe (apropriadamente) Mad Love e ganhou um Eisner com esse livro (já publicado pela Levoir). Serão necessários mais uns anos para que Harley migre definitivamente para o universo "normal" de super-heróis da DC. Isto acontece no especial Batman: Harley Quinn, parte de um mega-evento de 1999 chamado No Man's Land - a premissa sendo que Gotham City é isolada do mundo pelo governo dos EUA e passa a ser uma terra sem lei. Finalmente, entre 2001 e 2003, consegue a primeira revista a solo, onde usa o uniforme criado pelos criadores originais do desenho animado e começa a lenta caminhada para transformar-se na princesa da DC (claro que a rainha é a princesa Diana de Themyscira, a Mulher-Maravilha... esperem! A rainha é uma princesa e a criminosa é a princesa? Esta analogia não é lá muito feliz).

Em 2011 a DC decide reiniciar o seu universo de super-heróis do zero e aposta numa nova revista a solo para Harley. A esse "reboot" a editora chama Novos 52 que é onde se passa a fase da anti-heroína que têm em mãos hoje junto com o jornal Público. Com um uniforme mais risqué e escrita por Jimmy Palmiotti e Amanda Conner, a namorada do Joker será catapultada para fora da sombra do companheiro e para o estrelato que merece.

Em baixo segue um pequeno resumo do primeiro volume desta colecção de três e alguns previews.

Harley Quinn: À solta na cidade 

Como é que uma rapariga se pode descobrir a si mesma no meio da confusão do Universo DC? Nada mais fácil que falar com os artistas que a desenham e escrevem, e impor algumas regras! Esta aventura surreal ilustrada por alguns dos maiores nomes dos comics, dá o ponto de partida para a nova vida de Harley Quinn, escrita por Jimmy Palmiotti e Amanda Conner. No início desta nova série, Harley herda de um dos seus pacientes no Asilo Arkham um prédio de habitação e comércio em Coney Island, Nova Iorque, o que lhe dá a oportunidade perfeita de recomeçar a vida longe de Gotham e do Joker.

Mas os impostos e os custos de manutenção do edifício são elevados e as rendas pagas pelos peculiares inquilinos não cobrem estes custos, o que obriga Harley a voltar a trabalhar como psiquiatra num lar de idosos de dia, e integrar uma equipa de Roller Derby à noite, para poder pagar as contas. Se a isto juntarmos os inúmeros assassinos que aparecem, atraídos por uma recompensa de dois milhões de dólares pela sua cabeça e uma rede de antigos espiões do KGB, que vai ajudar Sy Borgman, um agente reformado da CIA, a desmantelar, vemos que a nova vida de Harley está bastante preenchida.





Dark Nights: Metal #2 de Scott Snyder e Greg Capullo



Aviso à navegação: o segundo número do evento de 2016 da DC Comics não é para os que nunca leram nada da editora. A narrativa é alicerçada na sua História, cosmogonia e cosmologia. A referência a eventos passados publicados há muito tempo é constante e pode (e vai) confundir os que não são versados na complexa tapeçaria deste multiverso (e mesmo os que são). Este é um aviso que já tinha feito aqui, quando falei do primeiro número, e continua a ser válido (se não mais ainda) para este segundo capítulo.

Esta também não é uma história para os que gostam das narrativas reais, lógicas e cheias de significado filosófico-existencial. Aqui há, por vezes, coisas que não fazem sentido, momentos de puro ridículo, subtileza narrativa de um Ferrari acidentado na auto-estrada. E há uma outra coisa para quem gosta de super-heróis: puro entretenimento, regozijo em ver os homens de collants em situações escabrosas, ópera pop, explosões, vilões ultra-negros e heróis mega-puros. Tudo é barulho, som e fúria, como numa canção metaleira. Composta por Snyder e Cappulo.

(a partir daqui há muitos spoilers)

A primeira leitura de uma história destas é feita a correr, na ânsia de chegar ao fim, de virar a página e descobrir a próxima surpresa. Existem pormenores que escapam, exigências que não são feitas. Este segundo capítulo conta-nos a perseguição levada a cabo pela Liga da Justiça para capturar Batman, que roubou uma curiosa arma cósmica: o bebé Darkseid. Batman acredita que a versão infantil do Deus de Todo O Mal do Universo DC é a chave para impedir a invasão do Dark Multiverse. Não sabe que está a ser enganado. No final, e pela primeira vez em muito tempo (ou mesmo sempre), o Batman perde e a Liga dos Batmen Negros e Maus Como as Cobras chega com fúria e desespero. Entretanto, sabemos que o vilão-chefe desta saga, Barbatos, conheceu o Cavaleiro das Trevas quando, na saga Final Crisis, escrita por Grant Morrison, Darkseid (ainda não era um bebé) o exila para a Idade da Pedra. No penoso regresso que Bruce Wayne faz para chegar ao presente, Barbatos molda a História do Mundo DC e de Batman de acordo com os seus desígnios bem esconsos. Complicado? Muito! Rebuscado? Sem dúvida! Argumento típico de super-heróis? Oh meus deus... sim! Ou se gosta ou então é melhor nem passar por aqui. 

Imaginem o oposto do que se deve fazer para cativar uma audiência. Tentem ser o mais herméticos possível. Dificultem a mensagem. Isto não deve ser feito, certo? Snyder e Cappulo atiram pela janela o livros de regras dos marketistas e deixam-se levar pela pura geekisse e pelo puro prazer de escrever uma história para eles e para os malucos (como eu!) que sabem destes assuntos mais do que é saudável saber. Pormenores que não interessam a quase ninguém. Mas, no meio de tudo, conseguem entreter e divertir e isso é a única coisa que pode ser esperada de uma história destas. Abandono total.

Subtil como uma fotografia de David Lachappele (tinha de fazer uma referencia mais intelectual para não destruir as minhas credenciais), o número dois de Dark Nights: Metal é entretenimento ao som de guitarra metaleira. Ajuda ser fã à séria da DC? Ajuda! Mas não está na moda aceitarmos "desafios"? Pois eu acho que sim!

Rapidinhas de Cinema - Wind River e Batman & Harley Quinn



Não. Um filme nada tem a ver com o outro. Um é uma narrativa fria e cruel, um faroeste passado nas montanhas geladas do estado de Wyoming. Outro é um desenho animado descomprometido, leve e humorístico. Um é sobre vidas reais esquecidas pela Lei, outro é sobre vigilantes fantasiosos e uma anti-vilã sociopata (e não psicopata, como é, aliás, bem sublinhado pela personagem no filme). Gostei de ambos.

Wind River é a primeira incursão de Taylor Sheridan na cadeira da realização, escritor dos maravilhosos Sicario e Hell and High Water. Estes dois filmes eram já uma subversão de géneros e uma visão desapaixonada e anti-glamourosa de dois mundos muitas vezes vistos de forma leve pelo Cinema. O primeiro descrevia a luta contra o mundo criminoso do tráfico de droga e o segundo sobre a crise financeira de 2008, as suas consequências e enveredava pelo caminho de um heist movie social. Wind River é um thriller policial a início, uma normal descoberta de "quem-matou?", com a participação da polícia local, do FBI e de um wild-card autóctone que acaba por revelar-se como a peça mais importante da investigação. Claro que, como nos provou nos seus dois filmes anteriores, Sheridan usa o ambiente como forma de comentar uma outra realidade. Neste caso, a do isolacionismo. De um local para onde a Lei não estende o seu braço dito longo. Onde a justiça é feita pela fauna, flora e geografia locais. Existe Lei. Mas não a dos homens. A escolha dos dois actores principais, Jeremy Renner e Elizabeth Olsen, prova que estes dois interpretes são capazes de muito mais do (pouco ou nada) que lhes dão para fazer em filmes de muito orçamento (nos Vingadores são criminosamente subaproveitados). Aqui respiram o ar frio do mundo onde as suas personagens passeiam, cada olhar e gesto um reflexo de uma história maior, de universos que colidem com o drama do enredo. Infelizmente, será daqueles filmes que passarão despercebidos nas salas de cinema, sem o merecer.

Longe, muito longe, da narrativa de Wind River está Batman & Harley Quinn, a ultima incursão da DC Comics pelo seu já duradouro universo de desenhos animados. Desde o início da década de 90 que a editora decidiu tentar novas abordagens, mais adultas, pelo mundo ficcional das suas personagens em formato de desenho animado. Começaram exactamente com o Batman, na lendária série de Bruce Timm e Alan Burnett. Foi nesta que o primeiro e Paul Dini criaram Harley Quinn, a namorada do Joker, o arqui-inimigo do Homem-Morcego. A fama desta personagem expandiu-se nas décadas que se seguiram ao ponto de ser a personagem principal do filme Esquadrão Suicida de 2016, com Margot Robbie no papel da anti-vilã. Com a fama no seu pico, Bruce Timm regressa não só à personagem a quem deu forma mas também ao universo onde a criou. Este filme tem como ambiente a série da década de 90, ainda que se assuma como mais adulta e muito menos apropriada a crianças. Enquanto a Marvel continua a apostar num publico jovem, a DC esforça-se para que as suas personagens e histórias reclamem um público mais adulto (ainda que não necessariamente maduro - e isto não é uma critica). Este Batman & Harley Quinn é uma busca nesse sentido e, no que a mim diz respeito, bem sucedida. Há algum tempo que não me ria tanto - mesmo com piadas um pouco, digamos, adolescentes. Esta Harley é mais arriscada e o Batman mais sisudo (mas com laivos de descontracção, o que atesta bem da latitude da personagem). Nightwing, um dos discipulos do Cavaleiro das Trevas, tem também um papel muito importante e revelador. Um filme bastante divertido para fãs e (acho) não só.