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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, e agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana acabamos a miscelânea de obras e passamos para, até dia 18 de Novembro, histórias do Renascimento da DC que acho (que acho) valerem a pena. 

Uma BD por dia, não sabe o bem que lhe fazia - até ao primeiro dia de 2020!



Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, mas só agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Na semana do MOTELx, festival de cinema de terror de Lisboa, ficam umas sugestões de BDs desse lado tenebroso da literatura.

Rapidinhas de BD - Undertaker, Saga e Drifting Classroom!



 

O prazer pop de diversão pode ter as mais diferentes formas. Não vem todo da mesma fonte, quer seja ela autoral, quer seja geográfica. As três Bandas Desenhadas que aqui vos proponho são disso prova. Cada qual do seu canto do globo, cada qual reflexo de uma filosofia bem diferente de "fazer BD". Cada uma capaz de entreter de forma diferente mas, vou ser sincero, não tanto pelo local de onde vem mas mais pela qualidade dos autores envolvidos.

Undertaker tomo 3, L'Ogre de Sutter Camp, continua esta BD de estilo western produzida em França (nunca consegui perceber o fascínio dos franceses por esta mitologia dos EUA), pelas mãos de autores conceituados da sua praça, Xavier Dorison e Ralph Meyer (agora também com o merecido crédito para a colorista, Caroline Delable).  Perseguimos as aventuras de Jonas Crow, agente funerário das planícies do Faroeste, que, junto com as suas duas companheiras de origem inglesa e chinesa, tem, nesta missão, a incumbência de perseguir um sofisticado serial killer avant la lettre - com as mais que necessárias ligações ao passado do protagonista. É um entretenimento descontraído (se a caça a um assassino o pode ser, claro), bem desenhado, com personagens interessantes ainda que, aqui e ali, um pouco maniqueístas. O trabalho de Meyer e Delable (desenhista e colorista) destaca-se claramente, sendo, cada um, um degrau acima em qualidade.

Atravessamos o oceano e o vazio do universo e passamos para as palavras e desenhos de Brian K. Vaughan e Fiona Staples, respectivamente, no já incontornável Saga, volume 7. Dizer que esta BD é um vício é ser demasiado brando. A sagacidade, inteligência e imaginação com que os dois autores presenteiam cada novo tomo é desconcertante. Desta vez, Hazel, a narradora desde o primeiro capítulo, filha primogénita, fica ilhada num cometa errante junto com a sua muito disfuncional família. Cheio de sexualidade adulta e, por vezes, desconcertante, de eventos catastróficos, de personagens destrutivos e complexos, tudo marcas e estilos de Saga, a história deste sétimo volume não se afasta (e ainda bem) da "fórmula". Existe espaço para tudo isto e, mais uma vez, para avanços trágicos nas vidas dos muitos protagonistas.

Por último, viajamos no tempo e quase para os antípodas: Japão da década de 70 e para o trabalho do mestre do terror do mangá, Kazuo Umezo. Depois da leitura dos maravilhosos La Maison Aux Insectes ou La Femme Serpent, era urgente passar para uma das  suas mais conhecidas obras, este opus de nome Drifting Classroom. O conceito é deliciosamente terror-pop: uma escola é transportada para um mundo desolado e inóspito, onde trevas escondem um horizonte de planícies sem vida - pergunto-me se alguns autores de terror da década de 80 nos EUA não terão lido Umezo. O toque do mangáka serpenteia por um horror sem desculpas, com vítimas e monstros a aparecerem do lado quer das crianças, quer dos adultos. Ninguém é jovem ou simpático demais para fugir à implacável foice do terror de Umezo, e aí reside o fascínio (se é isso que o poderemos chamar) de quem lê as suas histórias. Regredimos ao estado de terror larval, umbilical, de impotência infantil. Sem duvida, um dos grandes.

O que vou lendo! La Femme Serpent de Kazuo Umezo

La Femme Serpent é o terceiro livro do histórico mangaka Kazuo Umezo editado pela Lézard Noir. Antecedeu-lhe La Maison aux Insectes e Le Voeu Maudit, obras dentro da mesma linha a que o autor habituou os leitores: o Terror. Umezo é um lendário autor nipónico de Mangá, as suas obras tendo marcado uma ampla geração de leitores com tenebrosos e retorcidos contos, ao ponto das introduções destas três edições francesas serem escritas por romancistas, editores de Mangá e realizadores de Cinema japoneses. Parece não existir escapatória (em mais sentidos do que um) às infâncias marcadas pelas histórias do autor, cada um dos "introdutores" sentindo necessidade de relatar as emoções violentas e os sonhos roubados por Umezo. Ou melhor, os pesadelos gerados.

Os ocidentais tiveram o seu primeiro grande contacto com o terror de marca japonesa em filmes como Ring  e Ju-On, leituras de vingança e de apropriação de espaços familiares para extrapolar cenários de horror verdadeiramente atemorizante. Neste filmes estamos perante figuras que, de alguma forma, haviam feito parte do reino dos mortais mas que, por alguma razão sobrenatural, assombravam agora o mundo dos vivos. Um envolvia uma mulher de longos cabelos negros que materializava-se numa cassete de VHS que passava de mão em mão. Outro era a figura de um rapazinho que assombrava numa casa aconchegadoramente suburbana.

La Femme Serpent é um pouco como Ring, em que o "monstro" é uma mulher, também ela de longos cabelos negros e hábito japonês, mas que, ao contrário deste, habita o mundo dos vivos. O nome, Mulher-Serpente, indica claramente do que se trata, e este é, ao contrário dos dois primeiros volumes da Lezard Noir, um único conto de cerca de 300 páginas que envolve a titular personagem e a perseguição que enceta a jovens raparigas pré-adolescentes. O monstro já havia aparecido em Le Voeu Maudit, mas aqui assume protagonismo e destaque. Nesta obra, o autor escolhe cingir-se a personagens femininos, focando, uma vez mais, o terreno das relações filiais entre personagens. Esta mania de Umezo, ao evocar, no caso de La Femme Serpent, a relação entre mães e filhas, avós e netas, coloca-nos imediatamente num terreno justificadamente assustador. Ao escolher as roupagens da segurança, neste caso a da família, o mangaka coloca-nos numa posição de desconforto, o que contribuiu para  a intensificação das situações de horror, mesmo daquelas que poderiam ser, à partida, apenas para entretenimento. Como diz Hitomi Kanehara na introdução, Umezo entretém e atemoriza em igual medida. 

O desenho, o estilo de desconstrução da história, a mise en scéne, contribuem para contos atmosféricos de Terror que, apesar do meio, o da BD, não diminui o impacto das sombras que o autor procura construir. Do lado da história Umezo também se excede, construindo camadas e acabando onde começou, entrando de forma decidida em alguns dos cânones do Horror: nada acaba; não existe escapatória possível; as forças do Mal serão incansáveis na perseguição; não existe lugar seguro, nem na família, nem em casa, nem no Tempo.

O que vou lendo! La Maison aux Insectes de Kazuo Umezo


Cunho um termo: terror do impossível. Existe um espaço entre a realidade e o ininteligível, um não-local de desconhecido significado e, por isso, atemorizante. Como se o que se desenrola à nossa frente, ao mesmo tempo existisse e não existisse no campo do explicável. Um tempo e um espaço de leis da física que sabemos serem impossíveis mas que (mesmo assim) acontecem. Uma faca sangrar para o tecto é uma impossibilidade. Uma mulher dar à luz a uma cabeça é demente. Mas acontecem de forma real e verdadeira. Apesar de parecerem saídos do impossível, os maiores terrores advêm do facto de sabermos que são reais. Com as tais leis próprias. É neste tênue corporizar de um fantasma da realidade que a vemos, por breves instantes, tal como ela é. Esta é a diferença entre o terror que apenas nos "diverte" e um outro mais profundo, porque descortina temores primais. Não são necessários monstros disformes, grotescas criaturas de massa bolorenta que copulam nos nossos sonhos. Basta um casal que se odeia de forma intangível ou que se ama em plenitude. Bastam esses casais e uma leve incursão do inimaginável que sublinha o ódio e o amor. 

Kazuo Umezo é um dos mestres do Mangá de horror mas aconchegá-lo nesse nicho é um pecado. Isto se tivermos em conta este brilhante, comovente e atemorizante La Maison des Insectes. O que escrevi no parágrafo acima tenta encapsular de forma falha e incompleta o brilhantismo da escrita e do desenho deste mestre. Muitas dessas sensações bóiam na superfície do inteligível, pequenas bolhas e pérolas que fogem se não nos concentramos em agarrá-las. Mas estão lá. Sublinhadas.

O terror de Umezo não é o da criatura ou do suspense, da espera, do horror e do desmembramento. Não é do sangue. É pior que tudo isso. É o terror do pessoal, do tão profundo e perene quanto a alma. Cada conto deste volume (e, graças a deus, são vários) fala de relações: entre casais, na maior parte. Sobre caminhos que podem ser tomados ou evitados, como linhas de destino. Sobre a infidelidade (dos homens), um tema negro que paira sobre cada linha de escrita e de desenho das diferentes histórias. A fantasia do horror, ou melhor, a irrealidade do horror, existe e de forma clara mas nunca como o elemento principal, apenas como forma de levar a moral, se ela existe, a bom porto. Sem dúvida, uma das grandes, grandes, grandes BD's que tive a sorte de ler em 2016. Imperdível!