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Battle Angel Alita de Robert Rodriguez

Battle Angel Alita, Gunnm no original japonês, é um dos meus mangás favoritos. O primeiro contacto com estes livros aconteceu há duas décadas e meia, em volumes publicados pela editora francesa Glénat. Recentemente, em modo de preparação para este filme, reli o primeiro grande arco de história da epopeia de Alita. A qualidade permaneceu inalterada e provou-me que Yukito Kishiro, o autor, tinha em mãos uma obra intemporal (leiam aqui o que achei desta releitura). 

E o que dizer do filme?

Uzumaki de Junji Ito - Viz

O terror é um dos géneros que, ao contrário do senso comum, mais variações assume. Nem todo ele é gore. Nem todo ele é psicológico. Pode surgir de um elemento do dia-a-dia ou da grandiosidade solitária e silenciosa do espaço sideral. 

Monster de Naoki Urasawa vols. 1 a 9 - Viz

Existe preconceito em relação ao Mangá, a Banda Desenhada japonesa. Advém, por exemplo, dos desenhos animados (Anime, na verdade) que víamos quando éramos crianças. "São aqueles dos bonecos que são todos iguais, os dos olhos grandes, não é?!" é uma pergunta repetida mais vezes do que seria desejável. Quem lê este tipo de BD sabe que, ao longo de mais de meio século de existência, criaram-se livros extraordinários. Um deles é este que aqui vos venho falar: Monster de Naoki Urasawa, publicado em nove volumes de capa mole, edição de luxo, pela editora dos EUA Viz.

Gunnm, aka Battle Angel Alita de Yukito Kishiro vol.1 a 9


Recentemente a internet recebeu o teaser trailer de um novo projecto do produtor James Cameron e do realizador Robert Rodriguez: Battle Angel Alita, a estrear em 2018. Há cerca de 20 anos que esperava-se por este filme. Cameron anunciou a compra dos direitos da Mangá há quase duas décadas e esperava-se a sua concretização. 

Antes de passarem ao grande ecrã aconselho a leitura do mangá de Yukito Kishiro e principalmente dos nove volumes que contam uma 1.ª temporada da vida da personagem principal. Nove volumes compõem a publicação original mas, hoje em dia, são difíceis de encontrar. Aconselho antes a versão deluxe que está a ser publicada pela Kodansha America. Terá menos volumes, porque compila dois em um, e podem encontrar o primeiro aqui.

A publicação de Gunnm (o nome original) começou em 1990 e chegou às minhas mãos em 1995 pela editora francesa Glénat. Recentemente decidi reler os primeiros nove volumes - a série continua mas a história de Alita (Gally em francês) é fechada na perfeição nestes. Se existe algo que possa dizer-se acerca é que os tempos correm atrás da visão do autor. A série não envelheceu um dia e é assustadoramente profética. Uma espécie de Black Mirror antes de se pensar em internet ou smartphones. Num mundo onde começam a aparecer ciborgues (vejam aqui) a história de Alita descreve um futuro repleto de complexas questões morais. O que nos faz humanos? O que nos torna diferentes da tecnologia que estamos a criar? É essa sequer a pergunta, já que a evolução do nosso corpo é inevitável? Será este o advento do Homo Sapiens Tecnológico?

O tempo de Gunnm é um futuro pós-apocaliptico. A geografia é indeterminada mas centrada em dois pontos: uma cidade flutuante de nome Zalem, sonho dos que vivem em baixo, numa cidade de lata, onde os dejectos dos escolhidos são deitado como lixo. Aqui vivem vários humanos e robôs. Os humanos são agora ciborgues, fruto de sucessivas manipulações e melhorias para os transformar em melhores guerreiros, melhores desportistas. Melhores! Permanece o cérebro, o seu "penso, logo existo", mas a carne foi substituída, total ou parcialmente. Neste mundo, um cientista descobre o corpo destroçado de uma ciborgue e reconstrói-o. É Alita, uma jovem com um passado do qual não se lembra. Depressa descobre capacidades guerreiras inigualáveis e uma alma inquisitiva, que a levarão a diferentes pontos deste mundo desolado e ultra-violento.

Escrito e desenhado por Yukito Kishiro, é uma obra essencial para os apreciadores de BD e do sub-género cyberpunk, do qual é dos maiores representantes, ao lado de outros como Ghost in the Shell. Aliás, tanto Gunnm como este último bebem da mesma sensibilidade e das mesmas questões levantadas por Philip L. Dick no seminal Do Androids Dream of Electric Sheep, que inspirou o filme Blade Runner. São obras que escolhem a tecnologia para questionar o que significa estar vivo e o que significa ser humano. Se este último filme vira para o lado filosófico, Gunnm não perde essa vertente de vista mas opta por também ser uma imponente narrativa de acção. Porque planeada de forma cuidadosa, nunca perde o fulcro e o objectivo, mesmo que a vida de Alita percorra mais de 10 anos ao longo dos nove volumes. Aos poucos vamos descobrindo as várias camadas que compõe este mundo e a personalidade das várias personagens. No final, encontramos algumas respostas - mas não todas.

De acordo com Marc Attalah, professor de literatura da Universidade de Lausanne, "o autor faz parte da" geração Otomo", o autor de Akira. É uma geração que está cansada de estar sempre em contacto com a história pós-guerra do Japão, em que os idosos não se separam. Eles não viveram a guerra, eles querem distanciar-se dela. Isto é o que Gunnm mostra: Gally quer emancipar-se deste pântano. Trata-se de criar um novo homem, que usará tecnologia, hibridização tecnológica, para esses fins". E mais: "O cyberpunk americano é um género literário. No Japão, é uma relação com o mundo. Na Europa e nos EUA, o cyberpunk é interpretado como a tomada de consciência quando acontece algo de significativo com as novas tecnologias, e os problemas daí advindos. Mas para a geração Otomo, cyberpunk não é o mundo de amanhã, é aquele onde vivem estes jovens. Naquela época, a juventude japonesa era já hibrida com seu telefone". 

Gunnm é uma obra essencial de mangá cyberpunk mas também um repositório de questões actuais, neste mundo de tecnologia a avançar de forma vertiginosa ao encontro das mais escabrosas fantasias da ficção científica. É esperar que o Cinema faça jus a este livro essencial.

O que vou lendo! L'Apprentie Geisha de Kazuo Kamimura

Cada vez que leio um Mangá de Kazuo Kamimura lembro-me de um conterrâneo seu, o cineasta Kenji Mizoguchi. Ambos apresentam as mesmas obsessões. Esta partilha é tanto mais curiosa quanto melhor conhecemos a sociedade japonesa e especificamente tudo o que está relacionado com as mulheres. Os japoneses (como aliás muitos povos, inclusive o nosso) tiveram de forma continuada comportamentos misóginos. Ainda no século XX, este pendor manifestava-se de forma clara em terras nipónicas, com uma forte estratificação de papéis e posição social. Essa clausura, esse cerco, que a sociedade japonesa fazia (e faz) ao sexo feminino, foi de tal forma tema na obra de Mizoguchi que transformou-se numa assinatura autoral. Na maioria dos seus filmes, escolhia o ponto de vista feminino para contar as histórias ou, não sendo explícito nessa escolha, procurava temáticas que focassem a injustiça de que o género era alvo - quer falasse da sua contemporaneidade, quer da antiguidade (leiam o que escrevi sobre este realizador aqui). Kazuo Kamimura partilhava deste ponto de vista ou, pelo menos, assim o parecem demonstrar alguns dos seus livros e, especificamente, este Aprendiz de Gueixa (infelizmente inédito no nosso país).

Um dos temas mais queridos a Mizoguchi eram as gueixas de Kyoto, tendo dedicado alguns filmes a estas. Kamimura, neste seu livro, viaja para norte e para Tokyo, para relatar, de forma episódica, o percurso de vida de uma jovem gueixa, O-Tsuru, desde os primeiros anos como aprendiz até transformar-se numa gueixa renomada e apreciada. Ao longo de mais de 300 páginas e 14 capítulos, o autor de Mangá irá não só focar-se no percurso e manias da jovem protagonista mas também de todo um mundo à sua volta. Desde a patrona da casa de gueixas até aos homens que passam pelo seu caminho. Estes são observados do ponto de vista da jovem simultaneamente com carinho e com um olhar distante. Os comportamentos e atitudes dos homens devem ser julgados pelo peso da subjectividade histórica ou sobre um olhar mais específico, mais humano? 

Kamimura balança de forma elegante entre a sexualidade e a tristeza deste mundo, com o qual poderá ter contactado quando alugava um escritório num mesmo edifício de um conhecido bairro de gueixas em Tokyo. Esse equilíbrio é conseguido pela estrutura das histórias e pelo enredo, que estão cheios de um sabor agridoce suave e discreto mas, paradoxalmente, pungente e sublinhado. O seu traço ondulante e quase etéreo é perfeitamente  adaptado a este mundo de sexo e lágrimas, conferindo uma terrível e terrena poesia a actos sobre os quais temos dificuldade em descortinar a bondade ou maldade dos mesmos. Kamimura não procura respostas moralistas ao mundo das gueixas, deixando que as histórias e o seu traço falem por si - como qualquer contador deveria fazer. 

Kazuo Kamimura foi um mestre que abandonou-nos cedo demais (aos 45 anos). A sua obra é repleta das obsessões que constroem o trabalho autoral. Mas é no produto final, nas linhas do desenho e na escolha das palavras, que se vislumbra o génio que é imperativo conhecer. Não só um autor de Mangá obrigatório mas também de uma literatura que importa não esquecer.  

O Japão é um lugar familiar - Rapidinhas de BD




Por muito diversificados que sejam os formatos e linguagens da Banda Desenhada, a sua função é transmitir, através das suas histórias, mensagens e sentimentos universais. Tolstoy, no seu O Que É a Arte?, acreditava que a "boa arte" (as palavras são dele e não minhas) é aquela que podia ser lida e entendida por qualquer pessoa, independentemente da geografia, condição socio-económica e cultura. O que levava o escritor russo a esta conclusão era uma linha de raciocínio ampla mas simples. Tolstoy não apreciava o elitismo e o hermetismo na arte - pelo menos nos últimos anos da sua vida.  Tinha também se tornado bastante pio. Independentemente de concordarmos com o todo ou com parte do que escreveu neste ensaio, as suas palavras são poderosas e nelas reside(m) alguma(s) verdade(s): uma obra de arte é mais forte quando transmite sentimentos e mensagens que podem ser entendidos por muitos (citando um outro autor, aliás autora, que gosto, Clarice Lispector, “(...) um dos indiretos modos de entender é achar bonito.”).

Esta introdução serve para vos falar de duas obras do estilo de BD Mangá, conhecida por ser a Banda Desenhada japonesa: Chiisakobé vol. 3 e 4 de Minetarō Mochizuki e Lorsque Nous Vivions Ensemble vol. 1 de Kazuo Kamikura

Os dois volumes da primeira concluem a história que o autor Minetarō Mochizuki ofereceu-se para contar num atípico reduzido número de capítulos (atípico para a Mangá). O enredo é um simples drama familiar, de passagem de testemunho entre gerações e da busca (muito japonesa) de honra e rectidão no comportamento do dia-a-dia. É a história de um jovem, cujos pais morrem e que vê-se obrigado a tomar conta da empresa familiar de construção civil, ao mesmo  que entram na sua vida (e na sua casa) uma jovem pouco mais nova do que ele e vários órfãos abandonados e problemáticos. O que para uns poderia transformar-se numa sitcom, o autor transforma numa reflexão meditativa (perdoem o pleonasmo) de atenção aos pormenores, e sobre o respeito pelas motivações de cada um de nós. A face quase gélida e inexpressiva dos  seus protagonistas não revela a turbilhão de emoções que se passa por baixo da barreira cultural e pessoal. Sim, é uma BD passada no Japão e sobre o Japão, mas as motivações e sentimentos são brutalmente universais.

Outro romance poderoso de Tolstoy é A Sonata de Kreutzer, uma opinião crua e dura sobre o relacionamento entre homens e mulheres. Lorsque Nous Vivions Ensemble parece ser o seu herdeiro espiritual. Conta-nos de uma relação entre dois jovens nos seus vinte anos, no Japão da década de 70. Acompanhamos episódios do seu dia-a-dia enquanto habituam-se à vida em comum num apartamento alugado (eles não são casados). A maioria dos capítulos centram-se no ponto de vista da jovem mulher, o que revela desde logo uma inversão de paradigma que faz lembrar os filmes de um dos maiores mestres da 7.ª Arte: Kenji Mizoguchi (também ele amante de Tolstoy). A relação entre ambos oscila entre momentos de paixão carnal e de conflito emocional aberto, uma tempestade que agiganta o oceano. Existem também episódios de ternura fugidia que muitas vezes culminam em novos confrontos verbais. Claro está que tudo parece visceralmente familiar e próximo, como todas as grandes obras de arte deveriam ser - ou pelo menos para aqueles que concordam com a opinião de Tolstoy.

Duas obras sobre um mesmo tema, o relacionamento entre homens e mulheres, com perspectivas bastante diferentes, vindas de um mesmo país. Ambas poderosas e, claro, universais. 

O que vou lendo! Le Club des Divorcés, vol. 2 de Kazuo Kamimura

Este segundo volume do Le Club des Divorcés de Kazuo Kamimura fecha a história iniciada no primeiro tomo (leia aqui), recital da vida de uma jovem mulher de 25 anos, Yuko, divorciada, dona de um bar de alterne no bairro de Ginza, Tóquio, durante a década de 70. Esta obra, publicada em França pela editora Kana, permanece inédita em Portugal. É o espelho de uma época e de uma civilização pelos olhos de uma mulher numa sociedade fortemente machista como o é a japonesa.

Para tentar perceber o impacto de um livro chamado O Clube das Divorciadas teremos de ter noção de algumas questões relativas à cultura japonesa e ao peso da palavra "divorciada" na sua sociedade. Até o século XIX, o divórcio não era aceite no Japão, com consequências muito mais negativas para a mulher. Veja-se, por exemplo, o filme Os Amantes Crucificados de Kenji Mizoguchi (em exibição num ciclo deste realizador no Nimas), onde, (spoiler do filme) tanto homem como mulher praticam o adultério, mas enquanto ele é apenas destituído dos seus bens (não pelo facto de ter amante) ela é crucificada junto com o seu amante. Depois de 300 anos do período Edo, onde o Japão esteve sob o jugo de um shogunato ditatorial, serão necessárias gerações e vincadas cisões civilizacionais para vencer tiques societais.

Kazuo Kamimura relata-nos a história desta jovem mulher em pequenos episódios, enquanto tenta adaptar-se a esta vida, vencer o lado social e emocional do divórcio e contornar os muitos amores que desperta. Cada um dos contos é narrado com a leveza de uma bafo de cigarro na noite fria de Inverno, os sentimentos e os gestos mais subentendidos que declarados, espelhando não só a sensibilidade do autor mas, acima de tudo, a sua herança cultural.

Kamimura (que também aparece na história a frequentar o clube da protagonista)  enceta um manifesto feminista engajado, escrito e desenhado com a subtileza dos jardins invernais nipónicos e que permanece relevante mesmo que volvidos 40 anos desde que foi feito. Leitura essencial!

O que vou lendo! Le Club des Divorcés vol. 1 de Kazuo Kamimura

Kazuo Kamimura, autor de Mangá da década de 70, foi presenteado este ano com uma exposição e homenagem no indispensável festival de BD de Angoulême,  dando a conhecer a obra impar e autoral deste artista. Hedonista e bon-vivant, Kamimura viveu muito e morreu cedo (aos 47 anos) deixando, contudo, um legado único no panorama da 9.ª Arte, dentro e fora das fronteiras do Japão. A sua obra mais conhecida, Lady Snowblood, é uma parceria com Kazuo Koike, o mesmo do essencial Lone Wolf and Cub, tendo sido mesmo objecto de adaptação ao cinema. Ainda que não tenha lido Lady Snowblood, Le Club Des Divorcés está longe da temática medieval, samurai e de acção deste mas não deixa de partilhar algo do DNA: uma protagonista feminina. Este dado aparentemente inocente não deixa de ser relevante no contexto da época e da cultura japonesa.

Le Club Des Divorcés relata-nos a vida de uma mulher divorciada em Tóquio da década de 70, que decide vencer as dificuldades financeiras que essa situação acarreta abrindo um bar de acompanhantes e prostituição no famoso bairro de Ginza.  O ponto de vista da narrativa cinge-se exclusivamente à protagonista, centrando-se na opção de vida e nas consequências que a mesma tem para o seu quotidiano e para aqueles que dependem dela. Yuko é uma mulher complexa numa sociedade profundamente machista, onde o divórcio é visto de forma fracturante. Apenas com 25 anos, tendo ao cargo uma filha que tem de deixar ao cuidado da mãe, vale-se da beleza e experiência para seduzir homens, quer para o trabalho, quer para a vida pessoal. Nesse delicado equilíbrio entre uma e outra esfera, Yuko revela-se complexa nas falhas, uma espécie de predador benévolo que tem total conhecimento da sua ferocidade e poder.  Nem sempre esse poder ela consegue levar a um bom porto, acossada pelas exigências de mãe, pelas exigências de ser patrona do Clube e, principalmente, pela busca frenética e amedrontada que enceta de modo a vencer a sua solidão presente e principalmente a futura.

Kamimura exibe um delicado equilíbrio e sensibilidade , construindo em Yuko uma personagem exigente ao estilo de uma Madame Bovary  ou mesmo Anna Karenina. Esta é uma mulher que tem que vencer num mundo de homens e para homens, dona e vitima da sua beleza, como muitos dos grandes personagens femininos clássicos (nisso, também eles um pouco machistas).  O autor é dono de silêncios reveladores e de uma narrativa escorreita que obriga à atenção do pormenor, em sequências de eloquência cinematográfica. Sem duvida uma obra única e obrigatória. 

O que vou lendo! La Femme Serpent de Kazuo Umezo

La Femme Serpent é o terceiro livro do histórico mangaka Kazuo Umezo editado pela Lézard Noir. Antecedeu-lhe La Maison aux Insectes e Le Voeu Maudit, obras dentro da mesma linha a que o autor habituou os leitores: o Terror. Umezo é um lendário autor nipónico de Mangá, as suas obras tendo marcado uma ampla geração de leitores com tenebrosos e retorcidos contos, ao ponto das introduções destas três edições francesas serem escritas por romancistas, editores de Mangá e realizadores de Cinema japoneses. Parece não existir escapatória (em mais sentidos do que um) às infâncias marcadas pelas histórias do autor, cada um dos "introdutores" sentindo necessidade de relatar as emoções violentas e os sonhos roubados por Umezo. Ou melhor, os pesadelos gerados.

Os ocidentais tiveram o seu primeiro grande contacto com o terror de marca japonesa em filmes como Ring  e Ju-On, leituras de vingança e de apropriação de espaços familiares para extrapolar cenários de horror verdadeiramente atemorizante. Neste filmes estamos perante figuras que, de alguma forma, haviam feito parte do reino dos mortais mas que, por alguma razão sobrenatural, assombravam agora o mundo dos vivos. Um envolvia uma mulher de longos cabelos negros que materializava-se numa cassete de VHS que passava de mão em mão. Outro era a figura de um rapazinho que assombrava numa casa aconchegadoramente suburbana.

La Femme Serpent é um pouco como Ring, em que o "monstro" é uma mulher, também ela de longos cabelos negros e hábito japonês, mas que, ao contrário deste, habita o mundo dos vivos. O nome, Mulher-Serpente, indica claramente do que se trata, e este é, ao contrário dos dois primeiros volumes da Lezard Noir, um único conto de cerca de 300 páginas que envolve a titular personagem e a perseguição que enceta a jovens raparigas pré-adolescentes. O monstro já havia aparecido em Le Voeu Maudit, mas aqui assume protagonismo e destaque. Nesta obra, o autor escolhe cingir-se a personagens femininos, focando, uma vez mais, o terreno das relações filiais entre personagens. Esta mania de Umezo, ao evocar, no caso de La Femme Serpent, a relação entre mães e filhas, avós e netas, coloca-nos imediatamente num terreno justificadamente assustador. Ao escolher as roupagens da segurança, neste caso a da família, o mangaka coloca-nos numa posição de desconforto, o que contribuiu para  a intensificação das situações de horror, mesmo daquelas que poderiam ser, à partida, apenas para entretenimento. Como diz Hitomi Kanehara na introdução, Umezo entretém e atemoriza em igual medida. 

O desenho, o estilo de desconstrução da história, a mise en scéne, contribuem para contos atmosféricos de Terror que, apesar do meio, o da BD, não diminui o impacto das sombras que o autor procura construir. Do lado da história Umezo também se excede, construindo camadas e acabando onde começou, entrando de forma decidida em alguns dos cânones do Horror: nada acaba; não existe escapatória possível; as forças do Mal serão incansáveis na perseguição; não existe lugar seguro, nem na família, nem em casa, nem no Tempo.

O que vou lendo! Chiisakobé Vol.1 e 2 de Minerato Mochizuki


Existem sensações que são-nos mais aconchegantes do que outras. São parte do sangue e arrepiam a pele. Tem a ver connosco, com a nossa personalidade, misturada aos anos e aos segundos de vida. O Japão é uma ilha que deu origem a uma civilização com modos de estar e pensar algo diferentes de muitos países no mundo. O seu isolacionismo geográfico levou, durante largos períodos de tempo na História, a um isolacionismo cultural. Quando abriram-se ao mundo, o que aconteceu de forma mais clara no pós-Segunda Guerra Mundial, não deixaram de absorver partes dele mas de uma forma sua. O Mangá, a Banda Desenhada japonesa, nasce também por influência dos Comics dos EUA mas temperada pela cultura, linguagem, alfabeto de dentro das suas fronteiras. O Cinema teve um percurso semelhante. Estas duas artes, ambas produto do século XX, encontram na cultura do Japão uma das formas mais interessantes de miscigenação. O Mangá chama para a sua linguagem o movimento e o tempo do Cinema, mas ambos devem também muito ao modo como os japoneses vêem e experimentam o mundo à sua volta. Existe observação e reflexão na forma como vivem o passar dos segundos, existe conflito entre o moderno e o tradicional, entre a tecnologia e o artesanal, existe uma constante dicotomia que, contudo, e ao contrário de nós latinos, não é resolvida de forma exuberante. Provavelmente será por serem tão diferentes que atraem-me tanto.

Chiisakobé de Minerato Mochizuki é um Mangá inspirado num romance de 1957 de Shûgorô Yamamoto, cuja acção decorria no período Edo e que o mangaka transporta para os dias de hoje. É a história de um jovem arquitecto que perde os pais e que terá de tomar as rédeas da empresa de construção civil dos dois, ao mesmo tempo que se vê compelido a albergar uma jovem de 20 anos em sua casa e um grupo de cinco órfãos problemáticos. À semelhança do que acontece com outro autor japonês, Taniguchi, esta BD escolhe uma perspectiva mais pessoal e cultural na forma como aborda o enredo. O tempo dos personagens e, por influência, dos leitores, é de outra velocidade e convida à observação das páginas e da forma como Mochizuki  escolhe para contar esta história. O autor não tem pressa e não revela, por palavras, muito do que acontece. A perspectiva da sua câmara é, também ela, curiosa, preferindo, em muitos dos diálogos, focar-se em partes do corpo que, à partida, pareceriam estranhos: as pernas; os pés; o tronco. Ao afastar-se do rosto e preferir partes menos emocionais da fisionomia humana, provoca uma quebra no diálogo tradicional que o leitor tem com a BD. Será este um reflexo da história? Do autor? Ou da cultura japonesa onde as emoções são culturalmente contidas? Continuando a esticar esta análise, nunca vemos o rosto do protagonista na medida em que este está coberto por uma longa barba. E também não podemos deixar de reflectir sobre esta contenção emocional quando o pai de um dos personagens tem uma forma nada saudável de observação da filha e do seu corpo.

A história ela própria é, na sua essência, nipónica. A necessidade de perpetuar o legado dos pais, do país, enquanto defronta-se com as soluções que o mundo moderno tem para oferecer. Ao mesmo tempo, nesta luta pela continuação da herança dos progenitores,  procura o caminho honrado, sem depender da comunidade que, contudo, o tenta ajudar de uma forma, que para muitos de nós, mais cínicos, poderia parecer falsa.

Não deixa de ser curioso, e não conhecendo o romance original, que uma cultura possa ainda ser tão bem caracterizada através de uma história que originalmente ocorreu no período Edo (1603 - 1868), um período que formou muito da cultura deste país e que é caracterizado por um profundo isolacionismo em relação ao resto do mundo e por uma severidade moral e judicial ditatoriais. O autor não o terá feito de forma descabida. 

Estes são os dois primeiros volumes de uma obra de quatro. Venceu este ano no Festival de BD de Angoulême o Fauve Prix de la Série e é uma das provas de que o mangá é uma das mais estimulantes formas narrativas actualmente em publicação. 

O que vou lendo! La Maison aux Insectes de Kazuo Umezo


Cunho um termo: terror do impossível. Existe um espaço entre a realidade e o ininteligível, um não-local de desconhecido significado e, por isso, atemorizante. Como se o que se desenrola à nossa frente, ao mesmo tempo existisse e não existisse no campo do explicável. Um tempo e um espaço de leis da física que sabemos serem impossíveis mas que (mesmo assim) acontecem. Uma faca sangrar para o tecto é uma impossibilidade. Uma mulher dar à luz a uma cabeça é demente. Mas acontecem de forma real e verdadeira. Apesar de parecerem saídos do impossível, os maiores terrores advêm do facto de sabermos que são reais. Com as tais leis próprias. É neste tênue corporizar de um fantasma da realidade que a vemos, por breves instantes, tal como ela é. Esta é a diferença entre o terror que apenas nos "diverte" e um outro mais profundo, porque descortina temores primais. Não são necessários monstros disformes, grotescas criaturas de massa bolorenta que copulam nos nossos sonhos. Basta um casal que se odeia de forma intangível ou que se ama em plenitude. Bastam esses casais e uma leve incursão do inimaginável que sublinha o ódio e o amor. 

Kazuo Umezo é um dos mestres do Mangá de horror mas aconchegá-lo nesse nicho é um pecado. Isto se tivermos em conta este brilhante, comovente e atemorizante La Maison des Insectes. O que escrevi no parágrafo acima tenta encapsular de forma falha e incompleta o brilhantismo da escrita e do desenho deste mestre. Muitas dessas sensações bóiam na superfície do inteligível, pequenas bolhas e pérolas que fogem se não nos concentramos em agarrá-las. Mas estão lá. Sublinhadas.

O terror de Umezo não é o da criatura ou do suspense, da espera, do horror e do desmembramento. Não é do sangue. É pior que tudo isso. É o terror do pessoal, do tão profundo e perene quanto a alma. Cada conto deste volume (e, graças a deus, são vários) fala de relações: entre casais, na maior parte. Sobre caminhos que podem ser tomados ou evitados, como linhas de destino. Sobre a infidelidade (dos homens), um tema negro que paira sobre cada linha de escrita e de desenho das diferentes histórias. A fantasia do horror, ou melhor, a irrealidade do horror, existe e de forma clara mas nunca como o elemento principal, apenas como forma de levar a moral, se ela existe, a bom porto. Sem dúvida, uma das grandes, grandes, grandes BD's que tive a sorte de ler em 2016. Imperdível!

Banda Desenhada. Porque vale a pena ler e ler e ler...

Oishinbo - O prazer da Gastronomia

Mangá (BD japonesa) tem um conjunto de características muito suas e que a distinguem do resto do panorama da 9.ª Arte. Obviamente que se trata da Banda Desenhada dos homens e mulheres de olhos grandes, das caras sempre iguais. Mas estas são apenas diferenças estéticas e que podem afastar o mais causal dos leitores do essencial da questão, ou seja, da riqueza de temas e da sofisticação das abordagens.

Obviamente que existem temas que não interessam tanto assim e nem todas as abordagens são rebuscadas, mas no caso específico de Oishinbo posso arriscar dizer que o tema é interessante e a sofisticação inextinguível. Isto porque é escalpelizada a milenar cultura gastronómica japonesa, através de personagens suficientemente elaboradas para nos arrastar para além da narrativa expositora e exploratória.

Esta Mangá, escrita por Tetsu Kariya e desenhada por Akira Hanasaki, começou a ser publicada em 1983 e continua até hoje (após uma breve interrupção em 2008), tornando-se numa das mais apreciadas do género na terra do Sol Nascente. Vendeu cerca de 100 milhões de exemplares e, recentemente, começou a ser publicada nos EUA pela editora Viz Comics.

O nome da BD combina a palavra oishii, que significa “delicioso”, com kuishinbo, ou seja, alguém que adora comer, e retrata a história do repórter Shirō Yamaoka, que se envolve numa competição com um outro jornal japonês para a elaboração do “Menu Derradeiro”. Esta competição – e tal como é típico na cultura japonesa, do outro lado da trincheira está o Pai, austero e rigoroso – vai arrastá-lo pela riqueza da cultura gastronómica do Japão, a ponto de nos deixar com a certeza que este povo está munido de uma sofisticação extraordinária na arte do paladar que rivaliza com qualquer outra civilização milenar. Esqueçam o sushi e o sashimi. Esse é apenas uma pequena parte do cardápio.

A edição americana escolheu acompanhar a história não de uma forma cronológica mas antes de ingredientes/pratos. Existe um volume para sushi/sashimi, outro para vegetais, outro para arroz, etc. O que se perde em coerência narrativa ganha-se em riqueza e concentração de informação.

A qualidade é impar e o interesse que provoca no leitor é inversamente proporcional à atenção que se gera quando se ouve falar de que se vai ler de uma BD sobre “comida”. Acreditem, vale mesmo a pena. Primeiro estranha-se, depois entranha-se.