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Battle Angel Alita de Robert Rodriguez

Battle Angel Alita, Gunnm no original japonês, é um dos meus mangás favoritos. O primeiro contacto com estes livros aconteceu há duas décadas e meia, em volumes publicados pela editora francesa Glénat. Recentemente, em modo de preparação para este filme, reli o primeiro grande arco de história da epopeia de Alita. A qualidade permaneceu inalterada e provou-me que Yukito Kishiro, o autor, tinha em mãos uma obra intemporal (leiam aqui o que achei desta releitura). 

E o que dizer do filme?

Filmes favoritos baseados em BDs (parte 2 de 2)

Vejam a primeira parte desta lista aqui.

Esta é uma lista pessoal, como não poderia deixar de ser. Misturam-se inclinações, preferências, uma pitada de coração, algum cérebro e, acima de tudo, a vontade de os querer rever sempre. Seguem em baixo, por ordem alfabética.

Podem consultar aqui uma lista de todos os filmes, passados e futuros, baseados em BD. Escusado será dizer que vi apenas uma pequena parcela deles.

Man of Steel de Zack Snyder (2013)

Tinham passados apenas sete anos desde o mal-fadado Superman Returns de Bryan Singer, quando o também odiado Zack Snyder decide revisitar a mitologia do Homem de Aço.

Gunnm, aka Battle Angel Alita de Yukito Kishiro vol.1 a 9


Recentemente a internet recebeu o teaser trailer de um novo projecto do produtor James Cameron e do realizador Robert Rodriguez: Battle Angel Alita, a estrear em 2018. Há cerca de 20 anos que esperava-se por este filme. Cameron anunciou a compra dos direitos da Mangá há quase duas décadas e esperava-se a sua concretização. 

Antes de passarem ao grande ecrã aconselho a leitura do mangá de Yukito Kishiro e principalmente dos nove volumes que contam uma 1.ª temporada da vida da personagem principal. Nove volumes compõem a publicação original mas, hoje em dia, são difíceis de encontrar. Aconselho antes a versão deluxe que está a ser publicada pela Kodansha America. Terá menos volumes, porque compila dois em um, e podem encontrar o primeiro aqui.

A publicação de Gunnm (o nome original) começou em 1990 e chegou às minhas mãos em 1995 pela editora francesa Glénat. Recentemente decidi reler os primeiros nove volumes - a série continua mas a história de Alita (Gally em francês) é fechada na perfeição nestes. Se existe algo que possa dizer-se acerca é que os tempos correm atrás da visão do autor. A série não envelheceu um dia e é assustadoramente profética. Uma espécie de Black Mirror antes de se pensar em internet ou smartphones. Num mundo onde começam a aparecer ciborgues (vejam aqui) a história de Alita descreve um futuro repleto de complexas questões morais. O que nos faz humanos? O que nos torna diferentes da tecnologia que estamos a criar? É essa sequer a pergunta, já que a evolução do nosso corpo é inevitável? Será este o advento do Homo Sapiens Tecnológico?

O tempo de Gunnm é um futuro pós-apocaliptico. A geografia é indeterminada mas centrada em dois pontos: uma cidade flutuante de nome Zalem, sonho dos que vivem em baixo, numa cidade de lata, onde os dejectos dos escolhidos são deitado como lixo. Aqui vivem vários humanos e robôs. Os humanos são agora ciborgues, fruto de sucessivas manipulações e melhorias para os transformar em melhores guerreiros, melhores desportistas. Melhores! Permanece o cérebro, o seu "penso, logo existo", mas a carne foi substituída, total ou parcialmente. Neste mundo, um cientista descobre o corpo destroçado de uma ciborgue e reconstrói-o. É Alita, uma jovem com um passado do qual não se lembra. Depressa descobre capacidades guerreiras inigualáveis e uma alma inquisitiva, que a levarão a diferentes pontos deste mundo desolado e ultra-violento.

Escrito e desenhado por Yukito Kishiro, é uma obra essencial para os apreciadores de BD e do sub-género cyberpunk, do qual é dos maiores representantes, ao lado de outros como Ghost in the Shell. Aliás, tanto Gunnm como este último bebem da mesma sensibilidade e das mesmas questões levantadas por Philip L. Dick no seminal Do Androids Dream of Electric Sheep, que inspirou o filme Blade Runner. São obras que escolhem a tecnologia para questionar o que significa estar vivo e o que significa ser humano. Se este último filme vira para o lado filosófico, Gunnm não perde essa vertente de vista mas opta por também ser uma imponente narrativa de acção. Porque planeada de forma cuidadosa, nunca perde o fulcro e o objectivo, mesmo que a vida de Alita percorra mais de 10 anos ao longo dos nove volumes. Aos poucos vamos descobrindo as várias camadas que compõe este mundo e a personalidade das várias personagens. No final, encontramos algumas respostas - mas não todas.

De acordo com Marc Attalah, professor de literatura da Universidade de Lausanne, "o autor faz parte da" geração Otomo", o autor de Akira. É uma geração que está cansada de estar sempre em contacto com a história pós-guerra do Japão, em que os idosos não se separam. Eles não viveram a guerra, eles querem distanciar-se dela. Isto é o que Gunnm mostra: Gally quer emancipar-se deste pântano. Trata-se de criar um novo homem, que usará tecnologia, hibridização tecnológica, para esses fins". E mais: "O cyberpunk americano é um género literário. No Japão, é uma relação com o mundo. Na Europa e nos EUA, o cyberpunk é interpretado como a tomada de consciência quando acontece algo de significativo com as novas tecnologias, e os problemas daí advindos. Mas para a geração Otomo, cyberpunk não é o mundo de amanhã, é aquele onde vivem estes jovens. Naquela época, a juventude japonesa era já hibrida com seu telefone". 

Gunnm é uma obra essencial de mangá cyberpunk mas também um repositório de questões actuais, neste mundo de tecnologia a avançar de forma vertiginosa ao encontro das mais escabrosas fantasias da ficção científica. É esperar que o Cinema faça jus a este livro essencial.

Sin City, A Dame to Kill For de Robert Rodriguez e Frank Miller

Frank Miller e Alan Moore são dois nomes que os fãs de BD bem conhecem. Ambos revolucionaram a 9.ª Arte dos EUA por volta do ano de 1986. O primeiro com The Dark Knight Returns e o segundo com Watchmen. Ambos prosseguiram as suas carreiras de forma profícua, ambos continuaram a criar caminhos que outros autores de BD seguiriam. Frank Miller, especificamente, criaria duas obras que, neste século XXI, seriam alvo de adaptações para o Cinema, quando a Banda Desenhada começou a ser uma das maiores fontes de inspiração para o grande ecrã. Uma, 300, o relato estilizado da Batalha das Termópilas, foi acalentado mundialmente em 2006. A outra, Sin City, abria em 2005 o espaço para a reverência ao autor de BD. Pela primeira vez, os quadradinhos da obra serviam como inspiração direta para os enquadramentos da objectiva do realizador. Os diálogos eram retirados dos balões, as palavras respeitadas à letra, como se de uma peça de teatro se tratasse.  Passados quase 10 anos, Rodriguez e Miller voltam à cidade do pecado, com muitos dos mesmos actores, para adaptar o livro A Dame to Kill For.

Foi este um bom regresso? Sim e não. Claro que boa parte do efeito de novidade desaparece mas quando o filme permanece fiel às palavras e - principalmente - ao ambiente criado pelo autor de BD as coisas vão correndo pelo melhor. O problema  é quando isso não acontece. Ao contrário do filme anterior são criadas novas histórias para este novo esforço, uma que consegue beber às intenções do autor, outra que resulta muito pouco já que foge à "fórmula". A principal, aquela que bebe directamente à BD, essa resulta da mesma forma que no filme original, os atores entregando as palavras ao melhor estilo noir hiperbolizado que tanto fez as delicias de quem leu Sin City pela primeira vez nos idos da década de 90. Eva Green é maravilhosa como a titular Dame to Kill For. Josh Brolin encarna perfeitamente o anti-herói  típico de Frank Miller. E os restantes atores, os que regressam como Alba, Rourke e Dawson, basicamente sublinham aquilo que já antes tinham feito.

Os cenários, a mise en scéne e o ambiente é exactamente aquele que se espera na continuação do filme original, excepto por uma sarapintadelas de cor que parecem demasiadas. Mas é também aí que falha. Tudo parece ser mais do mesmo. O que funciona em BD, pela repetição, aqui soa a material gasto e revisitado - o famoso "been there, done that". Se, por acaso, este filme tivesse sido feito há seis anos atrás não saberia tanto a sopa requentada. Hoje, sabe a tarde demais. Ainda assim, Frank Miller não se pode queixar. As suas obras de BD, apesar deste esforço mais fraco, continuam um patamar acima das adaptações do seu contemporâneo revolucionário, Alan Moore. Enquanto que Miller ainda tem, apesar de tudo, este menos conseguido mas divertido Sin City  - A Dame to Kill For, Moore ainda se lembra de From Hell e League od Extraordinary Gentlemen.  

Parece que estamos a assistir a um final de ciclo.  Este ano os filmes de BD começaram a dar os primeiros sinais de fadiga com o segundo Homem-Aranha e este Sin City que, nos EUA, foi um gigantesco fracasso. O que o futuro trará logo se vê, mas, por enquanto, o filme baseado em BD não tem perspectivas de abrandar, tendo em conta o que aí vem nos próximos anos. Mas em 2014 fizemos a última visita à cidade do pecado.