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Mr.Turner de Mike Leigh

O biopic do pintor inglês J. M. W. Turner estava nas intenções do realizador britânico Mike Leigh à década e meia. O retratista é um dos mais conhecidos do mundo da pintura, pelo seu trabalho focado nas paisagens de cores ofuscantes, que se transformou, mais tarde na vida, num proto-impressionismo que adivinhava todas as tendências da Arte e da Pintura dos finais do século XIX e princípios do XX.  

Mike Leigh, neste filme, fez um grande esforço não só de investigação acerca da vida, maneirismos e tempos do autor, como de replicação da palete de cores das pinturas de Turner. Contudo, pouco ou nada é forçado na garganta do espectador - excepto, talvez, quando tenta reproduzir a inspiração para "The Fighting Temeraire", algo que fez recorrendo a CGI. Por outro lado, existe o extraordinário trabalho do actor que dá corpo, grunhido e andar ao pintor, Timothy Spall, tendo já sido premiado por este "esforço". Na conjugação do trabalho de realizador e actor é construído um filme que não se arrasta pelas trivialidades da biografia cinematográfica e que, no meu entender, ascende a um patamar bem diferente. Este é, para mim, um grande filme. 

Turner era aquilo a que costumamos de apelidar de "personagem". Atendendo ao trabalho deste filme, parece-nos ter sido um homem complexo a viver numa época complexa, quando o antigo começava a dar lugar ao moderno. O confronto entre o "natural" e o "humano" parecia ser um tema transversal na vida e obra do autor (morreu proferindo as palavras "Sun is God - O Sol é Deus"). Este confronto é aliás espelhado em vários momentos do filme, quer por via de episódios curiosos, quer através da leitura da sua própria obra. Uma das suas pinturas mais conhecidas, "Rain, Steam and Speed – The Great Western Railway", reflecte o fascínio e terror que lentamente se apoderava das mentes mais alertas da história - o comboio, símbolo de um novo mundo, avança, monolítico, por entre o pesado nevoeiro.  No filme, Turner fica curioso com o processo  - na altura jovem - da fotografia e decide que lhe seja tirada uma (especificamente um Daguerrotipo). Ao mesmo tempo que indaga o fotógrafo acerca da Câmara (questiona mesmo o modo de pronunciar a palavra), conclui que os dias da pintura representativa estão a acabar  - um pronuncio não só das correntes artísticas de que ele próprio era precursor como de todo o século XX tecnológico. Este é um tema recorrente em muitos autores, não só da época, como de outros que escrevem sobre ela.  Alan Moore falou do advento do século XX no seu From Hell. Tolkien lamentava a revolução da máquina no seu Senhor dos Anéis.  Parece que a Inglaterra dos finais do século XIX era palco de mentes que se deslumbravam e aterrorizavam com o nascimento da máquina, que tanto os futuristas acabariam por idolatrar.

Turner era um homem de viragem, mas alerta acerca do caminho que o Homem deveria tomar. Nada mais claro do que em Hannibal Crossing the Alps, onde escolhe focar a enormidade das montanhas e tempestade ao invés do poder do exército do conquistador.

Por isto tudo, adorei o filme.

Leólo e Miguel, estes são os meus filmes favoritos do ano - segunda parte.




E como o prometido é devido, o meu último post de 2014 é para os filmes de que mais gostei e que estrearam em Portugal neste ano.

Tal como ontem, é só clicar no título para ler o que escrevi sobre eles. Não estão por nenhuma ordem a não ser alfabética. 

Nome 
(original/português)
Realizador País de Origem
Act of Killing (Acto de matar) Joshua Oppenheimer, Christine Cynn GB/DIN/NOR
Boyhood Richard Linklater EUA
Gone Girl (Em parte incerta) David Fincher EUA
Ida Pawel Pawlikowski Polónia
Locke Steven Knight EUA/GB
Mommy (Mamã) Xavier Dolan Canadá

Leólo e Miguel, estes são os meus filmes favoritos do ano - primeira parte.


Chegou a altura de escolher, no meio de tantos e tão bons, os meus filmes favoritos do ano. Como digo sempre, este é apenas o meu gosto. Não existem aqui critérios de qualidade, apenas de prazer. Espero que fiquem com curiosidade de ver alguns, caso não os tenham visto.

Hoje coloco apenas os meus "segundos favoritos". Amanhã vão poder saber, se vos interessar, os meus "primeiros" favoritos. 

Aqui estão, por ordem alfabética. Cliquem nos nomes se quiserem ler o que escrevi.

Nome 
(original/português)
Realizador País de Origem
A Most Wanted Man (O Homem Mais Procurado) Anton Corbijn EUA/ALE/GB
Cavalo Dinheiro Pedro Costa Portugal
Fasle Kargadan (A Temporada do Rinoceronte) Bahman Ghobadi Turquia/Iraque
Grand Budapest Hotel Wes Anderson EUA
Her Spike Jonze EUA
Il Capitale Umano (O Capital Humano) Paolo Virzi Itália
Interstellar Christopher Nolan EUA
Jeune & Jolie (Jovem e Bela) François Ozon França
Omar Hany Abu-Assad Palestina
Only lovers left alive Jim Jarmush EUA
The Lunchbox (A Lancheira) Ritesh Batra EUA/ALE/FRA/Índia
Under the Skin (Debaixo da pele) Jonathan
Glazer
Grã-Bretanha
Uroki garmonii + Primária (Lições de Harmonia + Primária) Emir Baigazin ALE/Cazaquistão/FRA

Mommy de Xavier Dolan

Xavier Dolan é um homem estranho. Mais ou menos a meio do ano vi Tom à la Ferme e não gostei (tanto que nem sequer dediquei-lhe um post). Apesar desse amargo de boca, depois de ler e ouvir tantos elogios acerca deste Mamã decidi dar-lhe uma nova oportunidade - bem vistas as coisas, Dolan ainda não é, para mim, o Lars Van Trier, porque esse já me esgotou a paciência.  Ainda bem que o fiz, porque o novo filme do realizador canadiano é um dos grandes deste ano que agora acaba. Portanto... bela maneira de colocar um ponto final no cinema de 2014.

Não valerá a pena dedicar mais do que meia dúzia de linhas à genial opção de reduzir o ecrã a um quadrado. A início achei tratar-se apenas de uma aproximação do olhar aos personagens, afastando o espectador de uma visão mais "épica", mais distanciada. Lembrei-me, por exemplo, do que os escritores da sublime série de TV, The Wire, disseram quando souberam que a mesma iria ser passada para um formato 16:9, mais próximo do das actuais televisões. Não concordavam com a mudança por afastar a imagem do propósito com que haviam feito todas as cinco temporadas. O original 4:3 trazia a acção para a realidade. Achei que o mesmo se passava com Mamã mas não é apenas isso (deixo aos espectadores virgens o prazer de descobrirem mais com o filme - além de que já dediquei bem mais que meia dúzia de linhas a este assunto).

O argumento é enganadoramente simples. Começa por estipular o enredo como uma espécie de ficção científica, ao passar a acção para o futuro muito próximo do Canadá de 2015. Depois escolhe focar a titular mamã e o relacionamento com o seu problemático filho. Nada mais intemporal até nos começarmos a aperceber de pequenos vincos. Ou até entrar na narrativa uma fabulosa terceira personagem, outra mãe, que oferece um poderoso contra-peso à dupla inicial. As camadas que Dolan vai sobrepondo são apenas aparentemente triviais. No final constituem um todo que, não dando todas as repostas de bandeja, abre espaço para a interpretação. 

Raramente se vê uma simbiose tão forte entre realizador, história e actores. Este Mamã é um caso em que isso acontece. Não existem limites ou fronteiras na contribuição de cada um para a criação desse objecto tão difícil que é um filme que ultrapassa a convenção do que é apenas bom e entra, forte, no campo da obra-prima. Aparentemente não existe esforço na construção desta peça de arte mas tenho a certeza que não foi esse o caso (Dolan irrita do alto dos seus 25 anos - como é possível existir já tanta sensibilidade?). O canadiano opta por uma montagem não convencional em alguns momentos do filme mas a excepcionalidade reside exactamente no inverso. Nolan emprega conhecidas ferramentas cinematográficas como a câmara lenta, o close-up, as longas sequências com apenas imagem e música (algumas até bastante conhecidas - uma é da Celine Dion), mas de uma forma tão criteriosa e apropriada que se transformam em algo muito superior. Servem a história e não o inverso. Há substância em vez de estilo. 

Este é, sem dúvida, para mim, um dos grandes filmes que vi este ano. 

Interstellar de Christopher Nolan e Cavalo Dinheiro de Pedro Costa

Interstellar de Christopher Nolan

Desde que realizou a sua trilogia para o Batman Nolan deixou de ser o mesmo homem. Ou melhor, continua a ser capaz do melhor que o cinema tem para dar mas com meios e atores que muito dificilmente conseguiria (ainda que o seu Insomnia tivesse Pacino e o falecido Robin Williams). Hoje consegue atrair, para além de habitués como Michael Caine, nomes como McCoughaney, que nos últimos anos tem sido capaz de uma surpreendente reinvenção como ator de "qualidade". Isto tudo para servir as suas excentricidades, as suas idiossincrasias, a sua qualidade como contador de histórias. E é disso que falamos quando vemos Interstellar. Uma história surpreendente a servir mais do que apenas enredo mas também filosofia e reflexão. 

Nolan não perde o dedo de artífice de entretenimento e, ainda que este filme homenageie outros como 2001 de Kubrick (mas, claro, não lhe chega aos pés), não deixa de ser uma mescla brilhante entre cinema refectivo e de diversão. Ao contrário do que esperava pelo que ia lendo e ouvindo este filme não foi uma decepção mas antes uma revelação. Nolan faz parte de uma tendência de realizadores que conseguem misturar o auteur com o entretainer. E ainda bem para o Cinema.



Cavalo Dinheiro de Paulo Costa

De entretainer Pedro Costa, por seu lado, tem muito pouco. Já de auteur tem a sobejar. Cavalo Dinheiro não é um filme fácil. A narrativa é não linear, composta essencialmente por metáforas e alegorias, escolhendo a sugestão ao invés da revelação, ainda que o que é sugerido, para os mais atentos, seja tudo menos subtil e inexpugnável. O que Costa conta é duro, um olhar penetrante sobre o passado e presente de Portugal e do modo como tratamos e tratámos naturais das nossas ex-colónias. Existe uma cena particularmente difícil, em que o protagonista tem um longo diálogo com uma estátua ou soldado de chumbo (na realidade um homem assim pintado). É a coda de um filme extraordinário que não contribui em nada para a sua fácil absorção e onde somos confrontados com a penetrante acusação de um homem violentado. 

Se a história torna o cinema de Paulo Costa um desafio para os menos experimentados num determinado estilo de cinema, já a sua lente, a sua fotografia, elevam o trabalho a um patamar apenas reservado aos melhores. Cada plano, cada luz incidente, é cuidadosamente arquitectada para servir a história e não para se impor à mesma. O chiaroscuro é usado e não abusado. A mão de Costa é segura, certa, firme. É bom saber que Portugal tem senhores destes. 

The Hobbit, The Battle of the Five Armies de Peter Jackson


O terceiro filme da trilogia do Hobbit é (provavelmente) a derradeira incursão do realizador neozelandês Peter Jackson na Terra Média, o mundo imaginário criado pelo escritor inglês J.R.R. Tolkien. Como fã deste universo ficcional desde os meus tempos de adolescência e como adorador da trilogia cinematográfica que adaptou o livro O Senhor dos Anéis, só tenho a dizer: ainda bem que este é o último.

Já em posts anteriores escrevi sobre algumas das características que havia achado menos boas nesta nova trilogia (The Hobbit, the Desolation of Smaug) e, infelizmente, ainda que este tenha sido, talvez, o melhor dos três, está muito, mas mesmo muito longe da magia, espectacularidade e qualidade de O Senhor dos Anéis. Não consigo saber se é cansaço (quase duas décadas de volta da Terra Média é muito), dinheiro a mais (já esclareço), mas The Hobbit quase que sabe a desnecessário. Quase. Não o é totalmente porque existe o dragão Smaug, um dos pontos altos destes filmes, porque existe a batalha contra o Necromante, porque visitamos a Terra Média. Fora isso nada de novo se acrescenta ao que Jackson já tinha dito nos filmes anteriores. De facto, estou plenamente convencido que estes tinham ganho em ser realizados por Guillermo Del Toro, que teve de se afastar devido a problemas de agenda. Um olhar diferente, menos modelado por esforços icónicos anteriores, tinha sido um ponto forte. 

Não que o único problema seja de realização. O argumento é obeso. Enquanto no Senhor dos Anéis estava com vontade que os filmes continuassem durante mais 10 horas, em The Hobbit rezei por duas a três a menos. Um livro de 300 páginas teve 400 minutos de duração em filme. Parece ter existido um imperativo financeiro que, ainda que não criticável, estragou os filmes. Porque para ganhar muito dinheiro, parece que os estúdios, e ao contrário dos filmes anteriores, abriram os cordões à bolsa. A invenção que abundou nos outros foi substituída por mais efeitos especiais, câmaras de ultra-definição, em suma, em construir um jogo de computador em formato de filme.

Uma das forças do Senhor dos Anéis residia em que este, apesar de estarmos conscientemente emersos num mundo de fantasia, no facto de preponderarem os cenários reais, a prostética, ou seja, sólidos reais, possibilitava-nos uma experiência menos afastada. Essa era uma das grandes forças da realização de Jackson. Em The Hobbit tudo isto é inexistente. Não me senti próximo de quase nenhum personagem porque movimentavam-se em situações e cenários impossíveis mesmo neste mundo do impossível. Dá vontade de dizer: quando em dúvida, meus amigos, optem pelo real.

Finalmente, os três filmes que compõem este The Hobbit têm um problema de "tom". Parece que se quer agradar a gregos e troianos, a miúdos e graúdos. Coabitam situações retiradas de um desenho animado da Warner Brothers com outras de guerra e pathos no limiar de Apocalypse Now. Deste modo, o centro emocional do filme espalha-se por todo o lado e torna-se mais frágil. Ainda que o Senhor dos Aneís tenha tido pequenos apontamentos destes, os mesmos não tinham o mesmo peso que em The Hobbit.

Esta trilogia talvez possa marcar um ponto de referência futura. Um onde concluamos que efeitos especiais a mais podem ser decrementais. Não deixa de ser irónico que a nova trilogia da Guerra das Estrelas esteja a ser filmada em película e com, como acho que se diz na gíria, efeitos práticos. Quem sabe assim os administradores do legado de Tolkien possam ser convencidos a ceder o The Silmarillion.

Boyhood de Richard Linklater


Quando é que um filme de uma história banal não é um filme banal? Quando é que, sem fogo de artifício, apenas com normalidade, a arte cresce para a mesma envergadura da vida? Como é possível captar o mais inclemente dos donos do universo, o tempo? Como fazemos para escrever com as imagens da ficção a realidade dos segundos?

Richard Linklater com este maravilhoso Boyhood esteve o mais perto possível da resposta a estas questões.

Todos já ouviram falar da experiência do realizador e da sua equipe em filmar os mesmos indivíduos ao longo de um período de 12 anos, acompanhando especificamente o crescimento de um rapaz entre os seus 6 e 18 anos de idade. Por mais que se repita, como um mantra, como uma curiosidade mediática, esta experiência é tudo menos banal. Outros realizadores já passaram pela tentativa de captação da passagem do tempo, mas ninguém com o arrojo e sucesso de Linklater. Não porque o realizador americano tenha optado por um abordagem artística específica, obedecendo a uma escola ou chamamento interno ininteligível, mas antes porque o faz apenas com o recurso às ferramentas e à estética que a vida dá a todos nós: amadurecimento e tempo. Linklater junta a estas uma narrativa fictícia (mas não tão fictícia assim) na qual os personagens respiram e vivem os dias sem artifícios. Apenas com as rugas e o acumular de anos. Nada mais simples e nada (imagino) tão difícil. 

Presumo que muitos espectadores tenham saído da sala de cinema com a sensação de ter entrado por uma casa igual à nossa e pouco mais ter feito que observar pequenos dramas familiares, o crescimento e amadurecimento de pessoas, o desfilar de refeições em comum. O que é curioso é que essas pessoas terão toda a razão e, ao mesmo tempo, estarão erradas. Porque Boyhood é isso e não pretende ser muito mais que isso. Mas ao juntar o "truque" de filmar o verdadeiro envelhecimento dos actores enquanto acompanham os seus personagens em 12 anos reais, transforma a banalidade da arte em magnificência da vida. Porque a vida é sempre superior à arte, é superior a tudo, porque não existem artifícios, apenas realidades armazenadas em cima dos segundos, dos dias, das semanas e dos anos. 

Não é a primeira vez (e imagino que não será a última) que Linklater experimenta com a passagem do tempo na tela do cinema. Já o tinha feito na trilogia de filmes protagonizados por Julie Delpy e Ethan Hawke. Mas Boyhood é ainda mais radical. É como se o realizador se esforçá-se para dizer que é na banalidade do real que encontraremos toda a magia e descoberta que poderemos querer. Para mim, esta é uma mensagem tão poderosa quanto a veiculada por qualquer livro sagrado.

La Chambre Bleue de Mathieu Amalric (O Quarto Azul)

Mathieu Amalric é mais conhecido por ser ator do que realizador. Não estava ciente das qualidades deste senhor como maestro da câmara e, confesso, fiquei agradavelmente surpreso. Com uma história adaptada de Georges Simenon, Almaric realiza e protagoniza um enredo que envolve casamento, casos extra-conjugais e assassinatos. 

A história está longe de ser o ponto forte deste filme. Antes os apontamentos de realização e fotografia é que elevam este O Quarto Azul a mais do que uma tentativa falhada de atores a quererem dar um passo mais comprido do que as pernas permitem. O jogo de luzes e cores, os enquadramentos escolhidos, a velocidade do filme, todos estes elementos são particularmente bem manietados por Almaric, que torna o mundano em algo maior. Não deixa de sofrer alguns tiques de "primeiro esforço", muito à semelhança do que Tom Ford, por exemplo, tinha feito no seu A Single Man. Quer mostrar que é capaz de muito mais do que apenas um "filme de actores". Quer mostrar que consegue a sensibilidade, o je ne sais quoi, a que são obrigados os grandes realizadores a ter. Em alguns pontos podemos quase começar a entrever  pelo canto do olho, aquele plano mais belo, mais diferente, mas, ao contrário de Tom Ford, que não se esqueceu do seu background de estilista, Almaric não se deixa deslumbrar demais. Existe mesmo contenção, quase sempre se cingindo ao quarto azul para deixar voar a sua veia de artista.

Um filme que não é excepcional mas que surpreende pela qualidade e sensibilidade da realização.

Gone Girl de David Fincher (Em parte incerta)


É difícil colocar em palavras ou encontrar o termo correcto para descrever a sensação que tenho quando adoro um livro, amo uma música ou fico apaixonado por um filme. Sair de uma sala de cinema e ter a certeza que fiquei derrubado pelo que acabei de ver é algo difícil de descrever. Portanto, peço-vos: lembrem-se de como é esse sentimento. Esforcem-se por recordar o prazer que é ver, sentir, cheirar, comer, algo que vos deixa siderados. Não porque é "bem" gostar daquilo, não porque é apropriado,  não porque está na moda, mas porque efectivamente gostaram. Gostar é melhor do que "este é um grande filme". Gostar é maior que "obra-prima". Gostar é nosso e só nosso e os outros que se fodam. Dito isto...

Eu gostei muito de Gone Girl do David Fincher e (tenho de dizê-lo) de Gillian Flynn  - a escritora do livro que deu origem a este filme e quem fez a adaptação para screenplay.

(A partir de agora aconselho a que prossigam com algum cuidado. Não vou revelar o enredo de um filme que muito assenta na surpresa, mas vou escrever sobre o que senti ao vê-lo)

Primeiro que tudo, estive defronte de uma história que me deixou derrotado. Camadas e mais camadas, num argumento rico em tudo o que , para mim, faz funcionar uma história. Não são tanto as surpresas (mas também são). Não é tanto a constante mudança de foco e os famosos twists (mas também é). É, através do uso da linguagem do entretenimento, do thriller, do  suspense, construir um gigantesco comentário ao mundo atual, às nossas paranóias, ao "zeitgeist" (palavra que adoro), à alma deste início do século XXI - Hitchcock também o fazia. Mas, para que não se torne algo demasiadamente "actual" e, portanto, acabe por cair no esquecimento do "passar dos anos", aproveita para falar de algo mais intemporal: do relacionamento entre os homens e as mulheres; do casamento; dos desejos dos homens; dos anseios das mulheres. Como se isto não fosse bastante, provavelmente elucida-nos ainda acerca de outra coisa : de que a história é sempre melhor que a verdade.

Além de um argumento brilhantemente construído temos um extraordinário realizador, um mestre da 7.ª Arte: David Fincher. Como se não bastasse a este senhor ter feito dois dos filmes mais paradigmáticos da década de 90, Se7en e Fight Club, entrega-nos agora um outro, este, como já disse, um emblema deste início de século. Como é possível não só isto mas também conseguir explorar as suas paranóias e tiques  numa história que não é originalmente sua? Novamente, como nos dois filmes anteriores, nada é o que parece e os personagens escondem algo temível e negro, algo que escondem do mundo. Dizem que os grandes realizadores têm sempre algo recorrente nas suas histórias. Se esse é o caso, acho que esta é uma de Fincher. Tarantino tem os pés e a comida. Nolan, as esposas mortas. Kiewsloski, a crença em Deus. Fincher, os personagens duplos, escondendo do mundo (e, por vezes, de si mesmo) quem na realidade são.

(Existe outra similaridade com um dos dois filmes que referi do realizador mas, sinceramente, não vou revelar porque não só é óbvia para quem o ver como também vos estragará a surpresa)

Fincher parece ter esquecido os seus tempos de realizador de videos de música e envelhecido em sobriedade. Os seus filmes não são apenas uma tentativa gritante de escrever em letras neon "eu estou aqui". São agora mais contidos, sóbrios, discretos, mas sem esquecer personalidade. Não restam duvidas que este é um filme de David Fincher. Muito se deve também à maravilhosa mão de Jeff Cronenweth, o "fotógrafo" de serviço, aquele que tem a seu cargo a cinematografia do realizador desde há muito e muito tempo (Fight Club, para ser mais exacto). Já agora, não convém de todo esquecer o trabalho de Trent Reznor, encarregue de algumas bandas sonoras de Fincher desde Se7en. São anos de trabalho em conjunto, na criação não de uma máquina oleada mas de uma companheirismo sólido, onde todos se confiam e conhecem.

Finalmente, os atores. Não só Ben Affleck e Rosamund Pike são excelentes castings, como Fincher decidiu apostar em muitos atores da TV, gritando ao mundo que as séries de televisão não são há muito tempo o parente pobre do Cinema (não se esqueçam que o realizador fez os primeiros episódios da excelente House of Cards).  Temos Neil Patrick Harris de How I Met Your Mother, Casey Wilson de Happy Endings, Sela Ward de Dr. House e CSI:NY. Até há uma perninha de Emily Ratajkowski, a glamour model que ficou conhecida pela versão para adultos do vídeo musical de Blurred Lines.

Em resumo, isto é, para mim, Cinema perfeito. Espero que gostem como eu gostei.

Os Maias - Cenas da Vida Romântica de João Botelho

O romance Os Maias é um dos maiores da língua portuguesa e também da literatura mundial, um dos expoentes máximos do Realismo – ou, pelo menos, assim mo dizem, a mim que não sou especialista na matéria. Os portugueses de todas as idades bem o conhecem, já que somos literalmente obrigados a lê-lo (ou pelo menos um resumo) no nosso período escolar. Escusado será dizer que qualquer adaptação de uma obra tão conhecida, mesmo que por um cineasta e artista da envergadura de João Botelho, será sempre um risco. Todos terão uma palavra a dizer. Todos tiveram uma sensação diferente ao ler o livro. A passagem para a 7.ª Arte de uma obra conhecida e superior como esta abre espaço para todos emitirem opiniões porque todos têm legitimidade de a ter – eu percebo a ironia do que acabei de escrever.

João Botelho, numa entrevista que tive a sorte de ouvir na Antena 3, é um homem com prazer especial em adaptar ao cinema obras da literatura portuguesa e mundial. É um dos mais acérrimos adoradores de Fernando Pessoa, tendo passado para cinema um dos mais difíceis e intransponíveis livros do autor, O Livro do Desassossego – um projeto que, na minha opinião, não sei se posso apelidar de cinema, mas antes de uma coleção de imagens em movimento com textos de um dos maiores escritores da humanidade, um OVNI que desafia qualquer tipo de classificação (e ainda bem). Obviamente que Os Maias escreve-se de uma forma mais convencional e adaptável, sendo uma das mais belas histórias alguma vez escritas, não só metida dentro do estilo literário que tem outros grandes nomes como Tolstoy e Dostoievski, como uma herdeira dos clássicos gregos, da tragédia, partilhando temas com obras como Rei Édipo, Medeia, etc.

Botelho filma de forma esplendorosa, buscando o famoso chiaroscuro de Caravaggio, que emula de forma assumida e revelada, fazendo-se valer da sua arte, da fotografia e da iluminação para suplantar obstáculos como a falta de orçamento, para adaptar de uma forma menos “sumptuosa”. Mas uma oportunidade destas não deve ser desperdiçada e Botelho não o faz, colocando a sua arte de décadas ao serviço da Literatura e do Cinema, conseguindo uma peça que não envergonha nenhuma delas. A solução dos cenários, da “falsidade”, é assumida logo no genérico mas também pelo facto de recorrer, nos exteriores, a pinturas. Aliás, a pintura, uma das grandes paixões do realizador, é omnipresente no filme, funcionando como cenário e mesmo como comentador ao enredo - uma das últimas cenas do brilhante João Perry é disso prova. Existe uma confluência de gostos de Botelho que o tornam, acima de tudo, um verdadeiro artista, alguém capaz de imprimir a sua visão pessoal em tudo o que toca.

Infelizmente, o filme tem, para mim, uma grande falha: os atores escolhidos para fazerem de Carlos da Maia e João da Ega. São estes os elos fracos numa tapeçaria que, de outra forma, seria uma obra de valor indiscutível. O casting falhou, e isso nota-se principalmente porque falamos dos personagens com mais tempo de ecrã e aqueles que funcionam como âncora não só do enredo como da “moral”, da “sub-textualidade”, da obra. Confesso que a apreciação do filme foi bastante prejudicada pela pouca complexidade dada pelos atores aos personagens. São eles a principal razão de uma primeira metade mais complicada. Felizmente, na segunda parte, a situação é corrigia pela entrada em cena de Maria Eduarda e, consequentemente, do enredo principal, da famosa história de amor incestuosa. A atriz brasileira consegue aquilo que os outros dois têm incapacidade para fazer: pegar em diálogos diretamente retirados do brilhante Eça de Queiroz (uma das soluções ganhadoras do filme) e dar-lhes alma e emoção. Monocórdicos substituídos por entoação. Existem outros atores que vão muito bem: o já mencionado João Perry; os pequenos papéis de Ana Moreira e Rita Blanco; Hugo Mestre Amaro. Todos contribuem para um todo bastante bom.


Este é um filme que deve ser visto e incentivado porque tem de existir espaço para obras deste género em Portugal, transversais aos vários sectores da sociedade e capazes de colocar portugueses a ver cinema português.

O meu MoteLX 2014 - Aux Yeux de Vivants, Open Windows e Rouge Sang

Aux Yeux de Vivants de Julien Maury e Alexandre Bustillo (Among the Living)

Aux Yeux des Vivant (Among the Living) constituiu, infelizmente, a primeira decepção do MoteLX deste ano. Não por ser particularmente mau mas porque, essencialmente, também não é particularmente bom. Os dois realizadores assumem as suas influências do terror sediado nos EUA - este filme conclui uma trilogia de homenagem a essa "escola" -, mas o enredo e a estrutura narrativa são as grandes falhas, isto num esforço que, apesar de tudo, aplica os valores de produção que caracteriza o profissionalismo norte-americano (ou, pelo menos, aquilo que vimos como profissionalismo). Portanto, o amadorismo não está tanto nos meios usados, nos actores, na mise en scéne (que também não é particularmente inspirada), mas mais num argumento que começa de forma relativamente interessante mas que descamba para uma forma de inverosimilhança e fraca construção da história.

A história é uma repetição do "monstro", do serial killer, do ser humano "estragado" (lembra Halloween - até o homenageia na primeira cena). Um grupo de três amigos vêem um homem com uma máscara de palhaço a arrastar uma mulher amordaçada e amarrada para o interior de um estúdio de cinema abandonado  - a alusão a máscaras, novamente Halloween, e o comentário a uma época já passada do cinema de terror serão referências a que os realizadores aludem. O serial killer vê os três adolescentes e enceta uma perseguição que irá levar a uma variedade de momentos típicos do filme de terror de uma época de ouro nos EUA. Aquilo que poderia até ser considerado uma homenagem (e tenta-o ser) acaba por cair por terra pelas razões já apontadas: um argumento apressado.

PS - Existe um momento de nudez feminina particularmente gratuito que, na minha opinião, era escusado. Mas, se calhar, são essas as referências.

Open Windows de Nacho Vigalongo

Este não é um filme de terror. 

Uma espécie de homenagem a Rear Window to mestre Hitchcock, constitui um dos mais interessantes OVNIs que até agora tive o prazer de ver no MoteLX. O filme passa-se integralmente no ecrã de um computador, enquanto a câmara do realizador viaja entre as janelas abertas no monitor do protagonista (as titulares Open Windows). Um filme que, à partida, poderia ser repetitivo e enfadonho, por causa de um argumento rocambolesco e profuso em twists, de uma realização e edição frenéticas, transforma-se num thriller de suspense bastante interessante (ainda que, por vezes, um pouco rocambolesco demais).

Sinteticamente, um fã obsessivo (Elijah Wood) de uma conhecida atriz de filmes de ação (Sasha Grey), vence um concurso para um jantar com o seu ídolo. Acontece que a mesma acaba por cancelar e alguém oferece, usando o conforto do monitor do computador, para que o desiludido fã possa observar todos os movimentos da estrela usando a tecnologia de filmagem e localização disponível no mundo moderno. As leituras são óbvias. Num mundo onde todo e qualquer movimento, acção e espirro de uma celebridade são escalpelizados e observados até ao limite da obsessão (o Fappening vem à memória), um argumento que baseia o corpo nesta temática intemporal (sim, porque isto não é de hoje), juntando-a aos meios inacreditáveis de invasão de privacidade, só poderia ser pelo menos interessante. E, neste caso, é-o e muito. 

O realizador é competente na gestão dos tempos essenciais para nos manter interessados e, ao mesmo tempo, não muito confusos, num argumento que, ainda assim, requer mais que um visionamento para o acompanhar integralmente.  Os atores são a alma e a corrente que agarra o filme à terra, pelo seu talento e pela capacidade de "vender" uma história difícil e, por vezes, inverosímil. 

Chaira-me que este tem o perfume de filme de culto. O tempo o dirá.

Rouge Sang de Martin Doepner (The Storm Within)

Existem histórias que se têm de esperar até à última página, até ao último minuto, até ao último quadradinho, para que as possamos apreciar verdadeiramente. 

Rouge Sang desenrola-se no dia da passagem do século XVIII para o XIX, numa casa de família, perdida na floresta gelada do norte canadiano francófono.  O marido deixa a mulher grávida e seus três filhos em casa enquanto se desloca à aldeia mais próxima para comprar mantimentos. Devido a uma tempestade de gelo particularmente forte, fica retido na dita aldeia e a mulher e filhos vêem-se obrigados a dar guarida a vários membros do exército inglês, vulgos Red Coats.   O que começa de forma plácida e bucólica regride para o drama de home invasion e terror psicológico.  Escusado será dizer que mais não digo e que há que esperar até ao minuto final para nos apercebermos do alcance do drama.

Primeiro que tudo, quer a realização, quer a fotografia são particularmente interessantes, mostrando um controlo do claro/escuro, da luz e dos enquadramentos refreado mas veemente. Os actores, principalmente a mulher, são excelentes, construindo personagens que se deslocam entre os cinzentos da moralidade e não tanto no objectivo preto e branco.  E, mais do que tudo, a história é bem construída, parcimoniosa nos pormenores, mas objectiva naquilo que quer contar. Este é um dos casos em que o título original, Rouge Sang, é um pouco suplantado por uma das traduções, The Storm Within, pelo menos pelo que me é dado entender pelo meu conhecimento da língua francesa. De facto, a verdadeira tempestade não é, de todo, a que está fora das paredes da pequena casa de madeira.  

Rapidinhas de Cinema – Jimmy’s Hall de Ken Loach e E Agora? Lembra-me de Joaquim Pinto

Jimmy’s Hall de Ken Loach


A história aconteceu na primeira metade do século XX. Um irlandês regressa à sua terra natal, uma década depois de a ter abandonado e depois de o sonho americano se desvanecer no rescaldo da crise económica de 1929. Mas Jimmy tem um passado colorido, de atividade política contra as mais fortes instituições sociais da Irlanda, a igreja e o governo, que neste país eram uma e a mesma coisa. Apelidado pelos poderes de comunista após abrir um salão onde se dança, canta e ensinam as artes e o pensamento. Um espaço para diversão e partilha de conhecimento. Neste regresso 10 anos depois, é incentivado a reabrir o dito salão, com as consequências esperadas. Esta é também a história do início do partido comunista irlandês, sendo Jimmy um percursor do movimento. Ken Loach agarra na história com clara simpatia pelo movimento dos aliados de Jimmy e desprezo pela igreja, governo e poderes económicos a eles associados. A realização é relativamente direta e sem floreados, cingindo-se à filmagem de eventos de uma forma que, não fosse o enfoque muito significativo e a simpatia clara para o lado de Jimmy, poder-se-ia dizer ser isenta. Um filme que vale muito pela informação que nos revela de um início de século conturbado e onde as ideias e ideais surgiam com força e relevância.

E Agora? Lembra-me de Joaquim Pinto

O documentário português centra-se na história do próprio realizador, enquanto é sujeito a tratamentos para a mitigação de uma situação clínica nociva: ser HIV positivo e sofrer de Hepatite C. Para além disso - e mais importante - é também uma história de amor. O documentário desenvolve-se de forma mais ou menos cronológica, colecionando vários episódios do ano de duração do tratamento, da sua relação, aqui e ali escolhendo contextualizar o espectador através do recuo no tempo para a sua adolescência. No meio escolhe também revelar parte da sua filosofia de vida, quer de forma implícita, quer explícita. As quase três horas de filme passaram-se com alguma dificuldade - um pouco de cortes aqui e ali poderiam contribuir para um todo menos desconexo. Mas, bem vistas as coisas e tendo em conta a temática e a forma como o realizador a escolheu contar, deverá ser esse o intuito. Este é tipo de estética que a mim não me apraz particularmente, mas existem momentos interessantes em todo o filme: a história de amor, a escolha de estilo de vida e uma presença enternecedora de animais. Acima de tudo, um filme que não é fácil, não pelos momentos que acima descrevi mas pelo acompanhamento do tratamento a que o realizador se vê sujeitado. 

Magic in the Moonlight de Woody Allen (Magia ao Luar)

Ano após ano, Woody Allen continua a pôr para fora do seu sistema filme atrás de filme. Umas vezes saem piores, outras melhores. Uns mais dramáticos, outros mais sérios e pessimistas. Mas todos sempre com uma pitada (grande no primeiro caso, mais pequena no segundo) de humor. Magia no Luar cai no estilo do primeiro. Servido com muito do já bastante conhecido estilo de riso e sorriso com que há mais de quatro décadas presenteia quem o segue religiosamente. Aqui no nosso Portugal, por uma razão ou por outra, quando sai um novo de Allen ocorre uma certa romaria religiosa às salas de cinema, feita por mais do que um perfil socio-económico. Este novo filme não deverá ser excepção, porque tudo o que atrai em Woody está lá: um protagonista ranzinza e egocêntrico cheio de humor caustico; uma panóplia de personagens coadjuvantes na fronteira do sublime e patético, mas todos deliciosos; uma situação ridiculamente estranha. 

Nem todos os filmes do Woody Allen são sublimes. Apenas uns poucos conseguem subir à estratosfera. Mas, como acho que já o disse neste Blog em relação a ele e a outros realizadores, um mau filme deste senhor continua a ser um bom filme quando comparado com o produto esforçado de tantos outros. E, ainda por cima, este Magia ao Luar é bom cinema. Nota-se sabedoria na forma como a história está contada. Confesso que tenho particular atração pela sabedoria anciã (o Woody que me desculpe este termo) temperada por grandes doses de humor. Não levar as coisas a sério parece-me uma abordagem saudável e, acima de tudo, inteligente. O Senhor Allen tem disto em doses cavalares. No meio de tanto trocadilho e esgrima de galhardetes entre personagens o realizador vai passando pedaços de conhecimento que acha serem úteis. Mesmo que banais, mesmo que senso comum, são apresentados de forma tão profunda e humorística que tendem a ficar gravados (pelo menos em mim) mais depressa do que uma mensagem servida com carga mais dramática.  Além disso, a arte de contar histórias é já de tal forma uma segunda natureza para Allen que nem nos apercebemos que, no meio daquele capacidade maravilhosa de entreter que tantos dos grandes autores têm, foi-nos ensinado qualquer coisa de útil. Mesmo que apenas mais um pequeno tijolo no grande edifício.

Os atores parecem não deixar de acorrer aos magotes para fazer um filme com o realizador. Colin Firth e Emma Stone são apenas os mais recentes e generosamente presenteados pelas maravilhosas palavras de Allen e pela complexidade dramática dos personagens que têm de apresentar. Já mais do que uma atriz deve o seu Óscar ao realizador e Emma Roberts, apesar de não ter (ainda) um papel tão gordo como o tiveram Penelope Cruz ou Cate Blanchett (apenas para citar as mais recentes), já tem muito com que degustar. Colin Firth está também maravilhoso, revelando para os mais distraídos o excelente ator que é, robusto o suficiente para fazer papéis dramáticos e humorísticos. 

Parabéns, Woody Allen. E obrigado.

Rapidinhas de Cinema - The hundred foot journey de Lasse Hallström e Ilo Ilo de Anthony Chen

The hundred foot journey de Lasse Hallström (A Viagem de cem passos)

Há filmes que se veem porque sabem a Domingo à tarde. Porque nos trazem conforto e calor. Não nos procuram fornecer complexas reflexões sobre a vida, apenas nos fazer passar um bom bocado, ali durante duas horas, nada mais. Este A Viagem de 100 passos é um deles. O cenário é altamente improvável, quase telenovelesco, mas a candura e doçura com que nos é apresentado, sem pedantismos ou “foleirismos” (e eu tenho noção de que isso depende sempre do ponto de vista), acabou por me conquistar. Uma família indiana vê-se forçada a sair do país e residir numa pequena aldeia francesa onde decide, à frente de um restaurante dono de uma estrela Michelin, abrir o seu próprio espaço e servir a aromática gastronomia do país natal. Um dos filhos do patriarca indiano é, contudo, muito mais que um simples cozinheiro, é antes um dos mais dotados chefs que a dona do restaurante Michelin alguma vez saboreou. No meio disto tudo há espaço para romance, sempre óbvio mas de todo ofensivo. Aliás, todo o filme, a partir do momento em que começa, já se sabe onde acaba, mas não me incomodou de maneira nenhuma. Muito pelo contrário, gostei e muito.

O filme é também um reflexo desta “moda” a que temos assistido nos últimos termos e que se tem apelidado de “food porn”. Começou com os numerosos programas culinários que têm surgido na TV e o Cinema e a Literatura (porque este filme é inspirado num livro) apenas quiseram capitalizar. Nada de mau nisso. Já tivemos um exemplo este ano, o filme Chef de Jon Favreau, mas este A Viagem dos 100 passos acaba por ser mais conseguido. Ainda que os dois filmes idealizem um conjunto de situações, o filme de Hallström (com argumento de Steve Knight, o mesmo do extraordinário Locke) funciona pela doçura e romantismo - Favreau tem um romance mal resolvido com a ex-mulher, protagonizada por Sofia Vergara, e neste temos a mais nova iteração da rapariga francesa que anda de bicicleta pelas verdes veredas do campo francês. Um filme para passar umas boas duas horas.

Ilo Ilo de Anthony Chen


Ilo Ilo é um filme que, infelizmente, não leva a nenhum lugar particularmente novo. Uma família de Singapura, emersa na muito atarefada vida diária e prestes a ter um segundo filho no meio de alguns problemas financeiros, contrata uma senhora indonésia para cuidar dos afazeres diários e do filho que começa a exibir graves problemas de rebeldia. No início existem os obrigatórios problemas entre filho e empregada mas, paulatinamente, esta senhora, que teve de abandonar o seu primogénito na terra natal, acaba por conquistar o coração do rapaz e, sem grandes surpresas, geram-se alguns problemas de ciúmes com a mãe. Nada de novo. Aliás, o problema do filme é que tudo sabe a alguma coisa que tenhamos já visto e o “exotismo” da geografia não serve para, de todo, torna-lo diferente e único. Os atores são competentes, o realizador não exibe outros tiques do que os normais e corriqueiros, a história não surpreende. Não se ganha nem perde nada ao ver este filme. 

Sin City – Mulheres Perigosas e Armas Redentoras

Sin City ficou conhecida pelo público em geral na versão cinematográfica de 2005, realizada em parelha por Robert Rodriguez e Frank Miller, este último o autor da BD original que lhe serviu de base. O filme abriu um precedente que seria repetido por Zach Snyder em 300 (BD do mesmo escritor e desenhista). As imagens eram retiradas das pranchas da banda desenhada ao ponto da obsessão. As palavras, também extraídas ipsis verbis da obra, eram proferidas pelos atores como se de uma peça de teatro se tratasse, declamadas com a cadência e a reverência dedicada apenas a alguns autores.

O filme de 2005 combinava três das obras que compõem a antologia que é Sin City. Estas são contos de uma cidade de pecado, suja com os relatos de desesperança humana, de homens perdidos pelo álcool, pela própria natureza e por mulheres belas e fatais como serpentes. Os três álbuns incluídos eram o homónimo Sin City, That Big Yellow Bastard e The Big Fat Kill (todos publicadas pela editora Devir), e a versão de cinema contava com nomes sonantes como Bruce Willis, Clive Owen, Mickey Rourke e Jessica Alba.

Passados 8 anos vamos finalmente ter a oportunidade de ver mais uma passagem para o grande ecrã da obra de Frank Miller, regressando a alguns dos personagens focados no primeiro filme. A história principal é baseada no álbum A Dame to Kill For, originalmente publicado em 1993, e conta o drama de Dwight McCarthy, interpretado no primeiro filme por Clive Owen e neste por Josh Brolin, e do amor e obsessão que nunca conseguiu largar, Ava, esta a ser desempenhada pela dolorosamente fatal Eva Green (quem conhece a sua interpretação de Morgan Le Fey na cancelada série da Starz, Camelot, sabe do que falo). Outra parte do filme será ocupada por uma história original, a da procura de redenção do personagem de Bruce Willis por parte da sua amada, a voluptuosa Nancy, interpretada por Jessica Alba, e pelo demente Marv, na realidade Mickey Rourke.

A Dame to Kill For é tudo o que um romance noir deve ser. Começa pela imagem de marca da série Sin City, a hiperbolizada imagética chiaroscuro, onde os personagens não são definidos pelos clássicos contornos da banda desenhada, mas antes pelas sombras, por um contexto de luz que reflete de forma explícita o seu impacto na história e nos outros protagonistas. A síntese do preto e do branco (em que o preto é contudo rei e senhor) espelha o ambiente e a alma deturpada dos intervenientes. Quando ouvimos a voz de Ava pela primeira vez, veludo e pecado do outro lado do telefone com Dwight, vemos apenas os seus lábios, levemente separados, a suspeita de dentes a entrever-se, uma promessa de noites perdidas. McCarthy sabe que está em sarilhos. Quando, num bar a tresandar a mau whiskey, charutos baratos, vómito e sémen, a conseguimos discernir no ar espesso de fumo, ela a figura de uma deusa de sexo e de promessas agridoces, percebemos que o homem não tem outro remédio a não ser cair.

As mulheres que Miller pinta em Sin City oscilam entre a nobre prostituta e a femme fatal, esta negra como o breu, azeda como o fel, traiçoeira como a cascavel. Assim é Ava, o erro que todos os homens adoram cometer, mesmo que movidos pelas mais nobres intenções. Ela corrompe cada um com o poder da mentira que veste, indumentária escolhida a dedo para melhor fazer cair o homem que seleciona como vítima.


Os homens, feios, rasgados, destruídos, tão depressa se entregam ao calor do amor que acreditam inocente, como explodem em violência desmedida e incontrolada. Em Sin City não há sentimentos para lá dos extremados. Assim é a cidade noir que Frank Miller idealizou. A obra é toda ela estilo, palavras que se cadenciam para a construção de um quadro obcecado com esta forma de narrativa. Nada se desvia do caminho para criar uma história de homens violentos, caídos, e mulheres que explodem em corpos impossíveis. Esta perigosa relação entre sexos acaba, impreterivelmente, na redenção oferecida pelo cano quente da pistola. Sin City é uma cidade que não acredita em finais felizes.