Sin City – Mulheres Perigosas e Armas Redentoras

Sin City ficou conhecida pelo público em geral na versão cinematográfica de 2005, realizada em parelha por Robert Rodriguez e Frank Miller, este último o autor da BD original que lhe serviu de base. O filme abriu um precedente que seria repetido por Zach Snyder em 300 (BD do mesmo escritor e desenhista). As imagens eram retiradas das pranchas da banda desenhada ao ponto da obsessão. As palavras, também extraídas ipsis verbis da obra, eram proferidas pelos atores como se de uma peça de teatro se tratasse, declamadas com a cadência e a reverência dedicada apenas a alguns autores.

O filme de 2005 combinava três das obras que compõem a antologia que é Sin City. Estas são contos de uma cidade de pecado, suja com os relatos de desesperança humana, de homens perdidos pelo álcool, pela própria natureza e por mulheres belas e fatais como serpentes. Os três álbuns incluídos eram o homónimo Sin City, That Big Yellow Bastard e The Big Fat Kill (todos publicadas pela editora Devir), e a versão de cinema contava com nomes sonantes como Bruce Willis, Clive Owen, Mickey Rourke e Jessica Alba.

Passados 8 anos vamos finalmente ter a oportunidade de ver mais uma passagem para o grande ecrã da obra de Frank Miller, regressando a alguns dos personagens focados no primeiro filme. A história principal é baseada no álbum A Dame to Kill For, originalmente publicado em 1993, e conta o drama de Dwight McCarthy, interpretado no primeiro filme por Clive Owen e neste por Josh Brolin, e do amor e obsessão que nunca conseguiu largar, Ava, esta a ser desempenhada pela dolorosamente fatal Eva Green (quem conhece a sua interpretação de Morgan Le Fey na cancelada série da Starz, Camelot, sabe do que falo). Outra parte do filme será ocupada por uma história original, a da procura de redenção do personagem de Bruce Willis por parte da sua amada, a voluptuosa Nancy, interpretada por Jessica Alba, e pelo demente Marv, na realidade Mickey Rourke.

A Dame to Kill For é tudo o que um romance noir deve ser. Começa pela imagem de marca da série Sin City, a hiperbolizada imagética chiaroscuro, onde os personagens não são definidos pelos clássicos contornos da banda desenhada, mas antes pelas sombras, por um contexto de luz que reflete de forma explícita o seu impacto na história e nos outros protagonistas. A síntese do preto e do branco (em que o preto é contudo rei e senhor) espelha o ambiente e a alma deturpada dos intervenientes. Quando ouvimos a voz de Ava pela primeira vez, veludo e pecado do outro lado do telefone com Dwight, vemos apenas os seus lábios, levemente separados, a suspeita de dentes a entrever-se, uma promessa de noites perdidas. McCarthy sabe que está em sarilhos. Quando, num bar a tresandar a mau whiskey, charutos baratos, vómito e sémen, a conseguimos discernir no ar espesso de fumo, ela a figura de uma deusa de sexo e de promessas agridoces, percebemos que o homem não tem outro remédio a não ser cair.

As mulheres que Miller pinta em Sin City oscilam entre a nobre prostituta e a femme fatal, esta negra como o breu, azeda como o fel, traiçoeira como a cascavel. Assim é Ava, o erro que todos os homens adoram cometer, mesmo que movidos pelas mais nobres intenções. Ela corrompe cada um com o poder da mentira que veste, indumentária escolhida a dedo para melhor fazer cair o homem que seleciona como vítima.


Os homens, feios, rasgados, destruídos, tão depressa se entregam ao calor do amor que acreditam inocente, como explodem em violência desmedida e incontrolada. Em Sin City não há sentimentos para lá dos extremados. Assim é a cidade noir que Frank Miller idealizou. A obra é toda ela estilo, palavras que se cadenciam para a construção de um quadro obcecado com esta forma de narrativa. Nada se desvia do caminho para criar uma história de homens violentos, caídos, e mulheres que explodem em corpos impossíveis. Esta perigosa relação entre sexos acaba, impreterivelmente, na redenção oferecida pelo cano quente da pistola. Sin City é uma cidade que não acredita em finais felizes.

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