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The Fade Out de Ed Brubaker e Sean Philips - G Floy

(repescamos esta nossa opinião de 2016, com muitas modificações)

Diz-se que somos a mistura do que pensamos de nós, do que os outros pensam de nós e do que nós pensamos que os outros pensam de nós. Eu prefiro antes dizer que a verdade sobre quem somos está escondida em histórias:  das que contamos sobre nós mesmos; das que os outros contam de nós; e das que construímos para ir de encontro às que contam sobre nós. 

O que vou lendo! A Casa de Paco Roca



Acredito que, apesar das nossas diferenças, existe um iberismo que nos une aos castelhanos, catalães, andaluzes, galegos. Um sentimento transversal, um estar, ser e sentir que aproxima todos os que estão nesta península depositada para cá dos Pirenéus. Obviamente que não existe nenhuma novidade no que penso. Fernando Pessoa falava de um "grupo civilizacional Ibérico". Teixeira de Pascoaes era defensor de um "Iberismo espiritual, que solicita um entendimento e uma acção espiritual comum". É-me impossível olhar para o filme Volver de Pedro Almodóvar e não sentir proximidade com as idosas que limpam os túmulos dos falecidos maridos, com a mulher interpretada por Penélope Cruz a lavar facas enquanto o realizador aponta a câmara, de cima, para o abastado decote da actriz. Os espanhóis como um todo poderão ser mais alegres, ter uma movida mais colorida e vivida, mas há proximidades, físicas e culturais, que nos unem.

Nestes dois últimos anos, graças à editora Levoir e ao jornal O Público, os portugueses têm tido a sorte de contactar com a muito rica 9.ª Arte das terras aqui do nosso lado. Tive o prazer de ler Rugas e O Inverno do Desenhador mas, ainda assim, esperava por algo deste autor valenciano que me tocasse de forma mais profunda e perene (talvez necessite de mais uns anos para chegar a Rugas). Eis que surge A Casa publicada no contexto da colecção Novela Gráfica da Levoir. A simplicidade do título alude à simplicidade do tema mas de forma alguma o tratamento que Roca faz da história, do enredo e dos personagens partilha dessa singeleza. Três filhos reúnem-se à volta de uma casa de veraneio do pai, falecido recentemente, de modo a perceber o que fazer com a mesma. Enquanto procedem a pequenas alterações e conservações, a memória vagueia pelo passado e pelo relacionamento de cada com o progenitor. A autobiografia não está longe desta A Casa mas Roca não nos assoberba com essa intenção, antes deixa a sua sensibilidade cinematográfica e a suas tendências para longos silêncios  ganharem a atenção do leitor. Mas o que mais chama a atenção é a incrível familiaridade das situações e cenários, as cores quentes de amarelo a sugerir os dias ensolarados de qualquer ponto do nosso país, a viva recordação das manias dos pais e dos confrontos entre os filhos, a quentura da proximidade das relações, o convívio ao ar livre. Entramos n'A Casa e partilhamos  dos segundos de confrontos e anos de recordações. Roca, inclusive, decide deitar o livro, parecendo um monólito rectangular que alude à forma de, sim, uma casa, e os quadradinhos funcionam como janelas, permitindo a partilha do interior. É, ao mesmo tempo, um ecrã de TV e uma janela da casa ao lado e nós somos bisbilhoteiros da vida alheia. É a quarta parede do palco do teatro que não está bem lá, quase que não existe.

A Casa de Paco Roca é um obra descomplicada na forma, emotiva no tema e familiar na geografia. Um livro que é, a nós, portugueses, muito próximo. E viva o Iberismo.

O que vou lendo! Espero Chegar em Breve de Nunsky

Nunsky, português, regressou recentemente de uma sabática para voltar a produzir BD para a Chili com Carne, estando a passar por um feliz momento de desenfreada produção artística. Em 2015, deu-nos uma das melhores obras da 9.ª Arte desse ano, Erzsébet, bem como Najda - Ninfeta Virgem do Inferno, que demonstravam, para quem não o conhecia (como eu), uma amplitude de registo louvável. Em 2016, parece querer continuar e, desta vez, tenta a adaptação de um conto de Philip K. Dick, conhecido, reconhecido e muito adaptado autor de Ficção Científica dos EUA, designadamente a obra de título original I hope I shall arrive soon.

Espero Chegar em Breve é a história de Victor Kemmings e de como desperta, erradamente, de um sonho criogénico enquanto viaja para um planeta onde espera reiniciar a vida - junto com uma maior comunidade. Para que possa sobreviver aos 10 anos em que terá de permanecer fora do sono salvador, a Inteligência Artificial (IA) que gere a nave e o suporte de vida tenta ocupar a passagem de tempo com recordações agradáveis da vida de Victor. Contudo, a psique do protagonista insiste em desvios na narrativa agradável ao, de forma recorrente e paranóica, continuar a regressar a traumas e manias também elas existentes no passado.  A IA procura, repetidamente, corrigir o percurso do delírio mas sem grande sucesso, ao ponto do desespero (hilariante) do computador. A obra é uma deliciosa inversão da IA perseguidora, trocando os papéis: quem inflige o terror é o protagonista a si mesmo.  Philip K. Dick demonstra, uma vez mais, que as suas narrativas de Ficção são muito mais que uma colecção de tecnologias e seres extra-terrestres, procurado discorrer filosoficamente, psicologicamente, sobre o ser humano e as suas deficiências. A sua intemporalidade e transversalidade são perfeitamente justificadas neste conto.

Nunsky demonstra, uma vez mais, a sua qualidade, ao adaptar-se ao estilo e exigências da história, com uma cuidada estruturação da narrativa e uma adaptação de estilo. Nos momentos em que isso é exigido, o autor dança entre a sombra e a luz, num equilíbrio que já o caracterizava na adaptação da depravação de Erzsébet Bathóry. Numa obra onde as emoções são o mais importante, Nunsky consegue veiculá-las de forma clara, recorrendo à simplicidade de contornos e ao minimalismo de expressão. A palavra, usada de forma ampla, não é, contudo, redundante. Os diálogos são necessários onde o são e a expressão viva dos personagens serve como complemento ou como o elemento mais importante daquele momento da narrativa. O conto é partido de forma clara, conseguindo discorrer por todos os momentos de evolução da narrativa de forma eloquente. 

Este autor português consegue a proeza de justificar o seu regresso, insistindo em ser um dos melhores a trabalhar na 9.ª Arte. 

O que vou lendo! Injection vol. 2 de Warren Ellis e Declan Shalvey

Warren Ellis é escritor de Banda Desenhada há mais de duas décadas e foi o culpado por histórias tão emblemáticas e históricas como Authority Planetary, ambas da editora Wildstorm, agora pertencente à DC Comics. Estas duas obras são conhecidas de muitos leitores de BD estado-unidense, pois representaram uma mudança de paradigma, paradigma esse que pode não ter-se iniciado com a sua publicação mas que cristalizou-se nela. Authority, especificamente, ajudou a consolidar um nicho, o da BD de super-heróis adulta, ao estilo  de cinema blockbuster, que não perdia de vista o maravilhamento reminiscente da Idade de Prata, que fazia, à altura, falta no género.  Este ressurgimento já se tinha iniciado em obras como Kingdom Come de Mark Waid e Alex Ross, Astro City de Kurt Busiek e Brent Anderson e JLA de Grant Morrison e Howard Porter, mas Warren Ellis continuou e acrescentou mais uma linha de sofisticação. 

Esta sofisticação muito deve-se à sua assinatura autoral, patente em cada linha de diálogo e no mise en scéne, se assim o podemos chamar, que Ellis impõe aos desenhadores com quem trabalha e que ajudam ao reconhecimento de uma obra sua. A escrita é, na falta de uma palavra melhor, "eficiente", não só na parcimónia com que usa as palavras, como na intenção como são debitadas pelos personagens. Existe urgência em Ellis, que obriga os protagonistas a afirmarem-se como afinadas máquinas de personalidade. Mas desenganem-se se disto concluem que são bidimensionais. Na realidade, os personagens de Ellis são profundamente Ellisanos, geralmente anti-sistema, disruptores do status quo e, acima de tudo, furiosamente independentes - Spider Jerusalem de Transmetropolitan é um dos melhores exemplos, Appolo e Midnighter de Authority outro, ainda que por razões diferentes (são o primeiro casal abertamente gay na BD de super-heróis). 

Nesta nova obra, Injection, estão espelhados os trejeitos de Ellis. É impossível não abrir as páginas desta singular obra e não reconhecer, apesar dos desenhos de  Declan Shalvey, que estamos a ler Warren Ellis. Existem organizações governamentais secretistas e marginalmente ditatoriais que observam, nas sombras, o desenrolar da acção. Existem os personagens "eficientes" que, desconfio, são um reflexo do autor. E existe outra mania: as verdades ocultas do mundo (leiam Planetary ou mesmo Nextwave). Neste segundo volume, essas verdades não são ainda claras mas parece estarmos perante uma curiosa junção de Inteligência Artificial criada pelos cinco protagonistas, cientistas e ocultistas à procura do futuro, com um Outro Mundo, esse místico e parte da Anciã Infraestrutura do Mundo. Esta mistura entre o tecnológico e sobrenatural é também marca de Ellis, revelando um (para nós) estranho britanismo - aliás, esta é também uma obra sobre a Grã-Bretanha e os seus antigos mistérios.

A editora Image insiste em continuar a publicar algumas das mais interessantes obras no panorama da BD dos EUA e, desta vez, escolheu Warren Ellis, um dos mais antigos e conceituados escritores desta arte. Injection ganha com este segundo volume, em clareza de enredo e intenção, conseguindo transformá-la numa das favoritas do momento.

BD que mais gostei em 2016 - Patamar Celestial

A semana passada dediquei-me a dizer-vos o que na BD mensal de super-heróis mais tinha me chamado à atenção neste ano de 2016. Hoje, vou chatear-vos com outras Bandas Desenhadas - em formato TPB, álbum e afins. Não necessitam serem originais do ano (vão descobrir que muitas não o são) mas apenas leituras que deram-me prazer. Hoje de manhã enumerei as maravilhosas. Agora é a vez das celestiais. Em baixo encontram as capas das mesmas e, em todas elas, links para o que achei que achei na altura em que as li.

 

 


BD que mais gostei em 2016 - Patamar Maravilha

A semana passada dediquei-me a dizer-vos o que na BD mensal de super-heróis mais tinha me chamado à atenção neste ano de 2016. Hoje, vou chatear-vos com outras Bandas Desenhadas - em formato TPB, álbum e afins. Não necessitam serem originais do ano (vão descobrir que muitas não o são) mas apenas leituras que deram-me prazer. Hoje de manhã fico-me pelas maravilhosas. À tarde rendo-me às celestiais. Em baixo encontram as capas das mesmas e, em muitas delas, links para o que achei que achei na altura em que as li.

 


 

 

 


 

  


O que mais gostei de 2016! Super-heróis DC e Marvel, segunda parte


No mundo dos super-heróis das duas maiores editoras do género, este foi um ano de Renascimentos Guerras Civis. São já banais os eventos "world-shattering" e "reality-unraveling", ao ponto dos fãs (pelos menos os mais velhos... como eu) os receberem com uma elevada dose de cepticismo. Bem vistas as coisas, quando uma saga tão sísmica como Crise nas Terras Infinitas de 1986 (spoiler) pode ser desfeita em Convergence então tudo é possível. Ou seja, por maiores que sejam as mudanças sabemos que, mais tarde ou mais cedo, tudo volta ao seu estado anterior - poderá é demorar décadas. É a natureza dos super-heróis da DC e da Marvel: quanto mais mudam, mais permanecem iguais. Dito isto, este ano teve os seus altos e baixos, como é natural, e na rubrica O Vício do Mês fui dando-vos conta das minhas leituras da Eterna Novela - não sei se alguma vez chagaram a esta conclusão, mas as telenovelas brasileiras são coisa de meninos comparadas com as dos super-heróis que permanecem, algumas, há sete décadas. Depois de tantas e tantas páginas existe sempre a vontade de fazer um balanço do que mais gostei de ler. Sendo assim, bem vindos às leituras com que mais delirei em 2016 no mundo dos super-heróis da DC e da Marvel.  Hoje é a vez dos divinais.

Tão bons que deveriam durar para sempre.

Batman (DC New 52) - O Cavaleiro das Trevas, como também é conhecido, empresta-se às mais variadas interpretações. Mesmo aqueles que apenas o conhecem do Cinema sabem disso. Tim Burton, Christopher Nolan e Zack Snyder deram-nos três Batman diferentes. É da BD e da longa história do personagem que isso nasceu. Este ano de 2016 viu o fim de uma visão e o inicio de outra. A nova, a de DC Rebirth, a do escritor Tom King, é boa mas não tanto quanto a outra, a de New 52, a de Scott Snyder e Scott Cappulo, uma das mais emblemáticas runs até hoje feitas. Fechou com a derradeira batalha contra Joker, com um novo Batman, com o regresso de Bruce Wayne à sua capa e máscara e com três capítulos de encerramento (do 50 ao 52) tão bons quanto qualquer mega-saga. Lá em cima com os grandes criadores do personagem.

Detective Comics (DC Rebirth) - Ainda estamos do lado de Batman mas na revista que o viu nascer em 1939. Depois do livro/evento que foi DC Rebirth, este título regressou à sua numeração original, recomeçando do 934. Tudo para preparar-mo-nos para 2018, para o número 1000 desta e de Action Comics, para os 80 anos da DC, para a conclusão de DC Rebirth. Contudo, a editora não ficou-se pelo gimmick e entregou as rédeas da criação a James Tynion IV, Eddy Barrows, et al, e tem produzido a mais entretida publicação de Batman pós-DC Rebirth. Ao invés de focar-se apenas em Bruce Wayne e no seu alter ego escolhe antes desviar a atenção para a sua legião de aliados: Batwoman; Spoiler; Orphan; Red Robin; Clayface. Pelas mãos do escritor tem sido possível lermos um título francamente excepcional, cheio de surpresas e personagens genuínos e verdadeiros. 

Doom Patrol (DC Rebirth) - A minha editora favorita de super-heróis tem conseguido recuperar a esperança na sua qualidade. Para isso também contribui a nova imprint Young Animal  e este título, o melhor dos quatro, escrito por Gerard Way, com desenhos de Nick Derington. Regressa a Doom Patrol mas não só. Regressa a sua iteração mais esotérica, o seu lado mais surrealista, o inaugurado por Grant Morrison na década de 80 e 90. Way e Derington fazem isso mas com novos personagens, com os antigos personagens, com irreverência, com desenhos fabulosos, com uma energia transbordante de loucura. A história tem o carimbo da excentricidade do surreal mas não perde foco nem consistência. Talvez seja um Grant Morrison com um pouco menos de LSD ou, então, eu já estou habituado a isto.

Justice League (DC New 52) - Geoff Johns, Jason Fabok e Francis Manapul deram-me um título que parecia feito no paraíso da minha imaginação. Claro que era da DC mas era também a maior equipa de super-heróis existente numa história em que defrontavam os dois maiores vilões da sua tapeçaria, Darkseid e Anti-Monitor, narrado do ponto de vista do meu personagem favorito de BD, a Mulher-Maravilha, e com o tecido da realidade espaço-temporal em risco. Chamaram a isto Darkseid War e acabaram com um revelação surpreendente sobre o meu tal personagem favorito e com uma ponte para DC Rebirth. Dificilmente poderia ser melhor e, neste ano de super-heróis, não foi.

Ultimates (Marvel) - o título solitário da Marvel nesta lista dos meus divinais. Durante meses figurou na minha lista do favoritos do Vício. Os últimos capítulos poderiam ter sido melhores mas o trabalho de Ewing e Rochafort foi forte o suficiente para aguentar o golpe. Uma vez mais, estávamos perante uma história macro-cósmica, daquelas que apenas podem existir na mitologia dos super-heróis: heróis hiper-poderosos; vilões que fazem tremer o Diabo em pessoa; a Realidade literalmente agrilhoada por uma ameaça ainda desconhecida. Faz lembrar o trabalho de Grant Morrion na JLA mas também o de Jim Starlin em Warlock. Foi e continua a ser um dos meu títulos de eleição todos os meses. 

Wonder Woman (DC Rebirth) - e chegamos ao fim e não podíamos acabar de melhor forma, com a eterna Diana. Greg Rucka na escrita e Liam Sharp e Nicola Scott nos desenhos, têm recuperado a Princesa de Themyscira no evento DC Rebirth. Com o primeiro desenhista, Rucka descobre as mentiras por detrás da origem de Diana. Com a segunda, explora os seus primeiros anos no mundo patriarcal, numa clara alusão, inspiração e reverência ao melhor de todos no que toca à Mulher-Maravilha: o escritor/desenhista George Pérez. Se Sharp é medieval e mitológico, dando-nos uma Diana visceral e guerreira, Scott prefere a angelical e inocente, uma jovem acabada de sair da virgem ilha de Themyscira. Estes dois lados são apenas duas faces do crescimento do personagem, funcionando como testamento à sua maturação no mundo dos homens, contrapondo o paraíso de Themyscira com a realidade do nosso lado. Rucka tem conseguido exceder o seu primeiro trabalho com a Mulher-Maravilha e consolidar-se do lado dos melhores. 

O que mais gostei de 2016! Super-heróis DC e Marvel, primeira parte

No mundo dos super-heróis das duas maiores editoras do género, este foi um ano de Renascimentos e Guerras Civis. São já banais os eventos "world-shattering" e "reality-unraveling", ao ponto dos fãs (pelos menos os mais velhos... como eu) os receberem com uma elevada dose de cepticismo. Bem vistas as coisas, quando uma saga tão sísmica como Crise nas Terras Infinitas de 1986 (spoiler) pode ser desfeita em Convergence então tudo é possível. Ou seja, por maiores que sejam as mudanças sabemos que, mais tarde ou mais cedo, tudo volta ao seu estado anterior - poderá é demorar décadas. É a natureza dos super-heróis da DC e da Marvel: quanto mais mudam, mais permanecem iguais. Dito isto, este ano teve os seus altos e baixos, como é natural, e na rubrica O Vício do Mês fui dando-vos conta das minhas leituras da Eterna Novela - não sei se alguma vez chagaram a esta conclusão, mas as telenovelas brasileiras são coisa de meninos comparadas com as dos super-heróis que permanecem, algumas, há sete décadas. Depois de tantas e tantas páginas existe sempre a vontade de fazer um balanço do que mais gostei de ler. Sendo assim, bem vindos às leituras com que mais delirei em 2016 no mundo dos super-heróis da DC e da Marvel.  Começo pelos maravilhosos mas não celestiais. 

As muito, muito, muito, excelentemente boas


Cave Carson has a Cibernetic Eye (DC Rebirth) - Começou há apenas dois meses mas já reside, quentinha, no meu coração. A imprint Young Animal, da DC, promete ser uma Vertigo para esta segunda década do século XXI e a história do explorador das profundezas da crosta terrestre é um dos seus melhores títulos. Cave Carson faz parte daqueles personagens deliciosamente nostálgicos da DC das décadas de 50 e 60 que, com um twist moderno, transformam-se em algo que os autores podem explorar, ao mesmo tempo, o seu lado infantil e esotericamente adulto. O trabalho de Jon Rivera & Gerard Way, na escrita, e Michael Avon Oeming, no desenho, é, até o momento, cheio de intriga, mistério e uma pitada de noir

Dr. Strange (Marvel) - Quem diria que um dos mais antigos mas menos utilizados dos personagens da Marvel teria o sucesso de que goza hoje em dia? Existe desde da década de 60, criado por Steve Ditko e Stan Lee, os mesmos que deram ao mundo o Homem-Aranha, mas sempre teve dificuldades em suster uma revista mensal. Por causa disso, passou a ser utilizado como membro de grupos de super-heróis (Defensores e Vingadores) ou como recurso Deus Ex-Machina para eventos místicos ou outros tão catastróficos que teriam de ser resolvidos com um passe de mágica. Mas o impossível aconteceu e Jason Aaron junto com Chris Bachalo injectaram não só nova vida mas legítimo interesse no universo místico do Dr. Estranho. Para isso recorreram não só às roupagens normais das aventuras do Mestre das Artes Místicas mas também ao humor e excentricidade típicos de Jason Aaron, que nos deu também algumas das melhores aventuras dos X-Men e de Thor.

Ms. Marvel (Marvel) - quando alguém como eu, que já lê super-heróis há quase quatro décadas, consegue ficar entusiasmado com um personagem novo, alguma coisa poderá estar a correr bem. Kamala Khan é, ao mesmo tempo, parte do molde Marvel e também um (muito mais que) piscar de olho a este mundo novo de diversidade étnica e cultural - ou melhor, sempre existiu mas só agora lembraram-se de reconhecê-lo. Kamala é uma jovem muçulmana a viver em Nova Jérsia e também uma amante da velha filosofia dos super-heróis: fazer o bem e salvaguardar os fracos. No que a mim diz respeito, esta mensagem deverá sempre ser incentivada e sublinhada porque o cepticismo do mundo a isso o obriga. Criada por Sana Amanat, Stephen Wacker, G. Willow Wilson e Adrian Alphona Ms. Marvel é uma necessária lufada de ar fresco - e, para os mais pseudo, vejam lá que até ganhou prémios em Angoulême (já a podem ler, estão autorizados).

Scarlet Witch (Marvel) - A início não esperava muito mas o trabalho de James Robinson na escrita, de quem guardo boas recordações do maravilhoso Starman, espicaçou a curiosidade. A uma escala (infelizmente) menor, o autor está a fazer com a Feiticeira o mesmo que fez com o Homem das Estrelas. Não esquece o passado, antes o utiliza para moldar um futuro brilhante e interessante, cheio de idiossincrasias que não se sabia fazerem falta a este personagem. Ao mesmo tempo, usa os talentos de diferentes desenhistas em cada capítulo, para cada utilizando um estilo e aventura adaptadas, sem perder o fio da meada da história principal. O único defeito é que o plano final de Robinson, neste século de tanta oferta, não excede a vintena de capítulos.

Spider-Man (Marvel) - se existe um título que deve tudo ao escritor Brian Michael Bendis é este. Começou quando ainda fazia parte do universo alternativo Ultimate, com uma versão moderna, século XXI, de Peter Parker. Seguiu (spoiler) com a morte deste e a continuação do legado com Miles Morales, o novo Homem-Aranha do universo Ultimate. Depois de Secret Wars, este universo fundiu-se ao "normal" e Morales passou a ser parte integrante de uma herança de décadas. A linguagem é a mesma há 16 anos. O sentimento é o mesmo. Não poderia ser outro porque é o mesmo escritor desde 2000. Não há novidade, certo, mas há qualidade, coração, e o trabalho de um escritor que ama os personagens como seus filhos - e que o são. Se existe um trabalho "de autor" dentro do universo Marvel este é um deles.

Spider-Woman (Marvel) - outra surpresa à lá Dr. Strange. Um personagem que viu uma recuperação na primeira década deste século graças a Bendis mas que outros autores agarraram para este versão mais recente: Dennis Hopeless na escrita com Javier Rodriguez e Veronica Fish no desenho. Rodriguez é responsável por alguma da melhor estética e design da BD nos últimos tempos, principalmente nos cinco primeiros números deste título. Hopeless excede-se na escrita, conseguindo trazer, de forma carinhosa, os dramas de uma mãe recente ao mundo dos super-heróis. Disso o melhor exemplo é o número cinco: aliás, um dos meus favoritos do ano. Ao desenhista Rodriguez segue-se Veronica Fish que já conseguiu um capítulo 12 muito bom e que promete para o futuro.

Superman (DC Rebirth) - não é a versão New 52 mas a da DC Rebirth (a primeira vou, educadamente, esquecer). Tomasi, Gleason e Manhke estão a conseguir algo que parecia impossível acontecer: tornar interessante a vida de um Super-Homem pai. Esta versão do Homem de Aço é aquela com que cresci, a da pós-Crise, a casada com Lois Lane e, agora, com um filho, Jon Kent, uma versão nova do Superboy. A série não deixa de estar no centro do mistério DC Rebirth mas, ao mesmo tempo, dedica-se a desenvolver a relação pai/filho e a personalidade do segundo, já um dos mais divertidos novos personagens da DC. Aventura, ternura e mistério. Nada mau para um Super-Homem já com 75 anos.

O que vou lendo! - El Hijo del Legionario de Aitor Saraiba

(dedicado ao Rui com um obrigado)

Existem amigos assim. Daqueles que partilham de uma paixão connosco e que, apesar dos anos que já passámos a amar essa paixão, conseguem tirar da cartola algo que nos surpreende. A BD é a minha arte favorita, aquela a que regresso quando preciso do conforto do familiar. Mas não só. Ela ainda e sempre consegue reavivar o meu entusiasmo com algo diferente, uma linguagem ou um tema novo, uma história que não se fica pelo "been there, done that". Noutro dia, alguém passou-me para as mãos este El Hijo del Legionario de Aitor Saraiba. Não era BD mas também não era ilustração. Era um filho de ambas e, claro, algo completamente diferente. Um híbrido que não interessa classificar, apenas apreciar. Uma linguagem que o autor encontrou como a certa para a sua mensagem.

Este livro faz parte de uma já longa tradição de autobiografias produzidas usando a linguagem da BD (que, sim, não é a desta obra). Aitor Saraiba escolhe o desenho infantil, enganadoramente de primária, para contar a história de uma parte significativa da sua vida, focando-se na difícil relação com o pai e na adolescência conturbada, esta de descoberta da sexualidade e da sua inclinação profissional e artística. Ao recorrer a este tipo de ilustração a mensagem transforma-se e adquire um verniz trágico e doloroso. A evocação é óbvia, a de uma criança a expressar os seus sentimentos através do desenho escolar, mas não é menos eficaz nem tampouco menos pungente. Bem pelo contrário. É mais sublinhada e conturbada e, acima de tudo, mais clara. Mesmo os que nunca foram pais (como eu) sentirão um aperto do coração no casamento de desenho e texto que Saraiba maneja de forma exemplar nesta sua obra tão pessoal. A sensação de perca e desalinho estão bem patentes em cada traço e em cada frase. O talento do autor para descrever a sua vida com urgência e uma quasi-subjectividade (que não é possível mas tentada) é comovente e enternecedora.

Não é possível sair ileso da leitura deste livro tão pessoal e, ao mesmo tempo, tão universal na sua mensagem e no seu sentimento. Uma obra que carrega a personalidade e vivência do autor sem desculpas ou atalhos. Atrevam-se a não ficar engasgados com as páginas do evento mais doloroso de todo o livro.  

O que vou lendo! - Saga volume seis de Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Quando gostamos muito de alguma coisa e falamos muito dela o que sobra para dizer? Quando, sistematicamente, dois criadores de Banda Desenhada entregam livro após livro de puro prazer o que resta a elogiar? Quando temos quase a certeza que este é dos melhores livros a ser publicado actualmente em qualquer arte e formato como podemos convencer, por outras e diferentes palavras, a que os leiam? Quem sabe uma das formas seja olhar para a contra-capa deste sexto volume de Saga e ver que até Alan Moore, mágico ranzinza, lendário escritor de BD, consumado artista de múltiplas palavras, tece elogios. Ou então faz-se algo revolucionário e nunca tentado: lê-se este sexto volume, adora-se este sexto volume e fica-se muito zangado por este sexto volume acabar cedo demais e termos de esperar muito pelo próximo.

Brian K. Vaughan e Fiona Staples parecem não cansar-se de ser imaginativos. As suas mentes são músculos exercitados duas a quatro horas por dia. Mas por mais delirantes que fossem os fluidos criativos deste dupla (e como o são!) existe também algo de ininteligivelmente adulto na escrita e nos desenhos. Não sei se vem do enredo, da sensibilidade, das palavras, mas no meio da fantasia exuberante existe um tecido inquebrável de maturidade. Existe um casal de pais que procuram a filha perdida nos interstícios de uma galáxia longínqua. Esses pais são algo como um Romeu e uma Julieta inter-galácticos, originários de raças em perpétua guerra. A Saga do título é a da miúda, a narradora desde o primeiro quadradinho, mas também é, no caso deste sexto volume, a dos pais, enquanto procuram de forma desenfreada e desesperada pela filha.

A história de Saga não fica-se por estes três personagens. Existe uma multitude de diferentes figuras que se multiplicam pelas páginas e, por vezes, inteiros capítulos. Figuras que são deliciosamente desenhadas de formas tão diferentes por Fiona e que, acima de tudo, sublinham o carácter multi-cultural, multi-sexual, multi-personalidade, desta BD (escusado será dizer que não é para crianças). Aliás, uma das recorrentes temáticas é a necessidade de afirmar que o universo é composto por esta miríade de pessoas tão diferentes umas das outras. E esta é mais uma das formas em que Saga é maduro.

Não tenho vergonha, pejo e reticências em gritar bem alto que esta é das melhores BD's ...não... melhores livros publicados actualmente. Felizmente que está a ser publicado em português de Portugal pela GFloy e numa edição que até é melhor que a dos EUA - as que compro desde o primeiro volume.

O Homem que é normal - Terras dos Sonhos e L'Homme Qui Marche de Jiro Taniguchi


Jirô Taniguchi vê o mundo como todos nós e, ao mesmo tempo, de forma tão singular. Ler um livro deste autor japonês de Banda Desenhada é mergulhar no mundano, no de tal forma corriqueiro que perguntamo-nos: só isto? Onde está a poesia? A grandiloquência? A arte? Está lá tudo, não duvidem, disfarçado pela patina do normal, do banal dos dias que passam sem notícia digna de jornal. Pode ser apenas um homem que encontra um cão, decide levá-lo para junto da sua esposa, cuidam dele e, anos mais tarde, o animal morre. Pode ser um homem que ama caminhar ao ponto de perder um dia de trabalho por causa disso. 

O delicioso passar das horas nos dias calmos pode parecer pouco interessante para qualquer obra de arte ou de entretenimento. Uns lêem Taniguchi e nele não vêem nada de especial. Para mim, é exactamente nesta calmaria que ele se enche de mestria e de arte. Os quadradinhos e as páginas sucedem-se de forma fluída e enchem este leitor de paz e de alegria por poder ver e rever algo maior no simples abanar das folhas das árvores ou de um encontro fortuito. O maior não tem necessariamente de ser divino ou de ser uma epifania. Se acreditam no banal e no real podem encontrar em Taniguchi alguém que partilha da vossa poesia. Mas se acreditam numa força mais pura e animal, a da mãe natureza, também podem ler Taniguchi e sentirem-se preenchidos. Nessa mistura que é, no fundo, o de encontrar o belo na rotina e nos pequenos prazeres, reside muito do que faz este autor uma das enormes referências da 9.ª Arte. 

Adorado em França, onde foi descoberto para a Europa, a sua sensibilidade é um pouco a deste nosso continente, mas sou dos que acreditam que ela deve-se  muito mais ao país de origem, à leveza com que interpretam e vivem o dia-a-dia, à aproximação que fazem entre o natural, o religioso e o tecnológico. Taniguchi destila esse saber-estar de forma cândida. Um mestre em todos os sentidos que atribuo à palavra e estes dois livros são prova disso: Terra dos Sonhos, publicado em Portugal pela Levoir, e L'Homme que Marche, editado em Portugal em 2005 numa parceria da Devir com o Correio da Manhã.

Dois lados do mundo - A Dança das Andorinhas e Summer Blonde.



O que escrevo de seguida nada tem a ver com a qualidade destes dois livros de BD. São ambos superiores exemplos de como esta Arte é capaz de narrativas ímpares. São exemplos da enorme variedade de estilos narrativos e dos pontos de vista cultivados pelos muitos autores que a escolheram como voz. A Dança das Andorinhas de Zeina Abirached e Summer Blonde de Adrian Tomine não poderiam ser, como prova do que acabo de dizer, mais diferentes. Não falo do óbvio, do estilo de desenho ou da forma como parte a história nos quadradinhos: o primeiro tem uma abordagem menos convencional e o segundo uma aparente linearidade. Falo antes das realidades que cada autor escolhe abordar, sem duvida aquelas que cada conhece e experimenta. 

A Dança das Andorinhas é um livro autobiográfico no seguimento de obras como o mundialmente conhecido Persépolis. Aborda temas e conflitos similares, neste caso a guerra no Líbano na década de 80, onde a autora nasceu e viveu parte da sua infância. Summer Blonde, por sua vez, colecciona quatro histórias de Adrian Tomine para a revista Optic Nerve, cada qual focando jovens urbanos com problemas que constituem variações de depressão, dificuldades sexuais e incapacidade de relacionamentos pessoais.

O local onde nascemos é a primeira (e maior) sorte da nossa vida. Viver a infância ou adolescência em palcos de guerra como o Líbano cria-nos espaço no nosso tempo para termos uma abordagem diferente. Zeina e a sua família, na narrativa deste livro, estão confinados a um pequeno quarto da sua casa. Apenas refugiados nele podem sobreviver a snipers e bombardeamentos constantes que ocorrem nas ruas. Cada acto, por mais simples e corriqueiro que seja, é difícil. Por isso agarram-se ao mais importante, à vida, e nela constroem um muro de esperança de sobrevivência, seu e dos que amam. Em Summer Blonde, os adolescentes ou jovens adultos (no conceito deste nosso século XXI) vivem em conforto relativo e imersos em problemas existenciais que advêm da incapacidade de lidar com um mundo aparentemente pacífico. Não tenhamos duvidas que ambos lidam com conflitos entre pessoas, apenas a escalas de desespero e violência completamente diferentes. Não existe invalidação de um em prol de outro (até porque diminui ambos), mas é interessante colocar em perspectiva as dificuldades num mundo de paz quando comparado com um mundo de guerra. Num existe vida, noutro apenas morte. Em ambos existe redenção e esperança como o ultimo motivador mas num ela funciona efectivamente como supremo conforto. 

Este pequeníssimo parágrafo nada é mais que um ponto de vista pessoal e inconclusivo.  A qualidade destas obras nada tem a ver com o que escolhem narrar. As duas são superiores. Zeina e Tomine são autores em todos os poros do seu corpo e espero que continuem a trabalhar no ponto geográfico das suas vidas, para que assim possamos desfrutar da riqueza dos seus pontos de vista. 

(PS - Um enorme parabéns à Levoir por mais esta colecção de Novelas Gráficas).

Normal é bom! - It's a Good Life, If You Don't Weaken de Seth e Terra de Sonhos de Taniguchi



Escapismo é bom. A capacidade que uma obra tem em entreter-nos é uma das artes maiores. Na larga maioria das vezes, gostamos que esse entretenimento seja cheio de grandes aventuras, mundos fantásticos, acção desenfreada. É a forma que temos de viver algo diferente, mais emocionante. Mas nem todas as obras precisam de grandiloquência para que possam entreter-nos. Algumas podem ser suaves, silenciosas, meditativas e nostálgicas, mais parecidas com o nosso dia a dia do que julgamos necessário serem. As outras são boas mas, por vezes, viciantes, como uma droga alucinogénica. As que procuram ser pouco mais que o relato do mundano, descodificando-o, interpretando-o, são muitas vezes viagens ainda maiores e mais relevantes. É o caso destas pequenas vitórias da 9.ª Arte: It's a Good Life, If You Don't Weaken de Seth e Terra de Sonhos de Jiro Taniguchi.

A simplicidade é uma das maiores artes, conseguida sem esforço pela mão destes dois mestres da Banda Desenhada. Não seria a BD elevada ao patamar que merece se mais leitores conhecessem a destreza com que estes dois artistas manejam a combinação da palavra e da imagem? Falo destes mas existem tantos e tantos mais. Ambos escolhem o relato autobiográfico (ou semi) para escreverem cartas acerca das mais simples lições de vida, experiências passadas sobre o calor, a chuva ou a neve dos dias preguiçosos ou ocupados. Seth escolhe uma viagem de descoberta que empreendeu para conhecer um cartoonista obscuro do New Yorker, projetando não só a sua própria vida mas também um belíssimo elogio ao anonimato de quem vive no normal dos dias. Por detrás de um desenhista esquecido em revistas que julgam-se mais importantes do que na realidade são, esconde-se um homem difícil de conhecer mas que foi amado e viveu feliz longe do holofote. Um homem que poderia ter sido mais (?) mas que foi melhor e mais feliz (?). Na incógnita de qual é a verdade reside a verdade ela mesma. 

No mais recente volume desta extraordinária segunda leva da coleção Novela Gráfica da Levoir voltamos a ter um dos meus autores de eleição: Jiro Taniguchi (este ano entregou-me umas das obras da minha vida: Quarteirão Longínquo). Neste volume existem duas histórias: uma dedicada ao amor de um casal pelo seu cão e família de gatos; outra sobre a obsessão de um montanhista pelo Annapurna e a benção que tem de um outro tipo de felino. É impossível não ficar impressionado pela qualidade do trabalho deste autor japonês. Através do desenho e da narração dos mais simples actos da vida quotidiana, Taniguchi eleva essa normalidade não ao divino mas à da experiência completa. Ensina-nos que, no passeio com o nosso cão, no amor ao nosso gato, pode encerrar-se a plenitude de uma vida bem passada. Desenganem-se aqueles que acham que o artista entrega elevação operática ao dia a dia. Nada disso. Tudo é normal. Assustadoramente normal. E, no caso deste obra e da anterior, normal é bom.

O que vou lendo! - Hitler de Shigeru Mizuki

O nome Hitler não é fácil de escrever. Mais ainda se estamos a tentar produzir uma obra de arte sobre a sua vida. É arrebatadoramente compreensível e claro que assim seja. Estamos a falar de uma das mais importantes figuras do século XX, um homem movido por um sadismo titânico e que arrastou um povo inteiro a partilhar da sua visão e dos seus actos. Todos sabemos do Holocausto, a sua mais tenebrosa herança, todos sabemos das profundezas abissais da moralidade e dos píncaros de crueldade a que chegou. Contudo, poucos tiveram o desplante de fazer o que este mestre japonês do Mangá ousou: contar a história de Hitler, o homem.

Estremecemos quando ouvimos estas duas palavras juntas. Para alguns de nós parece que o nome Hitler representa a forma física do Demônio, trevas feita carne. Mas não é assim nem nunca o foi. Nasceu e cresceu como qualquer um de nós, e movido por um resoluta vontade, por preceitos tenebrosos e maléficos (aos nossos olhos, não aos dele), conseguiu, passo a passo, vitória a vitória, chegar ao poder absoluto que lhe conhecemos e que arrastou o mundo inteiro no maior conflito armado da História. É disto que Shigeru Mizuki fala, destas vitórias, desses passos. Paulatina e documentalmente, o Mangaka explana a forma como este homem, ajudado por muitos, consegue chegar ao posto que ocupou no conto da Humanidade. Ele não plantou-se ali por acaso, não aconteceu do dia para a noite e de forma mística. A sua caminhada foi longa, planeada e pode repetir-se (sempre). Ao escolher focar o homem, os seus amores, as suas paixões, as suas frustrações, os seus fanatismos, ao escolher aludir de forma tangencial os tenebrosos eventos da 2.ª Grande Guerra (sim, não há imagens de campos de concentração), ao escolher antes as conspirações e jogadas que o tornaram líder do Reich, Mizuki prefere, de forma consciente, construir um alerta. Tudo isto pode voltar a acontecer. As circunstâncias podem voltar a repetir-se.

Esta é, não tenhamos dúvidas, uma obra maior da Literatura. O Mangá, insistentemente, prova que é uma das formas mais elevadas da Banda Desenhada, nada devedora às suas congéneres Europeia e Estado-Unidense. Shigeru Mizuki recorre à caricatura dos seus personagens, alicerçados, contudo, em ambientes hiper-reais,  para sublinhar a personalidade dos intervenientes na História de Hitler. Usa um lugar comum dos Mangá, o desenho fofo dos personagens, para intensificar a mensagem, transformando esta obra em algo que apenas pode acontecer na 9.ª Arte. Uma obra essencial, sem dúvida (obrigado, Paulo).

The Fade Out de Ed Brubaker e Sean Philips



Diz-se que o nosso verdadeiro eu é uma mistura do que nós pensamos de nós mesmos, do que os outros pensam de nós e do que nós pensamos que os outros pensam de nós. Eu prefiro as coisas ditas de outra forma. Que a verdade sobre o que nós somos está escondida por detrás de histórias: daquelas que nós contamos sobre nós mesmos; as histórias que os outros contam de nós; e, quem sabe, as histórias que construímos para satisfazer as outras histórias que contam sobre nós. Não possuímos uma memória infalível e nem sempre contamos a verdade. Os outros não conhecem cada pormenor da nossa experiência. Na lenta construção dessa "mentira" vai sendo contada uma História que acaba por solidificar-se na nossa vida passada e no nosso destino. Os gregos chamavam-lhe tragédia. Essa palavra acabou por evoluir para vários significados mas que sumarizam a existência de um caminho que parece traçado deste que nascemos. 

Os três actos de The Fade Out, continuação da já longa colaboração entre o escritor Ed Brubaker e o desenhador Sean Philips (juntos fizeram Seeker, Criminal, Fatale, et al), falam de histórias e de como elas acabam por tomar controlo da realidade, acabam por transformar-se na verdade. Sabemos que isso não é novidade, que a História é contada pelos vencedores, que por mais que queiramos perceber o que realmente ocorreu nada nunca será claro. O que é maravilhoso neste The Fade Out é a forma como Brubaker e Philips (perdoem-me o trocadilho) contam a história. Retrocedem no tempo, para uma época talhada à sua sensibilidade, os anos 40, os anos do noir, e deslocam-se no espaço para a industria do Cinema de Hollywood, para a sua Era de Ouro, a de Bogart, a de Bacall, a de Gable. Os protagonistas são dois homens, ambos escritores, uma actriz assassinada, uma outra actriz bem viva e um conjunto de figuras e personagens da industria que tentam construir uma mentira que ofusque a verdadeira face de uma arte que, na realidade, não existe. Quer dizer, o produto final, o filme, ele existe e é perene, mas para que se forme no ecrã é necessário construir toda uma tapeçaria de imagens e histórias falsas para que a ilusão, a magia e a eternidade do Cinema construam-se. Mentiras sobre mentiras sobre mentiras. Ou melhor, a verdade que fica.

Brubaker e Philips constroem um labirinto, este não em Creta mas em Hollywood, onde o Minotauro dificilmente é descoberto e onde o fio de Ariadne seria  a verdade mas não existe. Uma das melhores colaborações entre ambos, mesmo depois de tantas e tão boas. Uma história sobre histórias, de como um país, uma civilização, ergue a infraestrutura da sua História numa cama de histórias que nada correspondem à verdade. Um belíssimo livro em três actos.