Disse-o ontem aqui no Blogue e não tenho vergonha de o repetir: as séries de TV continuam num pico criativo invejável. Elas eram o parente pobre do audiovisual, mas, de há 20 anos a esta parte, têm igualado e, em alguns casos, superado o que de melhor se faz e fez no Cinema.Tomem como exemplo estas duas que vos trago hoje: The Good Place (da NBC e disponível na Netflix) e Euphoria (da HBO). Duas obras francamente diferentes, mas capazes de dar uma qualidade de escrita e/ou de realização apenas reservada aos melhores artistas da praça.
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Love, Death & Robots na Netflix
No passado dia 15 de Março deste ano da graça de 2019 estreou, no serviço de streaming da Netflix, a série de animação para adultos Love, Death & Robots. Produzida por Joshua Donen, David Fincher, Jennifer Miller e Tim Miller, é uma compilação de 17 episódios antológicos com uma temática informal claramente expressa pelo título. De duração variante e geralmente curta (no máximo 20 minutos e no mínimo de 5), os 17 capítulos acompanham diferentes situações, personagens, épocas e estilos de ficção para pintar um quadro geralmente cínico, inteligente, aterrorizante e, em alguns episódios, cheio de humor (ou não tivesse o realizador de Deadpool à frente da mesma). Num registo quase sempre distópico, é um Black Mirror light, no melhor sentido desta classificação.
Séries de TV Favoritas de 2018
Juro ser a última lista deste tipo. Sabem... nunca percebi a razão porque fazem listas dos melhores do ano no início de Dezembro. Verdade que não sou profissional destas coisas da Arte, mas acho (que acho) que até ao lavar dos cestos ainda é vindima. Pode ser que no último mês do ano ainda leia um livro, veja um filme ou oiça uma música que me cative mais que todas as outras desse ano. Por outro lado, quase ninguém lê este Blog e o meu gosto não influencia listas de compras de Natal de ninguém. É assim e não é de outra maneira.
Vamos lá então à listinha de séries de TV que mais gostei de ver em 2018.
Titans, temporada 1, episódios 2 a 4
Já falamos aqui do primeiro episódio da série inaugural do serviço de streaming da DC Comics, Titans, que interpreta, com um tom maduro e negro, a famosa BD criada na década de 80 pelo escritor Marv Wolfman e pelo desenhador George Pérez. À altura, foi um dos maiores sucessos comerciais da DC, competindo e, por vezes, superando o sucesso que eram os X-Men da Marvel. Não deixa de ser, ao mesmo tempo, surpreendente e entusiasmante que a editora escolha estas personagens como porta-estandarte do seu serviço ao estilo Netflix. O primeiro episódio já tinha sido um bom começo, mas estes três seguintes parecem solidificar a série de TV como uma tentativa séria em produzir um programa uns patamares acima do costumeiro produto de super-heróis.
Titans temporada 1, episódio 1
No início a década de 80, a DC Comics encontrava-se em sérios apuros. As suas personagens, apesar de conhecidas, estavam a ser trucidadas pela Marvel nas vendas. O que tinha se iniciado cerca de 20 anos antes, atingira o ponto de ruptura em 1978, com o cancelamento de inúmeros títulos - num momento que ficou conhecido como a DC Implosion. Eis que aparecem o escritor Marv Wolfman e o desenhador George Pérez, ambos vindos da Marvel. O segundo já carregava consigo uma aura de excepção e era seu sonho desenhar a Liga da Justiça. Contudo, enquanto essa oportunidade não se apresentava, decidiu juntar-se a Wolfman para recriar um conceito antigo da DC: os Teen Titans (Turma Titã).
The Deuce é a nossa série de TV favorita por causa disto...
A primeira cena do primeiro episódio de The Deuce, do canal HBO, diz tudo o deveremos saber acerca do tema desta série de TV.
Guerra dos Tronos - contar histórias não desapareceu com os nossos avós (e ainda bem!)
É incrível como contar histórias ainda nos comove e preenche. Mesmo numa sociedade cada vez mais afastada da natureza, cada vez mais tecnológica. Mundos imaginários com dragões, princesas, príncipes, vilões e senhores das trevas. Mesmo que a forma seja mais adulta do que a que ouvíamos quando éramos crianças. A aparente simplicidade das narrativas vicia mas, hoje em dia, a uma escala global. Antes esperávamos pelo boca-a-boca, pela tradução do livro, pela episódio passar àquela hora na TV. Hoje em dia, vemos todos ao mesmo tempo, longe uns dos outros e, logo a seguir, temos necessidade de partilhar o entusiasmo na Internet, nas redes sociais. A série Guerra dos Tronos não é a primeira mas é a primeira a esta escala.
Muito se deve a uma arte que (na minha opinião) faz parte de todas as outras artes e que deveria ser considerada uma arte em si mesma: a de contar histórias. A habilidade com que uns poucos manejam os truques e cativam uma audiência é uma maravilha de se ver. Neste caso falamos, primeiro e sempre, de George R. R. Martin, um residente dos EUA que tornou-se mestre desta tradição milenar. Já são muitas as considerações sobre a capacidade deste senhor em tecer um bom conto. Eu partilho de muitas dessas opiniões. Martin, acima de tudo, começa por cativar-nos com personagens bem construídas e com as quais desenvolvemos uma relação de empatia, simpatia e amizade. Antes de passar à acção e às mortes ele consegue com que tenhamos sentimentos por cada um deles. Por vezes, bem definidos, como o amor ou o ódio, outras vez mais ambíguos, como se não soubéssemos se estamos a ler sobre um herói ou um vilão. As personalidades e motivações são delineadas e descritas ao pormenor, como se (lá está) estivéssemos a conhecer alguém. Por causa disso, relacionamo-nos com elas. Por causa disso (e mais umas coisas, já lá vou), sofremos de ansiedade com o seu destino.
O curioso de Martin é que muitas das suas personagens principais têm um tipo de impedimento, físico ou social. Tyrion é anão. Jon Snow é bastardo. Daenerys é mulher. Martin, aliás, assume o seu feminismo nesta personagem mas não só: também em Sansa, em Arya, em Brienne e mesmo Cersei. Todas vivem num mundo misógino e de expectativas castradas. O curioso é que, na fase da história em que a série de TV se encontra, três delas são as governantes do continente imaginário de Westeros. Após tantas provações são elas que lideram e governam (bem ou mal). Por outro lado, existem as personagens que passaram da força para a fraqueza, como é o caso de Jaime Lannister, cuja perspectiva mudou quando perdeu a mão direita, a que lhe permitia ser um espadachim único. Depois de uma longa jornada, Jaime atinge o seu apogeu na primeira batalha do seu exército contra o dragão de Daenerys, ao não a abandonar e ao estar pronto para se sacrificar. A lição da humildade é, para Martin, importante.
O mundo que o escritor construiu é demasiado real. A imprevisibilidade é comum. A surpresa da morte de personagens que julgávamos importantes tem cativado os leitores e espectadores. A ansiedade que cada nova cena provoca é impressionante. Em muitas outras histórias estamos totalmente seguros que nada iria acontecer à nossa personagem favorita. Quem é que acha que o Super-Homem ou o Indiana Jones vai morrer no final? Pelo menos permanentemente. Na Guerra dos Tronos estamos sempre agarrados à cadeira com medo que seja desta vez que Tyrion ou a Daenerys (ou mesmo o dragão) não se safem. E muitas vezes esse sentimento acontece nos dois lados de uma mesma batalha. Tão depressa não queremos que morra o Bronn como o Drogon. Martin perdeu tempo a explorar cada personalidade, a construir empatia com cada personagem. Envolveu-nos de tal forma que somos chantageados a sentir cada morte e cada ameaça constantemente. Não há descanso.
Porque estamos a acompanhar um livro (e uma série) muitas das personagens cresceram em frente dos nossos olhos. Acompanhamos cada experiência de Sansa, de Arya, de Jon, de Daenerys, ao longo de muitos episódios, capítulos e anos. Como se estivéssemos em confidência com o nosso melhor amigo. Como na vida real. Apercebemo-nos, mesmo sem o racionalizar, que as acções e personalidades são diferentes hoje do que eram ontem, por razões que sentimos como claras. Relativizamos cada opção, muitas vezes as mais criminosas (Tyrion mata o pai, Arya é uma assassina). Uma das minhas favoritas é Sansa, que começa como uma típica princesa dos contos de fada, suspirando por um príncipe e por uma vida de sonho num longínquo reino maravilhoso. Mas o seu príncipe é um psicopata e o reino um ninho de víboras, umas das piores sendo a sua sogra. Aliás, Cersei e Sansa são o espelho uma da outra. Ambas sonharam com uma vida de Branca de Neve mas a realidade impregnou-se devagarinho e negra. Mas enquanto Sansa parece ter aprendido a apoiar-se na família e a não se ser tão má quanto as suas experiências, Cersei afasta-se até do irmão, quem mais a ama no mundo, e torna-se numa das mais atemorizantes personalidades de Westeros. Esta lenta a progressiva construção de personagens é apenas possível em literatura e na sua herdeira, a série de TV.
A arte de contar histórias é uma das mais antigas e mais importantes. A tecnologia não a matou. Está bem viva. E a Guerra dos Tronos é disso prova.
O curioso de Martin é que muitas das suas personagens principais têm um tipo de impedimento, físico ou social. Tyrion é anão. Jon Snow é bastardo. Daenerys é mulher. Martin, aliás, assume o seu feminismo nesta personagem mas não só: também em Sansa, em Arya, em Brienne e mesmo Cersei. Todas vivem num mundo misógino e de expectativas castradas. O curioso é que, na fase da história em que a série de TV se encontra, três delas são as governantes do continente imaginário de Westeros. Após tantas provações são elas que lideram e governam (bem ou mal). Por outro lado, existem as personagens que passaram da força para a fraqueza, como é o caso de Jaime Lannister, cuja perspectiva mudou quando perdeu a mão direita, a que lhe permitia ser um espadachim único. Depois de uma longa jornada, Jaime atinge o seu apogeu na primeira batalha do seu exército contra o dragão de Daenerys, ao não a abandonar e ao estar pronto para se sacrificar. A lição da humildade é, para Martin, importante.
O mundo que o escritor construiu é demasiado real. A imprevisibilidade é comum. A surpresa da morte de personagens que julgávamos importantes tem cativado os leitores e espectadores. A ansiedade que cada nova cena provoca é impressionante. Em muitas outras histórias estamos totalmente seguros que nada iria acontecer à nossa personagem favorita. Quem é que acha que o Super-Homem ou o Indiana Jones vai morrer no final? Pelo menos permanentemente. Na Guerra dos Tronos estamos sempre agarrados à cadeira com medo que seja desta vez que Tyrion ou a Daenerys (ou mesmo o dragão) não se safem. E muitas vezes esse sentimento acontece nos dois lados de uma mesma batalha. Tão depressa não queremos que morra o Bronn como o Drogon. Martin perdeu tempo a explorar cada personalidade, a construir empatia com cada personagem. Envolveu-nos de tal forma que somos chantageados a sentir cada morte e cada ameaça constantemente. Não há descanso.
Porque estamos a acompanhar um livro (e uma série) muitas das personagens cresceram em frente dos nossos olhos. Acompanhamos cada experiência de Sansa, de Arya, de Jon, de Daenerys, ao longo de muitos episódios, capítulos e anos. Como se estivéssemos em confidência com o nosso melhor amigo. Como na vida real. Apercebemo-nos, mesmo sem o racionalizar, que as acções e personalidades são diferentes hoje do que eram ontem, por razões que sentimos como claras. Relativizamos cada opção, muitas vezes as mais criminosas (Tyrion mata o pai, Arya é uma assassina). Uma das minhas favoritas é Sansa, que começa como uma típica princesa dos contos de fada, suspirando por um príncipe e por uma vida de sonho num longínquo reino maravilhoso. Mas o seu príncipe é um psicopata e o reino um ninho de víboras, umas das piores sendo a sua sogra. Aliás, Cersei e Sansa são o espelho uma da outra. Ambas sonharam com uma vida de Branca de Neve mas a realidade impregnou-se devagarinho e negra. Mas enquanto Sansa parece ter aprendido a apoiar-se na família e a não se ser tão má quanto as suas experiências, Cersei afasta-se até do irmão, quem mais a ama no mundo, e torna-se numa das mais atemorizantes personalidades de Westeros. Esta lenta a progressiva construção de personagens é apenas possível em literatura e na sua herdeira, a série de TV.
A arte de contar histórias é uma das mais antigas e mais importantes. A tecnologia não a matou. Está bem viva. E a Guerra dos Tronos é disso prova.
Guerra dos Tronos: com 10 minutos assim...
Como seria de esperar para quem lê este Blog, a probabilidade de eu ser fã da série de TV Guerra dos Tronos era elevada. Para que as minhas credenciais geek fiquem totalmente carimbadas, fui primeiro fã dos livros. Já sabia da existência d'As Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin antes da publicação, em 2007, do primeiro volume pela Saída de Emergência, mas foi com esta editora que comecei a devorá-los (leiam aqui o que escrevi à altura, com ainda menos qualidade de escrita e um gosto imberbe pela obra).
Sou daqueles que preferia que Martin tivesse acabado esta obra e não estivesse a "lê-la" na série de TV. Contudo, com a qualidade que tem demonstrado, é uma irritação mínima (mas não totalmente apagada). Mas imaginem como se sentem os que começaram a ler as aventuras de Tyrion, Daenerys, Jon Snow, etc., quando o escritor publicou o primeiro volume da saga em 1996. Vinte anos depois ainda não sabem do fim da história e vão descobri-lo numa série de TV.
Sim, o episódio quatro da sétima temporada, agora em exibição, foi maravilhoso e empolgante. Principalmente os últimos dez minutos, os da batalha entre as forças (a partir de agora há spoilers, portanto, fujam os que ainda não viram o episódio) de Daenerys e de Jamie/Cersei Lannister. Dez minutos em que era impossível não estar sentado na beira do sofá enquanto o coração batia a mil, preocupado com o destino das muitas personagens que aprendemos a adorar ao longo destes anos todos. Um verdadeiro testamento à qualidade da escrita de Martin e dos que fazem a série de TV.
Houve o glorioso uso de Drogon, o gigantesco dragão de Daenerys, cuja chama incandescente varria o exército de Jaime Lannister. Houve a batalha sangrenta e incrivelmente violenta, como raramente aparece no Cinema e muito menos na TV. Houve a pirotecnia e o soberbo uso de efeitos especiais. Mas houve muito mais que isso e finalmente chego ao que vos quero dizer.
A cena começa nos diferentes diálogos de Jaime e Bronn com outros personagens mas principalmente com o jovem cavaleiro Dickon. A troca de palavras centra-se no facto da guerra não ter nada de glorioso, ao contrário do que professam os contos de cavalaria e a gabarolice dos cavaleiros (tema recorrente em George Martin). Falam do facto de Dickon ter morto ou visto morrer companheiros de caçada, outra característica inglória e desonrosa da guerra e da luta pelo poder. Estas afirmações sublinham a ideia de ausência de maniqueísmo simplista na narrativa de Martin, onde existem pessoas completas e ambivalentes em ambos os lados. A conversa funciona como prelúdio ao que se seguiria.
O escritor (ou escritores) tem realizado um extraordinário trabalho para que leitores e telespectadores estivessem preparados para empatizar com os dois lados desta batalha. Podemos roer as unhas em cada momento, num duelo esperança/receio de que alguém sairia morto no final (não esquecer que Martin tem feito gala de que "nenhuma personagem está a salvo", aumentando o nosso nível de ansiedade). Por um lado, queremos que Daenerys vença, que Drogon faça terra queimada do campo de batalha, mas por outro não queremos que Jaime ou Bronn sejam sacrificados (nem o dragão, já agora, que esteve perto de morrer).
O rosto e olhar de Tyrion são um espelho desta realidade. Preocupa-se ao mesmo tempo com o irmão e com Daenerys. Esse olhar espelhava a dicotomia que sentia ao ver uma batalha terrivelmente sangrenta. Pessoas calcinadas e nada mais que cinzas sopradas pelo vento. Violência desmedida. Não há glória ou honra nas batalhas e na guerra. Só nos contos delas. Guerra é inevitável. Honra e Glória é apenas para os que a tentam vender aos desgraçados que dão o corpo por ela.
Jaime, por seu lado, prova que evoluiu como pessoa desde o primeiro episódio. Não abandona a batalha e quase (?) que dá a vida pela vitória e pelos companheiros de batalha. Faz lembrar o comentário da Diana (a Mulher-Maravilha) aos generais ingleses da 1.ª Guerra: que os verdadeiros generais estão junto com os seus soldados e não refugiados na distância e conforto das salas de mapas.
Dez brilhantes minutos que gritam bem alto pela qualidade da escrita, pela realização, pela alma e pelo planeamento desta obra. Aplausos de pé!
Levantem as mãos aos céus. A temporada das séries de TV finalmente começou.
Estava com medo que a Era de Ouro podia estar a acabar. Desde o início do século XXI que uma das narrativas mais estimulantes da modernidade, a da série de TV, tem oferecido pérolas atrás de obras-primas. Os que lêem este blog mais atentamente já devem ter percebido as minhas favoritas: The Wire; The Sopranos; Breaking Bad; Guerra dos Tronos - listadas por assumida ordem de preferência (apenas uma nota para sublinhar que, antes destas, também houve Seinfeld e Twin Peaks).
O ano de 2017 andava pobre. Séries mais leves como as do Universo DC Comics da CW (Arrow, Legends of Tomorrow, Supergirl, Flash) andam pouco estimulantes, mesmo repetitivas, ao ponto de, excepto pela última, já as ter largado. Existiram outras mais interessantes como The Night Manager ou o prazer pop que é a portuguesa Sim, Chef, mas não enchiam-me as medidas. Faltava um enlevo. O não aguentar mais não ver o próximo episódio.
Eis que, num espaço de poucas semanas, o panorama muda por completo. Começa a terceira temporada de Fargo, a segunda de Sense8 e a novidade American Gods - também foi lançada a sexta temporada de Veep, mas já falei tanto desta que parece-me desnecessário chover no molhado.
Começo pela última, a única com apenas dois episódios lançados para um total de oito desta temporada: American Gods. Baseada no livro homónimo de um dos meus autores favoritos, Neil Gaiman (o mesmo do essencial Sandman), à altura tinha entusiasmado com as mesmas temáticas (e manias) da lendária obra de BD, de deuses e humanos a co-habitarem um mundo onde os segundos pouco uso já fazem dos primeiros. Era a história de Shadow e Wednesday, dois companheiros de viagem pouco amistosos um para com o outro (não faço nenhum spoiler para não estragar quem não leu o livro, mas aconselho-o). A série é produzida e escrita por um conhecido "monstro" da TV, Bryan Fuller, o mesmo da tenebrosa Hannibal. A conjugação deste dois homens de singular visão artística promete (depois de ver apenas o primeiro episódio) algo muito especial e único. Adulta, sangrenta, quente e cheia de deuses esquecidos pela fé.
Sense8 estreou todos os 10 episódios na Netflix no passado dia 5 de Maio e é, oficialmente, o vício do mês. A história dos sensates, um grupo de oito pessoas espalhadas pelo mundo que partilham de uma poderosa e complexa ligação extra-sensorial e emocional é das minhas maiores drogas narrativas dos últimos tempos. A complexidade e profundidade dos muitos personagens, a robustez das relações e uma realização de ritmo viciante torna-a, no que a mim diz respeito, impossível de largar. As Irmãs Wachowski e J. Michael Straczynski conseguiram criar um universo palpável mas, acima de tudo, com personagens construídos no limite do real, capazes de emocionar velhos empedernidos.
Em último mas, decididamente, não a menos importante, Fargo. No terceiro parágrafo citei as minhas séries de TV favoritas de sempre. Faltou esta que, tendo em consideração as duas temporadas e um terço que já saíram, está lá em cima com o nirvana que são The Wire e The Sopranos. Noah Hawley, o escritor, consegue extrapolar da atmosfera construída pelos Irmãos Coen no filme em que é baseada a série e edificar algo digno da mais alta literatura. Tem conseguido captar actores conhecidos da 7.ª Arte como Martin Freeman, Kirsten Dunst e, nesta, Ewan McGregor (a fazer o papel de dois irmãos gémeos) mas esta obra é muito mais que isso. É uma cinematografia impecável que ombreia com os melhores filmes. É um argumento complexo e cheio do humor gelado do estado do Minnesota, onde a acção ocorre. É, acima de tudo, a prova de que as séries de TV não são, decididamente, o que eram no tempo dos nossos pais e e avós.
Melhor de 2016 do Acho que Acho: Música, Cinema, BD, TV
Durante as duas últimas semanas falamos do que mais gostamos, do que nos deu prazer neste ano de 2016. Falamos de BD de super-heróis, de BD e álbum/TPB, de Cinema, de Música e de Séries de TV. Em baixo, podem seguir o link para cada uma das escolhas.
As nossas 10 Séries de TV de 2016
Primeiro, foi o melhor de 2016 para BD de super-heróis. Depois Música e Cinema. A loucura não pára quando achamos que achamos que vimos umas coisas giras e queremos falar sobre elas. Hoje são as séries de TV, essa forma narrativa que cresceu (e muito) no século XXI, produto excelência de uma sociedade do torrent, do streaming, do binge-watching. Em suma, da sociedade da internet. Seguem as nossas 10 escolhas.
Já alonguei-me aqui sobre aquela que foi a melhor temporada de uma série já de si extraordinária e a melhor que vi em 2016. Tudo disponível na Netflix.
Game of Thrones
Muito pouco posso acrescentar à série fenómeno do momento. Li primeiro os livros e esperei ansiosamente pela passagem ao pequeno ecrã. Até o momento, não só é uma excelente adaptação como uma obra com mérito por si mesma e, já agora, uma das melhores feitas para TV. Esta temporada foi a primeira que adiantou-se aos livros (sim, sou desses que está bastante chateado com o George R. R. Martin). Apesar disso pude apreciá-la sem despeito ou rancor e acabou por ser uma das suas melhores temporadas. É esperar que o final esteja em acordo com o nível elevado a que a HBO, produtora, habituou-nos.
Muito pouco posso acrescentar à série fenómeno do momento. Li primeiro os livros e esperei ansiosamente pela passagem ao pequeno ecrã. Até o momento, não só é uma excelente adaptação como uma obra com mérito por si mesma e, já agora, uma das melhores feitas para TV. Esta temporada foi a primeira que adiantou-se aos livros (sim, sou desses que está bastante chateado com o George R. R. Martin). Apesar disso pude apreciá-la sem despeito ou rancor e acabou por ser uma das suas melhores temporadas. É esperar que o final esteja em acordo com o nível elevado a que a HBO, produtora, habituou-nos.
Penny Dreadful
Depois de apenas três temporadas chegou ao fim uma das melhores obras de terror victoriano que já passou por qualquer ecrã. A princípio poderíamos desmerecê-la como um parente pobre da Liga dos Cavalheiros Extraordinários de Alan Moore e Kevin O'Neil mas depressa somos desenganados desse preconceito. Sim, reunia ou aludia a vários personagens bastante conhecidos da literatura inglesa do século XIX e XX (Frankenstein, Drácula, Dorian Gray, apenas para citar os mais conhecidos) mas graças a um enredo empolgante e a personagens criados com a fineza de uma navalha e interpretados de forma certeira, conseguiram construir uma das séries de TV mais interessantes dos últimos anos. Eva Green tem o papel da sua vida que lhe deveria ter granjeado um prémio.
Depois de apenas três temporadas chegou ao fim uma das melhores obras de terror victoriano que já passou por qualquer ecrã. A princípio poderíamos desmerecê-la como um parente pobre da Liga dos Cavalheiros Extraordinários de Alan Moore e Kevin O'Neil mas depressa somos desenganados desse preconceito. Sim, reunia ou aludia a vários personagens bastante conhecidos da literatura inglesa do século XIX e XX (Frankenstein, Drácula, Dorian Gray, apenas para citar os mais conhecidos) mas graças a um enredo empolgante e a personagens criados com a fineza de uma navalha e interpretados de forma certeira, conseguiram construir uma das séries de TV mais interessantes dos últimos anos. Eva Green tem o papel da sua vida que lhe deveria ter granjeado um prémio.
Uma série baseada em BD? Estou conquistado. Esperava que fosse tão boa quanto foi apesar das diferenças em relação ao material original? Não. E já falei dela aqui. Esta é da AMC.
Sense8
No final deste ano de 2016, seguindo o conselho de uma amiga, decidi, finalmente, dar uma oportunidade às irmãs Wachowski e J. Michael Straczynski. Os relatos acerca da série eram contraditórios e estava reticente em passar quase 12 horas no mundo de Sense8. Bem dita a hora em que o decidi, porque esse meio dia passou-se na companhia de uma das melhores histórias de personagens do ano. Apesar do conceito fantástico da série ser relativamente banal (existencialismo misturado com X-Men) as personalidades de todos os protagonistas estão de tal forma arquitectadas e concebidas que eles parecem respirar à nossa frente. Este não é um filme de enredo. É um filme de personagens, todas inesquecíveis. Não é uma série para mentalidades fechadas porque várias opções sexuais e raças são aqui representadas. É um filme plural onde o que menos interessa é o enredo - que, aliás, na parte que alude à teoria da conspiração de uma empresa multinacional sombria, é o que menos interessa. Tudo na Netflix.
No final deste ano de 2016, seguindo o conselho de uma amiga, decidi, finalmente, dar uma oportunidade às irmãs Wachowski e J. Michael Straczynski. Os relatos acerca da série eram contraditórios e estava reticente em passar quase 12 horas no mundo de Sense8. Bem dita a hora em que o decidi, porque esse meio dia passou-se na companhia de uma das melhores histórias de personagens do ano. Apesar do conceito fantástico da série ser relativamente banal (existencialismo misturado com X-Men) as personalidades de todos os protagonistas estão de tal forma arquitectadas e concebidas que eles parecem respirar à nossa frente. Este não é um filme de enredo. É um filme de personagens, todas inesquecíveis. Não é uma série para mentalidades fechadas porque várias opções sexuais e raças são aqui representadas. É um filme plural onde o que menos interessa é o enredo - que, aliás, na parte que alude à teoria da conspiração de uma empresa multinacional sombria, é o que menos interessa. Tudo na Netflix.
South Park
Vinte temporadas e continua, teimosamente, a ser uma das melhores séries de TV em exibição. Os autores desde a 19.ª que mudaram agulhas e agora dedicam-se a arcos de história de 10 episódios cada. Este ano foi sobre Trump, online trolling, a insistência na nostalgia, as mulheres, tudo interligado de forma orquestral. Não há muito a dizer acerca da qualidade da escrita, da concepção e da inteligência de Trey Parker e Matt Stone. Na Comedy Central.
Vinte temporadas e continua, teimosamente, a ser uma das melhores séries de TV em exibição. Os autores desde a 19.ª que mudaram agulhas e agora dedicam-se a arcos de história de 10 episódios cada. Este ano foi sobre Trump, online trolling, a insistência na nostalgia, as mulheres, tudo interligado de forma orquestral. Não há muito a dizer acerca da qualidade da escrita, da concepção e da inteligência de Trey Parker e Matt Stone. Na Comedy Central.
Stranger Things
A série que os filhos da década de 80 adoraram adorar. Misturou Speilberg, John Carpenter, George Lucas, BD dos X-Men, Brian de Palma, entre tanta outras delícias dessa década da qual também faço parte. Tanto sentimo-nos dentro do ET como de Halloween ou de The Thing. Foi um dos grande sucessos da Netflix e justificadamente. Sim, apelava ao saudosismo mas sem reverência bacoca. Foi, acima de tudo, um dos momentos mais divertidos do ano.
A série que os filhos da década de 80 adoraram adorar. Misturou Speilberg, John Carpenter, George Lucas, BD dos X-Men, Brian de Palma, entre tanta outras delícias dessa década da qual também faço parte. Tanto sentimo-nos dentro do ET como de Halloween ou de The Thing. Foi um dos grande sucessos da Netflix e justificadamente. Sim, apelava ao saudosismo mas sem reverência bacoca. Foi, acima de tudo, um dos momentos mais divertidos do ano.
The Get Down
Vocês devem achar que tenho contrato com a Netflix. Quem me dera. Assim poderia ver, de graça, as muitas séries de qualidade que este serviço de streaming tem oferecido. Esta tem concepção de um conhecido realizador de cinema, Baz Luhrmann (o mesmo de Romeu + Julieta e Moulin Rouge), que inclusive realizou (apenas) o primeiro episódio. É a história do nascimento da cena underground rap (e mesmo do graffiti) nos finais da década de 70 no Bronx em NY. É a história de uma comunidade menosprezada, que cria a cultura popular dos 30 anos que se seguiram. É sobre como a cultura de todos (elites e não só) nasce nas ruas devastadas, emerge de um contra-movimento que não se reconhece como tal e transforma o mainstream. É sobre gosto e verdade.
Vocês devem achar que tenho contrato com a Netflix. Quem me dera. Assim poderia ver, de graça, as muitas séries de qualidade que este serviço de streaming tem oferecido. Esta tem concepção de um conhecido realizador de cinema, Baz Luhrmann (o mesmo de Romeu + Julieta e Moulin Rouge), que inclusive realizou (apenas) o primeiro episódio. É a história do nascimento da cena underground rap (e mesmo do graffiti) nos finais da década de 70 no Bronx em NY. É a história de uma comunidade menosprezada, que cria a cultura popular dos 30 anos que se seguiram. É sobre como a cultura de todos (elites e não só) nasce nas ruas devastadas, emerge de um contra-movimento que não se reconhece como tal e transforma o mainstream. É sobre gosto e verdade.
"Uma série portuguesa entre as melhores do ano? Está mas é calado. Não digas disparates!". Quero que oiçam o que escrevo: foi fabulosa e já falei disso aqui. Tudo disponível na RTP Play.
Veep
Esta poderia fazer parelha com Os Boys. É, actualmente, o melhor retrato da política e dos políticos. Estranhamente viciante porque deprimente e hilariante em doses iguais. Porque trata-se de uma sátira tem conseguido criar um monstro que pinta de forma tenebrosa a face horrorosa da humanidade. É para ver com enorme sentido de humor, caso contrário não se sobrevive. Tudo na HBO.
Esta poderia fazer parelha com Os Boys. É, actualmente, o melhor retrato da política e dos políticos. Estranhamente viciante porque deprimente e hilariante em doses iguais. Porque trata-se de uma sátira tem conseguido criar um monstro que pinta de forma tenebrosa a face horrorosa da humanidade. É para ver com enorme sentido de humor, caso contrário não se sobrevive. Tudo na HBO.
Black Mirror, 3.ª temporada, do melhor que a TV (e a arte) tem!
Quem viu as duas primeiras temporadas e o especial de Natal desta série inglesa de ficção científica (chamemos-lhe assim, por enquanto) sabe da qualidade dos argumentos, sabe da complexidade e actualidade dos conceitos. Black Mirror parte de temas actuais ligados à Internet, à tecnologia, mesmo às redes sociais, e extrapola-os para elaborar narrativas complexas e capazes de colocar-nos num estado entre o divertimento e a apreensão. Divertimento pela originalidade e suspense das histórias. Apreensão porque, tal como em qualquer boa ficção, existe sempre um muito de realidade nas entrelinhas. Quando vimos o especial de Natal pensávamos que ficaríamos por aí durante algum tempo, mas a Netflix, como é seu apanágio, agarrou nesta superior série e deu-lhe asas para uma terceira temporada. E, até ver, é a melhor desta série de TV e, sem duvida alguma, o melhor que vi este ano. E que me perdoem a Guerra dos Tronos, Preacher, Os Boys, Veep, apenas para nomear quatro das minhas favoritas do ano.
Curioso estar a falar de meros seis episódios, quase todos com cerca de uma hora, excepto pelo último que é, em boa verdade, um filme de 1h30. É até engraçado falar de filmes porque o argumento de Black Mirror, sem duvida o seu forte, é superior à vasta maioria do cinema produzido (para desespero de alguns realizadores e actores europeus e portugueses - estou só a brincar ou será que não?). Cada episódio parte de uma situação estranha, como se vislumbrássemos apenas uma parte de toda a tapeçaria. À medida que a narrativa avança descortinamos a totalidade do quadro, muitas vezes com a revelação de uma pequena (ou grande) surpresa, que fecha a história de forma contemplativa, deixando o espectador não em suspense mas em estado de questionamento. Cada episódio é fechado e pode ser visto sem qualquer tipo de ordem. A filosofia é, contudo, a mesma. Os temas tocam-se mas as narrativas nada têm em comum. Ficamos sempre com a sensação de estarmos num futuro muito próximo mas não identificável (excepto por um episódio desta temporada que parece ocorrer no presente). Centram-se na evolução de uma tecnologia existente actualmente ou apenas verosímil e desenvolve o impacto que terá nos personagens envolvidos. Esta terceira temporada centra-se particularmente na internet e muito nas redes sociais. Desenganem-se se acham que o tema poderá perder fulgor por causa disso ou actualidade com o passar do tempo. Muito pelo contrário. As redes sociais são apenas o mote para comentar o mais perene dos nossos interesses: a nossa própria natureza.
Dos episódios tenho de destacar o primeiro, Em Queda Livre, sobre um sistema de rating de pessoas - é ver para crer e não se esqueçam que, muito recentemente, esteve para se lançar a app Peeple. Também o sexto é particularmente impressionante, Ódio Nacional, escolhendo como tema a necessidade de maledicência das redes sociais. E, finalmente, destaco o único episódio que não refere-se a redes sociais mas que é o melhor da temporada e aquele que destaco em toda a série: San Junipero. Este é verem sem qualquer expectativa. Uma das mais belas histórias que vi nos últimos tempos.
Os Boys, a série de TV que retrata (apenas?) Portugal
É complicado descrever as sensações que experimentava ao ver a série de TV Os Boys. Acabou na passada quarta-feira, dia 31 de Outubro de 2016, a primeira temporada, composta por 13 maravilhosos episódios. Deu na RTP 1, é 100% portuguesa e está disponível na RTP Play caso queiram-na ver ou rever. Mas quais eram as sensações, perguntam vocês? Esperem apenas um pouco mais.
A primeira cena do primeiro episódio prepara-nos para o que aí vem. O personagem principal, César, um "facilitador" do Governo (interpretado por Filipe Duarte), chega do Brasil e escolhe o táxi para deslocar-se ao local onde terá um encontro ainda essa noite. O taxista, enquanto se demoram na viagem, discursa sobre os políticos, em como são uma cáfila, todos iguais independentemente da cor política, apenas interessados em "se safarem a si mesmos". César ouve atentamente e, no final, pergunta ao taxista se não andará ele ao mesmo do que os odiados políticos. O condutor não percebe até que César aponta que este o terá levado pelo caminho mais longo enquanto falavam. Andamos todos ao mesmo.
Os Boys é um sátira, uma análise jocosa do pântano da sociedade política portuguesa, com os vários partidos, com os empreiteiros, com os advogados, com uma cáfila que pouco mais faz do que tecer e urdir teias crescentemente engenhosas para fazer valer nada mais do que os seus interesses. A Democracia e a vontade de um país são acessórios e acidentes de percurso. Ou melhor, vontades a serem manipuladas. A forma como a narrativa é contada é tão portuguesa que dói. E aqui chegamos às sensações que eu disse experimentar ao ver esta série de TV. Por estarmos a falar de uma sátira, o humor é obrigatório estar presente em cada linha de diálogo e em cada arquétipo de personagem. Contudo, como em qualquer boa sátira, a verdade não está longe da história, antes é o seu DNA, impregna cada frase e cada parágrafo. Assim passa-se com Os Boys, ao ponto de entrar, sorrateiramente, uma outra sensação: a da ansiedade. Um dos segredos desta série é de que, infelizmente, sabemos no coração dos nossos corações, no fundo dos nossos fundos, que tudo se passa assim mesmo, nesta atemorizante despreocupação, nesta sociopatia da classe dirigente. Escondida na gargalhada está a vergonhosa realidade, um teatro pantanoso onde brinca-se aos países e vinga-se no clássico "salve-se quem puder". Um retrato aterrador.
Os Boys é um herdeiro de Sim, Senhor Ministro, ou de séries mais recentes como a maravilhosa Veep. Escolhe o humor para, de forma acutilante e certeira, fazer valer um ponto de vista corrosivo, negro e humorístico. Actores e realizador (um tal de John Doe) dançam por diálogos e personagens cheios de pontaria, escritos por, entre outros, Mário Botequilha . Foi das melhores séries de TV alguma vez produzidas em Portugal e rezo para que alguém a tenha visto e, assim, podermos continuar a acompanhar o circo da política. Voltarei a dedicar-me a ela porque acho que merece cada linha e cada reflexão. Até lá, façam-se um favor e vejam-na. Vale cada minuto ali passado.
Preacher, a série da TV, na AMC Portugal
(Começa amanhã, dia 1 de Novembro, no canal cabo AMC, às 22h00)
Nunca pensei que as coisas se passassem assim. Quando comecei a ler Banda Desenhada na segunda metade da década de 70 ela era um segredo bem guardado. Éramos poucos e considerados estranhos. Uns gostavam do Tintin, outros do Corto Maltese. Eu era dos que adorava os homens vestidos de fatos justos e coloridos, os capazes de feitos inumanos, sempre prontos a defender o Bem. Olhem para a cultura popular agora. A Banda Desenhada está presente, de uma forma ou de outra, em tantos aspectos dela. Umas quantas vezes é apenas nas influências de um autor, outras é descaradamente. O cinema tem sido um dos grandes "culpados" - ou melhor, o amor de criadores à infância passada a ler BD, o crescimento da tecnologia de efeitos especiais e a noção que estes personagens fazem dinheiro. A TV e as suas séries (outro fenómeno cultural deste século XXI) eram uma das artes em que o sonho de ver nelas conceitos da BD parecia longínquo. Mas a narração serial e demorada da Série de TV parecia-me perfeita para tantas histórias da 9.ª Arte. E eis que aparecem coisas como The Walking Dead e descobre-se um novo filão: adaptar séries longas de BD para a narração televisiva. Este ano surgiu Preacher.
Em 1995 adquiri, sem saber o que vinha por aí, o primeiro fascículo de uma nova série da Vertigo, imprint detida pela minha editora favorita de BD, a DC Comics. A revista era Preacher, escrita por Garth Ennis e desenhada por Steve Dillon (leiam o que escrevi sobre ela aqui).
Ao longo de seis anos, 66 números e uns quantos especiais, os autores
construiriam uma narrativa fechada, literária, escatológica, herege,
cheia de humor negro, que acompanhava a viagem de um padre com a voz de
Deus (sim, literalmente) chamado Jesse Custer, a sua namorada Tulip e o seu melhor amigo, um vampiro irlandês chamado Cassidy. Se querem referências fáceis, pensem numa mistura de Quentin Tarantino com Breaking Bad e filmes dos irmãos Coen, a tresandar a americana e escrita por europeus. Perfeito para a Série de TV.
A
versão televisiva, cuja primeira temporada apareceu este ano, deve tudo
à obra original mas vai por caminhos diferentes, principalmente ao
nível do enredo. Não vou aqui enumerar as diferenças, que não
interessam, dão trabalho e não me lembro delas (porque li a BD há 20
anos - um dia destes releio). Apesar dessas diferenças, o ambiente, o
humor, a estranheza, o cristianismo sofrido, esses estão lá todos. As
cores fortes do deserto dos EUA, as paisagens infinitas de desolação,
estão lá. A depravação da natureza humana, no que tem de pior e mais
hilariante, está lá toda. E Jesse, Tulip e Cassidy também estão lá, oásis de sanidade (será que são mesmo?) na paisagem apocalíptica.
Custa
a entrar - os três primeiros episódios são filmes europeus no tempo que
demoram a construir ambiente e a dar-nos a conhecer os personagens. Mas
a partir do quarto, ao filme europeu junta-se o sangue de Tarantino, a
desolação de um romance de Cormac McCarthy e, acima de tudo, as palavras
de Garth Ennis e as imagens de Steve Dillon. Está lá tudo o que
realmente interessa.
Preacher,
tenho quase a certeza, vai ser aquele segredo bem guardado que, de
repente, explode. E espero que tenha muito e muito sucesso porque, assim
de repente, existem mais umas quantas BD's do estilo
que poderiam passar para Série de TV sem qualquer soluço - 100 Bullets, Scalped, só para falar de duas favoritas minhas.
Preacher, a Série de TV
(Começa amanhã, dia 1 de Novembro, no canal cabo AMC, às 22h00)
Nunca pensei que as coisas se passassem assim. Quando comecei a ler Banda Desenhada na segunda metade da década de 70 ela era um segredo bem guardado. Éramos poucos e considerados estranhos. Uns gostavam do Tintin, outros do Corto Maltese. Eu era dos que adorava os homens vestidos de fatos justos e coloridos, os capazes de feitos inumanos, sempre prontos a defender o Bem. Olhem para a cultura popular agora. A Banda Desenhada está presente, de uma forma ou de outra, em tantos aspectos dela. Umas quantas vezes é apenas nas influências de um autor, outras é descaradamente. O cinema tem sido um dos grandes "culpados" - ou melhor, o amor de criadores à infância passada a ler BD, o crescimento da tecnologia de efeitos especiais e a noção que estes personagens fazem dinheiro. A TV e as suas séries (outro fenómeno cultural deste século XXI) eram uma das artes em que o sonho de ver nelas conceitos da BD parecia longínquo. Mas a narração serial e demorada da Série de TV parecia-me perfeita para tantas histórias da 9.ª Arte. E eis que aparecem coisas como The Walking Dead e descobre-se um novo filão: adaptar séries longas de BD para a narração televisiva. Este ano surgiu Preacher.
Em 1995 adquiri, sem saber o que vinha por aí, o primeiro fascículo de uma nova série da Vertigo, imprint detida pela minha editora favorita de BD, a DC Comics. A revista era Preacher, escrita por Garth Ennis e desenhada por Steve Dillon (leiam o que escrevi sobre ela aqui). Ao longo de seis anos, 66 números e uns quantos especiais, os autores construiriam uma narrativa fechada, literária, escatológica, herege, cheia de humor negro, que acompanhava a viagem de um padre com a voz de Deus (sim, literalmente) chamado Jesse Custer, a sua namorada Tulip e o seu melhor amigo, um vampiro irlandês chamado Cassidy. Se querem referências fáceis, pensem numa mistura de Quentin Tarantino com Breaking Bad e filmes dos irmãos Coen, a tresandar a americana e escrita por europeus. Perfeito para a Série de TV.
A versão televisiva, cuja primeira temporada apareceu este ano, deve tudo à obra original mas vai por caminhos diferentes, principalmente ao nível do enredo. Não vou aqui enumerar as diferenças, que não interessam, dão trabalho e não me lembro delas (porque li a BD há 20 anos - um dia destes releio). Apesar dessas diferenças, o ambiente, o humor, a estranheza, o cristianismo sofrido, esses estão lá todos. As cores fortes do deserto dos EUA, as paisagens infinitas de desolação, estão lá. A depravação da natureza humana, no que tem de pior e mais hilariante, está lá toda. E Jesse, Tulip e Cassidy também estão lá, oásis de sanidade (será que são mesmo?) na paisagem apocalíptica.
Custa a entrar - os três primeiros episódios são filmes europeus no tempo que demoram a construir ambiente e a dar-nos a conhecer os personagens. Mas a partir do quarto, ao filme europeu junta-se o sangue de Tarantino, a desolação de um romance de Cormac McCarthy e, acima de tudo, as palavras de Garth Ennis e as imagens de Steve Dillon. Está lá tudo o que realmente interessa.
Preacher, tenho quase a certeza, vai ser aquele segredo bem guardado que, de repente, explode. E espero que tenha muito e muito sucesso porque, assim de repente, existem mais umas quantas BD's do estilo que poderiam passar para Série de TV sem qualquer soluço - 100 Bullets, Scalped, só para falar de duas favoritas minhas.
Era uma vez um prazer culpado. A série Once Upon a Time é subversiva?
A expressão "prazer culpado" é uma faca de dois gumes. Por um lado, afirmamos estar a desfrutar de algo de que gostamos - chegar ao ponto de encontramos o que nos dá verdadeira alegria é sempre uma vitória. Por outro, estamos a concordar que aquilo de que gostamos não será apreciado por uma imaterial figura, omnipresente, um juiz do "Bom Gosto". Esse, do alto de um longínquo Olimpo, poderá, caso digamos apenas "gosto porque acho bom", travejar violentos tornados que nos arrastarão, infectas criaturas, para longe daqueles que "sabem das coisas". Que coisas são essas? Profundas, intelectuais, relevantes, tenho quase a certeza. Diversão pura e dura é que não serão. Isso é pecado.
Tudo isto para sentir-me confortável ao falar-vos da série de TV Once Upon a Time. Para quem não acompanha, dura à cinco temporadas e é uma variação de um tema já recorrente: os personagens dos contos de fada vivem no nosso mundo e passam por várias provações. Existem, claro, vários twists, sendo que um dos mais relevantes para o que vos quero aqui dizer é que estas são, na maior parte dos casos, as versões Disney desses contos de fada. Querem saber o que aconteceu à Branca de Neve, à Bruxa Má e aos Sete Anões depois do filme? Vejam a série. A ABC, cadeia de TV que produz Once, pertence à Disney, daí a porquê desta continuação.
A série segue uma estrutura relativamente "formulaica" (perdoem-me o neologismo). Não existe grande avanço na arte da narração e o argumento repete-se ao longo das temporadas. Contudo, no que a mim diz respeito, a força dos personagens e os actores, em muitos casos, interessantes, conseguiram prender-me às cinco temporadas (a quinta acabou esta semana). O enredo é viciante e nonstop, com os protagonistas a saltar de uma aventura para a seguinte sem tempo para respirar, para comer e para outras necessidades fisiológicas que o bom gosto não deixa dizer.
Quase no final desta última temporada, apercebi-me de algo ainda mais interessante e até subversivo. Originalmente pode não ter sido essa a intenção (contudo, eu acho que sim) mas todos os protagonistas são femininos. As mulheres são quem avança a acção, quem decide as vitórias, sendo que os homens raras vezes são pouco mais que o "interesse amoroso", "o "damo" em apuros". A inversão é deliciosa e irónica, porque estamos a falar de uma das mais antigas formas de contar histórias da Humanidade, onde muitas eram as vezes em que cabia ao Príncipe, geralmente garboso e encantado, a missão de salvar a Princesa adormecida, presa na torre ou prisioneira de um dragão qualquer. A própria Disney construiu um império através da perpetuação desse mito. Ora aqui não. Elas é que os salvam das torres.
E o beijo que acorda o amor adormecido, eterno cliché dos Contos de Fada? Nesta temporada, este enredo foi usado para algo (claro que no contexto do que aqui vos falo) subversivo: o primeiro beijo homossexual da série (spoilers a partir daqui). A Capuchinho Vermelho usa o seu amor para acordar a Dorothy do Feiticeiro de Oz (qualquer dia o Alan Moore vem dizer que lhe roubaram a ideia do seu Lost Girls). Temos de perceber que, no contexto da Disney, este é provavelmente ainda mais relevante. A empresa é conhecida por abordagens tradicionais dos relacionamentos, quer amorosos, quer familiares. Permitirem que numa série que usa as suas princesas e onde personagens bastante conhecidos do mainstream possam ter uma relação homossexual é, no mínimo, interessante. Quem sabe é um teste para que o próximo Frozen tenha também uma personagem gay, como já se anda a suspeitar.
Acho tudo isto maravilhoso.
Acho tudo isto maravilhoso.
Contudo, no final do dia, o que realmente interessa é que a série diverte-me a rodos. Que mais posso pedir? Desde que o juiz do "bom gosto" não apareça para flagelar-me acho que é mais que suficiente.
O Amor não é perfeito - séries Love e Master of None da Netflix
Não existem contas de 100% no que ao amor diz respeito. Há sempre um número que falha, que falta. Não que não tenhamos sido ensinados do contrário. Os que foram alimentados por uma dieta saudável de filmes da Disney podem atestá-lo. Todas as grandes histórias de amor da literatura envolvem, muitas as vezes, uma epifania em que um e outro do casal amoroso cai redondo de paixão de forma imediata e plena. Não há, na maior partes dos casos mais conhecidos, um lento conhecer. O Romeu era um pinga-amor: troca a Rosalinde por Julieta num piscar de olhos e nem passa um dia para que estejam em juras de amor eterno junto ao altar. Anna Karenina conhece Vronsky num comboio e depressa envolvem-se num escandaloso caso com final trágico - notem que esta história de amor é bem mais complexa que o meu resumo, ele sim trágico.
Somos de tantas e tantas formas doutrinados nesta "plenitude do amor" que achamos (os mais propensos a romantismo, pelo menos) que a "realidade" pode ser assim. Não sou um descrente a tal ponto que não acredite no "amor à primeira vista" nem em beijos roubados perfeitos demais para existirem. Que los hay los hay. Mas para uma maioria os dedos do destino são mais tortuosos, tecem linhas mais longas. Às vezes um encontro fortuito apenas terá consequências uns tempos mais tarde. Às vezes o "amor à primeira vista" é antes um "olha, nunca tinha reparado". Não é tanto arrebatamento mas arrebentamento. A albufeira vai enchendo, a portas têm de se abrir ou há ruptura e, depois, o fluxo de água é continuo e forte. As janelas abrem-se ao meio dia e há mais luz. Demora e rasteja até chegar.
As séries Love de Jude Apatow e Master of None de Aziz Ansari, ambas da Netflix, são desapaixonadas histórias de duas pessoas a apaixonarem-se. De encontrarem-se e afastarem-se. De deixarem de ser idealismo e passarem a ser normalismo. É mais belo assim. Principalmente com escrita assim e actores assim. Valem cada um dos 10 episódios de cada.
(já agora, se a Anna Karenina e o Vronsky têm uma idealizada história de amor, os personagens Levin e Betty do mesmo romance são o maravilhoso contraponto "realista" e uma dos mais belas paixões da Literatura)
As séries Love de Jude Apatow e Master of None de Aziz Ansari, ambas da Netflix, são desapaixonadas histórias de duas pessoas a apaixonarem-se. De encontrarem-se e afastarem-se. De deixarem de ser idealismo e passarem a ser normalismo. É mais belo assim. Principalmente com escrita assim e actores assim. Valem cada um dos 10 episódios de cada.
(já agora, se a Anna Karenina e o Vronsky têm uma idealizada história de amor, os personagens Levin e Betty do mesmo romance são o maravilhoso contraponto "realista" e uma dos mais belas paixões da Literatura)
Léolo, estas foram as minhas Séries de TV favoritas em 2015.
As Séries de TV serão, talvez um dia, uma nova arte. Ou, quem sabe, unir-se-ão ao Cinema na 7.ª e desta união nascerá uma que poderá chamar-se "Imagens em Movimento" ou "Video". As Séries estão longe de ser um fenómeno recente e mesmo esta Idade de Ouro que acompanha-nos já desde o início do século não começou nele - Twin Peaks, Hill Street Blues, etc., poderão ser suas precursoras. A febre atingiu tal ponto de diversidade e quantidade que elas transformaram a forma como muitos de nós vemos TV. Acompanho-as há bem mais de uma década e já dediquei muitas e muitas horas a vê-las. Já vi coisas brilhantes, tão boas ou melhores que muitos livros e filmes, como já vi outras que nem por isso. Contudo, e como já tive oportunidade de dizer em outros posts, acredito que neste momento existe, no caso dos EUA, uma liberdade criativa na TV que dificilmente se encontra na máquina Hollywoodesca e mesmo independente.
Porque passo muitas horas e deliciar-me com o que TV dos EUA tem para nos oferecer, quis publicar as minhas séries favoritas do ano. À semelhança do que fiz em outros posts a lista em baixo é apenas de gosto, só gosto e nada mais do que o meu gosto. As temporadas são, na sua maior parte, de 2015, mas existe uma ou outra que não. Para algumas, como já escrevi qualquer coisa no Blog, basta clicarem no link. Para outras, se tiverem paciência, leiam o que escrevo agora.
2.ª Temporada de Fargo: A 1.ª temporada já tinha tido a capacidade de suplantar um preconceito meu: adaptou um filme sem o desmerecer, antes acrescentando. Esta segunda recua até 1979, com personagens (na maior parte) diferentes, mas com o mesmo sentido de humor, a mesma estranheza, a mesma paisagem gelada. Escrita de forma soberba, junta-se uma fotografia que parece beber a Corcia e Crewdson, e temos uma das melhores séries de TV de 2015 (se não mesmo a melhor).
1.ª e 2.ª Temporada de Flash: Esta é de puro entretenimento e a mais ao estilo super-heróis actualmente em exibição. Não preza pela maturidade de história mas pelo puro abraço aos conceitos mirabolantes da mitologia que tanto adoro: terras paralelas; gorilas falantes; homens que correm mais rápido que a vista. Todas as semanas os fãs são presenteados com mais uma adaptação do multiverso da DC Comics. E isso, para mim, basta.
7.ª e última Temporada de Mad Men: E em 2015 houve o fim de umas das mais emblemáticas séries de todos os tempos, do mesmo campeonato de The Sopranos, The Wire e Breaking Bad. Acabou como sempre foi: com duplo sentido; com estranha ironia e com grandes e operáticos personagens. Adeus, Don Draper. Foste grande.
1.ª Temporada de Man in the High Castle: Os fãs da DC Comics e do seu multiverso conhecem bem o conceito: uma terra paralela onde os nazis venceram a Segunda Grande Guerra e ocuparam os EUA. A história original, contudo, é de Philip K. Dick, o novelista de ficção cientifica que criou também os contos que deram origem a, por exemplo, Blade Runner e Minority Report. A série adapta e expande esse conceito e, apesar da sensação, aqui e ali, de enche-chouriço, não deixou de ser dos momentos mais interessantes e estimulantes na TV de 2015.
2.ª Temporada de Penny Dreadful: Outro momento de puro prazer. Os leitores de BD conhecem bem o conceito base por detrás desta série (leiam League of Extrordinary Gentlemen de Alan Moore e Kevin O'Neill). Também temos personagens famosos da literatura vitoriana que reúnem-se numa mesma equipa para enfrentar males também eles originários dessa mesma literatura. Contudo, o conceito nunca parece cópia. Personagens bem estruturados e actores de primeira linha a isso ajudam. Um enredo cativante e de puro entretenimento para isso contribui.
1.ª e 2.ª Temporada de Rick and Morty: Por falar em conceitos mirabolantes de BD e em universos paralelos, Rick & Morty foi das mais agradáveis surpresas de 2015. Esta foi a série de BD que nunca foi uma BD, Back to the Future on drugs and LSD. Divertida, ofensiva, politicamente incorrecta, violenta e, acima de tudo, originalíssima. Um dos maiores prazeres deste ano que passou. Pena que tenha tido tão poucos episódios.
19.ª Temporada de South Park: O parente pobre dos Simpsons nunca o foi e está melhor que nunca, mesmo que passados 19 anos. Aliás, há muito que a série não atingia níveis tão altos de criatividade, de cinismo, de critica contundente, de ironia cáustica, de sátira. Esta temporada foi para os que acham que 19 anos são demais e que os criadores da série dever-se-iam reformar. Melhor que 95% das séries de TV em exibição. Sim, esta temporada foi assim tão boa.
2.ª Temporada de The Knick: Acabou Mad Men mas continuou The Knick. Confesso que os primeiros quatro episódios foram de difícil digestão mas os seis que se lhes seguiram mais do que compensaram o "enfado". Foram apenas o preludio para uma das mais cativantes séries do momento que, para quem não sabe, é a prova de que a criatividade cinematográfica está na TV: o ex-realizador da 7.ª Arte, Steven Soderbergh, à semelhança do que já tinha feito para a primeira temporada, realizou todos os episódios. Temporada quase imaculada e com dois episódios finais brilhantes a todos os níveis.
Jessica Jones, a Série de TV da Marvel/Netflix.
A série de TV não é, de todo, um fenómeno recente mas, nos últimos 15 anos, amadureceu e transformou-se numa das grandes formas de entretenimento. A culpa recai, como acontece em tantas outras coisas, na necessidade. Aquela que é a mãe de todas as invenções. Gosto de pensar que a criatividade e a inovação artística estavam a perder lastro em outras formas visuais como o Cinema. Apesar de existirem muitos exemplos de liberdade e invenção criativa na 7.ª Arte, por motivos que variam entre o financeiro e o de formato (bem vistas as coisas, um filme dura, em média, 2 horas), muitos autores tinham a imaginação um pouco limitada. Principalmente o escritor, conhecido por ser apenas como uma das partes do processo de fazer Cinema, sendo sempre a voz do realizador aquela que dá a última palavra. Ora, a Série de TV (notem como já escrevo em letras capitais) possui algo que é parco no Cinema: tempo. Uma Série poderá estender-se por longas horas, desenvolvendo enredos, analisando personagens ao detalhe da loucura, criando um tecido pormenorizado. Basta, para isso, que o escritor assim o deseje e tenha talento para tal. A Série já foi considerada por melhores pensadores que eu como a Literatura do Tempo Moderno, o Romance em forma visual. Quem viu Os Sopranos, The Wire, Breaking Bad, etc., sabe do que falo.
Ora, era apenas uma questão de tempo para que a BD, outra forma de arte que gosta de demorar o seu raciocínio, procurasse formas alternativas de espalhar as suas histórias e, apesar do Cinema oferecer o arcaboiço financeiro para o Efeito Visual, é na TV que está, a meu ver, o formato perfeito para as histórias rocambolescas, longas e labirínticas da 9.ª Arte. Já existiram muitos e muitos exemplos de séries de TV baseadas em BD mas, na maior partes das vezes, escolhiam o enredo episódico ou infanto-juvenil (não que haja nada de mal com isso). Esse panorama parece estar a mudar, principalmente com o negócio que a Marvel fez com a Netflix, com o intuito de produzir histórias mais adultas e que não deixam de estar alicerçadas no seu universo cinematográfico. Começou com o excelente Daredevil (Demolidor em português) no início deste ano e continua com este Jessica Jones.
Ao contrário do Demolidor, a personagem de Jessica Jones é practicamente desconhecida do púbico em geral. Criada em 2001 pelo prolífico escritor Brian Michael Bendis e pelo desenhador Michael Gaydos, foi protagonista de duas séries de curta existência (para os padrões dos EUA): Alias e Pulse. A primeira é mais conhecida e adulta e aquela onde a mulher que dá nome à série de TV teve um prolongado desenvolvimento pela imaginação dos seus dois criadores. No início do século, a Marvel tinha uma necessidade: sair do buraco financeiro e criativo criado pela tenebrosa década de 90. Joe Quesada, o editor-chefe, foi buscar o talento de um escritor independente, Bendis, para dar nova vida a várias personagens antigos (os Vingadores), ao mesmo tempo que lhe deu liberdade para criar novos conceitos que, contudo, não deixassem de estar alicerçados no universo de super-heróis da Marvel. Assim nasceu Alias, onde criava Jessica Jones e, ao mesmo tempo, dava nova vida a um antigo personagem da Marvel, Luke Cage, por quem Bendis nutria um amor profundo (depois utilizou-o na sua reinvenção dos Vingadores). É deste DNA que nasce a excelente série de TV Jessica Jones, com a parceira Marvel/Netflix.
São apenas cinco os homens que fazem parte de um elenco totalmente feminino. Desses, dois são abusadores e violentos. O terceiro é Luke Cage. Os outros dois vítimas de uma forma ou de outra. Esta é uma série sobre controlo e sobre o abuso que dele se faz ou não fosse o vilão principal Killgrave, conhecido na BD por Homem-Púrpura (na série afastam-se desse tom de pele), capaz de ordenar quem quer que seja a fazer o que ele quer apenas pelo uso da voz. Jessica Jones é um investigadora privada nas ruas de Hell's Kitchen, bairro nova-iorquino onde também reside o Demolidor, e marcada por um encontro com Killgrave. À sua volta orbitam outros fabulosos personagens femininos, construindo um todo forte capaz de carregar, sem esforço, o enredo. Os treze episódios vêem-se sem problemas (pelo menos para mim) e foi uma boa forma de começar a aproveitar o meu mês gratuito da Netflix. Não pretendo fazer mais considerações para vos dar o prazer de apreciar, virgens, mais uma excelente série desta parceira entre a Marvel e a Netflix. A continuar assim, os filmes não são necessários. Façam tudo na TV. A BD merece.
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