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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, mas só agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana temos sugestões para todos os gostos e sensibilidades e, no fundo, para quem só gosta de ler um bom livro.


Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, mas só agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana temos sugestões para todos os gostos e sensibilidades e, no fundo, para quem só gosta de ler um bom livro.

Lançamento Devir: O Homem que Passeia de Jiro Taniguchi



O ano de 2017 está a tonar-se num dos grandes no que respeita a lançamentos de BD em Portugal de traduções no nosso português. Agora é a vez de iniciar-se uma nova colecção, desta vez pela Devir, de grande autores japoneses, começando por Jiro Taniguchi e pela obra O Homem que Passeia. O lançamento ocorrerá na Festa do Japão no próximo dia 24 de Junho.

A obra será a primeira do que aqui o Acho que Acho espera serem muitas. Já está planeada a seguinte: Nonnonba de Shigeru Mizuki.

SÍNTESE

Um homem contempla os subúrbios da sua cidade. Caminhando devagar, escuta e cheira. Para e observa. 

É impossível não nos sentirmos alheios e indiferentes ao mundo, em contraste com este olhar puro. Passeando por estas páginas reaprendemos a olhar, talvez a viver, mais atentos às pequenas coisas. 

O AUTOR

(1947-2017) Publica a sua primeira obra no início da década de 1970. A descoberta da banda desenhada europeia, marca uma viragem na obra de Taniguchi,que opta por trabalhar sozinho, escrevendo e desenhando as suas próprias histórias. A partir de 1991, a sua obra assenta na sua experiência pessoal e na atenta observação, profundamente humana, dos seus semelhantes e do seu quotidiano.

A obra de Taniguchi espelha sentimentos positivos, um reconhecimento sincero pelas tradições culturais, uma forte ligação à família e o regresso à infância como forma de redescobrir as suas origens.

Principais distinções
1992: Prémio do Mangá Shogakukan.
1993: Prémio da Associação de Mangaka Japoneses.
1998: Prémio cultural Osamu Tezuka.
FICHA TÉCNICA
244 páginas a preto
Formato: 170x240 mm
ISBN: 978-989-559-304-0 
PREÇO: €19,99 PVR





O Homem que é normal - Terras dos Sonhos e L'Homme Qui Marche de Jiro Taniguchi


Jirô Taniguchi vê o mundo como todos nós e, ao mesmo tempo, de forma tão singular. Ler um livro deste autor japonês de Banda Desenhada é mergulhar no mundano, no de tal forma corriqueiro que perguntamo-nos: só isto? Onde está a poesia? A grandiloquência? A arte? Está lá tudo, não duvidem, disfarçado pela patina do normal, do banal dos dias que passam sem notícia digna de jornal. Pode ser apenas um homem que encontra um cão, decide levá-lo para junto da sua esposa, cuidam dele e, anos mais tarde, o animal morre. Pode ser um homem que ama caminhar ao ponto de perder um dia de trabalho por causa disso. 

O delicioso passar das horas nos dias calmos pode parecer pouco interessante para qualquer obra de arte ou de entretenimento. Uns lêem Taniguchi e nele não vêem nada de especial. Para mim, é exactamente nesta calmaria que ele se enche de mestria e de arte. Os quadradinhos e as páginas sucedem-se de forma fluída e enchem este leitor de paz e de alegria por poder ver e rever algo maior no simples abanar das folhas das árvores ou de um encontro fortuito. O maior não tem necessariamente de ser divino ou de ser uma epifania. Se acreditam no banal e no real podem encontrar em Taniguchi alguém que partilha da vossa poesia. Mas se acreditam numa força mais pura e animal, a da mãe natureza, também podem ler Taniguchi e sentirem-se preenchidos. Nessa mistura que é, no fundo, o de encontrar o belo na rotina e nos pequenos prazeres, reside muito do que faz este autor uma das enormes referências da 9.ª Arte. 

Adorado em França, onde foi descoberto para a Europa, a sua sensibilidade é um pouco a deste nosso continente, mas sou dos que acreditam que ela deve-se  muito mais ao país de origem, à leveza com que interpretam e vivem o dia-a-dia, à aproximação que fazem entre o natural, o religioso e o tecnológico. Taniguchi destila esse saber-estar de forma cândida. Um mestre em todos os sentidos que atribuo à palavra e estes dois livros são prova disso: Terra dos Sonhos, publicado em Portugal pela Levoir, e L'Homme que Marche, editado em Portugal em 2005 numa parceria da Devir com o Correio da Manhã.

O prazer absoluto de uma obra de arte - Quartier Lointain de Jirô Taniguchi

Não acontece muitas vezes. Alguém sentir-se de tal forma tocado por um livro que lê ou por um filme que vê ou por uma comida que saboreia, que a palavra "obra-prima" aparece a correr pelos lábios. Isto mesmo sem ter acabado o livro ou o filme ou ter engolido o pedaço de comida. Aconteceu-me enquanto folheava Quartier Lointain, um livro de tal forma arrebatador (no que a mim diz respeito) que dificilmente pude conter o entusiasmo. De tal forma que fiz algo que raramente faço: demorei mais tempo a lê-lo, como se quisesse reter-me naquele mundo, como se quisesse que as palavras e o desenho fossem absorvidos com calma e degustação, para que nenhum sentido oculto pudesse escapar-me. 

Acredito que a minha recente viagem ao Japão muito terá contribuído para a leitura deste livro. Acreditem que esta ida para tão longe transformou alguma coisa em mim. Contudo, se não quiserem acreditar nestas revoluções de meia vida, acreditem apenas que estive numa cultura verdadeiramente diferente da nossa portuguesa e da nossa ocidental. Obviamente que de forma alguma é necessário ir ao Japão para ler e adorar este Quartier Lointain. Longe de mim dizê-lo. Falo apenas da minha experiência. Em terras nipónicas existe uma calma e um silêncio que apenas pode ser absorvido lá estando. Tudo aparenta demorar o seu tempo (claro que não é assim mas falo de sensações). A obra de Taniguchi não podia ser outra coisa que não japonesa. Não existem demonstrações grandiloqüentes e barulhentas de eventos e emoções. As coisas acontecem mas com um sussurro, de forma serena.

A força desta obra (de cujo enredo não vou revelar nem uma linha porque tive a sorte que acontecesse assim comigo) é que ela parece existir numa terra onde encontram-se desejos cumpridos e uma viagem para a maturidade, o que acaba por construir um livro ao mesmo tempo cativante e profundamente revelador. Talvez seja a idade onde me encontro mas Quartier Lointain parece talhado para esta minha fase da vida. Uma elegia da juventude que cada vez se estende mais nos anos e um elogio à vida adulta. Isto contado com a sensibilidade de um exímio contador de histórias que, não por acaso, é japonês.

Como disse no primeiro parágrafo, isto não acontece muitas vezes: encontrar algo que, para nós, é uma obra-prima. Aconteceu-me com o Sandman de Gaiman, com o Blankets de Thompson, com o Homem-Aranha das duplas Wein/Andru e Lee/Ditko, com a Diana de Pérez. Depois de tantos e tantos anos a ler BD voltou a acontecer. Que absoluta maravilha. 

O que vou lendo! - Sharaz-De de Sergio Toppi e Diário do Meu Pai de Jiro Taniguchi


A memória é uma coisa estranha, maleável na sua construção, um amontoado de caos colado sem razão ou rima. A memória pode ser a de cada indivíduo, a pessoal, ou uma colectiva, parte da herança e código genético de um povo ou de toda a Humanidade. A nossa personalidade é também produto deste único e deste colectivo, é a construção sobre um edifício de vários andares, entre os quais o da memória. Que pode ser falsa e verdadeira. Porque existe sempre um lado de mentira na nossa memória. Aquilo que escolhemos esquecer é tão importante como aquilo que escolhemos recordar. Aquilo que nos deixam recordar é tão importante quanto aquilo que nos deixam esquecer. De uma forma ou de outra, estes dois maravilhosos livros falam-nos da memória. O de Jiro Taniguchi é mais directo na abordagem. O de Sergio Toppi mais tangencial. 

Taniguchi conta-nos do regresso de um pródigo filho à terra natal na sequência da morte do pai, a razão porque se havia ausentado durante mais de uma década. O ressentimento que sentia pela figura paterna depois do divórcio amontoou memórias em cima de memórias que construíram um distanciamento entre as duas figuras. É necessária a morte para que o filho, ouvindo outros que seguiram mais atentamente o pai, construa uma outra memória, mais afável, de uma figura que sempre aguardou nas sombras o crescimento de alguém que amava muito. A respiração pausada da narrativa simples mas forte deixa o leitor demorar-se com os personagens e com o enredo, absorvendo, nos pequenos nadas dos dias e dos anos, a memória de outros.  Leva-nos pela mão e com passos contemplativos a absorver as vivências de um povo tão diferente do nosso mas tão parecido. Bem vistas as coisas, de uma forma ou de outra, andamos sobre duas pernas e respiramos oxigénio. 

Sharaz-De de Toppi apela a uma memória colectiva, ao mesmo tempo estranha e familiar: a das histórias.  É a colecção de contos da famosa Mil e Uma Noites, os contos que Sherazade (aqui Sharaz-de) se viu forçada a revelar, noite após noite, para escapar à morte da manhã seguinte. Nenhuma das histórias é sequer das mais conhecidas (não há Sinbad,não há Ali Babá) mas todas são de uma extrema beleza, apelando ao mais básico sentido de maravilhamento. Somos crianças crescidas a folhear as extraordinárias páginas deste belíssimo livro, cada ilustração um quadro, cada quadro uma vinheta de Banda Desenhada que constrói um volume que nos deixa extasiados, sortudos por ter passado dedos e olhos pelas suas imagens e palavras. Gostava de ter arte e palavra, arte na palavra, para vos convencer que estive a ler um dos mais belos livros da minha vida, um elogio à capacidade de fantasia de um homem e da Banda Desenhada, que aqui é aproveitada no seu máximo potencial. Esta é, sem duvida, uma das leituras de que mais gostei em 2015. 

Ambos os livros fazem parte de uma colecção que acabou a semana passada e que saiu todas as quintas-feiras junto com o jornal o Público sob a chancela da editora Levoir. Foi uma das mais inspiradas colecções que poderiam ter saído. Esperemos que o futuro nos reserve mais destas pérolas.