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O que vou lendo! - Erzsébet de Nunsky

Uma das melhores obras de BD que tive o prazer de ler em 2015 foi esta Erzsébet de Nunsky. Desconhecia a existência quer da personagem, quer do autor. No caso do segundo, deveria ser imperdoável desconhecê-lo já que estamos a falar de um português, mas as coisas são assim e não de outra maneira. Contudo, se esta obra é demonstrativa do valor do senhor, então estou mais do que agradavelmente satisfeito. Estou a abarrotar. Quanto à personagem, provavelmente já a terei visto em um ou outro filme, na medida em que a nobre Erzsébet Bathory é conhecida dos historiadores e dos amantes de gore e de serial killers (que, vamos ser honestos, era o que esta senhora era, além de psicopata, perdoem o provável pleonasmo clínico). Tratou-se de um membro da nobreza húngara causadora da morte de dezenas ou, quem sabe, de centenas de jovens residentes das imediações do seu castelo, que capturava e sujeitava às mais hediondas torturas, tudo na busca do segredo da eterna juventude.

O apelo da história de Erzsébet Bathory é mais do que óbvio e a sua vida foi já sujeita a inúmeras adaptações, quer em livro, quer em cinema, podendo esta correr o risco de ser "apenas mais uma". Não é esse o caso, já que o traço e texto do autor e a escolha dos eventos retratados fazem desta uma das leituras mais interessantes de 2015. A narrativa corre como um filme, com quase nenhum texto explicativo dos eventos (excepto os necessários enquadramentos geográficos e temporais), escolhendo momentos que o autor considera importantes para revelar a mente completamente estropiada da violenta nobre húngara. Do que posteriormente li, parece-me que Nunsky escolheu um misto de eventos considerados, hoje em dia, certos de haver acontecido, e outros que poderão estar no domínio da ficção. Obviamente isso não é de todo relevante, já que a forma como o autor os expõe acaba por construir uma narrativa cativante e atmosférica, com desenhos mais do que apropriados à personagem. O perpétuo chiaroscuro funciona de forma óbvia mas perfeita, principalmente tendo em conta o tipo de traço de Nunsky, um caricatural saído de uma gravura do Inferno de Dante ou de uma pintura da Idade Média. Existe verdadeira loucura e terror nas caras e paredes pintadas de sombras e escuridão. 

Uma das obras essenciais na BD de 2015 a ser comprada e lida as vezes que aguentarem, porque a história de Erzsébet Bathory não é para os fracos de coração e de estômago.

O que vou lendo! - A Arte de Voar e A Viagem


A culpa é do Homero e de ter transformado a viagem literal em metafórica.  A Odisseia levava-nos de um ponto A a um ponto B e, ao mesmo tempo, ia aludindo o universo mais real, mais nosso. Isso transformou-se, de uma forma ou de outra, na essência da arte de contar histórias. Ao longo dos séculos e dos milénios que se lhe seguiram, muitos foram os que reproduziram as pegadas (há quem diga todos), copiando, elogiando, plagiando, transformando. Uns, como Altarriba e Kim do fabuloso A Arte de Voar, pegavam num outro estilo, o do relato biográfico e autobiográfico, e contavam a história de outro tipo de viagem, a da vida. No anos que vão passando, de forma subtil, enquadram o mundo inteiro (ou uma parte substancial dele) na pequena casca de noz que é apenas mais uma vida, mais uma pessoa, mais uma personalidade. Assim é o pai de Altarriba, sobre o qual é erigido esta fabulosa peça de arte, um conto que começa no princípio do século XX da Espanha, estende-se para a Guerra Civil e para o advento do Franquismo, para a sua inevitável queda e culmina na morte do progenitor do autor. Aliás, Altarriba expurga o evento traumático que é o suicídio do pai já em idade avançada, através deste livro que conta, de uma forma factual e ao mesmo poética, toda uma vida dura, oposto de mimada. A Arte de Voar continua no estilo inaugurado (ou aprimorado) por Maus de Art Spiegelman, esquecendo as roupagens metafóricas do desenho deste último (os judeus como ratos, os nazis como gatos) e escolhendo antes uma abordagem mais, como já disse, factual. 

Oposto a este estilo temos A Viagem de Edmond Baudoin, que escolhe transformar a viagem literal numa coleção de alegorias e metáforas escritas e desenhadas com grande beleza. Um homem escolhe abandonar a sua família, um filho que adora e uma mulher castradora e passivo-agressiva. Com uma cabeça cheia de necessidade de liberdade (ao ler o livro vão perceber este fraseamento tão curioso) o protagonista de A Viagem parte ao caminho de literal descoberta, um caminho que tantos já esperançamos fazer mas que muitas vezes adiamos por esta ou aquela razão. O autor, ao escolher o abandono máximo, o de um filho, sublinha a urgência da viagem. Por mais que as circunstâncias nos tenham criado obstáculos aparentemente intransponíveis é necessário suplantá-los para que construamos um eu melhor e mais verdadeiro, o que acaba por ser, naturalmente, o objetivo deste viagem (e, se calhar de todas).  Escondido por detrás de um acto hediondo é possível encontrarmo-nos. Tudo tem um preço. Até a auto-descoberta. 

Ambos os livros fizeram parte de uma das mais essenciais coleções que saíram neste ano de 2015 em Portugal. E não estou a falar de Banda Desenhada. Qualquer pessoa que se diga apreciadora de Arte tem a obrigação de folhar e ler cada um dos volumes que saíram nesta coleção de Novelas Gráficas de Levoir (já aqui falei de os Contos de Sharaz-De e o Diário do Meu Pai). A Arte de Voar e A Viagem são, sem sombra de dúvida, dois dos grandes livros que tive o enorme prazer de ler este ano. Absurdamente essencial para todos os apreciadores do Belo. E eu acho que acho que o somos todos.

O que vou lendo! - Empowered vol. 9 de Adam Warren

Não é com vergonha que admito que um dos artigos mais lidos deste Blog é um que, de forma desenvergonhada e mercantilista, intitulei de Sexo na BD (vá lá, leiam-no para engrossar ainda mais as estatísticas). Como podem atestar pela sua leitura, escolhi os trabalhos do eterno Manara e de Adam Warren para embelezar o conteúdo do dito post (inicialmente feito para o site da revista Maxim). Já lá vão uns anos desde que o escritor/desenhista começou o trabalho em Empowered e, passados nove volumes, esta continua a ser uma das obras mais sexy e divertidas do mercado estado-unidense de BD. O estilo do desenho é assumidamente Mangá mas a estrutura de página e de vinheta é ocidental, com uma escrita fortemente alicerçada na inventividade da verborreia (e ela é deliciosamente metralhada e regurgitada a 1000 km/h), na excentricidade da personalidade, no design dos muitos personagens e, uma vez mais, no ambiente assumidamente erótico e soft porn. Graças a deus!

Desde já faço um aviso à navegação: não tentem entrar em Empowered  por qualquer outro volume que não seja o primeiro, porque esta é uma história que desenvolve-se desde o início, de forma rocambolesca e intrincada. É verdade que o que mais me atrai para a leitura não é o enredo (que também é empolgante) mas antes o que descrevi no final do parágrafo anterior. Contudo, é justo avisar-vos desde já: tem de existir um forte investimento (monetário e de tempo) para ler Empowered.  É inacreditável que Warren continue, após nove volumes e alguns anos, sem revelar importantes mistérios que rodeiam a personagem principal, a perpetuadamente insegura Emp. Inacreditável porque eu não poderia importar-me menos com isso. Aliás, quero mais que continue ad infinitum e (não) ad nauseum a "fazer render o peixe", a "encanar a perna à rã", porque o que interessa são os hilariantes personagens e o paleio nonstop (sim, sei que já o disse). Este volume foca-se especialmente na heroína e no enredo mais recorrente de Empowered: a perpétua "habilidade" em ser capturada e amarrada por vilões; a pretensa inépcia em ser uma super-heroína capaz. Warren inventa um "super-poder" verdadeiramente impressionante para Emp, continuando a lenta caminhada da jovem rapariga que a levará, certamente, ao cume da vitória. Nesta história é a caminhada que interessa e não o fim (previsível?). Nesta história, Empowered poderá ter mais do que um significado: o nome da heroína, certo, mas, acima de tudo, a busca de força para dar mais importância ao que se sabe de si mesmo e menos ao que os outros pensam de nós. Uma espécie de "empoderamento". Ser, ao mesmo tempo, uma BD sexy é apenas um bónus. 

O que vou lendo! - Sandman: Overture Deluxe Edition de Neil Gaiman e J. H. Williams III

É muito difícil descrever o impacto de Sandman na minha vida como leitor. Provavelmente foi com ele que comecei uma abordagem diferente à BD. Foi com o épico de Neil Gaiman, na década de 90, que tive um mais profundo contacto com o arrebatamento não só vindo do espanto mas também do intelecto. Devo estar a exagerar, certamente, mas, quando tive a oportunidade de ler os Trade Paperbacks que iam coleccionando os vários volumes da saga, cada momento de pausa (seria mesmo uma pausa ou um play verdadeiro?) era de puro e inviolado prazer. As palavras de Gaiman eram mantras. Os diálogos filosofias para a vida. Até hoje, Brief Lives continua a ser um dos meus livros de referência, aquele que teima em ser um dos meus preferidos de sempre (a minha cópia assinada por Neil Gaiman e com um desenho de Jill Thompson é um dos meus orgulhos de biblioteca). Contudo, ao contrário do que possa parecer, o regresso do criador à sua mais emblemática obra de BD não era algo que quisesse e o anuncio deste volume, Overture, não me chegou como algo ansiosamente esperado. Sempre senti que a obra estava encerrada. Pouco mais haveria a acrescentar.

O que vou dizer a seguir soará a sacrilégio. A estrela deste Overture  é J. H. Williams III. O desenhador é um virtuoso do lápis, pincel, o que quer que queiram chamar. Este senhor consegue transformar a mais banal das cenas (e este Sandman não as tem) num concerto, numa ópera, num carnaval, num épico jogo de futebol. Williams estica e dobra a arte de fazer BD para lá dos limites do convencional. Melhor: ele já deixou o convencional há 10 anos atrás e agora, pura e simplesmente, não consegue regressar. Desde Promethea com Alan Moore que surpreende de projeto em projeto, inovando não só no desenho como também na construção da página de BD, no modo como quebra o argumento dos vários autores com que vai trabalhando. Sem dúvida um dos maiores talentos da 9.ª Arte dos EUA (nesta linha, Yannick Paquette começa a revelar-se um talento a acompanhar - esperem pelo seu Wonder Woman: Earth One). O trabalho de Williams neste Overture é de tirar o fôlego, tantos são os pormenores e as idiossincrasias dos desenhos, que bailam sem esforço pelos múltiplos e diversos cenários que Neil Gaiman constrói para o elenco. No final, apenas apetece aplaudir de pé.

E quanto a Gaiman? Como se porta? Como Gaiman. Ponto final. Não existe aqui nada de novo nesse sentido. A escrita continua igualmente onírica, poética e surreal. Não cedeu um centímetro de controlo sobre as vozes do enorme e operático elenco que criou em Sandman. Consegue ir buscar pormenores memoráveis da obra original e entretecê-las no enredo, não só enriquecendo esta obra como a que nos surpreendeu anos atrás. Consegue também enriquecer a mitologia ao nos apresentar (desculpem este spoiler) os progenitores dos Endless. Esse é dos grandes momentos de Overture, onde a escrita de Gaiman sobressai e os desenhos de Williams explodem. O escritor quis regressar a casa e, apesar de ser uma das melhores obras que saíram este ano, para mim o impacto da run original é tão gigante que este capitulo quase, quase, quase que sabe a redundante (mas não é).  

Sem dúvida, um dos livros de BD do ano. 

BD é A Viagem.

Páginas da maravilhosa BD A Viagem e Edmond Baudoin, publicada pela Levoir na também maravilhosa coleção Novela Gráfica deste ano de 2015.





O que vou lendo! - Ekho, Monde Miroir, vol. 3 e 4 - Hollywood Boulevard e Barcelona

(leiam o post anterior de Ekho, para saberem um pouco mais acerca desta BD)



As aventuras da sensual Fourmille Gratule no misterioso Mundo Espelho continuam nestes dois volumes de encher o olho. A impressionante arte de Barbucci continua a estontear com o controle de personagens cartoonescos e de cenários exuberantes. Não existe rigorosamente nada que este senhor não consiga delinear de forma cativante e sem perder legibilidade. A história escorre languidamente (tal como Fourmille), página após página, quadradinho após quadradinho, complementada pelas cores de Nolwenn Lebreton, que arranjam o quadro de forma plena e digna de figurar em galerias de arte. Cada folhear é palco aberto ao deslumbre do olho. Poderemos perder horas a escrutinar cada detalhe, cada expressão facial, cada personagem perdido na multidão dos grandes planos (quem é que consegue descobrir onde estão Harry Potter e os seus dois famosos amigos?).

A história de Arleston é deliciosamente pop, uma homenagem de sensibilidade francesa à cultura estado-unidense, no caso do Hollywood Boulevard, e à catalã, no caso de Barcelona. Mistura-se aventura com uma pitada de mistério à la Agatha Christie, litros de sobrenatural, erotismo soft e um sentido de humor ao estilo de desenho animado malandro. Tudo para construir dois livros e uma aventura de puro entretenimento que é muito mais que um guilty pleasure. A Banda Desenhada francesa é L'Arabe du Futur, mas também é Natasha, é Corto Maltese mas também pode ser este deliciosamente carnavalesco Ekho

Em Hollywood Boulevard os autores escolhem uma homenagem à idade de ouro da mítica cidade do cinema, envolvendo versões deste mundo espelho que emulam Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, entre outros. Em Barcelona escolhem Salvador Dali. Tudo servido com homenagens às cidades que dão o nome a cada volume, à semelhança do que já acontecia com os dois tomos anteriores, Nova Iorque e Paris. Porque as cidades elas próprias são personagens em todas as aventuras de Fourmille e dos seus companheiros neste estranho mundo mágico onde dragões são aviões e a electricidade não existe. Uma espécie de steampunk mágico.  Não sei quantos volumes terá Ekho no total, mas com entretenimento desta qualidade espero que continue de boa saúde por muitos e mais. Mal posso esperar pelo próximo número, Rome, onde o mistério dos Preshauns será finalmente revelado (e - quem sabe - o que é na realidade este delicioso Mundo Espelho).

Secret Wars (2015), número seis, de Jonathan Hickman e Esad Ribic

(este post contem spoilers para os cinco primeiros números da série Secret Wars)

As últimas páginas do primeiro número de Secret Wars oferecem uma derradeira e devastadora cena: a destruição completa dos universos principal e Ultimate da Marvel. No lugar destes aparece um novo mundo, uma manta de retalhos constituída por eras e universos díspares, roubados do defunto multiverso. A esse mundo deu-se o nome de Battleworld. O seu Deus é Victor Von Doom, salvador do multiverso, Regente Supremo e ex-maior vilão dos universos desaparecidos, o Dr. Destino.

Esta saga estava prevista serem oito números mas foi expandida para nove, o que atesta a escala do que Hickman e Ribic querem deixar como herança. Como já o disse em artigos anteriores, a tarefa a que os autores se propõe é complicada: construir uma saga/evento/marco histórico no universo da Marvel que rivalize com a seminal Crise nas Terras Infinitas da DC Comics. O caminho não era fácil mas, até este sexto capítulo, parecem estar no caminho certo. Se no final atingir o mesmo patamar do desenrolar da história até este momento teremos uma das mais interessantes macro-narrativas que tão bem exemplificam o que de melhor a mitologia dos super-heróis tem para nos oferecer: personagens e cenários maiores que a vida; destino da realidade constantemente posto em causa; escala cosmogónica do conflito. 

Ainda assim, Hickman consegue, à boa maneira do "estilo Marvel", alicerçar o âmago da narrativa em personalidades e cisões ideológicas, fornecendo, ao mesmo tempo, uma escala humana e trágica. Isto porque, também como já referi, este é um estudo de um dos mais interessantes personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby, Victor Von Doom, Dr. Destino, o maior inimigo dos primeiros heróis da Marvel, o Quarteto Fantástico. Apesar de Doom ser, há muitos anos, o alvo de muitas histórias, este Secret Wars arrisca-se a ser o mais elevado momento da sua carreira. Hickman entretece todo um amplo conjunto de eventos e análises de modo a criar tensão com entretenimento e profundidade conceptual. Mas não é só de Doom que Secret Wars trata. É também da "família Quarteto Fantástico", dos sobreviventes dos defuntos universos, da sua luta para restaurar a ordem anterior e das intrigas palacianas para tomada do poder de Deus, perpetradas pelos piores seres que nasceram da imaginação dos inúmeros criadores da Marvel ao longo de 50 anos. E Hickman e Ribic controlam todos estes novelos de forma limpa e legível. Neste sexto número em particular, os estratagemas adensam-se e, num momento de puro "geekismo" envolvendo o Pantera Negra e Namor, a narrativa cresce em emoção e escala (os que achavam que isso não era possível não conhecem super-heróis nem o talento de Hickman). Paulatinamente, os elementos congregam-se para o fechar da cortina que espera-se verdadeiramente épico.

Até este momento, a versão de 2015 de Secret Wars é um triunfo e umas das melhores BD's do género deste ano. E, quem sabe, mesmo uma das melhores histórias que li em 2015, ponto final.

Rapidinhas de BD - Autumnlands vol. 1, Tooth & Claw e Undertaker vol. 1: Le Mangeur D'Or



Em conversa com um dono de uma loja de Banda Desenhada em Lisboa consolidei uma certeza que tinha há alguns anos: o eterno estigma que a BD tem, o de ser infanto juvenil, perpetua-se. Eu sei que esta afirmação não é uma novidade para ninguém, mas existe um efeito pernicioso em particular do qual queria falar. Mesmo para os que estão interessados em entrar neste mundo, o medo de perguntar por algo que outros vêem como "inferior" barra o ímpeto de experimentar. Não tenhamos duvidas: isto é uma questão de cultura, de falta dela e, por conseguinte, de ignorância. Sabemos todos da dificuldade que é entrar no mundo da BD, também pela quantidade de oferta e pela aparência de insularidade que a Arte carrega consigo. Essa aparência é, contudo, isso mesmo, porque a oferta é de tal forma variada que existe algo para cada leitor, independentemente do gosto. Vejam o exemplo destas duas BD: uma um conto de Alta Fantasia com animais antropomorfizados; outra, um simples western.

Autumnlands foi uma muito agradável surpresa. Conheço bem o escritor Kurt Busiek pelo seu trabalho na Marvel, na DC e no excelente título Astro City. Contudo, aqui o autor envereda por um caminho a que não estamos habituados. Calcorreamos paisagens e cidades de um mundo místico imaginário, populado por animais antropomorfizados, onde a Magia, o equivalente à electricidade na nossa civilização, encontra-se em risco de esgotar-se e arrastar este universo para o caos. Um conjunto de místicos juntam-se numa derradeira busca para encontrar a salvação. Como já o disse variadíssimas vezes, muitas são as vezes em que a originalidade da premissa (ou falta dela) não é importante. Interessa mais a habilidade dos artistas em entretecer palavras com palavras e palavras com desenhos de modo a construir algo verdadeiramente seu e único. Parece ser o caso deste Autumnlands. Busiek mistura mundos imaginários com religião, intriga palaciana com salvadores predestinados, para criar um enredo entusiasmante e, em todas as esquinas, cheio de mistérios. Este primeiro volume é uma grande vitória. E, já agora, a arte de Benjamin Dewey é de babar (a Image continua a dar AS cartas que interessam na BD dos EUA).

Xavier Dorison e Ralph Meyer, por seu lado, enveredam num estilo que (sempre achei curioso) tem bastante sucesso por terras gaulesas: o western. Esta BD vem com o rótulo de "a melhor do estilo depois de Blueberry". Como nunca li este último não posso comentar (tenho em casa quase todos prontinhos para o fazer mas a prioridade passa antes por Thorgal e por Valérian - westerns não são bem a minha praia). Achei a leitura deste Undertaker escorreita e interessante. Acompanhamos um pistoleiro cangalheiro anti-herói muito ao estilo de vários outros westerns estado-unidenses, um homem marcado por um passado sombrio, tão rápido na pistola quanto no sarcasmo. Até aqui nada de novo mas o enredo que impele à acção do protagonista, envolvendo obviamente um cadáver e o transporte de uma fortuna em ouro, embeleza a narrativa e agarra. O desenho lembra Giraud mas com  uma distribuição das vinhetas mais moderna. Em suma, um bom entretenimento. 

Secret Wars (2015) número cinco de Jonathan Hickman e Esad Ribic

(contém spoilers dos quatro primeiros números da minissérie)

Sou doido por uma boa Cosmogonia. Deliro com rebuscados relatos rocambolescos das múltiplas mitologias mundiais. Quanto mais empolados melhor. Quanto mais grandiloquentes melhor. Gosto das guerras entre deuses, gosto das explicações elaboradas para elucidar o mistério de quem criou o Universo (ou o Multiverso) e de como o criou. Adoro o Ainulindalë de Tolkien, adoro o Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro que coleciona, nos primeiros capítulos, diferentes Cosmogonias de diferentes culturas e adoro a intrincada explicação do nascimento do multiverso da editora de BD DC Comics (recentemente aprimorada no Multiversity e na Justice League dos escritores Grant Morrison e Geoff Johns, respectivamente).

Há algum tempo li uma entrevista de Jonathan Hickman, a mente criadora deste Secret Wars da Marvel, onde dizia que o número cinco seria um dos mais importantes momentos da história. Devido ao trabalho feito nos Vingadores, a minha expectativa em relação a uma verdadeira Cosmogonia da Marvel é elevada. Não que a editora não tenha uma, mas não recordo ter sido contada como o foi na DC. Sempre pareceu-me mais espartilhada. Teríamos de coleccionar pedaços aqui e ali. Recordo-me do relato da Eternals Saga publicada na revista do personagem Thor, mas muito centrada nesse personagem (já foi retractivamente eliminada várias vezes). Ou poder-se-ia confundir com a origem de Galactus, publicada também nas saudosas histórias do Thor por Jack Kirby e Stan Lee. Ora, estava com esperança que o número cinco pudesse ser este relato. O problema é meu, claro, mas esta expectativa diminui um pouco o prazer de o ler.

Não deixa de existir uma Cosmogonia neste quinto capítulo mas centrada no novo universo criado pelo Deus Doom (Dr. Destino). São revelados pontos importantes relativamente ao nascimento da nova realidade da Marvel mas o mais interessante é a continuada exploração da personalidade de Destino. Secret Wars de Hickman é, de forma assumida, isso. Na sequência dos trágicos acontecimentos do número quatro, ocorre um delicioso diálogo entre o herói/vilão e a sua filha adoptiva, Valeria Richards, que espelha o gigantesco ego e (no fundo) a insegurança do personagem que, sem dúvida, ditará a sua tragédia e queda. Obviamente, o enredo terá de avançar e existem algumas fraquezas na procura de equilíbrio entre o avançar da história, descortinar das personalidades e deambulações do autor. Contudo, face ao panorama passado de sagas desta envergadura na literatura de super-heróis, Secret Wars continua a ser um dos melhores exemplos. Um bastião de qualidade autoral raramente conseguido, quer do ponto de vista de Hickman, quer de Ribic, uma força da natureza muito apropriada ao épico da história.


Agora, era tão bom que antes do último capítulo tivéssemos uma Cosmogonia à séria.

O que vou lendo! – East of West vol. 4, Sex Criminals vol. 2 e The Wicked + The Divine vol. 2



Para quem lê Banda Desenhada dos EUA é hoje impossível escapar ao peso da Image, a editora independente que tem, paulatinamente, começado a dar cartas. Apesar de haver iniciado a sua actividade nos princípios da década de 90, em pleno boom da BD, demorou quase duas décadas a mudar a agulha, desfocando-se do negócio controlado pela Marvel e DC, o dos super-heróis, e preferindo o trabalho de autor. Nos últimos anos, inaugurou uma relação com os criadores que modificaria não só a sua actividade e o seu catálogo, como também o modo como toda a 9.ª Arte dos EUA ver-se-ia. Obviamente que o sucesso dos filmes e séries de TV ao estilo BD (como The Walking Dead, por exemplo, que pertence à Image), com todas as compartidas financeiras daí advidas, estimulou uma nova aproximação, mas não só. Por um lado, os criadores estão a ficar cansados que as suas histórias, por mais bem recompensadas que sejam, não fiquem como propriedade intelectual sua. Exemplos como o de Jack Kirby ou dos criadores do Super-Homem foram rastilho para uma posição menos inocente. Por outro lado, a narrativa dos super-heróis, querida a muitos, sem dúvida, começa a ser vista como não sendo a única capaz de atrair a atenção do público. Assim, movimentos que já existiam há décadas consolidaram-se recentemente e adquiriram uma dimensão nunca conhecida nos EUA. E a Image é um dos maiores porta-estandartes deste novo paradigma.

Qualquer uma das três BD’s de que falo neste post é não só exemplo da “filosofia Image” como da qualidade e idiossincrasia dos autores envolvidos. Apesar de muitos criadores dos EUA ainda terem alguma dificuldade em sair da arena da Fantasia e mesmo de alusão tangente ao super-herói, as três obras conseguem abordagens e temáticas tão díspares quanto o são as personalidades dos autores. East of West de Jonathan Hickman e Nick Dragotta continua, junto com a famosa Saga de Vaughan e Staples, a ser uma das maiores e mais relevantes publicações da Image, não só por ter sido das primeiras desta nova cara da editora como também por se haver destacado em qualidade e diferença. Hickman desenhou uma Terra cuja história é bastante diferente da nossa, numa mistura de Mad Max com o relato bíblico do Apocalipse. Um dos fortes não é só o enredo mas a épica linguagem de Hickman. Os seus personagens não debitam apenas palavras mas frases de impacto shakespeariano, infinitamente citáveis (já aqui o fiz). Esta é daquelas obras que apenas podia ser feita em BD, pela escala operática, pelos diálogos grandiloquentes e pelas situações maiores que vida.

Não que The Wicked + The Divine de Kieron Gillen e Jamie McKelvie fique atrás de East of West em escala e “citabilidade” (também já o fiz aqui). Mas ao contrário da primeira, a obra de Gillen e McKelvie vem de um lugar mais reconhecível, de uma geografia mais próxima. Enquanto East of West é deliciosamente estranho, The Wicked + The Divine faz lembrar coisas como Sandman, se escrito para os “millenials”. Apesar dos deuses que reencarnam em corpos de adolescentes de 16 anos para morreram daqui a dois, a leitura é feita pelos olhos deste início de século XXI, numa cultura de ausência de privacidade, de distância dos pais, de fama e atração pelo abismo do glamour. Contudo, a análise de Gillen vai mais longe do que no simples destilar do zeigeist e dos trejeitos da adolescência “milenar”. Eles são analisados mas também são protagonistas. Os autores não se limitam a ser observadores ao estilo National Geographic, antes participam e escalpelizam, virando a sua capacidade de análise para o interior e exterior da história. Isto porque qualquer narrativa digna desse nome não deve cingir-se ao singular mas também explorar o plural sob a lupa do microscópico.

Finalmente, o OVNI que é Sex Criminals de Matt Fraction e Chip Zdarsky. A premissa se não sabem, deveriam: existem pessoas que, quando atingem o orgasmo, param o tempo. Literalmente. Sim, o conceito é estranho, kitsh e, para sensibilidades mais ténues, a roçar o mau gosto. Uma espécie de Filme de série Z (ou XXX, se quiserem). Mas Fraction e Zdarsky não descansam nos louros do impacto inicial. Sabem que não basta um “alto conceito” para conduzir a narrativa. Sem perder um átomo da beleza e da provocação (estamos a falar dos EUA, um país com uma relação curiosa – aos olhos de um europeu - com o sexo e violência), conduzem a história não só para uma análise das complexas personalidades dos dois protagonistas, como para os problemas da sexualidade, numa óptica adulta, desenvolvida e robusta (se podem considerar robusta esta análise pop da questão). Este segundo volume afasta-se um pouco da questão fantástica e foca-se na complexidade ética e moral das situações e personagens, ganhado em peso e corpo.


Três livros, três vitórias da Image. A continuar assim, a Marvel e a DC que se ponham em bicos de pés porque têm um concorrente à séria.

Daredevil: Devil at Bay e West-Case Scenario de Mark Waid e a série de TV Daredevil



Rai’s parta ao diabo, ou melhor, ao Demolidor, que ultimamente é difícil de ser mau. Quer seja a lê-lo ou a vê-lo. Há 15 anos consecutivos que a Marvel não consegue publicar más histórias deste personagem (OK, o esforço do escritor Andy Diggle não foi dos melhores mas, ainda assim, superior à média). Começou com a dupla Kevin Smith/Joe Quesada, continuou com o último e David Mack (que até vai ser publicado em Portugal pela Levoir na sua nova coleção), a fabulosa e muito essencial saga de Bendis/Maleev, seguidos, em catadupa, de Brubaker/Lark e Diggle (com vários desenhadores). Esta “fase” foi longa, deprimente, negra e assustadoramente boa, porque bebia da pesada e nobre herança do segundo e talvez “verdadeiro” criador do Demolidor, Frank Miller (já falo mais dele). Depois de tanta tragédia, a Marvel decide ir por um caminho diferente, entregando o personagem ao escritor Mark Waid, que tem feito um trabalho extraordinário, declamando palavras que, bem misturadas, formam alguns dos melhores contos feitos para o Homem Sem Medo. Perdeu muito do ambiente noir que caracteriza o personagem desde que Frank Miller o fez seu e bebe mais da herança super-heroística. Contudo, e aí reside a arte de Waid, sem se afastar da aura fatalista que agarra Matt Murdock desde há muito.

Waid está na recta final da saga e, tradicionalmente para este personagem e ainda bem, a Marvel tem deixado em paz os autores que lidam com o Demolidor (excepto por um leve crossover com um evento num destes dois livros). Podemos, assim, saborear e sem molhos o prato desenhado pelo escritor. O personagem é, de facto e salvo as devidas distâncias, o Batman da Marvel, em que a visão do autor consegue moldar-se em volta do personagem sem perder identidade, quase como se todos quisessem deixar a sua impressão digital, não tanto na personalidade do Homem sem Medo mas antes no seu historial. Há personagens com essa sorte, em que a continuidade não os afecta e para os quais há espaço para a individualidade. Continuem a deixar o Demolidor em paz que nós agradecemos.


Frank Miller está em todo o código genético da maravilhosa série de TV que teve o Demolidor como personagem. Consigo dizer, sem reticências, que, para o meu gosto, a 1.ª temporada de Daredevil da Netflix é o melhor filme da Marvel até o momento. Solidamente assente no universo cinematográfico que iniciou-se em 2008 com o primeiro Iron Man é, contudo, completamente diferente. Adulto, violento, complexo, moralmente ambíguo, como dizia um amigo meu da Spoiler Alert, é os Sopranos dos super-heróis. Mas mais do que isso. Esta 1.ª temporada poder-se-ia antes chamar Wilson Fisk, que os fãs reconhecem como sendo Kingpin, o vilão do Homem-Aranha que Frank Miller re-imaginou como o Némesis de Matt Murdock. Nesse sentido é os Sopranos, porque a “viagem” de Fisk é tão (ou mais) importante quanto a de Murdock.


Os fãs como eu deliciaram-se com as interpretações de D’Onofrio como Fisk, Charlie Cox como Demolidor, Deboral Ann Woll como Karen Page, Elden Henson como Foggy Nelson, Rosario Dawson como Claire Temple, a Night Nurse, e, a minha favorita, Ayelet Zurer no papel de Vanessa, a amada de Kingpin. De facto, tenho dificuldades em encontrar falhas nesta excelente série, que quase me levou às lágrimas. Desde estes maravilhosos actores ao burilado e inspirado argumento, que bebe sem reverência escusada à BD, principalmente aquela que “interessa”, a de Frank Miller, tudo é bom, cuidado. Venha a 2.ª Temporada que mal posso esperar. 

Secret Wars (2015), a sétima e oitava semanas.



As últimas páginas do primeiro número de Secret Wars oferecem uma derradeira e devastadora cena: a destruição completa dos universos principal e Ultimate da Marvel. No lugar destes aparece um novo mundo, uma manta de retalhos constituída por eras e universos díspares, roubados do defunto multiverso. A esse mundo deu-se o nome de Battleworld. A colecção de reinos que constituem Battleworld serão o foco, ao longo destes próximos meses, de múltiplas minisséries. Cada uma delas conta uma história singular que, contudo, não deixa de fazer parte do mosaico que é a nova realidade do universo da Marvel. 

O macro-vento de 2015 da editora americana de BD Marvel, Secret Wars, continua a somar semana em cima de semana não só da minissérie principal, onde testemunhamos as tragédias do maior vilão deste universo de fantasia, o Dr. Destino,  como em outras séries que focam os referidos diferentes reinos de Battleworld. Cada uma destas, que podemos chamar de auxiliares mas são mais complementares sem serem essenciais, faz parte de um conjunto que podemos classificar usando os nomes de personagens ou grupos de personagens que constituem o mosaico que é o universo fictício da Marvel. Temos o conjunto do Homem-Aranha, dos Vingadores, dos X-Men, do Hulk, dos "carta-fora-do-baralho" e do universo Ultimate. Esta semana, decidi usar esta abordagem para simplificar a tarefa da apreciação do que foram as várias minisséries auxiliares de Secret Wars.

Homem-Aranha

Deste conjunto, em termos de qualidade, destaco o trabalho de Slott e Kubert em Spider-Man: Renew Your Vows. Ambos os artistas conseguem agarrar em dois conceitos vilificados, o casamento de Peter Parker e Mary Jane e o nascimento da sua filha, e torná-los relevantes, emotivos e empolgantes no contexto da narrativa. Continua a ser um dos títulos mais valorosos de Secret Wars e prova de que Slott, mesmo depois de tanto que já escreveu, ainda tem muito o que dizer sobre o Homem-Aranha e a sua mitologia. Os outros dois títulos, Spider-Verse e Spider-Island, não sendo totalmente maus, também não oferecem (ainda) nada de relevante.

Vingadores

É sob esta bandeira que aparecem algumas dos mais interessantes minisséries, nomeadamente, Civil War e Squadron Sinister. A primeira é novidade e re-imagina um mundo depois da conclusão muito diferente da famosa série da Marvel onde o Capitão América e o Homem de Ferro eram antagonistas. Charles Soule continua a provar ser uma das mais interessantes imaginações desta nova leva de escritores da BD dos EUA. Squadron Sinister prossegue o que já havia inaugurado no primeiro número e com o mesmo nível de qualidade, algo que me surpreende no escritor, Guggenheim, ainda que não no desenhista, o espanhol Pacheco. Ambas as minisséries fazem bom uso desta nova realidade do multiverso Marvel para construir não só boas histórias com personagens antigos, como contos com alguma relevância moral. 

A-Force e 1871, por seu lado, pouco ou nada me disseram.

X-Men

Deste grupo, destaco Age of Apocalypse e Inferno , já que Days of Future Past e X-Tinction Agenda ainda não me satisfizeram a curiosidade. Inferno, como já tive oportunidade de escrever, oferece não só uma pequena viagem a momentos divertidos da juventude como uma história que, não sendo profunda, continua a ser bastante divertida. Cheia da típica tragédia Claremontiana (Chris Claremont, para quem não sabe, é a uma das verdadeiras cabeças por detrás do mega-sucesso que são os X-Men), acompanha personagens como Colossus e Magik, enquanto caminham inexoravelmente para um destino sem dúvida cheio de horizontes negros.  Por seu lado, Age of Apocalypse faz-me regressar a uma das sagas pós-Claremont da qual guardo melhores recordações (e um dos moldes do qual nasceu o conceito por detrás deste Secret Wars de 2015). Apesar de não ter particular fé na escrita de Nicieza aqui fez um trabalho competente.

Hulk

Com apenas uma série esta semana, Future Imperfect, continua ser uma das melhores. David e Land fazem um trabalho divertido, cheio da ironia mordaz do primeiro e dos agradáveis visuais do segundo. E é sempre bom ver o Hulk e o Coisa à porrada, mesmo não sendo as versões clássicas.

Carta-fora-do-baralho

Destaco Master of Kung Fu e Red Skull. O primeiro reinventa toda a panóplia de conceitos por detrás da mitologia de artes marciais da Marvel, desde o titular Mestre do Kung Fu até Punho de Ferro, de uma forma tão agradável que esperávamos que não acabasse finda Secret Wars. Red Skull era algo que sobre o qual não tinha qualquer tipo de expectativa, acaba por ser um primeiro número muito interessante ao nos dar uma visão diferente de um dos únicos personagens da Marvel que pode rivalizar em vilania com o Dr. Destino.

Mrs. Deadpool and the Howling Comandos é um presente leve e humorístico sem ser genial. Ghost Riders  é mediano.

Ultimate

Esta é uma daquelas minisséries verdadeiramente essenciais, principalmente para quem quiser saber o destino final deste universo onde existiram desde 2000 versões alternativas do Homem-Aranha, Vingadores, X-Men, etc. O trabalho de Bendis e Bagley está a meio caminho entre o inspirado e o competente, mas tendo em consideração estes dois talentos isto não é propriamente uma crítica. Continua a ser uma narrativa forte, se bem que fortemente alicerçada no conhecimento prévio e profundo do que veio antes. Não é um leitura fácil para o leitor ocasional, ao contrário das outras minisséries. Apenas para doutorados.

O que vou lendo! – L’Arabe du Futur de Riad Sattouf





A vida privada é um segredo que muitos optam por guardar. O artista, por seu lado, tem dificuldades em que assim seja. Mesmo que indiretamente, por intenção revelada e não declarada, acaba por verter as suas experiências e pontos de vista para a forma de expressão artística que (o) escolheu. Riad Sattouf é o caso de um homem de coragem, do estilo de artista que escolheu explanar a sua vida e, mais importante, um ponto de vista sobre a sua vida para a folha de papel, neste caso a Banda Desenhada. Não é o primeiro, claro. Lembro-me de exemplos óbvios como Satrapi com Persépolis, Thompson com Blankets ou as primas Tamaki com This One Summer. Aliás, estas autobiografias têm mais do que apenas essa linha de código genético em comum. Fazem parte de um tipo de BD já robusto, onde os autores constroem uma análise profunda da sua vida ou de um episódio da sua vida usando não só a linguagem da 9.ª Arte como também de uma linha de desenho mais cartoonesco (dos quais este L’Arabe do Futur e Persepolis são bons exemplos) ou estilizada (Blankets e This One Summer) – não deixa de ser curioso que os dois primeiros são árabes residentes em França e os segundos oriundos do continente norte-americano (Thompson dos EUA e as Tamaki do Canadá).

L’Arabe du Futur volume 1 (o segundo já saiu em França) concentra-se na infância do jovem Riad, mais precisamente entre 1978 e 1984, quando os pais, ele Sírio e ela Francesa, decidem, por iniciativa e insistência do primeiro, em viver na Líbia e depois na terra natal do progenitor. L’Arabe du Futur será uma trilogia, focando-se nos 13 anos da vida do autor passados no Médio Oriente, quando o patriotismo do pai os obriga a viver num mundo pelo qual nutre particular esperança e obstinada reverência. Existem dois aspetos que acho particularmente interessantes abordar. Primeiro, a questão de Riad ser um árabe de cabeço loiro, o que oferece a narrativa a momentos de humor, que contrastam com a vida na Líbia e Síria, constrangedora nos momentos mais leves e claustrofóbica nos piores. Por outro lado e complementarmente, o estilo de desenho cartoonesco oferece ao leitor um distanciamento aliviante face à situação que é muitas vezes desassossegada ao olhar, principalmente quando a comparamos com as informações que temos em relação ao fanatismo religioso islâmico bem como aos desenvolvimentos recentes nos dois países onde esta família viveu. Mas essa escolha estilística acaba, emocionalmente, não por afastar-nos mas aproximar da narrativa e da experiência de Riad, imerso num pai que parece cego ao desfile de misérias que se lhe passeiam pela frente e a uma mãe que, aparentemente, é distante. Contudo, desenganem-se se acham que Sattouf isenta a França do seu olhar irónico e satírico. Ainda que esses episódios sejam, neste primeiro volume, pequenos, ele não deixa de analisar de forma caustica algumas experiências passadas na terra natal da mãe relacionadas com família e com o modo como tratam-se outras pessoas - o episódio da velhota solitária é particularmente pungente, quando comparado com o modo como os idosos são tratados e vistos no Médio Oriente.


Esta é sem dúvida uma das BD do ano (ou não tivesse ganho o prémio máximo na Angoulême 2015) e, numa excepção que seria bom ser a regra, acabou de ser publicada em Portugal pela Teorema. Uma adição salutar à biblioteca lusa que aconselho mais que vivamente. Leitura obrigatória. 


Secret Wars (2015), número quatro.

(contém spoilers dos três primeiros números da minissérie)

Agora que os três primeiros números do evento de 2015 da Marvel preocuparam-se em destruir o anterior multiverso Marvel, em colocar Victor Von Doom como Deus e em descrever este admirável novo mundo, Battleworld, podemos então passar à acção. Ou, como diz a outra, a coisas sérias. Eu sou fã de combates tanto quanto qualquer outro "verdadeiro" fã de Banda Desenhada de super-heróis, principalmente quando explorados para lá do "violence-porn" que tantas e tantas vezes dissemina-se pelas artes que advêm do outro lado Atlântico. Depois dos dois números que antecederam este quarto fiquei mal habituado por Jonathan Hickman. Gostava que tivesse um pouco menos de acção e mais de exploração da personalidade, conflitos e tragédias dos principais actores no drama que se tem vindo a desenhar. Ainda assim, este é um capítulo absolutamente necessário para o avançar da trama, servido com alguns momentos choque inesperados e relevantes para o enredo. Que posso dizer? O Dr. Destino nunca deixará de ser o Dr. Destino. E, nesse sentido, não deixa de ser mais uma linha de raciocínio sobre a fascinante personalidade do maior vilão do universo Marvel.

Esta minissérie principal do evento Secret Wars é, até agora, não só um conto de repercussões cósmicas e transversais à História do universo fictício da Marvel, mas também uma calma reflexão sobre a personalidade e motivação do seu personagem principal, o Dr. Destino. Ele não é apenas o móbil mas também o enfoque. Isto revela a força da criação de Stan Lee e Jack Kirby bem como dos artistas que se lhes seguiram. Um vilão ter esta relevância deve ser a norma e não apenas a excepção, como tantos exemplos da melhor literatura mundial atestam. O adversário é muito mais que o reflexo distorcido da missão do herói, ele próprio é o espelho da Humanidade e, mais importante, um personagem único em toda a sua glória. Não é tanto apenas um arquétipo mas um indivíduo. Os artistas que têm trabalhado com o Dr. Destino têm feito, regra geral, um bom trabalho. Hickman é apenas o mais recente e, quem sabe, um dos grandes.

Neste número, o trabalho de Esad Ribic continua claramente acima da média, ainda que se note já um pouco a pressão dos prazos de entrega. Felizmente, a velocidade da minissérie irá abrandar do quinzenal para mensal, deixando mais tempo ao artista para destilar todo o seu talento para a página. Aguardo com antecipação o número que segue, já que Hickman revelou tratar-se de um dos mais importantes capítulos da macro-saga que pretende concluir com Secret Wars e que iniciou na run  dos Vingadores. Curioso que a planeada intenção de destruir o universo Marvel tenha começado como um conto dos maiores heróis deste mundo e acabado com um foco no Quarteto Fantástico e no seu maior inimigo. Hickman é o consumado planeador de muito longo prazo - não nos esqueçamos que durante muitos anos escreveu  a primeira família da Marvel.

Secret Wars (2015), a sexta semana


As últimas páginas do primeiro número de Secret Wars oferecem uma derradeira e devastadora cena: a destruição completa dos universos principal e Ultimate da Marvel. No lugar destes aparece um novo mundo, uma manta de retalhos constituída por eras e universos díspares, roubados do defunto multiverso. A esse mundo deu-se o nome de Battleworld. A colecção de reinos que constituem Battleworld serão o foco, ao longo destes próximos meses, de múltiplas minisséries. Cada uma delas conta uma história singular que, contudo, não deixa de fazer parte do mosaico que é a nova realidade do universo da Marvel. 

As primeiras cinco semanas deste evento deixaram-me um pouco mal habituado. A qualidade, já o disse, é surpreendentemente boa para acontecimentos deste gabarito. Todos os anos, por vezes mais do que uma vez por ano, quer a Marvel, quer a DC, "presenteiam-nos" com coisas destes tipo. Muitas das vezes, a qualidade não é a prioridade para ambas. Secret Wars, quer na minissérie principal, quer nas auxiliares, não tem sido o caso. Esta sexta semana é a que ofereceu títulos de qualidade mais variável e, regra geral, aquela que menos me entusiasmou. Claro que as coisas não devem ser vistas desta forma. Contudo, já que foi este o método que escolhi, persistirei nele, ainda que contra o meu melhor bom senso.

A Marvel conseguiu atrair alguns autores interessantes para selectas séries de Secret Wars. Apesar de trabalhar já há alguns meses em outros títulos da editora, James Robinson, do incrivelmente saudoso Starman, não deixa de ser um deles. Fui fã do seu All-New Invaders que, infelizmente, acabou cedo demais. Obviamente, estava curioso para a qualidade da escrita neste premissa tão deliciosamente pop: robôs assassinos contra super-heróis zombies. Infelizmente, este primeiro número não é surpreendente, muito à semelhança do trabalho do escritor noutra minissérie, Armor Wars, que também já não se destacava. Ainda assim, a confiança no talento de Robinson dá-me esperança.

Outro saudoso autor é Garth Ennis. Where Monsters Dwell é uma série, como já disse em relação ao primeiro número, perfeitamente talhada para e pelo autor. Repete os seus trejeitos ou, se preferirem, o seu estilo. Continua forte ainda que a repetição, por definição, não ofereça nada de singularmente novo.

Infinity Gauntlet é também um exemplar curioso ainda que não extraordinariamente empolgante. A arte é boa e a premissa, enredo e desenvolvimento de personagens oferecem algum entretenimento. Falta, contudo, um golpe de asa para me arrebatar. Ou então, pura e simplesmente, não é talhado para o meu gosto. O mesmo sentimento foi-me oferecido por Planet Hulk que, sendo interessante, não é também algo que me tenha ainda cativado. Pode ser que as conclusões de ambos sejam recompensadoras.

Esperemos que esta semana tenha sido apenas a excepção.

O que vou lendo! - Thor, The God of Thunder vol. 1 por Jason Aaron, Esad Ribic e Butch Guice

Este post é um pouco preguiçoso. Já aqui falei dos 11 capítulos que formam esta compilação de capa dura e maior formato. Contudo, a qualidade da história que o escritor Jason Aaron começou a contar exactamente nestas páginas justifica (a meu ver) uma segunda visita. A visão que tem para Thor ainda não foi totalmente descortinada, e até essa descoberta teremos sempre de refrear se não o entusiasmo pelo menos o juízo final. Se tomarmos apenas como exemplo estes primeiros capítulos poderemos ter em mãos uma das mais emblemáticas sagas do Deus do Trovão. Ou, se calhar, sou só eu. O tempo o dirá. Assim sendo, se tiveram paciência reponho abaixo os dois posts que escrevi sobre estes tais 11 capítulos, antes coleccionados em dois livros e agora compilados num único. É que ler neste maior formato é como ver um filme (qualquer filme, não só os de "acção") num ecrã gigante. Sabe a repasto e não a uma ida ao centro comercial.

Primeira parte

De vez em quando gosto de pensar que existem dois tipos de leitores no que respeita a BD de super-heróis: os que gostam do Super-Homem e os que inclinam-se para o Batman. Uns preferem seres maiores que a vida, dotados de poderes divinos, envolvidos em situações onde, permanentemente, o destino da realidade é posto em causa - estes são os do Super-Homem. Os de outra qualidade preferem heróis realistas, que poderiam existir no nosso mundo e que, diariamente, travam uma luta desesperada e trágica contra o cinza do crime nas cidades - estas são as do Batman.  Antes de continuar, os fãs de BD que me perdoem a excessiva compartimentalização. Obviamente que a apreciação da arte não passa por este preto e branco excessivo. Mas, ainda assim, existe aqui algo de verdade.

No que me toca, sempre pendi mais para o lado do Super-Homem e o Thor, livro e personagem que me trouxeram a este post, tende claramente para o lado cósmico do arquétipo do super-herói. Neste sentido, este primeiro volume do trabalho de Jason Aaron e Esad Ribic é um soberbo exemplar da capacidade que a BD tem em superar os limites da Prosa e do Cinema e contar uma história verdadeiramente cósmica em escala, linguagem e alcance. O enredo atravessa o tempo e o espaço, focando-se em três épocas da vida do Deus do Trovão enquanto este confronta um ser demoníaco e hiper-poderoso cujo objectivo é claro no título do livro: exterminar todos os panteões de deuses do universo. Ênfase em universo. Pela primeira vez (pelo menos tanto quanto é do meu conhecimento) aparecem nas páginas do personagem outros panteões que não apenas os terrenos. Aaron delicia-se em criar múltiplos deuses, espalhados pelos cantos do cosmo e alvo da adoração de uma multitude de povos alienígenas. Para completar o quadro, a linguagem tipicamente  visceral que costuma aplicar aos seus diálogos e exposições é aplicada a longos momentos de exploração cosmogónica. Existe prazer nesta descoberta, particularmente deliciosa para quem o lê, tendo em consideração outras obras mais "urbanas" que caracterizaram anteriores explorações do autor (portanto, estilo Batman): Wolverine e Punisher, por exemplo. A aproximação rude que Aaron faz aos personagens, que geralmente são duros e másculos, aplica-se na perfeição a Thor, que podemos ver como o guerreiro definitivo. De facto, existe no personagem e no autor uma salutar combinação, como se ambos tivessem destinados em se encontrar. Visceralidade misturada com Divindade, à boa maneira do povo que adorava Thor, os Vikings.

Segunda parte

Godbomb completa, de forma verdadeiramente épica, os eventos que começaram nos primeiros capítulos. A batalha final de três versões do Deus do Trovão, uma do passado, outra do presente e uma do longínquo futuro, contra o "Chacinador de Deuses", desenrola-se no palco mais que apropriado para estas mitologias: o cósmico. Toda a grandiloqüência de combates maiores que a vida, toda a fúria tonitruante, todo o poder titânico, foi concentrado pelas palavras de Aaron e pela arte de Ribic em onze capítulos que, muito sinceramente, já vigoram (no que a mim diz respeito) nos melhores contos de Thor.

Muito raramente uma voz poderia colar tão bem com as palavras e ações de um personagem. Aaron é perfeito para Thor e para o seu universo, misturando masculinidade, belicismo medieval, orgias, bebedeiras e combates, num cozinhado de puro entretenimento. Ao mesmo tempo, mistura uns pós de reflexão suave que constroem um conto que vai para além dos limites do filme-pipoca. Ribic, por seu lado, com desenho limpo e cenários mitológicos, é a escolha acertada para o escritor e personagem. 

Agora que já se prepara o terceiro filme protagonizado por Thor, inspirado na lenda Viking de Ragnarok, o crepúsculo dos deuses, tenho uma sugestão a fazer. Quando estiverem a pensar no quarto filme das aventuras do Deus do Trovão na 7.ª Arte, não vão muito mais longe que estes primeiros onze capítulos do trabalho de Jason Aaron. Tudo é perfeito para o cinema: uma história direta e pouco alicerçada na complicada continuidade do personagem; cenários maiores que a vida; combates épicos; um vilão tenebroso. Não mudem as palavras, não medem quase nada. Não vale a pena. Aaron e Ribic já fizeram o trabalho mais difícil. É só copiar e não estragar. 

Secret Wars (2015), a terceira, quarta e quinta semanas.


As últimas páginas do primeiro número de Secret Wars oferecem uma derradeira e devastadora cena: a destruição completa dos universos principal e Ultimate da Marvel. No lugar destes aparece um novo mundo, uma manta de retalhos constituída por eras e universos díspares, roubados do defunto multiverso. A esse mundo deu-se o nome de Battleworld. A colecção de reinos que constituem Battleworld serão o foco, ao longo destes próximos meses, de múltiplas minisséries. Cada uma delas conta uma história singular que, contudo, não deixa de fazer parte do mosaico que é a nova realidade do universo da Marvel. Já aqui falei das duas primeiras semanas destas minisséries. Falo agora das três que se lhes seguiram.

Já há muitos anos que sigo as mitologias dos universos da Marvel e da DC. Já vi universos morrerem e ressuscitarem. Já vi inúmeros eventos deste gabarito, multiuniversais e moldadores da realidade. A maior parte ficava aquém das expectativas geradas. Não é, volto a repetir, o caso de Secret Wars até agora. Não só na série principal como também no foco deste post, as minisséries auxiliares, que são legião (como podem ver pelas imagens). 

Nestes três semanas que deixei acumular, começaram novas séries e outras continuaram. Destas últimas, continuo a destacar Old Man Logan de Bendis e Sorrentino que não só oferece os maravilhosos desenhos e composições de página da segunda, como constrói uma história que poderá ser diferente das restantes. Nesta realidade alterada pela mão agora divina do Dr. Destino, o Wolverine de Old Man Logan parece ser ainda mais deslocado. O que isso significa saberemos nos próximos meses. Também no gabarito de minisséries que poderão oferecer algo mais do que apenas diversão em Battleworld está, claro, Ultimate End, que desenha a derradeira aventura do universo Ultimate. Já sabemos que no universo renascido pós-Secret Wars teremos uma realidade agregada e esta minissérie, também de Bendis mas com os desenhos de Mark Bagley, é a coda dessa linha de publicação da Marvel que acompanhou os leitores nos últimos 15 anos. As duas mentes criativas que abriram as portas são também aquelas que as fecham. Segue-se uma aposta pessoal para a série que poderá esconder um segredo muito importante: Future Imperfect de Peter David e Greg Land. David regressa a um dos personagens com que mais é associado, o Hulk, mas na sua versão futura e psicopata. É uma história bem construída, alicerçada em reviravoltas de enredo e na prosa irónica e cáustica de David.  A última página é um momento particularmente importante, se tivermos em conta o que continua a ocorrer na série principal. Para acabar as séries que transmitem a sensação de relevância para o teatro global de Secret Wars, temos a minha escolha pessoal para a melhor desta safra: Thors de Jason Aaron e Chris Sprouse. O trabalho do primeiro em Thor depressa está a desenhar-se como sendo um dos pontos altos da já longa carreira do personagem, quem sabe vindo a ombrear com a parelha Lee/Kirby, os criadores, e com Walt Simonson, o revolucionário. Efectivamente, não canso-me de elogiar o trabalho de Aaron (leiam mais aqui e aqui) que continua a ser brilhante (os leitores atentos saberão que esta nova realidade, a de Battleworld, já tinha sido prevista pelo Thor do futuro - um pequeno apontamento geek).

Das séries que continuam de semanas anteriores, sublinho os trabalho de Soule e Timms em Inhumans - Attilan Rising, bem como de Hopeless e Gárron em Inferno. O segundo oferece uma história descomprometida mas divertida de uma realidade alterada dos X-Men. O primeiro entretece-se, de forma entusiasmante, na macro-tapeçaria de Secret Wars, misturando mistério e rebelião num desfecho que se espera interessante.

Quanto às muitas séries novas, irei destacar apenas algumas, obviamente aquelas de que mais gostei. Começo pela surpreendentemente boa Squadron Sinister de Guggenheim e Pacheco. Não esperava grandes vôos deste trabalho (Guggenhiem nunca me suscitou entusiasmo) mas depressa fui corrigido. Os personagens são vilões, o enredo chega a ser tão subversivo quanto lhe é permitido ser, aludindo, de forma muito leve, ao trabalho de Gruenwald nestes mesmos personagens na década de 80 e também ao seminal Watchmen. Tendo como protagonistas personagens femininas destaco os excelentes 1602 de Bennet, Gillen e Hans e Captain Marvel and the Carol Corps de DeConnick, Thompson e Lopez. O segundo é uma leve a divertida aventura de um dos mais interessantes personagens da Marvel, a Capitã Marvel. O primeiro vale também pelos extraordinários desenhos, aliás uma das grandes apostas da Marvel neste evento. Outro exemplo desta coragem para desenhos idiossincráticos (no contexto da BD de super-heróis) é Weirdworld de Aaron e Mike DelMundo. Este segundo artista, o desenhista, já havia se destacado em Elektra e continua aqui a surpreender os que gostam de um traço em estilo aguarela. Para terminar este já longo post (da próxima não acumulo tantas semanas), quero destacar Amazing Spider-Man, Renew Your Vows, de Dan Slott e e Adam Kubert. O experiente escritor  do Cabeça de Teia constrói uma realidade onde o casamento de Peter Parker e Mary Jane Watson não foi eliminado num pacto de ambos com o Diabo. Neste mundo, Peter continua a ser o Homem-Aranha mas com esposa e uma filha. A história acaba por ser uma delicodoce análise da mitologia desta fabuloso personagem, honrando a sua filosofia e avançando a história por caminhos se não surpreendentes pelo menos menos emotivos. Também este parece vir a ser outra vitória da Marvel no evento que poderá ser, para mim, o melhor desde a Crise nas Terras Infinitas. É esperar e esperançar!


Secret Wars (2015) número 3

(este post contém alguns spoilers para números anteriores da série, sobre os quais já aqui escrevi)

A Marvel, tal como a conhecemos hoje, uma casa de super-heróis, começou no ano de 1961 com a revista do Quarteto Fantástico. Para quem não conhece, esta representou uma pequena mudança de paradigma, ao focar-se em quatro pessoas que eram muito mais que companheiros ocasionais de aventuras, como a Liga da Justiça da DC: eles eram uma família. Meros cinco números depois desta estreia aparecia o Dr. Destino (Dr. Doom no original),  o vilão que, com o passar dos anos, não só revelar-se-ia como o maior dos antagonistas destes heróis e um dos maiores da Marvel mas, mais importante, também como uma espécie de quinto membro da equipa, parte integrante da mitologia e da família (para quem acredita em numerologia e misticismos existem aqui sincronicidades). De facto, já na primeira década deste século XXI, Doom seria o padrinho de Valeria, o segundo filho do principal casal do Quarteto Fantástico, Reed Richards e Susan Storm. Esta pequena introdução aos personagens serve para vos situar um pouco melhor neste Secret Wars de 2015, escrita por Jonathan Hickman e desenhada por Esad Ribic. O motor da narrativa é exactamente a trágica figura de Victor Von Doom, agora literalmente Deus da realidade resultante da destruição do universo principal da Marvel no número um da série. Ou seja, quem melhor para fechar o universo anterior do que o seu maior vilão? Que melhor forma de fechar a mitologia anterior do que recorrer às figuras que abriram as suas portas em 1961? (não, aqui não existe misticismo, é mesmo intenção).

O que Hickman está a tecer neste Secret Wars é, até agora e na minha opinião, algo raramente visto na BD de super-heróis. Como mesmo os ocasionais leitores devem saber, são comuns estes eventos pancósmicos que colocam em perigo mais do que vidas, colocam em perigo a própria existência, o tecido da realidade. Mas, paradoxalmente ou, se calhar, até não, a qualidade é muitas vezes deficitária, isto para ser simpático (vejam Convergence da DC, o evento desta editora de 2015). Não é de todo o caso de Secret Wars. Repito: não é de todo o caso de Secret Wars. A qualidade da escrita é verdadeiramente acima do normal. O desenho de Ribic poderá vir a colocá-lo lado a lado com A referência destes eventos: George Pérez. Para mim, é tão bom assim. E (apontamento) estamos aqui a falar de puro entretenimento. 

O terceiro número é mais do mesmo, ou seja, uma história empolgante que desenha palcos titânicos de teatralidade cósmica, sem se esquecer das personalidades que fazem a narrativa, figuras trágicas de moralidade dúbia. Volta-se o enfoque para a figura divina de Doom, do seu companheiro mais próximo, o mais poderoso místico da Marvel, o Dr. Estranho, bem como na relação do primeiro com a sua "família": sim, o Quarteto Fantástico. Uma vez mais reitero que revelar mais será estragar a surpresa mas, pela primeira vez na história da Marvel, é revelada em toda a sua clareza a face de Doom, num dos momentos mais marcantes da narrativa mais profunda de Secret Wars, um estudo da intrigante personalidade do maior vilão da Marvel.

Hickman e Ribic parecem estar a tecer um dos mais relevantes momentos da história desta editora de super-heróis. É esperar que assim continuem.

Justice League, número 41 por Geoff Johns e Jason Fabok

Todos procuramos momentos de prazer. Na comida que comemos. Nas pessoas com quem convivemos. Para os adoradores da leitura é um deleite supremo quando nos deparamos com algo que achamos particularmente bem escrito, bem estruturado e entusiasmante. Isso pode vir da arte de bem escrever ela própria  ou, pura e simplesmente, de um prazer pop que advém dos lugares mais íntimos. Ou, no melhor de todos os mundos, pode provir dos dois. E assim termino a introdução para este Justice League número 41 pelas mentes de Geoff Johns e Jason Fabok.

Geoff Johns não é um escritor de excepção. Ele não esconde não ter qualquer tipo de ambição para além de uma relação popular com o leitor de BD. Não é Alan Moore ou Jodorowsky. Nesse sentido, quando se lê o trabalho deste escritor não se espera muito para além de um controlo acima da média da arte de bem contar uma história de super-heróis. Quem já leu os poucos trabalhos de Johns fora deste tipo sabe do que falo. Contudo, ano após ano, trabalho após trabalho, tem conseguido merecer o título de um dos mais entusiasmantes escritores de BD das mulheres e homens de collants. Até recentemente o seu produto na já longa saga da Liga da Justiça não era dos melhores exemplos do que acabei de referir. Até chegar Darkseid War, a saga que começa em força neste número 41 e que os leitores deste blog já conhecem (leiam aqui o que escrevi) e conhecem o entusiasmo com que aguardava o seu despoletar.

Para os que não estão dentro da minha cabeça é difícil reproduzir a alegria infantil que foi finalmente poder ler esta história. Nela conjugam-se, para mim, quase todos os elementos que contribuem para uma boa história de super-heróis: uma ameaça cósmica que põe em risco toda a realidade; a junção dos maiores arquétipos do super-herói, os mais reconhecíveis, numa única equipa e contra a dita ameaça; enfoque num dos meus personagens favoritos deste mundo literário, Diana de Themyscira, a Mulher-Maravilha.  Claro que, facilmente, poderia descambar para um clássico caso de expectativas muito altas que saem defraudadas. Nada disso. Foram amplamente atingidas em esplendorosas 40 páginas da arte suprema de bem fazer BD de super-heróis. 

Existem todos os elementos que desenham a assinatura de Geoff Johns: o enfoque nas personalidades dos personagens, com momentos exemplares que envolvem Shazam, Super-Homem/Lex Luthor,  Darkseid, Mister Miracle e, claro, a Mulher-Maravilha; enredo cheio de surpresas; escala cosmogónica; em suma, momentos de tirar o fôlego. Isto é o que a BD de super-heróis deve (por vezes) almejar ser: alicerçada num longo historial sem detrimento de novos leitores mas também nunca dos velhos; orçamento ilimitado pela imaginação; seres arrebatadamente puros e bons a enfrentar outros tenebrosamente maléficos - uma ópera do Bem contra o Mal, com o destino do espaço-tempo nas mãos de ambos. A DC Comics quando quer, e porque tem os tais maiores arquétipos, os mais tenebrosos dos vilões, consegue isso de uma forma deliciosa. Este início da Darkseid War  é isso mesmo. Aplausos.