Disse-o ontem aqui no Blogue e não tenho vergonha de o repetir: as séries de TV continuam num pico criativo invejável. Elas eram o parente pobre do audiovisual, mas, de há 20 anos a esta parte, têm igualado e, em alguns casos, superado o que de melhor se faz e fez no Cinema.Tomem como exemplo estas duas que vos trago hoje: The Good Place (da NBC e disponível na Netflix) e Euphoria (da HBO). Duas obras francamente diferentes, mas capazes de dar uma qualidade de escrita e/ou de realização apenas reservada aos melhores artistas da praça.
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Love, Death & Robots na Netflix
No passado dia 15 de Março deste ano da graça de 2019 estreou, no serviço de streaming da Netflix, a série de animação para adultos Love, Death & Robots. Produzida por Joshua Donen, David Fincher, Jennifer Miller e Tim Miller, é uma compilação de 17 episódios antológicos com uma temática informal claramente expressa pelo título. De duração variante e geralmente curta (no máximo 20 minutos e no mínimo de 5), os 17 capítulos acompanham diferentes situações, personagens, épocas e estilos de ficção para pintar um quadro geralmente cínico, inteligente, aterrorizante e, em alguns episódios, cheio de humor (ou não tivesse o realizador de Deadpool à frente da mesma). Num registo quase sempre distópico, é um Black Mirror light, no melhor sentido desta classificação.
Rapidinhas de BD - KM/H e Legado de Júpiter 2 de Mark Millar, Duncan Fegredo e Frank Quitely - G Floy
A editora portuguesa G Floy, desde que adquiriu os direitos para publicação do catálogo de BD Millarworld, o selo do escritor escocês Mark Millar, tem lançado, de forma regular, trabalhos do autor. Escolha atempada, já que esse mesmo selo foi adquirido pela gigante Netflix, para que, em simbiose, ambos produzam conteúdos e conceitos que possam existir, simultaneamente, em papel e em ecrã de TV. KM/H e o segundo volume de Legado de Júpiter são dois bons exemplos dessa troca.
The Night Comes for Us de Timo Tjahjanto
Temos uma sugestão para a Netflix e para os donos do cinema Monumental em Lisboa. Porque não passar nestas salas certos filmes que parecem apenas circunscrever-se àquela plataforma de streaming? Assim, não só teríamos a sorte de ver certas películas em ecrã grande, como a Academia de Cannes não poderia retirar de competição obras financiadas por esta produtora. Porque é não vimos o excelente novo filme do irmãos Coen, The Ballad of Buster Scruggs, em sala? E porque não podemos ver este excelente e ultra-violento The Night Comes for Us? Dizemos-vos: é criminoso.
(para os que não sabem, Paulo Branco vai retirar-se da exploração das míticas salas do Monumental, onde gerações viram alguns dos melhores filmes das suas vidas - nós, inclusive. Ao mesmo tempo, Cannes retirou de competição todos os filmes que não tenham sido exibidos, pelo menos uma vez, em sala de cinema).
(para os que não sabem, Paulo Branco vai retirar-se da exploração das míticas salas do Monumental, onde gerações viram alguns dos melhores filmes das suas vidas - nós, inclusive. Ao mesmo tempo, Cannes retirou de competição todos os filmes que não tenham sido exibidos, pelo menos uma vez, em sala de cinema).
Jessica Jones, a Série de TV da Marvel/Netflix.
A série de TV não é, de todo, um fenómeno recente mas, nos últimos 15 anos, amadureceu e transformou-se numa das grandes formas de entretenimento. A culpa recai, como acontece em tantas outras coisas, na necessidade. Aquela que é a mãe de todas as invenções. Gosto de pensar que a criatividade e a inovação artística estavam a perder lastro em outras formas visuais como o Cinema. Apesar de existirem muitos exemplos de liberdade e invenção criativa na 7.ª Arte, por motivos que variam entre o financeiro e o de formato (bem vistas as coisas, um filme dura, em média, 2 horas), muitos autores tinham a imaginação um pouco limitada. Principalmente o escritor, conhecido por ser apenas como uma das partes do processo de fazer Cinema, sendo sempre a voz do realizador aquela que dá a última palavra. Ora, a Série de TV (notem como já escrevo em letras capitais) possui algo que é parco no Cinema: tempo. Uma Série poderá estender-se por longas horas, desenvolvendo enredos, analisando personagens ao detalhe da loucura, criando um tecido pormenorizado. Basta, para isso, que o escritor assim o deseje e tenha talento para tal. A Série já foi considerada por melhores pensadores que eu como a Literatura do Tempo Moderno, o Romance em forma visual. Quem viu Os Sopranos, The Wire, Breaking Bad, etc., sabe do que falo.
Ora, era apenas uma questão de tempo para que a BD, outra forma de arte que gosta de demorar o seu raciocínio, procurasse formas alternativas de espalhar as suas histórias e, apesar do Cinema oferecer o arcaboiço financeiro para o Efeito Visual, é na TV que está, a meu ver, o formato perfeito para as histórias rocambolescas, longas e labirínticas da 9.ª Arte. Já existiram muitos e muitos exemplos de séries de TV baseadas em BD mas, na maior partes das vezes, escolhiam o enredo episódico ou infanto-juvenil (não que haja nada de mal com isso). Esse panorama parece estar a mudar, principalmente com o negócio que a Marvel fez com a Netflix, com o intuito de produzir histórias mais adultas e que não deixam de estar alicerçadas no seu universo cinematográfico. Começou com o excelente Daredevil (Demolidor em português) no início deste ano e continua com este Jessica Jones.
Ao contrário do Demolidor, a personagem de Jessica Jones é practicamente desconhecida do púbico em geral. Criada em 2001 pelo prolífico escritor Brian Michael Bendis e pelo desenhador Michael Gaydos, foi protagonista de duas séries de curta existência (para os padrões dos EUA): Alias e Pulse. A primeira é mais conhecida e adulta e aquela onde a mulher que dá nome à série de TV teve um prolongado desenvolvimento pela imaginação dos seus dois criadores. No início do século, a Marvel tinha uma necessidade: sair do buraco financeiro e criativo criado pela tenebrosa década de 90. Joe Quesada, o editor-chefe, foi buscar o talento de um escritor independente, Bendis, para dar nova vida a várias personagens antigos (os Vingadores), ao mesmo tempo que lhe deu liberdade para criar novos conceitos que, contudo, não deixassem de estar alicerçados no universo de super-heróis da Marvel. Assim nasceu Alias, onde criava Jessica Jones e, ao mesmo tempo, dava nova vida a um antigo personagem da Marvel, Luke Cage, por quem Bendis nutria um amor profundo (depois utilizou-o na sua reinvenção dos Vingadores). É deste DNA que nasce a excelente série de TV Jessica Jones, com a parceira Marvel/Netflix.
São apenas cinco os homens que fazem parte de um elenco totalmente feminino. Desses, dois são abusadores e violentos. O terceiro é Luke Cage. Os outros dois vítimas de uma forma ou de outra. Esta é uma série sobre controlo e sobre o abuso que dele se faz ou não fosse o vilão principal Killgrave, conhecido na BD por Homem-Púrpura (na série afastam-se desse tom de pele), capaz de ordenar quem quer que seja a fazer o que ele quer apenas pelo uso da voz. Jessica Jones é um investigadora privada nas ruas de Hell's Kitchen, bairro nova-iorquino onde também reside o Demolidor, e marcada por um encontro com Killgrave. À sua volta orbitam outros fabulosos personagens femininos, construindo um todo forte capaz de carregar, sem esforço, o enredo. Os treze episódios vêem-se sem problemas (pelo menos para mim) e foi uma boa forma de começar a aproveitar o meu mês gratuito da Netflix. Não pretendo fazer mais considerações para vos dar o prazer de apreciar, virgens, mais uma excelente série desta parceira entre a Marvel e a Netflix. A continuar assim, os filmes não são necessários. Façam tudo na TV. A BD merece.
Daredevil: Devil at Bay e West-Case Scenario de Mark Waid e a série de TV Daredevil
Rai’s parta ao diabo, ou melhor, ao Demolidor, que ultimamente é difícil de ser mau. Quer seja a lê-lo ou a vê-lo. Há 15 anos consecutivos que a Marvel não consegue publicar más histórias deste personagem (OK, o esforço do escritor Andy Diggle não foi dos melhores mas, ainda assim, superior à média). Começou com a dupla Kevin Smith/Joe Quesada, continuou com o último e David Mack (que até vai ser publicado em Portugal pela Levoir na sua nova coleção), a fabulosa e muito essencial saga de Bendis/Maleev, seguidos, em catadupa, de Brubaker/Lark e Diggle (com vários desenhadores). Esta “fase” foi longa, deprimente, negra e assustadoramente boa, porque bebia da pesada e nobre herança do segundo e talvez “verdadeiro” criador do Demolidor, Frank Miller (já falo mais dele). Depois de tanta tragédia, a Marvel decide ir por um caminho diferente, entregando o personagem ao escritor Mark Waid, que tem feito um trabalho extraordinário, declamando palavras que, bem misturadas, formam alguns dos melhores contos feitos para o Homem Sem Medo. Perdeu muito do ambiente noir que caracteriza o personagem desde que Frank Miller o fez seu e bebe mais da herança super-heroística. Contudo, e aí reside a arte de Waid, sem se afastar da aura fatalista que agarra Matt Murdock desde há muito.
Waid está na recta final da saga
e, tradicionalmente para este personagem e ainda bem, a Marvel tem deixado em paz os
autores que lidam com o Demolidor
(excepto por um leve crossover com um evento num destes dois livros). Podemos, assim, saborear e sem molhos
o prato desenhado pelo escritor. O personagem é, de facto e salvo as
devidas distâncias, o Batman da
Marvel, em que a visão do autor consegue moldar-se em volta do personagem sem perder
identidade, quase como se todos quisessem deixar a sua impressão digital, não
tanto na personalidade do Homem sem Medo
mas antes no seu historial. Há personagens com essa sorte, em que a
continuidade não os afecta e para os quais há espaço para a individualidade.
Continuem a deixar o Demolidor em paz
que nós agradecemos.
Os fãs como eu deliciaram-se com
as interpretações de D’Onofrio como Fisk,
Charlie Cox como Demolidor, Deboral
Ann Woll como Karen Page, Elden Henson
como Foggy Nelson, Rosario Dawson como
Claire Temple, a Night Nurse, e, a minha favorita, Ayelet Zurer no papel de Vanessa, a amada de Kingpin. De facto, tenho dificuldades em encontrar falhas nesta excelente
série, que quase me levou às lágrimas. Desde estes maravilhosos actores ao
burilado e inspirado argumento, que bebe sem reverência escusada à BD, principalmente
aquela que “interessa”, a de Frank Miller, tudo é bom, cuidado. Venha a
2.ª Temporada que mal posso esperar.
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