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The Night Comes for Us de Timo Tjahjanto


Temos uma sugestão para a Netflix e para os donos do cinema Monumental em Lisboa. Porque não passar nestas salas certos filmes que parecem apenas circunscrever-se àquela plataforma de streaming? Assim, não só teríamos a sorte de ver certas películas em ecrã grande, como a Academia de Cannes não poderia retirar de competição obras financiadas por esta produtora. Porque é não vimos o excelente novo filme do irmãos CoenThe Ballad of Buster Scruggs, em sala? E porque não podemos ver este excelente e ultra-violento The Night Comes for Us? Dizemos-vos: é criminoso.

(para os que não sabem, Paulo Branco vai retirar-se da exploração das míticas salas do Monumental, onde gerações viram alguns dos melhores filmes das suas vidas - nós, inclusive. Ao mesmo tempo, Cannes retirou de competição todos os filmes que não tenham sido exibidos, pelo menos uma vez, em sala de cinema). 

MOTELx 2018 - Tigers Are Not Afraid, Exorcism of Mary Lamb e Elizabeth Harvest


Fechando o nosso MOTELx de 2018 estão estes três filmes, cada qual testemunha da diversidade das diferentes abordagens neste festival, ainda que díspares em termos de qualidade. 

MOTELx 2018 - Upgrade e Errementari


Upgrade de Leigh Whannell

O argumentista de "clássicos" do terror como Saw e Insidious tem a sua segunda incursão na cadeira da realização, com esta ideia original chamada Upgrade - estreou-se como realizador no terceiro capítulo de Insidious. Num futuro que se adivinha próximo, um homem é "actualizado" ciberneticamente, transformando-se numa mescla de humano e software de computador. Uma espécie de iPhone ambulante, inclusive com uma Siri. Essa "Siri" permite-lhe aceder a capacidades do corpo que, de outra forma, nunca teria acesso e permiti-lhe buscar a justiça que é o móbil do enredo deste filme. Se tudo isto parece-vos familiar, é porque o é, mas Leigh Whannell consegue encontrar novidade no repetido e surpresa no reconhecível. Isto é Robocop meets Black Mirror - a invenção desta frase não é exclusivamente minha.

MOTELx 2018 - Hagazussa: A Heathen’s Curse e The Promise


O bom de festivais de cinema é que, sem saber, somos presenteados com obras que não esperávamos marcar-nos tanto. No MOTELx já foram inúmeras, no que a mim diz respeito. Lembro-me, por exemplo, do soberbo It Follows. O mau é que, outras vezes, temos de aguentar até ao final, independentemente de estarmos ou não a gostar (eu sou dos que não consegue deixar um filme a meio). É a esperança (que descobre-se vã) que o filme que estamos a ver irá revelar-se melhor do que foi até aquele momento. E, infelizmente, foi o caso destes dois: Hagazussa: A Heathen’s Curse de Lukas Feigelfeld e The Promise de Sophon Sakdaphisit.

MOTELx 2018 - Unsane e Cold Skin



Unsane de Steven Soderbergh

Talento. Parece tão simples, mas é na realidade tão difícil. É preciso tê-lo. Steven Soderbergh havia se zangado com o mundo do cinema e anunciado a sua reforma do mesmo. Refugiou-se na TV e em séries como The Knick, onde dizia possuir maior controlo criativo. E nós acreditamos nele. Contudo, o canto da sereia foi forte demais e eis que regressa ao seu primeiro amor, o da 7.ª Arte, com este maravilhoso Unsane.

MOTELx - Housewife e It!

O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!


E com estes dois filmes acabou o meu MOTELx. Apesar de, uma vez mais, neste festival, ter visto filmes cada vez mais diversificados, estava com vontade de uma sobremesa mais familiar. Algo entre o gore, com sangue, vísceras e desmembramentos, e o "borra-cueca". E surgiram, para saciar essa fome, Housewife do turco Can Evrenol e o esperado It de Andy Muschietti. Dois filmes muito diferentes mas dentro do "verdadeiro" espírito de um festival de cinema de terror.

Comecemos por Housewife, cujo realizador esteve presente, pelo segundo ano consecutivo (no ano passado apresentou o seu Baskin), no MOTELx. Já no primeiro filme, Can tinha deixado bem clara a sua predilecção por gore extremo, com rituais sanguinários difíceis de digerir pelos que têm estômagos e sensibilidades fracos. Housewive, apesar de ser, como o próprio o diz, um slow-burner, assim que chegamos ao acto final, entremos de cabeça e sem rede no imaginário dantesco do realizador turco. Voltamos ao ritual satânico, voltamos ao uso da carne como barro na arte de cerimónias infernais. A história centra-se numa jovem que, na infância, foi testemunha de um acto demoníaco. Anos mais tarde, abordada por um culto/igreja, é recrutada para um destino escrito nas letras da Besta. Filme curto e directo, não se perde em narrativas paralelas ou momentos de reflexão existencial. Este é um filme que avança em crescendo até à revelação apocalíptica final. Um dos melhores que vi no MOTELx deste ano.

Um dos  filmes mais aguardados deste MOTELx e mesmo nas salas de cinema (onde estreia no próximo dia 14 de Setembro) é a segunda adaptação do livro It do renomeado escritor de terror Stephen King. A expectativa é sempre alta quando envolve este autor, as suas adaptações e um filme de terror que os críticos cedo começaram por classificar como "a ver". No que a mim diz respeito, fico sempre em pulgas quando oiço o rumor que "este assusta mesmo". Habituados que estamos a muitas sensações, a promessa, quase como droga, de sustos valentes, é uma perspectiva aliciante. It não decepciona. Assustador, despoja-se de alguns lugares comuns do ritmo e enredo de filmes de terror para converter os que poderiam não ser convertidos. É com a expectativa do espectador que Andy Muschietti brinca, permitindo alguns sustos verdadeiros e novos. Verdade que estamos de frente a um filme de orçamento pouco modesto (ou muito, se compararmos com outras produções do EUA), mas o realizador faz uso do mesmo, preferindo a escolha criteriosa de momentos a um espectáculo de sustos e gore desconcertantes mas, no final, inconsequentes. Constrói personagens e depois manda-os contra o monstro de serviço. E que monstro. A sua indefinição, aspecto real mas assustador, são o ganha-pão da narrativa aterrorizadora. 

Este Palhaço Pennywise é uma boa adição ao panteão a que pertencem Jason e Freddy Krueger, para citar os mais conhecidos. A escolha de permanecer na década de 80 tem uma razão narrativa (este é apenas o primeiro capítulo... mas auto-contido) e está dentro desta nova tendência de regresso ao passado, à nostalgia dos quarentões (como eu) que foram criados por uma dieta rigorosa de Craven e Carpenter. Quem diria que os Anos 80 seriam fonte de coolness

Dois filmes de verdadeiro terror e gore. Excelente forma de acabar o meu MOTELx. Para o ano há mais!

MOTELx - Cold Hell e Animals

O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!



Comecemos pelo melhor: Cold Hell de Stefan Ruzowitzky Violetta Schurawlow. Notaram algo de diferente? Raramente (e mal) menciono o actor principal quando refiro a autoria de um filme. Contudo, como o próprio realizador o referiu na entrega do Prémio Melhor Longa de Terror Europeia / Méliès d'Argent do MOTELx de 2017, a sua protagonista é Cold Hell. É a sua presença física e psicológica, mesmerizantes e arrebatadoras, que monopolizam os olhos do espectador e motivam a narrativa.

Um assassino em série assola as ruas de Viena e a personagem de Violetta presencia as cenas finais da morte violenta de uma prostituta. O assassino enceta uma perseguição que os levará pelas ruas da capital austríaca, mas isso é apenas parte do enredo de Cold Hell. O verdadeiramente cativante é a personagem principal, "Özge, (...) uma jovem taxista de origem turca, estudante de noite e ambiciosa lutadora de Muay Thai". Ela é uma força da natureza, um portento de luta contra uma sociedade racista e misógina, silêncio e contenção sempre na expectativa de explosão. E a explosão acontece por várias vezes, com violência física e verbal desalinhada e desconcertante. Ela é o produto de um passado marcado pela tragédia, pelo abuso, mas não se resigna ao papel de vítima. Não existe o cavaleiro virtuoso que salva a donzela. Ela é sangue, fúria e vingança. Ela decide o seu destino. Ela desbrava o seu caminho. E Violetta Schurawlow não gagueja em casa passo sólido da personagem, entregando-se ao papel de forma total e incontida. O filme é o que é graças à sua prestação. A realização "limita-se" a deixá-la explodir ou a observar as suas feições grávidas de raiva. Só por isso mereceu o Mélies D'Argent.

Animals de Greg Zglinski, por seu lado, não funciona. Procura ser uma narrativa surreal e labiríntica de uma relação conjugal em crise, mas acaba por perder-se no enigma que cria (perdoem-me o mau trocadilho). O casal é alemão, ela é escritora, ele cozinheiro. Relações sexuais não existem e ele trai-a repetidamente. Decidem afastar-se para uma casa nas montanhas da Suíça, não só para reavivar o amor e desejo como também para procurar outras abordagens às suas vidas profissionais. A narrativa assume a não-linearidade desde cedo na história mas sempre em detrimento das personalidades, que ficam mal-formadas para além do estereótipo. Se procurava seguir a linha de Lynch, Buñuel, Jodorowsky, falha redondamente.  Era um dos canditados ao Mélies D'Argent.

Faço ainda uma menção ao vencedor da Melhor Curta de Terror Portuguesa/Méliès d’Argent 2017,  Thursday Night de Gonçalo Almeida. Não vi as outras curtas mas esta foi particularmente bem escolhida. Um filme parcimonioso mas sumarento, com fotografia exemplar e capacidade de edição superior. Pouco posso dizer sobre a narrativa, correndo o risco de a estragar. Apenas refiro que é sobre um cão de nome Bimbo e sobre uma visita que recebe no meio da noite com uma mensagem muito importante. Francamente bom!

MOTELx - El Bar e Headshot

O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!


Um dos sentimentos que mais me aflige quando vou ao MOTELx é a quantidade de filmes que poderiam sair em circuito comercial e que muito dificilmente o vão conseguir. Imagino que as grandes cadeias de distribuição não estejam interessadas em divulgar outros que não sejam os das empresas afiliadas e acionistas e, assim, bom cinema fica esquecido. Cinema que poderia ser apreciado pelo mesmo público que vai ver sucessos comerciais como Fast and The Furious, êxitos da DC Comics e da Marvel, e outros. Talvez a recuperação de público nas salas de cinema vista em 2017 veja o regresso destas apostas. 

Duas dessas poderiam ser El Bar de Alex de la Iglésia e Headshot de Timo Tjahjanto e Kimo Stamboef.

O primeiro vem do nosso país vizinho e de um realizador que os apreciadores de Cinema em geral e deste género em particular conhecem bem.  El Bar passa-se dentro do titular espaço, quando um eclético grupo de pessoas vê-se enclausurada no mesmo, já que as ruas à sua frente foram evacuadas e pessoas foram assassinadas à porta. O que se segue é uma sequência de eventos que envolvem os protagonistas, a descoberta do porquê da clausura e a inevitável fuga. Tudo com o humor típico de Iglésia e do seu argumentista de longa data, Jorge Guerricaechevarría. A riqueza do filme desta dupla está nas personagens, na troca de diálogos, na sofisticação das personalidades, que transformam qualquer narrativa em mais que uma experiência de suspense ou horror. Parecemos estar num filme de Tarantino (mas não se esqueçam que Iglésia é anterior a ele), com mais velocidade, mais frenesim, mais iberismo. Esta é umas razões porque não percebo porque os filmes deste senhor não aparecem mais nas salas de cinema em Portugal, já que a sensibilidade e personagens são os mesmos que vemos todos os dias no nosso quotidiano. Sem duvida, um dos grandes filmes que passou no MOTELx deste ano.

Headshot pode ser da Indonésia mas é do tipo que seria apreciado pelos malucos dos filmes de acção violento e frenético (eu sou um deles). Quem se recorda dos brilhantes The Raid I e II de Gareth Evans lembra-se da violência estilizada e extrema, da coreografia de artes marciais do actor Iko Uwais. Este está de volta em Headshot, com mais movimento, mais sangue e muitos mais combates acompanhados de perto por uma câmara que se esforça por estar literalmente colada aos protagonistas. Sentimos cada cambalhota e cada golpe de forma quase simbiótica. O enquadramento treme antes de cada embate, como se percebesse a raiva e força acumulados no soco dos intervenientes.  A história é estruturada como um jogo de computador misturado com filme de vingança e de relação pai/filho/irmãos. O herói tem de passar níveis de combate até chegar ao final onde enfrentará o adversário principal, aquele que lhe diz mais do ponto de vista físico e emocional. Por vezes ridículo mas sempre entretido, seria uma aposta mais difícil do ponto de vista das massas mas, ainda assim, uma a considerar fortemente.

MOTELx - Boys in the Trees e Rift

O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!



Boys in the Trees de Nicolas Verso e Rift de Erlingur Ottar Thoroddsen são dois filmes curiosamente similares em enredo (podem estar descansados que aqui não existirão spoilers). Contudo, no que respeita ao resultado final estão em campos bastante diferentes.

Dos dois, o mais interessante, em execução e forma, é Boys in the Trees, um filme australiano de coming of age com pitada de fantástico. A narrativa centra-se num grupo de jovens suburbanos da década de 90. Com a perspectiva da passagem para a idade adulta, todos se vêem na encruzilhada de um futuro que não será igual ao passado. Uns preferem permanecer como sempre foram, outros sonham com melhores possibilidades em pólos geográfica e mesmo climatologicamente opostos. A premissa parece perfeitamente banal (e é) mas a história está recheada de personalidades cativantes, realização e montagem muito próprias e uma abordagem ao sobrenatural que é sempre bem-vinda - a surreal, indefinida. O argumento consegue sempre, mesmo no último momento, desviar-se do lugar comum e apesar do final ser fácil de descortinar, não só não é um problema como não acontece cedo na narrativa. Um filme delicodoce sobre a passagem à idade adulta, com sacrifícios e finais felizes.

Rift tem vários problemas. Conteúdo esparso, longos silêncios que apenas o sublinham e, acima de tudo, um mistério que de mistério nada tem. O final é demasiadamente óbvio e o realizador faz um trabalho muito fraco para o ocultar. Poderia ter assumido o twist mais cedo ou tentado encontrar formas narrativas mais interessantes para o esconder. Tudo seria, claro, um problema menor se as personagens fossem interessantes e a história cativante. Infelizmente, faz-se usar de lugares comuns e de uma frieza que condiz com a paisagem islandesa (se calhar era essa intenção e tive dificuldade em a atingir). Não nos preocupamos com o destino dos protagonistas, o que acaba por ser um mau serviço a uma história de amor entre dois homens que poderia ser recompensadora mas que é ténue e desinteressante. 

MOTELx - Prey e Bad Batch

O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!


Os que julgam o filme de terror como um cavalo de um truque só estão muito enganados.  Mesmo dentro do obrigatório do género, o sangue, o suspense, o temor, existem variações tão numerosas quanto os realizadores que trabalham nele. As duas apostas que ontem tive o prazer de ver são disso bem prova: Prey do holandês Dick Mass e Bad Batch da iraniana-americana Ana Lily Amirpour.

Prey é um objecto estranho mas sui generis. Parece ser uma homenagem ao Jaws de Steven Spielberg, mas ao invés de um tubarão escolhe um leão assassino que caça humanos nas ruas da cidade de Amesterdão. Ao mesmo tempo, Dick Mass leva-se muito pouco a sério e escolhe o caminho do camp e do humorístico, entrecortados com cenas gore de vertiginoso desmembramento. A principio, existiu alguma dificuldade de entrar no registo na medida em não parecia clara o tipo de abordagem. Depressa qualquer duvida foi dissipada e foi possível sentar, desligar o cérebro (no bom sentido) e deixar levar pela premissa e execução que são tão ridículas que deram a volta e regressam verosímeis. Sabíamos de antemão os destinos de todos os protagonistas, já que o seu papel narrativo era tão óbvio que mais valia estar escrito a letras vermelhas garrafais. Ainda assim, a perspectiva leve e descomprometida conseguiu levantar o filme da banalidade. Os actores são convincentes, na medida em que o camp pode e deve ser convincente,   e parecíamos estar num domingo à tarde com uma família que goste de ver cabeças devoradas de uma dentada por leões computadorizados.  Divertido e leve, é uma das mais curiosas apostas para prémio de melhor longa-metragem europeia no MOTELx 2017.

Bad Batch é um outro campeonato. Ana Lily Amirpour já vem com algum peso no seu currículo, depois de A Girl Walks Home Alone At Night, filme iraniano de 2014 sobre uma vampira, e que conseguiu atrair muita atenção pela premissa e pela execução (inclusive no MOTELx). O hype à altura era já tão grande que, quando o vi, o desânimo entrou um pouco pela minha apreciação a dentro (é o que dá ter expectativas elevadas). De Bad Batch conhecia apenas um trailer delicioso e a participação de  Jason Mamoa (o Kahl Drogo e o Aquaman). Nada me preparou (felizmente) para a estranha e deliciosa experiência que é este filme, um Mad Max misturado com western spaghetti, um futuro que não parece assim tão longínquo e pergunto-me se será antes um futuro ou uma interpretação do presente - o dos EUA de Trump. Parcimonioso em palavras e completamente alicerçado na pureza da imagem, sublinha uma certa inclinação do Cinema que diz que nunca deveria ter deixado o mudo ou que, mais simplesmente, uma imagem vale mil palavras. Esse elogio está em quase todos os momentos de Bad Batch, que vale-se mais da geografia, do décor e dos actores para escrever a narrativa e as emoções.  Isso acontece principalmente com Suki Waterhouse e Jason Mamoa, cuja presença física e feições controlam e monopolizam o enredo. É um prodígio de casting e de talento. Menos omnipresente mas igualmente poderoso está Keanu Reeves, cuja breve aparição é também impressionante.

Digno de elogio é também a incrível Banda Sonora, com músicas escolhidas a dedo e estranhamente apropriadas à atmosfera quase alienígena do deserto que funciona como pano de fundo. Poderiam não funcionar mas funcionam e são testamento ao bom gosto musical de quem a escolheu (oiçam-na legalmente aqui). 

Dois filmes tão diferentes que não pareço estar a frequentar um festival de cinema temático. Prey é entretenimento descomprometido e Bad Batch é um dos grandes filmes do MOTELx e mesmo do ano - já que vai estrear comercialmente. 

MOTELx - The Limehouse Golem e Kaleidoscope



O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!



As duas propostas do dia de ontem vêem ambas do Reino Unido mas as semelhanças acabam por aí. Em temática, ambiente, narrativa, orçamento e, infelizmente, qualidade, são bastante diferentes. Enquanto The Limehouse Golem de Juan Carlos Medina é um bom filme de entretenimento e uma reflexão feminista passada na Londres Vitoriana, Kaleidoscope de Rupert James é a incursão pela mente destroçada de um homem solitário que acaba por ser demasiado longa e desconexa.

Curioso que as duas propostas têm, como cabeça de capaz, dois actores de topo do circuito inglês, habituados a filmes de alto orçamento e projecção internacional. No caso de The Limehouse Golem é Bill Nighy que fornece a infra-estrutura moral e narrativa do filme, personificando um agente da Scotland Yard encarregue de investigar assassinatos ritualescos na Londres do final século XIX. Se a história se assemelha a um certo estripador, não duvido que as intenções fossem essas, mas este filme é muito mais que apenas um gore-fest de encenação macabra. Acima de tudo, é uma incursão pelo papel das minorias sexuais e, principalmente, de género. Escrito por Jane Goldman, explora o papel discriminatório da mulher na sociedade, usando a nossa percepção para ludibriar não só as personagens como o espectador. Esse truque de espelhos e fumo acaba numa revelação que, ainda que pouco surpreendente, é dita com pormenores que colocam quem vê o filme em cheque e a questionar a sua própria posição em relação a este assunto. Este é um file de considerável orçamento que, contudo, faz bom uso do mesmo e cuja narrativa é robusta, pormenorizada, transportando este mundo de forma vivida para o ecrã, e cheia de conteúdo.

O mesmo não se pode dizer de Kaleidoscope que, mesmo com a ajuda de Toby Jones, que é a força deste filme, cambaleia sob o peso de uma narrativa labiríntica e longa.  Ainda que consideremos a última parte, onde a essência do enredo é revelada, para chegar-mos a esse ponto demorou-se demais e, no que a mim diz respeito, desinteressei-me. Este filme, ainda que de baixo orçamento e narrativa parcimoniosa, teria beneficiado de alguns cortes para aumentar a tensão e clarificar o enredo. A prestação do actor principal salva Kaleidoscope do seu próprio peso, ao conseguir encarnar um homem destruído pelo abuso. 

MOTELx 2017 - Super Dark Times de Kevin Philips

O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!

O filme de abertura do MOLTELx tem uma temática apropriada. Por razões que qualquer sociólogo ou psicólogo poderá elaborar, existe uma faixa do entretenimento dedicada à nostalgia. Filmes, livros, TV, aludem a fases da vida que disseram-nos muito, geralmente a infância e a adolescência. Foi nestas fases que conhecemos amigos para a vida. Foi nesta fase que cultivamos os gostos que nos acompanham. É curioso que o entretenimento que alude a este passado pareça surgir ao mesmo tempo, vindo de diferentes autores e mesmo de diferentes fontes. A série de TV Stranger Things recorda a década de 80, livros de BD, filmes de terror, e alicerça-o na relação de amizade de quatro amigos geek. Uns meses antes apareceu, na editora de BD Image, a obra Paper Girls, também passada na década de 80, desta vez com quatro amigas, e envolvendo monstros, realidades paralelas e viagens no tempo. Ambas são anos 80 vintage. Em ambas os autores recordam-se da sua juventude e fazem-nos ter saudades da nossa.

Super Dark Times de Kevin Philips, filme de estreia do MOTELx, vem da mesma fonte mas com uma perspectiva menos delicodoce. O pano de fundo é o início da década de 90, a relação entre quatro amigos rapazes, a descoberta do amor e um segredo terrível. Enquanto Stranger Things e Paper Girls envereda pelo entretenimento puro e descomprometido, Super Dark Times prefere uma abordagem negra, que não tem nada de fantástico e muito de real. O que começa de forma inocente acaba por enveredar pelo caminho mais maduro, questionando esse tempo nostálgico que recordamos muitas vezes com lentes cor-de-rosa. A realização do estreante Kevin Philips faz viajar para geografias indefinidas, em que a memória é mais um empecilho que uma ajuda. A banda sonora recorda os fantasmagóricos acordes tecnológicos de Carpenter mas sem a aludir especificamente. 

O filme, infelizmente, não funciona na perfeição, por uma mistura de factores. Um argumento que demora a perceber para onde quer ir e personagens que, apesar do esforço dos jovens actores (e são maravilhosos), parecem presas a um mundo de inacção e medo. Este medo e esta inacção poderiam funcionar (como é natural que aconteça em thrillers) mas em Super Dark Times acabam por coxear a narrativa, que arrasta-se sem rumo. Apenas no último terço o filme assume a sua vertente de terror (não vou dizer de que subgénero). Imagino que esse fosse o objectivo do realizador. Aludir a uma adolescência naif, onde o mundo que julgávamos ser de uma forma acaba por ser de outra. Contudo, o que poderia ser uma escolha narrativa interessante, arrasta o filme para a incerteza e mensagens contraditórias. Um começo interessante mas não muito auspicioso para este realizador.

Personal Shopper de Olivier Assayas


Olivier Assayas, autor francês de filmes como As Nuvens de Sils Maria ou Carlos, deu-nos, no ano passado, para quem visitou o MOTELx, este maravilhoso Personal Shopper

Kristen Stewart protagoniza uma jovem mulher a viver em Paris e que, recentemente, perdeu o seu irmão gémeo. Médium por natureza e, por necessidade, personal shopper para uma conhecida actriz, envolve-se num enredo existencialista e sobrenatural. 

Assayas é um realizador único e este seu novo filme, em que volta a trabalhar com a actriz dos EUA, depois do já referido As Nuvens de Sils Maria, continua a cimentar a sua posição como uma das vozes mais singulares da 7.ª Arte. Um filme enquadrado na temática do MOTELx mas que explora uma vertente mais intima da relação com o sobrenatural, numa perspectiva de procura de conforto face a uma perda irreparável. O realizador explora ainda a relação com a tecnologia, em que os SMS's, video-chamadas e smartphones são omnipresentes, em contraponto com a necessidade de procura de intimidade e de respostas que a protagonista busca por meios que são o oposto da ciência. Como ilustração deste ponto, atentem a uma deliciosa e arriscada sequência de troca de mensagens essencial para o enredo e que revela, em profundidade, o abismo em que se encontra a personagem de Kristen. 

Kristen Stewart prova, sem réstia de dúvidas, a sua qualidade e afasta-se de qualquer tipo de rótulo que possa advir de ter participado na saga Twilight. Sublinha que não existem maus actores, apenas maus realizadores e más histórias. Este é, sem sombras de dúvidas, um dos grandes filmes a estrear este ano. Essencial e necessário.

MOTELx 2016 - Sadako vs Kayako e Personal Shopper



No que a mim diz respeito, tenho uma grande admiração por quem exibe um gosto ecléctico. Por essa ordem de ideias, um festival que segue, na sua programação, a mesma filosofia, elogio-o pelas mesmas razões. O MOTELx tem sido assim e este ano de 2016 é mais um que o prova. O dia de ontem foi o último e assisti a dois filmes de linguagens bastante dispares. Um assumidamente pop, Sadako vs Kayako de Koji Shiraishi, e outro de autor, Personal Shopper de Olivier Assayas.

A cultura popular tem destas coisas deliciosamente kitsh. Agarram em personagens, filmes e conceitos famosos e colocam-nos em confronto. Batman v Superman, Alien vs Predator, Godzilla vs King Kong.  São brincadeiras de criança transformadas em realidade, jogos com figuras em que alguém gasta muito dinheiro para os passar para filme, BD, prosa, etc. Eu adoro! É, por vezes, ridículo, mas tão maravilhosamente reconfortante. Sadako e Kayako são dois monstros femininos de filmes de terror japonês "recente", a primeira pertencente à saga Ring e a segunda a Ju-On, êxitos tão significativos que deram origem a versões dos EUA. Passados 18 anos desde o primeiro Ring e 14 de Ju-On, os franchises continuam a dar material para novas iterações, mas desta vez em formato team-up. De terror isto já nada tem mas de abandono pop transborda. É desligar o cérebro e deixar-nos levar por hora e meia de pura diversão para quem, é mais do que óbvio, gosta destas coisas. Ficam agora duas perguntas no ar: para quando a sequela do team-up? Para quando algo deste estilo mas em versão erudita como Madame Bovary vs Lady Chatterley ou Édipo vs Hamlet?

Do lado oposto surge Olivier Assayas, auteur francês, com o maravilhoso Personal Shopper. Kristen Stewart protagoniza uma jovem a viver em Paris que perdeu o seu irmão gémeo recentemente, é médium de natureza e personal shopper para uma conhecida actriz por necessidade. Assayas é um realizador soberbo e este novo filme, em que volta a trabalhar com a actriz dos EUA depois de As Nuvens de Sils Maria, continua a cimentar a sua qualidade. Um filme perfeitamente enquadrado na temática do MOTELx que explora uma vertente mais intima da relação, sim, com o sobernatural, mas numa perspectiva emotiva de procura de conforto face a uma perda irreparável. O realizador explora também, de forma interessante, a relação com a tecnologia. Mensagens, video-chamadas e smartphones estão omnipresentes, como contraponto com a necessidade de procura de intimidade e de respostas que a protagonista procura em meios que são o oposto da ciência. Existe uma deliciosa e arriscada sequência de troca de mensagens essencial para o enredo e que revela, em profundidade, o abismo em que se encontra a personagem de Kristen. Aliás, a actriz prova, sem sombra de dúvidas, a sua qualidade e afasta-se de qualquer tipo de rótulo que possa advir de ter participado na saga Twilight. Continua a provar que não existem maus actores, existem maus realizadores (estou a exagerar, claro). Este foi, sem sombras de dúvidas, um dos grandes filmes que vi neste festival, associando-se à companhia de outros meus favoritos: February; Tickled; Under the Shadow.

MOTELx... então até para o ano. Que cresçam muito e mais.

MOTELx 2016 - The Transfiguration, Under the Shadow e Baskin





Os festivais de cinema que agora parecem proliferar por Lisboa são uma boa oportunidade para ver filmes que dificilmente estreiam nas salas, para arriscar e para ter a sorte de ver cinematografia de diferentes geografias, temáticas e estéticas. Foi o caso deste Sábado último, onde tive a sorte de ver três que provinham de locais bem diferentes, com temas diversificados (ainda que a tocar o terror e o fantástico, como não poderia deixar de ser) e com uma estética bem vincada e única.

The Transfiguration de Michael O'Shea não é bem um filme de terror ou de fantástico. O próprio protagonista insiste em dizer que muitas das histórias de vampiros que existem "não são nada realistas". Um jovem afro-americano perdeu a mãe. Vive com o irmão num bairro social da periferia nova-iorquina e, essencialmente, não é falador e afasta-se de colegas e vizinhos. Conhece uma rapariga branca, envolvem-se e conhece o carinho vindo de uma relação não totalmente desprovida de egoísmo mas menos do que aquele a que está habituado. O lado "terror" vem de que o jovem protagonista é um assassino em série de motif vampiro. Ele anseia ser vampiro e acredita que, por um lento processo de "transfiguração", poderá transformar-se em um. O enredo é parco em palavras e acção, preferindo concentrar-se na sugestão e no calmo progredir da história até a apoteose. Não sendo uma obra-prima é também um bom exemplo de uma primeira obra que poderá antever uma carreira sólida. É esperar.

O melhor do Sábado veio do Irão com Under the Shadow de Babak Anvari. No Teerão de 1988, uma mãe tenta proteger a sua filha não só dos terrores da guerra Irão-Iraque, como de uma infestação de Djinn, demônios da mitologia árabe, que invadem o seu prédio. Quando, na primeira e segunda parte deste filme, a infestação do sobrenatural ainda não é clara, a história lembrou-me de A Dança das Andorinhas, BD de Zeina Abirached. O mesmo dilema, a mesma necessidade de proteção dos mísseis da guerra, o mesmo companheirismo entre vizinhos de prédios. Contudo, o realizador não só escolhe introduzir o factor do fantástico e do terror, como procura elaborar uma cuidada e discreta metáfora sobre o conflito (que viveu enquanto criança), sobre a mudança ideológica e religiosa tida no seu país e sobre as suas consequências, principalmente para o sexo feminino. Mesmo a escolha da manifestação dos Djinn inclina-se para este lado mais sério da exploração do sobrenatural enquanto comentário social. Mas Babak Anvari não o faz, como disse, de forma folclórica e óbvia. Atmosférico, poderoso, este é outro dos grandes filmes deste MOTELx de 2016.

O dia acabou com Baskin do turco Can Evrenol que, segundo foi anunciado pelo próprio, vem já com algum hype. Extremamente gore, este OVNI, este objecto onírico de difícil apreensão, oscila entre laivos tarantinescos (num diálogo entre polícias no início do filme), sangue e tripas dignas dos melhores (o realizador de Cannibal Holocaust estava na audiência, maravilhado) e surrealismo satânico hiperbólico - nem eu sei bem o que quero dizer com isto. É a história não só dos polícias como um todo mas também de um em particular e de um estranho trauma de infância - chega a ser sugerido que tudo pode não passar de um sonho desse mesmo. Violento, sangrento, é o tipo de filme que imaginamos ser o estilo da larga maioria de um festival que orgulha-se de ser de terror. Um objecto estranho que talvez precise de tempo para se entranhar (no que a mim diz respeito). 

MOTELx 2016 - Psycho Raman, February e Cannibal Holocaust




E ao quarto dia o MOTELx 2016 entrou em velocidade de cruzeiro. Depois de um segundo com um momento duvidoso e de um terceiro muito bom, eis que aparece o quarto com três filmes certeiros. A jornada começa com Psycho Raman (ou Raman Raghav 2.0) do realizador indiano Anurag Kashyap. Não tanto um filme de terror mas antes um serial killer flick com laivos de Infernal Affairs, passado no labiríntico enigma que são as ruas de Mumbai, cidade fetiche do realizador (como disseram na apresentação, com uma obsessão e reverência similar à de Scorcese por Nova Iorque).  Duas histórias entrecruzam-se, a de um assassino em série baseado num muito real da década de 60 e a de um polícia corrupto e viciado. É também a história de almas gémeas, mas não da forma que se esperaria. Tal como no realizador nova-iorquino, a cidade é uma outra personagem, as ruas que serpenteiam ladeadas de pobreza e miséria, as pessoas que sobrevivem afuniladas em espaços em que a privacidade é uma ilusão. A crueza dos actos do assassino passam-se à vista de todos. Ele próprio confessa com orgulho os crimes e os pormenores tenebrosos a transeuntes aleatórios. A única sensação que sentem é a do medo egoísta, a da necessidade de sobrevivência. Sabem que as autoridades nada farão para prender de forma eficiente este monstro. Estamos muito longe da moralidade e da civilização policiada. E o mais cruel é que tudo é relatado com normalidade, como mundo consumado e aceite. Este seria um filme obrigatório estrear nas salas de cinema.

Outro que adoraria ver nas salas é este February do realizador estreante Osgood, um filme de terror com uma premissa convencional mas com um execução fabulosa. Não revelarei quase nada do enredo porque (eu sei que sou repetitivo neste assunto) adoro que possam vir a ter a mesma sensação que tive ao vê-lo. Estamos numa escola católica para meninas, duas ficam aí retidas no período de férias à espera da vinda dos respectivos pais. Atmosférico, este filme sugere mais do que responde, exigindo que queiramos voltar a vê-lo para descortinar o que realmente se passou. A paisagem gelada do inverno é omnipresente, as linhas minimalistas do colégio são uma continuação do hotel de The Shining (que talvez emule). A cinematografia, com planos simples e belos, iluminação fria, matizes azuis, é um dos pontos mais fortes deste brilhante filme. As jovens actrizes, todas entregam-se de forma poderosa e constrangedora (no óptimo sentido). Definitivamente, um realizador a observar com muita atenção - tal como David Robert Mitchell de It Follows.

O dia acabou de forma intensa, com a minha estreia (sim, é um pecado) em Cannibal Holocaust, que contou no Tivoli com a presença do realizador, Ruggero Deodato. Com certeza que muito pouco posso acrescentar a este filme de 36 anos, uma obra verdadeiramente inqualificável. Passado tanto tempo, continua a provocar emoções e sensações desconcertantes, um filme que perpetua a polémica em que foi criado e a forma como foi criado.  De tudo o que se passa nele, a questão do canibalismo é a menos chocante. Deixo ao vosso julgamento o que será (se tiverem coragem para o ver) mas, a julgar pela inflamada reacção de algumas pessoas na audiência no Q&A que se seguiu, ninguém pode ficar indiferente ao mesmo. Será este o filme mais chocante da História do Cinema? Provavelmente não, mas está no top. Fora toda  a polémica é um filme cinematograficamente interessante, com uma narrativa surpreendente que não se cinge a ser um mero exemplo de gore. Existe uma óbvia metáfora sobre a natureza e o nosso papel nela enquanto Humanidade. É um filme que tenha vontade de ver outra vez? Decididamente não, mas pelo menos satisfiz a curiosidade e ainda bem que o não vi em casa. É na sala de cinema e com a presença do realizador que deve ser apreciado. Obrigado MOTELx.

MOTELx 2016 - Psiconautas, The Wailing e Tickled


Idas a festivais onde nem sempre conhecemos o trabalho dos realizadores é uma roleta russa. Umas vezes acertamos, outras nem por isso. Grande parte do prazer nas idas a eventos deste estilo é exactamente esse. É verdade que tive de escolher baseado em resumos, realizadores (os que conheço), trailers ou leituras de artigos de outras fontes. Contudo, depressa esqueço-me do conteúdo (a idade ajuda) e vou virgem para a sala de cinema. Quando acerto e adoro o filme, é maravilhoso. Quando não... Já agora e para que não restem dúvidas, não falo de mais nada do que o meu gosto. 

O meu MOTELx deste ano de 2016 continuou com estes três filmes, todos bastante diferentes: um desenho animado para adultos, baseado numa BD e de origem espanhola, Psiconautas; outro, um filme de suspense/terror/thriller da Coreia do Sul, The Wailing; um documentário da Nova Zelândia, Tickled.

Psiconautas é um belíssimo conto passado numa ilha imaginada e povoada por antropomorfizações de diferentes animais. Contudo, desenganem-se os que pretendem levar filhos com menos de 15 anos a este filme. Ele é tudo menos para eles. Violento e estranho, é ao mesmo tempo uma narrativa fantástica e uma fábula para adultos. A história segue vários personagens, todos eles únicos e originais, perfeitas bizarrias que entrecruzam-se numa paisagem desolada e deprimente. Existem literais oásis e outros mais metafóricos, centrando-se o enredo numa estranha personagem chamada Birdboy, o "herói" dono de uma maldição, de um coração de ouro e de uma adição a drogas duras e alucinogénias. O desenho afasta-se o mais que pode de uma escola limpa e disneyficada (não que haja nada de mal com ela), preferindo a alusão à realidade, as sombras ao material, o tenebroso ao fofo. Um filme de animação para adultos é sempre raro aparecer e do qual convém ter mais e mais exemplos.

The Wailing faz parte, no que a mim diz respeito, das surpresas más que vão aparecendo (felizmente são muito poucas). Enredo muito confuso (confesso não ter apanhado metade do que se passava), redundante, histriónico, longo demais. Duas horas e meia que, com muitos e bons cortes de história e filmagens, poderia fornecer um filme mais conciso e directo - mas quantos falsos finais tem este filme? Será que existe alguma distância cultural entre este canto oeste da Europa e o canto este da Ásia que impossibilitou-me de gostar do filme? Porquê tanto grito e histerismo por parte de alguns personagens? No final, ficou a sensação de que apenas queria que tudo acabasse porque já nada nem ninguém interessava-me na história.

Dos três o maior filme de terror é Tickled, um documentário produzido pela HBO. Começa de forma humorística e leve quando um jornalista neozelandês de caso bizarros  cruza-se com um estranho e hilariante video na internet provindo dos EUA: competição de cócegas.  Vários homens disputam entre si quem consegue aguentar mais tempo, um deles amarrado e outros procedendo às ditas cócegas. Contudo, o ridículo depressa evolui para o perigoso, quando o autor dos artigos do bizarro recebe um e-mail ameaçador e ofensivo, exigindo a desistência da investigação. A partir daí, ele e nós somos confrontados com um crescendo de horror, abuso, exploração e ameaças que parecem perpetrados por uma organização mafiosa. Oculta e dissimulada, essa organização é um gigantesco monstro tentacular que imiscui-se na vida de quem ameaça e explora ao ponto do desespero.  O que prometia apenas ser um relato de uma tara peculiar modifica-se e cresce para a investigação policial de um fenómeno mundial. Sentimos estar num filme de terror, com monstros e momentos de horror de verdadeiro alcance.  Um dos melhores neste MOTELx de 2016.