Disse-o ontem aqui no Blogue e não tenho vergonha de o repetir: as séries de TV continuam num pico criativo invejável. Elas eram o parente pobre do audiovisual, mas, de há 20 anos a esta parte, têm igualado e, em alguns casos, superado o que de melhor se faz e fez no Cinema.Tomem como exemplo estas duas que vos trago hoje: The Good Place (da NBC e disponível na Netflix) e Euphoria (da HBO). Duas obras francamente diferentes, mas capazes de dar uma qualidade de escrita e/ou de realização apenas reservada aos melhores artistas da praça.
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Sopranos: A TV nunca mais foi a mesma
Entre 1999 e 2007, a série de TV Os
Sopranos foi um dos melhores romances, uma das melhores peças de teatro e
uma das mais intrigantes obras de arte em exibição. David Chase, o
criador, concretizou a proeza de escrever um livro de imagens em movimento
(porque é disso que falamos quando se pensa n’Os Sopranos),
levando a cabo um projeto, demorado e estruturado, em que permaneceu fiel ao
final que, desde o primeiro plano, estava obcecado em atingir. O facto de não
perder a perspectiva, de permanecer fiel a si mesmo e à obra de arte, era algo,
a esta escala, inédito na TV. À falta de melhor termo e a meu ver, Os
Sopranos inauguram uma nova forma de arte através da reinvenção de uma
outra, a série de TV.
O protagonista é Tony Soprano,
patriarca de uma família composta pela mulher e por um casal de filhos, e chefe
de uma outra, esta mafiosa, de Nova Jérsia. É dele o ponto de vista de
toda a série, os olhos pelos quais olhamos e julgamos os comportamentos e os
acontecimentos. O compromisso dos criadores é para com Tony Soprano, o
arquetípico Hamlet, o centro sobre o qual todos os outros personagens
irrevogavelmente gravitam. Ao longo das seis temporadas que compõem a
totalidade da série, somos presenteados com os diversos oponentes (quer sejam
eles amigos ou inimigos) que se passeiam pela vida de Tony, uma soberba
personalidade alfa que, de forma inata e devastadoramente inteligente, decide a
trama e a tragédia. Mas ele não é a torre de força que aparenta ser.
Uma das mais conhecidas narrativas d’Os
Sopranos é o facto de Tony sucumbir, desde o início, a ataques de
pânico que o obrigam a recorrer a uma psicóloga (o facto de ser uma mulher não
é, de todo, despropositado, tendo em consideração o papel do género feminino na
vida de Tony). Estas consultas funcionam como momentos de catarse para o
personagem e de informação para o espectador (mesmo que de forma vaga e quase
insubstancial). A Dra. Jennifer Melfi é o coro de toda a série (no
sentido grego e teatral do termo), aquela que comenta, de forma pós-modernista
e recorrendo a instrumentos cientificamente balizados, a vida do personagem
principal e as temáticas universais tão deliciosamente focadas na série. Que a
voz de um instrumento narrativo clássico como o coro seja transferida para
psicanálise é provavelmente um comentário ao século XX e às mudanças
epistemológicas e filosóficas que este testemunhou (esta é exclusivamente a
minha opinião). Este foi um século de mudança de paradigma no que respeita à
interpretação do real, um momento fraturante entre uma forma mística/religiosa
e outra científica de pensar, mudança essa também conseguida graças à obra e
vida de Sigmund Freud, o fundador da psicanálise.
A
primeira temporada aborda um dos elementos mais queridos à psicologia: o
complexo de édipo. Como não poderia deixar de ser, a raiz de todos os males são
os primeiros anos, os momentos infra-estruturais da nossa vida. E a mãe,
paradigma máximo da educação, é o construtor dos elementos importantes que nos
regem, mais ainda numa sociedade do estilo latino como é a d’Os Sopranos,
onde o elemento feminino do casal de progenitores possui uma influência quase
omnipotente no comportamento e personalidade dos filhos. É com esta
“antagonista” que Tony se vê confrontado logo no primeiro grande volume da
série, mas sempre numa perspectiva pós-modernista com o problema, onde os
autores, uma vez mais, procuram fazer uma análise do século XX.
Outros dos pontos chave para o sucesso e
profundidade da série foram os seus atores, verdadeiros golpes de génio de casting,
tornando-se, todos eles e sem esforço, na carne e no osso das ficções
concebidas por David Chase. James Gandolfini no papel de Tony
Soprano, especialmente, é um tour-de-force que acabaria por balizar
todos os protagonistas de outras séries de culto que se lhe seguiram, quer
falemos de Jon Hamm em Mad Men, quer Brian Cranston em Breaking
Bad, apenas para dar dois exemplos. Gandolfini imprimiu trejeitos,
gestos, forma de andar, tiques nervosos, numa personalidade já de si sólida e
substanciada, transferindo-lhe uma tridimensionalidade que transportou, de
forma inesquecível, o personagem do papel para o ecrã. Mas não foi apenas ele. Edie
Falco como a sua mulher, Carmela Soprano, Michael Imperioli
como o sobrinho e braço direito, Christopher Moltisanti, e Nancy
Marchand como a mãe, são todos exemplos da qualidade do elenco.
Curiosamente, o casting fez o esforço para recrutar apenas atores de
ascendência italiana para os papéis em que essa verosimilhança física era
importante.
A última cena é consistente com toda a
série: um plano final enquadrando Tony. Obviamente que não vou aqui
revelar o final, mas para os que não o viram ainda, as derradeiras cenas da
série foram alvo de acalentadas discussões em virtude da ambiguidade gerada.
Até hoje muitas são as opiniões quanto ao que realmente acontece. David
Chase acabou a série sem dar respostas definitivas. Provavelmente sabe que,
tal como Neil Gaiman disse e passo a parafrasear, não é o segredo
revelado que dura, mas antes o mistério.
Behind Candelabra de Steven Soderbergh
Este filme
veio com vários estigmas. De ter sido recusado por Hollywood por ser considerado, e parafraseio, “demasiado gay”. De,
por causa disso e imagino de muitas outras coisas, o realizador Soderbergh ter feito um discurso
bastante polémico e ter afirmado que este seria o seu último filme. De ser o
primeiro filme “a sério” da conhecida cadeia de TV HBO, famosa por ter exibido algumas das melhores séries de sempre: The Sopranos; The Wire; apenas para citar as minhas favoritas. Mas, no final da
história que, pelos vistos, acabou por ser feliz porque Soderbergh lançou o seu filme, o que interessa realmente é:
trata-se de um filme bom ou capaz de entreter? Eu cá acho que sim.
Para quem
não sabe do enredo desta película trata-se da biografia de um casal. Um é o
conhecido e virtuoso pianista norte-americano Wladziu
Valentino Liberace
e o segundo é o jovem Scott Thorson.
O romance entre os dois passa-se entre finais da década de 70 e início da de
80, um amor que começa enorme, como todos, e acaba em desgraça, como muitos. Seguiu-se
um confronto bastante público que culminou na morte do famoso pianista, vitima
do flagelo da década de 80, a SIDA.
Soderbergh não nos apresenta nem o seu melhor filme nem
tampouco o seu pior. As suas marcas estão lá: os décors milimetricamente estudados; o mise en scéne militar; as cores quentes e, paradoxalmente, frias
também; a banda sonora exemplar e minimalista; o relacionamento entre dois
seres tragicamente apaixonados (lembram-se de Clooney e Lopez no
excelente Out of Sight?). Está tudo
lá e a transposição para “TV” não sofre nem um pouco. Mas são os maravilhosos Michael Douglas e Matt Damon as verdadeiras estrelas do cabaret (se virem o filme
vão concordar com a alusão). Estes dois superlativos atores (com uma perninha
hilária de Rob Lowe) conseguem
carregar um filme inteiro em que o realizador, já de si, teima em estar
omnipresente, mas deixa a extravagancia dos dois personagens retratados brilhar
na pele luminescente de Douglas e Damon,
que nos entregam os melhores desempenhos de suas vidas. É uma pena que Hollywood os tenho recusado, porque o
óscar de melhor ator já estaria entregue a esta parelha (tal como, se o mundo
for justo, o será a Cate Blachett pelo
Blue Jasmine).
O
filme está longe de ser uma obra-prima, mas a personalidade das figuras, a
intensidade do retrato dos dois atores, a realização sui generis de Soderbergh
e, o mais importante, a verdade com que esta relação, homossexual, é
transportada num filme mainstream, arrastam
este Behind Candelabra para lá do simples
biopic “da vida”. E olhem que eu não
sou um grande fã de biopic.
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