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Os nossos filmes favoritos de 2018 - Pódio Ouro



Chegou aquela altura do ano em que todos votam os melhores do ano e o Acho que Acho acha que não deve ficar atrás de ninguém. Começamos com o Cinema. Para fazer esticar os cliques que massajam o ego, começámos com um pódio de bronze, seguido do de prata e, finalmente, agora, o de ouro. É só clicar na imagem para lerem o que falamos à altura que saiu.

Os nossos filmes favoritos de 2018 - Pódio Prata


Chegou aquela altura do ano em que todos votam os melhores do ano e o Acho que Acho acha que não deve ficar atrás de ninguém. Começamos com o Cinema. Para fazer esticar os cliques que massajam o ego, começámos com um pódio de bronze, seguido agora do de prata e, finalmente, o de ouro. É só clicar na imagem para lerem o que falamos à altura que saiu.

Os nossos filmes favoritos de 2018 - Pódio Bronze


Chegou aquela altura do ano em que todos votam os melhores do ano e o Acho que Acho acha que não deve ficar atrás de ninguém. Hoje começamos com o Cinema. Para fazer esticar os cliques que massajam o ego, vamos começar com um pódio de bronze, seguido do de prata e, finalmente, o de ouro. É só clicar na imagem para lerem o que falamos à altura que saiu.

The Night Comes for Us de Timo Tjahjanto


Temos uma sugestão para a Netflix e para os donos do cinema Monumental em Lisboa. Porque não passar nestas salas certos filmes que parecem apenas circunscrever-se àquela plataforma de streaming? Assim, não só teríamos a sorte de ver certas películas em ecrã grande, como a Academia de Cannes não poderia retirar de competição obras financiadas por esta produtora. Porque é não vimos o excelente novo filme do irmãos CoenThe Ballad of Buster Scruggs, em sala? E porque não podemos ver este excelente e ultra-violento The Night Comes for Us? Dizemos-vos: é criminoso.

(para os que não sabem, Paulo Branco vai retirar-se da exploração das míticas salas do Monumental, onde gerações viram alguns dos melhores filmes das suas vidas - nós, inclusive. Ao mesmo tempo, Cannes retirou de competição todos os filmes que não tenham sido exibidos, pelo menos uma vez, em sala de cinema). 

Roma de Alfonso Cuarón

Roma de Alfonso Cuarón deveria ser o tipo de filme que justifica irmos a uma sala de cinema e não escolher antes vê-lo na TV. Estreado quase em simultâneo na Netflix e em sala, vem com a invejável classificação de um dos melhores filmes do ano de 2018 - a famosa revista britânica de cinema, a Sight & Sound, votou-o mesmo como o melhor. Preferir pagar e deslocar-se para fora do conforto do lar e vê-lo em ecrã gigante (desculpem a prepotência assumida) faz a diferença entre quem gosta de Cinema e os que o vêem apenas como um momento bem passado - ou então não tiveram possibilidade, pelas mais variadas razões (não vá alguém se zangar connosco). Não deveríamos reservar este ritual apenas para os blockbusters. Roma merece tanto quanto estes.

Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões de Hirokazu Koreeda

O filme que venceu a desejada Palma D'Ouro de Cannes de 2018 é assustadoramente simples. Shoplifters acompanha uma singular família de pequenos ladrões de loja que procuram sobreviver nas ruas do Japão moderno. Este é um filme dedicado às relações humanas e humanistas. É um elogio ao ser social que somos, não isolados no materialismo do consumo, do ganhar dinheiro, do superficial. Para tal Hirokazu Koreeda escolhe uma família à margem da sociedade, família essa que gira à volta de uma idosa e de uma jovem de cinco anos que é adoptada para o seu seio.

Revenge de Coralie Fargeat

Será que este Revenge de Coralie Fargeat veria a luz do dia anos atrás? Ou, pelo menos, com o formato que acabou por adquirir? Será que esta história de vingança de uma mulher violada seria exactamente assim? Será que necessitamos de movimentos #metoo, feminismos e sufragismos para que a sociedade reconheça o valor destas narrativas? Não falo de valor panfletário. Não falo do valor social. Falo da relevância comercial e artística. Décadas atrás, não passaria pela cabeça de ninguém negar a plataforma narrativa do Cinema a filmes de vingança de Rambos, Comanches e Chuck Norris. Será que precisamos de tanto tempo para saber que, sim, as mulheres também têm lugar neste tipo de filmes? A realidade é que agora começam a aparecer mais heroínas, mais revoltadas, mais protagonistas, em filmes que antes eram de exclusiva província masculina.

The Killing of a Sacred Deer (O Sacrifício de Um Cervo Sagrado) de Yorgos Lanthimos

Depois de The Lobster, que já tinha sido um dos nossos favoritos em 2016, o realizador grego Yorgos Lanthimos regressa com mais este filme, produzido com meios e actores que não do seu país natal. Volta a trabalhar com Colin Farrel, que tem diversificado a sua carreia com filmes menos comerciais, e, desta vez, também com o nome sonante da actriz Nicole Kidman.  O resultado é uma incursão irónica acerca da vida privilegiada de uma família de médicos de sucesso que, apesar de tudo o que de bom fazem, esquecem-se do seu estatuto de excepção.

Columbus de Kogonada

Um homem fica doente. Um homem que dedicou a vida inteira a transmitir conhecimentos sobre Arquitectura.  Fica hospitalizado na cidade de Columbus, nos EUA, onde iria dar uma palestra sobre essa mesma urbe, meca de edifícios de design único. Alunos e admiradores zelam pelo seu bem estar, mas é no filho que recai o peso maior, filho que vive como tradutor na Coreia do Sul, de onde o pai é originário. Obrigado a abandonar o seu trabalho e a sua vida, o personagem interpretado por John Cho irá confrontar-se com o legado de um pai ausente, ao mesmo tempo que conhece uma cativante jovem de 20 anos, na pele de Haley Lu Richardson. Ela anda à deriva, sem saber o que fazer depois de haver acabado o liceu, e nutre um amor profundo pela Arquitectura, tão importante na sua terra natal. Ao mesmo tempo, cuida de uma mãe com problemas profundos. Apesar da diferença de idade, irá germinar entre os dois uma profunda amizade, alicerçada num entendimento e respeito mútuos.

Thelma de Joachim Trier

Thelma, estreado na semana passada pela chancela da distribuidora Cinema Bold, é um filme com todos os tiques do melhor do terror. Esta estética continua a atrair vários realizadores, que gravitam na direcção de um estilo onde podem brincar com as emoções dos espectadores de uma forma primal e pura. Joachim Trier, realizador dinamarquês que deu-nos, por exemplo, Oslo 31 de Agosto, não é excepção. Ainda que este último filme se centrasse nos dramas bem reais de um jovem a recuperar de uma adicção a drogas, não deixa de partilhar do código genético de Thelma. Ambos centram-se nos dramas de dois jovens. Acontece que um é mais fantástico do que outro.

Cold War (Guerra Fria) de Pawel Pawlikowski

Não gosto de ser acusado de pedante, mas acho que, desta vez, será impossível não acontecer. O novo e belo e brilhante filme do realizador de Ida, Pawel Pawlikowski, é o responsável. Larguem os Venom da vida - que ainda não vi. Esqueçam todos os filmes pipoca pelo menos uma vez neste ano, e desloquem-se a uma sala de cinema e vejam este Cold War - nesta altura que vos escrevo, o meu filme favorito de 2018. Aliás, não posso sublinhar com suficiente veemência que não o deixem sair de cartaz e não guardem para o ver num ecrã de TV ou outro qualquer de dimensão inferior. Este filme é uma das razões, no que a mim diz respeito, pela qual o Cinema existe e, portanto, deve ser visto em sala de ecrã de cinema.

Blackkklansman de Spike Lee

"É assim que os EUA dominam o mundo. Coca-Cola, Nike, Apple, hip-hop, rock 'n' roll, blues. Quando colocas cá fora coisas que modificam o modo das pessoas pensarem, falarem, dançarem - isso é poder. Bombardear pessoas não tem influência nenhuma. É essa a minha teoria de como os EUA dominaram o mundo: através da exportação da sua cultura, e no topo da lista está o Cinema." É Spike Lee quem o diz em entrevista à revista inglesa Sight & Sound.

Jusqu'à La Garde (Custódia Parilhada) de Xavier Legrand

O título português do primeiro filme de Xavier Legrand é enganador. Ainda que a questão da custódia partilhada seja um dos temos desta obra, está longe de ser o único e nem sequer o mais importante.Verdade que o trailer, que reproduz alguns dos primeiros minutos de Jusqu'à La Garde, reflecte essa questão cada vez mais na ordem do dia, mas este filme é mais complexo e desafiante. Se esta primeira tentativa numa longa-metragem é assim, só podemos estar desejosos dos próximos esforços deste realizador.

First Reformed (No Coração da Escuridão) de Paul Schrader

O que é hoje os EUA? Essa questão ecoa por todos os minutos deste maravilhoso filme do realizador Paul Schrader, também conhecido por ser o escritor das obra-primas da 7.ª Arte que são Taxi Driver e Touro Enraivecido. O silêncio e calmaria que permeia esta obra, esteticamente brilhante, parece ser a capa que disfarça uma tempestade voraz. Uma tormenta que quer consumir o mundo. Uma narrativa contida que esconde conflitos, desejos e ambições que ameaçam a sobrevivência, principalmente a do Homem.

Isle of Dogs (Ilha dos Cães) de Wes Anderson

É revelador quando a assinatura de um realizador é clara, independentemente do formato em que ela é transmitida. Wes Anderson possui uma cadência de diálogos, um mise en scéne, um movimento de câmara, que são únicos nas salas de cinema - não sei se alguém já inventou o termo wesanderseniano, mas se não reclamo-o já. Os seus filmes são clínicos sem perder candura, cheios de humor seco sem perder a seriedade. Não duvide-se que existe calma e estudo em cada plano (mais ainda em filmes de animação), porque Anderson é um realizador metódico, mas também não deixa de haver alegria no processo, na arte de criar algo verdadeiramente novo e seu. Wes é aquilo que  os pedantes de Cinema (às vezes - ou sempre - também o sou) chamam de auteur. Este Isle of Dogs é mais uma prova desse facto e a segunda vez que explora filmes de stop-motion, depois do Fantastic Mr. Fox (inédito nas salas de cinema em Portugal).

Neste novo filme, Anderson acrescenta ao seu repertório de manias a cultura e estética japonesas, ao escolher a geografia de 20 anos no futuro das ilhas nipónicas, mas também referências a realizadores de renome como Akira KurosawaHayao Miyazaki ou pintores como Hokusai e Hiroshige, todos referências clássicas e até de senso-comum quando se fala do Japão. Dentro de duas décadas, uma família de linhagem antiga consegue finalmente levar até às últimas consequências o seu ódio dirigido aos cães. Cria uma doença , infecta todos os canídeos com a mesma e exila-os para uma ilha de lixo. Mas Atari, um jovem de 12 anos e protegido do chefe da família-que-odeia-cães, tem como seu melhor amigo o primeiro cão que é exilado para a dita ilha e não resiste em ir salvá-lo. Uma vez lá, junta-se a uma matilha composta apenas de cães-alfa e inicia a sua viagem nesta terra fantástica, mais ou menos como a Irmandade do Anel iniciou a sua pela Terra Média.

A Ilha de Cães é um filme belíssimo, não só do ponto de vista estético (e acreditem que é e muito) mas de execução e história. Assume-se como um produto de precisão digna de engenheiro, com movimentos bruscos e lineares da câmara, cheio de coração e humor, da velocidade típica do realizador, e de arte de fazer Cinema. Filmes destes ensinam futuras gerações a gostar da 7.ª Arte, não só pelo espectáculo, mas também pela curiosidade da descoberta (este filme deverá ser visto várias vezes para absorver todos os pormenores) e pelo fascínio da idiossincrasia. É só pena que possa passar despercebido na mesma semana em que estreia o gorila que é os Vingadores. Espero bem que não.

Ready Player One de Steven Spielberg

Steven Spielberg, o inventor do blockbuster, regressa a esse estilo de cinema inventado por si mas agora pertencente aos super-heróis e a outras fantasias adolescentes e pré-adultas. Veio testar a sua capacidade de ser ainda capaz de produzir filmes gigantes, máquinas de fazer dinheiro que Hollywood e os seus produtores perseguem sofregamente. Os filmes cresceram tanto em custo e expectativas de bilheteira que é cada vez mais difícil avaliar o que são êxitos e fracassos. É por isso que não é o trabalho de um crítico ou apreciador de avaliar o percurso financeiro de um filme, mas antes de dizer se acha bom ou mau, relevante ou não, se gosta ou não. No que a mim diz respeito, Spielberg está de volta, e logo no estilo de filmes que criaram a sua fama e que inaugurou com Jaws (considerado o primeiro blockbuster, no sentido moderno do termo).

Ready Player One, baseado nos romances de Ernest Cline, é entretenimento puro com pitada de auteur. Não só é um filme super-divertido, como não deixa de ser da assinatura de Spielberg. Nele pairam as manias do realizador: o geek/sonhador que vence tudo e todos, especialmente a figura paternal autoritária, destruidora/aproveitadora dos sonhos infantis; a família (qualquer que ela seja) como o cerne do relacionamento humano; uma América corporativista que aproveita-se do que os outros construíram, apropriando-se, de forma hipócrita e interesseira, dos gostos que nunca partilharam. Estas mensagens são colocadas de forma mais ou menos subtil e mais ou menos óbvia. Contudo, nem o mais pedante dos intelectuais deixará de ser tocado pela ligeireza, candura e honestidade com que Spielberg desmonta uma máquina que ele próprio alimenta (se ler uma crítica do Público, provavelmente mudo de ideias quanto a isto). Também nesse aspecto temos o regresso do melhor Spielberg Versão Entretém desde há muito tempo. O Professor está de regresso e dá uma lição a todos os alunos.

Este filme é, acima de tudo, o sonho molhado de geeks de cultura pop espalhados pelo mundo inteiro (eu sou um deles). É um elogio à cultura que tem sido a base de muito do que melhor (e pior) produziu-se em Cinema (e merchandise, e desenhos animados, etc.) nas últimas décadas. Um elogio feito por um dos maiores e mais importantes geeks do mundo.  É um divertimento infantil descobrir e identificar todas as referências, todas as personagens, todos os easter eggs espalhados e que referenciam inúmeros mundos desta cultura - encontrei duas referências à minha  Mulher-Maravilha, por exemplo: uma no casaco de uma personagem e outra, bem mais difícil de encontrar, a ver com George Pérez - encontrem-na, se conseguirem.

Escolham uma boa sala de cinema e deliciem-se com este maravilhoso carnaval da cultura pop. Sejam crianças.

Annihilation (Aniquilação) de Alex Garland

(filme disponível na Netflix)

Alex Garland já tinha entrado pelo mundo da ficção científica com o excelente Ex-Machina (leiam neste link o que falamos sobre ele à altura, um dos nossos favoritos de 2015). Com este Aniquilação, que infelizmente não veremos nas salas de cinema, regressa, mas para um projecto ainda mais ambicioso em alcance narrativo e filosófico. Garland explora o mundo desbravado por grandes como Stanley Kubrick, no seu importantíssimo 2001, não no seu sentido literal, obviamente, mas na forma como aborda a temática da ficção científica e do contacto com vida extra-terrestre. Para além do génio de Kubrick, outros já inverteram para este caminho, como Zemeckis no seu Contacto ou, mais recentemente, Villeneuve no Arrival (este último um dos nossos favoritos de 2016). O realizador consegue neste Aniquilação mais um filme que poderá ficar para os anais da ficção científica, como uma viagem, a principio relativamente linear mas depois surrealista, e como um elogio às potencialidades deste tipo de narrativa, que continua a dar provas da sua perenidade pela força das histórias.

Um fenómeno extra-terrestre desconhecido alterou a geografia do mundo. Uma bolha, a que chamam Fulgor, surgiu do nada e insiste em expandir-se. Várias equipas, militares essencialmente, tentaram entrar no Fulgor, para nunca mais regressar. Um desses militares é o marido da personagem de Natalie Portman, Lena, bióloga, que insiste em fazer parte de uma outra equipa, só de mulheres e a maior parte delas cientista, para explorar a bolha. Nessa bolha (pequeno spoiler) o mapa genético de plantas e seres vivos aparenta estar num processo de mutação que implica a ligação entre espécies que nunca deveriam poder juntar-se. É impossível fazer mais qualquer tipo de exploração da narrativa de Aniquilação sem estragar parte do enredo ou sem vos dar uma interpretação do que penso ser a temática do mesmo. Por isso fico-me por aqui.

Aniquilação, à semelhança dos seus progenitores narrativos como o 2001, é um mistério. Garland soma pormenores aparentemente desconexos e permite ao telespectador a procura das respostas nas pistas que apresenta. Nada é claro no caminho explorado pelas protagonistas no interior do Fulgor. Entre momentos de rara beleza e de inacreditável terror (desafio-vos a não ficarem perturbados com o urso), o realizador explora temas como a evolução, o amor e a religião. Este último poderá parecer mais rebuscado, isto depois de verem o filme, mas entendam esta minha alusão no sentido da busca de resposta a algumas das mais importantes perguntas que nos assolam e na nossa relação com o universo à nossa volta (seja ele animal, floral ou mesmo mineral). Uma relação que quer-se mais íntima, menos isolada nos limites do nosso corpo, veículo privilegiado de contacto com o que está fora de nós. O final do filme assume-se como um outro gigantesco ponto de interrogação. Não tanto pelo que os extra-terrestres nos quiseram oferecer mas mais pelo que nós nos propusemos aceitar. Se calhar por causa disso, não será por acaso que as mulheres são as protagonistas deste soberbo filme. Elas que são o sexo original, aquele que a natureza assume por defeito. Elas que originam toda a vida. 

Aniquilação é um dos grandes filmes do ano e que não vamos ver nas salas de cinema mas apenas na Netflix, o que é uma gigantesca pena.  É uma narrativa desconcertante, surrealista e cativante. O 2001 de Kubrick gerou um filho. Será que a trilogia vai continuar?

The Florida Project de Sean Baker

Existem mundos que aguardam nos subúrbios dos outros. Pessoas que acumulam-se nas fronteiras dos locais bonitos. Que observam de longe os sítios mais visitados. Vivem na espera. Vivem na esperança de um futuro melhor. As crianças preferem não esperar um futuro melhor, porque o presente é produto da imaginação, das brincadeiras que criam nos dias de verões preguiçosos. Sem destino, vivem mais felizes. Mas a tragédia que são os seus tutores, arrasta-as, sem querer, para longe da felicidade.

Sean Baker regressa às cores garridas das ruas escondidas, das traseiras dos edifícios. Regressa aos desalinhados, aos esquecidos, aos que vivem longe da normalização. São mundos a que acedemos apenas por engano ou que vemos apenas de cima, de um alto voo com destino para outras paragens. Somos turistas que não devem ser incomodados. Eles são os que ali vivem e são forçados a ver a utopia de longe. Forçados a observarem e a serem esquecidos. Os que veem de fora, os visitantes, os tais turistas, são mais importantes que os que ali vivem. Esses são incómodos na imagem colorida de uma fantasia infantil.

Enquanto isso, os esquecidos lutam com o que podem. No desespero do último recurso, quando nenhum caminho lhes é oferecido, voltam-se para a venda do próprio corpo (faz-me lembrar o filme São Jorge de Marco Martins). Os que vivem no mundo ideal observam-nos como abutres, prontos a aproveitarem-se do desespero ou da inocência.

Este são os EUA que não aparecem nos filmes coloridos e explosivos. Este é um filme sobre os escombros do crescimento económico. Dos esquecidos desse crescimento. Visto através dos olhos e brincadeiras de crianças, observadas até à exaustão pela câmara de Sean Baker. Ele entra pela vida adentro desses pequenos e procura não esquecê-los. É impossível esquecê-los.

Um filme brilhante e que brilha. Nessa luminosidade existem todas as sombras do mundo. É um filme sobre o subúrbio da fantasia e, por isso, extraordinariamente real.

Visages, Villages (Olhares, Lugares) de Agnés Varda e JR

Agnès Varda já deveria dispensar apresentações. Realizadora e documentalista francesa de 88 anos, exerce há mais de 60, e é contemporânea (e amiga) de nomes tão importantes para a arte de fazer cinema como o são Jean-Luc Godard. O seu olhar vem de uma escola que não se ensina, e mesmo agora que a visão começa a falhar (a física) o seu ponto de vista é mais válido, único e acutilante que 99% dos realizadores em exercício, (todos) mais novos que ela. E o extraordinário Olhares, Lugares é prova disso. Contudo, não pensem que esta senhora deixa-se afundar pelo peso dos anos e pela sobranceria da experiência. Antes pelo contrário. Agnès faz-se acompanhar de JR, jovem fotógrafo e artista plástico, pelas aldeias, paredes e rostos de uma França pouco visitada.

Este filme-documentário acompanha a viagem dos dois artistas, enquanto exploram as vidas de uma multitude de pessoas e experiências na França rural. Um filme humano, sobre pessoas primeiro - sempre pessoas primeiro. Profundamente social e com engajamento como muitos poucos, escolhe a calma e pacífica observação do relato das vidas dos muitos rostos que encontram no percurso. Uma carrinha com uma enorme câmara e impressora percorre as veias do campo francês, encontra comunidades, fotografa-as e expõe as gigantescas impressões a preto e branco em prédios, armazéns, habitações, praias, como testemunho, claro, mas, acima de tudo, como força. A força das vidas que devem ser expostas e sublinhadas antes de qualquer outra coisa. 

Um dos momentos mais fortes ocorre logo no início, quando uma senhora resiste a viver numa rua em que ela é a única habitante. Como contrapeso, quase no final, a impressão colada a uma estrutura abandonada numa praia expõe a brevidade a que estamos sujeitos aos olhos da força do mar. A própria Agnès chora em frente à câmara, expondo a sua humanidade, quando visita um amigo de longa data.

Gosto de pensar no artista como o anti-estatístico, o anti-gestor. A ele as médias não interessam. Na força e dilúvio dos números perdem-se os olhares e os rostos únicos que todos queremos ser. Todos. Sem excepção. Este essencial e obrigatório Olhares, Lugares é um testemunho de todos esses rostos. Que existem e devem ser (sempre) mais perenes que as habitações e os museus. O homem é a única obra de arte da Humanidade que interessa. E este filme relembra-nos isso.

Basicamente e sem esforço um dos melhores filmes de 2018.

Phantom Thread (A Linha Fantasma) de Paul Thomas Anderson

O Cinema é um animal de muitas caras, como qualquer Arte. Por isso, é sempre complicado falar de qualquer outra coisa que não sejam gostos. Uns preferem entretenimento. Outros Arte pela Arte. Outros algo entre estas duas visões. Por vezes, estamos preparados para acolher uma. Outras vezes a outra. A safra deste ano dos candidatos a Melhor Filme do Ano da mais famosa competição da 7.ª Arte, os Óscares, é uma safra muito interessante e estranhamente "boa" (desculpem o termo mas o que na realidade quero dizer é que gostei). Temos filmes de pendor histórico (A Hora Mais Negra e Dunkirk, que até fazem uma bela parelha). Temos o filme activista (The Post). Temos filmes que dançam entre estas e outras categorias (Get Out, Call Me My Your Name, Shape of Water, Three Billboards Outside Ebbing Missouri, Ladybird). E temos o OVNI, o miúdo que é meio estranho mas desconfias que vai ser alguém grande quando crescer. Temos este maravilhoso Phantom Thread de Paul Thomas Anderson com Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps.

À data que escrevo este artigo ainda falta-me ver Ladybird, mas posso desde já dizer qual o meu filme favorito de entre os concorrentes. É mesmo este Phantom Thread, ainda que não ache que vá vencer qualquer prémio (o meu palpite vai para o também fabuloso Three Billboards Outside Ebbing Missouri). Existem filmes que conseguem ser Cinema Puro, em que a história é importante mas é também no desfilar das imagens, no casamento com a música, com os diálogos, com o décor, com o mise en scéne, etc., é nessa imponderável combinação que temos uma peça de Arte indefinível e única, pessoal. É isso que P.T. Anderson volta a entregar neste filme que é seu, tão seu, mas também suficientemente generoso para deixar os actores entregar personagens que os transformam, eles nas personagens e as personagens neles. Phantom Thread é Cinema sem filtros, é um bailado de imagens que ligam-se entre elas como as linhas que cozem e unem os vestidos da personagem principal. É Cinema de meias palavras e double entendre, de vida e de morte, do que vale a pena sentir e viver. É um épico cujo palco é o de uma casa e de uma loja. O do olhar e do corpo de duas pessoas apaixonadas.

Daniel Day-Lewis entrega uma personagem conturbada, mimada, obcecada, e cujo mundo perfeito e ordeiro é disruptado pela presença de uma mulher, a interpretada por Vicky Krieps. Quase desconhecida, entrega uma prestação que não só rivaliza com o gigante irlandês mas que o chega a superar, tal a força, magnetismo e potência da sua personagem e interpretação - não ser candidata a Óscar de Melhor Actriz é a maior falha deste ano. Nenhum dos intérpretes é menor. Os dois enfrentam-se e complementam-se, como actores e personagens, de forma simbiótica. 

A observá-los está o sempre fabuloso Paul Thomas Anderson que, até o momento, não fez (para mim) um único filme mau ou sequer mediano. Muito à semelhança de The Master e There Will Be Blood, o realizador fala-nos de um homem obsessivo-compulsivo mas genial que é confrontado com a presença de uma outra personagem, confrontacional e antagónica, que perpetuamente questiona a sua existência e objectivos (será que P.T. e Day-Lewis falam sobre si mesmos?). Neste caso, é o Amor encarnado, num dos mais belos elogios a este sentimento que o Cinema já nos deu. Eu sei que estou a exagerar mas este filme enaltece, no que a mim diz respeito, esta Arte. Aplausos de pé!