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Uma BD aqui, outra BD ali, 15

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Immortal Men número 1 de James Tynion IV, Jim Lee e Ryan Benjamin (DC Comics)

Depois da mini-série Dark Nights: Metal, a DC Comics decidiu apostar num conceito inovador. As duas grandes editoras dos EUA têm sofrido, de algumas décadas a esta parte, de um grave problema: raramente apostam em novas criações. Devido à política de direitos exercidos sobre conceitos que habitam os universos partilhados de super-heróis, muitos autores não têm vantagem em fornecer boas ideias, quando não são eles a lucrar com elas. Depois de exemplos como Siegel e Shuster, os criadores do Super-Homem, ou de Jack Kirby, uma das mentes que originou a BD nos EUA, é normal que os seus herdeiros artísticos refugiem o melhor da imaginação no domínio do privado. 

Esperemos que algo se tenha modificado neste contexto para que tantas novas personagens aparecessem na DC - ainda que exista algo de estranhamente familiar nelas. Já falei aqui do The Terrifics, ou aqui de Damage. Ambos são homenagens mal disfarçadas ao Quarteto FantásticoHulk, respectivamente, e estes Immortal Men, ainda que tangencialmente, fazem lembrar os X-Men (estes também já eram inspirados na Doom Patrol da DC, portanto "ladrão que rouba a ladrão"...). Ainda assim, o conceito por detrás deste grupo aborda ideias já antigas intrínsecas à DC, como o Immortal Man, o Vandal Savage, etc., mas com uma maior abrangência tentacular na História Secreta do Universo. Tynion cria novas ideias e novas personagens e alicerça-as numa luta que dura há milénios no interstício escondido do mundo. O resultado é divertido q.b., ainda que denso, dificultando um pouco o entretenimento. Teremos de esperar pelos números que se seguem mas, do que aqui é mostrado, e tendo em consideração o trabalho do escritor na revista Detective Comics, estou disposto a dar o benefício da dúvida.

Um dos selling points desta nova leva de revistas pós-Dark Nights:Metal era a aposta nos desenhistas. Seriam o centro das atenções. A eles seria seria dada carta de alforria para descarrilar a imaginação. Neste Immortal Men a tarefa cabe ao lendário Jim Lee. Acontece que ele desenha apenas parte do título, partilhando muitas páginas com Ryan Benjamin, que não tem o mesmo talento. Depois de tanto alarido, parece que as promessas da DC caíram em saco roto, o que, infelizmente, não fornece muita confiança no produto e no seu futuro. Provavelmente, será melhor confiar no escritor, já que estes artistas não são, de todo, Jack Kirby.

Captain America número 700 de Mark Waid e Chris Samnee (Marvel)

Infelizmente, está a chegar ao fim a terceira leva de histórias do escritor Mark Waid para o Capitão As duas primeiras têm já quase 20 anos e eram, na opinião deste fã, do melhor que foi produzido para o Sentinela da Liberdade. Waid tem inclinação para escrever super-heróis à moda antiga, não só porque é um uber-geek com talento, mas também porque possui um optimismo vincado e militante (leiam o seu Kingdom Come, por exemplo). Os seus homens de collants são bastiões de bondade e de verdade, constantemente na luta pelo que é Bom e Belo - percebem porque escrevi super-heróis à antiga?

Esta terceira tentativa não é diferente. 

Waid recorre a um dos mais antigos e usados clichés da BD: o distópico futuro alternativo (inaugurado no essencial X-Men: Days of Future Past dos lendários Claremont e Byrne). Sobre este faz uma pequena modificação, usada para analisar a personalidade daquela que é repetida e injustamente considerada como a personagem mais canastrona da Marvel (muito à semelhança do que acham ser o Super-Homem). A história segue à velocidade de um Tintin de Hergé, com rapidez de acção e determinação no enredo, não desviando-se do propósito que é seu desde o início: descrever quem é o Capitão América.

Auxiliado pela linha clássica e clara de Samnee, temos em mãos uma saga que poderá vir a figurar no melhor que já foi feito sobre a personagem e que ficará bem na prateleira numa edição Deluxe. Aliás, declaro minha esta previsão e este pedido: façam um filme desta história, quem sabe até um último hino de Chris Evans, se convencido a ficar ou se sobreviver à Infinity War - que estreia nos cinemas no próximo dia 25 de Abri.

Uma BD aqui, outra BD ali, 4

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Batman (2016) números 36 e 37 de Tom King a Clay Mann (DC Comics)

É desta matéria que as boas histórias são feitas. É por causa de números como estes que as personagens da DC são-me tão queridas. Já muitos sabem que Tom King está a construir uma das mais interessantes sequências de histórias com o Homem-Morcego. O ex-agente da CIA tem-se revelado, no relativo pouco tempo em que escreve BD, como um dos escritores de maior imaginação e inteligência a trabalhar na 9.ª Arte. A perspectiva fresca com que escreve este maior ícone da DC tem revelado pormenores do Cavaleiro das Trevas que persistentemente escaparam a outros. I Am Suicide, The War of Jokes and Riddles, Batman Annual #2, Batman/Elmer Fudd, foram alguns dos momentos mais altos. Aos quais agora se juntam estes dois números.

Batman e Super-Homem há décadas que dançam pelos interstícios de uma relação de amizade e conflito. A início eram amigos, mas desde 1986 que Frank Miller e depois John Byrne decidiram que seria mais empolgante se fossem lados opostos de uma mesma questão filosófica. Esse conflito definiu a  relação mas também a personalidade de ambos. Eis que, no presente, o Homem de Aço está há muito casado com o amor da sua vida, Lois Lane, e o Batman pediu em casamento a anti-vilã, uma vezes amante, outras inimiga, Catwoman. Esse pedido leva a que ambos os casais decidam sair num double date (número 37), antecedido de uma análise do respeito que as duas figuras maiores da mitologia de super-heróis nutrem uma pela outra (número 36). 

Tom King é um homem adulto e isso é espelhado na riqueza dos diálogos entre as personagens. É revelado, em todo o seu esplendor, a tridimensionalidade de quatro figuras que fazem parte da cultura pop há 80 anos. Isto não é para quem nasceu há menos de 20 anos (mas também o é). Isto não é para a geração Disney, assexuada e sem humor (calma que também gosto de algumas coisas da Disney). Isto é para personalidades maduras, hetero ou homossexuais, de pensamento complexo e indefinido, visto pelo prisma de quatro arquétipos, que também são, acima de tudo e o mais importante, pessoas que respiram ar de papel. É por isto que adoro o Super-Homem, o Batman, a Lois Lane, a Catwoman e a DC Comics. Perfeição.

Exit Stage Left: The Snagglepuss Chronicles número 1 de Mark Russel e Mike Feehan (DC Comics)


A DC Comics, através da empresa accionista, a Time Warner, tem acesso a um conjunto de propriedades intelectuais da cultura pop bastante conhecidas. Os Looney Toons e as personagens da Hanna Barbera, por exemplo. Os portugueses de uma determinada geração conhecem o Top Cat, o Yogi Bear, os Jetsons e os Flintstones. Fazem parte de uma infância colectiva de desenhos animados dos fins-de-semana de manhã. Recentemente, a editora de BD tem resgatado algumas destas personagens e as reinventado através de um prisma adulto. Perderam-se os desenhos cartoonescos e as temáticas são agora maduras e complexas. Nunca tinha lido nada até este Snagglepuss e a surpresa foi significativa. 

A história ocorre na década de 50 dos EUA, durante um período da História deste país com relevantes convulsões sociais. Estávamos em plena Guerra Fria e esta foi usada como justificação de algumas agendas mais tradicionalistas para procederem a uma caça às bruxas mais ideológica que política. Snagglepuss é  um conhecido artista de Teatro que tem de esconder a sua preferência sexual. Ele é gay, um actor conhecido, mas o clima social e político não são propícios à sua liberdade pessoal.

Mark Russel escreve um enredo complexo e cativante, com diálogos inteligentes e adultos. Apesar da forma - os protagonistas são personagens antropomorfizados -, a história flui sem problemas e de forma séria. Não existe nenhuma necessidade de suspensão da descrença apesar de estarmos a falar de um leão das montanhas cor-de-rosa. Apesar de ainda muito no início, pela amostra deste primeiro capítulo, podemos já aqui ter uma das melhores BDs de 2018.

Captain America número 697 de Mark Waid e Chris Samnee (Marvel)


O Capitão está de volta. The All-American, applepie version. E ainda bem. Desde há uns anos a esta parte que esta personagem apenas sobrevive no ranking das competitivas vendas do EUA quando passa por um evento catastrófico. Primeiro pelas mãos de Ed Brubaker, que o matou e ressuscitou. Depois por Rick Remender, que lhe deu um filho e envelheceu-o. E mais recentemente pela versão nazi escrita por Nick Spencer. Depois desta última controvérsia, a Marvel decidiu regressar às origens da personagem, adoptando a fórmula DC Rebirth: os seus heróis, o Capitão inclusive, regressariam às versões clássicas (e, já agora, as revistas às numerações iniciais - como podem comprovar pelo número 697). Para que isso ocorresse de forma suave, ninguém melhor para escrever que Mark Waid, que não só é conhecido pelo seu gosto e talento clássico como também por ter escrito uma das melhores sequências de histórias do passado da personagem. Regressa com o auxílio de um  seu colaborador recente, Chris Samnee, com quem trabalhou no Demolidor e Viúva Negra.

Já estamos com três números no total com esta equipa criativa e, no que a mim diz respeito, é com este capítulo que Waid e Samnee entram no groove. Deixamos de lado a Real America e entramos na vertente super-heroística, com o conflito com Kraven, O Caçador, vilão do Homem-Aranha. A premissa é perfeitamente banal e a surpresa inexistente mas é uma história bem executada. Waid deixa a capacidade de storytelling de Samnee respirar, abstendo-se de diálogos e deixando a acção falar por si. A leitura torna-se parcimoniosa mas entretida e sem pretensões. Um conto de super-heróis sem grandes metáforas. Apenas uma aventura à antiga. Ou seja, ainda que não ofereça nada de inovador também não procura ser a próxima grande modificação do status quo para fazer aumentar as vendas. Duvido que a Marvel resista por muito mais tempo. É que a editora está viciada em reboots e grandes mudanças. 

Daredevil: Devil at Bay e West-Case Scenario de Mark Waid e a série de TV Daredevil



Rai’s parta ao diabo, ou melhor, ao Demolidor, que ultimamente é difícil de ser mau. Quer seja a lê-lo ou a vê-lo. Há 15 anos consecutivos que a Marvel não consegue publicar más histórias deste personagem (OK, o esforço do escritor Andy Diggle não foi dos melhores mas, ainda assim, superior à média). Começou com a dupla Kevin Smith/Joe Quesada, continuou com o último e David Mack (que até vai ser publicado em Portugal pela Levoir na sua nova coleção), a fabulosa e muito essencial saga de Bendis/Maleev, seguidos, em catadupa, de Brubaker/Lark e Diggle (com vários desenhadores). Esta “fase” foi longa, deprimente, negra e assustadoramente boa, porque bebia da pesada e nobre herança do segundo e talvez “verdadeiro” criador do Demolidor, Frank Miller (já falo mais dele). Depois de tanta tragédia, a Marvel decide ir por um caminho diferente, entregando o personagem ao escritor Mark Waid, que tem feito um trabalho extraordinário, declamando palavras que, bem misturadas, formam alguns dos melhores contos feitos para o Homem Sem Medo. Perdeu muito do ambiente noir que caracteriza o personagem desde que Frank Miller o fez seu e bebe mais da herança super-heroística. Contudo, e aí reside a arte de Waid, sem se afastar da aura fatalista que agarra Matt Murdock desde há muito.

Waid está na recta final da saga e, tradicionalmente para este personagem e ainda bem, a Marvel tem deixado em paz os autores que lidam com o Demolidor (excepto por um leve crossover com um evento num destes dois livros). Podemos, assim, saborear e sem molhos o prato desenhado pelo escritor. O personagem é, de facto e salvo as devidas distâncias, o Batman da Marvel, em que a visão do autor consegue moldar-se em volta do personagem sem perder identidade, quase como se todos quisessem deixar a sua impressão digital, não tanto na personalidade do Homem sem Medo mas antes no seu historial. Há personagens com essa sorte, em que a continuidade não os afecta e para os quais há espaço para a individualidade. Continuem a deixar o Demolidor em paz que nós agradecemos.


Frank Miller está em todo o código genético da maravilhosa série de TV que teve o Demolidor como personagem. Consigo dizer, sem reticências, que, para o meu gosto, a 1.ª temporada de Daredevil da Netflix é o melhor filme da Marvel até o momento. Solidamente assente no universo cinematográfico que iniciou-se em 2008 com o primeiro Iron Man é, contudo, completamente diferente. Adulto, violento, complexo, moralmente ambíguo, como dizia um amigo meu da Spoiler Alert, é os Sopranos dos super-heróis. Mas mais do que isso. Esta 1.ª temporada poder-se-ia antes chamar Wilson Fisk, que os fãs reconhecem como sendo Kingpin, o vilão do Homem-Aranha que Frank Miller re-imaginou como o Némesis de Matt Murdock. Nesse sentido é os Sopranos, porque a “viagem” de Fisk é tão (ou mais) importante quanto a de Murdock.


Os fãs como eu deliciaram-se com as interpretações de D’Onofrio como Fisk, Charlie Cox como Demolidor, Deboral Ann Woll como Karen Page, Elden Henson como Foggy Nelson, Rosario Dawson como Claire Temple, a Night Nurse, e, a minha favorita, Ayelet Zurer no papel de Vanessa, a amada de Kingpin. De facto, tenho dificuldades em encontrar falhas nesta excelente série, que quase me levou às lágrimas. Desde estes maravilhosos actores ao burilado e inspirado argumento, que bebe sem reverência escusada à BD, principalmente aquela que “interessa”, a de Frank Miller, tudo é bom, cuidado. Venha a 2.ª Temporada que mal posso esperar. 

Rapidinhas de BD - Avengers Epic Collection 17; Daredevil by Mark Waid 7; The Unwritten: Fables

Avengers Epic Collection vol. 17: Emperor Doom por vários

Dizer que os volumes da Epic Collection da Marvel são um sonho tornado realidade é apontar para baixo. Tenho, religiosamente, estado a adquiri-los em detrimento de conta bancária e espaço nas prateleiras. Este é o segundo volume a sair dos Vingadores (e 17.º na coleção) e compila um conjunto de histórias que penso já ter lido mas, como é também sabido, isto da idade é uma coisa complicada. Portanto, foi como se os tivesse visto pela primeira vez. O volume não só inclui a derradeiro conto do lendário conjunto de histórias da dupla Roger Stern / John Buscema, datada de finais da década de 80, como também um encontro entre duas equipas de Vingadores e ainda Emperor Doom, onde o vilão Dr. Destino finalmente consegue o seu intento: obviamente conquistar o mundo. Enquanto estas duas últimas histórias têm mais o sabor de nostalgia e papel velho, ou seja, a sua qualidade deve mais à memória agradável de criança do que à complexidade da história, o final da run dos dois artistas citados é o contrário e vale, sozinha, o preço de admissão deste volume. Os Vingadores vêem-se envolvidos num confronto com os míticos deuses gregos do Olimpo, por via dos ferimentos incorridos por Hércules, filho de Zeus, na sequência de uma das mais conhecidas histórias da dupla Stern/Buscema: O Cerco da Mansão (os fãs de BD sabem do que falo e os outros têm mais é que ir descobrir porque vale mesmo a pena). Um grande volume nesta grande coleção.

Daredevil by Mark Waid vol. 7 de Mark Waid e Chris Samnee

Continua a maravilha que é este regresso do Demolidor às suas origens mais super-heroísticas e positivas, depois de anos no abismo negro da depressão (com qualidade, claro) de Bendis, Brubaker e Diggle . Obviamente que estamos a falar de positivo do ponto de vista dos super-heróis e, especificamente, do Demolidor, porque o que seria de uma boa história deste personagem sem uma grande dose de drama? Contudo, pelas habilidosas mãos e imaginação de Waid raramente o ambiente mergulha na negritude opressiva dos esforços anteriores que referi. Ainda que um dos amigos do personagem esteja a atravessar uma das mais complicadas fases da sua vida, é tudo escrito de forma leve, divertida e verdadeiramente empolgante. À festa só ajuda o traço quase cartoonesco de Samnee, contribuindo para uma atmosfera de perigo com sabor a década de 70, quando a BD dos EUA não tinha sido contaminada pelo poderoso elixir da maturidade e complexidade intelectual (não que haja nada de mal com isso, já o diria Senfeld). Este sétimo volume representa um salto quântico de qualidade face ao anterior sexto, que soube a paragem para descontração – mas não a da boa descontração. Mal posso esperar pelo oitavo já que parece que o personagem decidiu mudar de ares.

The Unwritten: Fables de Mike Carey e Peter Gross com colaboração de Bill Willingham e Mark Buckingham


E por falar em paragens para descontração, o que é que aconteceu com Unwritten neste volume? Desde que Karen Berger, a mítica chefe da editora Vertigo (pertencente à todo-poderosa DC Comics), saiu da “marca” que ajudou a criar que a qualidade tem estado também a entregar os papéis de demissão. Espero que seja, obviamente, apenas um período de adaptação aos novos ares. Primeiro que tudo, este novo volume de Unwritten representa uma enorme novidade na Vertigo: a junção de dois títulos de autores diferentes. É verdade que, anteriormente, podíamos falar de outras, como Swamp Thing, Constantine e Sandman, mas os tempos eram diferentes. Apesar de na história do personagem principal de Unwritten, Tommy Taylor, esta junção fazer algum sentido, não deixa de ter um sabor a “dêem-me cá o vosso dinheirinho”. Não que eu necessitasse de qualquer tipo de incentivo desta natureza já que acompanho os dois títulos. Segundo, e aqui é o mais importante, o esforço não sai com muita qualidade. Existem momentos verdadeiramente bons, ou não estivéssemos a falar de quatro autores do melhor que a BD tem para oferecer, mas ainda assim, na maior parte, o resultado é apressado e pouco inspirado. Qualquer um dos títulos mereceria algo mais, algo mais significativo, para justificar esta união. É pena, parece uma oportunidade perdida, ainda que fosse uma oportunidade que, provavelmente, não era necessária.

Rapidinhas de BD - Spider-Man - Family Business e X-Men - No More Humans

A Marvel, famosa editora de BD dos EUA, tem se imiscuído pelos caminhos da BD franco-belga ao publicar  histórias originais fora do formato comics, ou seja, do da pequena revista mensal de 22 páginas.  Apesar de este ser O formato por excelência nos EUA, a tradição, é também tradicional experimentar, inovar, não estagnar. Assim, a editora tem lançado regularmente histórias com mais páginas, finitas e contidas, protagonizadas por um personagem ou grupo de personagens do seu enorme catálogo. Os primeiros foram os Vingadores (que já foquei aqui) e agora seguiram-se outros dois dos mais conhecidos: Homem-Aranha e X-Men.

Spider-Man - Family Business de Mark Waid, James Robinson e Gabrielle Del'Otto

O grande chamariz para esta história era a descoberta de uma irmã perdida de Peter Parker, o alter-ego do Homem-Aranha. Esta descoberta leva o famoso personagem a envolver-se num enredo típico de James Bond, com a participação do Rei do Crime, famoso arqui-inimigo do Demolidor mas originalmente do trepador-de-paredes, e ainda dos seus falecidos pais (e que continuam falecidos nesta história). Infelizmente, este livro é muito pouco mais que isso mesmo.  Um chamariz interessante mas cujo sumo é sem-saborão, valendo por pouco mais que os desenhos do italiano Del'Otto. Provavelmente terá a ver por este ser um ambiente pouco apropriado para o Homem-Aranha, mas faço mais parte da escola que não são os personagens que são fracos, antes são os artistas que produzem a história. Tratando-se de Waid e Robinson, dois excelentes escritores de BD com muitas provas dadas, esperar-se-ia muito mais que lugares comuns e um desenvolvimento de enredo que oferece pouca surpresa.  Mesmo a irmã de Peter é pouco mais desenvolvida do que a descrição que temos nas sinopses desta história, tendo pouco mais espessura que aquela do papel onde nos é apresentada.  Prometem um terremoto no universo do personagem. O que nos entregam é um chocalhar. 

X-Men - No More Humans de Mike Carey e Salvador Larroca

Aqui a coisa já pia de forma diferente. O conceito apesar de ser grandiloqüente como o anterior é mais apropriado aos mutantes mais famosos da Marvel: de um dia para o outro todos os homo sapiens desaparecem da Terra. Sobram apenas os mutantes. O responsável é um dos mais recentes e interessantes vilões da galeria de excelentes inimigos dos X-Men, mas este evento coloca a comunidade num dilema moral óbvio: estamos melhor? Deveremos fazer algo para evitar? Em suma, deveremos defender o sonho de coexistência pacífica entre homo sapiens e homo superior idealizado pelo Gandhi mutante, o falecido Charles Xavier, ou deveremos aproveitar a oportunidade e viver o resto das nossas vidas sem a constante perseguição e racismo? Estas perguntas tem várias respostas, dependendo do personagem que estamos a falar. Este problema filosófico é, contudo, servido com muita ação típica de super-heróis, conceitos e situações maiores que a vida, ou seja, toda a receita apropriada. Quer Carey, o escritor, quer Larroca, o desenhista, não são novatos a lidar com os X-Men e aproveitam-se bem do atual status quo dos personagem, a cisão entre Ciclope e Wolverine,  para construir uma história muito divertida e envolvente, que se lê com rapidez e ansiedade.  Muito recomendável para fãs e não só.

Rapidinhas de BD - The Unwritten vol. 8, Orpheus and the Underworld e Daredevil by Mark Waid vol. 6

The Unwritten vol. 8, Orpheus and the Underworld de Mike Carey e Peter Gross

Hoje tenho duas BD que estão longe de ser novas. Já aqui vos falei várias e repetidas vezes (cliquem para ler: The Unwritten; Daredevil de Mark Waid). Uma e mais vezes não vai fazer mal nenhum.

The Unwritten, da imaginação e Mike Carey e Peter Gross, publicada pela lendária editora Vertigo, é um dos momentos mais aguardados quando sei que fica disponível um novo volume a colecionar os fascículos individuais da saga. Apesar disso, o anterior, The Wound, tinha deixado um amargo de boca, ficando aquém das expectativas. O mesmo não se pode dizer deste último, cuja narrativa é mais escorreita e direta, aludindo de forma bastante direta a um dos mais emblemáticos mitos da antiguidade grega, o de Orfeu e Eurídice. Contudo, para efeito da macro-história que está a ser contada, esse mito engrena-se de forma plural na narrativa deste 8.º volume. Se, por um lado, é feita alusão à jornada aos Infernos e à tentativa de regresso, tendo por motivo o Amor entre os protagonistas, por outro lado, a história sobre as histórias, que é o âmago deste Unwritten, avança sem soluços. São, inclusive, feitos passos para a conclusão de vários enigmas e enredos que estavam suspensos desde o início da saga. Ao mesmo tempo, na última página do volume (spoilers daqui para a frente), temos o primeiro crossover entre dois livros da editora Vertigo (com Fables).

Daredevil de Mark Waid vol. 6


Mark Waid continua em excelente forma, desviando o Demolidor da matriz que o caracterizou de forma praticamente uniforme desde que Frank Miller o escreveu na década de 80. O Demolidor negro, urbano-depressivo, realista, produto do mundo onde vivia. A escrita do Demolidor de Waid aproxima-se mais do molde super-heroístico leve, por exemplo do Homem-Aranha, mas sem confundir-se com esse ícone maior da Marvel. Este Demolidor é divertido mas também tem um lado sombrio. Gosta de ser super-herói sem, contudo, estar afastado das consequências. Há pathos mas há humor também. E as histórias que o escritor escolhe são afastadas das diferentes iterações de crime e ninjas que, uma vez mais, caracterizaram o personagem nas mãos de Miller, Bendis, Brubaker e Diggle, por exemplo. Neste volume envolve-se com o Surfista Prateado na busca de criminoso intergaláctico, ao mesmo tempo que entra como advogado de defesa na batalha jurídica do homem que, na sua infância, lhe deu o epiteto de Demolidor. Um pouco de leveza é sempre necessária.

Super-Homem, o mito


Dizem que o tempo é o melhor dos juízes. Que a História é o teste final à longevidade e à relevância. Pelo menos assim o esperam George W. Bush e Miguel Relvas.
O século XX foi pródigo no milagre da multiplicação. As Artes nunca viram tanta quantidade de novos livros, novos personagens, novos poemas, novas ilustrações, novas músicas. Propagaram-se como vírus, influenciando-se mutuamente, disseminando-se à velocidade da democracia, da liberdade de expressão e da tecnologia, a um nível inaudito na História da humanidade. Este século foi palco não só do nascimento mas também da disseminação de novas formas de Arte, dentre as quais também a Banda Desenhada. Nesta, um dos seus mais famosos e perenes filhos é o Super-Homem.
Todos já ouvimos falar do nome, todos temos uma ideia do que ele é capaz, de quem é, de onde veio e do que representa. De uma forma mais ou menos definida conceptualizámos que se trata de um homem puro, bom, um ideal a atingir. O verdadeiro e arquetípico super-herói. Por vezes, a imagem que construímos acabou, com o passar das décadas, por funcionar em detrimento da sua relevância. Consideramo-lo bacoco, antiquado, canastrão. Por causa da sua percebida simplicidade ideológica, uma inocência não tanto infantil mas comportamental, colocamo-lo de lado como algo simplório, intelectualmente pouco mais estimulante que as revistas cor-de-rosa.
O Super-Homem nasceu numa altura, pouco antes da segunda guerra mundial e na América do pós-depressão, em que eram necessários modelos de sobriedade e pureza, em que se acreditava nas instituições democráticas e governamentais. Anos mais tarde, a América e o mundo após as décadas de 60 e 70 deixaram de ver os seus representantes e, por conseguinte, figuras tendencialmente paternais como o Super-Homem, de forma positiva. O mundo não era taxativamente preto e branco, movimentava-se antes numa paleta de cores diversa e complexa, desatualizando figuras como o Homem de Aço. Mas, por detrás dessa imagem, está um dos mais interessantes e expressivos mitos a surgir do espírito americano.
O que poucos se apercebem – nem mesmo muitos americanos - é que o Super-Homem é os EUA tomando forma quase divina. Não tanto pelo lado das listas vermelhas e das estrelas azuis, do patriotismo, mas antes pelo espírito de democracia, de mundo novo e de liberdade individual. Joe Siegel e Joe Shuster, ambos judeus, criaram a figura de um moderno Messias, mas também a do derradeiro imigrante. Super-Homem, ou Kal-El, como é conhecido no seu planeta natal, Krypton (repararam que o sufixo – el aparece também no nome de muitos anjos?), chega às pradarias do Kansas, à América profunda e rural, é criado por um casal simples, sal da terra, e alimentado com os valores puros do trabalho agrícola. Clark Kent, o nome de batismo “terrestre”, é a sua verdadeira identidade, não aquela do sofisticado imigrante vindo de outro planeta, este asséptico e ultra-desenvolvido. O Super-Homem representa a base sobre a qual todo o povo americano foi crescendo (não esquecer que alien em inglês, tem duplo significado: imigrante e alienígena). Vem de outro mundo, nascido com outro nome, rebatizado e renascido em solo americano.
Muitos foram os autores que redesenharam o Super-Homem, mas nunca esquecendo a essência do personagem. Agarram e desenvolveram décadas de histórias acumuladas e criaram algo de novo mas, ao mesmo tempo, nostálgico. Sou da opinião que apenas os personagens verdadeiramente intemporais conseguem sobreviver a sucessivas reinterpretações. O Super-Homem é um deles.
No futuro próximo descrito na BD Kingdom Come, de Mark Waid e Alex Ross, o Super-Homem submete-se ao exílio autoinfligido e decide regressar ao simples trabalho da quinta de seus pais, numa alusão aos valores basilares do personagem. Quando, numa história escrita por Joe Kelly, um inimigo do Homem de Aço extrai, da mente do personagem, a imagem que associa a si mesmo, não é a de Kal-El que aparece, nem a do uniforme de capa vermelha, mas antes a de um Clark Kent camponês. Para estes autores, o Super-Homem é o Levin americano, personagem da Anna Karenina de Tolstoi, que amava o trabalho agrícola, participando, apesar de latifundiário, na labuta diária.

John Byrne, escritor e desenhista de BD, foi um dos muitos que reinventaram o personagem. Em 1986, a editora decide atualizar a mitologia do Homem de Aço, e este autor acabou por fazer mais do que simples operações cosméticas. Deu uma nova vida e adaptou o mito, nunca se esquecendo dos fundamentos. É dele a ideia que a herança terrestre do Super-Homem é mais importante que a alienígena, que Clark Kent é mais importante que Kal-El.
Byrne transformou também Lex Luthor, o mais importante dos antagonistas de Super-Homem, transformando o super-vilão com visões grandiloquentes de conquista mundial num CEO de uma megacorporação de âmbito internacional, um filantropo aos olhos da opinião pública, um sociopata egocêntrico na realidade. E o Super-Homem, um ser quase divino capaz de extremos atos de altruísmo, representava tudo aquilo que ele não conseguia ser. A complexidade psicológica da motivação por detrás do vilão deixava de ser a clássica.
O escocês Grant Morrison é um dos melhores escritores do Homem de Aço. São múltiplas as interpretações que fez do personagem, não só revelando o amor que nutre pelo mesmo como também a intemporalidade que aqui tenho vindo a mencionar. Falemos primeiro da mais recente das histórias de Morrison. Em 2011 recupera uma variante quase marxista do mito, defensor dos trabalhadores oprimidos pelo capital. Na realidade, Morrison reinterpretou-o, adaptando-o ao zeitgeist internacional e recuperando alguma das suas roupagens originais. Neste início do século XXI, o Super-Homem, o maior dos super-heróis, só poderia estar do lado dos manifestantes de 15 de Setembro em Portugal, dos ativistas norte-americanos que invadiram Wall Street, dos grupos anti-troika que se proliferam em manifestações.
Ao contrário do lugar-comum que é associado ao personagem, a sua humanidade, a posição que ganhou como habitante da terra, os valores que adquiriu, são sempre as mais indeléveis das suas características. Independentemente da escala do conflito em que está envolvido, dos deuses que confronta, das batalhas cósmicas, no seu âmago, Super-Homem é Clark Kent, o rapaz criado no Kansas rural. Não há ponta de arrogância, de deslumbramento, e essa característica acaba por funcionar contra ele, levando a que muitos leitores interpretem a sua humildade como um valor inatingível e inumano. Mas, como Grant Morrison (outra vez ele) tão bem colocou no final de uma das suas homenagens, a saga DC One Million, “este homem que circum-navegou o universo, enfrentou deuses do mal, participou em batalhas que nem imaginamos, … este… ser… algumas coisas são difíceis de colocar em palavras…”. Enquanto o jovem Lanterna Verde diz estas palavras, vemos o semblante do Homem de Aço a piscar o olho ao leitor, num misto de humanidade, divindade e partilha. Este, sim, é o Super-Homem ou, pelo menos, o Super-Homem de que gosto.

O que vou lendo! / Ler sem Medo – Man of Steel de John Byrne e Birthright de Mark Waid (escritor) e Leinil Yu (desenhista)

Já aqui falei da estranha e complicada história(s) da origem do Super-Homem e do facto de existirem diferentes versões do mito nos seus 75 anos de vida. A DC Comics, editora que detém os direitos do personagem, já reiniciou o seu universo de super-heróis uma mão-cheia de vezes o que, consequentemente, possibilitou que diferentes autores dessem a sua versão “definitiva” da origem do personagem. Nem todas foram bem-sucedidas, mas estas duas são das mais conhecidas e também melhor conseguidas. São também versões muito diferentes não só nos factos que relatam como também na psicologia do Homem de Aço. Não falo da personalidade (essa é relativamente imutável), mas do pedigree. Enquanto John Byrne, no seu Man of Steel, considera a educação terrestre como a melhor parte do personagem (ou seja, o lado Clark kent), Mark Waid pende para a herança kryptoniana (o lado Kal-El) – pronto, já perdi todos os leitores que não leem muito BD. Calma. Não fujam!
Nunca tinha lido o Birthright de Waid e Yu, mas o recente filme do Homem de Aço (cujo argumento foi influenciado por este livro) e o que andei a escrever sobre o personagem, despoletaram a minha curiosidade sobre uma obra da qual apenas ouvia elogios.
Não eram desmerecidos! Waid ama o Super-Homem, o próprio é o primeiro a admitir, ao ponto de obsessão, ao ponto da devoção. E isso nota-se em cada frase do livro, em cada diálogo, em cada cuidado com a reinterpretação do mito. E, tal como um outro leitor afirmou, Waid tem o dom de contar uma história conhecida, lida e desconstruída um milhão de vezes e fazê-la parecer fresca e inovadora. Para isso não só incide o seu foco no essencial, o Super-Homem, claro, mas também num dos revezes da medalha mais perniciosos da mitologia… Lex Luthor, o arquinimigo. A dicotomia quase complementar entre estas duas figuras maiores que a vida é clara, nas diferenças e nas similaridades, no que cada um consegue fazer com o que vida lhes trouxe de melhor e de pior. São eles a dupla alma de Birthright.
Além disso, Waid ainda tem tempo para introduzir pormenores deliciosos como o facto de o Super-Homem poder ver a aura de cada ser vivo, um caleidoscópio luminoso que distingue e individualiza cada um à face da terra. Forçosamente torna-se vegetariano.
The Man of Steel é a versão do Super-Homem de muitas gerações, inclusive a minha. Byrne foi a superestrela incumbida de reformatar o maior ícone da BD americana. O ano era 1986, logo a seguir à série Crise nas Infinitas Terras (que sai em português pela Levoir-Publico nas próximas duas quintas-feiras), e esta reinterpretação estava longe de ser o personagem familiar de quem o tinha acompanhado nas cinco décadas anteriores. Já não era o deus todo-poderoso e omnisciente capaz de carregar planetas e galáxias inteiras (literalmente) às costas, o seu Clark Kent não era o trapalhão imortalizado por Christopher Reeve em filme. Lex Luthor deixou de ser um mero super-vilão, para crescer no papel de um CEO híper-inteligente, cidadão adorado pela maioria e odiado pelos que conheciam a sua verdadeira face, a de um sociopata egocêntrico e genocida. E, como já referi, este Super-Homem dava mais importância ao Homem e menos ao Super. Esta foi a versão que subsistiu nos últimos 25 anos até ser (parcialmente) substituída pela de Waid.
Qualquer pessoa que queira se iniciar nas leituras do Homem de Aço pode fazê-lo através destas duas magníficas obras, símbolos que atestam à perenidade de uma das mais importantes mitologias do século XX.