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Wonder Woman Earth One vol. 2 de Grant Morrison e Yanick Paquette

Passaram-se dois anos desde a primeira parte da prometida trilogia escrita por Grant Morrison e desenhada por Yanick Paquette protagonizada por Diana, Princesa de Themyscira, a Mulher-Maravilha. Trata-se de uma nova interpretação da conhecida personagem da DC Comics, passada numa realidade paralela à linha normal da editora, com o objectivo de ser acessível ao público em geral, sem descurar uma visão autoral para leitores tendencialmente mais sofisticados. 

Colecção Liga da Justiça da Levoir, vol. 1: Nova Ordem Mundial de Grant Morrison e Howard Porter

(podem também ler este post onde já faziamos uma pequena resenha sobre esta versão da Liga da Justiça)

Aproveitando o lançamento do filme homónimo, a editora Levoir irá publicar uma colecção de cinco volumes deste grupo de super-heróis entre o dia 9 de Novembro e 7 de Dezembro. Aqui no Acho que Acho, porque adoramos a DC e a Liga, queremos que vocês não se sintam perdidos na História, Cosmologia e Cosmogonia da editora. Por isso, vamos tentar dar-vos um pequeno Travel Guide. A Lonely Planet que se roa.


A Liga Justiça da América é a união dos maiores personagens da BD dos EUA. Quando foi criada em 1960 no número 28 da revista Brave and The Bold da DC Comics, reunia sete dos mais relevantes nomes dessa editora: Super-Homem; Batman; Mulher-Maravilha; Aquaman; Flash, Lanterna Verde e Caçador de Marte. Os dois primeiros, os mais relevantes e conhecidos, nem sempre fariam parte das aventuras da Liga nos seus primeiros anos mas, ao longo do tempo,  foram estando mais e mais presentes. Também à medida que os anos passaram, o número de membros foi aumentando até transformar-se num verdadeiro exército, o maior e mais poderoso do universo da 9.ª Arte. 

Muitas foram as iterações desta equipa, com algumas das mais conhecidas e apreciadas a serem desvios da formação inicial dos Big 7. Uma acontece depois da famosa saga Crise nas Terras Infinitas (quando a DC decidiu recomeçar o seu universo de super-heróis do zero), em que os autores Keith Giffen, J.M.DeMatteis e Kevin Maguire, ao não conseguir "brincar" com os principais personagens da Liga, invertem para uma abordagem ao estilo sitcom que parecia arriscada mas que transformou-se numa das mais memoráveis sequências de histórias desta equipa de super-heróis. Qualquer coisa como cinco anos depois a DC decide voltar ao ritmo habitual mas sem o sucesso quer da versão humorística quer da saudosa que reunia os Big 7 e outros.

Em 1997, quando a Liga estava num ciclo descendente de qualidade e vendas, surge o escritor escocês Grant Morrison, que a DC já tinha publicado na imprint adulta Vertigo. A sua abordagem era um misto de regresso às origens e do injectar de sensibilidades modernas. Do lado das origens, Morrison mina a sua adorada Idade da Prata (o período da BD dos EUA que vai da década de 60 até início da de 70), onde as histórias eram deliciosamente escabrosas. Da modernidade, buscaria a sua própria sensibilidade carnavalesca, maior que a vida, operática, na tangente do teatral, para orquestrar sagas que ficariam para a História da Liga. As ameaças que a equipa tinha de enfrentar eram ridiculamente macro-cósmicas e multiuniversais. Deuses eram apontamentos nas vidas destes super-heróis. Convenhamos: quando Morrison consegue, pela primeira vez em muitos anos, voltar a reunir os Big 7, que mais poderia-se-ia esperar? Só podíamos ter adversários que apenas o Super-Homem, o Batman, a Mulher-Maravilha, o Aquaman, o Flash, o Lanterna Verde e o Caçador de Marte tinham capacidade de derrotar.

Os menos versados na História da DC poderão entrar nestas aventuras e não conhecer certas caras. Claro que sabem quem é o Super-Homem, o Batman e a Mulher-Maravilha. Eles são o Clark Kent/Kal-El, o Bruce Wayne e a Diana que todos conhecem. O Aquaman continua a ser Arthur Curry, filho de mãe atlanteana e pai humano, rei da Atlântida e do maior país do mundo, o dos sete mares. À altura desta BD, era escrito por Peter David, que decidiu cortar-lhe a mão e substituí-la por um arpão e que, acima de tudo, transformou-o num rei decidido e duro.  Mas o Flash não é Barry Allen mas antes Wally West, o parceiro que, após a morte do mentor na Crise nas Terras Infinitas, deixa cair a sua identidade de Kid Flash para se transformar no maior velocista do universo da DC. O Lanterna também não é Hal Jordan mas Kyle Rayner. Hal havia invertido para o lado do mal e Kyle era agora o único ser no universo a usar o famoso anel verde - ou, como Morrison o chamaria nesta Liga, a mais poderosa máquinas de desejos do mundo. O Caçador de Marte continua a ser o mesmo mas poucos, fora dos fãs da DC, o conhecem. É o ultimo sobrevivente do planeta Marte, possuidor da maior variedade de poderes de qualquer personagem da DC; voo; invulnerabilidade; intangibilidade; telepatia; metamorfose; super-força; visão marciana. Tudo isto e apenas uma franqueza: o fogo. O Super-Homem considera-o um dos poucos capaz de o derrotar no corpo a corpo e o Batman respeita-o pela sua inteligência, capacidade estratega e por corporizar "o verdadeiro espírito da Liga" (foi membro de todas as suas iterações).

Este volume colecciona alguns dos primeiros números da Liga de Grant Morrison e Howard Porter. Numa das histórias enfrentam o Hiperclã, uma misteriosa equipa de super-heróis disposta a corrigir os problemas do mundo e a tornar a Liga obsoleta. Na outra, a escala de ameaça sobe e confrontam nada mais nada menos que os anjos da mitologia cristã. Nesta última, os leitores vão ser confrontados com uma versão bem diferente do Super-Homem: um Homem de Aço eléctrico. Mérito seja feito a Morrison que consegue fazer limonada com o mais azedo dos limões, ao aproveitar esta estranha evolução e extrair não um mas dois dos momentos mais antológicos da vida do último sobrevivente de Krypton.

O trabalho de Morrison e de Porter continuaria por mais anos com sagas como Rock of Ages, DC One Million ou World War III e, na opinião deste vosso bloguista, ambos entregariam as maiores e mais relevantes aventuras da História da Liga da Justiça. É rezar para que o resto seja editado cá por terras Lusas. Tudo depende de vocês.

Seguem em baixo previews.




Grant Morrison: Teatro na BD (primeira parte)

(este artigo contem spoilers ao trabalho de Morrison em Animal Man, Kingdom, Final Crisis, Superman Beyond, e a histórias como Infinite Crisis, 52)

Começa com o homem que copia animais

Uma das imagens mais emblemáticas do trabalho de Grant Morrison em Animal Man (1988-1990) é a da personagem principal, Buddy Baker/Animal Man, a virar-se para o público, num close-up de página inteira do seu rosto, e a proferir as palavras "Eu consigo ver-vos!". A ideia não era nova mas na BD de super-heróis foi, à altura, surpreendente. A personagem descobria fazer parte de uma história impressa numa revista a duas dimensões. A quarta parede era quebrada de forma bem sonora. 

O local onde Buddy o descobre era, também em si, estranho: um Limbo do universo da DC Comics, uma dimensão para onde Morrison imaginava gravitarem os personagens esquecidos da editora. 
A mega-saga Crise nas Terras Infinitas (1985-1986) era recente na memória e Morrison, acabado de chegar à DC, decidiu, ainda assim, homenagear as triliões de vidas (ficcionais) ceifadas nesse evento. A Crise fora utilizada pela DC para "limpar a casa" e transformar a confusão pluri-universal (o Multiverso) num único e simples universo, fácil de entender para os potenciais novos leitores. Milhões de universos morreriam e triliões de vidas extinguir-se-iam. Pior. Nunca existiram.

Apaixonado pela Idade de Prata da DC (histórias de finais da década de 50, década de 60 e princípios da de 70), Morrison decide homenageá-la numa elegia meta-textual. Buddy Baker passava a conhecer a Verdade: as suas aventuras eram o resultado dos ditames editoriais e do totalitarismo de fãs que o liam mês após mês. O que tinha começado, no número cinco da revista, com uma versão do Will E. Coyote (o do Bip-Bip) a questionar Deus sobre a sua vida de sofrimento, acabava numa conversa com a verdadeira entidade divina na BD: o escritor. No final e num momento Deus Ex Machina, Morrison apaga todos os eventos catastróficos a que tinha sujeito a personagem, fechando a reflexão meta sobre a narração e o poder das histórias.

Desenganem-se se acham que o escritor ficar-se-ia pelas páginas do Homem-Animal. A história estava apenas a começar. Não quero afirmar que Morrison tinha um plano (é certo que não, já que era ainda muito novo no mundo da BD). Não falo de uma intenção consciente mas de uma temática transversal e autoral. São os tiques e as manias que acontecem de forma recorrente, como um leit motif numa ópera. Morrison faz parte dos autores que têm algo mais a dizer. Uma intenção. Um misto de inconsciência e crença. Pode não ser boa, podemos não gostar, mas ela existe.

O tempo que era hiper

No que respeita ao universo dos super-heróis da DC, Morrison parece construir uma cosmogonia muito própria e que tem sido abraçada, de forma mais ou menos relutante e mais ou menos consciente, pela editora. Depois de Animal Man, ele voltaria, anos mais tarde, ao universo convencional da DC com JLA, considerada por muitos como a interpretação definitiva da maior equipa de super-heróis do mundo ficcional da BD: a Liga da Justiça. Estas temáticas esotéricas não apareceriam nesta sequência de histórias mas dariam o ar da sua graça numa outra que Morrison ajudou a criar: Kingdom. Nesta, é dado o primeiro indício de uma ideia querida a ele e a outros escritores da editora, a de que todas as histórias da DC tinham de facto ocorrido, de que o multiverso não havia morrido na Crise. À altura chamaram-lhe Hipertempo. Pressupunha (e vou tentar ser simples) que existe uma linha temporal principal (imaginem o Tejo) e tributários e afluentes que entram e saem desse rio, ou que correm paralelamente a ele, influenciado o caudal com pequenas variações ou pura e simplesmente dando ar da sua graça, sem consequências de maior.

Esta ideia ficaria adormecida durante mais de uma década, com pequenas aparições em algumas histórias de uma ou outra personagem.



Uma e mais outra crise

O multiverso acabaria, finalmente, por regressar numa saga que nada tinha a ver com Morrison:  Infinite Crisis de Geoff Johns (2005-2006). Para além deste esperado regresso, Johns reintroduziu alguns personagens que os leitores DC não viam há 20 anos. Destacamos o que viria a ser conhecido como Superboy Prime. Esta versão jovem do Super-Homem era oriundo de uma Terra Paralela que existia antes da Crise nas Terras Infinitas chamada Terra-Prime. Esta versão do nosso mundo tinha uma peculiaridade: era mesmo o nosso mundo, aquele onde eu e tu e os escritores de BD da DC viviam. O Superboy Prime era o seu único super-herói, com os mesmos poderes do Homem de Aço e um conhecimento extra: era leitor assíduo das revistas da DC Comics publicadas na sua/nossa Terra. Geoff Johns transforma-o no vilão de Infinite Crisis e usa-o como comentário aos geeks da BD que a vivem e criticam de forma obsessiva. Não sendo uma criação de Morrison, Superboy-Prime partilha de algumas das suas (meta)manias. Voltarei a ele mais tarde.

Numa minissérie semanal que se seguiu chamada 52, era revelado que o multiverso era composto por 52 universos. À altura (2007) Morrison prometia explorá-los num trabalho futuro: chamar-se-ia Multiversity mas iria demorar nove anos a ficar completo. Antes teve tempo de escrever Final CrisisFinal Crisis era uma homenagem de Morrison à imaginação do Rei dos Comics, Jack Kirby, e às suas criações para o universo DC, principalmente os Novos Deuses e o maior adversário da tapeçaria da editora: Darkseid, o Deus Omega, O Aniquilador Definitivo. 

Numa minissérie paralela escrita por si e desenhada por Doug Mankhe, Superman Beyond, Morrison regressa aos conceitos que tinha introduzido em Animal Man, ao mesmo tempo que dava-nos alguns novos. Volta a visitar o limbo das personagens esquecidas (pelos leitores e escritores), mas desta vez com a sua favorita, o Super-Homem, que estaria predestinado a enfrentar, de acordo com esta narrativa, um mal absoluto, Mandrakk

Ao mesmo tempo, Morrison volta a visitar a noção de que o universo DC era criado/escrito num outro plano de existência (o nosso). Morrison liga esta Crise Final à Teoria-M da Física Quântica, que postula a possível existência de 11 dimensões (as nossas três, o tempo e mais sete - pelo menos é o que diz a wikipédia). Apesar da estranheza do conceito, interessa reter que qualquer universo pode ser a criação (e estar a ser lido) por um outro de dimensão superior. As nossas vidas podem ser as páginas de um livro. A ligação ao mundo da BD, lido em páginas coloridas, é óbvia. A noção de "quebrar a quarta parede" adquire uma nova interpretação. 

Uma curiosidade: esta BD era parcialmente lida em 3D, uma opção que era mais narrativa do que estética. O leitor e os personagens eram convidados a aceder a uma dimensão superior (a terceira) para conseguir ler a história.




Provavelmente já vos perdi mas existe ainda um outro conceito caro a este escritor e que é abordado, pela primeira vez, em Superman Beyond. Para Morrison as histórias são uma forma de acesso a uma dimensão superior, um reflexo de uma realidade além da percepção dos sentidos. Para acedermos a planos paralelos teremos de usar de linguagem nas suas diferentes formas, quer seja ela escrita ou cantada. Porque os universos são separados por diferentes vibrações, estes podem ser acedidos ao mudar o timbre de uma nota ou de uma canção.

O mal inominável que mencionei acima, o ser chamado Mandrakk, era também um Monitor Negro. Os Monitores são seres mais do que divinos que observam e preservam a realidade, a que chamam Orrery. Esta é uma estrutura metafísica que, segundo Morrison, alberga o Multiverso da DC. O opositor de Mandrakk era, acima de tudo, o super-herói original, o Super-Homem, mas também Nix Uotan, um jovem Monitor que, no final da Final Crisis, seria o último sobrevivente da sua espécie e subsequentemente exilado.

(to be continued eram as palavras no final de Superman Beyond, as que o Super-Homem escolheria para escrever no seu epitáfio. E são também as minhas até o próximo post sobre este assunto que só a mim interessa)

Colecção Mulher-Maravilha Levoir/Público - 1.º volume: Terra Um de Grant Morrison e Yannick Paquette

Antes de passar ao press-release da Levoir, queríamos aqui no Acho que Acho dizer umas coisinhas.

Desde que a Editora Abril, em 1987 (sim, há 30 anos atrás), publicou a Mulher-Maravilha de George Pérez, que sou um fã incondicional da personagem - é a minha favorita da BD e, quem sabe, da Literatura (perdoem os excessos de paixão). O primeiro contacto, contudo, tinha acontecido algures no início da década de 80, no Super-Homem vs Mulher-Maravilha da EBAL, comprado e lido na Ericeira, publicado num formato grande, com escrita de Gerry Conway e desenho de José Luís Garcia-Lopez.

É, portanto, fabuloso, ver editadas, finalmente, em português do nosso Portugal, algumas das histórias mais relevantes da Princesa Diana de Temiscira (como é conhecida pelos fãs e, em breve, por vocês).

Mas esta colecção tem outro ponto que é, para este blog, motivo de honra. Houve quem achasse que achasse que teria alguma coisa de interessante a dizer sobre a personagem e, vai daí, convidou-me para escrever a intro desde volume (e não só). Escusado será dizer que (depois de saltar de alegria e essas coisas menos dignas) aceitei. 

Espero ter feito jus à personagem porque ela merece.

(já agora, podem clicar neste link para ler o que escrevi sobre este volume quando ele saiu no original).



A Levoir junto com o Público celebra os 75 Anos da Mulher-Maravilha com o lançamento de uma colecção, um concurso de ilustração e um passatempo para os seguidores de Facebook para assistir à antestreia do filme dedicado a esta heroína em colaboração com a Warner Bros. Portugal-NOS Audiovisuais.

"Mulher-Maravilha" é a nova colecção da Levoir em conjunto com o jornal Público que sai em banca a 25 de Maio. É uma edição de coleccionador composta por 5 volumes (livros em capa dura ) que incluirá prefácios e materiais extra, uma introdução à história da personagem e cronologia detalhada.

Por 11,90€, os leitores podem conhecer a história da Princesa Diana de Temiscira, a Mulher-Maravilha. Diana vive na Ilha Paraíso, com a sua mãe a rainha Hipólita. Durante milénios as amazonas habitantes da ilha contruíram uma próspera sociedade longe da maligna influência dos homens.  Mas a jovem Diana não está satisfeita com sua vida reclusa, sabe que há mais mundo para além da ilha e resolve explorá-lo mesmo que tenha de ir contra os desejos de sua mãe e esta não concorde com os seus planos.

Escrita por Grant Morrison e ilustrada por Yanick Paquette chega a mais provocativa das origens da Mulher-Maravilha – uma leitura sem igual que honra a rica história da personagem!

Os livros da colecção são:

Volume 1 - Mulher-Maravilha: Terra Um – Argumento Grant Morrison, desenhos Yanick Paquette
Volume 2 – Mulher-Maravilha: Um por Todos – Argumento e desenhos Christopher Moeler
Volume 3 - Mulher-Maravilha:  A Hiketeia – Argumento Greg Rucka, desenhos J. G. Jones
Volume 4 - Mulher-Maravilha: Homens e Deuses - Argumento Len Wein, desenhos George Pérez
Volume 5 – Deuses de Gotham - Argumento Phil Jiménez e J. M. De Matteis,  desenhos Phil Jiménez

O primeiro volume da colecção incluirá a oferta dum postal com a imagem oficial do filme da Mulher-Maravilha com a colaboração da "Warner Bros. Portugal e NOS Audiovisuais"

Sabias que: Durante dois meses a Mulher-Maravilha foi Embaixatriz das Nações Unidas?  E que o português Miguel Mendonça desenhou a Mulher-Maravilha durante a fase final da linha Novos 52 escrita por Meredith Finch?





Libertem o Geek! JLA de Grant Morrison e Howard Porter Deluxe Editon Vol. 1

Quando escolhem o vosso herói preferem os que fazem justiça pelas próprias mãos, os vigilantes, aqueles que não esperam pela mão da lei? Ou preferem os que inspiram à bondade, os que não nos carregam no caminho mas antes dão a mão quando tropeçamos? Estas duas perguntas não vêm com truques. Podem escolher ou uma ou outra. Podem mesmo achar que as perguntas não são estas. Até podem decidir escolher as duas - o que do ponto de vista da consistência talvez seja questionável. No que a mim diz respeito tenho preferência pelos segundos. 

Os heróis que regem-se por princípios morais elevados são considerados uni-dimensionais, aborrecidos. Para muitos não interessa ler ou ver aqueles que aparentam não possuir falhas. O meu segredo está em ter a certeza que apenas aparentam ser assim e que tentam todos os dias ser a imagem que lhes construíram à volta. Não por eles. Pelos outros. Para que a Humanidade não caia. Aqui não faço mais que parafrasear um diálogo do Super-Homem no fim da primeira história de Grant Morrison e Howard Porter, quando iniciaram um dos mais memoráveis conjunto de histórias (chamemos-lhe run) da Liga da JustiçaRun esta que é uma das minhas BD's favoritas de sempre.

A Liga da Justiça é a equipa de super-heróis por excelência. Nela estão reunidos os maiores arquétipos da mitologia: Super-Homem; Mulher-Maravilha; Batman; Flash; Lanterna Verde; Aquaman; Caçador de Marte. Contudo, em 1997 (sim, já passaram 20 anos), esta assembleia olímpica fazia décadas que não se reunia sob o mesmo título. Por esta ou por aquela razão a DC Comics tinha escolhido outras combinações de personagens para as várias iterações da Liga. Grant Morrison decidiu pôr um fim a essa dieta e sonhou grande. Iria (literalmente) brincar com os maiores, melhores e mais conhecidos brinquedos da sala de jogos da editora. Assim nasceu JLA (acrónimo para Justice League of America). Seguir-se-iam das mais inesquecíveis histórias com este emblemático panteão de semi-deuses, alienígenas, deuses-morcego, velocistas. Em cada aventura, a escala de ameaça subia a um nível que era, julgávamos nós, pobres mortais, intransponível.  Eram Marcianos Brancos, eram cientistas loucos com o poder de criar corpos e cérebros artificias tão perfeitos que simulavam vida, eram anjos (os verdadeiros, os que expulsaram-nos do paraíso) e eram vilões cujas drogas expandiam a mente para lá dos limites do universo. Tudo isto apenas neste primeiro volume, o que colecciona os primeiros oito números da revista e um especial.

Mas desenganem-se os que acham a minha admiração pelo trabalho de Morrison e Porter pouco mais que deslumbramento ao ver representadas em papel as aventuras de tão ilustre reunião de personagens. O enredo é operático, rápido, como se tudo se passasse no espaço de três segundos e as decisões fossem relógios loucamente oleados (leiam o fim do terceiro capítulo e a transição para o quarto).  Os inimigos não vivem no cinzento da ambiguidade moral, são profundamente negros e tenebrosos. As frases são tão citáveis que torna-se ridículo enumerá-las todas. As "aventuras", os "contos", são ao mesmo tempo entretenimento deliciosamente pop e reflexões sobre a natureza do herói (achavam que o primeiro parágrafo deste post era só meu?).

Este primeiro volume da Deluxe Edition (a única que vale a pena comprar e ler - é como ir ver um filme à sala de cinema) tem uma coleção deliciosa de grandes momentos que tocaram e ainda tocam todas as notas certas neste fã: Super-Homem enfrenta um anjo; uma carruagem angélica encontra o poder da Mulher-Maravilha; quatro marcianos são cilindrados pelo humano Batman; Flash enfrenta outro velocista chamado Zum; Hitman vê a Mulher-Maravilha nua e já pode morrer feliz (só lido); a gramática impecável da Mulher-Maravilha; o Super-Homem sublinha que o Batman é o homem mais perigoso da Terra; o brinde aos bons velhos tempos; etc. 

Tenho a plena noção que o trabalho de Morrison e Porter na JLA é insular, que é necessário gostar de super-heróis em geral e dos da DC em particular. Contudo, se eu não posso, neste blog, falar daquilo que, verdadeiramente, me dá prazer, então falo onde? Portanto, para quando a edição completa destes contos em português de Portugal? 

Libertem o Geek! - As Crises Infinitas!


(para o Gonçalo e o Vasco, que percebem o porquê deste post)

Um amigo que, como eu, é fã do universo de super-heróis da DC Comics disse-me uma vez e parafraseio: "parecem estar a repetir sempre as mesmas histórias, mas a gente gosta!".  Achei lindo, naquela forma que apenas os fãs podem achar lindo. Aqueles que adoram certas coisas de forma irrepreensível. Não falo de saber todo e qualquer pormenor do multiverso da DC (se sabem o que é o multiverso da DC parece-me, contudo, que estão no bom caminho). Não falo de coleccionar todas as revistas, de possuir saber enciclopédico sobre os heróis, os vilões e a geografia - ainda que possa ajudar. Falo, como sempre quando refiro estas paixões, de gosto e de amor. De estarem a borrifar-se para quem não aprecia, de ficarem entusiasmados de forma infantil, juvenil, imatura (como quiserem), com um desenvolvimento de uma história, com o aparecimento inesperado de um personagem que amávamos e estava fora de cena há muito tempo. Mas também é ficar irritado quando algo que se adora já não tem o mesmo lustro, está chato e aborrecido. Pode também ser esperar ansiosamente pela estreia do Batman v Superman, mal conseguir aguentar a estreia da Wonder Woman em 2017 e ficar entusiasmado com a sequela do Man of Steel do Zack Snyder.

Recentemente, essa nossa editora favorita decidiu renascer. Chamou-lhe, de forma pouco imaginativa (ou será pós-moderna?), Rebirth e, numa revista escrita pelo grande Geoff Johns e chamada de DC Rebirth, devolveu aos fãs (ou começou a devolver) o universo de que tinham saudades. Já existiam pistas no Multiversity de Grant Morrison e na Justice League: Darkseid War também de Johns, mas é neste Rebirth que a editora assume o "erro". Erro porque esta história de Johns é um pedido de desculpa pelos mais recentes anos da DC mas também algo mais meta-textual: uma reflexão sobre o mundo dos super-heróis dos EUA pós-Watchmen, a seminal obra de Alan Moore e Dave Gibbons.  Mas não é sobre isto que vos queria falar.

Desde 1986 que a editora repete a mesma história de forma cíclica e gere as expectativas dos seus leitores de maneira quase cruel. Nesse ano fundiu o seu multiverso num único mundo na conclusão da Crise nas Terras Infinitas e este evento parece, desde então, reger todos os outros. O que, a nosso ver (sim, o dos fãs), é lindo e pode acontecer quantas vezes a editora quiser. Foi a Crise Infinita, a Infinita Crise, a Crise Final, o Hipertempo, o 52, a Multiversidade, agora o Renascimento. Iterações do mesmo conceito, teases de quem sabe que basta vestir uma lingerie comprada na loja dos trezentos para nos fazer salivar litradas.  Mas no meio de tanto entretenimento pop existe também algo mais profundo - pelo menos para nós. Uma hiper-história que começou em 1938 com a publicação do Super-Homem, que foi evoluindo num misto de atabalhoado, orgânico e ...vejam lá bem... pensado. Que continua a crescer e a acrescentar camadas cada vez mais ricas,  ao ponto de parecer estar criado um universo (um multiverso) que ...nós temos a certeza... vive lá fora algures, separado pela vibração da imaginação. É world-building mas também é uma filosofia. Quem olhar para a estrutura do multiverso da DC criada por Grant Morrison vê uma Mandala e vê um Belo. Não seria fantasticamente terrível que existisse, perdidos nas infinitas e prováveis realidades, um Darkseid, uma Source Wall e uma Speed Force? Mas divago!

A DC repete, para nosso bel-prazer, a História do Multiverso e, em cada nova variação, se estávamos perdidos voltamos a ela e, se nunca a abandonámos, somos justificados. Por isso, quando neste Rebirth vejo plantadas as sementes do regresso de algo que adoramos só posso escrever algo tão inútil quanto este post.  

"Parece estar a repetir sempre as mesmas histórias, mas a gente gosta!" - disse o tal meu amigo. Sim, é lindo e nós adoramos!

Visão do paraíso, Wonder Woman Earth One de Grant Morrison e Yannick Paquette

Não é surpresa para ninguém que lê este blog que uma das minhas personagens favoritas de toda a Banda Desenhada e mesmo da Literatura é a Diana de Themyscira, mais conhecida por todos como a Mulher-Maravilha, a mítica super-heroína da editora DC Comics, parte da santíssima trindade da BD dos EUA (os outros são Super-Homem e Batman, para quem ainda não sabe). Este longo amor começou em 1987 quando, na revista da editora brasileira Abril, Super-Homem n.º 39, era publicado o primeiro capítulo da história de George Pérez e Greg Potter que iria para sempre modificar a maior e melhor das heroínas. Com altos e baixos ao longo de 30 anos, este personagem tem permanecido no cume da minha preferência. 

Grant Morrison, escritor de origem escocesa, foi responsável pelas histórias que considero um dos pináculos do que a mitologia dos super-heróis, quando desregrada, quando deixada ao abandono da imaginação, é capaz: JLA. 

Yannick Paquette é um desenhista que, por acaso, já trabalhou com a Mulher-Maravilha no passado, e que recentemente tem desabrochado como um artesão da BD ao nível de pessoas que admiro como J.H. Williams III. 

Juntar estes três numa única história escusado será dizer que era mais que um sonho molhado. Era um oceano de expectativa. Que não foi de modo algum defraudada.

A versão de Diana que tem vingado na BD nos últimos anos, segundo Morrison, não é aquela que acha ser a versão moldada pelo criador da personagem, William Moulton Marston. Os artistas Azzarello e Chiang recentemente escreveram uma mulher guerreira capaz de exigir a paz sob o punho cerrado no cabo de uma espada. Essa versão passou, inclusive, para o grande ecrã e para o corpo da excelente Gal Gadot. Mas Marston sempre escreveu a sua Mulher-Maravilha como o apogeu do sexo feminino, não só na sua figura mas, acima de tudo, na capacidade de pacificação do mundo patriarcal (o do homem), bélico, beligerante e devassado por urgências violentas. Marston era um homem moldado por mulheres do início do século XX que foram parte participante e criadora do movimento sufragista nos EUA.  Inclusive casou com duas delas, com quem viveu num relação bígama consentida por todas as partes (sobre a vida de Marston e das suas mulheres queiram perder tempo neste longo e maravilhoso artigo). Era, portanto, a pessoa ideal para ser o criador de uma super-heroína num mundo literário que começava já a ser dominado pela testosterona. Infelizmente, morreu cedo (1947), e a sua Mulher-Maravilha depressa seria relegada para o plano de uma dedicada dona de casa e de secretária dos outros super-heróis (todos eles homens, claro). 

Morrison quis repescar esta criação original e deu-nos uma interpretação de Diana que, ao mesmo tempo, deve ao seu arquétipo original e reveste-o de novas pulsações, deste nosso mundo novo onde a mulher não é mais a figura de segundo plano que o homem a tinha forçado a ocupar. Diana é símbolo disso mas também de muito mais, neste maravilhosa história de Morrison e Paquette. Ela é também símbolo de união entre estes universos tão dispares e profundamente separados, o da masculinidade e da feminilidade. Pela força de carácter que demonstra e pelo seu nascimento, ela é uma força da natureza, um tufão que não pode sequer ser represado pelo paraíso (onde vive). Para Diana, a perfeição de 3000 anos de vida idílica não é suficiente, isto quando o sangue pulsa e arde pelo mundo de fora, esse ainda um poço de imperfeições, guerra e escravidão. A Mulher-Maravilha de Morrison está perto da perfeição. Ela é um olhar ainda inocente num mundo novo tão diferente do seu. Contudo, não se perde nele, antes o vergará à sua vontade, se preciso for.

Pelo que escrevo, devem ter percebido que adorei este Wonder Woman: Earth One e que mal posso esperar pelos dois capítulos que seguir-se-ão. Finalmente, não quero deixar de elogiar a decisão de assumir-se a bissexualidade das Amazonas e de Diana. Desde da década de 40 que já desconfiávamos. E também por transformar esta BD numa reflexão sobre a objectificação sexual e artística de que a Mulher tem sido alvo desde sempre e fazendo-o pela inversão dos papéis. Aplausos! A Mulher-Maravilha, símbolo da emancipação e culminar pop do movimento sufragista prova, pelas mãos de Morrison e Paquette, que é um arquétipo tão forte e (mais?) relevante que os seus companheiros da 9.ª Arte.

O que vou lendo! - Multiversity Deluxe Edition de Grant Morrison e vários

Dizem que está disponível o volume Deluxe que colecciona uma das mais entusiasmantes BD's a sair da imaginação de autores de BD (pelo menos no que a mim diz respeito): Multiversity, escrita por Grant Morrison e apoiado pelo traço de alguns dos melhores desenhadores que esta arte tem para oferecer.

Quem lê este blog sabe da devoção que dediquei aos capítulos que saíram entre a segunda metade do ano passado e o princípio deste. Escrevi sobre todos eles e com enorme prazer. Por isso, convido todos aqueles que não têm plena consciência do que se trata este Multiversity  a lerem os vários posts e a estarem preparados para a glória do maravilhoso multiverso da DC Comics:









BD é o comboio de regresso.

"Alec Holland - I'm just a ghost made of flowers.
Electric Messenger - You woke from a reality into a dream. It's time to return."
Swamp Thing, número 142, escrito por Grant Morrison e Mark Millar.

Imagens de Ekho Monde Miroir, desenhos de Alessandro Barbucci.










Multiversity # 2 de Grant Morrison e Ivan Reis.

A gentrificação é um dos mais interessantes e talvez irritantes fenómenos dos dias de hoje. Cidades como Nova Iorque, São Francisco e Londres têm sido alvo desta tendência. O estilo de vida e importância económica destas urbes atrai população cada vez mais rica, disposta a pagar rendas e preços de casa a valores muito acima da média, acabando por criar uma nova média, agora elevada. A escalada de preços continua a atrair segmentos da população com valores de rendimento cada vez maiores, criando clusters de habitantes endinheirados. A este fenómeno chama-se gentrificação. Uma das partes irritantes é que muita desta população é atraída por um certo estilo de vida criado por pessoas de segmentos económicos geralmente mais baixos: cenas culturais desenvolvidas e inovadoras; uma experiência de bairro recuperada. É, por exemplo, conhecida a irritação do cineasta Spike Lee quando vê a sua Brooklyn tomada por hipsters e artistas endinheirados atraídos por um estilo de vida que acabam por subverter.

Grant Morrison transporta esta fenómeno para o universo da BD e, especificamente, para a série Multiversity, que termina com este número. Os últimos 15 anos tem sido bons para a aceitação mainstream da BD. A proliferação de filmes de grande sucesso financeiro e cultural alertaram muitos para o potencial desta arte. Um potencial não só como multiplicador de receita financeira mas também como, mais importante ainda, criador de arquétipos culturais estruturantes. Os alertados são, na sua maioria, estranhos à arte mas munidos de recursos financeiros substanciais. A Disney adquiriu a Marvel depois de tomar consciência da importância dos filmes da editora. A Warner Brothers está a começar a aperceber-se do potencial verdadeiro de figuras de que há muito é proprietária: Super-Homem; Batman; etc. Ou seja, aquilo que era um segredo bem guardado pelos quase párias que eram os fãs de Banda Desenhada de super-heróis está agora nos olhos e gostos do mundo. Estão a ver a gentrificação?

Quem são os vilões deste Multiversity? Os Gentry. Sim, a alusão para além de ser mais que óbvia, é absolutamente essencial para perceber umas das múltiplas dimensões desta maravilhosa série. Com este número, Morrison acaba a epopeia que há anos preparava, mas deixa a porta escancarada para um regresso. Só posso ficar entusiasmado com essa ideia, principalmente se o escritor voltar e acompanhado pela quantidade de artistas de topo  que agraciaram as páginas dos vários capítulos. O brasileiro Ivan Reis, que se tem destacado como um consumado e virtuoso desenhista de BD de super-heróis, uma vez mais maravilha os apreciadores do género com composições pormenorizadas ao estilo de George Pérez e dinâmicas como John Buscema ou Neal Adams. É um festim para os olhos do fã ver tanta cor garrida, tanto personagem obscuro a precisar de ser descoberto. 

Infelizmente, tudo o que é bom acaba. Esta minissérie prova que um escritor e desenhista, quando deixados à liberdade da sua imaginação, são capazes do melhor que a Arte tem para oferecer (é verdade que Morrison e Reis são dos maiores nomes da BD e, portanto, com uma capacidade negocial invejável). É uma lição mesmo para a própria DC Comics que ultimamente insiste não só num tratamento menos privilegiado dos seus artistas como na contratação de talentos menos apropriados para histórias que mereciam mais (vejam Convergence). Precisamos de muitas Multiversitys. Venha a próxima e que demore o tempo que precisar porque qualidade desta só o tempo e paciência conseguem produzir.

Quem cheira BD cheira-lhe a rosas.

"John Constantine: Who the hell are you? I called for the lord of flatulence, not one of his discharges." - Jamie Delano, Hellblazer, volume primeiro, número três. 

Death, personagem criado por Neil Gaiman para Sandman, desenhada por Arthur Adams

Sue Richards, aka Mulher-Invisível e Namor, palavras de Grant Morrison, desenho de Jae Lee, Fantastic Four, 1234



Multiversity, Ultra Comics por Grant Morrison e Doug Mahnke

Esta BD não é boa, é muito boa. Esta BD não é muito boa, é excelente. Esta BD não é excelente, é extraordinária.

Sinceramente, para vos convencer a ler esta obra de arte pouco mais deveria ser obrigado a escrever. Deveriam acreditar piamente na minha palavra. Mas  não tenho ilusões. As coisas não são assim tão simples e o dinheiro e o tempo são bens preciosos. Também é verdade que já o disse várias vezes neste blog. Que esta série, Multiversity, iria vigorar entre as melhores. Talvez venha-o a ser só para mim, mas tenho impressão que não serei o único - se querem saber o que achei dos números anteriores cliquem neste link. Este mais recente volume, Ultra Comics, não é diferente dos anteriores em qualidade mas também é diferente dos outros em qualidade. Acrescenta a peça crucial do puzzle, acrescenta metáforas e meta-textos num frenesim de imaginação. O que poderia ser apenas uma entre infinitas crises (até eu já estou meta-textual) cresce em volume, espaço e tempo. Vai para além do puro entretenimento (que é!) para ser uma BD sobre a BD e uma BD sobre a nossa relação com essa e tantas outras artes.

É necessário ter um doutoramento em BD dos EUA e sobre a DC Comics? Ajuda. É essencial ter? Não, de maneira rigorosamente nenhuma (reparem que sublinhei). Porque quero frisar que os fãs podem oferecer Multiversity a todos os que gostam e não gostam de BD, a todos os que um dia a leram e a todos os que um dia nunca a leram. Depois deliciem-se a explicar pormenores mais obscuros, metáforas mais rebuscadas, meta-textos que apenas vocês podem e devem ler. Partilhem e participem porque isto é puro amor à Arte Suprema.

Mas se não sentirem nada do que eu acabei de sentir, também não faz mal. Eu precisava de pôr isto cá para fora. E reparem: eu não escrevi uma palavra sobre o conteúdo. Não é relevante. O relevante é ler. Não liguem à mensagem da capa: o importante é mesmo passarem para  página seguinte e ler.

A BD é sempre magia.

Pictures that don't make sense are magic. They hold balls of light covered in millions of spells swirled into a cell.” - Alexa Kitchen

Imagens da BD 18 Days de Grant Morrison, escritor, e Mukesh Singh, desenhador.

Querem saber mais sobre esta BD? Leiam neste link.











BD é muito mais que uma religião.

The 'medium' is unaware of its attractiveness, that's all. Everyone loves comics. I've proven this to my own satisfaction by handing them out to acountants, insurance brokers, hairdressers, mothers of children, black belts, pop stars, taxi drivers, painters, lesbians, doctors etc. etc. The X-Files, Buffy, the Matrix, X-Men - mainstream culture is not what it once was when science fiction and comics fans huddled in cellars like Gnostic Christians dodging the Romans. We should come up into the light soon before we suffocate.”  ― Grant Morrison

Gradimir Smudga, publicado na revista Casemate, número 79.



Multiversity, The Mastermen de Grant Morrison e Jim Lee

Podem ler neste link posts sobre os números anteriores de Multiversity.

Acho que posso afirmar, sem medo de dizer algum disparate ou parecer demasiado entusiasmado, que Multiversity vai entrar no panteão das grandes BD's. Número após número, Morrison e companhia continuam a entregar história e arte um patamar acima do habitual. A escrita de Morrison não é a sua costumeira e imperscrutável verborreia surrealista (not that there is nothing wrong with that - sim, ando a ver o Seinfeld). Contudo, também não é uma abordagem normal e redundante. É Morrison a escrever super-heróis, num estilo um pouco diferente do da saudosa JLA, mas simplesmente fabuloso. 

Estamos quase a acabar a série (faltam dois números) e a única coisa que apetece dizer é "porque é que isto não tem mais uns quantos?"; "Porque é que Morrison não explora mais mundos, mais variações do universo DC?". Poderia ser repetitivo e chato continuar a ler sobre variações dos super-heróis mais famosos do mundo mas, na realidade, é um absoluto prazer, principalmente se feito desta forma. Este número re-imagina o Super-Homem e a Liga da Justiça num universo onde os nazis venceram a 2.ª Grande Guerra, exactamente porque Kal-El foi adoptado por Hitler e não o casal Kent. Sim... leram bem... Hitler. Esta "pequena mudança" foi o suficiente para mudar o rumo da História desta Terra e, no século XXI, o mundo vive uma época de paz de prosperidade. Ou, pelo menos, uma parte do mundo. Porque nesta Terra, os EUA foram devastados e o inglês morreu como língua. Ainda assim, um grupo de super-heróis resistentes juntaram-se nas terras do Tio Sam para fazer frente à hegemonia. Isto ao mesmo tempo que o Homem de Aço vive sob o peso do passado e atrocidades nazis. 

Morrison junta dois conhecidos conceitos dos leitores de comics e consegue um todo envolvente. Agarra numa história do início deste século, onde o Super-Homem aterrava na URSS (já publicada pela Levoir), e junta-a a uma Terra conhecida dos fãs desde a década de 70, a tal onde os nazis venceram a 2.ª Guerra (originalmente sem um Homem de Aço). Desta forma, não só reinventa um conceito familiar como continua a análise que muitos escritores amam fazer, a do maior e mais conhecido dos super-heróis. De facto, face a tantas e tantas provas de que o Super-Homem é um personagem riquíssimo, é impossível alguém continuar a afirmar ser chato, desinteressante e desactualizado. Na minha opinião, ficará para a história  como um dos maiores contributos da BD estado-unidense às artes. Este Multiversity: Mastermen apenas é mais uma prova disso.

Por seu lado, Jim Lee é sempre um valor seguro, se bem que eu escolheria outra pessoa para este livro. Contudo, trata-se de um apontamento mais pessoal que relevante. Um apontamento que não diminui em nada o valor do livro.

Multiversity Guidebook de Grant Morrison e outros

Leiam sobre os números anteriores neste link.

O volume que poder-se-ia julgar dispensável acaba por ser o mais importante de todos. A esta constatação junta-se outra: para os fãs do multiverso da DC  Comics, para os que acompanham este mundo há décadas, este novo número da série de Grant Morrison é uma prenda inesquecível. 

É impossível falar deste Guia do novo Multiverso da DC sem estragar todas as surpresas que o compõem. Desde a primeira até à última página, este novo número de Multiversity é recheado de brindes e de revelações, de um sentido de maravilhamento não só para fãs mas também para aqueles que raramente se dedicam à mitologia dos super-heróis. Grant Morrison, o obreiro, rebusca o fundo do saco do enorme historial da DC Comics e presenteia-nos ao mesmo tempo com o esperado e com o inesperado, construindo uma gigantesca e omniversal catedral dedicada aos maiores arquétipos super-heroísticos da literatura (sim, porque os senhores da Marvel que me desculpem mas os mais puros modelos continuam a ser o Super-Homem, Batman, Mulher-Maravilha, Capitão Marvel, etc. - talvez o Homem-Aranha e o Wolverine possam para aqui entrar). O que o autor tem feito com esta série é verdadeiramente monumental e o que consegue com este Guia é ao mesmo tempo impressionante e revelador. Não só consegue compactar toda a História da DC como constrói um enredo  que a explica, expande e prepara para o futuro. A imaginação louca de Morrison é algo terrivelmente belo de se contemplar. 

A macro-história de Multiversity continua neste volume, com várias narrativas paralelas passadas em universos diferente mas alicerçadas no truque de que existe uma mensagem a ser passada de universo em universo, uma mensagem de aviso em forma de Banda Desenhada. Essa BD é a mesma que o leitor tem nas mãos (o Multiversity Guidebook, portanto) e que lê ao mesmo tempo que os personagens das várias histórias. Nesse livro é-nos revelado (e aos personagens) a estrutura do Multiverso (já revelei essa imagem aqui) bem como quais são os 52 universos que o compõem. O leitor é chamado a fazer parte da narrativa como presença Omnisciente que observa, de forma fria, o que se passa lá em baixo. Junto com Morrison nós somos deuses. 

Em suma, mais um número fantástico desta já indispensável série de BD. Essencial ler.

Multiversity # 5 - Thunderworld por Grant Morrison e Cameron Stewart

Leiam sobre os números anteriores aqui.

O Capitão Marvel - também conhecido por Shazam - foi criado na década de 40 e depressa tornou-se no mais popular super-herói dessa época, eclipsando mesmo o Super-Homem. Muito desse sucesso dever-se-á à essência do personagem, que representava uma fantasia infanto-juvenil ainda mais conseguida que a do primeiro dos super-heróis. Billy Batson, um miúdo órfão de tenra idade, ao proferir o nome do mítico feiticeiro Shazam, transformava-se no apolónico e adulto Capitão Marvel, capaz de voar, munido de invulnerabilidade e força extraordinária. Em suma, um rapaz podia transformar-se no Super-Homem. Além disso, as aventuras deste herói eram imaginativas e munidas de candura e inocência nostálgicas que apelavam aos leitores para lá da simples fantasia de poder. 

A DC Comics, dona do Super-Homem, já na década de 40, vê-se "obrigada" a colocar um processo em tribunal contra o Capitão Marvel e a sua editora, alegando que este personagem era bastante similar ao seu Homem de Aço. Após alguns anos de contenda judicial, a DC acaba por vencer a Fawcett e os personagens do universo de Shazam são integrados no cada vez maior multiverso de super-heróis da gigante de BD estadu-unidense. As aventuras do alter-ego de Billy Batson irão continuar de uma forma ou de outra, quer em revistas próprias, quer como membro de equipas como a Liga da Justiça, quer ainda como convidado de outros personagens. 

Quando Grant Morrison é incumbido de reavivar o multiverso da DC para este nosso século XXI, não poderia deixar escapar à sua atenção o universo da editora Fawcett, que havia desaparecido junto com tantos outros na famosa Crise nas Terras Infinitas e se fundido ao mundo ficcional regular da editora. Este Thunderworld é um seguimento apropriado ao anterior número desta série Multiversity. Enquanto Pax Americana era um homenagem e uma reflexão acerca da BD Watchmen, que tanto alterou e amadureceu a 9.ª Arte nos EUA, esta é uma viagem nostálgica a uma época e universos mais inocentes. O Capitão Marvel e a sua equipe vivem num mundo onde não acontecem mortes violentas, onde os vilões são terrivelmente perigosos mas, no final da história, inconsequentes. É um mundo onde os super-heróis não são poços de problemas existenciais e sorumbáticos, mas têm antes a certeza que o Bem vencerá sempre . Será por isso que neste Thunderworld os heróis tem sempre um sorriso na cara quando avançam para a acção?  E é exactamente neste sorriso que reside a essência do que Morrison capta neste mais recente numero de Multiversity.  Esta é uma história de bravura, onde o Bem vence sempre o Mal de forma simples e sem consequências, onde, apesar de todos os esforços do herói, a namorada não morre de forma trágica às mãos do vilão. O mundo de Thunderworld é uma aventura de super-heróis para todas as crianças, dos 8 aos 80. 

Como já tem sido hábito em Multiversity, o desenhista é escolhido a dedo. Cameron Stewart, com um estilo cartoonesco e de linha clara, adapta-se perfeitamente ao universo de desenho animado de Thunderworld, acompanhado a narrativa (desta vez) linear de Morrison. 

Volto a dizê-lo, esta série vai se transformar, com o passar dos anos, num dos grande clássicos da Arte.