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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, e agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana acabamos a miscelânea de obras e passamos para, até dia 18 de Novembro, histórias do Renascimento da DC que acho (que acho) valerem a pena. 

Sandman: a matéria da qual os sonhos são feitos.

A partir do próximo dia 6 de Outubro, numa parceria jornal Público e editora Levoir, no integra e pela primeira vez em Portugal, será publicado o Sandman de Neil Gaiman. Este é, junto com a colecção Novelas Gráficas II, o acontecimento editorial do ano no que à publicação de Banda Desenhada em terras lusas diz respeito. Esta BD é uma das minhas favoritas de sempre e o sétimo volume, Vidas Breves, é mesmo um dos mais importantes livros da minha vida. Corram a reservar os vossos exemplares. Deixo-vos com umas palavras que escrevi há uns anos sobre esta obra-prima não só da BD como da Literatura (só assim, sim, sem mais nada).




No final da década de 80, a casa mãe de personagens tão famosos como o Super-Homem, o Batman e a Mulher-Maravilha, a DC Comics, vivia uma profunda revolução no formato da narrativa dos seus personagens. O ano de 1986 (considerado por alguns como o melhor ano da História da BD Americana) foi palco de importantes eventos nesta casa editorial, com histórias como Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, The Dark Knight Returns, de Frank Miller, e Crise nas Terras Infinitas, de Marv Wolfman e George Pérez. As duas primeiras foram responsáveis pela assumida maturidade desta Arte, a terceira pela reformulação do universo de super-heróis da DC Comics. Neste panorama destacou-se a Senhora Editora Karen Berger, que tinha como missão recrutar novos autores para que, com novos prismas, com diferentes pontos de vista, ajudassem a revitalizar a velha casa, seguindo a linha de Watchmen e The Dark Knight Returns, que haviam atingido impressionante sucesso crítico e comercial. Berger procurou do outro lado do oceano nomes que lhe pudessem ajudar nessa tarefa, à semelhança de Alan Moore e Dave Gibbons, ambos ingleses. Dentre esses autores surge um jovem de nome Neil Gaiman, que viria a transformar-se num dos nomes mais sonantes da chamada “invasão britânica” dos Comics. 

A ideia para Sandman surgiria de uma única imagem concebida pelo autor e da liberdade criativa que Karen Berger deu a Gaiman. Ofereceu-lhe carta branca para usar o nome de um personagem obscuro da década de 70 detido pela DC e, a partir dele, criar universos e conceitos completamente novos. Assim, da tal imagem de “um homem, novo, pálido e nú, prisioneiro numa cela, à espera que os seus captores morram (...), morbidamente magro, com longo cabelo negro, e estranhos olhos” nasceu a história do Senhor dos Sonhos, o de muitos nomes, Dream, Morpheus, Sandman (em português o João Pestana). A sua publicação começaria em Outubro de 1988, duraria 75 capítulos até 1996 e viria a transformar-se numa das mais premiadas séries de BD de sempre, arrebatando honras fora do mundo dos Comics como o World’s Fantasy Award em 1991 e o New York Times Best Seller List

A importância de Sandman não pode ser menosprezada. Não só introduziu a primeira série longa de autor com um princípio, meio e fim (na altura, um feito raro numa Arte controlada pelas intermináveis telenovelas dos super-heróis), como daria origem a uma Imprint da DC, a Vertigo, liderada por Karen Berger, que seria a residência dos mais idiossincráticos trabalhos de autor, e que mesmo hoje continua a ser das maiores e mais literárias referências do panorama criativo da BD mundial. Sandman seria também uma das primeiras BD americanas em que as colecções dos seus capítulos (serão 11 no total na edição da Levoir) acabariam por tornar-se volumes sempre disponíveis, ajudando à percepção de tratar-se de um trabalho finito e de autor.

A série foi também palco para o aparecimento de inúmeros outros personagens, tão famosos como o protagonista, dos quais obviamente destaca-se a irmã mais velha, Death, uma antropomorfização sexy, gótica e infinitamente sábia da Morte, que ajudaria a cimentar a profunda visão pessoal de Neil Gaiman. Os pedaços de sabedoria debitados pelas aparições esporádicas deste personagem são parte de algumas das mais memoráveis passagens da obra. 

Gaiman não limita-se a ser um mero contador de histórias, ainda que o execute de forma exímia, antes imprime uma qualidade intelectual até ao momento com muito poucos exemplos na BD dos EUA. As frases que saem quer da boca dos seus personagens, quer das longas descrições que ocorrem amiúde nos vários capítulos, são profundamente citáveis, mantras capazes de transformar ou sintetizar vidas e pensamentos (existe mesmo um livro chamado “The Quotable Sandman: Memorable Lines from the Acclaimed Series”). Independentemente de todas as hipérboles que possam tecer-se acerca do trabalho de Gaiman em Sandman a realidade é que trata-se de uma obra sem par, que não só inspirou a carreira de inúmeros autores como também marcou a vida de leitores de diferentes gerações. O meu livro favorito de sempre é Brief Lives, o sétimo da colecção, um dos poucos a que regresso inúmeras vezes para procurar um pouco de encanto.

BD é tempo e noite.

"Before the beginning was the night. And the night was without boundaries and the night was without end. 


In the beginning was time. The relentless beat in which things could happen, in which everything could become, dust could coalesce, matter could exist."

Capítulo quatro de Sandman Overture, escrito por Neil Gaiman.

Desenhos de Jim Lee.

Fênix, aka Marvel Girl, aka Jean Grey dos X-Men


Dr. Destino, aka Victor Von Doom 


Batman, Hera Venenosa e Mulher-Gato


Quarteto Fantástico


Mulher-Maravilha, Super-Homem e Batman


Batman


O que vou lendo! - Sandman: Overture Deluxe Edition de Neil Gaiman e J. H. Williams III

É muito difícil descrever o impacto de Sandman na minha vida como leitor. Provavelmente foi com ele que comecei uma abordagem diferente à BD. Foi com o épico de Neil Gaiman, na década de 90, que tive um mais profundo contacto com o arrebatamento não só vindo do espanto mas também do intelecto. Devo estar a exagerar, certamente, mas, quando tive a oportunidade de ler os Trade Paperbacks que iam coleccionando os vários volumes da saga, cada momento de pausa (seria mesmo uma pausa ou um play verdadeiro?) era de puro e inviolado prazer. As palavras de Gaiman eram mantras. Os diálogos filosofias para a vida. Até hoje, Brief Lives continua a ser um dos meus livros de referência, aquele que teima em ser um dos meus preferidos de sempre (a minha cópia assinada por Neil Gaiman e com um desenho de Jill Thompson é um dos meus orgulhos de biblioteca). Contudo, ao contrário do que possa parecer, o regresso do criador à sua mais emblemática obra de BD não era algo que quisesse e o anuncio deste volume, Overture, não me chegou como algo ansiosamente esperado. Sempre senti que a obra estava encerrada. Pouco mais haveria a acrescentar.

O que vou dizer a seguir soará a sacrilégio. A estrela deste Overture  é J. H. Williams III. O desenhador é um virtuoso do lápis, pincel, o que quer que queiram chamar. Este senhor consegue transformar a mais banal das cenas (e este Sandman não as tem) num concerto, numa ópera, num carnaval, num épico jogo de futebol. Williams estica e dobra a arte de fazer BD para lá dos limites do convencional. Melhor: ele já deixou o convencional há 10 anos atrás e agora, pura e simplesmente, não consegue regressar. Desde Promethea com Alan Moore que surpreende de projeto em projeto, inovando não só no desenho como também na construção da página de BD, no modo como quebra o argumento dos vários autores com que vai trabalhando. Sem dúvida um dos maiores talentos da 9.ª Arte dos EUA (nesta linha, Yannick Paquette começa a revelar-se um talento a acompanhar - esperem pelo seu Wonder Woman: Earth One). O trabalho de Williams neste Overture é de tirar o fôlego, tantos são os pormenores e as idiossincrasias dos desenhos, que bailam sem esforço pelos múltiplos e diversos cenários que Neil Gaiman constrói para o elenco. No final, apenas apetece aplaudir de pé.

E quanto a Gaiman? Como se porta? Como Gaiman. Ponto final. Não existe aqui nada de novo nesse sentido. A escrita continua igualmente onírica, poética e surreal. Não cedeu um centímetro de controlo sobre as vozes do enorme e operático elenco que criou em Sandman. Consegue ir buscar pormenores memoráveis da obra original e entretecê-las no enredo, não só enriquecendo esta obra como a que nos surpreendeu anos atrás. Consegue também enriquecer a mitologia ao nos apresentar (desculpem este spoiler) os progenitores dos Endless. Esse é dos grandes momentos de Overture, onde a escrita de Gaiman sobressai e os desenhos de Williams explodem. O escritor quis regressar a casa e, apesar de ser uma das melhores obras que saíram este ano, para mim o impacto da run original é tão gigante que este capitulo quase, quase, quase que sabe a redundante (mas não é).  

Sem dúvida, um dos livros de BD do ano. 

BD é Desejo ou Sonho?

For love is no part of the dreamworld. Love belongs to Desire, and Desire is always cruel.” ― Neil Gaiman, The Sandman, Vol. 2: The Doll's House

Diferentes interpretações de Morpheus, aka Sandman, aka Dream of the Endless, criado por Neil Gaiman.

Brian Bolland


Mike Allred 

Eduardo Risso
J.H. Williams III 

BD sabe do nada um tudo.

"Destruction - She (Death) said we all not only could know everything. We do. We just tell ourselves we don't to make it more bearable.

Dream - That seems unlikely.

Destruction - That was what I said to her. I said, if they do that, why do they keep wandering around and falling down manholes and tripping banana skins. Why does it seem like none of us... Endless or mortal, ghost or god ... knows what we're doing?

Dream - And she said?

Destruction - I told you. She said everyone knows everything. We just pretend to ourselves we don't. I never knew what to make of that.

Delirium - She Is. Um. RiGhT. KIND of. Not KNOWING EVERYthIng is aLL thAt makeS IT OK." - Sandman, Brief Lives, escrito por Neil Gaiman

Absoluten Calfeutrail por Moebius.






Quem cheira BD cheira-lhe a rosas.

"John Constantine: Who the hell are you? I called for the lord of flatulence, not one of his discharges." - Jamie Delano, Hellblazer, volume primeiro, número três. 

Death, personagem criado por Neil Gaiman para Sandman, desenhada por Arthur Adams

Sue Richards, aka Mulher-Invisível e Namor, palavras de Grant Morrison, desenho de Jae Lee, Fantastic Four, 1234



BD nunca se esquece.

Is there a word for forgetting the name of someone when you want to introduce them to someone else at the same time you realize you've forgotten the name of the person you're introducing them to as well?"
"No.”  ― Neil Gaiman, The Sandman, Vol. 7: Brief Lives

Letitia Lerner, Superman's babysitter por Kyle Baker, Elseworlds 80-Page Giant, DC Comics







Notícia C7nema - Joseph Gordon-Levitt protagoniza e realiza adaptação de «Sandman» ao cinema

Será que existe Pai Natal e eu, nos últimos tempos, andei a comportar-me como deve de ser? É que primeiro foi a Mulher-Maravilha que, finalmente, vai ser exibida no Grande Ecrã e, agora, é a vez de um dos livros mais marcantes da minha vida, o Sandman? E logo com este maravilhoso actor? Assim não dá...

Bem, obrigado, quem quer que seja... Leiam a notícia aqui.

Já agora, o site C7nema teve a amabilidade de colocar um artigo que publiquei para a Maxim também neste início deste ano e que incluí hoje aqui em baixo. Leiam no site do C7nema aqui.


Sandman: Quando os Comics chegaram a Adultos


No final da década de 80, a casa mãe de personagens tão famosos como o Super-Homem, o Batman e a Mulher-Maravilha, a DC Comics, vivia uma profunda revolução no formato da narrativa dos seus personagens. O ano de 1986 (considerado por alguns como o melhor ano da História da BD Americana) foi palco de importantes eventos nesta casa editorial, com histórias como Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, The Dark Knight Returns, de Frank Miller, e Crise nas Infinitas Terras, de Marv Wolfman e George Pérez. As duas primeiras foram responsáveis pela assumida maturidade desta Arte, a terceira pela reformulação do universo de super-heróis da DC Comics. Neste panorama destacou-se a Senhora Editora Karen Berger, que tinha como missão recrutar novos autores para que, com novos prismas, com pontos de vista mais adultos, ajudassem a revitalizar a velha casa, seguindo a linha de Watchmen e The Dark Knight Returns, que haviam atingido impressionante sucesso crítico e comercial. Berger procurou do outro lado do oceano nomes que lhe pudessem ajudar nessa tarefa, à semelhança de Alan Moore e Dave Gibbons, ingleses, e dentre esses autores surge um jovem de nome Neil Gaiman, que viria a transformar-se num dos nomes mais sonantes da chamada “invasão britânica” dos Comics.
A ideia para Sandman surgiria de uma única imagem concebida pelo autor e da liberdade criativa que Karen Berger deu a Gaiman, ao lhe oferecer carta branca para usar o nome de um personagem obscuro da década de 70 detido pela DC mas podendo criar um universo e conceitos de raiz. Assim, da imagem “um homem, novo, pálido e nú, prisioneiro numa cela, à espera que os seus captores morram (...), morbidamente magro, com longo cabelo negro, e estranhos olhos”, nasceu a história do Senhor dos Sonhos, o de muitos nomes, Dream, Morfeus, Sandman (em português o João Pestana), que começaria em Outubro de 1988, duraria 75 capítulos até 1996 e que viria a tornar-se numa das mais premiadas séries de BD de sempre, ganhado honras inclusive fora do mundo dos Comics como o World’s Fantasy Award em 1991 e o New York Times Best Seller List.
A importância de Sandman não pode, de maneira alguma, ser diminuída. Não só introduziu a primeira série longa de autor com um princípio, meio e fim (na altura, um feito raro numa Arte controlada pelas intermináveis telenovelas dos super-heróis), como daria origem a uma Imprint da DC, a Vertigo, liderada por Karen Berger, que seria a residência dos mais idiossincráticos trabalhos de autor, e que até hoje continua a ser das maiores e mais literárias referências do panorama criativo da BD mundial. Sandman seria também uma das primeiras BD americanas em que os coleções dos seus capítulos (e são 10 no total) acabariam por tornar-se verdadeiros livros, sempre disponíveis, ajudando à percepção de tratar-se de um trabalho finito e de autor. 

A série foi também palco para o surgimento de inúmeros outros personagens, tão famosos como o protagonista, dos quais obviamente destaca-se a irmã mais velha, Death, uma antropomorfização sexy, gótica e infinitamente sábia da Morte, que ajudaria a cimentar a profunda visão pessoal de Neil Gaiman. Os pedaços de sabedorias debitadas pelas aparições esporádicas deste personagem são parte de algumas das mais memoráveis passagens da obra.
Gaiman não se limita a ser um mero contador de histórias, ainda que o execute de forma exímia, antes imprime uma qualidade intelectual até ao momento com muito poucos exemplos na BD americana. As frases que saem quer da boca dos seus personagens, quer das longas descrições que ocorrem amiúde nos vários capítulos, são profundamente citáveis, mantras capazes de transformar ou sintetizar vidas e pensamentos (inclusive existe um livro chamado “The Quotable Sandman: Memorable Lines from the Acclaimed Series”). Independentemente de todas as hipérboles que se possam tecer acerca do trabalho de Gaiman em Sandman a realidade é que trata-se de uma obra sem par, que não só inspirou a carreira de inúmeros autores como também marcou a vida de inúmeros leitores de diferentes gerações. O meu livro favorito de sempre é Brief Lives, o 7.º da coleção, um dos poucos a que regresso inúmeras vezes para procurar um pouco de sabedoria.
Sandman teve uma tentativa de publicação em português de Portugal por parte da Devir, com a edição dos 1.º e 3.º volume da coleção, mas infelizmente a editora ficou-se por aí. De qualquer modo, não é demais enfatizar tratar-se de uma obra de enorme qualidade que se ganha muito lendo no original.
Leitura essencial.

Vertigo: a melhor editora de BD do mundo? - artigo Maxim

Já cá faltava. Desta vez fiz o mesmo que já tinha feito aqui no Blog e estendi o meu post sobre a editora Vertigo. Acho que ela merece. Leiam-no aqui.

Para os que vêm de fora e querem saber mais coisas desta impressionante editora de BD, podem consultar os vários posts que publicamos.

Mesmo na Maxim, já dei o ar a algumas das mais famosas BD da Vertigo. Leia sobre Sandman Fables.


O Amuleto de Roberto Bolaño


Enquanto o mundo lá fora afogava-se, fechei-me no cubículo de minha casa onde os livros entornavam-se do chão até ao teto, o barulho ensurdecedor das vagas tremia nas paredes que se rachavam por todas as diagonais e por todos os recortes e, mesmo assim, a casa aguentava-se, como um monólito pré-histórico, um menir.

As ruas da cidade permaneceram submersas durante semanas e, enquanto a pouca comida e a pouca água aguentaram o meu corpo, os livros que retirava, um a um, despacharam as horas dos dias, despejadas para o passado pelas palavras dos que amo e pelas ações daqueles que acharam por bem escrever. Comecei pelo primeiro livro que me deram e percorri cronologicamente (a minha imaginação nunca foi tão boa como a daqueles que admirava) até quando pude, dei graças a cada partícula de pó acumulada nos volumes amontoados e respigados pela minha obsessão. Comecei pelas aves (que começo auspicioso, digo eu, voar com as asas catalogadas) e continuei me entretendo com as já antigas palavras de Homero, de Edith Hamilton, que o seguiu nos mitos e nos heróis e nos deuses, de Tolkien, que me lembro tão bem pelo filme mas, acima de tudo, pelas palavras.

Reli cada teia pendurada nos prédios de Nova Iorque, cada capa vermelha nos céus da cidade imaginada de Metrópolis, cada rua suja da gótica do homem de negro, do deus Byrne que de tantas e tantas páginas preencheu o vazio, do mestre Gaiman que com tantas e tantas palavras preencheu o nada.

No final ainda imaginei como seria bom o mundo literário ter nas suas prateleiras uma outra saga do Sandman escrita pelo Saramago, uma história dos múltiplos universos da DC pelo Pessoa ou 10 anos do Super-Homem escritos por Alan Moore.

O Amuleto de Bolaño é o meu primeiro livro deste autor. Conta a história da mãe de todos os poetas mexicanos, de como viveu fechada numa casa de banho da Faculdade de Filosofia e Letras da Cidade do México em 1968, de como nessa clausura reviveu o passado que aconteceu e o que não aconteceu, de como previu o que ainda iria viver ou do que ainda poderia viver, caso sobrevivesse. 

VERTIGO – A Casa dos Autores



Não vou estar com rodeios: a Vertigo é a minha editora favorita de BD. As melhores BD’s, as mais complexas, as mais “adultas” do panorama da produção norte-americana provêm - com excepções, claro – desta “imprint”.

A Vertigo pertence à DC Comics, a gigante dona do Super-HomemBatman e Mulher-Maravilha, mas vive num mundo aparte, pedindo emprestado, aqui e ali, alguns dos personagens da casa-mãe. Mas, regra geral, produz material com personagens inéditos, livros e sagas completas, finitas e, acima de tudo, extremamente pessoais.

A grande responsável deste fenómeno norte-americano tem um nome, Karen Berger, a editora-guru que dirige os caminhos da ”imprint” desde a criação, há qualquer coisa como 20 anos (foi criada, oficialmente, em 1993). Mas, acima de tudo, são os seus autores – escolhidos a dedo – que criaram a voz da Vertigo, antes de sequer sonhar-se separada da DC Comics. Acho que posso dizê-lo sem ofender ninguém, que são três os autores-pai: Alan Moore; Neil Gaiman; Grant Morrison. Curiosamente, todos europeus, ou melhor, os dois primeiros são ingleses e o terceiro escocês.

E tudo começou em 1982 com o pai da nova BD americana, Alan Moore, que entrou a matar com uma extraordinária e memorável saga num título moribundo da DC Comics, “Swamp Thing”, onde, com meia dúzia de estocadas certeiras, um parceiro em perfeita sintonia (o desenhador John Tottlebeen), um estilo inovador e, acima de tudo, adulto, transformou o universo de terror do personagem e, sem o querer, deu a pedra de toque para a criação da Vertigo, 10 anos mais tarde. Nesses 10 anos que se seguiram, e graças a Berger, a BD americana foi “vítima” de uma invasão inglesa, atraindo enormes talentos do outro lado do Atlântico, que viriam a verdadeiramente revolucionar o panorama da BD americana.

São produto desta época obras como os “Watchmen”, também de Alan Moore e do desenhador Dave Gibbons, mas, para o que aqui estamos a tocar, temos de falar do “Animal Man” de Grant Morrison  e, principalmente, do “Sandman” de Neil Gaiman. São estas a herdeiras temáticas e espirituais do “Swamp Thing”, aquelas que lhe seguiram as pegadas e que deram origem à Vertigo.  A primeira agarrou num personagem relativamente obscuro do panteão da DC, e transformou-o num vocal comentador das idiossincrasias dos universos dos super-heróis e nos cada vez mais mediáticos movimentos ambientalistas. 

Sandman, por sua vez, não só tornou-se numa das mais inspiradas e aclamadas obras de BD de sempre, como inaugurou o que viria a ser um dos emblemas da Vertigo: a magna-obra de autor. Neil Gaiman propôs-se a contar uma única história com princípio, meio e fim, o que veio a concretizar-se ao longo de 75 capítulos mensais que - outra das tradições da Vertigo - seriam coleccionados em 10 livros, que lidos de uma assentada, representam tudo o que o autor tinha a dizer acerca destes personagens.

Um pouco aparte da tradição Vertigo, mas importantíssima obra, é a série mensal “Hellblazer”, protagonizada pelo bruxo britânico Constantine (já objecto de adaptação cinematográfica com Keannu Reeves no papel principal), criado por Alan Moore em “Swamp Thing”, e que continua até hoje, tendo já sido palco dos dotes artísticos de alguns dos maiores nomes da BD americana e europeia: Jamie Delano; Garth Ennis; Brian Azzarello; Warren Ellis; Peter Milligan.

Estas obras abriram então espaço para o advento da Vertigo em 1993 que, até hoje, continua a produzir algumas das melhores BD’s do panorama literário. Algumas já aqui falamos no Blog, outras falaremos ne futuro. São elas “100 Bullets” , “Preacher”, “Scalped”, “Fables”, “Lucifer”, “Transmetropolitan”, “Unwritten”, etc, numa variedade temática que em muito já se expandiu para além das fronteiras do fantástico e do terror, imiscuindo-se no romance noir, policial, thriller, entre muitos outros.

Banda Desenhada. Porque vale a pena ler e ler e ler...

Endless Nights de Neil Gaiman

Quando o universo expirar o seu último sopro restarão dois irmãos no ocaso.

Destiny (Destino) escreverá a última palavra na última frase e colocará o último ponto final na vida do último mundo. Olhará para a última página já amarelecida do pesado livro que carregou desde a primeira madrugada e, sem emoção, fechará o tomo e, assim, acabará a escrita do universo, que era a sua vida. E no seu derradeiro adeus será encaminhado para a porta de saída por sua irmã, Death (Morte), que olhará com os seus olhos jovens de muita vida para a escuridão e entropia finais. Olhará longa e demoradamente - ou não -, colocará as mãos nos bolsos e dirá qualquer coisa como “tiveste aquilo que todos têm: uma vida. Isso deve ser o suficiente”. E então, como se de um pensamento desligado se tratasse, desenhará um sorriso e fechará a porta do universo atrás de si. E ela será a última vida.

Retornará para o lado de seus irmãos e para o Pleno de onde brotaram, eles os sete que nada mais eram que ideias, mantidos vivos para manter vivo o universo. Dream (Sonho), Desire (Desejo), Delirium (Delírio), Destruction (Destruição) e Despair (Desespero) já haviam deixado o desenhar de histórias para trás. Restava ela, a eterna optimista, porque sabia como tudo acabava. Acabava inexoravelmente, irrevogavelmente, nas suas mãos. Nas mãos que carregaram tudo e todos (inclusive, em mais do que uma vez, um seu irmão) para o outro lado do véu.

Fim.

Endless Nights foi escrito por Neil Gaiman, criador de Sandman, para comemorar Sandman. E nele juntou Milo Manara, Michelanxo Prado, Frank Quietly, P. Craig Russel, Glenn Fabry, Barron Storey e Bill Sienkiewicz para pintar sete histórias para os sete irmãos Endless.