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Secret Wars (2015), números sete, oito e nove

(leiam aqui posts anteriores sobre esta série)


(contém spoilers para os números anteriores da série)

As últimas páginas do primeiro número de Secret Wars oferecem uma derradeira e devastadora cena: a destruição completa dos universos principal e Ultimate da Marvel. No lugar destes aparece um novo mundo, uma manta de retalhos constituída por eras e universos díspares, roubados do defunto multiverso. A esse mundo deu-se o nome de Battleworld. O seu Deus é Victor Von Doom, salvador do multiverso, Regente Supremo e ex-maior vilão dos universos desaparecidos, o Dr. Destino.

Todos os leitores de BD de super-heróis sabem-no: estas histórias nunca irão acabar. Existirá sempre uma última página que revelará uma ameaça maior, um mistério por resolver. O enredo continuará e continuará até à última folha de um livro que ainda não foi escrito e que provavelmente nunca o será. É a natureza da coisa. Os leitores de longa data já o sabem. Faz parte do contrato. E ainda bem que assim o é. Nunca esperei que este Secret Wars de Jonathan Hickman e Esad Ribic fosse ser diferente.  Em muitas e muitas formas não o é. A História do Universo da Marvel vai continuar. Contudo, existem pequenas coisas em que acaba por sê-lo. Diferente, quero eu dizer.

Um dia destes, como em muitas outras obras de BD que esticam-se pelos meses e pelos anos, terei de reler este Secret Wars. Para saber se sobrevive à minha busca de unidade. Apesar de ser pelos mesmos autores, a necessidade de capítulos mensais poderá obrigar a um certo compasso dissonante, o que acontece muitas vezes na busca de "prender" os leitores todos os meses. Será por isso que achei os capítulos sete e oito um pouco menos encorpados que anteriores, onde Hickman e Ribic perdiam-se em criatividade na cosmogonia do Universo da Marvel. Pareceram-me um pouco mais orientados para a acção e menos para as deambulações quase esotéricas do escritor. Eu sei que isso é obrigatório na literatura de super-heróis, mas estava já tão habituado à qualidade dos capítulos anteriores e fiquei mimado. Provavelmente, a decisão de criar um capítulo adicional à saga tenha sido prematura. O tempo o dirá.

O que interessa, contudo, é como as coisas acabam. Só assim poderemos saber então se valeu a pena. O nono e último capítulo acaba por ser uma curiosa surpresa. Um conto desta escala, com o destino do Real em jogo, corre sempre o risco de tornar-se obeso e operático, no pior sentido que estas palavras podem ter. Traduzindo por miúdos: afastar-se do humano. Hickman e Ribic escolhem um outro caminho. Escolhem enquadrar o conflito na mais velha rivalidade do universo Marvel: Reed Richards / Sr. Fantástico vs Victor Von Doom / Dr. Destino. Eles foram os primeiros e mais fortes antagonistas deste mundo ficcional. Uma luta de dicotomias. Um confronto ideológico e primal. É, portanto, apropriado que as últimas páginas deste Secret Wars, que pretende ser a elegia do antigo universo Marvel, contenham o derradeiro confronto entre estes dois adversários. E é também apropriado o destino (perdoem o trocadilho) escolhido para o vilão e para os heróis, o Quarteto Fantástico, equipa da qual Richards é líder e mentor. Neste sentido, Secret Wars parece funcionar bem como o fechar da cortina do universo Marvel, para aqueles que foram os primeiros a pisar o seu palco. 

A revista do Quarteto Fantástico foi a primeira e mais inovadora desta editora. Aquela que, sob o génio de Stan Lee e Jack Kirby, criou uma inteira mitologia e cosmogonia. Exibia mesmo o epíteto de "melhor BD do mundo". Ultimamente vivia apenas da glória destes tempos idos. Secret Wars, além dos propósitos mais comercias, acaba por ser um adeus a este primeiro grupo de super-heróis. Teve falhas mas foi, para mim, uma das mais bem conseguidas sagas deste estilo feita nos últimos tempos. 

Agora, a história vai continuar e continuar e continuar...

Garrido e n., estas são as leituras de que mais gostei em 2015

2011, da minha autoria - para quem não sabe SAM
Ao contrário das minhas escolhas de Cinema, os livros que mais gostei de ler em 2015 não são necessariamente de 2015. Os livros acumulam-se nas prateleiras e em qualquer outro espaço vazio da casa, os meses e anos vão passando e, de vez em quando, um ou outro chama-me à atenção. 

Na lista e à semelhança do que fiz para a 7.ª Arte, não existe nenhuma ordem em especial a não ser a alfabética e não existe nenhum critério a não ser o puro prazer de ter lido o que li. 

Já sabem: podem clicar nas imagens para ler ou reler o que escrevi sobre cada um deles - existe apenas um livro que, infelizmente, não terá link porque nada escrevi sobre ele. Quando o descobrirem vão a uma loja e comprem-no porque é verdadeiramente maravilhoso. 

  


  

   


  

 

     

 

(neste link podem saber mais algumas dos livros que mais gostei mas que não achei que deveriam ficar na lista de cima)

Rapidinhas de BD - Autumnlands vol. 1, Tooth & Claw e Undertaker vol. 1: Le Mangeur D'Or



Em conversa com um dono de uma loja de Banda Desenhada em Lisboa consolidei uma certeza que tinha há alguns anos: o eterno estigma que a BD tem, o de ser infanto juvenil, perpetua-se. Eu sei que esta afirmação não é uma novidade para ninguém, mas existe um efeito pernicioso em particular do qual queria falar. Mesmo para os que estão interessados em entrar neste mundo, o medo de perguntar por algo que outros vêem como "inferior" barra o ímpeto de experimentar. Não tenhamos duvidas: isto é uma questão de cultura, de falta dela e, por conseguinte, de ignorância. Sabemos todos da dificuldade que é entrar no mundo da BD, também pela quantidade de oferta e pela aparência de insularidade que a Arte carrega consigo. Essa aparência é, contudo, isso mesmo, porque a oferta é de tal forma variada que existe algo para cada leitor, independentemente do gosto. Vejam o exemplo destas duas BD: uma um conto de Alta Fantasia com animais antropomorfizados; outra, um simples western.

Autumnlands foi uma muito agradável surpresa. Conheço bem o escritor Kurt Busiek pelo seu trabalho na Marvel, na DC e no excelente título Astro City. Contudo, aqui o autor envereda por um caminho a que não estamos habituados. Calcorreamos paisagens e cidades de um mundo místico imaginário, populado por animais antropomorfizados, onde a Magia, o equivalente à electricidade na nossa civilização, encontra-se em risco de esgotar-se e arrastar este universo para o caos. Um conjunto de místicos juntam-se numa derradeira busca para encontrar a salvação. Como já o disse variadíssimas vezes, muitas são as vezes em que a originalidade da premissa (ou falta dela) não é importante. Interessa mais a habilidade dos artistas em entretecer palavras com palavras e palavras com desenhos de modo a construir algo verdadeiramente seu e único. Parece ser o caso deste Autumnlands. Busiek mistura mundos imaginários com religião, intriga palaciana com salvadores predestinados, para criar um enredo entusiasmante e, em todas as esquinas, cheio de mistérios. Este primeiro volume é uma grande vitória. E, já agora, a arte de Benjamin Dewey é de babar (a Image continua a dar AS cartas que interessam na BD dos EUA).

Xavier Dorison e Ralph Meyer, por seu lado, enveredam num estilo que (sempre achei curioso) tem bastante sucesso por terras gaulesas: o western. Esta BD vem com o rótulo de "a melhor do estilo depois de Blueberry". Como nunca li este último não posso comentar (tenho em casa quase todos prontinhos para o fazer mas a prioridade passa antes por Thorgal e por Valérian - westerns não são bem a minha praia). Achei a leitura deste Undertaker escorreita e interessante. Acompanhamos um pistoleiro cangalheiro anti-herói muito ao estilo de vários outros westerns estado-unidenses, um homem marcado por um passado sombrio, tão rápido na pistola quanto no sarcasmo. Até aqui nada de novo mas o enredo que impele à acção do protagonista, envolvendo obviamente um cadáver e o transporte de uma fortuna em ouro, embeleza a narrativa e agarra. O desenho lembra Giraud mas com  uma distribuição das vinhetas mais moderna. Em suma, um bom entretenimento. 

O final de Fables - volumes 21 e 22 por Bill Willingham e Mark Buckingham.


Por defeito de vício, por defeito de experiência, sou um fã do romance em série (chamemos-lhe assim). Em várias das suas formas. Prefiro Séries de TV que não são episódicas – gosto das que têm um arco abrangente discernível, com um princípio, um meio e um fim como The Wire, The Sopranos ou Breaking Bad. Gosto de Banda Desenhada que estende-se por longos períodos no tempo – mas, ainda assim, de preferência com um final à vista (é, por isso, que, apesar de amar visceralmente os super-heróis, tantas são as vezes que sinto-me frustrado ao lê-los). No que respeita a Literatura, este gosto não é tão claro. Gosto do trabalho de George R. R. Martin na Crónicas do Gelo e Fogo (mais conhecida por Guerra dos Tronos), mas não a leio pelas habilidades estilísticas do autor, antes pelo novelo narrativo. Em “livros de prosa” inclino-me cada vez mais para outro tipo de estilo e história (é ler posts anteriores para saberem do que falo). Este gosto tem um risco: a perda (efectiva) de tempo. Aconteceu-me já algumas vezes (à memória vem a série Lost) mas, na maior parte delas, não tem acontecido. Fables de Bill Willingham é um dos casos em que 13 anos de fidelidade compensaram, não só pelo final, mas pelo crescente e paulatino acumular de excelentes histórias ao longo de mais de uma década.

O adeus de Fables tem ainda outro significado. Esta série é também a última resistente da “velha” editora Vertigo, a de Karen Berger, a que começou com Alan Moore, com Neil Gaiman, com Garth Ennis, com Grant Morrison, que durou mais de duas décadas e que produziu algumas das melhores obras da Banda Desenhada mundial e … assumo-o … algumas das minhas Obras de Arte favoritas: Sandman; 100 Bullets; Preacher; Swamp Thing; Animal Man (estas duas últimas, obras Vertigo avant la lettre); Y The Last Man; e Fables. A nova linha editorial da DC Comics (detentora da Vertigo) escolheu o afastamento de Karen Berger e o título de melhor editora de BD nos EUA mudou-se para a Image (a meu ver, claro). Existe agora um novo futuro para a Vertigo mas, enquanto este não chega, o fim de Fables é, também e assumidamente, o fim de uma (outra) Era de Ouro da BD nos EUA. Não tenho dúvidas que o facto de finalmente produzir-se em massa outras obras que não apenas as de super-heróis abriu os olhos não só aos fãs da 9.ª Arte como a outros actores. Os super-heróis são a porta de entrada e uma divisão ampla da casa mas a Vertigo é o canto aconchegante, aquele onde apetece ficar mais tempo.

E que dizer de Fables que eu já não tenha referido em posts anteriores? O final tinha de chegar, infelizmente. As aventuras dos personagens de contos de fada reinterpretados por Bill Willingham e Mark Buckingham teriam de acabar. A parelha produziu algumas das mais divertidas histórias do panorama da última década da BD, não só conseguido através do puro entretenimento mas também de alma e inteligência, diálogos eloquentes e sumarentos, personagens ricos. Estes dois volumes acabam a história da forma que tinha de acabar: diferente, sem explosões mas com silêncios aconchegantes. Será que com final feliz? Já isso, cada qual vai ter de o descobrir por si, que eu não gosto de estragar a surpresa a ninguém. De uma forma ou de outra, existe um final para todos os personagens que enriqueceram a tapeçaria desta mitologia nestes 13 anos.

Trata-se de um final apropriado (ou o possível) para uma época de ouro na BD americana, algo que, acredito, passou despercebido para a maior parte das pessoas. Mas com tanta e tanta oferta de quase todas as editoras, apenas já só se pode olhar para o futuro com esperança. Venha a Image. Venha a nova Vertigo. Continuem a Dark Horse, a IDW, a Fantagraphics, a Drawn & Quarterly. Karen Berger, Bill Willingham e Mark Buckingham agradecem. 

Secret Wars (2015) número cinco de Jonathan Hickman e Esad Ribic

(contém spoilers dos quatro primeiros números da minissérie)

Sou doido por uma boa Cosmogonia. Deliro com rebuscados relatos rocambolescos das múltiplas mitologias mundiais. Quanto mais empolados melhor. Quanto mais grandiloquentes melhor. Gosto das guerras entre deuses, gosto das explicações elaboradas para elucidar o mistério de quem criou o Universo (ou o Multiverso) e de como o criou. Adoro o Ainulindalë de Tolkien, adoro o Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro que coleciona, nos primeiros capítulos, diferentes Cosmogonias de diferentes culturas e adoro a intrincada explicação do nascimento do multiverso da editora de BD DC Comics (recentemente aprimorada no Multiversity e na Justice League dos escritores Grant Morrison e Geoff Johns, respectivamente).

Há algum tempo li uma entrevista de Jonathan Hickman, a mente criadora deste Secret Wars da Marvel, onde dizia que o número cinco seria um dos mais importantes momentos da história. Devido ao trabalho feito nos Vingadores, a minha expectativa em relação a uma verdadeira Cosmogonia da Marvel é elevada. Não que a editora não tenha uma, mas não recordo ter sido contada como o foi na DC. Sempre pareceu-me mais espartilhada. Teríamos de coleccionar pedaços aqui e ali. Recordo-me do relato da Eternals Saga publicada na revista do personagem Thor, mas muito centrada nesse personagem (já foi retractivamente eliminada várias vezes). Ou poder-se-ia confundir com a origem de Galactus, publicada também nas saudosas histórias do Thor por Jack Kirby e Stan Lee. Ora, estava com esperança que o número cinco pudesse ser este relato. O problema é meu, claro, mas esta expectativa diminui um pouco o prazer de o ler.

Não deixa de existir uma Cosmogonia neste quinto capítulo mas centrada no novo universo criado pelo Deus Doom (Dr. Destino). São revelados pontos importantes relativamente ao nascimento da nova realidade da Marvel mas o mais interessante é a continuada exploração da personalidade de Destino. Secret Wars de Hickman é, de forma assumida, isso. Na sequência dos trágicos acontecimentos do número quatro, ocorre um delicioso diálogo entre o herói/vilão e a sua filha adoptiva, Valeria Richards, que espelha o gigantesco ego e (no fundo) a insegurança do personagem que, sem dúvida, ditará a sua tragédia e queda. Obviamente, o enredo terá de avançar e existem algumas fraquezas na procura de equilíbrio entre o avançar da história, descortinar das personalidades e deambulações do autor. Contudo, face ao panorama passado de sagas desta envergadura na literatura de super-heróis, Secret Wars continua a ser um dos melhores exemplos. Um bastião de qualidade autoral raramente conseguido, quer do ponto de vista de Hickman, quer de Ribic, uma força da natureza muito apropriada ao épico da história.


Agora, era tão bom que antes do último capítulo tivéssemos uma Cosmogonia à séria.

O que vou lendo! – East of West vol. 4, Sex Criminals vol. 2 e The Wicked + The Divine vol. 2



Para quem lê Banda Desenhada dos EUA é hoje impossível escapar ao peso da Image, a editora independente que tem, paulatinamente, começado a dar cartas. Apesar de haver iniciado a sua actividade nos princípios da década de 90, em pleno boom da BD, demorou quase duas décadas a mudar a agulha, desfocando-se do negócio controlado pela Marvel e DC, o dos super-heróis, e preferindo o trabalho de autor. Nos últimos anos, inaugurou uma relação com os criadores que modificaria não só a sua actividade e o seu catálogo, como também o modo como toda a 9.ª Arte dos EUA ver-se-ia. Obviamente que o sucesso dos filmes e séries de TV ao estilo BD (como The Walking Dead, por exemplo, que pertence à Image), com todas as compartidas financeiras daí advidas, estimulou uma nova aproximação, mas não só. Por um lado, os criadores estão a ficar cansados que as suas histórias, por mais bem recompensadas que sejam, não fiquem como propriedade intelectual sua. Exemplos como o de Jack Kirby ou dos criadores do Super-Homem foram rastilho para uma posição menos inocente. Por outro lado, a narrativa dos super-heróis, querida a muitos, sem dúvida, começa a ser vista como não sendo a única capaz de atrair a atenção do público. Assim, movimentos que já existiam há décadas consolidaram-se recentemente e adquiriram uma dimensão nunca conhecida nos EUA. E a Image é um dos maiores porta-estandartes deste novo paradigma.

Qualquer uma das três BD’s de que falo neste post é não só exemplo da “filosofia Image” como da qualidade e idiossincrasia dos autores envolvidos. Apesar de muitos criadores dos EUA ainda terem alguma dificuldade em sair da arena da Fantasia e mesmo de alusão tangente ao super-herói, as três obras conseguem abordagens e temáticas tão díspares quanto o são as personalidades dos autores. East of West de Jonathan Hickman e Nick Dragotta continua, junto com a famosa Saga de Vaughan e Staples, a ser uma das maiores e mais relevantes publicações da Image, não só por ter sido das primeiras desta nova cara da editora como também por se haver destacado em qualidade e diferença. Hickman desenhou uma Terra cuja história é bastante diferente da nossa, numa mistura de Mad Max com o relato bíblico do Apocalipse. Um dos fortes não é só o enredo mas a épica linguagem de Hickman. Os seus personagens não debitam apenas palavras mas frases de impacto shakespeariano, infinitamente citáveis (já aqui o fiz). Esta é daquelas obras que apenas podia ser feita em BD, pela escala operática, pelos diálogos grandiloquentes e pelas situações maiores que vida.

Não que The Wicked + The Divine de Kieron Gillen e Jamie McKelvie fique atrás de East of West em escala e “citabilidade” (também já o fiz aqui). Mas ao contrário da primeira, a obra de Gillen e McKelvie vem de um lugar mais reconhecível, de uma geografia mais próxima. Enquanto East of West é deliciosamente estranho, The Wicked + The Divine faz lembrar coisas como Sandman, se escrito para os “millenials”. Apesar dos deuses que reencarnam em corpos de adolescentes de 16 anos para morreram daqui a dois, a leitura é feita pelos olhos deste início de século XXI, numa cultura de ausência de privacidade, de distância dos pais, de fama e atração pelo abismo do glamour. Contudo, a análise de Gillen vai mais longe do que no simples destilar do zeigeist e dos trejeitos da adolescência “milenar”. Eles são analisados mas também são protagonistas. Os autores não se limitam a ser observadores ao estilo National Geographic, antes participam e escalpelizam, virando a sua capacidade de análise para o interior e exterior da história. Isto porque qualquer narrativa digna desse nome não deve cingir-se ao singular mas também explorar o plural sob a lupa do microscópico.

Finalmente, o OVNI que é Sex Criminals de Matt Fraction e Chip Zdarsky. A premissa se não sabem, deveriam: existem pessoas que, quando atingem o orgasmo, param o tempo. Literalmente. Sim, o conceito é estranho, kitsh e, para sensibilidades mais ténues, a roçar o mau gosto. Uma espécie de Filme de série Z (ou XXX, se quiserem). Mas Fraction e Zdarsky não descansam nos louros do impacto inicial. Sabem que não basta um “alto conceito” para conduzir a narrativa. Sem perder um átomo da beleza e da provocação (estamos a falar dos EUA, um país com uma relação curiosa – aos olhos de um europeu - com o sexo e violência), conduzem a história não só para uma análise das complexas personalidades dos dois protagonistas, como para os problemas da sexualidade, numa óptica adulta, desenvolvida e robusta (se podem considerar robusta esta análise pop da questão). Este segundo volume afasta-se um pouco da questão fantástica e foca-se na complexidade ética e moral das situações e personagens, ganhado em peso e corpo.


Três livros, três vitórias da Image. A continuar assim, a Marvel e a DC que se ponham em bicos de pés porque têm um concorrente à séria.

Secret Wars (2015), a sétima e oitava semanas.



As últimas páginas do primeiro número de Secret Wars oferecem uma derradeira e devastadora cena: a destruição completa dos universos principal e Ultimate da Marvel. No lugar destes aparece um novo mundo, uma manta de retalhos constituída por eras e universos díspares, roubados do defunto multiverso. A esse mundo deu-se o nome de Battleworld. A colecção de reinos que constituem Battleworld serão o foco, ao longo destes próximos meses, de múltiplas minisséries. Cada uma delas conta uma história singular que, contudo, não deixa de fazer parte do mosaico que é a nova realidade do universo da Marvel. 

O macro-vento de 2015 da editora americana de BD Marvel, Secret Wars, continua a somar semana em cima de semana não só da minissérie principal, onde testemunhamos as tragédias do maior vilão deste universo de fantasia, o Dr. Destino,  como em outras séries que focam os referidos diferentes reinos de Battleworld. Cada uma destas, que podemos chamar de auxiliares mas são mais complementares sem serem essenciais, faz parte de um conjunto que podemos classificar usando os nomes de personagens ou grupos de personagens que constituem o mosaico que é o universo fictício da Marvel. Temos o conjunto do Homem-Aranha, dos Vingadores, dos X-Men, do Hulk, dos "carta-fora-do-baralho" e do universo Ultimate. Esta semana, decidi usar esta abordagem para simplificar a tarefa da apreciação do que foram as várias minisséries auxiliares de Secret Wars.

Homem-Aranha

Deste conjunto, em termos de qualidade, destaco o trabalho de Slott e Kubert em Spider-Man: Renew Your Vows. Ambos os artistas conseguem agarrar em dois conceitos vilificados, o casamento de Peter Parker e Mary Jane e o nascimento da sua filha, e torná-los relevantes, emotivos e empolgantes no contexto da narrativa. Continua a ser um dos títulos mais valorosos de Secret Wars e prova de que Slott, mesmo depois de tanto que já escreveu, ainda tem muito o que dizer sobre o Homem-Aranha e a sua mitologia. Os outros dois títulos, Spider-Verse e Spider-Island, não sendo totalmente maus, também não oferecem (ainda) nada de relevante.

Vingadores

É sob esta bandeira que aparecem algumas dos mais interessantes minisséries, nomeadamente, Civil War e Squadron Sinister. A primeira é novidade e re-imagina um mundo depois da conclusão muito diferente da famosa série da Marvel onde o Capitão América e o Homem de Ferro eram antagonistas. Charles Soule continua a provar ser uma das mais interessantes imaginações desta nova leva de escritores da BD dos EUA. Squadron Sinister prossegue o que já havia inaugurado no primeiro número e com o mesmo nível de qualidade, algo que me surpreende no escritor, Guggenheim, ainda que não no desenhista, o espanhol Pacheco. Ambas as minisséries fazem bom uso desta nova realidade do multiverso Marvel para construir não só boas histórias com personagens antigos, como contos com alguma relevância moral. 

A-Force e 1871, por seu lado, pouco ou nada me disseram.

X-Men

Deste grupo, destaco Age of Apocalypse e Inferno , já que Days of Future Past e X-Tinction Agenda ainda não me satisfizeram a curiosidade. Inferno, como já tive oportunidade de escrever, oferece não só uma pequena viagem a momentos divertidos da juventude como uma história que, não sendo profunda, continua a ser bastante divertida. Cheia da típica tragédia Claremontiana (Chris Claremont, para quem não sabe, é a uma das verdadeiras cabeças por detrás do mega-sucesso que são os X-Men), acompanha personagens como Colossus e Magik, enquanto caminham inexoravelmente para um destino sem dúvida cheio de horizontes negros.  Por seu lado, Age of Apocalypse faz-me regressar a uma das sagas pós-Claremont da qual guardo melhores recordações (e um dos moldes do qual nasceu o conceito por detrás deste Secret Wars de 2015). Apesar de não ter particular fé na escrita de Nicieza aqui fez um trabalho competente.

Hulk

Com apenas uma série esta semana, Future Imperfect, continua ser uma das melhores. David e Land fazem um trabalho divertido, cheio da ironia mordaz do primeiro e dos agradáveis visuais do segundo. E é sempre bom ver o Hulk e o Coisa à porrada, mesmo não sendo as versões clássicas.

Carta-fora-do-baralho

Destaco Master of Kung Fu e Red Skull. O primeiro reinventa toda a panóplia de conceitos por detrás da mitologia de artes marciais da Marvel, desde o titular Mestre do Kung Fu até Punho de Ferro, de uma forma tão agradável que esperávamos que não acabasse finda Secret Wars. Red Skull era algo que sobre o qual não tinha qualquer tipo de expectativa, acaba por ser um primeiro número muito interessante ao nos dar uma visão diferente de um dos únicos personagens da Marvel que pode rivalizar em vilania com o Dr. Destino.

Mrs. Deadpool and the Howling Comandos é um presente leve e humorístico sem ser genial. Ghost Riders  é mediano.

Ultimate

Esta é uma daquelas minisséries verdadeiramente essenciais, principalmente para quem quiser saber o destino final deste universo onde existiram desde 2000 versões alternativas do Homem-Aranha, Vingadores, X-Men, etc. O trabalho de Bendis e Bagley está a meio caminho entre o inspirado e o competente, mas tendo em consideração estes dois talentos isto não é propriamente uma crítica. Continua a ser uma narrativa forte, se bem que fortemente alicerçada no conhecimento prévio e profundo do que veio antes. Não é um leitura fácil para o leitor ocasional, ao contrário das outras minisséries. Apenas para doutorados.

O que vou lendo! – L’Arabe du Futur de Riad Sattouf





A vida privada é um segredo que muitos optam por guardar. O artista, por seu lado, tem dificuldades em que assim seja. Mesmo que indiretamente, por intenção revelada e não declarada, acaba por verter as suas experiências e pontos de vista para a forma de expressão artística que (o) escolheu. Riad Sattouf é o caso de um homem de coragem, do estilo de artista que escolheu explanar a sua vida e, mais importante, um ponto de vista sobre a sua vida para a folha de papel, neste caso a Banda Desenhada. Não é o primeiro, claro. Lembro-me de exemplos óbvios como Satrapi com Persépolis, Thompson com Blankets ou as primas Tamaki com This One Summer. Aliás, estas autobiografias têm mais do que apenas essa linha de código genético em comum. Fazem parte de um tipo de BD já robusto, onde os autores constroem uma análise profunda da sua vida ou de um episódio da sua vida usando não só a linguagem da 9.ª Arte como também de uma linha de desenho mais cartoonesco (dos quais este L’Arabe do Futur e Persepolis são bons exemplos) ou estilizada (Blankets e This One Summer) – não deixa de ser curioso que os dois primeiros são árabes residentes em França e os segundos oriundos do continente norte-americano (Thompson dos EUA e as Tamaki do Canadá).

L’Arabe du Futur volume 1 (o segundo já saiu em França) concentra-se na infância do jovem Riad, mais precisamente entre 1978 e 1984, quando os pais, ele Sírio e ela Francesa, decidem, por iniciativa e insistência do primeiro, em viver na Líbia e depois na terra natal do progenitor. L’Arabe du Futur será uma trilogia, focando-se nos 13 anos da vida do autor passados no Médio Oriente, quando o patriotismo do pai os obriga a viver num mundo pelo qual nutre particular esperança e obstinada reverência. Existem dois aspetos que acho particularmente interessantes abordar. Primeiro, a questão de Riad ser um árabe de cabeço loiro, o que oferece a narrativa a momentos de humor, que contrastam com a vida na Líbia e Síria, constrangedora nos momentos mais leves e claustrofóbica nos piores. Por outro lado e complementarmente, o estilo de desenho cartoonesco oferece ao leitor um distanciamento aliviante face à situação que é muitas vezes desassossegada ao olhar, principalmente quando a comparamos com as informações que temos em relação ao fanatismo religioso islâmico bem como aos desenvolvimentos recentes nos dois países onde esta família viveu. Mas essa escolha estilística acaba, emocionalmente, não por afastar-nos mas aproximar da narrativa e da experiência de Riad, imerso num pai que parece cego ao desfile de misérias que se lhe passeiam pela frente e a uma mãe que, aparentemente, é distante. Contudo, desenganem-se se acham que Sattouf isenta a França do seu olhar irónico e satírico. Ainda que esses episódios sejam, neste primeiro volume, pequenos, ele não deixa de analisar de forma caustica algumas experiências passadas na terra natal da mãe relacionadas com família e com o modo como tratam-se outras pessoas - o episódio da velhota solitária é particularmente pungente, quando comparado com o modo como os idosos são tratados e vistos no Médio Oriente.


Esta é sem dúvida uma das BD do ano (ou não tivesse ganho o prémio máximo na Angoulême 2015) e, numa excepção que seria bom ser a regra, acabou de ser publicada em Portugal pela Teorema. Uma adição salutar à biblioteca lusa que aconselho mais que vivamente. Leitura obrigatória. 


Secret Wars (2015), a sexta semana


As últimas páginas do primeiro número de Secret Wars oferecem uma derradeira e devastadora cena: a destruição completa dos universos principal e Ultimate da Marvel. No lugar destes aparece um novo mundo, uma manta de retalhos constituída por eras e universos díspares, roubados do defunto multiverso. A esse mundo deu-se o nome de Battleworld. A colecção de reinos que constituem Battleworld serão o foco, ao longo destes próximos meses, de múltiplas minisséries. Cada uma delas conta uma história singular que, contudo, não deixa de fazer parte do mosaico que é a nova realidade do universo da Marvel. 

As primeiras cinco semanas deste evento deixaram-me um pouco mal habituado. A qualidade, já o disse, é surpreendentemente boa para acontecimentos deste gabarito. Todos os anos, por vezes mais do que uma vez por ano, quer a Marvel, quer a DC, "presenteiam-nos" com coisas destes tipo. Muitas das vezes, a qualidade não é a prioridade para ambas. Secret Wars, quer na minissérie principal, quer nas auxiliares, não tem sido o caso. Esta sexta semana é a que ofereceu títulos de qualidade mais variável e, regra geral, aquela que menos me entusiasmou. Claro que as coisas não devem ser vistas desta forma. Contudo, já que foi este o método que escolhi, persistirei nele, ainda que contra o meu melhor bom senso.

A Marvel conseguiu atrair alguns autores interessantes para selectas séries de Secret Wars. Apesar de trabalhar já há alguns meses em outros títulos da editora, James Robinson, do incrivelmente saudoso Starman, não deixa de ser um deles. Fui fã do seu All-New Invaders que, infelizmente, acabou cedo demais. Obviamente, estava curioso para a qualidade da escrita neste premissa tão deliciosamente pop: robôs assassinos contra super-heróis zombies. Infelizmente, este primeiro número não é surpreendente, muito à semelhança do trabalho do escritor noutra minissérie, Armor Wars, que também já não se destacava. Ainda assim, a confiança no talento de Robinson dá-me esperança.

Outro saudoso autor é Garth Ennis. Where Monsters Dwell é uma série, como já disse em relação ao primeiro número, perfeitamente talhada para e pelo autor. Repete os seus trejeitos ou, se preferirem, o seu estilo. Continua forte ainda que a repetição, por definição, não ofereça nada de singularmente novo.

Infinity Gauntlet é também um exemplar curioso ainda que não extraordinariamente empolgante. A arte é boa e a premissa, enredo e desenvolvimento de personagens oferecem algum entretenimento. Falta, contudo, um golpe de asa para me arrebatar. Ou então, pura e simplesmente, não é talhado para o meu gosto. O mesmo sentimento foi-me oferecido por Planet Hulk que, sendo interessante, não é também algo que me tenha ainda cativado. Pode ser que as conclusões de ambos sejam recompensadoras.

Esperemos que esta semana tenha sido apenas a excepção.

O que vou lendo! - Thor, The God of Thunder vol. 1 por Jason Aaron, Esad Ribic e Butch Guice

Este post é um pouco preguiçoso. Já aqui falei dos 11 capítulos que formam esta compilação de capa dura e maior formato. Contudo, a qualidade da história que o escritor Jason Aaron começou a contar exactamente nestas páginas justifica (a meu ver) uma segunda visita. A visão que tem para Thor ainda não foi totalmente descortinada, e até essa descoberta teremos sempre de refrear se não o entusiasmo pelo menos o juízo final. Se tomarmos apenas como exemplo estes primeiros capítulos poderemos ter em mãos uma das mais emblemáticas sagas do Deus do Trovão. Ou, se calhar, sou só eu. O tempo o dirá. Assim sendo, se tiveram paciência reponho abaixo os dois posts que escrevi sobre estes tais 11 capítulos, antes coleccionados em dois livros e agora compilados num único. É que ler neste maior formato é como ver um filme (qualquer filme, não só os de "acção") num ecrã gigante. Sabe a repasto e não a uma ida ao centro comercial.

Primeira parte

De vez em quando gosto de pensar que existem dois tipos de leitores no que respeita a BD de super-heróis: os que gostam do Super-Homem e os que inclinam-se para o Batman. Uns preferem seres maiores que a vida, dotados de poderes divinos, envolvidos em situações onde, permanentemente, o destino da realidade é posto em causa - estes são os do Super-Homem. Os de outra qualidade preferem heróis realistas, que poderiam existir no nosso mundo e que, diariamente, travam uma luta desesperada e trágica contra o cinza do crime nas cidades - estas são as do Batman.  Antes de continuar, os fãs de BD que me perdoem a excessiva compartimentalização. Obviamente que a apreciação da arte não passa por este preto e branco excessivo. Mas, ainda assim, existe aqui algo de verdade.

No que me toca, sempre pendi mais para o lado do Super-Homem e o Thor, livro e personagem que me trouxeram a este post, tende claramente para o lado cósmico do arquétipo do super-herói. Neste sentido, este primeiro volume do trabalho de Jason Aaron e Esad Ribic é um soberbo exemplar da capacidade que a BD tem em superar os limites da Prosa e do Cinema e contar uma história verdadeiramente cósmica em escala, linguagem e alcance. O enredo atravessa o tempo e o espaço, focando-se em três épocas da vida do Deus do Trovão enquanto este confronta um ser demoníaco e hiper-poderoso cujo objectivo é claro no título do livro: exterminar todos os panteões de deuses do universo. Ênfase em universo. Pela primeira vez (pelo menos tanto quanto é do meu conhecimento) aparecem nas páginas do personagem outros panteões que não apenas os terrenos. Aaron delicia-se em criar múltiplos deuses, espalhados pelos cantos do cosmo e alvo da adoração de uma multitude de povos alienígenas. Para completar o quadro, a linguagem tipicamente  visceral que costuma aplicar aos seus diálogos e exposições é aplicada a longos momentos de exploração cosmogónica. Existe prazer nesta descoberta, particularmente deliciosa para quem o lê, tendo em consideração outras obras mais "urbanas" que caracterizaram anteriores explorações do autor (portanto, estilo Batman): Wolverine e Punisher, por exemplo. A aproximação rude que Aaron faz aos personagens, que geralmente são duros e másculos, aplica-se na perfeição a Thor, que podemos ver como o guerreiro definitivo. De facto, existe no personagem e no autor uma salutar combinação, como se ambos tivessem destinados em se encontrar. Visceralidade misturada com Divindade, à boa maneira do povo que adorava Thor, os Vikings.

Segunda parte

Godbomb completa, de forma verdadeiramente épica, os eventos que começaram nos primeiros capítulos. A batalha final de três versões do Deus do Trovão, uma do passado, outra do presente e uma do longínquo futuro, contra o "Chacinador de Deuses", desenrola-se no palco mais que apropriado para estas mitologias: o cósmico. Toda a grandiloqüência de combates maiores que a vida, toda a fúria tonitruante, todo o poder titânico, foi concentrado pelas palavras de Aaron e pela arte de Ribic em onze capítulos que, muito sinceramente, já vigoram (no que a mim diz respeito) nos melhores contos de Thor.

Muito raramente uma voz poderia colar tão bem com as palavras e ações de um personagem. Aaron é perfeito para Thor e para o seu universo, misturando masculinidade, belicismo medieval, orgias, bebedeiras e combates, num cozinhado de puro entretenimento. Ao mesmo tempo, mistura uns pós de reflexão suave que constroem um conto que vai para além dos limites do filme-pipoca. Ribic, por seu lado, com desenho limpo e cenários mitológicos, é a escolha acertada para o escritor e personagem. 

Agora que já se prepara o terceiro filme protagonizado por Thor, inspirado na lenda Viking de Ragnarok, o crepúsculo dos deuses, tenho uma sugestão a fazer. Quando estiverem a pensar no quarto filme das aventuras do Deus do Trovão na 7.ª Arte, não vão muito mais longe que estes primeiros onze capítulos do trabalho de Jason Aaron. Tudo é perfeito para o cinema: uma história direta e pouco alicerçada na complicada continuidade do personagem; cenários maiores que a vida; combates épicos; um vilão tenebroso. Não mudem as palavras, não medem quase nada. Não vale a pena. Aaron e Ribic já fizeram o trabalho mais difícil. É só copiar e não estragar. 

Secret Wars (2015) número 3

(este post contém alguns spoilers para números anteriores da série, sobre os quais já aqui escrevi)

A Marvel, tal como a conhecemos hoje, uma casa de super-heróis, começou no ano de 1961 com a revista do Quarteto Fantástico. Para quem não conhece, esta representou uma pequena mudança de paradigma, ao focar-se em quatro pessoas que eram muito mais que companheiros ocasionais de aventuras, como a Liga da Justiça da DC: eles eram uma família. Meros cinco números depois desta estreia aparecia o Dr. Destino (Dr. Doom no original),  o vilão que, com o passar dos anos, não só revelar-se-ia como o maior dos antagonistas destes heróis e um dos maiores da Marvel mas, mais importante, também como uma espécie de quinto membro da equipa, parte integrante da mitologia e da família (para quem acredita em numerologia e misticismos existem aqui sincronicidades). De facto, já na primeira década deste século XXI, Doom seria o padrinho de Valeria, o segundo filho do principal casal do Quarteto Fantástico, Reed Richards e Susan Storm. Esta pequena introdução aos personagens serve para vos situar um pouco melhor neste Secret Wars de 2015, escrita por Jonathan Hickman e desenhada por Esad Ribic. O motor da narrativa é exactamente a trágica figura de Victor Von Doom, agora literalmente Deus da realidade resultante da destruição do universo principal da Marvel no número um da série. Ou seja, quem melhor para fechar o universo anterior do que o seu maior vilão? Que melhor forma de fechar a mitologia anterior do que recorrer às figuras que abriram as suas portas em 1961? (não, aqui não existe misticismo, é mesmo intenção).

O que Hickman está a tecer neste Secret Wars é, até agora e na minha opinião, algo raramente visto na BD de super-heróis. Como mesmo os ocasionais leitores devem saber, são comuns estes eventos pancósmicos que colocam em perigo mais do que vidas, colocam em perigo a própria existência, o tecido da realidade. Mas, paradoxalmente ou, se calhar, até não, a qualidade é muitas vezes deficitária, isto para ser simpático (vejam Convergence da DC, o evento desta editora de 2015). Não é de todo o caso de Secret Wars. Repito: não é de todo o caso de Secret Wars. A qualidade da escrita é verdadeiramente acima do normal. O desenho de Ribic poderá vir a colocá-lo lado a lado com A referência destes eventos: George Pérez. Para mim, é tão bom assim. E (apontamento) estamos aqui a falar de puro entretenimento. 

O terceiro número é mais do mesmo, ou seja, uma história empolgante que desenha palcos titânicos de teatralidade cósmica, sem se esquecer das personalidades que fazem a narrativa, figuras trágicas de moralidade dúbia. Volta-se o enfoque para a figura divina de Doom, do seu companheiro mais próximo, o mais poderoso místico da Marvel, o Dr. Estranho, bem como na relação do primeiro com a sua "família": sim, o Quarteto Fantástico. Uma vez mais reitero que revelar mais será estragar a surpresa mas, pela primeira vez na história da Marvel, é revelada em toda a sua clareza a face de Doom, num dos momentos mais marcantes da narrativa mais profunda de Secret Wars, um estudo da intrigante personalidade do maior vilão da Marvel.

Hickman e Ribic parecem estar a tecer um dos mais relevantes momentos da história desta editora de super-heróis. É esperar que assim continuem.

O que vou lendo! - Les Vieux Fourneaux volumes 1 e 2 de Wilfrid Lupano e Paul Cauuet




Eu sou de Portugal e da Europa. Existe um indizível que nos diferencia e distancia de outras culturas. Mesmo daquelas que, à partida, poderíamos dizer não serem muito distantes. Como, por exemplo, a estado-unidense. Mas, na realidade, mesmo esta não partilha de todos os valores que nós acarinhamos, a mesma relação com o social, com o monetário, com a geografia. Hoje em dia, somos bombardeados pela aclimatação cultural que lugares comuns como Hollywood tentam fazer passar. Aos poucos e poucos achamos que os referências do outro lado do oceano são as nossas. Contudo, mesmo que momentaneamente, somos por vezes confrontados com referenciais mais próximos e um aconchego apodera-se de nós. Reconfortamo-nos em pequenas coisas que identificamos como nossas. Mais próximas do que aquilo que julgávamos próximo. Se olharmos para um filme francês, garanto-vos que sentimo-nos mais perto das pessoas e das situações do que em qualquer outro de origem americana. A forma como comem, o que comem, o modo como se vestem, o modo como se relacionam socialmente. Tudo é mais parecido com o que nós fazemos. Paris está mais próximo do que Nova Iorque. Entendem?

Durante anos fui leitor quase exclusivo e ávido de Banda Desenhada dos EUA. Gosto da mitologia. Gosto da linguagem. Gosto tanto da qualidade que têm como da telenovela que perpetuam. Recentemente, tenho tentado não me limitar tanto e aberto os olhos (e a bolsa e o espaço cá de casa) a alguns exemplares de BD franco-belga. Este ano, em Angoulême, cruzei-me com Les Vieux Fourneaux, que havia vencido o prémio de público deste famoso festival. Atiçado pela curiosidade devorei os dois primeiros volumes (ainda que lentamente, já que o meu francês não é o melhor, mais ainda se se considerar que ambos os tomos abundam de expressões idiomáticas e calão). É a história de três amigos de longuíssima data, antigos lutadores sindicalistas na década de 60, que se reúnem no funeral da mulher de um deles, também ela companheira de lutas proletárias. Ao mesmo tempo, temos a jovem neta da falecida, grávida, que os acompanha em duas aventuras diferentes, cada qual focando-se no passado dos irascíveis velhotes. Usando de humor misturado com crítica social, ambos ao autores apontam um olhar divertido mas relevante às manias de duas gerações tão diferentes. Uma que, aparentemente, sempre lutou para cada centímetro de conquista. Uma outra mais indulgente. Contudo, a delícia da reflexão bem humorada de ambos os volumes reside no facto de que, se calhar, os papéis não são bem esses. Quem sabe não serão mesmo invertidos.

Os dois autores utilizam o choque de gerações de forma pouco ortodoxa, não procurando uma reflexão extraordinariamente profunda mas também nada pueril. Tudo ambientado de forma muito reconhecível para portugueses (daí o meu primeiro parágrafo). Na geografia. Na gastronomia. Na política. Aguarda-se a coragem de publicar estes volumes em português.

Justice League, número 41 por Geoff Johns e Jason Fabok

Todos procuramos momentos de prazer. Na comida que comemos. Nas pessoas com quem convivemos. Para os adoradores da leitura é um deleite supremo quando nos deparamos com algo que achamos particularmente bem escrito, bem estruturado e entusiasmante. Isso pode vir da arte de bem escrever ela própria  ou, pura e simplesmente, de um prazer pop que advém dos lugares mais íntimos. Ou, no melhor de todos os mundos, pode provir dos dois. E assim termino a introdução para este Justice League número 41 pelas mentes de Geoff Johns e Jason Fabok.

Geoff Johns não é um escritor de excepção. Ele não esconde não ter qualquer tipo de ambição para além de uma relação popular com o leitor de BD. Não é Alan Moore ou Jodorowsky. Nesse sentido, quando se lê o trabalho deste escritor não se espera muito para além de um controlo acima da média da arte de bem contar uma história de super-heróis. Quem já leu os poucos trabalhos de Johns fora deste tipo sabe do que falo. Contudo, ano após ano, trabalho após trabalho, tem conseguido merecer o título de um dos mais entusiasmantes escritores de BD das mulheres e homens de collants. Até recentemente o seu produto na já longa saga da Liga da Justiça não era dos melhores exemplos do que acabei de referir. Até chegar Darkseid War, a saga que começa em força neste número 41 e que os leitores deste blog já conhecem (leiam aqui o que escrevi) e conhecem o entusiasmo com que aguardava o seu despoletar.

Para os que não estão dentro da minha cabeça é difícil reproduzir a alegria infantil que foi finalmente poder ler esta história. Nela conjugam-se, para mim, quase todos os elementos que contribuem para uma boa história de super-heróis: uma ameaça cósmica que põe em risco toda a realidade; a junção dos maiores arquétipos do super-herói, os mais reconhecíveis, numa única equipa e contra a dita ameaça; enfoque num dos meus personagens favoritos deste mundo literário, Diana de Themyscira, a Mulher-Maravilha.  Claro que, facilmente, poderia descambar para um clássico caso de expectativas muito altas que saem defraudadas. Nada disso. Foram amplamente atingidas em esplendorosas 40 páginas da arte suprema de bem fazer BD de super-heróis. 

Existem todos os elementos que desenham a assinatura de Geoff Johns: o enfoque nas personalidades dos personagens, com momentos exemplares que envolvem Shazam, Super-Homem/Lex Luthor,  Darkseid, Mister Miracle e, claro, a Mulher-Maravilha; enredo cheio de surpresas; escala cosmogónica; em suma, momentos de tirar o fôlego. Isto é o que a BD de super-heróis deve (por vezes) almejar ser: alicerçada num longo historial sem detrimento de novos leitores mas também nunca dos velhos; orçamento ilimitado pela imaginação; seres arrebatadamente puros e bons a enfrentar outros tenebrosamente maléficos - uma ópera do Bem contra o Mal, com o destino do espaço-tempo nas mãos de ambos. A DC Comics quando quer, e porque tem os tais maiores arquétipos, os mais tenebrosos dos vilões, consegue isso de uma forma deliciosa. Este início da Darkseid War  é isso mesmo. Aplausos. 

Secret Wars (2015), a primeira e segunda semana.


Em posts anteriores falei do primeiro e segundo números do evento da Marvel em 2015, aquele que promete mudar o universo desta editora: Secret Wars, cortesia dos talentos Jonathan Hickman e Esad Ribic. Todos os anos as duas maiores produtoras de mitologias de super-heróis do mundo publicitam que o evento desse ano será aquele que, para sempre e de forma irrevogável, irá modificar a geografia cosmogónica dos seus universos. Na maior parte das vezes, essas mudanças ou não são tão radicais quanto anunciado ou as modificações são eliminadas pouco tempo depois. Contudo, e até prova em contrário, parece que este ano as coisas serão efectivamente diferentes. Muito à semelhança da única história que verdadeiramente mudou o panorama do seu universo de super-heróis, Crise nas Terras Infinitas, e no ano em que faz 30 anos, quer a DC, quer a Marvel, parecem empenhadas em homenagear este clássico de Marv Wolfman e de George Pérez. A DC escolheu fazê-lo com Convergence (do qual tenho falado extensivamente aqui). Para a Marvel parece ser Secret Wars.

(para quem não leu os dois primeiros números da minissérie principal, a partir daqui existem alguns spoilers)

As últimas páginas do primeiro número de Secret Wars, e tal como prometido pelos autores, oferece uma derradeira e devastadora cena: a destruição completa dos universos principal e Ultimate da Marvel. No lugar destes aparece um novo mundo, uma manta de retalhos constituída por eras e universos díspares, roubados do defunto multiverso. A esse mundo deu-se o nome de Battleworld. A coleção de reinos que constituem Battleworld serão o foco, ao longo dos próximos meses, de múltiplas minisséries. Cada uma delas conta uma história singular que, contudo, não deixa de fazer parte do mosaico que é a nova realidade do universo da Marvel (vejam a imagem abaixo para mais detalhes da geografia). Nas duas primeiras semanas foram já lançadas um total de 15 novas séries. A primeira impressão que posso vos oferecer é que, de uma forma geral, a qualidade é claramente superior aquela que a DC nos ofereceu em Convergence. A razão reside, acima de tudo, no talento e na liberdade que o mesmo teve para contar o seu lado desta macro-história. Uma macro-história iniciada há uns anos atrás pela mente insana de Jonathan Hickman nos Vingadores. Tudo planeado de forma exaustiva, o escritor sabia que a estrada terminava em Secret Wars. A editora e os criadores de diferentes títulos sabiam que o fim do universo Marvel estava à porta e prepararam-se para isso.

Não gosto de falar dos títulos que apreciei menos, portanto não vou dedicar muito tempo aos mesmos. Contudo, quero fazer um reparo antes de avançar. Ainda não tive oportunidade de ler Ultimate End porque estou à espera de conseguir ler os números de Miles Morales que precedem esta série. Dito isso, destaco desde já o maravilhoso primeiro número de Old Man Logan que, sem surpresas, destaca-se de forma soberba. Bendis na escrita e, principalmente, Sorrentino nos desenhos são excepcionais. A artista já tinha dado prova no Green Arrow de Jeff Lemire e aqui continua sem interrupções a entregar alguma da melhor arte na BD americana actual. Fiquei particularmente impressionado com Inferno de Dennis Hopeless e Javier Garrón, não só pela qualidade do trabalho de ambos mas também por um pequeno toque de nostalgia. Para quem anda nestas andanças da BD dos X-Men há alguns anos, é interessante regressar a este evento do passado. Tal como acontece em muitas das séries de Secret Wars, parte-se do pressuposto que o final de uma determinada história do passado da Marvel não foi o contado - uma espécie de "O que aconteceria se?...". Neste caso, os vilões venceram e os mutantes mais famosos do mundo têm que arcar com as consequências de um mundo ameaçado por demônios. Outras séries das próximas semanas seguirão o mesmo caminho mas com outros momentos da História dos X-Men e não só. Infinity Gauntlet, neste sentido, acaba por ser uma agradável surpresa. De facto, a história anda à volta das Gemas do Infinito e de Thanos, mas num mundo onde ele não é o seu supremo governante nem tampouco estamos inteiramente a par do que realmente ocorreu neste reino de Battleworld. De destacar os maravilhosos desenhos de Dustin Weaver. Outra agradável surpresa é Inhumans: Attilan Rising que, ao contrário de outras séries, escolhe o caminho da relevância (ou pelo menos assim parece) no macro-contexto de Secret Wars. Tudo é arquitectado de forma simples e sóbria, sem esquecer o puro valor de entretenimento que o evento deve ter. Também é agradável ver Garth Ennis, o famoso escritor de Preacher, a regressar à Marvel com Where Monsters Dwell, que parece oferecer um cenário ideal para o escritor: aviões da Primeira Guerra Mundial e dinossauros. Ainda que este primeiro número não tenha sido excepcional já que Ennis parece continuar a escrever os mesmos (detestáveis) personagens, não deixa de ser prosa deste escocês, que é melhor que muita outra prosa. Finalmente, destaco os esforços interessantes de Master of Kung Fu (com um dos meus mais saudosos personagens - quem não adora esta série da década de 70?), Planet Hulk e Battleword, que culminam as séries (bem visto, quase todas) de que mais gostei nestas duas primeiras semanas.

Secret Wars, apesar de aludir à primeira série-evento da Marvel, a homónima da década de 80, é também uma carta de amor de Hickman a Crise nas Terras Infinitas. Estamos defronte da filha destas duas emblemáticas histórias. Esperemos que continue no excelente caminho destas duas primeiras semanas.

(NOTA - Gostaria de ter falado do facto de Battleworld se assemelhar a Westeros das Crónicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin, mas isso fica para a próxima vez. O post já vai longo demais)




Convergence, oitava e última semana.


(este post contém pequenos spoilers)

Chegou ao fim. O evento DC Comics de 2015 fechou as cortinas mas não sem antes revelar uma mudança na mitologia do universo ficcional da editora. Não sei se estarei a fazer um grande spoiler mas aqui fica o aviso. A mudança é, basicamente, a abertura das portas para todas as histórias que aconteceram. Não existem mais limites - dizem eles. Quem quiser regressar a qualquer ponto da história da DC poderá fazê-lo - pelo menos é o que sites como Newsarama dizem, porque não achei que a conclusão possa ser assim tão taxativa. Contudo, se admitirmos que sim e tendo em consideração o que até já escrevi esta semana só posso ficar contente. O que, há décadas, os fãs do multiverso da DC pediam finalmente aconteceu. É verdade que (aparentemente) ainda não existem novas séries que recuperem velhas histórias e velhas interpretações dos personagens mas, a partir de ontem, as portas estão escancaradas a propostas. Querem uma revista com a Sociedade da Justiça original, a publicada pela primeira vez na década de 40? Ou quem sabe mesmo o All-Star Squadron de Roy Thomas? Querem regressar ao Super-Homem de John Byrne, a Mulher-Maravilha de George Pérez ou o Batman de Frank Miller? Querem a Justice Legion Alpha do século 853 criada pelo brilhante Grant Morrison? Pois muito bem. A partir de ontem é possível (já agora, estes títulos seriam algo que eu não me importava nada de ler). Tudo isto é exequível com a conclusão de Convergence e depois de um evento muito importante que ocorre na história (do qual não vou estragar a surpresa).

Mas, já agora, e a qualidade da Banda Desenhada propriamente dita? Apesar de a resposta a esta questão ser pouco relevante não o deveria ser. O que escrevi durante estas sete semanas continua a valer mesmo com a publicação do último capítulo. Não só a escrita e desenho não se vestem da importância do evento como este poderia ter sido contado em metade das páginas. Apesar de a conclusão ser satisfatória, ou seja, não concluir fazendo alusão, como tem sido apanágio de outros eventos, ao megaevento que deverá vir a seguir, alguns mistérios ficam por resolver: qual o verdadeiro nome de Telos? Qual o destino final de seis personagens em particular no final de Convergence?

As minisséries auxiliares, naturalmente, também concluem. Esta semana dizem respeito a vários dos conceitos pré-Crise nas Terras Infinitas, especialmente a saudosa Terra-2, onde residem as versões originais de todos os mais conhecidos personagens da DC. Outras Terras fazem a sua aparição, especialmente aquelas que foram “definitivamente” eliminadas na mesma Crise, e são visitadas com diferentes graus de sucesso e qualidade. Por motivos meramente nostálgicos gostei de rever a Infinity INC (que tem uma conclusão que poderá originar histórias entusiasmantes) e a Sociedade da Justiça, ainda que a primeira não me tenha estimulado particularmente. O mesmo não se pode dizer da despedida (pelo menos por agora) da Sociedade da Justiça original, num número particularmente bom e cativante. Um adeus que não envergonha os vetustos heróis. Um dos números que parece ter particular relevância, não só para este evento como para futuros, será o dedicado a Booster Gold. O personagem sofre uma evolução significativa que os fãs reconhecerão e cujas implicações são uma incógnita. Mas a história desta semana que merece o título da que mais gostei é Shazam. Nunca fui um assíduo leitor das aventuras destes personagens mas Jeff Parker e Evan Shaner fazem um trabalho exemplar, recheado de saudade e novidade, se é que pode conciliar-se estes dois elementos. A DC tem nestes dois nomes a oportunidade de continuar a explorar a Terra-S, que havia desaparecido desde a Crise. É curioso que a Família Marvel tenha tantos adeptos e que a sua mitologia se ofereça a tantos esforços de qualidade. Já Grant Morrison os tinha explorado carinhosamente no Thunderworld em Multiversity. 
Convergence acabou. Vida longa ao multiverso da DC. Já não era sem tempo que regressasse em toda a sua glória – ainda que com Multiversity e Justice League já o soubéssemos.

Miracleman - Olympus de Alan Moore e John Totleben

Esta semana, um actor com fortes credenciais geek, Simon Pegg, veio criticar a excesso de infantilização do Cinema, com os seus super-heróis e os seus franchises (leiam o artigo que é francamente interessante e, apesar de estar a falar um pouco contra mim, cheio de verdades). De facto, existe um apelo forte às gerações das décadas de 70 e 80 para recuperar a sensação dos brinquedos e dos livros que nos davam prazer na infância, uma busca hedonista de um período para sempre mais feliz (?). Um período com o qual, para muitos, é impossível competir. Não deveria, vou ser claro. Como para outros que partilham comigo o amor à Banda Desenhada e a tantas outras coisas que nos são caras, esse amor não deveria ofuscar a busca por narrativas complementares diferentes, que nos fazem sair do cobertor confortável. Deveremos defender sempre a nossa dama, claro, mas não às expensas de outras buscas.

Ora, esta procura da reprodução de quando éramos putos não é de todo descabida. Bem vistas as coisas, é qualquer coisa como uma droga que activa os centros de prazer certos, uma injecção de dopamina. Mas não tenhamos dúvidas que é muito difícil atingir este Nirvana, este El Dorado, este cobertor maternal. Que conjugação caótica de elementos e circunstâncias têm de ser conseguidos para aqui chegar? Que acaso e azar tem de ser orquestrado? Eu digo-vos o que tem sido para mim: Miracleman de Alan Moore. Que prazer imenso, que hedonismo puro, que abandono emocional e intelectual.  E, ainda por cima, vindo de um livro publicado há mais de 30 anos, cuja lenda já me tinha chegado aos ouvidos mas com a qual ainda não tinha tido o prazer de contactar. 

É possível que eu não consiga recomendar suficientemente bem este livro. É tão bom que dói. Principalmente pela intrínseca qualidade e talento de todos os envolvidos mas também por ser possível ver a BD dos 30 anos que se seguiram. Alan Moore e John Totleben seguiriam para Swamp Thing depois disto e, finalmente, percebo porquê. Percebo a idolatria de tantos em relação à obra que termina com este terceiro volume. Isto é um regresso à infância temperado pela maturidade, se é possível conciliar tanta coisa inconciliável.