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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, mas só agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana temos sugestões para todos os gostos e sensibilidades e, no fundo, para quem só gosta de ler um bom livro.

Secret Wars (2015), números sete, oito e nove

(leiam aqui posts anteriores sobre esta série)


(contém spoilers para os números anteriores da série)

As últimas páginas do primeiro número de Secret Wars oferecem uma derradeira e devastadora cena: a destruição completa dos universos principal e Ultimate da Marvel. No lugar destes aparece um novo mundo, uma manta de retalhos constituída por eras e universos díspares, roubados do defunto multiverso. A esse mundo deu-se o nome de Battleworld. O seu Deus é Victor Von Doom, salvador do multiverso, Regente Supremo e ex-maior vilão dos universos desaparecidos, o Dr. Destino.

Todos os leitores de BD de super-heróis sabem-no: estas histórias nunca irão acabar. Existirá sempre uma última página que revelará uma ameaça maior, um mistério por resolver. O enredo continuará e continuará até à última folha de um livro que ainda não foi escrito e que provavelmente nunca o será. É a natureza da coisa. Os leitores de longa data já o sabem. Faz parte do contrato. E ainda bem que assim o é. Nunca esperei que este Secret Wars de Jonathan Hickman e Esad Ribic fosse ser diferente.  Em muitas e muitas formas não o é. A História do Universo da Marvel vai continuar. Contudo, existem pequenas coisas em que acaba por sê-lo. Diferente, quero eu dizer.

Um dia destes, como em muitas outras obras de BD que esticam-se pelos meses e pelos anos, terei de reler este Secret Wars. Para saber se sobrevive à minha busca de unidade. Apesar de ser pelos mesmos autores, a necessidade de capítulos mensais poderá obrigar a um certo compasso dissonante, o que acontece muitas vezes na busca de "prender" os leitores todos os meses. Será por isso que achei os capítulos sete e oito um pouco menos encorpados que anteriores, onde Hickman e Ribic perdiam-se em criatividade na cosmogonia do Universo da Marvel. Pareceram-me um pouco mais orientados para a acção e menos para as deambulações quase esotéricas do escritor. Eu sei que isso é obrigatório na literatura de super-heróis, mas estava já tão habituado à qualidade dos capítulos anteriores e fiquei mimado. Provavelmente, a decisão de criar um capítulo adicional à saga tenha sido prematura. O tempo o dirá.

O que interessa, contudo, é como as coisas acabam. Só assim poderemos saber então se valeu a pena. O nono e último capítulo acaba por ser uma curiosa surpresa. Um conto desta escala, com o destino do Real em jogo, corre sempre o risco de tornar-se obeso e operático, no pior sentido que estas palavras podem ter. Traduzindo por miúdos: afastar-se do humano. Hickman e Ribic escolhem um outro caminho. Escolhem enquadrar o conflito na mais velha rivalidade do universo Marvel: Reed Richards / Sr. Fantástico vs Victor Von Doom / Dr. Destino. Eles foram os primeiros e mais fortes antagonistas deste mundo ficcional. Uma luta de dicotomias. Um confronto ideológico e primal. É, portanto, apropriado que as últimas páginas deste Secret Wars, que pretende ser a elegia do antigo universo Marvel, contenham o derradeiro confronto entre estes dois adversários. E é também apropriado o destino (perdoem o trocadilho) escolhido para o vilão e para os heróis, o Quarteto Fantástico, equipa da qual Richards é líder e mentor. Neste sentido, Secret Wars parece funcionar bem como o fechar da cortina do universo Marvel, para aqueles que foram os primeiros a pisar o seu palco. 

A revista do Quarteto Fantástico foi a primeira e mais inovadora desta editora. Aquela que, sob o génio de Stan Lee e Jack Kirby, criou uma inteira mitologia e cosmogonia. Exibia mesmo o epíteto de "melhor BD do mundo". Ultimamente vivia apenas da glória destes tempos idos. Secret Wars, além dos propósitos mais comercias, acaba por ser um adeus a este primeiro grupo de super-heróis. Teve falhas mas foi, para mim, uma das mais bem conseguidas sagas deste estilo feita nos últimos tempos. 

Agora, a história vai continuar e continuar e continuar...

Secret Wars (2015), número seis, de Jonathan Hickman e Esad Ribic

(este post contem spoilers para os cinco primeiros números da série Secret Wars)

As últimas páginas do primeiro número de Secret Wars oferecem uma derradeira e devastadora cena: a destruição completa dos universos principal e Ultimate da Marvel. No lugar destes aparece um novo mundo, uma manta de retalhos constituída por eras e universos díspares, roubados do defunto multiverso. A esse mundo deu-se o nome de Battleworld. O seu Deus é Victor Von Doom, salvador do multiverso, Regente Supremo e ex-maior vilão dos universos desaparecidos, o Dr. Destino.

Esta saga estava prevista serem oito números mas foi expandida para nove, o que atesta a escala do que Hickman e Ribic querem deixar como herança. Como já o disse em artigos anteriores, a tarefa a que os autores se propõe é complicada: construir uma saga/evento/marco histórico no universo da Marvel que rivalize com a seminal Crise nas Terras Infinitas da DC Comics. O caminho não era fácil mas, até este sexto capítulo, parecem estar no caminho certo. Se no final atingir o mesmo patamar do desenrolar da história até este momento teremos uma das mais interessantes macro-narrativas que tão bem exemplificam o que de melhor a mitologia dos super-heróis tem para nos oferecer: personagens e cenários maiores que a vida; destino da realidade constantemente posto em causa; escala cosmogónica do conflito. 

Ainda assim, Hickman consegue, à boa maneira do "estilo Marvel", alicerçar o âmago da narrativa em personalidades e cisões ideológicas, fornecendo, ao mesmo tempo, uma escala humana e trágica. Isto porque, também como já referi, este é um estudo de um dos mais interessantes personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby, Victor Von Doom, Dr. Destino, o maior inimigo dos primeiros heróis da Marvel, o Quarteto Fantástico. Apesar de Doom ser, há muitos anos, o alvo de muitas histórias, este Secret Wars arrisca-se a ser o mais elevado momento da sua carreira. Hickman entretece todo um amplo conjunto de eventos e análises de modo a criar tensão com entretenimento e profundidade conceptual. Mas não é só de Doom que Secret Wars trata. É também da "família Quarteto Fantástico", dos sobreviventes dos defuntos universos, da sua luta para restaurar a ordem anterior e das intrigas palacianas para tomada do poder de Deus, perpetradas pelos piores seres que nasceram da imaginação dos inúmeros criadores da Marvel ao longo de 50 anos. E Hickman e Ribic controlam todos estes novelos de forma limpa e legível. Neste sexto número em particular, os estratagemas adensam-se e, num momento de puro "geekismo" envolvendo o Pantera Negra e Namor, a narrativa cresce em emoção e escala (os que achavam que isso não era possível não conhecem super-heróis nem o talento de Hickman). Paulatinamente, os elementos congregam-se para o fechar da cortina que espera-se verdadeiramente épico.

Até este momento, a versão de 2015 de Secret Wars é um triunfo e umas das melhores BD's do género deste ano. E, quem sabe, mesmo uma das melhores histórias que li em 2015, ponto final.

Secret Wars (2015) número cinco de Jonathan Hickman e Esad Ribic

(contém spoilers dos quatro primeiros números da minissérie)

Sou doido por uma boa Cosmogonia. Deliro com rebuscados relatos rocambolescos das múltiplas mitologias mundiais. Quanto mais empolados melhor. Quanto mais grandiloquentes melhor. Gosto das guerras entre deuses, gosto das explicações elaboradas para elucidar o mistério de quem criou o Universo (ou o Multiverso) e de como o criou. Adoro o Ainulindalë de Tolkien, adoro o Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro que coleciona, nos primeiros capítulos, diferentes Cosmogonias de diferentes culturas e adoro a intrincada explicação do nascimento do multiverso da editora de BD DC Comics (recentemente aprimorada no Multiversity e na Justice League dos escritores Grant Morrison e Geoff Johns, respectivamente).

Há algum tempo li uma entrevista de Jonathan Hickman, a mente criadora deste Secret Wars da Marvel, onde dizia que o número cinco seria um dos mais importantes momentos da história. Devido ao trabalho feito nos Vingadores, a minha expectativa em relação a uma verdadeira Cosmogonia da Marvel é elevada. Não que a editora não tenha uma, mas não recordo ter sido contada como o foi na DC. Sempre pareceu-me mais espartilhada. Teríamos de coleccionar pedaços aqui e ali. Recordo-me do relato da Eternals Saga publicada na revista do personagem Thor, mas muito centrada nesse personagem (já foi retractivamente eliminada várias vezes). Ou poder-se-ia confundir com a origem de Galactus, publicada também nas saudosas histórias do Thor por Jack Kirby e Stan Lee. Ora, estava com esperança que o número cinco pudesse ser este relato. O problema é meu, claro, mas esta expectativa diminui um pouco o prazer de o ler.

Não deixa de existir uma Cosmogonia neste quinto capítulo mas centrada no novo universo criado pelo Deus Doom (Dr. Destino). São revelados pontos importantes relativamente ao nascimento da nova realidade da Marvel mas o mais interessante é a continuada exploração da personalidade de Destino. Secret Wars de Hickman é, de forma assumida, isso. Na sequência dos trágicos acontecimentos do número quatro, ocorre um delicioso diálogo entre o herói/vilão e a sua filha adoptiva, Valeria Richards, que espelha o gigantesco ego e (no fundo) a insegurança do personagem que, sem dúvida, ditará a sua tragédia e queda. Obviamente, o enredo terá de avançar e existem algumas fraquezas na procura de equilíbrio entre o avançar da história, descortinar das personalidades e deambulações do autor. Contudo, face ao panorama passado de sagas desta envergadura na literatura de super-heróis, Secret Wars continua a ser um dos melhores exemplos. Um bastião de qualidade autoral raramente conseguido, quer do ponto de vista de Hickman, quer de Ribic, uma força da natureza muito apropriada ao épico da história.


Agora, era tão bom que antes do último capítulo tivéssemos uma Cosmogonia à séria.

O que vou lendo! – East of West vol. 4, Sex Criminals vol. 2 e The Wicked + The Divine vol. 2



Para quem lê Banda Desenhada dos EUA é hoje impossível escapar ao peso da Image, a editora independente que tem, paulatinamente, começado a dar cartas. Apesar de haver iniciado a sua actividade nos princípios da década de 90, em pleno boom da BD, demorou quase duas décadas a mudar a agulha, desfocando-se do negócio controlado pela Marvel e DC, o dos super-heróis, e preferindo o trabalho de autor. Nos últimos anos, inaugurou uma relação com os criadores que modificaria não só a sua actividade e o seu catálogo, como também o modo como toda a 9.ª Arte dos EUA ver-se-ia. Obviamente que o sucesso dos filmes e séries de TV ao estilo BD (como The Walking Dead, por exemplo, que pertence à Image), com todas as compartidas financeiras daí advidas, estimulou uma nova aproximação, mas não só. Por um lado, os criadores estão a ficar cansados que as suas histórias, por mais bem recompensadas que sejam, não fiquem como propriedade intelectual sua. Exemplos como o de Jack Kirby ou dos criadores do Super-Homem foram rastilho para uma posição menos inocente. Por outro lado, a narrativa dos super-heróis, querida a muitos, sem dúvida, começa a ser vista como não sendo a única capaz de atrair a atenção do público. Assim, movimentos que já existiam há décadas consolidaram-se recentemente e adquiriram uma dimensão nunca conhecida nos EUA. E a Image é um dos maiores porta-estandartes deste novo paradigma.

Qualquer uma das três BD’s de que falo neste post é não só exemplo da “filosofia Image” como da qualidade e idiossincrasia dos autores envolvidos. Apesar de muitos criadores dos EUA ainda terem alguma dificuldade em sair da arena da Fantasia e mesmo de alusão tangente ao super-herói, as três obras conseguem abordagens e temáticas tão díspares quanto o são as personalidades dos autores. East of West de Jonathan Hickman e Nick Dragotta continua, junto com a famosa Saga de Vaughan e Staples, a ser uma das maiores e mais relevantes publicações da Image, não só por ter sido das primeiras desta nova cara da editora como também por se haver destacado em qualidade e diferença. Hickman desenhou uma Terra cuja história é bastante diferente da nossa, numa mistura de Mad Max com o relato bíblico do Apocalipse. Um dos fortes não é só o enredo mas a épica linguagem de Hickman. Os seus personagens não debitam apenas palavras mas frases de impacto shakespeariano, infinitamente citáveis (já aqui o fiz). Esta é daquelas obras que apenas podia ser feita em BD, pela escala operática, pelos diálogos grandiloquentes e pelas situações maiores que vida.

Não que The Wicked + The Divine de Kieron Gillen e Jamie McKelvie fique atrás de East of West em escala e “citabilidade” (também já o fiz aqui). Mas ao contrário da primeira, a obra de Gillen e McKelvie vem de um lugar mais reconhecível, de uma geografia mais próxima. Enquanto East of West é deliciosamente estranho, The Wicked + The Divine faz lembrar coisas como Sandman, se escrito para os “millenials”. Apesar dos deuses que reencarnam em corpos de adolescentes de 16 anos para morreram daqui a dois, a leitura é feita pelos olhos deste início de século XXI, numa cultura de ausência de privacidade, de distância dos pais, de fama e atração pelo abismo do glamour. Contudo, a análise de Gillen vai mais longe do que no simples destilar do zeigeist e dos trejeitos da adolescência “milenar”. Eles são analisados mas também são protagonistas. Os autores não se limitam a ser observadores ao estilo National Geographic, antes participam e escalpelizam, virando a sua capacidade de análise para o interior e exterior da história. Isto porque qualquer narrativa digna desse nome não deve cingir-se ao singular mas também explorar o plural sob a lupa do microscópico.

Finalmente, o OVNI que é Sex Criminals de Matt Fraction e Chip Zdarsky. A premissa se não sabem, deveriam: existem pessoas que, quando atingem o orgasmo, param o tempo. Literalmente. Sim, o conceito é estranho, kitsh e, para sensibilidades mais ténues, a roçar o mau gosto. Uma espécie de Filme de série Z (ou XXX, se quiserem). Mas Fraction e Zdarsky não descansam nos louros do impacto inicial. Sabem que não basta um “alto conceito” para conduzir a narrativa. Sem perder um átomo da beleza e da provocação (estamos a falar dos EUA, um país com uma relação curiosa – aos olhos de um europeu - com o sexo e violência), conduzem a história não só para uma análise das complexas personalidades dos dois protagonistas, como para os problemas da sexualidade, numa óptica adulta, desenvolvida e robusta (se podem considerar robusta esta análise pop da questão). Este segundo volume afasta-se um pouco da questão fantástica e foca-se na complexidade ética e moral das situações e personagens, ganhado em peso e corpo.


Três livros, três vitórias da Image. A continuar assim, a Marvel e a DC que se ponham em bicos de pés porque têm um concorrente à séria.

BD é a mentira do honesto.

"You can't surprise liars with the truth. They assume everyone shares their flawed nature." Diálogo de War, The World One-Shot, East of West, Jonathan Hickman

Página de Secret Six (2015), número três, escrito por Gail Simone e desenhado por Dale Eaglesham.


Secret Wars (2015), número quatro.

(contém spoilers dos três primeiros números da minissérie)

Agora que os três primeiros números do evento de 2015 da Marvel preocuparam-se em destruir o anterior multiverso Marvel, em colocar Victor Von Doom como Deus e em descrever este admirável novo mundo, Battleworld, podemos então passar à acção. Ou, como diz a outra, a coisas sérias. Eu sou fã de combates tanto quanto qualquer outro "verdadeiro" fã de Banda Desenhada de super-heróis, principalmente quando explorados para lá do "violence-porn" que tantas e tantas vezes dissemina-se pelas artes que advêm do outro lado Atlântico. Depois dos dois números que antecederam este quarto fiquei mal habituado por Jonathan Hickman. Gostava que tivesse um pouco menos de acção e mais de exploração da personalidade, conflitos e tragédias dos principais actores no drama que se tem vindo a desenhar. Ainda assim, este é um capítulo absolutamente necessário para o avançar da trama, servido com alguns momentos choque inesperados e relevantes para o enredo. Que posso dizer? O Dr. Destino nunca deixará de ser o Dr. Destino. E, nesse sentido, não deixa de ser mais uma linha de raciocínio sobre a fascinante personalidade do maior vilão do universo Marvel.

Esta minissérie principal do evento Secret Wars é, até agora, não só um conto de repercussões cósmicas e transversais à História do universo fictício da Marvel, mas também uma calma reflexão sobre a personalidade e motivação do seu personagem principal, o Dr. Destino. Ele não é apenas o móbil mas também o enfoque. Isto revela a força da criação de Stan Lee e Jack Kirby bem como dos artistas que se lhes seguiram. Um vilão ter esta relevância deve ser a norma e não apenas a excepção, como tantos exemplos da melhor literatura mundial atestam. O adversário é muito mais que o reflexo distorcido da missão do herói, ele próprio é o espelho da Humanidade e, mais importante, um personagem único em toda a sua glória. Não é tanto apenas um arquétipo mas um indivíduo. Os artistas que têm trabalhado com o Dr. Destino têm feito, regra geral, um bom trabalho. Hickman é apenas o mais recente e, quem sabe, um dos grandes.

Neste número, o trabalho de Esad Ribic continua claramente acima da média, ainda que se note já um pouco a pressão dos prazos de entrega. Felizmente, a velocidade da minissérie irá abrandar do quinzenal para mensal, deixando mais tempo ao artista para destilar todo o seu talento para a página. Aguardo com antecipação o número que segue, já que Hickman revelou tratar-se de um dos mais importantes capítulos da macro-saga que pretende concluir com Secret Wars e que iniciou na run  dos Vingadores. Curioso que a planeada intenção de destruir o universo Marvel tenha começado como um conto dos maiores heróis deste mundo e acabado com um foco no Quarteto Fantástico e no seu maior inimigo. Hickman é o consumado planeador de muito longo prazo - não nos esqueçamos que durante muitos anos escreveu  a primeira família da Marvel.

Secret Wars (2015) número 3

(este post contém alguns spoilers para números anteriores da série, sobre os quais já aqui escrevi)

A Marvel, tal como a conhecemos hoje, uma casa de super-heróis, começou no ano de 1961 com a revista do Quarteto Fantástico. Para quem não conhece, esta representou uma pequena mudança de paradigma, ao focar-se em quatro pessoas que eram muito mais que companheiros ocasionais de aventuras, como a Liga da Justiça da DC: eles eram uma família. Meros cinco números depois desta estreia aparecia o Dr. Destino (Dr. Doom no original),  o vilão que, com o passar dos anos, não só revelar-se-ia como o maior dos antagonistas destes heróis e um dos maiores da Marvel mas, mais importante, também como uma espécie de quinto membro da equipa, parte integrante da mitologia e da família (para quem acredita em numerologia e misticismos existem aqui sincronicidades). De facto, já na primeira década deste século XXI, Doom seria o padrinho de Valeria, o segundo filho do principal casal do Quarteto Fantástico, Reed Richards e Susan Storm. Esta pequena introdução aos personagens serve para vos situar um pouco melhor neste Secret Wars de 2015, escrita por Jonathan Hickman e desenhada por Esad Ribic. O motor da narrativa é exactamente a trágica figura de Victor Von Doom, agora literalmente Deus da realidade resultante da destruição do universo principal da Marvel no número um da série. Ou seja, quem melhor para fechar o universo anterior do que o seu maior vilão? Que melhor forma de fechar a mitologia anterior do que recorrer às figuras que abriram as suas portas em 1961? (não, aqui não existe misticismo, é mesmo intenção).

O que Hickman está a tecer neste Secret Wars é, até agora e na minha opinião, algo raramente visto na BD de super-heróis. Como mesmo os ocasionais leitores devem saber, são comuns estes eventos pancósmicos que colocam em perigo mais do que vidas, colocam em perigo a própria existência, o tecido da realidade. Mas, paradoxalmente ou, se calhar, até não, a qualidade é muitas vezes deficitária, isto para ser simpático (vejam Convergence da DC, o evento desta editora de 2015). Não é de todo o caso de Secret Wars. Repito: não é de todo o caso de Secret Wars. A qualidade da escrita é verdadeiramente acima do normal. O desenho de Ribic poderá vir a colocá-lo lado a lado com A referência destes eventos: George Pérez. Para mim, é tão bom assim. E (apontamento) estamos aqui a falar de puro entretenimento. 

O terceiro número é mais do mesmo, ou seja, uma história empolgante que desenha palcos titânicos de teatralidade cósmica, sem se esquecer das personalidades que fazem a narrativa, figuras trágicas de moralidade dúbia. Volta-se o enfoque para a figura divina de Doom, do seu companheiro mais próximo, o mais poderoso místico da Marvel, o Dr. Estranho, bem como na relação do primeiro com a sua "família": sim, o Quarteto Fantástico. Uma vez mais reitero que revelar mais será estragar a surpresa mas, pela primeira vez na história da Marvel, é revelada em toda a sua clareza a face de Doom, num dos momentos mais marcantes da narrativa mais profunda de Secret Wars, um estudo da intrigante personalidade do maior vilão da Marvel.

Hickman e Ribic parecem estar a tecer um dos mais relevantes momentos da história desta editora de super-heróis. É esperar que assim continuem.

Secret Wars (2015), a primeira e segunda semana.


Em posts anteriores falei do primeiro e segundo números do evento da Marvel em 2015, aquele que promete mudar o universo desta editora: Secret Wars, cortesia dos talentos Jonathan Hickman e Esad Ribic. Todos os anos as duas maiores produtoras de mitologias de super-heróis do mundo publicitam que o evento desse ano será aquele que, para sempre e de forma irrevogável, irá modificar a geografia cosmogónica dos seus universos. Na maior parte das vezes, essas mudanças ou não são tão radicais quanto anunciado ou as modificações são eliminadas pouco tempo depois. Contudo, e até prova em contrário, parece que este ano as coisas serão efectivamente diferentes. Muito à semelhança da única história que verdadeiramente mudou o panorama do seu universo de super-heróis, Crise nas Terras Infinitas, e no ano em que faz 30 anos, quer a DC, quer a Marvel, parecem empenhadas em homenagear este clássico de Marv Wolfman e de George Pérez. A DC escolheu fazê-lo com Convergence (do qual tenho falado extensivamente aqui). Para a Marvel parece ser Secret Wars.

(para quem não leu os dois primeiros números da minissérie principal, a partir daqui existem alguns spoilers)

As últimas páginas do primeiro número de Secret Wars, e tal como prometido pelos autores, oferece uma derradeira e devastadora cena: a destruição completa dos universos principal e Ultimate da Marvel. No lugar destes aparece um novo mundo, uma manta de retalhos constituída por eras e universos díspares, roubados do defunto multiverso. A esse mundo deu-se o nome de Battleworld. A coleção de reinos que constituem Battleworld serão o foco, ao longo dos próximos meses, de múltiplas minisséries. Cada uma delas conta uma história singular que, contudo, não deixa de fazer parte do mosaico que é a nova realidade do universo da Marvel (vejam a imagem abaixo para mais detalhes da geografia). Nas duas primeiras semanas foram já lançadas um total de 15 novas séries. A primeira impressão que posso vos oferecer é que, de uma forma geral, a qualidade é claramente superior aquela que a DC nos ofereceu em Convergence. A razão reside, acima de tudo, no talento e na liberdade que o mesmo teve para contar o seu lado desta macro-história. Uma macro-história iniciada há uns anos atrás pela mente insana de Jonathan Hickman nos Vingadores. Tudo planeado de forma exaustiva, o escritor sabia que a estrada terminava em Secret Wars. A editora e os criadores de diferentes títulos sabiam que o fim do universo Marvel estava à porta e prepararam-se para isso.

Não gosto de falar dos títulos que apreciei menos, portanto não vou dedicar muito tempo aos mesmos. Contudo, quero fazer um reparo antes de avançar. Ainda não tive oportunidade de ler Ultimate End porque estou à espera de conseguir ler os números de Miles Morales que precedem esta série. Dito isso, destaco desde já o maravilhoso primeiro número de Old Man Logan que, sem surpresas, destaca-se de forma soberba. Bendis na escrita e, principalmente, Sorrentino nos desenhos são excepcionais. A artista já tinha dado prova no Green Arrow de Jeff Lemire e aqui continua sem interrupções a entregar alguma da melhor arte na BD americana actual. Fiquei particularmente impressionado com Inferno de Dennis Hopeless e Javier Garrón, não só pela qualidade do trabalho de ambos mas também por um pequeno toque de nostalgia. Para quem anda nestas andanças da BD dos X-Men há alguns anos, é interessante regressar a este evento do passado. Tal como acontece em muitas das séries de Secret Wars, parte-se do pressuposto que o final de uma determinada história do passado da Marvel não foi o contado - uma espécie de "O que aconteceria se?...". Neste caso, os vilões venceram e os mutantes mais famosos do mundo têm que arcar com as consequências de um mundo ameaçado por demônios. Outras séries das próximas semanas seguirão o mesmo caminho mas com outros momentos da História dos X-Men e não só. Infinity Gauntlet, neste sentido, acaba por ser uma agradável surpresa. De facto, a história anda à volta das Gemas do Infinito e de Thanos, mas num mundo onde ele não é o seu supremo governante nem tampouco estamos inteiramente a par do que realmente ocorreu neste reino de Battleworld. De destacar os maravilhosos desenhos de Dustin Weaver. Outra agradável surpresa é Inhumans: Attilan Rising que, ao contrário de outras séries, escolhe o caminho da relevância (ou pelo menos assim parece) no macro-contexto de Secret Wars. Tudo é arquitectado de forma simples e sóbria, sem esquecer o puro valor de entretenimento que o evento deve ter. Também é agradável ver Garth Ennis, o famoso escritor de Preacher, a regressar à Marvel com Where Monsters Dwell, que parece oferecer um cenário ideal para o escritor: aviões da Primeira Guerra Mundial e dinossauros. Ainda que este primeiro número não tenha sido excepcional já que Ennis parece continuar a escrever os mesmos (detestáveis) personagens, não deixa de ser prosa deste escocês, que é melhor que muita outra prosa. Finalmente, destaco os esforços interessantes de Master of Kung Fu (com um dos meus mais saudosos personagens - quem não adora esta série da década de 70?), Planet Hulk e Battleword, que culminam as séries (bem visto, quase todas) de que mais gostei nestas duas primeiras semanas.

Secret Wars, apesar de aludir à primeira série-evento da Marvel, a homónima da década de 80, é também uma carta de amor de Hickman a Crise nas Terras Infinitas. Estamos defronte da filha destas duas emblemáticas histórias. Esperemos que continue no excelente caminho destas duas primeiras semanas.

(NOTA - Gostaria de ter falado do facto de Battleworld se assemelhar a Westeros das Crónicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin, mas isso fica para a próxima vez. O post já vai longo demais)




Secret Wars (2015) número 2 e Convergence, semana seis.

Será cedo demais para ter esperança? Será que posso segurar o entusiasmo depois de ter lido o segundo número de Secret Wars? Será que a Marvel, finalmente, tem a sua Crise nas Terras Infinitas? Ou seja, será que a editora do Homem-Aranha e do Quarteto Fantástico finalmente cumpre uma promessa de qualidade neste tipo de evento? O primeiro número já havia demonstrado que algo de superior a anteriores séries-grandes-e-surpreendentes-que-metem-toda-a-gente estava a ser cozinhado, mas este número dois entrega algo verdadeiramente impressionante. Os obreiros, o escritor Jonathan Hickman, o desenhista Esad Ribic e colorista Ive Svorcina, constroem um capítulo cheio de ideias loucas, desenhos maiores que a vida, visuais estonteantes, palavras épicas. Usando uma bem conhecida metáfora, agarram no baralho que foi o destruído multiverso da editora, baralham muito bem baralhado, e voltam a dar mas com combinações improváveis, conceitos inventivos (ainda que talvez não muito inovadores) e um sentido de respeito, homenagem e maravilhamento como é muito raro ainda ser visto nestes acontecimentos. Volto a dizer, se calhar é ainda cedo para tecer tantos elogios mas este segundo número é um pouco acima do normal. 

É virtualmente impossível falar de qualquer coisa do enredo sem vos estragar a surpresa, e os que leem este blog sabem como odeio estragar qualquer surpresa. Comigo foi assim. Agarrei, li e fiquei mesmerizado. Pensei: o trabalho de Hickman desde há alguns anos encaminhava-se para isto? Estou a ficar impressionado. Nestes trabalhos por encomenda, o equilíbrio entre o escritor e o desenhista é sempre algo conseguido com muito suor e lágrimas . Ainda que se conheçam e se admirem, muitas parelhas podem não funcionar, ou melhor, podem não gerar obras de excepção. Existem exemplos para um e para outro lado. Hickman e Ribic parecem ser do lado bom, do lado excelente. Espero que continuem assim.



Do lado da DC Comics, a sexta semana de Convergence continua a ser mais do mesmo, infelizmente. A minissérie principal, onde supostamente ocorrem os eventos verdadeiramente importantes, é trabalhada de forma amadora e despachada. Esta semana ganha algum interesse adicional exclusivamente para os fãs, com algumas evoluções de enredo curiosas (se bem que pouco inventivas ou inovadoras) mas nada que seja particularmente bem aproveitado pelos talentos envolvidos. Estas evoluções abrem ligações a outras histórias: à extraordinária série Multiversity de Grant Morrison e à futura Darkseid War de Geoff Johns na Liga da Justiça.  Quase que posso dizer que, tirando estas ligações e o aparecimento do "meu" Super-Homem, o sexto número de Convergence pouco teve a oferecer.

As minisséries auxiliares terminam mais uma fornada. Ao contrário do mês anterior, os números dois destas séries apresentam uma qualidade geral um pouco superior. Hama volta a oferecer uma história segura em Batman, Shadow of the Bat, justificando a sua escolha para um número que opõe Bruce Wayne e Jean Paul-Valley, os Batman da década de 90, contra Wetworks, uma criação de Whilce Portacio para a Image. O vernáculo militar e bélico cola especialmente bem com Hama, não fosse ele o escritor de GI Joe. O número dois de Green Arrow oferece algo um pouco diferente do habitual nestas minisséries de Convergence, não se cingindo à batalha du  jour, mas procurando explorar a relação familiar entre os escolhidos para o embate. É inevitável que este ocorra mas Christy Marx e o saudoso Rags Morales sobem um pouco o nível neste evento da DC. Volto a destacar o trabalho de Tieri e Mandrake (gosto tanto de Tom Mandrake) no Suicide Squad, que justificam neste capítulo o nome da série. Finalmente, as restantes oscilam entre a qualidade mediana, como Catwoman, Green Lantern/Parallax, Justice League e Superboy, e aquelas que pouco me entusiasmaram - Aquaman; Supergirl; Steel. Parece existir uma atmosfera de inevitabilidade e tragédia em muitas das histórias contadas nas minisséries desta semana, o que provavelmente ajuda a justificar o porquê de ter apreciado um pouco mais que o normal. Não há ninguém que tire o grego do meu sangue.

Convergence, a quinta semana e Secret Wars (2015) número 1



Iniciou-se esta semana o segundo e último ciclo de Convergence, a minissérie da DC Comics onde regressam os universos da editora que desapareceram em anteriores Crises, Horas Zeros, Flashpoint, etc. Como já o disse repetidas vezes, é neste regresso que reside a maior parte do interesse do evento e esta quinta semana não é excepção (ainda?). A diferença é acabar a primeira leva de minisséries auxiliares, aquelas que se centravam no universo imediatamente anterior ao actual. Foram estas as histórias cuja existência foi abruptamente terminada em 2011 com o advento de um realidade rejuvenescida. Infelizmente, a maioria das minisséries auxiliares desta semana não atingem um patamar de qualidade minimamente interessante. Delas destaco o trabalho de Rucka e Hammer em Question e de Simone e Duursema em Nightwing & Oracle. Estas funcionam (não me canso de repetir) não só porque os talentos envolvidos são francamente superiores, mas também pelo empenho emocional dos autores em acabar histórias que, por um lado, eles próprios haviam começado e, por outro, tinham um apego mais forte. As restantes oscilam entre o mediano e o verdadeiramente dispensável, destacando, do ponto de vista meramente de fã (spoiler), o nascimento do filho do casal Super-Homem / Lois Lane desta realidade. É um momento relevante que, contudo, sabe a pouco pelo facto de não ser manuseado de forma mais hábil. De uma forma geral, os autores (e a editora) aproveitam também para corrigir alguns erros de argumentos de antigas e polémicas histórias (os fãs saberão do que falo), aparentemente terraplanando o terreno para futuros desenvolvimentos que os leitores poderão apreciar.

A série principal propriamente dita, Convergence, tem um pequeno upgrade nesta semana: os desenhos de Andy Kubert. O talento deste senhor não é nada de desmerecer e consegue oferecer alguma gravidade à escrita fraca e pouco relevante de Jeff King que, sim, estreia-se nestas andanças da Banda Desenhada mas que representa um erro de casting da editora. A história, mesmo para mim que já não sou novato, é cheia de referências que apenas os fãs de uma série em particular poderão apreciar (não vou dizer o nome para não estragar a surpresa). É o regresso de personagens afastados de publicação regular há muitos anos e que apenas uns poucos irão apreciar com total empenho. Digo-o sem reservas porque a DC Comics também o faz sem reservas: Convergence só interessa aos fãs de longa data

A Marvel, a outra grande editora de super-heróis dos EUA, inicia esta semana o evento de 2015 que promete modificar por completo a paisagem do seu multiverso: Secret Wars (sim, também tem um mutiverso, se bem que, em conceito, bastante diferente do da DC - um dia falo-vos disso). Esta revolução estava a ser preparada há muitos anos, desde que o escritor Jonathan Hickman havia agarrado nos Vingadores e, ao longo de vários capítulos, construído de forma lenta, paulatina e estruturada este mega-evento que resulta (e acho que não vou estragar a surpresa a ninguém) no fim do universo Marvel. A publicidade era ampla e os fãs já estavam preparados. Na era da internet e das encomendas três meses antes é difícil guardar surpresas desta envergadura. 

Ao contrário de Convergence, os talentos envolvidos não são pequenos e nota-se no produto final. Hickman não é um escritor de BD mediano, muito pelo contrário. O seu trabalho faz lembrar Grant Morrison pela cascata de ideias, pela linguagem críptica, e Alan Moore, pelo facto de verter filosofia e crenças aparentemente pessoais no trabalho. Esad Ribic é um desenhista de craveira elevada, justificando o facto do seu enorme talento poder ser apreciado num palco tão global - se bem que eu adorava que regressasse ao Thor de Jason Aaron. O primeiro número é ainda de preparação, mas as últimas páginas são suficientemente importantes para ser (muito) relevante a sua leitura. Não só ocorre um evento de gigantesca importância como é trabalhado de forma a ser uma coda do universo Marvel - basicamente a escolha do narrador é relevante e todos os fãs irão saber porquê.

Secret Wars é principalmente para quem já acompanha o trabalho de Hickman nos Vingadores e para quem sabe alguma coisa da Marvel. Contudo, pelo facto de representar o acto final de uma longa epopeia que o autor laborou ao longo de vários anos não choca. Deve-se ler esta série como o fechar da cortina, o capítulo final de um longo trabalho. Com altos e baixos mas que (possivelmente) será dos mais interessantes na já longa carreira dos Vingadores e do Universo Marvel. A ver vamos.

Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 20.º Volume: Vingadores e X-Men parte II

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Difícil mas…

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 20 de Novembro, junto com Público e custa 8,9€


Quando os heróis já enfrentaram por diversas vezes os seus habituais inimigos fica difícil inovar. Ao mesmo tempo, uma das histórias com quase tanta barba quanto a do aparecimento do super-herói é a do confronto entre dois ou mais super-heróis. Quantas e quantas vezes o Super-Homem encontrava-se com, por exemplo, o Capitão Marvel (não sabem quem é? Para o efeito, não interessa), e a primeira reação de ambos era a de desentendimento, seguida do confronto e, só depois, da junção para enfrentar o verdadeiro problema, geralmente um super-vilão. Existe um lado muito atraente para os fãs em ver personagens que são geralmente aliados a lutarem um contra o outro. Não só ajuda a responder à juvenil pergunta de “quem é o mais forte?” como possui uma carga dramática verdadeiramente cativante.

A editora Marvel, nos últimos 10 anos, tem levado este confronto para um lado inesperado, não se cingido aos eventuais desentendimentos mas indo mais longe, para o lado das diferenças filosóficas entre heróis. Este rol de encontros começou com Dinastia M, onde os Vingadores estavam de um lado diferente do dos X-Men. Continuou, desta vez só com os Vingadores, com a Guerra Civil (ambas estas histórias foram publicadas pela Levoir) e com as consequências da mesma – e que, ao que parece, serão adaptadas no terceiro filme do Capitão América, já que a base da titular guerra era a do confronto entre o Sentinela da Liberdade e o seu colega Vingador, o Homem de Ferro. Alguns anos e muitas histórias e sagas depois, eis que surge um confronto paradoxal mas esperado entre duas das maiores equipas da Marvel. Esta é a história que imediatamente antecede as publicadas nas revistas mensais da Panini Portugal, nomeadamente as dos Vingadores e dos X-Men, e funciona como importante complemento para perceber o ponto onde se encontra, principalmente, a equipa de mutantes.

São vários os escritores e desenhistas que trabalharam nesta saga, que sofre de vários defeitos, ainda que tenha importantes virtudes. Algo pelo qual não tenho particular afinidade é exatamente o facto de ser trabalhada por vários autores que, ainda que detentores de enorme talento, acabam por contribuir para um todo incoerente – cheira ao trabalho de encomenda que na realidade é. Por outro lado, é o culminar de uma multitude de outras histórias vindas de outros volumes (como Dinastia M), obrigando a um enciclopédico conhecimento dos meandros em que estes estes personagens se movimentaram na última década. Não que isso não deva funcionar como detrimento, como aliás sempre digo no final de cada um destes posts. Por outro lado, as vantagens residem nas mesmas características que são também defeitos. Não só estamos defronte do trabalho de alguns dos mais interessantes escritores e desenhistas de BD de super-heróis, como muita da magia da mitologia dos personagens reside no conturbado historial que os rodeia. Em suma, uma maneira curiosa de culminar esta coleção da Marvel de 2014: não com um Fim mas sim com um Continua…

Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.


Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 19.º Volume: Vingadores e X-Men parte I

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Difícil mas…

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 13 de Novembro, junto com Público e custa 8,9€


Quando os heróis já enfrentaram por diversas vezes os seus habituais inimigos fica difícil inovar. Ao mesmo tempo, uma das histórias com quase tanta barba quanto a do aparecimento do super-herói é a do confronto entre dois ou mais super-heróis. Quantas e quantas vezes o Super-Homem encontrava-se com, por exemplo, o Capitão Marvel (não sabem quem é? Para o efeito, não interessa), e a primeira reação de ambos era a de desentendimento, seguida do confronto e, só depois, da junção para enfrentar o verdadeiro problema, geralmente um super-vilão. Existe um lado muito atraente para os fãs em ver personagens que são geralmente aliados a lutarem um contra o outro. Não só ajuda a responder à juvenil pergunta de “quem é o mais forte?” como possui uma carga dramática verdadeiramente cativante.

A editora Marvel, nos últimos 10 anos, tem levado este confronto para um lado inesperado, não se cingido aos eventuais desentendimentos mas indo mais longe, para o lado das diferenças filosóficas entre heróis. Este rol de encontros começou com Dinastia M, onde os Vingadores estavam de um lado diferente do dos X-Men. Continuou, desta vez só com os Vingadores, com a Guerra Civil (ambas estas histórias foram publicadas pela Levoir) e com as consequências da mesma – e que, ao que parece, serão adaptadas no terceiro filme do Capitão América, já que a base da titular guerra era a do confronto entre o Sentinela da Liberdade e o seu colega Vingador, o Homem de Ferro. Alguns anos e muitas histórias e sagas depois, eis que surge um confronto paradoxal mas esperado entre duas das maiores equipas da Marvel. Esta é a história que imediatamente antecede as publicadas nas revistas mensais da Panini Portugal, nomeadamente as dos Vingadores e dos X-Men, e funciona como importante complemento para perceber o ponto onde se encontra, principalmente, a equipa de mutantes.

São vários os escritores e desenhistas que trabalharam nesta saga, que sofre de vários defeitos, ainda que tenha importantes virtudes. Algo pelo qual não tenho particular afinidade é exatamente o facto de ser trabalhada por vários autores que, ainda que detentores de enorme talento, acabam por contribuir para um todo incoerente – cheira ao trabalho de encomenda que na realidade é. Por outro lado, é o culminar de uma multitude de outras histórias vindas de outros volumes (como Dinastia M), obrigando a um enciclopédico conhecimento dos meandros em que estes estes personagens se movimentaram na última década. Não que isso não deva funcionar como detrimento, como aliás sempre digo no final de cada um destes posts. Por outro lado, as vantagens residem nas mesmas características que são também defeitos. Não só estamos defronte do trabalho de alguns dos mais interessantes escritores e desenhistas de BD de super-heróis, como muita da magia da mitologia dos personagens reside no conturbado historial que os rodeia. Em suma, uma maneira curiosa de culminar esta coleção da Marvel de 2014: não com um Fim mas sim com um Continua…


Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.