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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, mas só agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana temos sugestões para todos os gostos e sensibilidades e, no fundo, para quem só gosta de ler um bom livro.

O que vou Lendo! - Sex Criminals vol. 2 e 3 de Matt Fraction e Chip Zdarsky


Será que existem histórias que só conseguem ser apreciadas num único tipo de Arte? Alan Moore, por exemplo, acha que sim. O famoso e opinativo escritor de Banda Desenhada é bastante vocal a respeito disso. Para Moore, os Watchmen ou V de Vingança foram feitos para serem lidos em formato de BD e não para qualquer outro meio. Por isso, recusou que o seu nome fosse mencionado no genérico dos filmes e não recebeu qualquer recompensa financeira pelo mesmos. Não sei se Moore tem razão (gostei dos dois filmes e das duas obras, apesar de serem algo muito diferente) mas que existem conceitos e narrativas que parecem melhor talhadas para certas formas de expressão artística disso tenho poucas dúvidas. Por exemplo, quando li a deliciosa descrição do processo de decisão neurótico e deprimido de Anna Karenina antes do seu suicídio tive a certeza que aquele momento fazia todo o sentido ali (claro que o talento de Tolstoy a isso também ajudou). Mais tarde, o filme mais recente a adaptar este gigantesco romance ficou, infelizmente, a universos de distância.

Sex Criminals de Matt Fraction e Chip Zdarsky é um desses produtos que parecem nascer para crescer na Banda Desenhada (muito também como Saga de Vaughan e Staples). A premissa é tão deliciosamente ridícula que apenas a idiossincrasia dos autores e da narrativa da BD poderiam carregá-la. Existe um mundo onde certas pessoas têm a capacidade de parar o tempo quando atingem o orgasmo. Sim, leram bem. Posso imaginar os autores perdidos em stream of consciousness e, num momento de epifania, debitar esta ideia para fora. Quem é que se lembra disso? Mais, como é que transforma-se este conceito numa narrativa coerente, interessante e entretida? A resposta está no trabalho de Fraction e Zdarsky em Sex Criminals (cujo primeiro volume saiu pela editora Devir em Portugal).

A história cresce em enredo para lá deste conceito, entrando, primeiro, na obrigatória história de amor e depois segue para o casal que decide-se por uma vida de crime assim  que descobrem as potencialidades do seu poder (aliás, como não poderia deixar de ser tendo em consideração o título da obra). Após estas desventuras amoroso-criminais, o mundo dos que têm-o-poder-de-parar-o-tempo-assim-que-têm-um-orgasmo permite-se crescer e começar a explorar outros com as mesmas habilidades, organizações obscuras que agem no limite da ditadura policial, entre outras deliciosas evoluções. Quando se vêem cansados do vai e vem de exposições e narrativas estrambólicas, Fraction e Zdarsky chegam a invadir a sua própria história, quebrar a quarta parede, e falam com o leitor, muitas vezes ridicularizando-se a si mesmos. Isto num misto da stream of consciousness de que falei e de improviso enfadado. 

Esta obra não só parece particularmente talhada para ser de BD como é um produto perfeito da personalidade de Fraction e Zdarsky que estão como peixe na água num mundo sexualmente estranho e deliciosamente excitante. 

O que vou lendo! – East of West vol. 4, Sex Criminals vol. 2 e The Wicked + The Divine vol. 2



Para quem lê Banda Desenhada dos EUA é hoje impossível escapar ao peso da Image, a editora independente que tem, paulatinamente, começado a dar cartas. Apesar de haver iniciado a sua actividade nos princípios da década de 90, em pleno boom da BD, demorou quase duas décadas a mudar a agulha, desfocando-se do negócio controlado pela Marvel e DC, o dos super-heróis, e preferindo o trabalho de autor. Nos últimos anos, inaugurou uma relação com os criadores que modificaria não só a sua actividade e o seu catálogo, como também o modo como toda a 9.ª Arte dos EUA ver-se-ia. Obviamente que o sucesso dos filmes e séries de TV ao estilo BD (como The Walking Dead, por exemplo, que pertence à Image), com todas as compartidas financeiras daí advidas, estimulou uma nova aproximação, mas não só. Por um lado, os criadores estão a ficar cansados que as suas histórias, por mais bem recompensadas que sejam, não fiquem como propriedade intelectual sua. Exemplos como o de Jack Kirby ou dos criadores do Super-Homem foram rastilho para uma posição menos inocente. Por outro lado, a narrativa dos super-heróis, querida a muitos, sem dúvida, começa a ser vista como não sendo a única capaz de atrair a atenção do público. Assim, movimentos que já existiam há décadas consolidaram-se recentemente e adquiriram uma dimensão nunca conhecida nos EUA. E a Image é um dos maiores porta-estandartes deste novo paradigma.

Qualquer uma das três BD’s de que falo neste post é não só exemplo da “filosofia Image” como da qualidade e idiossincrasia dos autores envolvidos. Apesar de muitos criadores dos EUA ainda terem alguma dificuldade em sair da arena da Fantasia e mesmo de alusão tangente ao super-herói, as três obras conseguem abordagens e temáticas tão díspares quanto o são as personalidades dos autores. East of West de Jonathan Hickman e Nick Dragotta continua, junto com a famosa Saga de Vaughan e Staples, a ser uma das maiores e mais relevantes publicações da Image, não só por ter sido das primeiras desta nova cara da editora como também por se haver destacado em qualidade e diferença. Hickman desenhou uma Terra cuja história é bastante diferente da nossa, numa mistura de Mad Max com o relato bíblico do Apocalipse. Um dos fortes não é só o enredo mas a épica linguagem de Hickman. Os seus personagens não debitam apenas palavras mas frases de impacto shakespeariano, infinitamente citáveis (já aqui o fiz). Esta é daquelas obras que apenas podia ser feita em BD, pela escala operática, pelos diálogos grandiloquentes e pelas situações maiores que vida.

Não que The Wicked + The Divine de Kieron Gillen e Jamie McKelvie fique atrás de East of West em escala e “citabilidade” (também já o fiz aqui). Mas ao contrário da primeira, a obra de Gillen e McKelvie vem de um lugar mais reconhecível, de uma geografia mais próxima. Enquanto East of West é deliciosamente estranho, The Wicked + The Divine faz lembrar coisas como Sandman, se escrito para os “millenials”. Apesar dos deuses que reencarnam em corpos de adolescentes de 16 anos para morreram daqui a dois, a leitura é feita pelos olhos deste início de século XXI, numa cultura de ausência de privacidade, de distância dos pais, de fama e atração pelo abismo do glamour. Contudo, a análise de Gillen vai mais longe do que no simples destilar do zeigeist e dos trejeitos da adolescência “milenar”. Eles são analisados mas também são protagonistas. Os autores não se limitam a ser observadores ao estilo National Geographic, antes participam e escalpelizam, virando a sua capacidade de análise para o interior e exterior da história. Isto porque qualquer narrativa digna desse nome não deve cingir-se ao singular mas também explorar o plural sob a lupa do microscópico.

Finalmente, o OVNI que é Sex Criminals de Matt Fraction e Chip Zdarsky. A premissa se não sabem, deveriam: existem pessoas que, quando atingem o orgasmo, param o tempo. Literalmente. Sim, o conceito é estranho, kitsh e, para sensibilidades mais ténues, a roçar o mau gosto. Uma espécie de Filme de série Z (ou XXX, se quiserem). Mas Fraction e Zdarsky não descansam nos louros do impacto inicial. Sabem que não basta um “alto conceito” para conduzir a narrativa. Sem perder um átomo da beleza e da provocação (estamos a falar dos EUA, um país com uma relação curiosa – aos olhos de um europeu - com o sexo e violência), conduzem a história não só para uma análise das complexas personalidades dos dois protagonistas, como para os problemas da sexualidade, numa óptica adulta, desenvolvida e robusta (se podem considerar robusta esta análise pop da questão). Este segundo volume afasta-se um pouco da questão fantástica e foca-se na complexidade ética e moral das situações e personagens, ganhado em peso e corpo.


Três livros, três vitórias da Image. A continuar assim, a Marvel e a DC que se ponham em bicos de pés porque têm um concorrente à séria.

O que vou Lendo! - Sex Criminals de Matt Fraction e Chip Zdarsky

Como vos dizer o que quer que seja acerca deste singular livro sem estragar um átomo de surpresa? Já várias vezes vos disse neste blog que, para mim, parte imprescindível do prazer de apreciar qualquer história, independentemente da forma, reside na descoberta. Eu já leio BD há tantos anos que, muitas vezes, apenas sei de um autor ou personagem e imediatamente salto para a leitura sem querer saber muito mais pormenores. Assim foi com este excepcional Sex Criminals. Conhecia o trabalho de Matt Fraction. Conhecia a recente produção da editora Image. Sabia que a probabilidade de isto ser algo bom era elevada. Desta vez acertei - como, aliás, tenho acertado muito no que respeita a esta editora.

Não vos vou, como disse, revelar nada do enredo. Posso, ainda assim, vos revelar que envolve sexo e criminosos. Ah... e acho que não cometo nenhum spoiler se disser que também envolve a passagem do tempo, ou melhor, a ausência de passagem. Curiosos? Deveriam estar! Que é que estes três coisas têm em comum? Como é que Matt Fraction consegue construir o que quer que seja usando estas três palavras? 

Há medida que ia lendo apercebi-me que, quando tentasse explicar o conceito base desta BD, seria difícil não considerá-lo, quer para mim quer para quem eu tentasse "vendê-la", como kitsh, argumento de série B ou mesmo Z. Havia um lado de lixo na premissa. Mas lixo que, executado da forma soberba como o é pela dupla de autores, acaba por ser divertido, humano e emocionante. Este é daqueles conceitos que muito dificilmente imaginamos a nascer de outra arte que não a BD, tal o despropósito. E ainda bem, porque prova o quanto ela é suprema. Desligada de qualquer grilhão realista, e assumindo-se como tal, consegue aceitar o ridículo como ele é e, nas mãos de dois artífices superiores, ser algo verdadeiramente bom.  Divertido e complexo.

Perceberam que gostei da BD, não? Verdadeiramente, apenas posso continuar a insistir nos rasgados elogios à editora que atrai e arrisca, mesmo com autores provados como Fraction, mas deixa-os brincar à vontade e correr riscos deste nível. O futuro parece brilhante, não só para Sex Criminals, como para a Image.