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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, mas só agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana temos sugestões para todos os gostos e sensibilidades e, no fundo, para quem só gosta de ler um bom livro.

The Fade Out de Ed Brubaker e Sean Philips - G Floy

(repescamos esta nossa opinião de 2016, com muitas modificações)

Diz-se que somos a mistura do que pensamos de nós, do que os outros pensam de nós e do que nós pensamos que os outros pensam de nós. Eu prefiro antes dizer que a verdade sobre quem somos está escondida em histórias:  das que contamos sobre nós mesmos; das que os outros contam de nós; e das que construímos para ir de encontro às que contam sobre nós. 

Os Malditos vol. 1: Antes do Dilúvio e Moonshine vol. 1: Sangue e Whiskey (G Floy)



A editora Image tem conseguido uma revolução silenciosa ao longo dos últimos anos. Captou alguns dos maiores nomes da BD das Terras do Tio Sam e produzido obras incontornáveis. Não só isso, mas dentro das suas fileiras consta um dos maiores cultos da cultura pop dos últimos anos: The Walking Dead. Graças à reputação criada, nomes geralmente associados à Marvel ou à DC têm gravitado para a Image.  É o caso de Jason Aaron e R. M. Guéra com Os Malditos vol. 1: Antes do Dilúvio e Brian Azzarello e Eduardo Risso em Moonshine vol. 1: Sangue e Whiskey, ambos publicados pela editora portuguesa G FloyEstas duplas são conhecidas de outros vôos, nomeadamente da publicação, pelo selo da emblemática e lendária Vertigo, de Scalped e 100 Bullets, respectivamente. 

O que vou lendo! Invincible vols 24 e 25 - The End of all Things de Robert Kirkman, Ryan Ottley e Cory Walker


Lex Luthor, o maior adversário do Super-Homem, afirma, no filme Batman v Superman, que a maior mentira nos EUA é que o poder é inocente. Estava implícito na afirmação que o capacidades divinas do Homem de Aço não podem ser usadas de forma altruísta e desinteressada, que os poderes instituídos (ou o próprio herói) as instrumentalizariam para fazer valer uma agenda mais obscura. A visão de Luthor era pessimista e realista, o que fazia sentido no ponto de vista que Zack Snyder queria fazer passar neste seu filme (para grande descontentamento de quase toda a gente que o viu - excepto eu, que sou um dos que adora o BvS).

Robert Kirkman começou a saga do seu herói Invincible há 14 anos. Achou (e bem) que era altura de colocar um ponto final nas aventuras de Mark Grayson, da família, dos amigos e dos inimigos. Mark é filho do Omni-Man, um análogo do Super-Homem que revela-se ser espião de uma raça alienígena conquistadora. Os 14 anos que se seguem exploraram a relação entre pai e filho, o caminho de herói do segundo e, não de pouca importância, o percurso desde adolescente, passando por pai de família e, finalmente, até chegar líder. O protagonista funcionou sempre como uma mistura entre o Homem de Aço da DC e o Homem-Aranha da Marvel, equilibrando as aventuras cósmicas com dramas quase telenovelescos. Esse equilíbrio foi conseguido de forma, na maior parte das vezes, entretida, muito violenta e recorrendo a um semi-realismo. Fã confesso do Savage Dragon de Erik Larsen, Kirkman bebia da estrutura narrativa usada pelo seu ídolo, com mudanças bruscas de eventos, em que a vida de qualquer personagem alterava-se de forma drástica com o simples virar de página. Nessa capacidade de evolução (que tanto prejudica, em última análise, a DC e a Marvel), os autores conseguiram reter o interesse dos leitores ao longo desta década e meia. Ultimamente, Kirkman parecia estar a ficar sem ideias, daí que ainda bem que as coisas chegaram ao final.

Nestes dois volumes, Kirkman e Ottley chegam ao último capítulo da história de Mark  - Ottley acompanhou o escritor desde o sétimo (dum total de 144), depois de substituir o desenhador original, Cory Walker. À semelhança de volumes anteriores, a estrutura e a ambição são simples: criar uma narrativa divertida e entretida baseada nos lugares-comuns da mitologia de super-heróis. Só por isso já é de louvar. Fecham com chave de ouro e colocam um laço bonito nas muitas linhas que teceram ao longo destes 14 anos. 

Desenganem-se se acreditam não existir algum tipo de inclinação autoral. Kirkman sempre imprimiu velocidade e intenção pop à sua história e, de forma que ainda não percebi se intencional, verteu um optimismo quase naif aos motivos de muitas das personagens, principalmente na forma como interpretava a intenção de alguns heróis, inclusive a de Mark Grayson nestes últimos volumes. As personagens de Kirkman de Invincible acreditam que o poder pode ser inocente. Mesmo que o seu comportamento e acções pareçam imperialistas e marginalmente ditatoriais, elas assumem-no de forma altruísta, cheia de boas intenções. O resultado acaba por ser uma paz duradoura e sustentável, mas realizada à custa de uma tangencial ditadura. Será esta parte do tal optimismo naif ou antes uma crença enraízada? (se calhar uma e outra). A bem ver, estamos a falar de um escritor dos EUA, um país onde uma percentagem aceitável da população acredita que são eles os detentores da verdade e do caminho correcto para a paz mundial (não incluo o poder político estado-unidense, esse bem realista e cheio de agendas).

Uma BD aqui, outra BD ali, 12

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Amazing Spider-Man número 797 de Dan Slott e Stuart Immonen (Marvel)

(com spoilers de números anteriores)

É por causa do Homem-Aranha que estou aqui. É por causa dele que escrevo sobre BD. É por causa dele que amo BD. 

Começou há quase 40 anos e não parou desde então. O meu apego à personagem é grande e é sempre com um peso no coração (que não deveria existir porque estamos a falar de alguém que não é real) que vejo quando os autores o desviam da essência do que eu acho que é uma história do Trepador de Paredes. Eu acompanhei a histórica sequência do escritor Dan Slott desde o seu começo, há 10 anos atrás. Parei quando decidiu transformar Peter Parker num CEO de sucesso, dono de uma empresa multinacional. Se calhar não deveria ter abandonado, mas tentei regressar pelo menos uma vez e as narrativas não me entusiasmaram (no fundo era só isso e existem tantas outras onde gastar dinheiro). Entretanto, aproxima-se o fim do trabalho de Slott no Aranha - irá acontecer no número 800 da revista Amazing Spider-Man (que leio desde o 157, versão portuguesa). Soube que Peter Parker já não era um CEO, que voltou a ter problemas de dinheiro e que o seu pior inimigo, Norman Osborn, fundiu-se com o maior psicopata da galeria de vilões do herói: Carnage. O meu interesse foi espicaçado para esta última grande celebração de Slott chamada Go Down Swinging, composta por quatro partes e que aparenta ser um clássico instantâneo.

Slott toca na perfeição todas as notas que escrevem uma boa história do Homem-Aranha. Uma ameaça, pessoal, tenebrosa e poderosa, espera nas sombras para cair sobre o seu mundo e sobre as pessoas que ama. Essa ameaça é Norman Orborn e Carnage, juntos numa entidade chamada Red Goblin. Sabemos que alguém poderá morrer no final destes quatro capítulos e a tensão desse medo é palpável. Sabemos que a resiliência de Peter Parker o ajudará, mas a tragédia é sempre uma constante espada de Damocles sobre a sua cabeça. Que mais é que o mundo colocará no seu caminho, depois de já tanta desgraça? Será que poderemos esperar por um pequeno, minúsculo, final feliz? Neste momento, é impossível saber. Apesar de as histórias de super-heróis serem conhecidas pela morte não ser definitiva, ainda assim somos arrastados pela tensão.

É com antecipação que leio esta última história de Slott (ou penúltima, já que haverá ainda uma no número 801). É com antecipação que quero que seja uma merecedora coda.

Savage Dragon número 232 de Erik Larsen (Image)

Provavelmente, um dia, Savage Dragon (SD) será a mais longa sequência de histórias de BD escritas e desenhadas de forma ininterrupta pelo mesmo autor. Esse título (penso) cabe a Dave Sim com o seu Cerebus, que durou 300 números.  SD não pretende atingir os níveis de intelectualismo (ou pedantismo, por vezes confundem-se) que esta última obra independente assumiu querer. Larsen deseja apenas uma BD entretida, hiperbólica, com muitas mamas, sexo, acção super-heroísta escabrosa e twists a torto e a direito. O estilo é o mesmo desde a primeira página do primeiro número da mini-série original e, fora um decréscimo de detalhe no desenho, assim tem sido há mais de 25 anos.

Um dos pormenores interessantes é que 25 anos no nosso mundo são também 25 anos na BD. As personagens envelheceram, casaram, tiveram filhos. Os filhos casaram e tiveram eles também filhos. No meio disso tudo existem os vilões e, ao contrário do que é costumeiro nos super-heróis, a morte tem o péssimo hábito de ser definitiva. Existe o "perigo real" de o leitor afeiçoar-se a uma personagem que Larsen, num assomo de fúria, mata no segundo a seguir - literalmente, já que a velocidade, crueza e surpresa dos acontecimentos é uma das marcas do seu SD. Convém vir preparado com um desfibrilador.

Neste número 232 continuamos a oscilar entre cenas da vida conjugal do filho do Dragon original, ele próprio com mulher e três filhos a viver em Toronto, uma dimensão paralela onde acompanhamos a mãe deste filho, agora uma vilã, e mais uns enredos paralelos. Tudo feito com a assinatura narrativa que descrevi acima. Tudo feito de forma divertida, descontraída e de leitura rápida (talvez rápida demais, isto será melhor em TPB). Em suma, uns cinco minutos bem passados ao custo de 3,99 dólares (pouco menos de 5€ numa loja portuguesa). A história acaba com dois twists interessantes que só fazem desejar pelo próximo mês. A ver onde isto vai dar!

Uma BD aqui, outra BD ali, 7

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

The Old Guard números 1 a 5 de Greg Rucka e Leandro Fernández (Image)

As fantasias de muitos nós (eu, inclusive) passam por ser imortal. Superar os poucos anos que vivemos, ser eternamente jovens e experimentar todas as cambiantes da vida. Essa fantasia é de tal forma poderosa que inventamos ficções e religiões que perpetuam-na e embelezam-na. É desse pressuposto que Greg Rucka Leandro Fernández partem.

Somos apresentados a quatro humanos que não morrem. Alguns com milénios de existência, outros com apenas algumas centenas de anos. Uma mulher, a mais velha, dois amantes e um francês, o mais novo. No outro lado do mundo, uma nova imortal está prestes a nascer. E enquanto isso, os poderosos e ricos desejam saber o segredo da sua vida quase infinita. Quase, porque na realidade não são imortais. Morrem. Apenas muito depois de nós. Nesses dias aparentemente infindos, ocupam o tempo a amar, a comer e em missões paramilitares de objectivos diversos. São máquinas de guerra e de morte, com mais conhecimento esquecido do que alguns exércitos inteiros conseguirão aprender numa vida.

Rucka equilibra de forma magistral o entretenimento com o peso da imortalidade. O que poderia parecer um mero exercício de fantasia adolescente transforma-se numa reflexão filosófica do que significa ter muitos ou poucos anos à disposição. Ser imortal, aos olhos de quem vive há sete milénios, não é sentido como uma bênção. Rucka pensou bastante sobre isso. As frases e as personalidades de todos não são apenas esboços. Antes seres humanos bem desenhados. Leandro Fernández é um artista que acompanho desde os tempos do seu trabalho no Hellblazer e em Loveless, ambos com Brian Azzarello, e a sua proximidade estética a Eduardo Risso é sempre bem vinda.

Uma das melhores BDs deste ainda jovem ano de 2018.

Hal Jordan and The Green Lantern Corps número 36 de Robert Venditti e Jack Herbert (DC Comics)

Existem autores que transformam de tal forma as personagens que passam também a ser suas. O Demolidor não foi criado por Frank Miller, mas este alterou-o tanto que o Homem Sem Medo passou a ser mais seu do que dos autores originais. O mesmo aconteceu com os X-Men e Chris Claremont (e John Byrne). E com o Lanterna Verde e Geoff Johns. Este escritor agarrou em todo o passado da personagem e em todos os autores que nele trabalharam e deu vida a um conceito moribundo do universo DC. Teve mesmo o "privilégio" de ser-lhe dada a hipótese de escrever um epílogo onde a sua história era levada até aos dias finais do Lanterna, como se ele fosse seu. Mas estas personagens nunca são propriedade dos que mais contribuem para a sua vitalidade (como Alan Moore bem o sabe - e ele até contribuiu com algumas ideias que Johns aproveitou).

Robert Venditti teve a pouco invejável tarefa de seguir Johns. Confesso que fui dos que abandonou a revista mensal logo após o último número deste. Mas voltei com o DC Rebirth, pela sugestão involuntária de um amigo. Hal Jordan & The Green Lantern Corps de Venditti é francamente entretido, empolgante e cósmico. O escritor controla, e bem, as vozes de todas as personagens, consegue engendrar twists e abordagens diferentes ao universo dos Lanternas. Não se esforça por ter a reinvenção delirante de Johns mas faz uso do legado para construir uma montanha russa de pura diversão de super-heróis cósmicos. Este último número fecha um arco de história e no próximo o escritor traz o General Zod (o inimigo do Super-Homem no filme Homem de Aço) para confrontar Hal Jordan e os Polícias do Universo. Para descontrair a (minha) cabeça não está nada mau.

Damage número 1 de Robert Venditti e Tony Daniel (DC Comics)


A DC tem uma nova iniciativa chamada The New Age of Heroes. Liderada por Dan Didio e Jim Lee, editores-chefe da editora, tem dois objectivos principais: devolver algum "poder narrativo" aos desenhistas; criar novos conceitos (franquias, vamos lá ser sinceros) para a DC. Damage é o primeiro.

A personagem é basicamente uma versão do Hulk e este primeiro número é pouco mais que o protagonista em modo destruição pela paisagem dos EUA. Julgar uma série inteira por estas escassas páginas é injusto mas, também a julgar por elas, a vontade de regressar a este mundo é francamente pouca. Sou da escola que uma boa história eleva um livro de BD, enquanto que desenhos maravilhosos têm muita dificuldade em fazer o mesmo. Por melhor e mais tecnicamente perfeitos que sejam, se o conteúdo, o enredo, as personagens, a mensagem, o subtexto, o entretenimento, não forem bem contados tudo pode cair por terra. Existem excepções mas Damage não é uma delas. 

Livro bonito de folhear mas, pela amostra, estamos em risco de  ter em mãos uma BD ao estilo da Image, quando nasceu na década de 90. Bonita (para quem gosta). Lê-se em dois minutos. No que a mim diz respeito preciso de mais. 

Uma BD aqui, outra BD ali, 6

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Extremity números 1 a 10 de Daniel Warren Johnson (Skybound e Image)


Já o ouvi várias vezes. Escrevam sobre aquilo que conhecem. Acredito nesta máxima. As palavras e os conceitos tendem a fluir mais facilmente quando falamos das nossas vidas, ou melhor, das nossas perspectivas. Mas não é, decididamente, apenas isso. Para o leitor, espectador ou ouvinte, a mensagem tende a tornar-se mais verdadeira, mais, paradoxalmente, universal. Apercebemos-nos, racional e emocionalmente, da honestidade das palavras, das imagens ou dos sons. É difícil de quantificar. Fácil de sentir. Este é o maior elogio que posso escrever sobre este Extremity de Daniel Warren Johnson, publicado em conjunto pela Skybound e pela Image.

Esta BD figurou em algumas das listas das melhores de 2017 e a minha curiosidade foi atiçada. Li os dez primeiros capítulos e fui imediatamente agarrado pela premissa e, principalmente, pela honestidade emocional com que o criador veicula esta estranha aventura num mundo alienígena. Sim, ele nunca viveu num mundo extra-terrestre e muito menos no que parece ser um futuro pós-apocalíptico. Mas o worldbuilding é sólido e as personagens baseadas na experiência pessoal do autor. As vozes delas são a sua voz. As palavras lêem-se com sentimento de veracidade, ainda que estejamos a dimensões de distância da nossa realidade.

Extremity passa-se num mundo de ilhas flutuantes, após uma catástrofe, onde várias tribos humanas degladiam-se pela sobrevivência e pela vingança. Uma mistura de Senhor dos Anéis e de Avatar. Incrivelmente dinâmico e cinético, com cenas de acção poderosas, bem-coreografadas, rápidas e muito violentas. Mas desenganem-se os que lêem "violência" e inflectem logo para gratuitidade. Existe ressonância emotiva em cada golpe dado e em cada gota de sangue derramada. E as mensagem e os momentos de paz são os que ajudam a sublinhar a violência extrema que lhes segue ou antecede.

Uma das grandes BDs em publicação na actualidade. Emoção em ecrã gigante.

The Wildstorm números oito a dez de Warren Ellis e Jon Davis-Hunt (Wildstorm e DC Comics)


Uma das razões porque sou um apaixonado (mas não um fanático) pela editora DC Comics são as histórias e séries publicadas mais ou menos entre meados da década de 80 e meados da primeira do século XX. Vinte anos de risco que deram algumas das mais emblemáticas BDs da minha vida, fora e dentro do mundo dos super-heróis. Foi com pesar que assisti à lenta queda da qualidade e inclinação adulta da editora (coincidente com a entrada do editor-chefe Dan Didio). Mas é com igual alegria que, recentemente, tenho recuperado a fé que tinha na maturidade das escolhas da DC. Começou com vendas fracas e com a reacção a elas: DC Rebirth - o electrochoque dado à ala dos super-heróis; experimentações como Young Animal; as personagens da Hanna Barbera; o ressurgimento da linha Elseworlds; e este Wildstorm.

Wildstorm pertencia ao autor Jim Lee, um dos fundadores da Image no início da década de 90, e era uma das subdivisões dessa mítica editora. Anos mais tarde, separar-se-ia da casa-mãe e acabaria por ser adquirida pela DC Comics. Há semelhança de outras aquisições, as personagens de vertente super-heroística seriam absorvidas pelo universo do Super-Homem e afins, passando a viver aventuras conjuntas (o evento Novos 52 de 2011, onde a editora começava tudo do zero, serviu para juntar os mundos da DC e da Wildstorm). Eis que se passam meros sete anos e Jim Lee decide voltar a isolar o seu universo e entrega as rédeas criativas ao escritor Warren Ellis, autor de alguns dos maiores sucessos da Wildstorm antes da junção com a DC: Authority; Planetary; para citar dois favoritos pessoais e obras de reconhecida importância sísmica.

Ellis decidiu recomeçar zero e contar um épico em 24 partes. As personagens são reconhecíveis para quem leu algo da antiga Wildstorm, mas é apenas isso: familiaridade. De resto, nada têm a ver. Como o zeitgeist deste meio da década de 10 do século XXI é outro, o escritor inflecte a escrita para uma sensibilidade ultra-tecnológica, sem perder a sua assinatura super-sónica, focando-se em personalidades duras, ultra-competentes e perigosamente sarcásticas. O mundo deste The Wildstorm é um mundo Ellisiano, de conspirações, de pouca fé na natureza humana e de risco constante à escala multiuniversal. A violência, à semelhança de Extremity é, desculpem o trocadilho manhoso, extrema, coreografada e assustadoramente bela. Arrisquem-se a ler mas façam-no de uma assentada. Porque esta é do tipo de séries cuja complexidade apela a uma leitura atenta e focada. Finalmente, não é todo de descurar o trabalho do desenhista Jon Davis-Hunt, uma surpresa em capacidade de desenho e do contar de uma história. A coreografia não seria a mesma.

Uma BD aqui, outra BD ali, 3

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Phoenix Resurrection - The Return of Jean Grey número 1 de Matthew Rosenberg e Leinil Francis Yu (Marvel)

Uma das mais queridas histórias da BD dos EUA é a Saga da Fênix Negra, escrita por Chris Claremont e desenhada por John Byrne. Estes dois autores são uma das mais lendárias equipas de BD graças à colaboração nos X-Men e, especificamente, nesta conhecida saga - que culminou na morte da personagem Jean Grey/Fênix, uma heroína que sacrificava-se em prol do universo. Em termos de preferência dos leitores, e de acordo com o mais recente inquérito do site Comic Book Resources, esta história é apenas superada pelos Watchmen - reparem na importância. Entretanto, e como é natural nas histórias de super-heróis, Jean Grey ressuscitou, para morrer outra vez às mãos de outro grande escritor, Grant Morrison. Ora, era apenas uma questão de tempo para que, uma vez mais, Jean Grey voltasse à vida. É com pouca surpresa que a morte e inevitável ressurreição de qualquer super-herói é encarada. Uns vêem-na com naturalidade, outros com gozo e os mais sérios como parte integrante da mitologia.

Se é inevitável, sobra então a qualidade da "empreitada", porque é disso que falamos. Muitas destas histórias nascem de imperativos editoriais e pouco ou nada têm a ver com inclinação ou inspiração artística, chamemos-lhe assim. Nada de mal com isso, estas são personagens detidas por corporações. It's the name of the game, you vote with your wallet. A execução desta segunda ressurreição é pouco mais que uma obrigação contratual, desinspirada na escrita e, principalmente, no desenho. Jean Grey é uma de três ressureições (aparentemente) e qualquer uma das restantes não são tanto surpresas mas mais "a sério? Também estes? pois... lá está, já se esperava". Desperdício de talento e de papel. Faziam isto em um único número e poupavam-nos o trabalho de ler. Eu, por mim, leio a síntese algures pela net.

Savage Dragon números 227 a 230 de Erik Larsen (Image)


Quando um conjunto de artistas decidiu abandonar a Marvel no início da década de 90 para criar a sua própria editora, a Image, Erik Larsen estava entre eles. O compromisso de todos era produzir material concorrente às duas grandes. Durante algum tempo foi assim, até que a maior parte deles não conseguiu cumprir com prazos. Outros cometeram o maior dos crimes: lançaram ideias mal executadas e preguiçosas. Aos poucos, os leitores abandonaram a Image mas a revolução estava feita. A BD dos EUA nunca mais seria a mesma. Erik Larsen, contudo, lançou o seu Savage Dragon em Julho de 1992 e desde então não parou. Acompanhei a revista mensal nos primeiros 100 números, sensivelmente, regressei um tempo depois e voltei a abandonar. Larsen, como não gosta de perder leitores, tem feito esforços para os recuperar, com algumas chamadas de atenção mediáticas e demagógicas que me agarraram (sou um tonto!).

Voltar passados estes anos para uma BD da Marvel ou DC poderia significar não ver grande mudanças. Com Savage Dragon não é assim. Erik Larsen sempre fez questão de avançar as suas personagens à velocidade do tempo real e, portanto, a revista conta histórias desde há 25 anos neste mundo fictício. Ao reabrir estas páginas o Dragon original não existe mais, substituído pelo filho que já tem 20 anos, é casado e tem ele próprio três filhos. Uma das tais mudanças mediáticas foi que Malcolm (o filho) mudou-se com a sua família para o Canadá, porque Trump (sim, ele existe nesta BD) não quer extra-terrestres nos EUA.

Contudo, a grande mudança não é essa. Larsen abandonou qualquer pretensão infanto-juvenil e adolescente e abraçou uma visão mais "adulta". O sexo é explícito, as relações são maduras, a nudez um lugar-comum (principalmente a das mulheres, vá se lá saber porquê). Nada contra. O ritmo continua o mesmo, com uma ou duas páginas de um lado da história, automaticamente passando para outro de forma abrupta mas raramente desconcertante. Usa muito shock-value para tornar a história entretida e agarrar o leitor. Os truques são os mesmos. Umas vezes são interessantes, outras não. O que faz pena são os desenhos. Na larga maioria das vezes são preguiçosos, apressados e quase-esboços (faz lembrar Frank Miller dos dias de hoje e isso não é bom). Larsen é capaz de muito melhor e adorava voltar a ver isso. De uma forma geral, lê-se bem mas este artista é capaz de melhor.

Batman, Creature of the Night número 2 de Kurt Busiek e John Paul Leon (DC Comics)


Em 2004, Kurt Busiek e John Paul Leon publicaram uma das mais interessantes histórias sobre o Super-Homem chamada Secret Identity (que considerei aqui como uma das 10 melhores do Homem de Aço). Tratava-se de um twist curioso, uma simbiose entre o mundo "real" e fictício. Nele o Super-Homem era uma personagem de BD mas alguém do mundo real adquiria os seus poderes. A sensibilidade e emoção com que Busiek contava a história da personagem principal não só reflectia as aspirações e sonhos do autor, confesso apaixonado destas mitologias, como explorava de forma inédita o que significa o conceito de Super-Homem. Treze anos depois, os dois regressam ao conceito mas com o Batman neste Creature of the Night.  A base é a mesma mas com um arquétipo bem diferente, o do Cavaleiro das Trevas, que se empresta a interpretações mais sombrias.

Busiek e Leon navegam as fronteiras entre o real e o imaginário com a  elegância que já os tinha elevado no volume do Homem de Aço. É a história de um órfão inspirado pelas histórias aos quadradinhos do Homem-Morcego, de como a batalha contra o crime carrega uma mente marcada por uma tragédia. Serve como história e como comentário meta-textual sobre a importância destes ícones. Os super-heróis não são apenas fantasias de escape e de empoderamento. São também cautionary tales e contos moralistas, por vezes bússolas de ética. Os autores compreendem isso e passam essa "mensagem" sem serem pregadores, antes alicerçam-na numa história bem construída e estruturada. Avizinha-se outro triunfo por parte de Busiek e Leon. Venha a Mulher-Maravilha logo a seguir.

Rapidinhas de BD - Undertaker, Saga e Drifting Classroom!



 

O prazer pop de diversão pode ter as mais diferentes formas. Não vem todo da mesma fonte, quer seja ela autoral, quer seja geográfica. As três Bandas Desenhadas que aqui vos proponho são disso prova. Cada qual do seu canto do globo, cada qual reflexo de uma filosofia bem diferente de "fazer BD". Cada uma capaz de entreter de forma diferente mas, vou ser sincero, não tanto pelo local de onde vem mas mais pela qualidade dos autores envolvidos.

Undertaker tomo 3, L'Ogre de Sutter Camp, continua esta BD de estilo western produzida em França (nunca consegui perceber o fascínio dos franceses por esta mitologia dos EUA), pelas mãos de autores conceituados da sua praça, Xavier Dorison e Ralph Meyer (agora também com o merecido crédito para a colorista, Caroline Delable).  Perseguimos as aventuras de Jonas Crow, agente funerário das planícies do Faroeste, que, junto com as suas duas companheiras de origem inglesa e chinesa, tem, nesta missão, a incumbência de perseguir um sofisticado serial killer avant la lettre - com as mais que necessárias ligações ao passado do protagonista. É um entretenimento descontraído (se a caça a um assassino o pode ser, claro), bem desenhado, com personagens interessantes ainda que, aqui e ali, um pouco maniqueístas. O trabalho de Meyer e Delable (desenhista e colorista) destaca-se claramente, sendo, cada um, um degrau acima em qualidade.

Atravessamos o oceano e o vazio do universo e passamos para as palavras e desenhos de Brian K. Vaughan e Fiona Staples, respectivamente, no já incontornável Saga, volume 7. Dizer que esta BD é um vício é ser demasiado brando. A sagacidade, inteligência e imaginação com que os dois autores presenteiam cada novo tomo é desconcertante. Desta vez, Hazel, a narradora desde o primeiro capítulo, filha primogénita, fica ilhada num cometa errante junto com a sua muito disfuncional família. Cheio de sexualidade adulta e, por vezes, desconcertante, de eventos catastróficos, de personagens destrutivos e complexos, tudo marcas e estilos de Saga, a história deste sétimo volume não se afasta (e ainda bem) da "fórmula". Existe espaço para tudo isto e, mais uma vez, para avanços trágicos nas vidas dos muitos protagonistas.

Por último, viajamos no tempo e quase para os antípodas: Japão da década de 70 e para o trabalho do mestre do terror do mangá, Kazuo Umezo. Depois da leitura dos maravilhosos La Maison Aux Insectes ou La Femme Serpent, era urgente passar para uma das  suas mais conhecidas obras, este opus de nome Drifting Classroom. O conceito é deliciosamente terror-pop: uma escola é transportada para um mundo desolado e inóspito, onde trevas escondem um horizonte de planícies sem vida - pergunto-me se alguns autores de terror da década de 80 nos EUA não terão lido Umezo. O toque do mangáka serpenteia por um horror sem desculpas, com vítimas e monstros a aparecerem do lado quer das crianças, quer dos adultos. Ninguém é jovem ou simpático demais para fugir à implacável foice do terror de Umezo, e aí reside o fascínio (se é isso que o poderemos chamar) de quem lê as suas histórias. Regredimos ao estado de terror larval, umbilical, de impotência infantil. Sem duvida, um dos grandes.

Lançamento GFloy - Tony CHU volume 6: Bolos Janados


A série mais tresloucada dos comics atinge a metade: com o volume 6 de 12, CHU chega a meio do caminho, e começa a recta final que nos levará a descobrir a verdade sobre a FDA, os extra-terrestres, a gripe das aves, a NASA e muito mais!

Tony Chu - o agente federal cibopata com a habilidade de obter impressões psíquicas de tudo o que come - está num hospital, a lutar pela vida, e, por isso, será Toni, a sua irmã gémea, a tomar a dianteira nesta aventura. Toni é cibovidente, e consegue ver o futuro de tudo o que come. E, nestes últimos tempos, tem visto umas cenas mesmo horríveis!

O sexto volume da série bestseller do New York Times, uma bizarra e divertida história sobre polícias, bandidos, cozinheiros, galos assassinos e agentes clarividentes. Apresentando também a incrível história que fascinou a América e impressionou criancinhas em todo o mundo com a sua violência: as aventuras do Agente Secreto Poyo, o galo biónico mais tramado do mundo e arredores!

Agente Secreto Poyo é uma história tão ridícula e parva, que se torna incrível e espantosa e louca. Tão exagerada, que só nos resta adorá-la!
- Gamespot

Tony CHU: Bolos Janados inclui uma galeria extensa de pin-ups de Poyo, a verdadeira estrela em ascensão do universo CHU, que eclipsará em breve toda a lista de agentes semi-competentes e pouco fiáveis que têm povoado até agora as páginas desta série, que merece finalmente conhecer o seu maior herói. Com ilustrações de nomes como Ben Templesmith, Nick Pitarra, John McCrea e outros.

Vencedor de dois Prémios Eisner - o galardão máximo da banda desenhada anglo-saxónica - e de dois Prémios Harvey - os prémios profissionais dos comics nos EUA - CHU/Chew é uma das mais populares séries independentes actuais.

E visitem ChewComic.com, o site oficial desta série!

Reúne os #26 a 30 dos comics originais da série Chew, e o número especial Chew: Secret Agent Poyo, e corresponde ao volume Chew#6: Space cakes. A série está planeada para um total de 12 volumes.

Tony Chu volume 6: Fome de Vencer
Álbum, 160 pgs a cores, capa dura. PVP: 10,99€
ISBN: 978-84-16510-28-3

Nota: o PVP deste volume é 2€ mais caro porque tem bastantes mais páginas que os anteriores; voltaremos ao nosso PVP normal no #7!




Rapidinhas de BD - Autumnlands vol.2, The Goddamned vol. 1 e Paper Girls vol. 2

Depois do primeiro volume ser uma das mais interessantes leituras de 2015, eis que finalmente nos chega o segundo Autumnlands de Kurt Busiek e Benjamin Dewey.  Continuamos neste estranho mundo ao melhor estilo Tolkienesco mas com personagens antropomorfizados. 

Este volume continua a centrar-se num dos seus habitantes, meio homem, meio canídeo, enquanto acompanha, em estilo viagem de demanda, o profetizado salvador humano. Busiek e Dewey conseguem manter-nos interessados, com um promissor world-building, personagens cativantes e mais do que uma surpresa, agora que começamos a embrenhar-nos nos segredos por detrás deste mundo de Fantasia. O que os autores têm reservado para os leitores não é uma narrativa fracturante e inédita, mas antes um valor seguro de diversão que é um verdadeiro page-turner. Se o primeiro volume foi uma surpresa, este segundo é a confirmação.

A parelha artística que nos deu o fabuloso Scalped da Vertigo regressa com The Goddamned, Before the Flood. Contudo, Jason Aaron e r.m.Guéra escolhem um tema bem diferente da história, ao estilo Sopranos, de nativos norte-americanos, o tema da sua anterior colaboração. Aqui entramos pelo terreno bíblico e acompanhamos a narrativa do primeiro filho caído, o criador do assassinato, Caim. Num mundo selvagem e violento que faz a Ciméria de Conan, o Bárbaro parecer uma Ilha dos Amores, o protagonista irá ter de se defrontar com outro personagem bíblico de renome, Noé,  e descobrir a melhor forma de atingir o seu maior desejo: morrer. Amaldiçoado com a imortalidade, este Caim lembra a interpretação que Saramago também faz do mesmo, com mais sangue e vísceras mas com o mesmo desdém e ódio pelo Deus que o condenou a esta morte em vida.

Se o primeiro volume desta colaboração entre Brian K. Vaughan e Cliff Chang, Paper Girls, não foi bem aquilo que estava à espera, este segundo mais do que recupera essa meia-decepção inicial.  Como alguém já referiu, isto é a série de TV Stranger Things mas sem o delicodoce da nostalgia. 

É sobre as recordações mal lembradas da década de 80 mas com um toque de cinismo pós-modernista. É sobre viagens no tempo, correcções temporais, raparigas cheias de "tomates" e entretenimento inconfessável. São versões de personagens que vêem do presente, do passado e de futuros que  se espera alterar. É cheio de surpresas e de violência inesperada e trágica, tão típicas de Vaughan.

A editora Image continua a dar-nos algumas das mais interessantes BD's do panorama mundial desta arte e estas três são excelentes exemplos disso mesmo. Longa vida a Image.

O que vou lendo! Monstress vol. 1 - The Awakening de Marjorie Liu e Sana Takeda

O género super-heróis açambarca uma percentagem significativa de vendas de Banda Desenhada nos EUA desde há muitas décadas. É o produto por excelência da BD das terras do Tio Sam, o que vende mais, o que conseguiu, ao longo de sete décadas, numa mistura de qualidade, sensibilidade pop e puro entretenimento, controlar o mercado de vendas. Não obstante, foram muitas as editoras a tentar subverter este quase monopólio. Uma delas é a Image, que começou, na década de 90, pelos super-heróis, com sucesso relativo. Mais recentemente, entre meados da primeira década do século XXI e o início desta, apostou num caminho bem diferente, o da diversidade temática e liberdade artística. Paulatinamente, foi adoptando autores com visões particulares, que vieram partilhar obras únicas no mercado, um pouco na senda e na herança do que a DC Comics fazia com uma sua imprint, a Vertigo. Desta Image nasceram Saga de Brian K. Vaughan e Fiona Staples, East of West de Jonathan Hickman e Nick Dragotta, entre muitas outras coisas. Foi ganhado velocidade, sucesso a sucesso (mas, ainda assim, relativo, tendo em consideração o ainda controlo absoluto por parte dos super-heróis), e multiplicando o número de pessoas a quererem cerrar as suas fileiras e a trabalhar as suas próprias criações. Acima der tudo, não só continuou a abrir o caminho do Autor, no sentido mais francês do termo, como diversificou a oferta ficcional e narrativa na BD dos EUA.

Eis que surge um novo produto Image, Monstress, das autoras Marjorie Liu e Sana Takeda, uma obra que mistura sensibilidade Comic com Mangá, num mundo de fantasia construído de raiz com riqueza carnavalesca. Liu e Takeda conseguem, com esta narrativa, criar um mundo que, apesar da vestimenta sobrenatural, respira e parece tão real quanto o nosso. Perdem tempo a construir história, facções, geografias, num processo de worldbuilding na mesma veia de Tolkien ou George R. R. Martin, apenas para citar os dois exemplos mais conhecidos popularmente. Este é um mundo ao estilo Renascentista e Steampunk, com inclinação romântica e aventureira e com personagens essencialmente femininos (outra das "manias" da BD dos EUA é ser feito por homens e para homens). Todos dançam a dança da guerra, da Sombra que se aproxima, do confronto entre povos e facções diferentes, emersos numa Cosmogonia que as autoras constroem com veracidade e solidez. É rico em palavras e em desenho, sendo que o trabalho de Takeda, especificamente, ainda que a necessitar um pouco de melhor construção narrativa (o ritmo nem sempre é vencedor), é forte o suficiente em design de personagens e cenários e carrega a narrativa de Liu. Os protagonistas, apesar de pareceram pouco mais que arquétipos de Fantasia, aguentam-se graças ao trabalho das autoras e à novidade que este tipo de história representa (pelo menos para mim) no catálogo da Image. Novidade essa que é bem vinda tendo em consideração o que referi no primeiro parágrafo.

Monstress cheira a novidade e a perspectiva diferente. Não deverá ser só de super-heróis e testosterona que a BD dos EUA deve viver. Eu, que gosto deles, agradeço.

O que vou lendo! Injection vol. 2 de Warren Ellis e Declan Shalvey

Warren Ellis é escritor de Banda Desenhada há mais de duas décadas e foi o culpado por histórias tão emblemáticas e históricas como Authority Planetary, ambas da editora Wildstorm, agora pertencente à DC Comics. Estas duas obras são conhecidas de muitos leitores de BD estado-unidense, pois representaram uma mudança de paradigma, paradigma esse que pode não ter-se iniciado com a sua publicação mas que cristalizou-se nela. Authority, especificamente, ajudou a consolidar um nicho, o da BD de super-heróis adulta, ao estilo  de cinema blockbuster, que não perdia de vista o maravilhamento reminiscente da Idade de Prata, que fazia, à altura, falta no género.  Este ressurgimento já se tinha iniciado em obras como Kingdom Come de Mark Waid e Alex Ross, Astro City de Kurt Busiek e Brent Anderson e JLA de Grant Morrison e Howard Porter, mas Warren Ellis continuou e acrescentou mais uma linha de sofisticação. 

Esta sofisticação muito deve-se à sua assinatura autoral, patente em cada linha de diálogo e no mise en scéne, se assim o podemos chamar, que Ellis impõe aos desenhadores com quem trabalha e que ajudam ao reconhecimento de uma obra sua. A escrita é, na falta de uma palavra melhor, "eficiente", não só na parcimónia com que usa as palavras, como na intenção como são debitadas pelos personagens. Existe urgência em Ellis, que obriga os protagonistas a afirmarem-se como afinadas máquinas de personalidade. Mas desenganem-se se disto concluem que são bidimensionais. Na realidade, os personagens de Ellis são profundamente Ellisanos, geralmente anti-sistema, disruptores do status quo e, acima de tudo, furiosamente independentes - Spider Jerusalem de Transmetropolitan é um dos melhores exemplos, Appolo e Midnighter de Authority outro, ainda que por razões diferentes (são o primeiro casal abertamente gay na BD de super-heróis). 

Nesta nova obra, Injection, estão espelhados os trejeitos de Ellis. É impossível não abrir as páginas desta singular obra e não reconhecer, apesar dos desenhos de  Declan Shalvey, que estamos a ler Warren Ellis. Existem organizações governamentais secretistas e marginalmente ditatoriais que observam, nas sombras, o desenrolar da acção. Existem os personagens "eficientes" que, desconfio, são um reflexo do autor. E existe outra mania: as verdades ocultas do mundo (leiam Planetary ou mesmo Nextwave). Neste segundo volume, essas verdades não são ainda claras mas parece estarmos perante uma curiosa junção de Inteligência Artificial criada pelos cinco protagonistas, cientistas e ocultistas à procura do futuro, com um Outro Mundo, esse místico e parte da Anciã Infraestrutura do Mundo. Esta mistura entre o tecnológico e sobrenatural é também marca de Ellis, revelando um (para nós) estranho britanismo - aliás, esta é também uma obra sobre a Grã-Bretanha e os seus antigos mistérios.

A editora Image insiste em continuar a publicar algumas das mais interessantes obras no panorama da BD dos EUA e, desta vez, escolheu Warren Ellis, um dos mais antigos e conceituados escritores desta arte. Injection ganha com este segundo volume, em clareza de enredo e intenção, conseguindo transformá-la numa das favoritas do momento.

O que vou Lendo! - Sex Criminals vol. 2 e 3 de Matt Fraction e Chip Zdarsky


Será que existem histórias que só conseguem ser apreciadas num único tipo de Arte? Alan Moore, por exemplo, acha que sim. O famoso e opinativo escritor de Banda Desenhada é bastante vocal a respeito disso. Para Moore, os Watchmen ou V de Vingança foram feitos para serem lidos em formato de BD e não para qualquer outro meio. Por isso, recusou que o seu nome fosse mencionado no genérico dos filmes e não recebeu qualquer recompensa financeira pelo mesmos. Não sei se Moore tem razão (gostei dos dois filmes e das duas obras, apesar de serem algo muito diferente) mas que existem conceitos e narrativas que parecem melhor talhadas para certas formas de expressão artística disso tenho poucas dúvidas. Por exemplo, quando li a deliciosa descrição do processo de decisão neurótico e deprimido de Anna Karenina antes do seu suicídio tive a certeza que aquele momento fazia todo o sentido ali (claro que o talento de Tolstoy a isso também ajudou). Mais tarde, o filme mais recente a adaptar este gigantesco romance ficou, infelizmente, a universos de distância.

Sex Criminals de Matt Fraction e Chip Zdarsky é um desses produtos que parecem nascer para crescer na Banda Desenhada (muito também como Saga de Vaughan e Staples). A premissa é tão deliciosamente ridícula que apenas a idiossincrasia dos autores e da narrativa da BD poderiam carregá-la. Existe um mundo onde certas pessoas têm a capacidade de parar o tempo quando atingem o orgasmo. Sim, leram bem. Posso imaginar os autores perdidos em stream of consciousness e, num momento de epifania, debitar esta ideia para fora. Quem é que se lembra disso? Mais, como é que transforma-se este conceito numa narrativa coerente, interessante e entretida? A resposta está no trabalho de Fraction e Zdarsky em Sex Criminals (cujo primeiro volume saiu pela editora Devir em Portugal).

A história cresce em enredo para lá deste conceito, entrando, primeiro, na obrigatória história de amor e depois segue para o casal que decide-se por uma vida de crime assim  que descobrem as potencialidades do seu poder (aliás, como não poderia deixar de ser tendo em consideração o título da obra). Após estas desventuras amoroso-criminais, o mundo dos que têm-o-poder-de-parar-o-tempo-assim-que-têm-um-orgasmo permite-se crescer e começar a explorar outros com as mesmas habilidades, organizações obscuras que agem no limite da ditadura policial, entre outras deliciosas evoluções. Quando se vêem cansados do vai e vem de exposições e narrativas estrambólicas, Fraction e Zdarsky chegam a invadir a sua própria história, quebrar a quarta parede, e falam com o leitor, muitas vezes ridicularizando-se a si mesmos. Isto num misto da stream of consciousness de que falei e de improviso enfadado. 

Esta obra não só parece particularmente talhada para ser de BD como é um produto perfeito da personalidade de Fraction e Zdarsky que estão como peixe na água num mundo sexualmente estranho e deliciosamente excitante. 

O que vou lendo! - Criminal, Wrong Time, Wrong Place de Ed Brubaker e Sean Philips

Quando vi o quatro episódio da série de TV Westworld reconheci, entre os escritores, um nome: Ed Brubaker. Alguém que conheço de ler nas páginas da Banda Desenhada a escrever algo para além da 9.º Arte é sempre um prazer, principalmente para ele mas também para nós. Neste mundo do século XXI, da imagem em movimento, da informação digitalizada disponível em pequenos ecrãs que carregamos para todo o lado, neste mundo ascendem, por via desta tecnologia, novas artes ou, pelo menos, novas formas de abordar antigas artes. A série de TV transporta para o pequeno ecrã a narrativa, a capacidade de contar histórias, e a BD faz o mesmo, apenas com imagens estáticas. Quer uma quer outra arte são recentes, principalmente se as colocamos no contexto das anciãs e sempre eternas Prosa, Poesia, Dramaturgia. Contudo, gosto de pensar que são mais que complementos ou substituições, são evoluções, iterações de uma mesma intenção, a tal de contar uma história. Ed Brubaker faz parte dos contadores, dos trovadores, que manipulam a arte da narrativa e aplicam-na a diferentes meios. O curioso no caso deste autor (e em todos, se virmos bem as coisas) é não esquecer-se do passado, antes inspira-se nele e reproduz, nos dias de hoje, obsessões presentes desde sempre em várias artes. O escritor é um incontestável fã do noir, abordagem que já teve nomes e histórias sonantes ao seu serviço, a maior parte delas conhecidas de quem vê cinema ou aprecia histórias de detectives conturbados e violentos mas honrados.

Ed Brubaker e Sean Philips são colaboradores de longa data. O trabalho conjunto dura à décadas e é testemunho da sua total sincronia que o continuem a fazer sem perder qualidade. Criminal é uma série da editora Image onde ambos dão vazão à veia noir, expelindo pequenos contos de redenção e pecado (muitas vezes nesta ordem) que envolvem os mais diferentes protagonistas possíveis. Não existe padrão excepto o da tragédia do crime, o da repetição de padrões de destino. Os personagens são homens e mulheres conturbados, omissos à lei e à ordem, envolvidos em situações violentas e das quais a única solução implica empregar mais e mais violência. Não que Criminal seja o tipo de narrativa a sobejar testosterona. Antes falamos de violência rápida e incisiva, direccionada, pessoal, e, por isso, mais trágica. Depois, claro, Brubaker e Philips lidam com as consequências e causas dessa violência, principalmente por via dos seus personagens. 

Nos dois contos interligados deste Wrong Time, Wrong Place acompanhamos um pai e um filho. No primeiro conto, o progenitor terá de lidar como uma azarada incursão na prisão. No segundo é a vez do filho lidar com a vida criminosa do pai, na melhor das duas narrativas. Uma das curiosidades destas duas histórias é a introdução de BD's imaginadas ao estilo da década de 70 e que fazem lembrar outras como Conan, o Bárbaro e uma curiosa mistura de Master of Kung Fu e Homem-Aranha

Criminal  é sistematicamente uma das mais consistentes obras de qualidade a sair da imaginação de Brubaker e Philips. Este sétimo não é excepção. 

O que vou lendo! - Saga volume seis de Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Quando gostamos muito de alguma coisa e falamos muito dela o que sobra para dizer? Quando, sistematicamente, dois criadores de Banda Desenhada entregam livro após livro de puro prazer o que resta a elogiar? Quando temos quase a certeza que este é dos melhores livros a ser publicado actualmente em qualquer arte e formato como podemos convencer, por outras e diferentes palavras, a que os leiam? Quem sabe uma das formas seja olhar para a contra-capa deste sexto volume de Saga e ver que até Alan Moore, mágico ranzinza, lendário escritor de BD, consumado artista de múltiplas palavras, tece elogios. Ou então faz-se algo revolucionário e nunca tentado: lê-se este sexto volume, adora-se este sexto volume e fica-se muito zangado por este sexto volume acabar cedo demais e termos de esperar muito pelo próximo.

Brian K. Vaughan e Fiona Staples parecem não cansar-se de ser imaginativos. As suas mentes são músculos exercitados duas a quatro horas por dia. Mas por mais delirantes que fossem os fluidos criativos deste dupla (e como o são!) existe também algo de ininteligivelmente adulto na escrita e nos desenhos. Não sei se vem do enredo, da sensibilidade, das palavras, mas no meio da fantasia exuberante existe um tecido inquebrável de maturidade. Existe um casal de pais que procuram a filha perdida nos interstícios de uma galáxia longínqua. Esses pais são algo como um Romeu e uma Julieta inter-galácticos, originários de raças em perpétua guerra. A Saga do título é a da miúda, a narradora desde o primeiro quadradinho, mas também é, no caso deste sexto volume, a dos pais, enquanto procuram de forma desenfreada e desesperada pela filha.

A história de Saga não fica-se por estes três personagens. Existe uma multitude de diferentes figuras que se multiplicam pelas páginas e, por vezes, inteiros capítulos. Figuras que são deliciosamente desenhadas de formas tão diferentes por Fiona e que, acima de tudo, sublinham o carácter multi-cultural, multi-sexual, multi-personalidade, desta BD (escusado será dizer que não é para crianças). Aliás, uma das recorrentes temáticas é a necessidade de afirmar que o universo é composto por esta miríade de pessoas tão diferentes umas das outras. E esta é mais uma das formas em que Saga é maduro.

Não tenho vergonha, pejo e reticências em gritar bem alto que esta é das melhores BD's ...não... melhores livros publicados actualmente. Felizmente que está a ser publicado em português de Portugal pela GFloy e numa edição que até é melhor que a dos EUA - as que compro desde o primeiro volume.

O que vou lendo! - We Stand On Guard de Brian K. Vaughan e Steve Skorce

A arte tem, entre várias virtudes, duas que, a meu ver, se destacam: a capacidade de previsão e a capacidade de aviso. A imaginação, misturada com a inteligência, o sentido ético e a moral do artista, conspira para transformar a palavra, a imagem, a mistura das duas, em algo que acrescenta um ou vários alertas ao puro prazer. Uma obra que consegue entretecer entretenimento com consciencialização é algo que surpreende-me sempre. Brian K. Vaughan é um escritor de BD que, ao longo de várias das suas obras, sempre juntou essas duas vertentes de forma impressionante: Saga; Y The Last Man; Ex-Machina. We Stand On Guard é outro exemplo no seu currículo.

Quando o conheci em finais da década de 80, um querido amigo canadiano dizia que era inevitável os EUA invadirem o Canadá. A razão era bastante prosaica: água. O segundo maior país do mundo armazena 20% dos recursos aquíferos de água potável (apenas 7% se considerarmos a renovável). Num futuro onde a água é um bem escasso por causa do seu uso desenfreado e por causa da ameaça de aquecimento global, este recurso estratégico é muitas vezes mais importante que banca, dinheiro ou independências administrativas. Falamos de sobrevivência. Esta é a premissa por detrás de We Stand On Guard: daqui um século os EUA invadem o Canadá por causa de água e um movimento rebelde levanta-se.

We Stand On Guard é isto que referi mas também um gigantesco filme de acção, um western onde os índios são os naturais do EUA e os cowboys são originários das florestas geladas do Canadá. A estrutura narrativa é, aliás e ironicamente, a de muito filme de acção série B ou "cauboiada", mas os maus são, neste caso, os estado-unidenses: os vilões matam um familiar ou amado de um ou mais dos protagonistas e estes decidem vingar-se. Os heróis juntam-se e empreendem uma luta libertadora (ou terrorista, dependendo por que olhos vemos as coisas) até às últimas consequências. É verdade que esta vertente de acção suplanta muitas vezes a mais filosófica e reflectiva, mas trata-se um livro que lê-se de forma rápida (se calhar até demais) e entusiasmante. Não sendo uma obra-prima dá, ainda assim, momentos muito bem passados. Para quando o filme desta BD?

PS - Sabiam que o Super-Homem é canadiano? Querem saber porquê? Leiam  We Stand On Guard.

The Fade Out de Ed Brubaker e Sean Philips



Diz-se que o nosso verdadeiro eu é uma mistura do que nós pensamos de nós mesmos, do que os outros pensam de nós e do que nós pensamos que os outros pensam de nós. Eu prefiro as coisas ditas de outra forma. Que a verdade sobre o que nós somos está escondida por detrás de histórias: daquelas que nós contamos sobre nós mesmos; as histórias que os outros contam de nós; e, quem sabe, as histórias que construímos para satisfazer as outras histórias que contam sobre nós. Não possuímos uma memória infalível e nem sempre contamos a verdade. Os outros não conhecem cada pormenor da nossa experiência. Na lenta construção dessa "mentira" vai sendo contada uma História que acaba por solidificar-se na nossa vida passada e no nosso destino. Os gregos chamavam-lhe tragédia. Essa palavra acabou por evoluir para vários significados mas que sumarizam a existência de um caminho que parece traçado deste que nascemos. 

Os três actos de The Fade Out, continuação da já longa colaboração entre o escritor Ed Brubaker e o desenhador Sean Philips (juntos fizeram Seeker, Criminal, Fatale, et al), falam de histórias e de como elas acabam por tomar controlo da realidade, acabam por transformar-se na verdade. Sabemos que isso não é novidade, que a História é contada pelos vencedores, que por mais que queiramos perceber o que realmente ocorreu nada nunca será claro. O que é maravilhoso neste The Fade Out é a forma como Brubaker e Philips (perdoem-me o trocadilho) contam a história. Retrocedem no tempo, para uma época talhada à sua sensibilidade, os anos 40, os anos do noir, e deslocam-se no espaço para a industria do Cinema de Hollywood, para a sua Era de Ouro, a de Bogart, a de Bacall, a de Gable. Os protagonistas são dois homens, ambos escritores, uma actriz assassinada, uma outra actriz bem viva e um conjunto de figuras e personagens da industria que tentam construir uma mentira que ofusque a verdadeira face de uma arte que, na realidade, não existe. Quer dizer, o produto final, o filme, ele existe e é perene, mas para que se forme no ecrã é necessário construir toda uma tapeçaria de imagens e histórias falsas para que a ilusão, a magia e a eternidade do Cinema construam-se. Mentiras sobre mentiras sobre mentiras. Ou melhor, a verdade que fica.

Brubaker e Philips constroem um labirinto, este não em Creta mas em Hollywood, onde o Minotauro dificilmente é descoberto e onde o fio de Ariadne seria  a verdade mas não existe. Uma das melhores colaborações entre ambos, mesmo depois de tantas e tão boas. Uma história sobre histórias, de como um país, uma civilização, ergue a infraestrutura da sua História numa cama de histórias que nada correspondem à verdade. Um belíssimo livro em três actos.