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Uma BD aqui, outra BD ali, 3

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Phoenix Resurrection - The Return of Jean Grey número 1 de Matthew Rosenberg e Leinil Francis Yu (Marvel)

Uma das mais queridas histórias da BD dos EUA é a Saga da Fênix Negra, escrita por Chris Claremont e desenhada por John Byrne. Estes dois autores são uma das mais lendárias equipas de BD graças à colaboração nos X-Men e, especificamente, nesta conhecida saga - que culminou na morte da personagem Jean Grey/Fênix, uma heroína que sacrificava-se em prol do universo. Em termos de preferência dos leitores, e de acordo com o mais recente inquérito do site Comic Book Resources, esta história é apenas superada pelos Watchmen - reparem na importância. Entretanto, e como é natural nas histórias de super-heróis, Jean Grey ressuscitou, para morrer outra vez às mãos de outro grande escritor, Grant Morrison. Ora, era apenas uma questão de tempo para que, uma vez mais, Jean Grey voltasse à vida. É com pouca surpresa que a morte e inevitável ressurreição de qualquer super-herói é encarada. Uns vêem-na com naturalidade, outros com gozo e os mais sérios como parte integrante da mitologia.

Se é inevitável, sobra então a qualidade da "empreitada", porque é disso que falamos. Muitas destas histórias nascem de imperativos editoriais e pouco ou nada têm a ver com inclinação ou inspiração artística, chamemos-lhe assim. Nada de mal com isso, estas são personagens detidas por corporações. It's the name of the game, you vote with your wallet. A execução desta segunda ressurreição é pouco mais que uma obrigação contratual, desinspirada na escrita e, principalmente, no desenho. Jean Grey é uma de três ressureições (aparentemente) e qualquer uma das restantes não são tanto surpresas mas mais "a sério? Também estes? pois... lá está, já se esperava". Desperdício de talento e de papel. Faziam isto em um único número e poupavam-nos o trabalho de ler. Eu, por mim, leio a síntese algures pela net.

Savage Dragon números 227 a 230 de Erik Larsen (Image)


Quando um conjunto de artistas decidiu abandonar a Marvel no início da década de 90 para criar a sua própria editora, a Image, Erik Larsen estava entre eles. O compromisso de todos era produzir material concorrente às duas grandes. Durante algum tempo foi assim, até que a maior parte deles não conseguiu cumprir com prazos. Outros cometeram o maior dos crimes: lançaram ideias mal executadas e preguiçosas. Aos poucos, os leitores abandonaram a Image mas a revolução estava feita. A BD dos EUA nunca mais seria a mesma. Erik Larsen, contudo, lançou o seu Savage Dragon em Julho de 1992 e desde então não parou. Acompanhei a revista mensal nos primeiros 100 números, sensivelmente, regressei um tempo depois e voltei a abandonar. Larsen, como não gosta de perder leitores, tem feito esforços para os recuperar, com algumas chamadas de atenção mediáticas e demagógicas que me agarraram (sou um tonto!).

Voltar passados estes anos para uma BD da Marvel ou DC poderia significar não ver grande mudanças. Com Savage Dragon não é assim. Erik Larsen sempre fez questão de avançar as suas personagens à velocidade do tempo real e, portanto, a revista conta histórias desde há 25 anos neste mundo fictício. Ao reabrir estas páginas o Dragon original não existe mais, substituído pelo filho que já tem 20 anos, é casado e tem ele próprio três filhos. Uma das tais mudanças mediáticas foi que Malcolm (o filho) mudou-se com a sua família para o Canadá, porque Trump (sim, ele existe nesta BD) não quer extra-terrestres nos EUA.

Contudo, a grande mudança não é essa. Larsen abandonou qualquer pretensão infanto-juvenil e adolescente e abraçou uma visão mais "adulta". O sexo é explícito, as relações são maduras, a nudez um lugar-comum (principalmente a das mulheres, vá se lá saber porquê). Nada contra. O ritmo continua o mesmo, com uma ou duas páginas de um lado da história, automaticamente passando para outro de forma abrupta mas raramente desconcertante. Usa muito shock-value para tornar a história entretida e agarrar o leitor. Os truques são os mesmos. Umas vezes são interessantes, outras não. O que faz pena são os desenhos. Na larga maioria das vezes são preguiçosos, apressados e quase-esboços (faz lembrar Frank Miller dos dias de hoje e isso não é bom). Larsen é capaz de muito melhor e adorava voltar a ver isso. De uma forma geral, lê-se bem mas este artista é capaz de melhor.

Batman, Creature of the Night número 2 de Kurt Busiek e John Paul Leon (DC Comics)


Em 2004, Kurt Busiek e John Paul Leon publicaram uma das mais interessantes histórias sobre o Super-Homem chamada Secret Identity (que considerei aqui como uma das 10 melhores do Homem de Aço). Tratava-se de um twist curioso, uma simbiose entre o mundo "real" e fictício. Nele o Super-Homem era uma personagem de BD mas alguém do mundo real adquiria os seus poderes. A sensibilidade e emoção com que Busiek contava a história da personagem principal não só reflectia as aspirações e sonhos do autor, confesso apaixonado destas mitologias, como explorava de forma inédita o que significa o conceito de Super-Homem. Treze anos depois, os dois regressam ao conceito mas com o Batman neste Creature of the Night.  A base é a mesma mas com um arquétipo bem diferente, o do Cavaleiro das Trevas, que se empresta a interpretações mais sombrias.

Busiek e Leon navegam as fronteiras entre o real e o imaginário com a  elegância que já os tinha elevado no volume do Homem de Aço. É a história de um órfão inspirado pelas histórias aos quadradinhos do Homem-Morcego, de como a batalha contra o crime carrega uma mente marcada por uma tragédia. Serve como história e como comentário meta-textual sobre a importância destes ícones. Os super-heróis não são apenas fantasias de escape e de empoderamento. São também cautionary tales e contos moralistas, por vezes bússolas de ética. Os autores compreendem isso e passam essa "mensagem" sem serem pregadores, antes alicerçam-na numa história bem construída e estruturada. Avizinha-se outro triunfo por parte de Busiek e Leon. Venha a Mulher-Maravilha logo a seguir.

Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 5.º Volume: Vingadores e Quarteto Fantástico

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Difícil mas…

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 7 de Agosto, junto com Público e custa 8,9€

Brian Michael Bendis, escritor, está para a Marvel da primeira década deste século como Stan Lee esteve para a de 60 do século XX (calma, eu sei que é exagero). Acontece que, desde 2004, quando tomou em mãos os Vingadores e lhes deu uma lavagem geral, o universo Marvel decidiu-se a não ser mais o mesmo – para o bem e para o mal. A história que deu a pedra de toque chamou-se Avengers Dissassembled (publicada pela BDMania/Vitamina BD) e, depois de acabar, literalmente o grupo de super-heróis não seria mais o mesmo. Os Vingadores foram depostos, viva os Novos Vingadores, aos quais adeririam, entre outros, os muito famosos Homem-Aranha e Wolverine, que nunca tinham feito parte do grupo. De uma estocada Bendis tinha conseguido o óbvio – juntar, na mesma equipa, alguns dos mais conhecidos personagens da editora. Não só por causa disso mas muito mais pela sua escrita e enredo o sucesso foi imediato e fulminante.

A Marvel deste século tinha começado a mudar mas não se ficaria por aqui. O esprit de corps entre os vários criadores era estimulado pela editora através de reuniões periódicas onde todos se juntavam para discutir o futuro das histórias. A noção de universo partilhado era cada vez mais omnipresente e Bendis, pelo sucesso que tinha e pelo facto de escrever a mais nuclear e transversal das equipas da editora, tinha bastante influência nos destinos gerais. Destas reuniões saíram todos os grandes eventos da década que se seguiu (e continuam hoje), alguns deles já publicados pela Levoir em coleções anteriores, como por exemplo Civil War e House of M. Estes foram eventos que, de forma muito direta, tinham como centro os Vingadores (mais na Civil War que House of M, já que esta última também envolvia os X-Men).

A Levoir reinicia a publicação destes eventos maiores da Marvel e Vingadores com aquele que, cronologicamente, se segue à Civil War, este Invasão Secreta. Nesta saga, pormenores de enredo e mistérios que existiam desde o primeiro número dos Novos Vingadores de Bendis são finalmente revelados. Por isso, torna-se um pouco complicado para o leitor causal poder acompanhar, com todos os pormenores, o que verdadeiramente se está a passar, mas o trabalho da Levoir e das suas introduções é geralmente irrepreensível e não se espera menos desta vez. Este está longe de ser o melhor trabalho de Bendis (infelizmente) e mesmo do desenhista que o acompanha, o filipino Leinil Francis Yu. Ainda assim, pelo lado do entretenimento, é uma história que toca os pontos mais importantes e avança a macro-narrativa que o escritor tinha planeado para os Vingadores.


Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

O que vou lendo! / Ler sem Medo – Man of Steel de John Byrne e Birthright de Mark Waid (escritor) e Leinil Yu (desenhista)

Já aqui falei da estranha e complicada história(s) da origem do Super-Homem e do facto de existirem diferentes versões do mito nos seus 75 anos de vida. A DC Comics, editora que detém os direitos do personagem, já reiniciou o seu universo de super-heróis uma mão-cheia de vezes o que, consequentemente, possibilitou que diferentes autores dessem a sua versão “definitiva” da origem do personagem. Nem todas foram bem-sucedidas, mas estas duas são das mais conhecidas e também melhor conseguidas. São também versões muito diferentes não só nos factos que relatam como também na psicologia do Homem de Aço. Não falo da personalidade (essa é relativamente imutável), mas do pedigree. Enquanto John Byrne, no seu Man of Steel, considera a educação terrestre como a melhor parte do personagem (ou seja, o lado Clark kent), Mark Waid pende para a herança kryptoniana (o lado Kal-El) – pronto, já perdi todos os leitores que não leem muito BD. Calma. Não fujam!
Nunca tinha lido o Birthright de Waid e Yu, mas o recente filme do Homem de Aço (cujo argumento foi influenciado por este livro) e o que andei a escrever sobre o personagem, despoletaram a minha curiosidade sobre uma obra da qual apenas ouvia elogios.
Não eram desmerecidos! Waid ama o Super-Homem, o próprio é o primeiro a admitir, ao ponto de obsessão, ao ponto da devoção. E isso nota-se em cada frase do livro, em cada diálogo, em cada cuidado com a reinterpretação do mito. E, tal como um outro leitor afirmou, Waid tem o dom de contar uma história conhecida, lida e desconstruída um milhão de vezes e fazê-la parecer fresca e inovadora. Para isso não só incide o seu foco no essencial, o Super-Homem, claro, mas também num dos revezes da medalha mais perniciosos da mitologia… Lex Luthor, o arquinimigo. A dicotomia quase complementar entre estas duas figuras maiores que a vida é clara, nas diferenças e nas similaridades, no que cada um consegue fazer com o que vida lhes trouxe de melhor e de pior. São eles a dupla alma de Birthright.
Além disso, Waid ainda tem tempo para introduzir pormenores deliciosos como o facto de o Super-Homem poder ver a aura de cada ser vivo, um caleidoscópio luminoso que distingue e individualiza cada um à face da terra. Forçosamente torna-se vegetariano.
The Man of Steel é a versão do Super-Homem de muitas gerações, inclusive a minha. Byrne foi a superestrela incumbida de reformatar o maior ícone da BD americana. O ano era 1986, logo a seguir à série Crise nas Infinitas Terras (que sai em português pela Levoir-Publico nas próximas duas quintas-feiras), e esta reinterpretação estava longe de ser o personagem familiar de quem o tinha acompanhado nas cinco décadas anteriores. Já não era o deus todo-poderoso e omnisciente capaz de carregar planetas e galáxias inteiras (literalmente) às costas, o seu Clark Kent não era o trapalhão imortalizado por Christopher Reeve em filme. Lex Luthor deixou de ser um mero super-vilão, para crescer no papel de um CEO híper-inteligente, cidadão adorado pela maioria e odiado pelos que conheciam a sua verdadeira face, a de um sociopata egocêntrico e genocida. E, como já referi, este Super-Homem dava mais importância ao Homem e menos ao Super. Esta foi a versão que subsistiu nos últimos 25 anos até ser (parcialmente) substituída pela de Waid.
Qualquer pessoa que queira se iniciar nas leituras do Homem de Aço pode fazê-lo através destas duas magníficas obras, símbolos que atestam à perenidade de uma das mais importantes mitologias do século XX.