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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, mas só agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana temos cinco sugestões para celebrar o filme do Joker (Sem A Piada Mortal do Moore e Bolland, porque essa é tão importante que nem vale a pena chover no molhado) e duas de leitura para todos os gostos e sensibilidades.

Rapidinhas de BD - Astro City vol. 14 e Thor By Jason Aaron & Russell Dauterman Vol. 2

A parceira de Kurt Busiek, Brent Anderson e Alex Ross na série Astro City dura há 20 anos, sem sinais de abrandar na qualidade e produtividade. Começaram na editora Image e na label de Jim Lee, a Wildstorm, mas desde então passaram para a DC Comics, quando esta adquiriu a primeira. Ultimamente têm sido publicados debaixo do selo da lendária Vertigo, ainda que a temática e a abordagem nada tenham a ver com a inclinação sobrenatural e com o terror sofisticado que classificaram esta durante mais de duas décadas.

Astro City é um mundo de super-heróis inteiramente concebido pelos autores, com o propósito de comentário meta-textual ao original da Marvel e da DC. Por outro lado, procuram a perspectiva do man on the street, do comum mortal, ainda que essa visão seja menos presente nos volumes mais recentes. Agora também procuram outros pontos de vista, desde vilões a seres extra-terrestres, passando, claro, pelos heróis propriamente ditos. Interessa aos autores a visão sobre eventos que são lugar comum na mitologia dos super-heróis. Kurt Busiek, o escritor, é um assumido geek destes universos e faz bom uso dessa inclinação, ao explorar de forma inventiva cada pormenor que passaria de outra forma despercebido nas histórias das duas grandes.

Neste 14.º volume não abranda este olhar clínico e inventivo, ao focar-se em seres que ajudam um ditador extra-dimensional na batalha contra análogos do Quarteto Fantástico, num casal de ex-vilões, agora com uma relação mais saudável com a Lei, e no também análogo do Super-Homem - esta última como comemoração dos 20 anos de publicação. Todas estas histórias enriquecem de forma independente a rica tapeçaria deste mundo criado do zero, que continua a ser uma das mais cativantes visitas a universos de fantasia. 

Entretanto, os autores já noticiaram a desistência da publicação mensal clássica para focarem-se em livros de contagem de páginas mais extensas ao estilo europeu.

A Marvel, do ponto de vista criativo, não anda a ter os seus melhores dias. Ainda assim, existem equipas que seguem a nobre tradição de clássicos como Lee/Kirby, Lee/Ditko, Claremont/Byrne, Simonson, etc. Jason Aaron no Thor é uma delas. Primeiro trabalhou com Esad Ribic e agora com Russell Dauterman, para produzir aquela que considero a mais interessante publicação mensal desta editora. Parece que a Marvel sabe disso e tem lançado estas edições formato grande a que chama Deluxe e que coleccionam, em média, cerca de 12 números da revista mensal. Valem a pena o preço e a (longa) espera entre volumes. É neste formato que as aventuras mitológicas da agora versão feminina do Deus do Trovão devem ser apreciadas. Num palco cósmico de grandiosidade épica.

Aaron mistura o mundo empresarial do mundo real com a mitologia Viking para criar ameaças ao mesmo tempo credíveis e fantasiosas. Concebe diálogos ricos que desenvolvem as personalidades dos protagonistas e que avançam a narrativa de forma sempre entretida. Constrói personalidades que vão para lá dos estereótipos e da bidimensionalidade a que estávamos habituados ao longo de décadas no Thor da Marvel (não sempre, claro, mas de forma recorrente). Acima de tudo, cria uma leitura que não conseguimos largar de tão entusiasmante que é. O único defeito que aponto é a velocidade com que queremos ler já o próximo volume - e nem noticia de para quando o seu lançamento.

Entretanto, a G.Floy publicou o volume que se segue ao lançado há uns anos pela Panini (infelizmente, os portugueses nunca verão a conclusão do Chacinador de Deuses) e a Goody irá, em breve, começar a fase da Thor versão feminina. 

Uma BD aqui, outra BD ali, 3

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Phoenix Resurrection - The Return of Jean Grey número 1 de Matthew Rosenberg e Leinil Francis Yu (Marvel)

Uma das mais queridas histórias da BD dos EUA é a Saga da Fênix Negra, escrita por Chris Claremont e desenhada por John Byrne. Estes dois autores são uma das mais lendárias equipas de BD graças à colaboração nos X-Men e, especificamente, nesta conhecida saga - que culminou na morte da personagem Jean Grey/Fênix, uma heroína que sacrificava-se em prol do universo. Em termos de preferência dos leitores, e de acordo com o mais recente inquérito do site Comic Book Resources, esta história é apenas superada pelos Watchmen - reparem na importância. Entretanto, e como é natural nas histórias de super-heróis, Jean Grey ressuscitou, para morrer outra vez às mãos de outro grande escritor, Grant Morrison. Ora, era apenas uma questão de tempo para que, uma vez mais, Jean Grey voltasse à vida. É com pouca surpresa que a morte e inevitável ressurreição de qualquer super-herói é encarada. Uns vêem-na com naturalidade, outros com gozo e os mais sérios como parte integrante da mitologia.

Se é inevitável, sobra então a qualidade da "empreitada", porque é disso que falamos. Muitas destas histórias nascem de imperativos editoriais e pouco ou nada têm a ver com inclinação ou inspiração artística, chamemos-lhe assim. Nada de mal com isso, estas são personagens detidas por corporações. It's the name of the game, you vote with your wallet. A execução desta segunda ressurreição é pouco mais que uma obrigação contratual, desinspirada na escrita e, principalmente, no desenho. Jean Grey é uma de três ressureições (aparentemente) e qualquer uma das restantes não são tanto surpresas mas mais "a sério? Também estes? pois... lá está, já se esperava". Desperdício de talento e de papel. Faziam isto em um único número e poupavam-nos o trabalho de ler. Eu, por mim, leio a síntese algures pela net.

Savage Dragon números 227 a 230 de Erik Larsen (Image)


Quando um conjunto de artistas decidiu abandonar a Marvel no início da década de 90 para criar a sua própria editora, a Image, Erik Larsen estava entre eles. O compromisso de todos era produzir material concorrente às duas grandes. Durante algum tempo foi assim, até que a maior parte deles não conseguiu cumprir com prazos. Outros cometeram o maior dos crimes: lançaram ideias mal executadas e preguiçosas. Aos poucos, os leitores abandonaram a Image mas a revolução estava feita. A BD dos EUA nunca mais seria a mesma. Erik Larsen, contudo, lançou o seu Savage Dragon em Julho de 1992 e desde então não parou. Acompanhei a revista mensal nos primeiros 100 números, sensivelmente, regressei um tempo depois e voltei a abandonar. Larsen, como não gosta de perder leitores, tem feito esforços para os recuperar, com algumas chamadas de atenção mediáticas e demagógicas que me agarraram (sou um tonto!).

Voltar passados estes anos para uma BD da Marvel ou DC poderia significar não ver grande mudanças. Com Savage Dragon não é assim. Erik Larsen sempre fez questão de avançar as suas personagens à velocidade do tempo real e, portanto, a revista conta histórias desde há 25 anos neste mundo fictício. Ao reabrir estas páginas o Dragon original não existe mais, substituído pelo filho que já tem 20 anos, é casado e tem ele próprio três filhos. Uma das tais mudanças mediáticas foi que Malcolm (o filho) mudou-se com a sua família para o Canadá, porque Trump (sim, ele existe nesta BD) não quer extra-terrestres nos EUA.

Contudo, a grande mudança não é essa. Larsen abandonou qualquer pretensão infanto-juvenil e adolescente e abraçou uma visão mais "adulta". O sexo é explícito, as relações são maduras, a nudez um lugar-comum (principalmente a das mulheres, vá se lá saber porquê). Nada contra. O ritmo continua o mesmo, com uma ou duas páginas de um lado da história, automaticamente passando para outro de forma abrupta mas raramente desconcertante. Usa muito shock-value para tornar a história entretida e agarrar o leitor. Os truques são os mesmos. Umas vezes são interessantes, outras não. O que faz pena são os desenhos. Na larga maioria das vezes são preguiçosos, apressados e quase-esboços (faz lembrar Frank Miller dos dias de hoje e isso não é bom). Larsen é capaz de muito melhor e adorava voltar a ver isso. De uma forma geral, lê-se bem mas este artista é capaz de melhor.

Batman, Creature of the Night número 2 de Kurt Busiek e John Paul Leon (DC Comics)


Em 2004, Kurt Busiek e John Paul Leon publicaram uma das mais interessantes histórias sobre o Super-Homem chamada Secret Identity (que considerei aqui como uma das 10 melhores do Homem de Aço). Tratava-se de um twist curioso, uma simbiose entre o mundo "real" e fictício. Nele o Super-Homem era uma personagem de BD mas alguém do mundo real adquiria os seus poderes. A sensibilidade e emoção com que Busiek contava a história da personagem principal não só reflectia as aspirações e sonhos do autor, confesso apaixonado destas mitologias, como explorava de forma inédita o que significa o conceito de Super-Homem. Treze anos depois, os dois regressam ao conceito mas com o Batman neste Creature of the Night.  A base é a mesma mas com um arquétipo bem diferente, o do Cavaleiro das Trevas, que se empresta a interpretações mais sombrias.

Busiek e Leon navegam as fronteiras entre o real e o imaginário com a  elegância que já os tinha elevado no volume do Homem de Aço. É a história de um órfão inspirado pelas histórias aos quadradinhos do Homem-Morcego, de como a batalha contra o crime carrega uma mente marcada por uma tragédia. Serve como história e como comentário meta-textual sobre a importância destes ícones. Os super-heróis não são apenas fantasias de escape e de empoderamento. São também cautionary tales e contos moralistas, por vezes bússolas de ética. Os autores compreendem isso e passam essa "mensagem" sem serem pregadores, antes alicerçam-na numa história bem construída e estruturada. Avizinha-se outro triunfo por parte de Busiek e Leon. Venha a Mulher-Maravilha logo a seguir.

Rapidinhas de BD - Autumnlands vol.2, The Goddamned vol. 1 e Paper Girls vol. 2

Depois do primeiro volume ser uma das mais interessantes leituras de 2015, eis que finalmente nos chega o segundo Autumnlands de Kurt Busiek e Benjamin Dewey.  Continuamos neste estranho mundo ao melhor estilo Tolkienesco mas com personagens antropomorfizados. 

Este volume continua a centrar-se num dos seus habitantes, meio homem, meio canídeo, enquanto acompanha, em estilo viagem de demanda, o profetizado salvador humano. Busiek e Dewey conseguem manter-nos interessados, com um promissor world-building, personagens cativantes e mais do que uma surpresa, agora que começamos a embrenhar-nos nos segredos por detrás deste mundo de Fantasia. O que os autores têm reservado para os leitores não é uma narrativa fracturante e inédita, mas antes um valor seguro de diversão que é um verdadeiro page-turner. Se o primeiro volume foi uma surpresa, este segundo é a confirmação.

A parelha artística que nos deu o fabuloso Scalped da Vertigo regressa com The Goddamned, Before the Flood. Contudo, Jason Aaron e r.m.Guéra escolhem um tema bem diferente da história, ao estilo Sopranos, de nativos norte-americanos, o tema da sua anterior colaboração. Aqui entramos pelo terreno bíblico e acompanhamos a narrativa do primeiro filho caído, o criador do assassinato, Caim. Num mundo selvagem e violento que faz a Ciméria de Conan, o Bárbaro parecer uma Ilha dos Amores, o protagonista irá ter de se defrontar com outro personagem bíblico de renome, Noé,  e descobrir a melhor forma de atingir o seu maior desejo: morrer. Amaldiçoado com a imortalidade, este Caim lembra a interpretação que Saramago também faz do mesmo, com mais sangue e vísceras mas com o mesmo desdém e ódio pelo Deus que o condenou a esta morte em vida.

Se o primeiro volume desta colaboração entre Brian K. Vaughan e Cliff Chang, Paper Girls, não foi bem aquilo que estava à espera, este segundo mais do que recupera essa meia-decepção inicial.  Como alguém já referiu, isto é a série de TV Stranger Things mas sem o delicodoce da nostalgia. 

É sobre as recordações mal lembradas da década de 80 mas com um toque de cinismo pós-modernista. É sobre viagens no tempo, correcções temporais, raparigas cheias de "tomates" e entretenimento inconfessável. São versões de personagens que vêem do presente, do passado e de futuros que  se espera alterar. É cheio de surpresas e de violência inesperada e trágica, tão típicas de Vaughan.

A editora Image continua a dar-nos algumas das mais interessantes BD's do panorama mundial desta arte e estas três são excelentes exemplos disso mesmo. Longa vida a Image.

Rapidinhas de BD - Astro City: Lovers Quarrel e Injection vol. 1

Astro City: Lovers Quarrel de Kurt Busiek, Brent Anderson e Alex Ross

Busiek, Anderson e Ross andam às voltas com Astro City há um bom par de décadas e, apesar de "apenas" terem um total de 12 volumes publicados até à data, esta continua a ser uma das minhas mais interessantes BD's pela análise que dedica à mitologia dos super-heróis. As histórias que contam não são descontruções pós-modernistas que tanto furor fazem de uma certa tendência intelectual. Antes procuram uma abordagem mais pura e maravilhada, uma mistura de sensibilidade típica das Idades de Prata e Bronze da BD nos EUA com linguagens mais modernas mas, volto a dizer, sem tendências descontrucionistas. Busiek, o escritor, é conhecido pela sua abordagem de fã à mitologia e em nenhuma das suas obras algo é tão óbvio como neste Astro City, uma carta de amor elaborada e longa aos universos a quem dedicou décadas de leitura, devoção e trabalho: refiro-me à Marvel e à DC. 

Este Lovers Quarrel possui um conjunto de características que, ainda que não originais, são particularmente interessantes. Busiek e companhia focam o seu olhar num par amoroso de super-heróis (talvez reminescentes da famosa parelha Demolidor / Viúva Negra da década de 70 da Marvel), enquanto tentam envelhecer com dignidade. Como disse, não se trata de uma abordagem ou temática inovadoras, mas a candura e maestria com que os autores elaboram as vidas, personalidades e histórias dos personagens, transformam o familiar no cativante.  Ao mesmo tempo, aparentam, com discrição, avançar uma macro-história que parecem estar a construir desde que iniciaram esta nova iteração de Astro City pela editora Vertigo da DC Comics. 

Sistematicamente, esta continua a ser uma das mais interessantes BD que leio. Isto apesar de, neste volume, Brent Anderson parecer estar em baixo de forma e alguns dos desenhos aparentarem ser semi-acabados. Ainda assim, um digno volume da coleção.

Injection vol. 1 de Warren Ellis, Declan Shalvey, Jordie Bellaire

Por falar em autores já experientes, volto a dedicar algum do meu tempo de leitura a Warren Ellis, consistentemente um dos mais prodigiosos escritores de BD da actualidade. Apesar da "pequena" revolução na narrativa super-heroística do início do século com meros doze números de Authority e com os quatro volumes de Planetary, continua a procurar não tanto novas linguagens mas perspectivas inovadoras e sui generis. Injection, publicada pela editora Image, fala de cinco génios que literalmente injectaram um "vírus" no século XXI. Previram que a humanidade estaria prestes a entrar numa fase de estagnação e criaram algo que possibilitasse "tornar as coisas mais interessantes". A ideia, por si só, é já cativante, mas a abordagem marginalmente surrealista de Ellis à escrita transformam a experiência. 

Ellis procura unir o místico ao tecnológico, o ecológico ao digital, criando um algoritmo narrativo que necessita de várias leituras para ser entendido e decifrado. Não tenta, de forma nenhuma, criar uma experiência "amiga do leitor", antes forçando-o a ter atenção, a ler e reler, a criar um novo estado de mente para poder ler, mais com o coração do que a cabeça, a história da injeção nanomística. Ellis parece controlar um conjunto de mitologias, misturando-as de forma particular e cheia de energia cinética. Junto com Trees (Image) e Karnak (Marvel), este escritor continua a provar ser uma das mais interessantes mentes da BD mundial, lado a lado com outros ingleses famosos como Moore e Morrison, de quem partilha o mesmo código genético narrativo mas com quem, apesar da sua já vasta obra, não parece (ainda) partilhar da mesma fama.   

Rapidinhas de BD - Autumnlands vol. 1, Tooth & Claw e Undertaker vol. 1: Le Mangeur D'Or



Em conversa com um dono de uma loja de Banda Desenhada em Lisboa consolidei uma certeza que tinha há alguns anos: o eterno estigma que a BD tem, o de ser infanto juvenil, perpetua-se. Eu sei que esta afirmação não é uma novidade para ninguém, mas existe um efeito pernicioso em particular do qual queria falar. Mesmo para os que estão interessados em entrar neste mundo, o medo de perguntar por algo que outros vêem como "inferior" barra o ímpeto de experimentar. Não tenhamos duvidas: isto é uma questão de cultura, de falta dela e, por conseguinte, de ignorância. Sabemos todos da dificuldade que é entrar no mundo da BD, também pela quantidade de oferta e pela aparência de insularidade que a Arte carrega consigo. Essa aparência é, contudo, isso mesmo, porque a oferta é de tal forma variada que existe algo para cada leitor, independentemente do gosto. Vejam o exemplo destas duas BD: uma um conto de Alta Fantasia com animais antropomorfizados; outra, um simples western.

Autumnlands foi uma muito agradável surpresa. Conheço bem o escritor Kurt Busiek pelo seu trabalho na Marvel, na DC e no excelente título Astro City. Contudo, aqui o autor envereda por um caminho a que não estamos habituados. Calcorreamos paisagens e cidades de um mundo místico imaginário, populado por animais antropomorfizados, onde a Magia, o equivalente à electricidade na nossa civilização, encontra-se em risco de esgotar-se e arrastar este universo para o caos. Um conjunto de místicos juntam-se numa derradeira busca para encontrar a salvação. Como já o disse variadíssimas vezes, muitas são as vezes em que a originalidade da premissa (ou falta dela) não é importante. Interessa mais a habilidade dos artistas em entretecer palavras com palavras e palavras com desenhos de modo a construir algo verdadeiramente seu e único. Parece ser o caso deste Autumnlands. Busiek mistura mundos imaginários com religião, intriga palaciana com salvadores predestinados, para criar um enredo entusiasmante e, em todas as esquinas, cheio de mistérios. Este primeiro volume é uma grande vitória. E, já agora, a arte de Benjamin Dewey é de babar (a Image continua a dar AS cartas que interessam na BD dos EUA).

Xavier Dorison e Ralph Meyer, por seu lado, enveredam num estilo que (sempre achei curioso) tem bastante sucesso por terras gaulesas: o western. Esta BD vem com o rótulo de "a melhor do estilo depois de Blueberry". Como nunca li este último não posso comentar (tenho em casa quase todos prontinhos para o fazer mas a prioridade passa antes por Thorgal e por Valérian - westerns não são bem a minha praia). Achei a leitura deste Undertaker escorreita e interessante. Acompanhamos um pistoleiro cangalheiro anti-herói muito ao estilo de vários outros westerns estado-unidenses, um homem marcado por um passado sombrio, tão rápido na pistola quanto no sarcasmo. Até aqui nada de novo mas o enredo que impele à acção do protagonista, envolvendo obviamente um cadáver e o transporte de uma fortuna em ouro, embeleza a narrativa e agarra. O desenho lembra Giraud mas com  uma distribuição das vinhetas mais moderna. Em suma, um bom entretenimento. 

O que vou lendo! - The Fade Out vol. 1 e Astro City, Private Lives




The Fade Out vol. 1 de Ed Brubaker e Sean Philips e Astro City, Private Lives de Kurt Busiek e Brent Andrerson

Estas duas BD têm, tematicamente, muito pouco em comum. A primeira é a mais recente incursão dos dois autores no universo noir de que tanto gostam (leiam sobre a sua colaboração em Fatale). O segundo é a continuação das histórias do universo de super-heróis criado por estes dois autores e por Alex Ross. Ambas têm abordagens completamente diferentes. Fade Out é uma análise cínica e negra (mas não desapaixonada) de Hollywood nos seus tempos áureos, onde a estrelas eram tão brilhantes quanto escuros eram os bastidores. Astro City verte amor por por todos os poros, uma carta longa, rebuscada e verdadeiramente apaixonada aos universos maiores que a vida dos super-heróis. Contudo, têm também muito em comum. Os quatro autores agarram nas suas paixões e, libertos de prisões, explanam toda a sua arte na concepção de universos e de estilos com os quais estão tão à vontade quanto pássaros a voar. Esta metáfora é, a meu ver, bastante apropriada. Quando deixam os criadores pensarem dentro das suas próprias inclinações e gostos, estes conseguem colocar cá fora o melhor que a sua capacidade criativa tem para oferecer.  Uma verdade tão simples e tão difícil de entender por alguns. Uma realidade que deveria ser lugar comum na maior parte da demanda artística e que, muitas vezes, é colocada de parte. Mesmo em trabalhos por encomenda, essa capacidade, esse engenho, não deveria ser curvado. Por observação ao longo dos anos, quando deixam o artista dar vôo à sua imaginação muitas são as vezes em que somos recompensados com obras melhores e, quando a sorte e o destino para isso se conspiram, maiores.

Depois desta conversa estarão à espera que não tenha outra coisa que rasgados elogios a estes dois livros. O prazer que ambos me deram ao lê-los pouco ou nada tem a ver com esta opinião. Se gosto mais ou menos é um problema exclusivamente meu, do que eu procuro numa obra. Tanto Fade Out como Astro City são dois bons exemplos do trabalho conjunto destas duas parelhas. No caso da primeira, Brubaker e Philips, cuja colaboração é já longa, é mais um exemplo do que as inclinações noir de ambos têm para oferecer. Desta vez não temos apenas detectives ou mulheres fatais "Cthulhianas" mas uma exploração do submundo de uma das artes que mais explorou o filão do noir: o cinema. A história começa com um assassínio, como não poderia deixar de ser, e imiscui-se nos meandros dos escritores, produtores, realizadores, da 7.º Arte. 

Astro City, Private Lives, é o mais recente volume da já antiga construção que Busiek, Anderson e Ross fazem de um mundo que mistura os arquétipos da Marvel e DC com a visão de deslumbramento ou horror do homem comum quando confrontado com estes universos de super-heróis. A "fórmula" continua a funcionar, se bem que neste conjunto de seis historias nem todas tenham a mesma força - todas contribuem para a macro-história que se está a construir desde o início desta nova série pela Vertigo. Apesar de continuar o deslumbramento, Busiek e companhia têm de tal forma nos habituado à excelência que qualquer coisa um pouco inferior sabe a pouco. Este volume apesar de ser superior à maior parte do que se produz em termos de super-heróis sabe a pouco.

Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 11.º Volume: Vingadores

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Difícil mas...

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 18 de Setembro, junto com Público e custa 8,9€

Por esta altura muitos já sabem quem são os Vingadores: a coleção dos melhores super-heróis que o universo da Marvel tem para oferecer. O que talvez nem todos saibam é que a história deste grupo é antiga (remonta à década de 60) e extraordinariamente conturbada, como aliás manda que seja qualquer história de um super-herói que se preze. Ao longo de cinco décadas, os personagens que fizeram ou fazem parte das fileiras desta importante equipa, sofreram, evoluíram e, acima de tudo,  modificaram-se. Aqueles que tinham revistas homónimas onde, mensalmente, eram contadas as suas vidas "pessoais" (Capitão América, Thor, Homem de Ferro, por exemplo), para esses era difícil fazer grandes explorações na publicação mensal dos Vingadores. Mas os outros, cuja vida se cingia ao grupo, eram plasticina para ser moldada ao bel prazer dos múltiplos criadores.  Por vezes, o inevitável acontecia e um personagem era transformado ao ponto da contradição com histórias anteriores. Nada que não pudesse ser corrigido por uma história e criador subseqüentes. O que acabei de descrever constitui um dos pontos mais interessantes para nós fãs no que respeita à mitologia dos super-heróis: a da constante reinivenção. E a história compilada neste no anterior volume, Vingadores Para Sempre, tem disto.

Outras das grandes paixões dos verdadeiros amantes desta literatura são as sagas megalómanas, com o tecido espaço-temporal em constante ameaça. Para personagens como os Vingadores, habituados a confrontos no palco universal e temporal, este tipo de sagas são aquelas que melhor justificam a existência de uma assembleia de personagens que incluem deuses, semideuses, génios, super-soldados, feiticeiras, gigantes, andróides sencientes, etc.  É quando o destino de tudo está em cima da mesa, quando os vilões excedem a maldade e tornam-se verdadeiros tiranos que põe em perigo a própria existência, são nestes cenários que heróis como estes melhor demonstram as suas capacidades. E a história compilada neste no anterior volume, Vingadores Para Sempre, tem disto.

Finalmente, também é do gosto dos fãs, histórias que envolvem múltiplas versões de um mesmo personagem: de realidades paralelas utópicas; de realidades paralelas distópicas; de futuros paralelos distópicos; de futuros possíveis utópicos. E a história compilada neste no anterior volume, Vingadores Para Sempre, tem disto.

Este trabalho de Kurt Busiek (de quem já leram Marvels, também nesta coleção) e Carlos Pacheco está longe de ser o mais acessível dos volumes para o coleccionador ocasional de BD. Contudo, é umas das mais divertidas viagens de que tenho memória em relação aos Vingadores e uma que vale mesmo a pena acompanhar. Nem que seja pela sensação de confusão e vertigem.

Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 10.º Volume: Vingadores

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Difícil mas...

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 11 de Setembro, junto com Público e custa 8,9€

Por esta altura muitos já sabem quem são os Vingadores: a coleção dos melhores super-heróis que o universo da Marvel tem para oferecer. O que talvez nem todos saibam é que a história deste grupo é antiga (remonta à década de 60) e extraordinariamente conturbada, como aliás manda que seja qualquer história de um super-herói que se preze. Ao longo de cinco décadas, os personagens que fizeram ou fazem parte das fileiras desta importante equipa, sofreram, evoluíram e, acima de tudo,  modificaram-se. Aqueles que tinham revistas homónimas onde, mensalmente, eram contadas as suas vidas "pessoais" (Capitão América, Thor, Homem de Ferro, por exemplo), para esses era difícil fazer grandes explorações na publicação mensal dos Vingadores. Mas os outros, cuja vida se cingia ao grupo, eram plasticina para ser moldada ao bel prazer dos múltiplos criadores.  Por vezes, o inevitável acontecia e um personagem era transformado ao ponto da contradição com histórias anteriores. Nada que não pudesse ser corrigido por uma história e criador subseqüentes. O que acabei de descrever constitui um dos pontos mais interessantes para nós fãs no que respeita à mitologia dos super-heróis: a da constante reinivenção. E a história compilada nos próximos dois volumes, Vingadores Para Sempre, tem disto.

Outras das grandes paixões dos verdadeiros amantes desta literatura são as sagas megalómanas, com o tecido espaço-temporal em constante ameaça. Para personagens como os Vingadores, habituados a confrontos no palco universal e temporal, este tipo de sagas são aquelas que melhor justificam a existência de uma assembleia de personagens que incluem deuses, semideuses, génios, super-soldados, feiticeiras, gigantes, andróides sencientes, etc.  É quando o destino de tudo está em cima da mesa, quando os vilões excedem a maldade e tornam-se verdadeiros tiranos que põe em perigo a própria existência, são nestes cenários que heróis como estes melhor demonstram as suas capacidades. E a história compilada nos próximos dois volumes, Vingadores Para Sempre, tem disto.

Finalmente, também é do gosto dos fãs, histórias que envolvem múltiplas versões de um mesmo personagem: de realidades paralelas utópicas; de realidades paralelas distópicas; de futuros paralelos distópicos; de futuros possíveis utópicos. E a história compilada nos próximos dois volumes, Vingadores Para Sempre, tem disto.

Este trabalho de Kurt Busiek (de quem já leram Marvels, também nesta coleção) e Carlos Pacheco está longe de ser o mais acessível dos volumes para o coleccionador ocasional de BD. Contudo, é umas das mais divertidas viagens de que tenho memória em relação aos Vingadores e uma que vale mesmo a pena acompanhar. Nem que seja pela sensação de confusão e vertigem.

Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 7.º Volume: Universo Marvel

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Fácil

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 21 de Agosto, junto com Público e custa 8,9€


Marvels de Kurt Busiek e Alex Ross marcou uma viragem. Publicada em 1994, nasce no auge de uma das épocas “negras” da BD americana. O início da década de 90 foi profundamente marcado pelo apogeu (ou ponto mais baixo, dependendo da forma como o vemos) do anti-herói, tal como iniciado por Alan Moore nos Watchmen e Frank Miller em The Dark Knight Returns. Depois destas obras e ainda que não tenha sido esse, nem de longe nem de perto, o objectivo dos autores, multiplicaram-se as histórias negras e os heróis que matam. Foi o auge da fama de personagens como Punisher, Venom, Ghost Rider, etc, nas suas versões mais vingativas e longe da matriz heroica pela qual sempre se pautou a criação do arquétipo do super-herói. Kurt Busiek e Alex Ross vieram dar o primeiro passo para a destruição desta “moda”.

Os dois autores eram apaixonados pelos momentos mais emblemáticos das décadas de 60 e 70 do universo da Marvel, tendo sido criados pela leitura desses clássicos. Surgiu então a ideia de fazer algo até então inédito neste tipo de BD. Contariam a história dos primórdios universo Marvel pela perspetiva da rua, da do homem e mulher comum. Como seria para uma mãe de família passear pelas ruas de Nova Iorque enquanto a cidade era pela primeira vez visitada pelo gigante intergaláctico devorador de mundos conhecido pelos fãs como Galactus? Que tipo de questões se lhe surgiriam? Entraria em desespero ou perder-se-ia em pensamentos filosóficos? Como seria para o miúdo de rua, bicicleta na mão, enquanto por cima dele se passeava um homem gigante, o Golias dos Vingadores, ou o Capitão América fazia acrobacias por cima do trânsito parado? Que maravilhas eram aquelas que surgiam por todo o lado, neste mundo que antes era sereno e normal (aparentemente). Esta é a premissa de Busiek e Ross nesta minissérie de quatro capítulos que se transformou num dos maiores sucessos da editora e que criaria uma parceria de mais de 20 anos entre os dois autores (vejam a brilhante evolução deste Marvels chamada Astro City, uma das melhores BD actualmente em publicação).

Ao mesmo tempo, lançaria para a ribalta o nome do ilustrador (esse é o nome mais apropriado), Alex Ross. Este senhor era dono de um estilo muito próprio, pintando os seus heróis ao invés de os desenhar, emprestando, desde logo, uma aura realista que tanto tem feito as delícias dos fãs desde esta altura. Depois deste trabalho lançou um outro, Kingdom Come, junto com o escritor Mark Waid e publicada pela DC Comics (em Portugal pela Vitamina BD). Esta BD escreveria a nota final acerca da loucura “negra” da década de 90, ao comentá-la de forma meta-textual e pouco subtil. O que Kindgdom Come “acabou” este Marvels iniciou.

Esta é uma BD para a qual não é necessário ter noção destes pormenores para a apreciar. A sua qualidade é transversal aos públicos, às artes e à época. Uma leitura rica e essencial.


Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

O que vou lendo! - Astro City, Through Open Doors de Kurt Busiek, Brent Anderson e Alex Ross

Já tinham passado alguns anos desde a última vez que esta maravilhosa série de Busiek, Anderson e Ross deu ar da sua graça. A interrupção entre este e o volume anterior foi longa, principalmente tendo em consideração as saudades que me provoca de cada vez que está ausente. Comecei a colecionar a série desde o primeiro livro, já nos idos do final da década de 90. Sempre foi um dos meus maiores prazeres de leitura de BD, uma mistura perfeita entre o que de melhor a literatura de super-heróis pode oferecer, uma reflexão meta-textual deste tipo de personagens e maravilhamento puro e duro. Os três autores não só baralharam arquétipos como o Super-Homem, Mulher-Maravilha, Batman, Quarteto Fantástico, Liga da Justiça, Homem-Aranha, etc., fornecendo a sua muito própria visão sobre eles, como construíram de raiz um mundo maravilhosamente imaginativo e, finalmente, nos dão uma perspectiva que é de todo única no panorama desta arte.

O grande conceito por detrás de Astro City não é exclusivamente o da perspectiva dos super-heróis mas antes a do "homem comum", daquele que observa estes feitos maiores que a vida, que tem medo, admiração, inveja, maravilha, pelos homens e mulheres que voam e balançam-se por cima de suas cabeças. Busiek e Ross inauguraram esta "visão" com a conhecida obra Marvels (publicada há uns anos atrás pela Vitamina BD e que agora vai ser republicada pela Levoir/Público) mas, em Astro City, junto com Brent Anderson, elevam-na para níveis de qualidade incomparáveis. Primeiro que tudo, constroem o seu próprio universo, desde o Big Bang até às profundezas do centro da Terra, passando pelas ruas e habitantes da cidade titular, ficando aí, explorando todos os seus segredos. Segundo, cada novo volume é mais um grão de areia na gigantesca praia que os três autores constroem aos poucos e poucos. Cada novo conceito, cada novo personagem é, ao mesmo tempo, familiar e inovador. Eles vão ao fundo do baú das memórias coletivas da BD americana e de lá sacam novas perspectivas sobre velhos amigos e amigas. Obviamente que para os apreciadores da Arte este é um repositório riquíssimo de referências meta-textuais mas mesmo o leitor casual pode retirar preciosidades de cada leitura.

Felizmente, Astro City tem uma nova casa na lendária editora Vertigo - que, contudo, e mesmo com a adição desta obra, está longe dos seus dias de ouro. Este primeiro volume desta nova era é mais do mesmo e, neste caso, mais do mesmo é o maior elogio que eu posso dar. Busiek, Anderson e Ross continuam a  tocar de forma magistral os instrumentos que fazem a melodia das ruas de Astro City. Não perderam força e inspiração, muito pelo contrário. Desta vez começaram mesmo a experimentar com um tema bastante comum na literatura de super-heróis: a ameaça cósmica e multi-universal. Pequenas / grandes pistas começam a ser dadas desde a primeira página deste novo volume. Mas, reforço, sem perder um átomo da acessibilidade ou da sensibilidade e perspectiva que descrevi nos parágrafos anteriores. Esta é a prova que ainda bem que existem trabalhos destes a serem publicados, trabalhos que devem ser acompanhados, devorados e publicitados. Porque só com livros destes pode a BD continuar a ascender.