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Rapidinhas de BD - Astro City vol. 14 e Thor By Jason Aaron & Russell Dauterman Vol. 2

A parceira de Kurt Busiek, Brent Anderson e Alex Ross na série Astro City dura há 20 anos, sem sinais de abrandar na qualidade e produtividade. Começaram na editora Image e na label de Jim Lee, a Wildstorm, mas desde então passaram para a DC Comics, quando esta adquiriu a primeira. Ultimamente têm sido publicados debaixo do selo da lendária Vertigo, ainda que a temática e a abordagem nada tenham a ver com a inclinação sobrenatural e com o terror sofisticado que classificaram esta durante mais de duas décadas.

Astro City é um mundo de super-heróis inteiramente concebido pelos autores, com o propósito de comentário meta-textual ao original da Marvel e da DC. Por outro lado, procuram a perspectiva do man on the street, do comum mortal, ainda que essa visão seja menos presente nos volumes mais recentes. Agora também procuram outros pontos de vista, desde vilões a seres extra-terrestres, passando, claro, pelos heróis propriamente ditos. Interessa aos autores a visão sobre eventos que são lugar comum na mitologia dos super-heróis. Kurt Busiek, o escritor, é um assumido geek destes universos e faz bom uso dessa inclinação, ao explorar de forma inventiva cada pormenor que passaria de outra forma despercebido nas histórias das duas grandes.

Neste 14.º volume não abranda este olhar clínico e inventivo, ao focar-se em seres que ajudam um ditador extra-dimensional na batalha contra análogos do Quarteto Fantástico, num casal de ex-vilões, agora com uma relação mais saudável com a Lei, e no também análogo do Super-Homem - esta última como comemoração dos 20 anos de publicação. Todas estas histórias enriquecem de forma independente a rica tapeçaria deste mundo criado do zero, que continua a ser uma das mais cativantes visitas a universos de fantasia. 

Entretanto, os autores já noticiaram a desistência da publicação mensal clássica para focarem-se em livros de contagem de páginas mais extensas ao estilo europeu.

A Marvel, do ponto de vista criativo, não anda a ter os seus melhores dias. Ainda assim, existem equipas que seguem a nobre tradição de clássicos como Lee/Kirby, Lee/Ditko, Claremont/Byrne, Simonson, etc. Jason Aaron no Thor é uma delas. Primeiro trabalhou com Esad Ribic e agora com Russell Dauterman, para produzir aquela que considero a mais interessante publicação mensal desta editora. Parece que a Marvel sabe disso e tem lançado estas edições formato grande a que chama Deluxe e que coleccionam, em média, cerca de 12 números da revista mensal. Valem a pena o preço e a (longa) espera entre volumes. É neste formato que as aventuras mitológicas da agora versão feminina do Deus do Trovão devem ser apreciadas. Num palco cósmico de grandiosidade épica.

Aaron mistura o mundo empresarial do mundo real com a mitologia Viking para criar ameaças ao mesmo tempo credíveis e fantasiosas. Concebe diálogos ricos que desenvolvem as personalidades dos protagonistas e que avançam a narrativa de forma sempre entretida. Constrói personalidades que vão para lá dos estereótipos e da bidimensionalidade a que estávamos habituados ao longo de décadas no Thor da Marvel (não sempre, claro, mas de forma recorrente). Acima de tudo, cria uma leitura que não conseguimos largar de tão entusiasmante que é. O único defeito que aponto é a velocidade com que queremos ler já o próximo volume - e nem noticia de para quando o seu lançamento.

Entretanto, a G.Floy publicou o volume que se segue ao lançado há uns anos pela Panini (infelizmente, os portugueses nunca verão a conclusão do Chacinador de Deuses) e a Goody irá, em breve, começar a fase da Thor versão feminina. 

Batman, Uma História Verdadeira de Paul Dini e Eduardo Risso na Colecção Novelas Gráficas III da Levoir/Público

(o Acho que Acho teve a honra de ser convidado para fazer a introdução deste volume)


Batman, Uma História Verdadeira de Paul Dini e Eduardo Risso está nomeado para o Prémio Eisner como melhor história autobiográfica 2017, poderá ser adquirida a partir de 21 de Julho, em versão de capa dura, pelo PVP de 9,99€ em conjunto com o jornal Público.

Paul Dini é o criador de Harley Quinn, a carismática namorada de Joker, que esteve em grande destaque no filme Esquadrão Suicida, Batman, Uma História Verdadeira. Eduardo Risso, desenhador argentino já conhecido do público português graças aos títulos editados pela Levoir, como Parque Chas e Batman Noir, dá aqui provas de uma versatilidade inesperada, adaptando o seu traço às necessidades específicas dos diferentes momentos da história. Mestre do preto e branco, como Batman Noir demonstra à saciedade, Risso ocupa-se pela primeira vez também da cor de uma história que desenhou, com resultados deslumbrantes, mas também extraordinariamente eficazes em termos narrativos.

Esta não é uma narrativa comum. É uma novela gráfica, contada pelo próprio autor a partir de um momento crucial da sua vida. Em 1993 ele foi brutalmente espancado e deixado em estado crítico perto de sua casa em West Hollywood. Além dos danos físicos que as agressões deixaram, Paul Dini lutou com as consequências psicológicas e o desafio de continuar a escrever sobre Batman e seus vilões.

A utilização dos personagens de Batman são a chave para o sucesso desta obra. Mesmo que esta história seja sobre a ideia do Batman, isso não significa que o Cavaleiro das Trevas e dos seus inimigos não apareçam na história como personagens reais. Cada vilão de Gotham aparece como uma manifestação da personalidade e psique de Paul Dini. Pinguim representa a tentação para beber álcool. Espantalho encarna o terror que Paul encara durantes os dias. Joker é a voz de cada pensamento sombrio que representa um atraso para a sua vida e carreira. Batman representa a esperança que ele pode inspirar nas pessoas que passam pelos momentos mais desesperantes.

A sinergia entre a escrita de Paul Dini e a arte de Eduardo Risso é impressionante. Sendo o resultado uma obra que fica entre uma realidade aterradora e momentos surreais e fantásticos. É uma obra de uma sensibilidade ímpar. É uma leitura obrigatória para todos os que são fãs de Batman. Mais do que isso, é uma leitura essencial para quem precisa urgentemente voltar a inspirar-se na vida.





Rapidinhas de BD - Vertigo is Dead, Long Live Vertigo



O título não é exagero. O famoso selo da editora norte-americana de BD, a DC Comics, está moribundo. Desde o seu início, no princípio da década de 90,  que a Vertigo não tinha tão poucos livros a serem lançados. Esta foi a casa fundada pela famosa Karen Berger, a lendária editora de BD, a mulher que deu-nos o Alan Moore dos EUA, o Sandman de Neil Gaiman, o Preacher de Garth Ennis e Steve Dillon, o 100 Bullets de Brian Azzarello e Eduardo Risso. São inúmeros os legados deixados por Berger e pela casa que fundou. A História da BD dos EUA e do mundo passa pelos seus corredores e pelo seu catálogo.

Legado também é a palavra correcta para falar destes dois títulos: um é já um antigo amigo, American Vampire de Scott Snyder com Rafael Albuquerque (no seu sétimo volume); outro uma adição, mas com uma equipa já conhecida, o Moonshine de Brian Azzarello e Eduardo Risso. Ambos bebem de um mesmo lugar, da marca de inspiração Vertigo/Berge. Existe a apetência para o terror adulto, negro e deprimido e, nestes dois casos, com inclinação sobrenatural. Poderia ser o horror do serial killer, poderia ser o fantástico pós-modernista. Contudo, os autores ingressam no puro e mais primordial dos horrores, recorrendo a monstros do fabulário e imaginário europeu/ocidental. São duas obras com vampiros e lobisomens, mas arquitectadas por autores que têm algo de novo a dizer acerca destes arquétipos muito conhecidos.

American Vampire é exactamente sobre o que título sugere. Skinner e Pearl são dois vampiros dos EUA, com características bem diferentes dos originais das terras europeias. Ao longo dos seis volumes anteriores assistimos ao seu nascimento e à sua luta para sobreviver, desde o faoreste do século XIX até aos fabulosos anos 20. Os conflitos são contra a sua própria natureza, contra vampiros de outras raças e contra a Humanidade. Neste sétimo volume o confronto é de natureza bíblica. Estamos na década de 60 e um mal primordial ressurge e persegue, indiscriminadamente, a raça de sugadores de sangue. Pode parecer banal mas, uma vez mais e como sempre, é o dedo dos autores que carrega aquilo que é normal e já visto para o reino do entretenimento de qualidade. O conceito deste livro (publicado pela DC e pela Vertigo) é da autoria do conhecido escritor de terror, Stephen King, mas cabe a Snyder a tarefa de levar a bom porto o conceito. E consegue fazê-lo de forma exemplar, demonstrando que, apesar de ter sido esta uma das primeiras obras que o tornou conhecido, continua a entretê-lo e a entreter-nos.

Moonshine vem com a marca de uma das novas Vertigos, a Image, que tem recebido em sua casa autores de várias editoras, para produzir, livremente e detendo os seus direitos, obras de temática diferente. O regresso da parceria Azzarello/Risso a uma obra mais longa era esperado desde a altura do seu essencial 100 Bullets. Voltam atrás no tempo para o final da década de 20 dos EUA, na altura da depressão e da lei seca, onde criminosos e personalidades menos solarengas pareciam multiplicar-se na ficção. Em suma, o casamento perfeito com as sensibilidades de ambos os autores, noir do átomo do cabelo (cheio de brilhantina) à molécula da unha (negra e ressequida) do pé. Existem produtores de whiskey (ou bourbon) clandestinos, homens com passado, mulheres fatais, hillbilly's sanguinários, gangsters violentos... e lobisomens. Que mais pode pedir-se a Azzarello e Risso? Nada excepto: muito bem-vindos de volta. 

O que vou lendo! Dark Night, A True Batman Story de Paul Dini e Eduardo Risso

A publicação de biografias ou autobiografias em BD é, há muito tempo, uma tradição. Obras impares como Maus e Blankets nasceram desta inclinação e transformaram de forma perene o panorama da arte. Quer se queiram, quer não, também os super-heróis fizeram o mesmo, quer na dita BD de "qualidade" quer na outra, também dita, a da "cultura popular". O que raramente acontece (a minha memória não ajuda) é a junção das duas, como é o caso deste Dark Night, A True Batman Story, escrita por Paul Dini e desenhada por Eduardo Risso.  

Desenganem-se, dos que ficam curiosos pela leitura, que irão ler uma obra de acção e luta entre o Cavaleiro das Trevas e os seus muitos e coloridos adversários. Não que não possamos ver e apreciar o dedo do brilhante Risso a desenhar Batman, Joker, Hera Venenosa, entre muitos outros dos personagens míticos da mitologia deste personagem da DC Comics. Mas este é um livro sobre Paul Dini,  escritor de BD mas também da afamada série de desenhos animados Batman, The Animated Series, considerada por muitos fãs como uma das melhores séries deste estilo a grassar as telas da TV. Esta é a história da sua vida e de como um encontro fortuito e violento, quando escrevia para a série em princípios da década de 90, marcou-o de forma indelével.

Publicado pela DC e pela chancela da Vertigo, Dark Night é uma obra onde Dini escolhe a BD e os seus personagens favoritos desta arte para, corajosamente, expor a sua vida. A imaginação que o acompanha, diz ele, desde a infância, serve de conselho e de coro para os acontecimentos trágicos (ou não) da sua vida, descortinando-os de forma cândida e aberta. A honestidade é a chancela desta BD que não desvia-se do ridículo, abrindo espaço para que nós, leitores, nos identifiquemos de forma mais ou menos forte com Dini. A DC deixa que os seus muitos protegidos personagens funcionem como catalisadores e, ao mesmo tempo, exorcistas dos demónios que assolam a vida do escritor. Acredito que apenas alguém como Dini o possa fazer, tendo em consideração que já tanto contribuiu para a editora, principalmente com a criação de um dos seus mais famosos personagens: Harley Quinn, namorada do Joker e estrela do filme Esquadrão Suicida.

O trabalho de Risso é multifacetado, escolhendo estilos diferentes quando cada situação o impõe e justificando o porquê se ser um das mais requisitados e interessantes desenhistas da BD da actualidade. A parceria que enceta com Dini, tal como acontece com Azzarello (o de 100 Bullets e agora de Moonshine, este última da Image), é simbiótica. Risso não trabalha apenas com os escritores, é um dos escritores. 

Honesta, disfuncional, corajosa. Adjetivos sempre apropriados para uma autobiografia e também para este Dark Night, A True Batman Story de Paul Dini e Eduardo Risso.

Preacher, a série da TV, na AMC Portugal


(Começa amanhã, dia 1 de Novembro, no canal cabo AMC, às 22h00)

Nunca pensei que as coisas se passassem assim. Quando comecei a ler Banda Desenhada na segunda metade da década de 70 ela era um segredo bem guardado. Éramos poucos e considerados estranhos. Uns gostavam do Tintin, outros do Corto Maltese. Eu era dos que adorava os homens vestidos de fatos justos e coloridos, os capazes de feitos inumanos, sempre prontos a defender o Bem. Olhem para a cultura popular agora. A Banda Desenhada está presente, de uma forma ou de outra, em tantos aspectos dela. Umas quantas vezes é apenas nas influências de um autor, outras é descaradamente. O cinema tem sido um dos grandes "culpados"  - ou melhor, o amor de criadores à infância passada a ler BD, o crescimento da tecnologia de efeitos especiais e a noção que estes personagens fazem dinheiro. A TV e as suas séries (outro fenómeno cultural deste século XXI) eram uma das artes em que o sonho de ver nelas conceitos da BD parecia longínquo. Mas a narração serial e demorada da Série de TV parecia-me perfeita para tantas histórias da 9.ª Arte. E eis que aparecem coisas como The Walking Dead e descobre-se um novo filão: adaptar séries longas de BD para a narração televisiva. Este ano surgiu Preacher.

Em 1995 adquiri, sem saber o que vinha por aí, o primeiro fascículo de uma nova série da Vertigo, imprint detida pela minha editora favorita de BD, a DC Comics. A revista era Preacher, escrita por Garth Ennis e desenhada por Steve Dillon (leiam o que escrevi sobre ela aqui). Ao longo de seis anos, 66 números e uns quantos especiais, os autores construiriam uma narrativa fechada, literária, escatológica, herege, cheia de humor negro, que acompanhava a viagem de um padre com a voz de Deus (sim, literalmente) chamado Jesse Custer, a sua namorada Tulip e o seu melhor amigo, um vampiro irlandês chamado Cassidy. Se querem referências fáceis, pensem numa mistura de Quentin Tarantino com Breaking Bad e filmes dos irmãos Coen, a tresandar a americana e escrita por europeus. Perfeito para a Série de TV. 

A versão televisiva, cuja primeira temporada apareceu este ano, deve tudo à obra original mas vai por caminhos diferentes, principalmente ao nível do enredo. Não vou aqui enumerar as diferenças, que não interessam, dão trabalho e não me lembro delas (porque li a BD há 20 anos - um dia destes releio). Apesar dessas diferenças, o ambiente, o humor, a estranheza, o cristianismo sofrido, esses estão lá todos. As cores fortes do deserto dos EUA, as paisagens infinitas de desolação, estão lá. A depravação da natureza humana, no que tem de pior e mais hilariante, está lá toda. E Jesse, Tulip e Cassidy também estão lá, oásis de sanidade (será que são mesmo?) na paisagem apocalíptica.  

Custa a entrar - os três primeiros episódios são filmes europeus no tempo que demoram a construir ambiente e a dar-nos a conhecer os personagens. Mas a partir do quarto, ao filme europeu junta-se o sangue de Tarantino, a desolação de um romance de Cormac McCarthy e, acima de tudo, as palavras de Garth Ennis e as imagens de Steve Dillon. Está lá tudo o que realmente interessa. 

Preacher, tenho quase a certeza, vai ser aquele segredo bem guardado que, de repente, explode. E espero que tenha muito e muito sucesso porque, assim de repente, existem mais umas quantas BD's do estilo que poderiam passar para Série de TV sem qualquer soluço - 100 Bullets, Scalped, só para falar de duas favoritas minhas.

Sandman: a matéria da qual os sonhos são feitos.

A partir do próximo dia 6 de Outubro, numa parceria jornal Público e editora Levoir, no integra e pela primeira vez em Portugal, será publicado o Sandman de Neil Gaiman. Este é, junto com a colecção Novelas Gráficas II, o acontecimento editorial do ano no que à publicação de Banda Desenhada em terras lusas diz respeito. Esta BD é uma das minhas favoritas de sempre e o sétimo volume, Vidas Breves, é mesmo um dos mais importantes livros da minha vida. Corram a reservar os vossos exemplares. Deixo-vos com umas palavras que escrevi há uns anos sobre esta obra-prima não só da BD como da Literatura (só assim, sim, sem mais nada).




No final da década de 80, a casa mãe de personagens tão famosos como o Super-Homem, o Batman e a Mulher-Maravilha, a DC Comics, vivia uma profunda revolução no formato da narrativa dos seus personagens. O ano de 1986 (considerado por alguns como o melhor ano da História da BD Americana) foi palco de importantes eventos nesta casa editorial, com histórias como Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, The Dark Knight Returns, de Frank Miller, e Crise nas Terras Infinitas, de Marv Wolfman e George Pérez. As duas primeiras foram responsáveis pela assumida maturidade desta Arte, a terceira pela reformulação do universo de super-heróis da DC Comics. Neste panorama destacou-se a Senhora Editora Karen Berger, que tinha como missão recrutar novos autores para que, com novos prismas, com diferentes pontos de vista, ajudassem a revitalizar a velha casa, seguindo a linha de Watchmen e The Dark Knight Returns, que haviam atingido impressionante sucesso crítico e comercial. Berger procurou do outro lado do oceano nomes que lhe pudessem ajudar nessa tarefa, à semelhança de Alan Moore e Dave Gibbons, ambos ingleses. Dentre esses autores surge um jovem de nome Neil Gaiman, que viria a transformar-se num dos nomes mais sonantes da chamada “invasão britânica” dos Comics. 

A ideia para Sandman surgiria de uma única imagem concebida pelo autor e da liberdade criativa que Karen Berger deu a Gaiman. Ofereceu-lhe carta branca para usar o nome de um personagem obscuro da década de 70 detido pela DC e, a partir dele, criar universos e conceitos completamente novos. Assim, da tal imagem de “um homem, novo, pálido e nú, prisioneiro numa cela, à espera que os seus captores morram (...), morbidamente magro, com longo cabelo negro, e estranhos olhos” nasceu a história do Senhor dos Sonhos, o de muitos nomes, Dream, Morpheus, Sandman (em português o João Pestana). A sua publicação começaria em Outubro de 1988, duraria 75 capítulos até 1996 e viria a transformar-se numa das mais premiadas séries de BD de sempre, arrebatando honras fora do mundo dos Comics como o World’s Fantasy Award em 1991 e o New York Times Best Seller List

A importância de Sandman não pode ser menosprezada. Não só introduziu a primeira série longa de autor com um princípio, meio e fim (na altura, um feito raro numa Arte controlada pelas intermináveis telenovelas dos super-heróis), como daria origem a uma Imprint da DC, a Vertigo, liderada por Karen Berger, que seria a residência dos mais idiossincráticos trabalhos de autor, e que mesmo hoje continua a ser das maiores e mais literárias referências do panorama criativo da BD mundial. Sandman seria também uma das primeiras BD americanas em que as colecções dos seus capítulos (serão 11 no total na edição da Levoir) acabariam por tornar-se volumes sempre disponíveis, ajudando à percepção de tratar-se de um trabalho finito e de autor.

A série foi também palco para o aparecimento de inúmeros outros personagens, tão famosos como o protagonista, dos quais obviamente destaca-se a irmã mais velha, Death, uma antropomorfização sexy, gótica e infinitamente sábia da Morte, que ajudaria a cimentar a profunda visão pessoal de Neil Gaiman. Os pedaços de sabedoria debitados pelas aparições esporádicas deste personagem são parte de algumas das mais memoráveis passagens da obra. 

Gaiman não limita-se a ser um mero contador de histórias, ainda que o execute de forma exímia, antes imprime uma qualidade intelectual até ao momento com muito poucos exemplos na BD dos EUA. As frases que saem quer da boca dos seus personagens, quer das longas descrições que ocorrem amiúde nos vários capítulos, são profundamente citáveis, mantras capazes de transformar ou sintetizar vidas e pensamentos (existe mesmo um livro chamado “The Quotable Sandman: Memorable Lines from the Acclaimed Series”). Independentemente de todas as hipérboles que possam tecer-se acerca do trabalho de Gaiman em Sandman a realidade é que trata-se de uma obra sem par, que não só inspirou a carreira de inúmeros autores como também marcou a vida de leitores de diferentes gerações. O meu livro favorito de sempre é Brief Lives, o sétimo da colecção, um dos poucos a que regresso inúmeras vezes para procurar um pouco de encanto.

Preacher, a Série de TV


(Começa amanhã, dia 1 de Novembro, no canal cabo AMC, às 22h00)

Nunca pensei que as coisas se passassem assim. Quando comecei a ler Banda Desenhada na segunda metade da década de 70 ela era um segredo bem guardado. Éramos poucos e considerados estranhos. Uns gostavam do Tintin, outros do Corto Maltese. Eu era dos que adorava os homens vestidos de fatos justos e coloridos, os capazes de feitos inumanos, sempre prontos a defender o Bem. Olhem para a cultura popular agora. A Banda Desenhada está presente, de uma forma ou de outra, em tantos aspectos dela. Umas quantas vezes é apenas nas influências de um autor, outras é descaradamente. O cinema tem sido um dos grandes "culpados"  - ou melhor, o amor de criadores à infância passada a ler BD, o crescimento da tecnologia de efeitos especiais e a noção que estes personagens fazem dinheiro. A TV e as suas séries (outro fenómeno cultural deste século XXI) eram uma das artes em que o sonho de ver nelas conceitos da BD parecia longínquo. Mas a narração serial e demorada da Série de TV parecia-me perfeita para tantas histórias da 9.ª Arte. E eis que aparecem coisas como The Walking Dead e descobre-se um novo filão: adaptar séries longas de BD para a narração televisiva. Este ano surgiu Preacher.

Em 1995 adquiri, sem saber o que vinha por aí, o primeiro fascículo de uma nova série da Vertigo, imprint detida pela minha editora favorita de BD, a DC Comics. A revista era Preacher, escrita por Garth Ennis e desenhada por Steve Dillon (leiam o que escrevi sobre ela aqui). Ao longo de seis anos, 66 números e uns quantos especiais, os autores construiriam uma narrativa fechada, literária, escatológica, herege, cheia de humor negro, que acompanhava a viagem de um padre com a voz de Deus (sim, literalmente) chamado Jesse Custer, a sua namorada Tulip e o seu melhor amigo, um vampiro irlandês chamado Cassidy. Se querem referências fáceis, pensem numa mistura de Quentin Tarantino com Breaking Bad e filmes dos irmãos Coen, a tresandar a americana e escrita por europeus. Perfeito para a Série de TV. 

A versão televisiva, cuja primeira temporada apareceu este ano, deve tudo à obra original mas vai por caminhos diferentes, principalmente ao nível do enredo. Não vou aqui enumerar as diferenças, que não interessam, dão trabalho e não me lembro delas (porque li a BD há 20 anos - um dia destes releio). Apesar dessas diferenças, o ambiente, o humor, a estranheza, o cristianismo sofrido, esses estão lá todos. As cores fortes do deserto dos EUA, as paisagens infinitas de desolação, estão lá. A depravação da natureza humana, no que tem de pior e mais hilariante, está lá toda. E Jesse, Tulip e Cassidy também estão lá, oásis de sanidade (será que são mesmo?) na paisagem apocalíptica.  

Custa a entrar - os três primeiros episódios são filmes europeus no tempo que demoram a construir ambiente e a dar-nos a conhecer os personagens. Mas a partir do quarto, ao filme europeu junta-se o sangue de Tarantino, a desolação de um romance de Cormac McCarthy e, acima de tudo, as palavras de Garth Ennis e as imagens de Steve Dillon. Está lá tudo o que realmente interessa. 

Preacher, tenho quase a certeza, vai ser aquele segredo bem guardado que, de repente, explode. E espero que tenha muito e muito sucesso porque, assim de repente, existem mais umas quantas BD's do estilo que poderiam passar para Série de TV sem qualquer soluço - 100 Bullets, Scalped, só para falar de duas favoritas minhas.

Rapidinhas de BD - Astro City: Lovers Quarrel e Injection vol. 1

Astro City: Lovers Quarrel de Kurt Busiek, Brent Anderson e Alex Ross

Busiek, Anderson e Ross andam às voltas com Astro City há um bom par de décadas e, apesar de "apenas" terem um total de 12 volumes publicados até à data, esta continua a ser uma das minhas mais interessantes BD's pela análise que dedica à mitologia dos super-heróis. As histórias que contam não são descontruções pós-modernistas que tanto furor fazem de uma certa tendência intelectual. Antes procuram uma abordagem mais pura e maravilhada, uma mistura de sensibilidade típica das Idades de Prata e Bronze da BD nos EUA com linguagens mais modernas mas, volto a dizer, sem tendências descontrucionistas. Busiek, o escritor, é conhecido pela sua abordagem de fã à mitologia e em nenhuma das suas obras algo é tão óbvio como neste Astro City, uma carta de amor elaborada e longa aos universos a quem dedicou décadas de leitura, devoção e trabalho: refiro-me à Marvel e à DC. 

Este Lovers Quarrel possui um conjunto de características que, ainda que não originais, são particularmente interessantes. Busiek e companhia focam o seu olhar num par amoroso de super-heróis (talvez reminescentes da famosa parelha Demolidor / Viúva Negra da década de 70 da Marvel), enquanto tentam envelhecer com dignidade. Como disse, não se trata de uma abordagem ou temática inovadoras, mas a candura e maestria com que os autores elaboram as vidas, personalidades e histórias dos personagens, transformam o familiar no cativante.  Ao mesmo tempo, aparentam, com discrição, avançar uma macro-história que parecem estar a construir desde que iniciaram esta nova iteração de Astro City pela editora Vertigo da DC Comics. 

Sistematicamente, esta continua a ser uma das mais interessantes BD que leio. Isto apesar de, neste volume, Brent Anderson parecer estar em baixo de forma e alguns dos desenhos aparentarem ser semi-acabados. Ainda assim, um digno volume da coleção.

Injection vol. 1 de Warren Ellis, Declan Shalvey, Jordie Bellaire

Por falar em autores já experientes, volto a dedicar algum do meu tempo de leitura a Warren Ellis, consistentemente um dos mais prodigiosos escritores de BD da actualidade. Apesar da "pequena" revolução na narrativa super-heroística do início do século com meros doze números de Authority e com os quatro volumes de Planetary, continua a procurar não tanto novas linguagens mas perspectivas inovadoras e sui generis. Injection, publicada pela editora Image, fala de cinco génios que literalmente injectaram um "vírus" no século XXI. Previram que a humanidade estaria prestes a entrar numa fase de estagnação e criaram algo que possibilitasse "tornar as coisas mais interessantes". A ideia, por si só, é já cativante, mas a abordagem marginalmente surrealista de Ellis à escrita transformam a experiência. 

Ellis procura unir o místico ao tecnológico, o ecológico ao digital, criando um algoritmo narrativo que necessita de várias leituras para ser entendido e decifrado. Não tenta, de forma nenhuma, criar uma experiência "amiga do leitor", antes forçando-o a ter atenção, a ler e reler, a criar um novo estado de mente para poder ler, mais com o coração do que a cabeça, a história da injeção nanomística. Ellis parece controlar um conjunto de mitologias, misturando-as de forma particular e cheia de energia cinética. Junto com Trees (Image) e Karnak (Marvel), este escritor continua a provar ser uma das mais interessantes mentes da BD mundial, lado a lado com outros ingleses famosos como Moore e Morrison, de quem partilha o mesmo código genético narrativo mas com quem, apesar da sua já vasta obra, não parece (ainda) partilhar da mesma fama.   

O que vou lendo! - Sandman: Overture Deluxe Edition de Neil Gaiman e J. H. Williams III

É muito difícil descrever o impacto de Sandman na minha vida como leitor. Provavelmente foi com ele que comecei uma abordagem diferente à BD. Foi com o épico de Neil Gaiman, na década de 90, que tive um mais profundo contacto com o arrebatamento não só vindo do espanto mas também do intelecto. Devo estar a exagerar, certamente, mas, quando tive a oportunidade de ler os Trade Paperbacks que iam coleccionando os vários volumes da saga, cada momento de pausa (seria mesmo uma pausa ou um play verdadeiro?) era de puro e inviolado prazer. As palavras de Gaiman eram mantras. Os diálogos filosofias para a vida. Até hoje, Brief Lives continua a ser um dos meus livros de referência, aquele que teima em ser um dos meus preferidos de sempre (a minha cópia assinada por Neil Gaiman e com um desenho de Jill Thompson é um dos meus orgulhos de biblioteca). Contudo, ao contrário do que possa parecer, o regresso do criador à sua mais emblemática obra de BD não era algo que quisesse e o anuncio deste volume, Overture, não me chegou como algo ansiosamente esperado. Sempre senti que a obra estava encerrada. Pouco mais haveria a acrescentar.

O que vou dizer a seguir soará a sacrilégio. A estrela deste Overture  é J. H. Williams III. O desenhador é um virtuoso do lápis, pincel, o que quer que queiram chamar. Este senhor consegue transformar a mais banal das cenas (e este Sandman não as tem) num concerto, numa ópera, num carnaval, num épico jogo de futebol. Williams estica e dobra a arte de fazer BD para lá dos limites do convencional. Melhor: ele já deixou o convencional há 10 anos atrás e agora, pura e simplesmente, não consegue regressar. Desde Promethea com Alan Moore que surpreende de projeto em projeto, inovando não só no desenho como também na construção da página de BD, no modo como quebra o argumento dos vários autores com que vai trabalhando. Sem dúvida um dos maiores talentos da 9.ª Arte dos EUA (nesta linha, Yannick Paquette começa a revelar-se um talento a acompanhar - esperem pelo seu Wonder Woman: Earth One). O trabalho de Williams neste Overture é de tirar o fôlego, tantos são os pormenores e as idiossincrasias dos desenhos, que bailam sem esforço pelos múltiplos e diversos cenários que Neil Gaiman constrói para o elenco. No final, apenas apetece aplaudir de pé.

E quanto a Gaiman? Como se porta? Como Gaiman. Ponto final. Não existe aqui nada de novo nesse sentido. A escrita continua igualmente onírica, poética e surreal. Não cedeu um centímetro de controlo sobre as vozes do enorme e operático elenco que criou em Sandman. Consegue ir buscar pormenores memoráveis da obra original e entretecê-las no enredo, não só enriquecendo esta obra como a que nos surpreendeu anos atrás. Consegue também enriquecer a mitologia ao nos apresentar (desculpem este spoiler) os progenitores dos Endless. Esse é dos grandes momentos de Overture, onde a escrita de Gaiman sobressai e os desenhos de Williams explodem. O escritor quis regressar a casa e, apesar de ser uma das melhores obras que saíram este ano, para mim o impacto da run original é tão gigante que este capitulo quase, quase, quase que sabe a redundante (mas não é).  

Sem dúvida, um dos livros de BD do ano. 

BD é o comboio de regresso.

"Alec Holland - I'm just a ghost made of flowers.
Electric Messenger - You woke from a reality into a dream. It's time to return."
Swamp Thing, número 142, escrito por Grant Morrison e Mark Millar.

Imagens de Ekho Monde Miroir, desenhos de Alessandro Barbucci.










O final de Fables - volumes 21 e 22 por Bill Willingham e Mark Buckingham.


Por defeito de vício, por defeito de experiência, sou um fã do romance em série (chamemos-lhe assim). Em várias das suas formas. Prefiro Séries de TV que não são episódicas – gosto das que têm um arco abrangente discernível, com um princípio, um meio e um fim como The Wire, The Sopranos ou Breaking Bad. Gosto de Banda Desenhada que estende-se por longos períodos no tempo – mas, ainda assim, de preferência com um final à vista (é, por isso, que, apesar de amar visceralmente os super-heróis, tantas são as vezes que sinto-me frustrado ao lê-los). No que respeita a Literatura, este gosto não é tão claro. Gosto do trabalho de George R. R. Martin na Crónicas do Gelo e Fogo (mais conhecida por Guerra dos Tronos), mas não a leio pelas habilidades estilísticas do autor, antes pelo novelo narrativo. Em “livros de prosa” inclino-me cada vez mais para outro tipo de estilo e história (é ler posts anteriores para saberem do que falo). Este gosto tem um risco: a perda (efectiva) de tempo. Aconteceu-me já algumas vezes (à memória vem a série Lost) mas, na maior parte delas, não tem acontecido. Fables de Bill Willingham é um dos casos em que 13 anos de fidelidade compensaram, não só pelo final, mas pelo crescente e paulatino acumular de excelentes histórias ao longo de mais de uma década.

O adeus de Fables tem ainda outro significado. Esta série é também a última resistente da “velha” editora Vertigo, a de Karen Berger, a que começou com Alan Moore, com Neil Gaiman, com Garth Ennis, com Grant Morrison, que durou mais de duas décadas e que produziu algumas das melhores obras da Banda Desenhada mundial e … assumo-o … algumas das minhas Obras de Arte favoritas: Sandman; 100 Bullets; Preacher; Swamp Thing; Animal Man (estas duas últimas, obras Vertigo avant la lettre); Y The Last Man; e Fables. A nova linha editorial da DC Comics (detentora da Vertigo) escolheu o afastamento de Karen Berger e o título de melhor editora de BD nos EUA mudou-se para a Image (a meu ver, claro). Existe agora um novo futuro para a Vertigo mas, enquanto este não chega, o fim de Fables é, também e assumidamente, o fim de uma (outra) Era de Ouro da BD nos EUA. Não tenho dúvidas que o facto de finalmente produzir-se em massa outras obras que não apenas as de super-heróis abriu os olhos não só aos fãs da 9.ª Arte como a outros actores. Os super-heróis são a porta de entrada e uma divisão ampla da casa mas a Vertigo é o canto aconchegante, aquele onde apetece ficar mais tempo.

E que dizer de Fables que eu já não tenha referido em posts anteriores? O final tinha de chegar, infelizmente. As aventuras dos personagens de contos de fada reinterpretados por Bill Willingham e Mark Buckingham teriam de acabar. A parelha produziu algumas das mais divertidas histórias do panorama da última década da BD, não só conseguido através do puro entretenimento mas também de alma e inteligência, diálogos eloquentes e sumarentos, personagens ricos. Estes dois volumes acabam a história da forma que tinha de acabar: diferente, sem explosões mas com silêncios aconchegantes. Será que com final feliz? Já isso, cada qual vai ter de o descobrir por si, que eu não gosto de estragar a surpresa a ninguém. De uma forma ou de outra, existe um final para todos os personagens que enriqueceram a tapeçaria desta mitologia nestes 13 anos.

Trata-se de um final apropriado (ou o possível) para uma época de ouro na BD americana, algo que, acredito, passou despercebido para a maior parte das pessoas. Mas com tanta e tanta oferta de quase todas as editoras, apenas já só se pode olhar para o futuro com esperança. Venha a Image. Venha a nova Vertigo. Continuem a Dark Horse, a IDW, a Fantagraphics, a Drawn & Quarterly. Karen Berger, Bill Willingham e Mark Buckingham agradecem. 

BD é a certeza da mudança.

"Swamp Thing - And after the events of this day... what then? Surely... things must change?...
Deadman - Yeah, I guess so...after all, they usually do!"
The Saga of the Swamp Thing, número 50, escrito por Alan Moore.


Desenhos de Mike Zeck

Justiceiro vs Homem-Aranha


Capitão América

 

Surfista Prateado, Galactus e Thanos


Shang-Chi, O Mestre do Kung Fu


Batman e Homem-Aranha (capa de Web of Spider-Man, volume um, número 32)




BD é Desejo ou Sonho?

For love is no part of the dreamworld. Love belongs to Desire, and Desire is always cruel.” ― Neil Gaiman, The Sandman, Vol. 2: The Doll's House

Diferentes interpretações de Morpheus, aka Sandman, aka Dream of the Endless, criado por Neil Gaiman.

Brian Bolland


Mike Allred 

Eduardo Risso
J.H. Williams III 

O que vou lendo! - The Fade Out vol. 1 e Astro City, Private Lives




The Fade Out vol. 1 de Ed Brubaker e Sean Philips e Astro City, Private Lives de Kurt Busiek e Brent Andrerson

Estas duas BD têm, tematicamente, muito pouco em comum. A primeira é a mais recente incursão dos dois autores no universo noir de que tanto gostam (leiam sobre a sua colaboração em Fatale). O segundo é a continuação das histórias do universo de super-heróis criado por estes dois autores e por Alex Ross. Ambas têm abordagens completamente diferentes. Fade Out é uma análise cínica e negra (mas não desapaixonada) de Hollywood nos seus tempos áureos, onde a estrelas eram tão brilhantes quanto escuros eram os bastidores. Astro City verte amor por por todos os poros, uma carta longa, rebuscada e verdadeiramente apaixonada aos universos maiores que a vida dos super-heróis. Contudo, têm também muito em comum. Os quatro autores agarram nas suas paixões e, libertos de prisões, explanam toda a sua arte na concepção de universos e de estilos com os quais estão tão à vontade quanto pássaros a voar. Esta metáfora é, a meu ver, bastante apropriada. Quando deixam os criadores pensarem dentro das suas próprias inclinações e gostos, estes conseguem colocar cá fora o melhor que a sua capacidade criativa tem para oferecer.  Uma verdade tão simples e tão difícil de entender por alguns. Uma realidade que deveria ser lugar comum na maior parte da demanda artística e que, muitas vezes, é colocada de parte. Mesmo em trabalhos por encomenda, essa capacidade, esse engenho, não deveria ser curvado. Por observação ao longo dos anos, quando deixam o artista dar vôo à sua imaginação muitas são as vezes em que somos recompensados com obras melhores e, quando a sorte e o destino para isso se conspiram, maiores.

Depois desta conversa estarão à espera que não tenha outra coisa que rasgados elogios a estes dois livros. O prazer que ambos me deram ao lê-los pouco ou nada tem a ver com esta opinião. Se gosto mais ou menos é um problema exclusivamente meu, do que eu procuro numa obra. Tanto Fade Out como Astro City são dois bons exemplos do trabalho conjunto destas duas parelhas. No caso da primeira, Brubaker e Philips, cuja colaboração é já longa, é mais um exemplo do que as inclinações noir de ambos têm para oferecer. Desta vez não temos apenas detectives ou mulheres fatais "Cthulhianas" mas uma exploração do submundo de uma das artes que mais explorou o filão do noir: o cinema. A história começa com um assassínio, como não poderia deixar de ser, e imiscui-se nos meandros dos escritores, produtores, realizadores, da 7.º Arte. 

Astro City, Private Lives, é o mais recente volume da já antiga construção que Busiek, Anderson e Ross fazem de um mundo que mistura os arquétipos da Marvel e DC com a visão de deslumbramento ou horror do homem comum quando confrontado com estes universos de super-heróis. A "fórmula" continua a funcionar, se bem que neste conjunto de seis historias nem todas tenham a mesma força - todas contribuem para a macro-história que se está a construir desde o início desta nova série pela Vertigo. Apesar de continuar o deslumbramento, Busiek e companhia têm de tal forma nos habituado à excelência que qualquer coisa um pouco inferior sabe a pouco. Este volume apesar de ser superior à maior parte do que se produz em termos de super-heróis sabe a pouco.

Quem cheira BD cheira-lhe a rosas.

"John Constantine: Who the hell are you? I called for the lord of flatulence, not one of his discharges." - Jamie Delano, Hellblazer, volume primeiro, número três. 

Death, personagem criado por Neil Gaiman para Sandman, desenhada por Arthur Adams

Sue Richards, aka Mulher-Invisível e Namor, palavras de Grant Morrison, desenho de Jae Lee, Fantastic Four, 1234



O que vou lendo! - Trillium de Jeff Lemire

Umas das mais interessantes características de alguns autores de BD que trabalham para os Comics é a sua capacidade de se adaptarem ao canto para onde o mercado os chama. Podem começar por escrever no sector independente mas depressa aparecem no radar das grandes editoras como a Marvel, a DC, a Dark Horse ou a Image. São contactados e muitos optam por escrever personagens conhecidos como o Super-Homem ou o Homem-Aranha. Com certeza que existirão criadores que preferem a exclusividade de um ou outro lado da fronteira mas, regra geral, não se coíbem de explorarem os dois países. Muitas vezes ao mesmo tempo.

É o caso do escritor/desenhista canadiano Jeff Lemire que começou a sua carreira em obras como Essex County e depressa foi "pescado" pela grande DC para trabalhar na Vertigo, onde criou livros como The Nobody ou Sweet Tooth. Contudo, não contentes na "exploração" do talento do rapaz, decidem trazê-lo para o universo dos super-heróis onde escreveu runs muito aclamadas em títulos como o Homem-Animal e Superboy. Como um bom filho à casa torna, regressou à "seriedade" e ao independente (ainda que novamente com Vertigo) deste Trillium, uma obra de ficção científica com um forte cunho pessoal. 

Num futuro distante, uma doença senciente matou a maior parte da raça humana. A humanidade vagueia pelo universo e mantêm-se em contacto com outras raças. Num planeta distante, uma cientista vê-se confrontada com o dilema: destruir um povo alienígena pelos tesouros que têm e que podem salvar o Homem ou deixar-se levar pela compaixão e esperar que o universo recompense o seu altruísmo.  Na busca de uma solução bondosa envolve-se com a dita raça alienígena, com viagens no tempo e com a natureza circular e mística do universo. Trillium  é um projeto altamente idiossincrático para Lemire , explorando nestes temas as suas crenças e filosofias, ao mesmo tempo que visita soluções narrativas pouco comuns em BD. É uma obra fantástica e incrivelmente fácil de entrar, apesar da temática complexa. O autor brinca com o formato da BD, encontrando soluções curiosas para abordar os temas que se propôs a abordar. Algo que, à partida, afastaria o leitor causal seria o tipo de traço de Lemire. Chega a ser infantil, inacabado, o que, na realidade, é parte integrante do que tenta nos contar. Mas a capacidade narrativa do autor e o controle da qualidade de diálogos e texto  afastam-nos destes preconceitos. 

Esta foi uma das boas surpresas de leituras de BD este ano. Muito recomendável.  

Rapidinhas de BD - Avengers Epic Collection 17; Daredevil by Mark Waid 7; The Unwritten: Fables

Avengers Epic Collection vol. 17: Emperor Doom por vários

Dizer que os volumes da Epic Collection da Marvel são um sonho tornado realidade é apontar para baixo. Tenho, religiosamente, estado a adquiri-los em detrimento de conta bancária e espaço nas prateleiras. Este é o segundo volume a sair dos Vingadores (e 17.º na coleção) e compila um conjunto de histórias que penso já ter lido mas, como é também sabido, isto da idade é uma coisa complicada. Portanto, foi como se os tivesse visto pela primeira vez. O volume não só inclui a derradeiro conto do lendário conjunto de histórias da dupla Roger Stern / John Buscema, datada de finais da década de 80, como também um encontro entre duas equipas de Vingadores e ainda Emperor Doom, onde o vilão Dr. Destino finalmente consegue o seu intento: obviamente conquistar o mundo. Enquanto estas duas últimas histórias têm mais o sabor de nostalgia e papel velho, ou seja, a sua qualidade deve mais à memória agradável de criança do que à complexidade da história, o final da run dos dois artistas citados é o contrário e vale, sozinha, o preço de admissão deste volume. Os Vingadores vêem-se envolvidos num confronto com os míticos deuses gregos do Olimpo, por via dos ferimentos incorridos por Hércules, filho de Zeus, na sequência de uma das mais conhecidas histórias da dupla Stern/Buscema: O Cerco da Mansão (os fãs de BD sabem do que falo e os outros têm mais é que ir descobrir porque vale mesmo a pena). Um grande volume nesta grande coleção.

Daredevil by Mark Waid vol. 7 de Mark Waid e Chris Samnee

Continua a maravilha que é este regresso do Demolidor às suas origens mais super-heroísticas e positivas, depois de anos no abismo negro da depressão (com qualidade, claro) de Bendis, Brubaker e Diggle . Obviamente que estamos a falar de positivo do ponto de vista dos super-heróis e, especificamente, do Demolidor, porque o que seria de uma boa história deste personagem sem uma grande dose de drama? Contudo, pelas habilidosas mãos e imaginação de Waid raramente o ambiente mergulha na negritude opressiva dos esforços anteriores que referi. Ainda que um dos amigos do personagem esteja a atravessar uma das mais complicadas fases da sua vida, é tudo escrito de forma leve, divertida e verdadeiramente empolgante. À festa só ajuda o traço quase cartoonesco de Samnee, contribuindo para uma atmosfera de perigo com sabor a década de 70, quando a BD dos EUA não tinha sido contaminada pelo poderoso elixir da maturidade e complexidade intelectual (não que haja nada de mal com isso, já o diria Senfeld). Este sétimo volume representa um salto quântico de qualidade face ao anterior sexto, que soube a paragem para descontração – mas não a da boa descontração. Mal posso esperar pelo oitavo já que parece que o personagem decidiu mudar de ares.

The Unwritten: Fables de Mike Carey e Peter Gross com colaboração de Bill Willingham e Mark Buckingham


E por falar em paragens para descontração, o que é que aconteceu com Unwritten neste volume? Desde que Karen Berger, a mítica chefe da editora Vertigo (pertencente à todo-poderosa DC Comics), saiu da “marca” que ajudou a criar que a qualidade tem estado também a entregar os papéis de demissão. Espero que seja, obviamente, apenas um período de adaptação aos novos ares. Primeiro que tudo, este novo volume de Unwritten representa uma enorme novidade na Vertigo: a junção de dois títulos de autores diferentes. É verdade que, anteriormente, podíamos falar de outras, como Swamp Thing, Constantine e Sandman, mas os tempos eram diferentes. Apesar de na história do personagem principal de Unwritten, Tommy Taylor, esta junção fazer algum sentido, não deixa de ter um sabor a “dêem-me cá o vosso dinheirinho”. Não que eu necessitasse de qualquer tipo de incentivo desta natureza já que acompanho os dois títulos. Segundo, e aqui é o mais importante, o esforço não sai com muita qualidade. Existem momentos verdadeiramente bons, ou não estivéssemos a falar de quatro autores do melhor que a BD tem para oferecer, mas ainda assim, na maior parte, o resultado é apressado e pouco inspirado. Qualquer um dos títulos mereceria algo mais, algo mais significativo, para justificar esta união. É pena, parece uma oportunidade perdida, ainda que fosse uma oportunidade que, provavelmente, não era necessária.