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Rapidinhas de BD - Astro City vol. 14 e Thor By Jason Aaron & Russell Dauterman Vol. 2

A parceira de Kurt Busiek, Brent Anderson e Alex Ross na série Astro City dura há 20 anos, sem sinais de abrandar na qualidade e produtividade. Começaram na editora Image e na label de Jim Lee, a Wildstorm, mas desde então passaram para a DC Comics, quando esta adquiriu a primeira. Ultimamente têm sido publicados debaixo do selo da lendária Vertigo, ainda que a temática e a abordagem nada tenham a ver com a inclinação sobrenatural e com o terror sofisticado que classificaram esta durante mais de duas décadas.

Astro City é um mundo de super-heróis inteiramente concebido pelos autores, com o propósito de comentário meta-textual ao original da Marvel e da DC. Por outro lado, procuram a perspectiva do man on the street, do comum mortal, ainda que essa visão seja menos presente nos volumes mais recentes. Agora também procuram outros pontos de vista, desde vilões a seres extra-terrestres, passando, claro, pelos heróis propriamente ditos. Interessa aos autores a visão sobre eventos que são lugar comum na mitologia dos super-heróis. Kurt Busiek, o escritor, é um assumido geek destes universos e faz bom uso dessa inclinação, ao explorar de forma inventiva cada pormenor que passaria de outra forma despercebido nas histórias das duas grandes.

Neste 14.º volume não abranda este olhar clínico e inventivo, ao focar-se em seres que ajudam um ditador extra-dimensional na batalha contra análogos do Quarteto Fantástico, num casal de ex-vilões, agora com uma relação mais saudável com a Lei, e no também análogo do Super-Homem - esta última como comemoração dos 20 anos de publicação. Todas estas histórias enriquecem de forma independente a rica tapeçaria deste mundo criado do zero, que continua a ser uma das mais cativantes visitas a universos de fantasia. 

Entretanto, os autores já noticiaram a desistência da publicação mensal clássica para focarem-se em livros de contagem de páginas mais extensas ao estilo europeu.

A Marvel, do ponto de vista criativo, não anda a ter os seus melhores dias. Ainda assim, existem equipas que seguem a nobre tradição de clássicos como Lee/Kirby, Lee/Ditko, Claremont/Byrne, Simonson, etc. Jason Aaron no Thor é uma delas. Primeiro trabalhou com Esad Ribic e agora com Russell Dauterman, para produzir aquela que considero a mais interessante publicação mensal desta editora. Parece que a Marvel sabe disso e tem lançado estas edições formato grande a que chama Deluxe e que coleccionam, em média, cerca de 12 números da revista mensal. Valem a pena o preço e a (longa) espera entre volumes. É neste formato que as aventuras mitológicas da agora versão feminina do Deus do Trovão devem ser apreciadas. Num palco cósmico de grandiosidade épica.

Aaron mistura o mundo empresarial do mundo real com a mitologia Viking para criar ameaças ao mesmo tempo credíveis e fantasiosas. Concebe diálogos ricos que desenvolvem as personalidades dos protagonistas e que avançam a narrativa de forma sempre entretida. Constrói personalidades que vão para lá dos estereótipos e da bidimensionalidade a que estávamos habituados ao longo de décadas no Thor da Marvel (não sempre, claro, mas de forma recorrente). Acima de tudo, cria uma leitura que não conseguimos largar de tão entusiasmante que é. O único defeito que aponto é a velocidade com que queremos ler já o próximo volume - e nem noticia de para quando o seu lançamento.

Entretanto, a G.Floy publicou o volume que se segue ao lançado há uns anos pela Panini (infelizmente, os portugueses nunca verão a conclusão do Chacinador de Deuses) e a Goody irá, em breve, começar a fase da Thor versão feminina. 

É fácil ficar distante do abismo ou Rapidinhas de Cinema – Rage de Sally Potter e Nightcrawler de Dan Gilroy


Aposto que Nietzsche não contava com a existência da TV e do Cinema quando falou do abismo devolver o nosso demorado olhar. Ou, se calhar, contava. Tantas são as vezes que nos tornamos insensíveis ao desfilar de horrores ou, mais comummente, ao expor das mais abjetas porções do espírito humano. Assistimos e assistimos e demoramo-nos e deleitamo-nos com o carnaval de personalidades sociopatas, ao ponto de as acharmos coloridas e, pior de tudo, divertidas e até toleráveis. Com o rodopio infinito de imagens e a alimentação de notícias e variedade de factos somos subterrados por experiências que há menos de 50 anos eram apenas imaginadas pelas mentes mais férteis. A Literatura era uma das privilegiadas janelas para o mundo, mas a imagem tem um poder que a palavra escrita, por mais maravilhosa que seja (e é a mais maravilhosa das artes), não consegue suplantar. O imediatismo da absorção da imagem é inacreditável. Uma experiência sem a chatice da proximidade física. Um aconchego para a revolta socialmente aceitável mas agradavelmente distante dos factos.

Tudo isto para vos falar destas duas obras da arte de fazer Cinema: Rage de Sally Potter e Nightcrawler de Dan Gilroy. O primeiro é uma experiência interessante de fazer a 7.ª Arte. A realizadora concebe uma história ambientada no mundo da Moda, onde um documentarista de nome Miguel Ângelo entrevista vários intervenientes num desfile. O filme é integralmente feito na base do talento dos diálogos e performance dos actores, já que não existe acção, apenas relato da acção. Um conto subjectivo do que acontece ao lado do enquadramento da câmara. A história é uma janela para o mundo da vaidade e da indústria que ganha dinheiro com ela. Os actores são quase tudo e desfilam aqui nomes impressionantes: Steve Buscemi, como um fotógrafo que acredita que a guerra é a única experiência válida; Jude Law como travesti que finge ser de um qualquer país eslavo mas, na realidade, é americano; Judi Dench, a mordaz crítica de moda que vai ter um duro acordar para a realidade verdadeira, perdoem o pleonasmo; isto para citar apenas os mais conhecidos. Um filme interessante ainda que nem sempre atinga os níveis de excelência que promete.


Nightcrawler é uma das pérolas do ano passado (obrigado, Léolo) que deveria ter visto em sala de Cinema e não o fiz. Jake Gyllenhaal anda a habituar-nos a incríveis prestações mas, mais importante, esta preciosidade de argumento e realização é uma pequena-grande metáfora do que estamos dispostos para chegar ao topo e, mais do que isso, em como não nos importamos com os actos mas apenas com as consequências (as boas, claro). A validação que encontramos para perpetuarmos as nossas acções, quer seja pelas circunstâncias em que estávamos e a que queremos chegar, quer seja por nos considerarmos merecedores. Aproveitamos todas as emoções, nossas e dos outros, boas e más, e como vampiros (o filme passa-se quase sempre de noite) vamos predando todos à nossa volta. Destruindo tudo à nossa volta, excepto nós mesmos (sim, não existe aqui nenhum conto de arrependimento). O filme é uma brutal e desapaixonada viagem ao mais podre que o espírito humano é capaz. E tudo pela mais lícita das razões: sobrevivência. 

Rapidinhas de BD - The Specter, The Wrath of God e Pretty Deadly vol. 1

The Specter, The Wrath of God de John Ostrander e Tom Mandrake

Leiam neste link o post sobre o volume anterior deste série.

A série The Specter de Ostrander e Mandrake era daquelas que esperava ansiosamente para que um dia fosse coleccionada. Reservava na minha imaginação um lugar especial para a combinação destes dois artistas num personagem que, a meu ver, estava especialmente talhado para os seus talentos. Para além disso, fazia parte de uma DC Comics pela qual guardo especial carinho, aquela que foi a minha editora favorita de BD de super-heróis durante mais de duas décadas. O primeiro volume já tinha sido uma corroborarão de uma suspeita, a de que esta parelha de criadores só poderiam ter criado algo de maravilhoso. Este segundo volume é a continuação dessa certeza.

Desta feita, o personagem titular, a personificação da vingança do Deus cristão, principalmente daquele narrado no Velho Testamento, envolve-se numa situação de moralidade dúbia, quando decide colocar toda a inclinação humana para a violência e maldade na balança do seu julgamento. O que pode ocorrer quando um personagem todo-poderoso dotado de um sentido de justiça bipolar se vê confrontado com a matiz cinzenta do comportamento humano? As respostas de Ostrander são, por vezes, um pouco óbvias mas, ainda assim, dotadas de charme e complexidade suficientes para não perder a gravidade da reflexão. Por vezes, eu gostaria de uma abordagem um pouco mais subtil, ao estilo da de Neil Gaiman em Sandman mas, se a quero, tenho é que a ir ler nesse mesmo livro. Para além disto, o escritor decide explorar o passado da entidade  Specter, explorando o seu nascimento, o seu predecessor e alicerçando essa exploração nos recônditos da mitologia da DC Comics e misturando-a com a cristã. Tudo para construir um quadro poderoso e pungente. Sem duvida, umas das grandes publicações da editora e só posso ter pena que ainda não tenha sido anunciada a publicação do terceiro volume da série.

Pretty Deadly vol. 1 de Kelly Sue DeConnick e Emma Rios

Por falar em mitologias, a Banda Desenhada é também profícua em criar as suas próprias. E, no caso da BD estado-unidense, nenhum universo mitológico seria mais apropriado que aquele associado ao dos westerns, a essa época da História dos EUA conhecida pelos cowboys e pelos índios.  Estas duas autoras juntaram-se para criar um novo universo, envolvendo não só justiceiros e mercenários munidos de armas de fogo e velocidade de manuseio, como também estranhas personificações da Morte, as suas filhas e as suas servas. Tudo isto num palco trágico, violento e maior que a vida.

Confesso que será um problema meu mas não sou o maior fã de westerns à face da Terra. Existem obviamente excepções, como por exemplo a maravilhosa BD Bouncer (de que falarei aqui um dia) ou a eterna Blueberry, mas, regra geral, não tenha inclinação para estes contos. Pretty Deadly é, obviamente pela descrição que vos dei, um pouco mais que isso e foi o ambiente mitológico que me atraiu para a sua compra. Gosto destas combinações improváveis, desta mistura entre algo profundamente realista e algo mais sobrenatural. É uma escola de narrativa que vem dos gregos clássicos e que teve pontos altos, por exemplo, com Shakespeare, Goethe, Dante e o nosso Luís de Camões.  Sim... eu gosto desse estilo. Ainda que se encontre algo desta índole em Pretty Deadly e de esta obra ser considerada como um dos grandes esforços da "nova" editora Image, a sua leitura não me estimulou. Contudo, pode acontecer que o seja para outros leitores e outras perspectivas. Por mim, talvez ainda dê mais uma tentativa mas esta não me aguçou o apetite. 
   

Rapidinhas de BD - Avengers Epic Collection 17; Daredevil by Mark Waid 7; The Unwritten: Fables

Avengers Epic Collection vol. 17: Emperor Doom por vários

Dizer que os volumes da Epic Collection da Marvel são um sonho tornado realidade é apontar para baixo. Tenho, religiosamente, estado a adquiri-los em detrimento de conta bancária e espaço nas prateleiras. Este é o segundo volume a sair dos Vingadores (e 17.º na coleção) e compila um conjunto de histórias que penso já ter lido mas, como é também sabido, isto da idade é uma coisa complicada. Portanto, foi como se os tivesse visto pela primeira vez. O volume não só inclui a derradeiro conto do lendário conjunto de histórias da dupla Roger Stern / John Buscema, datada de finais da década de 80, como também um encontro entre duas equipas de Vingadores e ainda Emperor Doom, onde o vilão Dr. Destino finalmente consegue o seu intento: obviamente conquistar o mundo. Enquanto estas duas últimas histórias têm mais o sabor de nostalgia e papel velho, ou seja, a sua qualidade deve mais à memória agradável de criança do que à complexidade da história, o final da run dos dois artistas citados é o contrário e vale, sozinha, o preço de admissão deste volume. Os Vingadores vêem-se envolvidos num confronto com os míticos deuses gregos do Olimpo, por via dos ferimentos incorridos por Hércules, filho de Zeus, na sequência de uma das mais conhecidas histórias da dupla Stern/Buscema: O Cerco da Mansão (os fãs de BD sabem do que falo e os outros têm mais é que ir descobrir porque vale mesmo a pena). Um grande volume nesta grande coleção.

Daredevil by Mark Waid vol. 7 de Mark Waid e Chris Samnee

Continua a maravilha que é este regresso do Demolidor às suas origens mais super-heroísticas e positivas, depois de anos no abismo negro da depressão (com qualidade, claro) de Bendis, Brubaker e Diggle . Obviamente que estamos a falar de positivo do ponto de vista dos super-heróis e, especificamente, do Demolidor, porque o que seria de uma boa história deste personagem sem uma grande dose de drama? Contudo, pelas habilidosas mãos e imaginação de Waid raramente o ambiente mergulha na negritude opressiva dos esforços anteriores que referi. Ainda que um dos amigos do personagem esteja a atravessar uma das mais complicadas fases da sua vida, é tudo escrito de forma leve, divertida e verdadeiramente empolgante. À festa só ajuda o traço quase cartoonesco de Samnee, contribuindo para uma atmosfera de perigo com sabor a década de 70, quando a BD dos EUA não tinha sido contaminada pelo poderoso elixir da maturidade e complexidade intelectual (não que haja nada de mal com isso, já o diria Senfeld). Este sétimo volume representa um salto quântico de qualidade face ao anterior sexto, que soube a paragem para descontração – mas não a da boa descontração. Mal posso esperar pelo oitavo já que parece que o personagem decidiu mudar de ares.

The Unwritten: Fables de Mike Carey e Peter Gross com colaboração de Bill Willingham e Mark Buckingham


E por falar em paragens para descontração, o que é que aconteceu com Unwritten neste volume? Desde que Karen Berger, a mítica chefe da editora Vertigo (pertencente à todo-poderosa DC Comics), saiu da “marca” que ajudou a criar que a qualidade tem estado também a entregar os papéis de demissão. Espero que seja, obviamente, apenas um período de adaptação aos novos ares. Primeiro que tudo, este novo volume de Unwritten representa uma enorme novidade na Vertigo: a junção de dois títulos de autores diferentes. É verdade que, anteriormente, podíamos falar de outras, como Swamp Thing, Constantine e Sandman, mas os tempos eram diferentes. Apesar de na história do personagem principal de Unwritten, Tommy Taylor, esta junção fazer algum sentido, não deixa de ter um sabor a “dêem-me cá o vosso dinheirinho”. Não que eu necessitasse de qualquer tipo de incentivo desta natureza já que acompanho os dois títulos. Segundo, e aqui é o mais importante, o esforço não sai com muita qualidade. Existem momentos verdadeiramente bons, ou não estivéssemos a falar de quatro autores do melhor que a BD tem para oferecer, mas ainda assim, na maior parte, o resultado é apressado e pouco inspirado. Qualquer um dos títulos mereceria algo mais, algo mais significativo, para justificar esta união. É pena, parece uma oportunidade perdida, ainda que fosse uma oportunidade que, provavelmente, não era necessária.

Rapidinhas de BD - Invincible vol. 19 e Chew vol. 8

Invincible vol. 19: The War at Home de Robert Kirkman e Ryan Ottley

Neste blog já escrevi tanto sobre o Invincible de Kirkman que começo a sentir a falta de palavras. Principalmente porque, 110 capítulos ou 19 volumes depois, não há retrocesso na qualidade. Não falo de qualidade literária mas da de entretenimento. Falo da qualidade super-heroística. É por isso que não me poupo a elogios ao trabalho de Kirkman nesta sua criação original. Invincible, pelo facto de ser um universo contido em si mesmo, continua a ser uma BD verdadeiramente divertida e envolvente. Os personagens evoluem e são influenciados pelos acontecimentos que os circundam. Status quo é uma palavra e conceito que Kirkman não aplica a quase nada nesta sua obra. Este novo volume é, uma vez mais, prova disso mesmo. Depois das revelações e acontecimentos de volumes anteriores, a vida do personagem titular não será mais a mesma. Mas o passado continua a ensombrá-lo na forma de antigos inimigos e velhos amigos que, agora, se preparam para ser algo mais que isso. Tudo evoluindo de forma orgânica, como se Kirkman, desde o já longínquo primeiro capitulo, sempre tivesse estes desenvolvimentos na cabeça. Volto a repetir: esta é a vantagem de um universo contido, sem múltiplos títulos paralelos para seguir. Contudo, Invincible não deixa de ser uma longa novela super-heroística, extremamente divertida e cujo próximo volume espero sempre com muita ansiedade.

Chew vol. 8: Family Recipes de John Layman e Rob Guilloroy


Mais um sucesso da editora Image (junto com Invincible e tantas, tantas outras). Imaginação desenfreada, conceitos inovadores, controlo total pelo destino dos personagens, visão autoral. Chew é uma das mais interessantes, originais e divertidas BD da atualidade norte-americana. Num futuro alternativo muito próximo, a gripe das aves mudou o panorama mundial. Político e social, quero eu dizer. Ao mesmo tempo, seres com poderes extraordinários relacionados com comida multiplicam-se e propagam-se por todas as esferas da atividade humana. O herói, Tony Chu, é um cibopata, capaz de saber todo o passado do alimento (vegetal ou animal) que ingere. Naturalmente, torna-se agente da mais importante organização policial dos EUA: a Food and Drug Admnistration, a ASAE lá do sítio. Contudo, nada do que parece, é. A história da gripe das aves não está bem contada. Um outro cibopata, vilão e serial killer, movimenta-se pelo mundo em busca de algo ainda desconhecido. Este volume, que entra no ato final da série, inicia o longo descortinar dos mistérios que envolvem a narrativa desde o início. Os personagens começam a ser posicionados para o fim que, já se antevê, não está muito longe. Mas os dois autores não se perdem na exposição e avanço puro dos acontecimentos, antes imergem-se nos deliciosos pormenores de cada um dos personagens que criaram, dando alma e diversão. Esta é uma série que sabe a uma espécie de X-Files com comida e cheia, cheia de humor. Outras daquelas leituras em que mal posso esperar pelo volume que se segue.

The Perks of Being a Wallflower de Stephen Chbosky (As Vantagens de Ser Invisível)


Há coisas que nos fazem sentir pequenos. Existem outras ainda que se esforçam para que sejamos infinitos. Por fim, umas há que nos fazem sentir as duas coisas ao mesmo tempo.

Humanos, compreendem?!

Que, dentro de cada coração que temos, cabe ao mesmo tempo tudo aquilo que nós somos e o que o universo infinitamente compreende.

Que, no âmago da história, existem todas as verdades do cosmo e, ao mesmo tempo, nenhuma, porque a única verdade que interessa verdadeiramente é aquela que nós encontrarmos ao virar daquela esquina em particular, única, singular. Nossa. De mais ninguém.

Um beijo pode e deve ser uma coisa banal, foleira. Mas com esses excelentes predicados deve também ser a mais perfeita e completa frase do mundo, aquela que nos descreve, como uma síntese que é uma análise. Uma obra com principio, meio e fim.

O mundo não necessita ser perfeito, sabem? Ele necessita apenas nos ter nele para que seja perfeito.

Fazemos sentido na sequência de eventos que nos trouxe até este segundo. O passado não importa mas o futuro é nosso.

Longe vão os dias que nos fizeram aquilo que somos. Reinventemo-nos como se disso dependesse o universo de todos à nossa volta.


Sim. Gostei do filme. Vejam-no. Gostem, se gostarem. Se não gostarem, não faz mal. Há coisas bem mais importantes.

Act of Killing de Joshua Oppenheimer, et al, e Jeune & Jolie de François Ozon

(Reposição de posts sobre estes dois filmes que estreiam hoje)

The Act of Killing de Joshua Oppenheimer, Anonymous, Christine Cynn


Este documentário vem com a recomendação de ser o melhor filme de 2013 de acordo com a excelente revista Sight & Sound. Este é a publicação, de origem britânica, que em 2012 voltou a eleger os melhores filmes de sempre (uma prática decenal). Nesse ano, Vertigo finalmente destronou o eterno Citizen Kane. Estas recomendações não fazem sentido para avaliar a qualidade do filme, ou melhor, aquilo que achei do mesmo, mas dito este preâmbulo resta-me afirmar que adorei o documentário. O tema é geograficamente limitado mas universalmente abrangente. O realizador pretendia abordar os massacres a simpatizantes comunistas que tiveram lugar em solo indonésio na década de 60. Acontece que os que os perpetraram continuam no poder e são vistos como heróis nacionais. Numa inversão genial, são os próprios carniceiros a oferecer-se para relatar os factos ocorridos. O que segue é uma observação clinica e factual destes homens enquanto reproduzem as ocorrências do passado (usando eles próprios e outros como atores). Pouco mais há a dizer e o realizador bem o sabe. Escancara as portas do documentário e deixa a realidade jorrar para dentro da película com toda a sua tenebrosa factualidade. Um filme poderoso. Muito.

Jeune & Jolie de François Ozon



O ecletismo de Ozon continua. Tão depressa faz uma comédia esteticamente apurada como 8 Femmes, como entra no dramatismo de Le temps qui reste ou no thriller de Dans La MaisonJeune & Jolie é também um bicho belo, não só no sentido cinematográfico e fotográfico da palavra, como também no tema abordado: a prostituição voluntária de uma mulher adolescente. O voyeurismo é óbvio, pela belíssima protagonista, pela temática, pelo facto de estarmos a ver um jovem corpo nu em situações sexualmente sedutoras. Contudo, pelo facto de não percebermos claramente as motivações da protagonista (faz parte de uma classe média alta francesa educada e endinheirada) o enredo entra pelo campo do mistério insolúvel, pelo mistério belo que nos provoca e fixa o olhar. Um filme enigmático e sedutor, ainda que um pouco distante dos melhores do autor.

Rapidinhas de Música - Jungle e Bo Saris


Jungle - Busy Earnin'

A dupla londrina de dance music sai da penumbra. Zumbido de mosca. Batida sincopada de pratos a partir. Trompete em alarido. Som ao estilo de rádio distante da década de 70. Dedo começa a acompanhar o ritmo e, lentamente, todo o resto do corpo lhe acompanha a vício.  É  a isto que sabe a alegria das noites dançantes. 


Bo Saris - The Addict


Residente também em Londres, este vem dos Países Baixos. Bo Saris. Sabe a lábia toda de uma década melhor. Também esta de 70. A cheia de alma.  Mas ele habita este século XXI. Firmemente. Voz de sedutor com verdades. Daquelas cantadas. Das que duram mais. Estão entrelaçadas no ritmo de uma noite dançante. Fossem todos os poetas e filósofos assim e os políticos não seriam mais necessários.

Rapidinhas TV – Arrow e Hannibal

Arrow

Caríssimos, como já disse o meu “colega” bloguista” do Leituras BD, esta série de TV é puro geekasm. Basicamente, é a adaptação para TV do personagem da DC Comics Arqueiro Verde (Green Arrow no original). Conta a história de Oliver Queen, jovem multimilionário nascido em berço de ouro que, após o naufrágio do iate onde seguia com o pai, tem de viver cinco anos numa remota ilha. Nela passará por um sem número de provas que culminam no regresso ao “mundo dos vivos”. De volta à cidade natal e agora um homem de moral e ética renovada, decide ser um vigilante em busca da limpeza do crime que, endemicamente, assola a urbe. Igual a tantas outras histórias de super-heróis mas nesta série, e principalmente na maravilhosa 2.ª temporada, junta sal e pimenta na forma de personagens coadjuvantes, bem como de histórias diretamente vindas das BD que adaptam. Ainda que a primeira temporada, mais perto do final, se arraste demais, a segunda, atualmente em exibição, mais do que compensa. Os castings são bem conseguidos, com um ou outro personagem menos realizado mas, no fundo, não passam de apontamentos de somenos importância num todo bastante divertido. E é disso que falamos quando falamos de Arrow: divertimento. Essencial para fãs de BD e – garanto – não só.

Hannibal

Esta é daquelas séries que têm um sério concorrente na cabeça da maior parte das pessoas: o filme Silêncio dos Inocentes. Tenho a dizer que são animais completamente diferentes. Hannibal é negro, atemorizante num sentido muito mais gráfico do que alguma vez o filme conseguiu ser. Os rituais dos vários assassinos em série são descritos e expostos com pormenor e diversidade. E não apenas de forma explicita mas também implícita. A atmosfera é opressora, cada pormenor desenhado e estilizado para contribuir para um todo apropriado. Cada linha de diálogo, cada entoação dos atores, cada jogo de luz e sombras, cada enquadramento, cada escolha de vestuário. Alguns poderão considerar não existir parcimónia, mas imagino que isso terá mais a ver com a sensibilidade de cada e não tanto com a necessidade da história (ainda que um outro pormenor peque mesmo por exagero). Mads Mikkelsen, o ator dinamarquês que vimos em filmes como Jagten (A Caça) e Valhalla Rising, apenas pode ser considerado como um homem bastante corajoso, já que tem como concorrente um trabalho francamente elogiado e premiado, o de Anthony Hopkins como o titular Hannibal Lecter. Novamente, são dois animais muito diferentes e, a meu ver, difíceis de comparar (reconheço que esta não é opinião consensual). Junto tem ainda o impressionante trabalho de Hugh Dancy e coadjuvantes de renome como Laurence Fishburne e Gillian Anderson.


Uma série que, de todo, é para os de estômago fraco. Já agora, como é que esta série passa num canal generalista norte-americano? De facto, nos EUA, a violência tem muito mais aceitação que o amor e o sexo.

Rapidinhas de BD – Epic Collection Captain America vol. 9 e Orc Stain vol. 1

Epic Collection Captain America vol. 9


Este vem direitinho de uma caixa cheia de nostalgia e não podia ser mais apropriado, já que a semana passada estreou o segundo filme com o herói titular. Para os fãs da Editora Abril, muitos das histórias contidas neste 9.º volume da Epic Collection do Capitão América sabem a quiosques antigos e cheiram a páginas pequenas. Aquelas dos livros em formatinho da Abril e, melhor, da revista do Capitão América, uma das primeiras a que tivemos acesso nos idos da década de 80. As histórias aqui reproduzidas são um misto do melhor que há com este personagem com outras menos memoráveis. As escritas por Roger Stern e desenhadas por John Byrne são um dos apogeus no longo historial do personagem, tanto que foram incluídas no único volume do Capitão publicado recentemente pela Levoir/Público. Se lerem estas e as mais recentes da dupla Brubaker/Epting (que deram origem à historia deste segundo filme mas que não estão incluídas neste Epic), sabem quase tudo o que há para saber do paladino da liberdade. Incluído está ainda o início da sequência de histórias de J.M.deMatteis (escritor) e Mike Zeck (desenhista), outros dos pontos altos dos idos da Abril. Existe aqui muito bom material para os fãs e não só, uma bela maneira de, em meras 500 páginas, ter uma excelente amostra para nos prepararmos para o filme em exibição.

(PS – Acabei de o receber e ainda não li, mas a memória é bastante viva para certas recordações de infância)

Orc Stain vol. 1 de James Stokoe



A primeira coisa que salta à vista neste volume é o incrivelmente detalhado desenho de Stokoe, uma mistura de cartoon e Geoff Darrow, o insano desenhista de Shaolin Cowboy. Os painéis (sim, é quase disso que falamos) são preenchidos ao milímetro com personagens e cenários, numa construção de mundo vertiginosa e (quase) dolorosa para os olhos. É fácil perdermo-nos na minucia das páginas. Contudo, graças à arte do autor isso é algo que raramente acontece. A narrativa é clara, escorreita e cheia de ação, ao mesmo tempo que nos vai preenchendo a tapeçaria deste mundo de Espada & Magia onde os Orcs são os personagens principais (ao contrário do Senhor dos Anéis). Não sendo um primeiro volume genial, não deixa de pelo menos aguçar o palato para o segundo volume. É algo a revisitar e mais uma prova de que a Image é umas das mais interessantes e ecléticas editoras americanas, digna seguidora do trabalho da mítica Vertigo quando ainda “controlada” por Karen Berger.

Rapidinhas de BD - The Unwritten vol. 8, Orpheus and the Underworld e Daredevil by Mark Waid vol. 6

The Unwritten vol. 8, Orpheus and the Underworld de Mike Carey e Peter Gross

Hoje tenho duas BD que estão longe de ser novas. Já aqui vos falei várias e repetidas vezes (cliquem para ler: The Unwritten; Daredevil de Mark Waid). Uma e mais vezes não vai fazer mal nenhum.

The Unwritten, da imaginação e Mike Carey e Peter Gross, publicada pela lendária editora Vertigo, é um dos momentos mais aguardados quando sei que fica disponível um novo volume a colecionar os fascículos individuais da saga. Apesar disso, o anterior, The Wound, tinha deixado um amargo de boca, ficando aquém das expectativas. O mesmo não se pode dizer deste último, cuja narrativa é mais escorreita e direta, aludindo de forma bastante direta a um dos mais emblemáticos mitos da antiguidade grega, o de Orfeu e Eurídice. Contudo, para efeito da macro-história que está a ser contada, esse mito engrena-se de forma plural na narrativa deste 8.º volume. Se, por um lado, é feita alusão à jornada aos Infernos e à tentativa de regresso, tendo por motivo o Amor entre os protagonistas, por outro lado, a história sobre as histórias, que é o âmago deste Unwritten, avança sem soluços. São, inclusive, feitos passos para a conclusão de vários enigmas e enredos que estavam suspensos desde o início da saga. Ao mesmo tempo, na última página do volume (spoilers daqui para a frente), temos o primeiro crossover entre dois livros da editora Vertigo (com Fables).

Daredevil de Mark Waid vol. 6


Mark Waid continua em excelente forma, desviando o Demolidor da matriz que o caracterizou de forma praticamente uniforme desde que Frank Miller o escreveu na década de 80. O Demolidor negro, urbano-depressivo, realista, produto do mundo onde vivia. A escrita do Demolidor de Waid aproxima-se mais do molde super-heroístico leve, por exemplo do Homem-Aranha, mas sem confundir-se com esse ícone maior da Marvel. Este Demolidor é divertido mas também tem um lado sombrio. Gosta de ser super-herói sem, contudo, estar afastado das consequências. Há pathos mas há humor também. E as histórias que o escritor escolhe são afastadas das diferentes iterações de crime e ninjas que, uma vez mais, caracterizaram o personagem nas mãos de Miller, Bendis, Brubaker e Diggle, por exemplo. Neste volume envolve-se com o Surfista Prateado na busca de criminoso intergaláctico, ao mesmo tempo que entra como advogado de defesa na batalha jurídica do homem que, na sua infância, lhe deu o epiteto de Demolidor. Um pouco de leveza é sempre necessária.