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Os gostos têm tendência em unir pessoas na amizade. Eu e o Filipe Faria - escritor extraordinaire da saga Crónicas de Allaryia e tradutor incansável - temos uma devoção imortal pelos mundos da DC Comics. Ele é fã incontestável do Super-Homem e eu devoto da igreja da Diana de Themyscira. O Filipe tem uma colecção de momentos curiosos dos 80 anos de publicações desta editora. Todas as Sextas ele vai tentar colocar aqui um. Eu apenas publico e nada mais. 

Hoje visitamos o Espírito da Vingança Divina, O Espectro, na sua identidade civil de Jim Corrigan.

Rapidinhas de BD - The Specter, The Wrath of God e Pretty Deadly vol. 1

The Specter, The Wrath of God de John Ostrander e Tom Mandrake

Leiam neste link o post sobre o volume anterior deste série.

A série The Specter de Ostrander e Mandrake era daquelas que esperava ansiosamente para que um dia fosse coleccionada. Reservava na minha imaginação um lugar especial para a combinação destes dois artistas num personagem que, a meu ver, estava especialmente talhado para os seus talentos. Para além disso, fazia parte de uma DC Comics pela qual guardo especial carinho, aquela que foi a minha editora favorita de BD de super-heróis durante mais de duas décadas. O primeiro volume já tinha sido uma corroborarão de uma suspeita, a de que esta parelha de criadores só poderiam ter criado algo de maravilhoso. Este segundo volume é a continuação dessa certeza.

Desta feita, o personagem titular, a personificação da vingança do Deus cristão, principalmente daquele narrado no Velho Testamento, envolve-se numa situação de moralidade dúbia, quando decide colocar toda a inclinação humana para a violência e maldade na balança do seu julgamento. O que pode ocorrer quando um personagem todo-poderoso dotado de um sentido de justiça bipolar se vê confrontado com a matiz cinzenta do comportamento humano? As respostas de Ostrander são, por vezes, um pouco óbvias mas, ainda assim, dotadas de charme e complexidade suficientes para não perder a gravidade da reflexão. Por vezes, eu gostaria de uma abordagem um pouco mais subtil, ao estilo da de Neil Gaiman em Sandman mas, se a quero, tenho é que a ir ler nesse mesmo livro. Para além disto, o escritor decide explorar o passado da entidade  Specter, explorando o seu nascimento, o seu predecessor e alicerçando essa exploração nos recônditos da mitologia da DC Comics e misturando-a com a cristã. Tudo para construir um quadro poderoso e pungente. Sem duvida, umas das grandes publicações da editora e só posso ter pena que ainda não tenha sido anunciada a publicação do terceiro volume da série.

Pretty Deadly vol. 1 de Kelly Sue DeConnick e Emma Rios

Por falar em mitologias, a Banda Desenhada é também profícua em criar as suas próprias. E, no caso da BD estado-unidense, nenhum universo mitológico seria mais apropriado que aquele associado ao dos westerns, a essa época da História dos EUA conhecida pelos cowboys e pelos índios.  Estas duas autoras juntaram-se para criar um novo universo, envolvendo não só justiceiros e mercenários munidos de armas de fogo e velocidade de manuseio, como também estranhas personificações da Morte, as suas filhas e as suas servas. Tudo isto num palco trágico, violento e maior que a vida.

Confesso que será um problema meu mas não sou o maior fã de westerns à face da Terra. Existem obviamente excepções, como por exemplo a maravilhosa BD Bouncer (de que falarei aqui um dia) ou a eterna Blueberry, mas, regra geral, não tenha inclinação para estes contos. Pretty Deadly é, obviamente pela descrição que vos dei, um pouco mais que isso e foi o ambiente mitológico que me atraiu para a sua compra. Gosto destas combinações improváveis, desta mistura entre algo profundamente realista e algo mais sobrenatural. É uma escola de narrativa que vem dos gregos clássicos e que teve pontos altos, por exemplo, com Shakespeare, Goethe, Dante e o nosso Luís de Camões.  Sim... eu gosto desse estilo. Ainda que se encontre algo desta índole em Pretty Deadly e de esta obra ser considerada como um dos grandes esforços da "nova" editora Image, a sua leitura não me estimulou. Contudo, pode acontecer que o seja para outros leitores e outras perspectivas. Por mim, talvez ainda dê mais uma tentativa mas esta não me aguçou o apetite. 
   

Tenho de deixar de falar de BD e fazê-la.

"True, the verse is barren. But the reason I will tell. Shakespeare lies in Heaven; critics go to hell. - Etrigan, Demon Lord of Hell" - The Specter, Volume 3, número 16, John Ostrander.

Diana de Themyscira, aka Wonder Woman, aka  Mulher-Maravilha

Capas de Wonder Woman, volume 2, números 116 e 118, por José Luis Garcia-López





The Spectre, Crime and Judgments de John Ostrander e Tom Mandrake

(a bold têm links para posts relacionados com o assunto)


A DC Comics, depois da sua reinvenção de 1986, começou a entregar os personagens a diferentes autores para que estes dessem espaço à sua criatividade. Desta “generosidade” nasceram algumas das mais memoráveis obras a agraciar a 9.ª Arte. Existiu mesmo oportunidade para que alguns criadores contassem histórias muito pessoais e que o pudessem fazer com um princípio, meio e fim, algo muito difícil na infinita telenovela dos super-heróis. Sugiro, por exemplo, Starman de James Robinson e Tony Harris, Hitman de Garth Ennis e John McGrea e agora este Spectre de Ostrander e Mandrake.

Nunca tinha tido o prazer de ler esta BD mas há muitos anos que a andava a namorar. A DC, finamente, começou a colecionar algumas das mais emblemáticas BD de qualidade que tem no seu portfólio e este primeiro volume compila os 12 primeiros números da revista mensal (se bem que anseio pelo dia em a editora faça o mesmo que a Marvel e começa a sua própria Epic Collection). A vantagem deste volume, além da qualidade dos dois autores, é tratar-se de uma história finita e completa que se desenrola ao longo do livro. Com certeza terão de saber alguma coisa acerca do personagem principal mas parece-me que tudo o que há de importante para saber está já contido dentro das suas páginas. O personagem principal é Jim Corrigan, um polícia falecido desde a década de 40, e o seu alter-ego, o (literal) anjo da vingança do deus judaico-cristão, chamado Espectro. A título de pequena mas não essencial introdução, o personagem existe desde a década e 40 na BD, fazendo parte integrante do primeiro grupo de super-heróis de sempre na história da arte, a Sociedade da Justiça. Ao longo das décadas que se seguiram teve algumas tentativas de projetos a solo mas, na maior parte das aparições, sempre funcionou melhor como coadjuvante (duas das mais emblemáticas aparições foram no maravilhoso Swamp Thing de Alan Moore e na Crise nas Terras Infinitas). Portanto, este primeiro trabalho da dupla Ostrander/Mandrake é também o primeiro de renome com o personagem, tendo ganho, ao longo dos últimos anos, um estatuto de lenda e qualidade para os apreciadores do género. Género que está um pouco longe do super-herói.

The Spectre de Ostrander e Mandrake navega aquelas maravilhosas águas de fronteira entre um oceano mais mainstream dos super-heróis e o mais “maduro” da Vertigo, a famosa sub-editora da DC que publicou obras importantíssimas como Sandman e 100 Bullets. De facto, percebemos que o personagem navega pelo universo normal dos super-heróis, não se afastando desse porto (estou a esticar a metáfora, parece-me), mas entra resoluto num ambiente mais negro, o do horror. Ambiente esse ao qual não só o personagem empresta-se sem problemas como, principalmente, o maravilhoso desenho de Mandrake, que revela-se nesta obra com todo o seu esplendor. A violência de um personagem que representa a ira do deus judaico-cristão remonta à imagem que temos do Antigo Testamento, uma cegueira sanguinária preocupada com o preto e o branco e pouco com cinzento da natureza humana. Contudo, na habilidosa mente de Ostrander, essa polarização é complexa e não perde ainda um átomo do entretenimento tão essencial ao mundo dos super-heróis.


Os anos de espera compensaram e pergunto-me como é que não li isto mais cedo - ando a ter esta consciência em relação não só a este trabalho mas também a outros como Thor,The Eternals Saga e muito em breve vão ver que também com o sublime Miracleman. Ainda bem que a DC vai continuar a colecionar este Spectre de Ostrander e Mandrake.