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BD é cheiro a livro velho.

"Jack Knight, the Starman - I'll never go tired of the smell. Every time I open this shop I take my first day's smell of the place. Breathe deep. Drink it in. And I'll never tire of it. The smell of old things." - Starman volume dois, número um, escrito por James Robinson.

Godfather Death por Scott Hampton, Epic Illustrated, número 17, Abril de 1983.




Rapidinhas de BD - Spider-Man - Family Business e X-Men - No More Humans

A Marvel, famosa editora de BD dos EUA, tem se imiscuído pelos caminhos da BD franco-belga ao publicar  histórias originais fora do formato comics, ou seja, do da pequena revista mensal de 22 páginas.  Apesar de este ser O formato por excelência nos EUA, a tradição, é também tradicional experimentar, inovar, não estagnar. Assim, a editora tem lançado regularmente histórias com mais páginas, finitas e contidas, protagonizadas por um personagem ou grupo de personagens do seu enorme catálogo. Os primeiros foram os Vingadores (que já foquei aqui) e agora seguiram-se outros dois dos mais conhecidos: Homem-Aranha e X-Men.

Spider-Man - Family Business de Mark Waid, James Robinson e Gabrielle Del'Otto

O grande chamariz para esta história era a descoberta de uma irmã perdida de Peter Parker, o alter-ego do Homem-Aranha. Esta descoberta leva o famoso personagem a envolver-se num enredo típico de James Bond, com a participação do Rei do Crime, famoso arqui-inimigo do Demolidor mas originalmente do trepador-de-paredes, e ainda dos seus falecidos pais (e que continuam falecidos nesta história). Infelizmente, este livro é muito pouco mais que isso mesmo.  Um chamariz interessante mas cujo sumo é sem-saborão, valendo por pouco mais que os desenhos do italiano Del'Otto. Provavelmente terá a ver por este ser um ambiente pouco apropriado para o Homem-Aranha, mas faço mais parte da escola que não são os personagens que são fracos, antes são os artistas que produzem a história. Tratando-se de Waid e Robinson, dois excelentes escritores de BD com muitas provas dadas, esperar-se-ia muito mais que lugares comuns e um desenvolvimento de enredo que oferece pouca surpresa.  Mesmo a irmã de Peter é pouco mais desenvolvida do que a descrição que temos nas sinopses desta história, tendo pouco mais espessura que aquela do papel onde nos é apresentada.  Prometem um terremoto no universo do personagem. O que nos entregam é um chocalhar. 

X-Men - No More Humans de Mike Carey e Salvador Larroca

Aqui a coisa já pia de forma diferente. O conceito apesar de ser grandiloqüente como o anterior é mais apropriado aos mutantes mais famosos da Marvel: de um dia para o outro todos os homo sapiens desaparecem da Terra. Sobram apenas os mutantes. O responsável é um dos mais recentes e interessantes vilões da galeria de excelentes inimigos dos X-Men, mas este evento coloca a comunidade num dilema moral óbvio: estamos melhor? Deveremos fazer algo para evitar? Em suma, deveremos defender o sonho de coexistência pacífica entre homo sapiens e homo superior idealizado pelo Gandhi mutante, o falecido Charles Xavier, ou deveremos aproveitar a oportunidade e viver o resto das nossas vidas sem a constante perseguição e racismo? Estas perguntas tem várias respostas, dependendo do personagem que estamos a falar. Este problema filosófico é, contudo, servido com muita ação típica de super-heróis, conceitos e situações maiores que a vida, ou seja, toda a receita apropriada. Quer Carey, o escritor, quer Larroca, o desenhista, não são novatos a lidar com os X-Men e aproveitam-se bem do atual status quo dos personagem, a cisão entre Ciclope e Wolverine,  para construir uma história muito divertida e envolvente, que se lê com rapidez e ansiedade.  Muito recomendável para fãs e não só.

Colecção DC Levoir/SOL – 8.º Volume: Batman

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta colecção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)


Grau de acessibilidade: Fácil

Sai Sexta-feira, dia 17 de Janeiro, junto com jornal SOL e custa 8,9€

Apesar de não ter sido o primeiro dos super-heróis, o Batman, insistentemente, tenta tirar o original do pódio de herói mais conhecido no mundo inteiro. Mesmo que o não seja para a maior parte dos leitores ocasionais de BD ou apreciadores do personagem por via do cinema ou TV, o mesmo não se pode dizer para os apreciadores e criadores do género. Por razões que se prendem com as mais variadas confabulações, o Batman é daqueles personagens que tocam no âmago de muitos, um chamamento primitivo para a necessidade de justiça (e não de vingança), um herói que permite um nível de identificação muito superior ao do homem de aço, com os seus super-poderes, a sua capacidade de voar, a sua invulnerabilidade, a sua origem alienígena. Batman é o super-herói que todos poderíamos ser, se munidos de muito dinheiro, forma física invejável e uma determinação fanática. Existe algo de primal nisto, uma capacidade de identificação com a agenda de um homem que tenta vingar a morte dos seus pais, uma ânsia elementar de controlar aquilo que escapa ao nosso controlo. Esta é apenas uma de muitas razões, mais psicológica, se quiserem, mas existem outras, mais estéticas, relacionadas com o universo onde o personagem se movimenta: uma cidade negra e gótica, reflexo negro de uma Nova Iorque do início do século XX; uma galeria de vilões soberbos, porventura a melhor dos vários panteões da BD americana; um conjunto de coadjuvantes, que funcionam como contraponto e como intensificador da cruzada cega que impele obstinadamente o personagem.

Por todas estas razões, foram muitos os criadores das mais diversas artes a dedicar um pouco da sua atenção e inspiração ao alter-ego de Bruce Wayne. Num exemplo mais mainstream, que outro personagem da BD se prestaria a interpretações tão díspares quanto as feitas por Tim Burton e Christopher Nolan? Isto sem perder um átomo  da infra-estrutura que faz de Batman o Batman? (não, não vou aqui falar do sofrimento que foi a visão de Shumacher). Na BD não é diferente! Aliás foi da BD que estes dois autores puderam retirar as suas visões tão diferentes, porque se esse salto já não tivesse sido feito por inúmeros criadores como Frank Miller, Denny O'Neil, Alan Grant, Neal Adams, entre tantos outros, o cinema nunca poderia ter tido matéria prima para as suas visões tão sui generis. A mistura de uma matriz moldável e adaptável com criadores verdadeiramente talentosos, proporcionou que se criassem das melhores e mais perenes obras da BD, algumas já publicadas nesta coleção da Levoir.

O enfoque deste novo volume cai essencialmente no trabalho de um dos mais conhecidos desenhistas a trabalhar no Cavaleiro das Trevas, Tim Sale, e a  sua colaboração com os escritores James Robinson e  Alan Grant. Sale é mais conhecido pelas suas colaborações com Jeph Loeb, especificamente nos verdadeiramente essenciais The Long Halloween e Dark Victory, o primeiro dos quais uma das bases de inspiração para a interpretação de Harvey Dent no segundo filme da trilogia de Nolan. Infelizmente, não temos essas duas maravilhosas sagas nesta colecção, mas não vale a pena desesperar porque o futuro é ainda incerto e as amostras incluídas neste maravilhosos volume são um bom atiçador de palato. 

Nota – Não partilho da opinião que tem de se saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

O que vou lendo! - The Shade de James Robinson (escritor)


Estou a ficar velho!

Ler The Shade fez-me desejar pelo regresso do espírito que a editora DC exibia na década de 90/primeira década do século XXI. A DC que apostava nas visões de diversos autores, ao mesmo tempo que não se descolava da matriz super-heroística. A DC que não tinha medo de dar carta-branca a um par de escritores-desenhistas para nos contarem uma série finita, com principio, meio e fim, planeados e levados a cabo sem restrições e interrupções. Tenho mesmo muitas saudades desse tempo, e este livro fez-me ter mais certeza do bom que era (se querem saber mais sobre a minha opinião acerca da actual DC, leiam este post).

Apesar do elogio, este livro sofre, infelizmente, de um problema: dificilmente o leitor causal de BD poderá entender toda a piada ao folheá-lo. Os aficionados de BD, contudo, esses serão bem recompensados, principalmente se leram a extraordinária obra que Robinson escreveu na década de 90, Starman. De qualquer modo, mesmo para os que não a leram, pode ser que vos incentive a apanhar todos os volumes da série e a lê-los de uma assentada (são 10 em capa mole e 6 em capa dura, esta numa edição chamada Omnibus). Garanto-vos que vale a pena. Eu espero…

(…)

Já leram? Depois dizem-me se gostaram.

Bem, The Shade é a história que se segue e envolve um dos mais deliciosos personagens da galeria de Starman, o por vezes herói, outras vezes vilão, mas sempre enigmático Shade. Acompanhamos o protagonista enquanto viaja pelo mundo em busca do mandante de um assassino a soldo que gorou matá-lo. A odisseia recupera todo o talento que Robinson exibiu na série Starman. O escritor embeleza a narrativa com uma imaginação fértil e desregrada, regressa aos fabulosos interlúdios Times Past, tudo servido pelos desenhos de alguns dos melhores nomes da BD americana actual, apropriadamente escolhidos para cada capítulo. Sinceramente, não há nada que eu não gostasse desta BD e, portanto, torna-se difícil encontrar adjectivos e até algum distanciamento emocional. Cada história dentro desta longa epopeia recupera a magia de ler BD, especificamente aquela dos super-heróis, sem os atropelos de ter de ler outros mil e um volumes, recupera os conceitos deliciosamente gigantescos tão típicos da arte.

Infelizmente, parece que a mini-série de 12 capítulos (todos coleccionados neste volume) não teve a recepção esperada e merecida e, ainda que tenham ficado alguns mistérios por resolver (nada a ver com a história principal, mas antes com evoluções do personagem), Robinson diz que muito dificilmente The Shade regressa. Por isso apenas posso apelar a todos os que leram ou não Starman que dêem uma oportunidade a este excelente volume. Pode ser que assim eu consiga saber o que é a Biblioteca Escondida do Corredor Vermelho na Casa Triste.

(NOTA: Em baixo têm as capas dos dois primeiros Starman Omnibus. Procurem na Amazon UK. Estão baratinhos)