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O que vou lendo! - Ekho Monde Miroir volumes 1 e 2 - New York e Paris Empire


(isto vai parecer estranho)

Encontrei um personagem de BD provavelmente perfeito para a Beyoncé. Eu sei que a famosa cantora-actriz-performer-dançarina-etc. gostava mesmo era de ser a Mulher-Maravilha mas, para o bem e para o mal, esse papel já tem protagonista.  Este é, de facto, um desejo premente da senhora Knowles, tanto mais se dermos uma olhada a alguns dos excelentes (sim, leram bem, excelentes) vídeos que acompanham o seu mais recente e muito badalado novo álbum. Neles aparecem, amiúde, alusões claras e às vezes não muito claras à minha querida Diana de Themyscira, sublinhando o amor que a famosa cantora dedica à mais famosa das super-heroínas. Não temas, minha cara Beyoncé, se tu ou alguns dos teus conhecidos tiver dotes de ler a melhor língua do mundo (leiam-se, o português), aqui fica o meu conselho: pede aos agentes ou capangas, ou lá o que quer que tenhas como ajudantes, para darem uma olhada na excelente e muito divertida BD Ekho, le Monde Miroir, e pode ser que te enamores de Fourmille Gratule e do maravilhoso mundo espelho, Ekho

(isto tudo apenas possível se os franceses não se passarem por ter uma americana a protagonizar um filme baseado num personagem das suas terras. Mas, vejam a minha lógica, se um dia acharem que vale a pena sequer passar esta excelente BD para o grande ecrã, vai ser necessário muito dinheiro e um nome como a Beyoncé assegura orçamentos elevados. Food for thought!)

(vamos agora ao que interessa)

Fourmille Gratule e Yuri Podrov viajam juntos num voo intercontinental entre Paris e Nova Iorque, quando são misteriosamente transportados para um mundo paralelo de nome Ekho graças à intervenção de uma estranha criatura de nome Prehauns. Estes seres, uma espécie de esquilo versão Disney mas não muito fofinho,  não só parecem ser advogados, já que informam a menina Granule de que é receptora de uma estranha herança, como  são também os monitores da curiosa ordem deste mundo paralelo. 

Acontece que em Ekho a electricidade não foi descoberta e, se estão a pensar "mas como raios é que eles aterraram em Nova Iorque?" não tenham medo. Neste mundo, dragões são um dos preferenciais meios de locomoção local, nacional e intercontinental, centopeias gigantes funcionam como Metropolitano, em suma, estamos defronte de um mundo a meio caminho entre o fantástico e o quasi-Steampunk, um mundo deliciosamente concebido pelas imaginações delirantes dos seus dois autores, Christophe Arleston, na escrita, e Alessandro Barbucci, no desenho. 

Como é verdadeiro e louvável apanágio da BD franco-belga, esta é totalmente a província do autor. Ainda que a americana seja muitas vezes injustamente julgada exclusivamente pelos super-heróis, não estamos longe da verdade quando afirmamos que na franco-belga é dada maior latitude à imaginação dos criadores e menos às imposições editoriais (excepto, actualmente, para grande nomes como Astérix, no seu mais recente álbum, por exemplo).  BD's como este Ekho provam exactamente essa teoria. 

Nesta BD não vamos ter labirínticas confabulações sobre o sentido da vida mas antes um aventura verdadeiramente enternecedora e divertida envolvendo uma protagonista cheia de pêlo na venta, decidida, por vezes até um pouco irritante, enquanto se mete de corpo inteiro num mundo maravilhoso que só dá vontade de habitar. Ao seu lado, temos uma pletora de coadjuvantes também eles verdadeiramente divertidos, a começar pelos deliciosos mas misteriosos Prehauns, pelo interesse amoroso mas também parte integrante do enredo de nome Yuri Podrov, pela dançarina exótica Grace Lumumba, etc.  Cada volume passa-se numa versão reimaginada de uma famosa cidade mundial, sendo o primeiro em Nova Iorque e o segundo em Paris. Tudo isto servido pelo fantástico desenho de Alessandro Barbucci, que é um verdadeiro virtuoso do corpo humano, da arquitectura, da construção narrativa em BD (em Portugal já o vimos, por exemplo, em Skydoll da Vitamina BD).

Esta, meus amigos, é uma excelente prenda de Natal e, quem sabe, um dia a vejamos no nosso português.

O que vou lendo! - Boxers & Saints de Gene Luen Yang



Este díptico, escrito e desenhado pelo sino-americano Gene Luen Yang, foi considerado por sites da especialidade como umas das melhores bandas desenhadas do ano e, digo-o eu, merecidamente. Soube da existência desta BD pelo blog Ler BD (deem uma olhada por lá que vale mesmo a pena) e fiquei, posteriormente, ainda mais curioso depois de o ter folheado e reparado que o desenho e o enredo poderiam apelar aos meus sentidos de estética e gosto. Boa a hora em que o encomendei e li porque neste relato, dividido em duas partes, sobre o Levante dos Boxers, um movimento popular anticristão que ocorreu na China do final do século XIX, prevalece um sentimento de beleza e deslumbramento que nos conquista da primeira à última página, sentimento nunca prejudicado pela aparente simplicidade do desenho, uma mistura entre o cartoon e a linha clara. Através de uma construção clássica de banda desenhada, nunca se imiscuindo por terrenos mais psicadélicos ou excêntricos da construção narrativa na 9.ª Arte, o autor consegue tecer uma narrativa poderosa acerca da fé, tomando como base duas das suas iterações, uma a ancestral chinesa, outra a invasora cristã. Os dois volumes que compõem o díptico dividem-se exatamente por estes dois pontos de vista, sendo que Boxers centra-se no prisma dos apoiantes chineses da fé milenar, especificamente através do herói que originou o referido levante, e o segundo, Saints, do lado de uma rapariga chinesa apoiante da fé cristã.

Os paralelismos entre as duas narrativas não se cinge ao enredo mas, como não poderia deixar de ser, migram para o lado do significado, ou melhor, para o lado do autor das obras, que parecem querer, de alguma forma, casar os dois lados da herança cultural deste sino-americano. O melhor do realismo fantástico permeia pelos interstícios da história e não força à tomada de posição, clara e inequívoca, acerca dos verdadeiros heróis e vilões desta revolução ocorrida no mundo real. Esse “casamento” entre o facto e o fantástico não é feito de forma tendenciosa para qualquer um dos lados, mas antes para iluminar caminhos de “revelação” para o leitor, que pode retirar da narrativa a perspetiva que melhor lhe aprouver. A colagem entre estes vários mundos duplos, diferentes faces de uma mesma moeda, é conseguida de diferentes formas, umas mais óbvias, como a separação entre os dois volumes, outras mais discretas, impregnadas no(s) conto(s). Tudo realizado, desenhado e escrito com candura quase infantil (apesar de algumas das cenas serem demasiadamente gráficas para crianças, portanto, nada de os oferecer a ler a uma), que transportam os dois volumes para o reino do conto de fada, ou não estivéssemos nós a ler acerca de duas maravilhosas mitologias da humanidade em confronto num reino distante (pelo menos para nós). Uma vez mais, é também nesta deliciosa dicotomia, na escolha de uma linguagem mais “infantil” para relatar um conto “adulto”, que Boxers & Saints vence face a outras obras que tentam a mesma empreitada, o autor excedendo-se na proeza de conseguir nos transmitir uma história através do prisma do não-julgamento de valor. Uma obra essencial.

O que vou lendo! - Colecção DC Levoir/Público – 19.º Volume: Super-Homem e a Legião dos Super-heróis e Legion of 3 Worlds

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Isto não é uma deambulação pela qualidade desta coleção da Levoir, que aqui e em outros lugares já defendi com veemência militante, mas antes uma declaração da surpresa (boa) que foi reler esta maravilhosa aventura escrita por Geoff Johns e desenhada por Gary Frank. Mesmo! Que delícia!
Tenho os livros originais que adquiri à altura, os chamados floppies mensais, mas porque tenho menos tempo para dedicar ao vício da BD do que desejaria, nunca os reli. Fi-lo agora com a coleção lançada pela Levoir neste seu 19.º volume dedicada à DC Comics e o conto de Johns e Frank só ganhou com isso.
A narrativa encontra-se estruturada de forma moderna, inspirando-se menos na serialização que tem pautado os comics quase desde sempre, mas antes no principio de finitude, ou seja, mesmo para os menos entendidos na convoluta história do Super-Homem e da Legião dos Super-Heróis, será relativamente (sublinhado) fácil entender o que se está a passar. Para isso Johns, inteligentemente, escolhe alguns temáticas sub-textuais que são facilmente apreendidas. Um dos mais interessantes aspectos disto que acabo de referir é a alusão ao significado que o figura histórica que é o Super-Homem assumiu na sociedade do século XXXI, estando associado a aspectos quase messiânicos. Por sua vez, este lado divino do mais antigo dos super-heróis é lido, na narrativa de Johns, de duas formas: por um lado, o facto de ter estado na origem de uma filosofia, propagada pela História, de fraternidade e respeito pela diferença, que não é diferente da mensagem de um MLK ou Gandhi; por outro lado, o facto de terem se passado 1000 anos e de a sua mensagem original poder ser deturpada ou mesmo subvertida. Este último aspecto é, aliás, um dos motores da narrativa.
Mas Johns não se fica por aqui. Para quem está atento aos desenvolvimentos recentes da sociedade norte-americana, encontrará ecos na história deste volume. Falo da forte polarização de uma nova/velha forma de ver a religião, a interpretação fanática (no caso da história desta BD, assumidamente deturpada) da filosofia, ou melhor, da liturgia – isto para usar termos religiosos – que terá sido passada pela figura messiânica em causa, o Super-Homem. Escolhe-se ver aquilo que se escolhe ver, usando termos mais coloquiais. Esta situação torna-se ainda mais “caricata” quando a própria figura messiânica em causa viaja 1000 anos para o futuro, e é desacreditada como charlatã e como desavisada dos preceitos que, pelos vistos, ele próprio teria criado.
Obviamente que tratando-se isto de uma aventura de super-heróis mais mainstream, muitas destas mensagens são abordadas de forma mais leve, mas Johns tem o condão de, sub-repticiamente, tornar relevantes aspectos que, à partida, seriam apenas adjacentes. Sim, porque este escritor excede-se no aspecto mais puro da BD de super-heróis, aludindo à continuidade de 50 anos da Legião, fazendo regressar velhos personagens que os fãs ansiavam ver regressar, tudo misturado com uma abordagem e prismas relevantes. Sem duvida umas das melhores escolhas que a Levoir poderia ter feito.
Inspirado por esta releitura decidi voltar a ler a história que vinha de seguida: Legion of 3 Worlds de Geoff Johns e George Pérez. Aqui a coisa já pia de forma diferente! Estamos perante aquilo que, coloquialmente e desculpem os mais sensíveis, apenas posso apelidar de puro “geekasm”. Não só é desenhado pelo ENORME George Pérez, que nesta história faz bom uso dos seus incríveis dotes de narrador e de deslumbrador, como é orgulhosamente imerso na (aqui sim, posso dizer sem pruridos) convolutíssima continuidade da Legião dos Super-Heróis e mesmo do Universo da DC Comics. Aparecem três, leram bem, três versões da Legião, aquelas que foram publicadas ao longo destes 50 anos, são referenciadas as duas grandes crises que abalaram o espaço-tempo deste universo, a Crise nas Terras Infinitas e Crise Infinita, aparecem diferentes versões do Super-Homem e a da sua versão mais nova, o Superboy, entre tantas outras maravilhosas delícias para os “verdadeiros” fãs, ou melhor, os únicos que poderão apreciar tudo isto de forma plena (infelizmente, digo eu). Não sei se poderei ir tão longe e ter esperança que esta história será publicada pela Levoir, por todas estas razões, mas posso pensar que haverão aqueles, mais fãs ou menos fãs, que não conheciam e agora fiquem curiosos de a ler. Nem que seja pelo puro sentido de entretenimento. 







O que vou lendo! - Hawkeye volumes 1 e 2 de Matt Fraction (escritor) e David Aja (desenhista)


My life as Weapon e Little Hits colecionam os primeiros números da mais recente tentativa da Marvel em dar um título solo ao seu Robin Hood de serviço. Na esteira do filme dos Vingadores, onde o personagem teve relativa relevância, a editora decidiu dar oportunidade a um dos melhores escritores de serviço, Matt Fraction, para dar vida a um dos mais antigos personagens do seu cardápio (já vem da década de 60), o eterno vingador inconformado e rebelde conhecido em Portugal como o Gavião Arqueiro.


Os dois criadores (Fraction e Aja) já no passado haviam trabalhado num personagem estilo “da rua”, o Punho de Ferro, com resultados bastante similares em qualidade, ainda que o produto final seja dispare. 

No contexto da BD de super-heróis (por muitos apelidada de mainstream) estes dois volumes representam uma lufada de ar fresco face ao panorama disponível, ao fazer escolhas narrativas bastante estimulantes. Não só Fraction engendra enredos francamente diferentes (chega a haver um capítulo inteiro visto da perspectiva de um cão e, já agora, bastante bom), como Aja, nos desenhos, escolhe o caminho oposto das páginas vistosas, preferindo partir a ação em pequenos quadradinhos e trazendo a escala para o humano e o psicológico, possibilitando trocas de diálogos, olhares e gestos entre os diferentes personagens. Em suma, a violência típica de super-heróis é preterida face ao relacional. Nada de novo mas francamente bem conseguido. 

Um dos outros heróis deste Hawkeye é o colorista Matt Hollingsworth, que consegue um fantástico trabalho que completa uma BD francamente boa, uma BD que aproveita muitas das potencialidades da arte e procura explorar novas soluções para histórias que, de outra forma, não sairiam do lugar-comum. Esta obra consegue prevalecer em águas já trilhadas por autores como Frank Miller, mas recorrendo-se de outros instrumentos (o humor é bastante bem-vindo nesta série), que completam um todo fácil de ler e fresco. Bastante recomendável.

O que vou lendo! - Fairest vol. 2 de Lauren Beuke e Bill Willigham (escritores) com Inaki Miranda e Barry Kitson (desenhistas)

Para lerem o post acerca do primeiro volume cliquem neste link.

Bill Willigham, o escritor por detrás de Fables, a já longa série da Vertigo que relata as desventuras dos personagens dos contos de fada nos tempos modernos, conseguiu encontrar ouro pela segunda vez. Fairest conta novas histórias vividas apenas pelos personagens femininos deste universo. O conto principal deste segundo volume pertence a Rapunzel, a rapariga de longos cabelos dourados que vivia encarcerada numa torre altaneira à espera do seu príncipe encantado - como convém a todas as princesas destas histórias de encantar. Contudo, a Rapunzel de Fairest está longe de ser uma donzela em apuros, antes é, como quase todas as mulheres da autoria de Willigham, fortemente independente e resoluta.

Coube a Lauren Beuke e Inaki Miranda a tarefa de contar esta saga envolvendo Rapunzel que, adicionalmente, traz para o teatro do confronto a mitologia dos contos de fadas japoneses. A fusão entre as mitologias pagãs europeia e japonesa não é algo de novo nem na prosa nem na banda desenhada, mas os autores conseguem empolgar com uma história épica que, não só conta novos pormenores relativos ao universo Fables, como os enquadra numa narrativa mais pequena e pessoal envolvendo a rapariga dos longos cabelos. O carnaval de estranhos personagens da mitologia japonesa é particularmente bem evocado pelos desenhos de Inaki Miranda, e as palavras de Lauren Beuke, ainda que um pouco destreinadas na arte da narrativa da BD, possuem um ritmo que carrega a história para lá das fronteiras do convencional. Para além disto tudo, e para aqueles que conhecem um pouco da recente filmografia de terror japonesa, existe ainda um pormenor muito giro acerca da interligação entre esta e os personagens europeus dos contos de fada. E mais não digo!

O último capítulo da coleção inclui uma história escrita por Willigham e desenhada por Kitson, envolvendo o encontro romântico entre a raposa Reynard (que afirma, a pés juntos, ser tão famosa que, em certos países, o seu nome é sinónimo da espécie) e uma Mulher-Árvore. Este pequeno episódio está cheio da assinatura humorística do escritor, que consegue transformar a mais ridícula das histórias num divertido e leve registo que nos ajuda a acalmar depois do mais pesado de Rapunzel.
Basicamente, este segundo volume Fairest é tão bom que acaba por ser chato. Chato porque era bom que muitas BD fossem assim tão consistentemente porreiras.

O que vou lendo! - Fatale vol 3 West of Hell de Ed Brubaker (escritor) e Sean Philips (desenhista)


Leiam aqui o post sobre o segundo volume. 

Com o terceiro volume de Fatale, Ed Brubaker e Sean Philips começam a compor o quadro com o aprofundar do mistério. Nos dois primeiros volumes, este estendia-se apenas a uma única e misteriosa mulher fatal, uma beleza capaz de convencer, por meios sobrenaturais, os homens a fazer tudo aquilo que deseja, que, com a sua mera proximidade, arrasta o género masculino para uma espiral de perdição. Tudo isto servido num ambiente devoto ao noir, aos homens perdidos pelo álcool, pelo crime e pelas curvas da falsa fragilidade do sexo oposto.

Com este volume, a escala cresce, geográfica e temporalmente. Quem são as várias mulheres fatais que se espalharam, ao longo dos tempos, pelas paisagens europeias e americanas? Porque estão elas sentenciadas a marcar os homens que se lhe atravessam no caminho? Que mistério circunda estas mulheres, fisicamente iguais, enquanto encontram, de forma mais ou menos clara, uma resposta ao mistério de “quem sou eu”? E que misteriosas criaturas lovecraftianas são aquelas que as perseguem?

Brubaker e Phillps perpetuam uma parceira que parece estar a produzir uma das melhores sagas da sua já longa colaboração, e isso é dizer muito. Fatale é herdeira do ambiente e narrativa de trabalhos anteriores como Incognito, Criminal e Sleeper mas com um toque sobrenatural que não era lugar-comum nestas suas anteriores obras. E que apropriado esse ingrediente é, já que os dois autores não se esquecem da assinatura que lhes tem trazido tantos sucessos e introduzem elementos que conseguem trazer novidade ao seu repertório. Isto tudo numa colaboração que parece acontecer sem esforço, com uma narrativa escorreita e perfeita na colagem entre palavras e desenhos. Ao mesmo tempo, existe um sentimento de banda desenhada “à antiga”, com uma estrutura de páginas e capítulos sem “splash-page” (página com um único quadradinho), um registo europeu e sem perder a noção de surpresa e de entusiasmo a cada virar de página.

Atualmente, uma das melhores coisas a sair da banda desenhada americana, numa editora, a Image, que está a tornar-se - volto a dizê-lo -  numa nova Vertigo, a emblemática imprint da DC Comics para leitores com "discernimento adulto".

Colecção DC Levoir/Público – 3.º Volume: Super-Homem


Grau de acessibilidade: Fácil

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 25 de Julho, junto com Público e custa 8,9€

Pelo Amanhã é escrita por Brian Azzarello e desenhada por Jim Lee, dois gigantes da BD norte-americana. O primeiro por ser coautor de uma das melhores BD’s dos últimos 15 anos, 100 Bullets, publicada pela Vertigo, e o segundo por representar uma geração de ouro vinda do início da década de 90, uma geração de artistas que contribuíram para a criação de uma das atuais melhores editoras de BD, a Image, mas que também deram o pontapé de saída para um dos piores períodos criativos dos comics (mas isso é história para outra altura).

A acessibilidade desta história é total, não sendo efetivamente necessário conhecer mais do personagem do que é lugar-comum: super-herói; vindo do planeta Krypton; dotado de um moralidade e éticas irreprováveis; casado com Lois Lane.

A linguagem de Azzarello, à altura, foi considerada uma escolha arriscada para este personagem. Este escritor era melhor conhecido por contos noir, policiais negros e terra-a-terra, estando melhor talhando para os contos urbanos de Batman do que para o personagem maior que a vida que é o Super-Homem. Mas, o que a início era visto como um detrimento acabou por ser uma enorme força. Azzarello trouxe uma linguagem maior, acertada para um super-herói também ele maior, elevando-o à sua humanidade e à sua condição de quase-Messias. E esta última faceta é particularmente bem focada em Pelo Amanhã, na medida em que o escritor convida-se a um particular ponto de vista (perdoem-me o pleonasmo) pela escolha de um Padre como um dos coadjuvantes do conto. Com esta visão, Azzarello traz-nos um Super-Homem diferente, ao mesmo tempo frágil (humano) e forte (divino), conseguindo conciliar estas duas versões aparentemente dispares do personagem e que, muitas vezes, têm contribuído para variados preconceitos a si dirigidos.

Este conto terá de ser dividido, na versão portuguesa, em dois volumes, sendo que o segundo saíra na semana seguinte.

Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

O que vou lendo! - Saga vol. 2 de Brian K. Vaughan (escritor) e Fiona Staples (desenhista)

Saga não é bom. É excelente.

aqui tive oportunidade de dar uma impressão acerca do primeiro volume deste novo trabalho de Vaughan e Staples. Mas enquanto o livro anterior introduzia-nos ao mundo, o segundo emerge-nos na mitologia… não, esperem… não na mitologia, mas na história, no coração, na alma - perdoem-me os mais susceptíveis a estes substantivos. Saga é uma lição em como uma parceria na BD deverá funcionar, em como se escreve deliciosamente bem, sem esforço mas profundamente, uma belíssima história. Com entretenimento, sim, mas também com a abrangência dos temas universais, num alcance que me maravilhou em cada virar de página. Para alguém que já nos tinha trazido Y: The Last Man e Ex-Machina, Vaughan, a continuar assim, pode estar a dar-nos a sua melhor obra até o momento.

Num ambiente de ficção científica a saga dos amantes de mundos rivais continua, enquanto tentam criar a sua recém-nascida no meio de uma perseguição levada a cabo por várias frentes, por quem entende que este amor é prejudicial para a continuação de um professo status quo – mesmo que esse seja a guerra e perpetuado por um conjunto de elites. Não parece nada de novo, pois não? Parece Romeu e Julieta com pozinhos de Matrix. Lamento informar-vos mas a novidade, nos dias que correm, é cada vez mais difícil de conseguir, e é apenas pelo lado autoral, pelo ponto de vista, que se atingem as verdadeiras revoluções. E essa visão, esse laborar de palavras, imagens e enredo, isso Vaughan e Staples têm-no sem esforço.

O tema principal de toda a saga é a família, o que não deixa de ser irónico quando o palco da ação é o universo operático da ficção científica, e neste segundo volume este tema é abraçado com vigor.

A imaginação fértil de Vaughan continua a embelezar a narrativa principal com visões enormes e palcos rocambolescos. O autor continua a usar a splash page (uma página com um único quadradinho) com verdadeiro impacto narrativo. A primeira página de cada capítulo é uma lição em como cativar os leitores para a narrativa, não só pelo lado do enredo, mas também recorrendo a incursões pelo meta-textual, ao quebrar a quarta parede e a subtilmente dirigir-se ao leitor. A última página de cada capítulo é, por sua vez, sempre um cliffhanger fenomenal que nos força a não parar de ler. Tudo gerido com parcimónia de palavras e imagens, apenas o essencial para cativar e elucidar. Uma sinfonia em BD.

O único defeito que posso apontar é que tenho de esperar muito pelo próximo volume. E, já agora, parabéns à Image por estar paulatinamente a tornar-se na herdeira da Vertigo. De facto, quantas destas mais houver… melhor.

O que vou lendo! - Fatale vol. 2: The Devil's Business de Ed Brubaker (escritor) e Sean Phillips (desenhista)


O que acontece quando uma mulher fatal é de facto mortífera no sentido mais literal da palavra? Imagino que tivesse sido essa a questão por detrás do conceito deste Fatale, BD de terror noir (se é que isto não é um pleonasmo) concebida pela já lendária parelha de Brubaker e Phillips.

A narrativa vai navegando pelo tempo, ora focando os finais da década de 70, ora o passado mais recente, e centra-se numa mulher, a dita Fatal, que não escolhe sê-lo, antes está a condenada a essa tragédia. Existem homens que inevitavelmente e sem escolha própria, são atraídos para a sua beleza, para o seu sexo, e enredados de forma muitas vezes mortal na vida demoníaca da protagonista. Sim, porque os autores misturam a novela noir, com os seus lugares comuns e clichés, num outro universo temático, o de terror, com resultados que só poderiam ser impressionantes, tendo em consideração a proximidade dos géneros e o trabalho destes dois autores.

Este volume continua a saga do personagem principal de uma forma que não necessita da leitura do volume anterior para se perceber a história (mas tendo em conta a qualidade acho que vale a pena procurá-lo). O que conta é a qualidade da escrita e os desenhos de ambiente soturno, degradante e aterrador, que funcionam, como é apanágio de Phillips, em plena concordância com os verbos de Brubaker. Como é possível que um parceria que já nos trouxe Sleeper, Crimimal e Incognito continue a funcionar desta maneira?