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Fatale da editora G Floy

Ao mesmo tempo que as BD Saga e Tony Chu, saiu ontem na Amadora BD a versão em português da excelente Fatale de Ed Brubaker e de Sean Philips. Da mesma maneira que já tinha falado neste Blog das duas obras já anunciadas, também já aqui dediquei umas quantas palavras a esta mais recente colaboração entre os dois artistas, parceria que dura há já muitos anos e muitas obras. Dêem uma olhada pelas etiquetas deste post e descubram outras coisas que escrevi sobre ambos.

Esta obra terá um total de cinco volumes, tendo o último sido publicado este mês nos EUA.





O que vou lendo! - Fatale vol. 4, Pray for Rain de Ed Brubaker e Sean Philips

A mais recente colaboração Brubaker / Philips ao estilo da literatura noir continua de boa saúde. Se posso dizer algo é que melhora com cada volume, à medida que nos aproximamos do final. Para quem não leu os posts anteriores sobre esta maravilhosa BD (que vergonha! Procurem-nos aqui), podem ter a certeza que não consigo conter-me nos elogios bem cuidados. O trabalho destes dois senhores mistura o dito romance noir com mitologia lovecraftiana. Um casamento feito (reparem agora na inspiração) … no inferno.

No anterior volume (que falei aqui) fizemos uma breve passagem pelo passado remoto. Neste, fazemos uma viagem temporal mais pequena, mas que ainda não nos situa firmemente no presente. Estamos na altura do advento e morte do movimento musical Grunge, sito na cidade de Seattle, e acompanhamos a história de um grupo que descobre o corpo amnésico da heroína de Fatale, a misteriosa Josephine, para estes uma mera Jane Doe. Liberta inconscientemente das amarras místicas e psicológicas que autoimpõe sobre a sua natureza predadora, começa, paulatinamente, a devorar cada membro do jovem grupo de música. Um repasto inconsciente, movido não pela maldade mas pelo instinto. Contudo, o fim é sempre o mesmo. Aqui reside um dos trunfos deste quarto volume da saga composta por Brubaker e Philips. Finalmente presenteiam-nos com toda a terrível glória da sua criação, a tenebrosa e trágica mulher fatal que é a centenária Josephine. Todos sucumbem à sua inconsciente natureza, uma sinfonia de prazer e sexo que arrasta todos os homens para o abismo de perdição (a linguagem que uso, tendo em consideração o estilo de literatura, é mais que apropriado).

A escolha do cenário para este novo relato parece algo pessoal aos autores, mas também apropriado. No isolamento chuvoso da mansão, perdida nas florestas do estado de Washington, desenrola-se a tragédia pessoal dos membros do grupo Amsterdam, bem como a inevitabilidade dos eventos que se sucedem após a descoberta do corpo nu de Josephine por um deles (homem, claro). A história não só acrescenta à mitologia mais larga como pode ser lida sozinha, sendo um dos melhores volumes da coleção.


A simbiose entre escritor (Brubaker) e desenhista (Philips) é já espontânea e escorreita, não saltando uma nota ou havendo um som desafinado (mas que grande trocadilho). Imagino que um escreve para o outro e o outro desenha para o um. 


O que vou lendo! - Fatale vol 3 West of Hell de Ed Brubaker (escritor) e Sean Philips (desenhista)


Leiam aqui o post sobre o segundo volume. 

Com o terceiro volume de Fatale, Ed Brubaker e Sean Philips começam a compor o quadro com o aprofundar do mistério. Nos dois primeiros volumes, este estendia-se apenas a uma única e misteriosa mulher fatal, uma beleza capaz de convencer, por meios sobrenaturais, os homens a fazer tudo aquilo que deseja, que, com a sua mera proximidade, arrasta o género masculino para uma espiral de perdição. Tudo isto servido num ambiente devoto ao noir, aos homens perdidos pelo álcool, pelo crime e pelas curvas da falsa fragilidade do sexo oposto.

Com este volume, a escala cresce, geográfica e temporalmente. Quem são as várias mulheres fatais que se espalharam, ao longo dos tempos, pelas paisagens europeias e americanas? Porque estão elas sentenciadas a marcar os homens que se lhe atravessam no caminho? Que mistério circunda estas mulheres, fisicamente iguais, enquanto encontram, de forma mais ou menos clara, uma resposta ao mistério de “quem sou eu”? E que misteriosas criaturas lovecraftianas são aquelas que as perseguem?

Brubaker e Phillps perpetuam uma parceira que parece estar a produzir uma das melhores sagas da sua já longa colaboração, e isso é dizer muito. Fatale é herdeira do ambiente e narrativa de trabalhos anteriores como Incognito, Criminal e Sleeper mas com um toque sobrenatural que não era lugar-comum nestas suas anteriores obras. E que apropriado esse ingrediente é, já que os dois autores não se esquecem da assinatura que lhes tem trazido tantos sucessos e introduzem elementos que conseguem trazer novidade ao seu repertório. Isto tudo numa colaboração que parece acontecer sem esforço, com uma narrativa escorreita e perfeita na colagem entre palavras e desenhos. Ao mesmo tempo, existe um sentimento de banda desenhada “à antiga”, com uma estrutura de páginas e capítulos sem “splash-page” (página com um único quadradinho), um registo europeu e sem perder a noção de surpresa e de entusiasmo a cada virar de página.

Atualmente, uma das melhores coisas a sair da banda desenhada americana, numa editora, a Image, que está a tornar-se - volto a dizê-lo -  numa nova Vertigo, a emblemática imprint da DC Comics para leitores com "discernimento adulto".

O que vou lendo! - Fatale vol. 2: The Devil's Business de Ed Brubaker (escritor) e Sean Phillips (desenhista)


O que acontece quando uma mulher fatal é de facto mortífera no sentido mais literal da palavra? Imagino que tivesse sido essa a questão por detrás do conceito deste Fatale, BD de terror noir (se é que isto não é um pleonasmo) concebida pela já lendária parelha de Brubaker e Phillips.

A narrativa vai navegando pelo tempo, ora focando os finais da década de 70, ora o passado mais recente, e centra-se numa mulher, a dita Fatal, que não escolhe sê-lo, antes está a condenada a essa tragédia. Existem homens que inevitavelmente e sem escolha própria, são atraídos para a sua beleza, para o seu sexo, e enredados de forma muitas vezes mortal na vida demoníaca da protagonista. Sim, porque os autores misturam a novela noir, com os seus lugares comuns e clichés, num outro universo temático, o de terror, com resultados que só poderiam ser impressionantes, tendo em consideração a proximidade dos géneros e o trabalho destes dois autores.

Este volume continua a saga do personagem principal de uma forma que não necessita da leitura do volume anterior para se perceber a história (mas tendo em conta a qualidade acho que vale a pena procurá-lo). O que conta é a qualidade da escrita e os desenhos de ambiente soturno, degradante e aterrador, que funcionam, como é apanágio de Phillips, em plena concordância com os verbos de Brubaker. Como é possível que um parceria que já nos trouxe Sleeper, Crimimal e Incognito continue a funcionar desta maneira?