Mostrar mensagens com a etiqueta Brian Azzarello. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Brian Azzarello. Mostrar todas as mensagens

Os Malditos vol. 1: Antes do Dilúvio e Moonshine vol. 1: Sangue e Whiskey (G Floy)



A editora Image tem conseguido uma revolução silenciosa ao longo dos últimos anos. Captou alguns dos maiores nomes da BD das Terras do Tio Sam e produzido obras incontornáveis. Não só isso, mas dentro das suas fileiras consta um dos maiores cultos da cultura pop dos últimos anos: The Walking Dead. Graças à reputação criada, nomes geralmente associados à Marvel ou à DC têm gravitado para a Image.  É o caso de Jason Aaron e R. M. Guéra com Os Malditos vol. 1: Antes do Dilúvio e Brian Azzarello e Eduardo Risso em Moonshine vol. 1: Sangue e Whiskey, ambos publicados pela editora portuguesa G FloyEstas duplas são conhecidas de outros vôos, nomeadamente da publicação, pelo selo da emblemática e lendária Vertigo, de Scalped e 100 Bullets, respectivamente. 

Uma BD aqui, outra BD ali, 25 - Universo DC



Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei.  Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

Doomsday Clock número 7 de Geoff Johns e Gary Frank,
Batman Damned número 1 de Brian Azzarello e Lee Bermejo e
Heroes in Crisis número 1  de Tom King e Clay Mann

(com alguns spoilers)

É-me difícil ser imparcial. Desde há mais de 30 anos que a DC Comics e as suas personagens são as minhas favoritas da BD. Nesse tempo, existiram altos e baixos. O final da década de 80, princípios da de 90 e algum do início do século XXI foram anos de muitos prazeres. Depois, estes foram diminuindo gradualmente até atingir o ponto mais baixo, sempre com excepções, por volta de 2016. Mas em meados desse ano, surge o selo DC Rebirth, onde a editora inicia um lento plano de recuperação do lustro que muito de nós sabiam existir. Os três títulos dos quais venho falar são belíssimos exemplos deste renascimento.

Mulher-Maravilha de Azzarello, Chiang, Adkins e Sudzuka




(publicado em Wonder Woman New 52 (2011) 0, 1-35, Faces of Evil: First Born)

(contém spoilers)

Esta não é a Mulher-Maravilha a que estão habituados. A versão é visceral e violenta, bebendo das lendas e mitos dos deuses gregos para além da filosofia do criador de Diana, William Moulton Marston. Existe mais guerra e menos paz. Gail Simone, uma das mais conhecidas escritoras da Mulher-Maravilha, diz não ser fã de uma modificação basilar ao mito de Diana introduzida por Azzarello: a mãe não a esculpiu do barro a que, posteriormente, os deuses deram vida. Diana é agora uma semi-deusa, nascida da luxúria entre Hipólita, a rainha das Amazonas, e Zeus, o Deus dos deuses. Segundo a autora, a introdução de um lado masculino na mitologia da Princesa Amazona diminui a mensagem feminista de Marston. Qualquer que seja o lado para que pendam, esta é a origem que passou para o cinema, pela realizadora Patty Jenkins.

Azzarello, ao introduzir uma nova versão do nascimento de Diana, modifica o mito e aproxima-o dos heróis e semi-deuses da mitologia grega, muitos deles nascidos das indiscrições do pai dos deuses. Todos sabemos de Perseu, de Hércules. Diana junta-se a eles, a uma linhagem que pertence à História da Cultura Ocidental e à Literatura Clássica - Homero e Ovídio ficariam orgulhosos. Azzarello reinterpreta a personagem e adapta-a ao seu olhar e é nesta perspectiva que a sua versão deve ser avaliada. Claro que isso não invalida os que se sentem defraudados pela interpretação desviar-se do que julgam ser essencial à personagem. Contudo, segundo a minha perspectiva, o que é basilar a Diana continua na versão de Azzarello. 

Mais do que uma vez, Diana prefere o uso da conciliação e da não-violência para resolver um conflito. Quando confrontada com Hera, a deusa responsável, num assomo de ciúmes, pela transformação das suas conterrâneas e mãe em cobras e pedra, respectivamente, decide o caminho do perdão e da redenção (já agora, um aparte: Azzarello, consciente ou inconscientemente, alude às Metamorfoses de Ovídio, ao escolher o modo de castigo a que Hera recorre na sua vingança). Quando se vê forçada a casar com Hades, ela ilude o deus usando da sua inteligência e compaixão. Num momento que encapsula a sua motivação, Diana afirma "que ama todos", mesmo o deus dos infernos. Azzarello, por mais que pinte com as suas próprias cores esta narrativa da Mulher-Maravilha, não foge das bases da personalidade da personagem. Diana é uma força de amor, de poder guerreiro e, acima de tudo, uma personalidade resoluta. Cada passo é raramente noutra direcção que não seja para a frente. Sem dúvidas.

É nas intrigas entre os deuses do panteão grego que o escritor se centra. Desde cedo elimina do enredo tudo o que considera supérfluo ou redundante. Steve Trevor, o eterno namorado, não existe. As Amazonas são, como já o disse, retiradas de campo pela mão vingativa de Hera, a esposa desonrada de Zeus, o que está em acordo com a versão que todos conhecemos na História. A acção começa não só pelo abandono, por parte de Zeus, do trono do Olimpo, como pela gravidez e posterior nascimento de mais um bastardo deste deus, colocando a perpetuamente sofredora esposa como uma antagonista de Diana. Paralelamente, os filhos do Deus desaparecido, bem como Hades e Poseidon, seus irmãos, degladiam-se pelo trono abandonado. A Mulher-Maravilha é colocada neste palco, entre a defesa da mãe da criança, do seu meio-irmão, e as lutas palacianas. É arrastada para cada enredo e conluio contra a sua vontade mas depressa toma as rédeas do destino, não o deixando por mãos alheias. 

O enredo irá culminar em dois eventos. Assistimos, desde cedo, à caminhada do First Born, o primeiro filho de Zeus e Hera, rejeitado pelo pai por, tal como com Cronos,  ser o seu possível futuro assassino. Do conflito com este ser movido apenas pelo ódio, Diana ascende à divindade, ao matar o Ares, O Deus da Guerra (que nesta versão não é seu opositor mas mestre), e herdando o título. É aqui que Azzarello deixa vincada a sua marca, num claro desvio da mensagem de paz de Marston. Contudo, acredito que é apenas na forma, porque no cerne da personagem, esta transformação serve para sublinhar a mensagem pacífica de Diana. Nesta escolha do extremo oposto, Azzarello prova, pelos actos de compaixão levados a cabo pela Mulher-Maravilha, que ela é a escolha certa para a divindade da guerra e do conflito.

Para terminar um post já longo, não posso deixar de sublinhar o trabalho dos desenhadores, principalmente o de Cliff Chang e de Goran Sudzuka. Com uma linha minimalista e cartoonesca, são o complemento perfeito para a parcimónia e honestidade brutal das palavras de Azzarello. Fora fica o tom clássico de George Pérez, com a sua fiel e rebuscada pintura do mundo helénico de Diana. Themyscira, a ilha das Amazonas, assemelha-se mais às casas da Grécia moderna do que às representações idealizadas da antiga.  Fora ficam as figuras de toga dos deuses gregos e surgem visualizações metafóricas e simbólicas dos mesmos.  O Olimpo fica desnudado de arquitecturas escherianas e dá lugar à sobriedade e soturnidade do minimalismo.

A Diana de Azzarello, Chiang, Sudzuka e Adkins é a prova de que os arquétipos mais antigos podem ser re-imaginados, sem perder o seu núcleo e a sua mensagem. É a prova de que a Mulher-Maravilha é um dos mais perenes e primordiais. 

Rapidinhas de BD - Vertigo is Dead, Long Live Vertigo



O título não é exagero. O famoso selo da editora norte-americana de BD, a DC Comics, está moribundo. Desde o seu início, no princípio da década de 90,  que a Vertigo não tinha tão poucos livros a serem lançados. Esta foi a casa fundada pela famosa Karen Berger, a lendária editora de BD, a mulher que deu-nos o Alan Moore dos EUA, o Sandman de Neil Gaiman, o Preacher de Garth Ennis e Steve Dillon, o 100 Bullets de Brian Azzarello e Eduardo Risso. São inúmeros os legados deixados por Berger e pela casa que fundou. A História da BD dos EUA e do mundo passa pelos seus corredores e pelo seu catálogo.

Legado também é a palavra correcta para falar destes dois títulos: um é já um antigo amigo, American Vampire de Scott Snyder com Rafael Albuquerque (no seu sétimo volume); outro uma adição, mas com uma equipa já conhecida, o Moonshine de Brian Azzarello e Eduardo Risso. Ambos bebem de um mesmo lugar, da marca de inspiração Vertigo/Berge. Existe a apetência para o terror adulto, negro e deprimido e, nestes dois casos, com inclinação sobrenatural. Poderia ser o horror do serial killer, poderia ser o fantástico pós-modernista. Contudo, os autores ingressam no puro e mais primordial dos horrores, recorrendo a monstros do fabulário e imaginário europeu/ocidental. São duas obras com vampiros e lobisomens, mas arquitectadas por autores que têm algo de novo a dizer acerca destes arquétipos muito conhecidos.

American Vampire é exactamente sobre o que título sugere. Skinner e Pearl são dois vampiros dos EUA, com características bem diferentes dos originais das terras europeias. Ao longo dos seis volumes anteriores assistimos ao seu nascimento e à sua luta para sobreviver, desde o faoreste do século XIX até aos fabulosos anos 20. Os conflitos são contra a sua própria natureza, contra vampiros de outras raças e contra a Humanidade. Neste sétimo volume o confronto é de natureza bíblica. Estamos na década de 60 e um mal primordial ressurge e persegue, indiscriminadamente, a raça de sugadores de sangue. Pode parecer banal mas, uma vez mais e como sempre, é o dedo dos autores que carrega aquilo que é normal e já visto para o reino do entretenimento de qualidade. O conceito deste livro (publicado pela DC e pela Vertigo) é da autoria do conhecido escritor de terror, Stephen King, mas cabe a Snyder a tarefa de levar a bom porto o conceito. E consegue fazê-lo de forma exemplar, demonstrando que, apesar de ter sido esta uma das primeiras obras que o tornou conhecido, continua a entretê-lo e a entreter-nos.

Moonshine vem com a marca de uma das novas Vertigos, a Image, que tem recebido em sua casa autores de várias editoras, para produzir, livremente e detendo os seus direitos, obras de temática diferente. O regresso da parceria Azzarello/Risso a uma obra mais longa era esperado desde a altura do seu essencial 100 Bullets. Voltam atrás no tempo para o final da década de 20 dos EUA, na altura da depressão e da lei seca, onde criminosos e personalidades menos solarengas pareciam multiplicar-se na ficção. Em suma, o casamento perfeito com as sensibilidades de ambos os autores, noir do átomo do cabelo (cheio de brilhantina) à molécula da unha (negra e ressequida) do pé. Existem produtores de whiskey (ou bourbon) clandestinos, homens com passado, mulheres fatais, hillbilly's sanguinários, gangsters violentos... e lobisomens. Que mais pode pedir-se a Azzarello e Risso? Nada excepto: muito bem-vindos de volta. 

Lançamento GFloy - Cage de Brian Azzarello e Richard Corben

O herói da Marvel que deu origem à série da NETFLIX!

Quando Luke Cage aceita investigar o assassinato de uma jovem adolescente, descobre que está a decorrer uma guerra entre três gangues diferentes pelo controlo do bairro a que chama lar. E que melhor maneira de quebrar um impasse do que oferecer os seus serviços a quem lhe pagar mais?

Brian Azzarello é um dos mais aclamados escritores de comics da actualidade, criador de uma das mais premiadas e conhecidas séries independentes, 100 Bullets, e autor de várias sagas de super-heróis para a Marvel e a DC, onde adopta sempre um ponto de vista mais humano para analisar um mundo com super-poderes. Alguns dos títulos que ele assinou mais conhecidos incluem Joker, Lex Luthor ou Batman: Cidade Destroçada. Para a Marvel escreveu um notável Hulk em que colaborou pela primeira vez com Richard Corben, um artista com um talento ímpar e um estilo original, pelo qual foi eleito para o Will Eisner Hall of Fame. E nas páginas deste Cage volta a juntar forças com Corben para um conto negro e realista, que nos transporta para o submundo do universo Marvel. Muitas vezes violento, e sempre fascinante, Cage é uma história de acção urbana no seu melhor.

O Hip-hop, os filmes de  blaxploitation e os comics são primos. A música, a banda desenhada e a rua cruzam-se nos cartoons das capas de discos pós-fase Igreja do Processo do Julgamento Final dos Funkadelic. Bootsy Collins cita os estúdios Hanna-Barbera como uma das suas principais influências. Quando descreve os primeiros tempos do Rap, no livro That’s Blaxploitation: Roots of the Baadasssss'Tude, o sempre saboroso Fab Five Freddy mostra-nos que o MC muitas vezes se comparava a “todo o género de personagens de banda desenhada e super-heróis”. Como disse, o hip-hop, os filmes de  blaxploitation e os comics estão todos na família. E agora, temos de volta um Cage de barrete, para manter o funk vivo. CAGE traz uma voz urbana autêntica - a voz do herói de blaxploitation, a voz do hip-hop, a voz da classe negra pobre - para a banda desenhada. E, apesar de afirmar que é um mercenário - tal como em todos os bons filmes de blaxploitation e kung fu - Cage é um herói da classe pobre. Um preto à séria, cheio de atitude à Huey Newton, imbuído de Mito Urbano.
Do prefácio de Darius James.

CAGE
Brian Azzarello (argumento) e Richard Corben (arte)
Formato comic, capa dura, 128 pgs. a cores. PVP: 10,99€
ISBN: 978-84-16510-30-6



Batman, The Killing Joke - The Movie de Sam Liu

Pelo que se vai dizendo na internet, este filme tem sido alvo de alguma polémica, orquestrada pela comunidade que lê BD de super-heróis. Para os restantes, para as pessoas que não devoram nada da 9.ª Arte, que são poucas, ou de super-heróis, que são ainda menos, estes são assuntos que não interessam rigorosamente nada. 

A Banda Desenhada original de Batman, The Killing Joke é o equivalente a uma lenda. Escrita por um dos seus maiores escritores, Alan Moore, e desenhada por um dos seus mais prestigiados desenhistas, Brian Bolland, é o relato definitivo (?) de uma das maiores rivalidades da mitologia dos super-heróis: Batman e Joker. Hoje em dia, estas são figuras suficientemente conhecidas (por causa do Cinema) para que mesmo os que nada lêem de BD não sejam indiferentes aos nomes. A obra apareceu naquele que é considerado um dos períodos áureos desta Arte em geral e da produzida nos EUA em particular. Um período que iniciou-se no principio dos anos 80 pelas mãos deste mesmo escritor no seu Swamp Thing, continuado pelo mesmo (no seminal Watchmen) e por tantos outros autores, e acabado algures pelos fins da mesma década. Nesta época nasceu este Batman, The Killing Joke (publicado em Portugal pela Levoir - procurem-no no volume dedicado ao Joker na Colecção da DC Comics). Imediatamente transformou-se num clássico, pela arte dos criadores, pelo tema que abordou e a forma como o abordou. Uma visão madura e complexa da rivalidade e de como a mesma poderia ser vista pelo prisma da transversalidade, do transporte para o "mundo real". Resumindo, um livro do caraças!

A adaptação poderia seguir um de dois caminhos: fiel, palavra a palavra, estilo a estilo, enquadramento a enquadramento; desvio do original. O que este desenho animado fez foi as duas e aí reside parte do descontentamento (para esclarecer as coisas, eu gostei bastante do filme). É dividido em duas partes, uma primeira focada em Barbara Gordon, a Batgirl (a parte original do filme e a mais criticada), e uma segunda que é, então, a adaptação propriamente dita. Esta segunda segue de forma bastante fiel a obra, recriando enquadramentos, diálogos e mesmo o estilo de Brian Bolland, numa passagem fiel que tem tudo para agradar aos fãs e não só. Apercebemos-nos do gigantismo das palavras de Moore e dos desenhos de Bolland, que transformam-se em falas e movimentos sem soluços e com o alcance e a qualidade reservados às grandes obras de Arte. Chegamos a perguntar porque não foi isto feito mais cedo e para quando uma adaptação desta categoria para o Cinema em live-action. As vozes e interpretações são sublimes e acertadas. Tudo funciona. Não é, obviamente, a BD, mas é uma forma de a passar para a 7.ª Arte.

Para muitos, o problema reside na primeira parte, a que perde um pouco de tempo a tornar relevantes (para os que não lêem BD) os eventos que acontecem a Barbara Gordon (spoiler): ela é baleada pelo Joker e perde o uso da suas pernas. O "prólogo" é escrito por Brian Azzarello, conhecido dos leitores de BD por obras como 100 Bulllets ou uma recente e aclamada interpretação da Mulher-Maravilha. Azzarello é famoso por visões urbanas, noir e adultas dos personagens (seus ou de outros). É também conhecido por uma personalidade irascível, que raramente pede desculpas, dono de uma honestidade desarmante para uns e refrescante para outros (sou dos últimos e já fui alvo dela).  A sua leitura desta Barbara Gordon/Batgirl é tudo isso e muito mais. Acontece que a personagem, nesta leitura, exibe uma sexualidade activa e adulta (outros dirão outras coisas) e ocorre uma cena em particular que deverá ter deixado alguns desarmados e relutantes. Nada do que acontece choca-me e vejo-o apenas como o quebrar de algumas barreiras que muitos consideram invioláveis, as da natural revelação que os super-heróis são seres sexualmente activos (nada que Alan Moore, por exemplo, já não tenha feito). Claro que a interpretação de Azzarello não se cinge a isso e desenvolve a personalidade de Barbara para que nós, espectadores, sintamos o que o Joker acaba por lhe fazer. Para algo que é um desenho animado é, a meu ver, um passo em frente, principalmente para os habituados a uma dieta Disney (quem vê Anime sabe que existem outras gastronomias, para continuar na metáfora).

Este é, para mim, um filme interessante e uma interpretação válida da obra, acrescentando camadas que apenas enriquecem um dos personagens da história. É melhor que a BD? É claro que não, mas que adaptação é melhor que o original? (calma, eu sei que isto é uma discussão complexa e longa).

Rapidinhas de BD - Descender vol. 1 de Jeff Lemire, Dustin Nguyen e Lex Luthor de Brian Azzarello, Lee Bermejo



A Image, editora de BD dos EUA, permanece como um dos actuais antros da melhor 9.ª Arte a nível mundial. No fundo, no fundo, segue a pegadas da DC Comics tal como esta era antes. Ou seja, uma editora que não só continua o seu trabalho de publicação de personagens mais conhecidos e "mainstream" (Invincible, The Walking Dead, Spawn, Savage Dragon), como arrisca forte em trabalhos de "autor". A DC já foi o mesmo: uma casa-mãe que publicava os melhores super-heróis do mundo e as várias imprints, das quais se destacava a Vertigo, onde escreveram-se e desenharam-se algumas das mais importantes obras da História da BD. A gigante DC está a passar por um momento de mudança de paradigma  que os fãs como eu esperam que os leve a bom porto. A Image já mudou há algum tempo e a vitória tem acontecido em (quase) todas as frentes.

Um dos novos exemplos desta vitória da Image é Descender de Lemire e Nguyen, autores habituados e trabalhar para as grandes. É a história de uma galáxia distante, de um robô-miúdo e de estranhos seres gigantescos (uma espécie de A.I. de Spielberg/Kubrick meets Eternals de Jack Kirby). Ao contrário de trabalhos anteriores de Lemire, mais esotéricos e kubrickianos (Trillium, Sweet Tooth), este Descender pende para um lado mais de entretimento com profundidade temática e dramática, mais Spielberguiano. O valor comercial desta obra não parece escapar aos autores e aos produtores de Hollywood que poderão estar a chegar a um acordo para uma adaptação à 7.ª Arte. Com certeza que perderá muito da paleta de cores e do traço do soberbo trabalho de Nguyen, que assume um lado diferente da sua arte, mais ligada à aguarela, fornecendo uma camada de ironia ao estilo dos livros de ilustração infantil. Não sendo ainda uma BD fabulosa, não deixa de estar já num patamar de qualidade confortável e merecido.

Lex Luthor de Azzarello e Bermejo é o 9.º volume da colecção da Levoir/Público e o único que ainda não tinha tido o prazer de ler no original. Faz já parte da recta final da fase da DC que eu adorava e é um de dois volumes concebidos pelos autores e dedicados aos dois maiores vilões do universo de super-heróis da editora (o outro é o Joker, também publicado pela Levoir). Azzarello tem um estilo de escrita que funciona de forma perfeita na língua original, na medida em que usa trocadilhos e subentendidos que jogam com expressões idiomáticas e duplos sentidos. Não li o original mas não tenho a sensação de perda nesta tradução. Verdade seja dita que o script do escritor, combinado com o "partir-de-página" do desenhador, demonstra trabalho profundo de colaboração, que carregam a história e a ironia de forma soberba. Ambos abordam um dos mais paradigmáticos e complexos personagens da editora não só do ponto de vista de fãs mas também mais transversal - a sequência inicial é particularmente deliciosa, pura Azzarello e pura Luthor. Sem dúvida uma grande BD numa grande colecção.

Mulher-Maravilha: O Mito


Primeiro: não é Super-Mulher. É Mulher-Maravilha! A sério! Aparentemente, um nome é tão bom ou tão mau quanto o outro, mas o original é Wonder Woman e, se o dicionário não me engana, Wonder traduz-se como Maravilha e não Super, OK? Mas como raios é que uma má tradução fica tanto tempo?
Segundo: Ainda estão interessados? Eu sei, eu sei. A Mulher-Maravilha não é muito estimulante (hum, má escolha de palavras) num universo literário geralmente direcionado para homens, não é testosterona aos saltos enquanto esmurra discricionariamente o vilão du jour (às vezes ela também o faz). É uma mulher, poderosa em mais sentidos do que um, algo mal visto numa arte que, já aqui falei numa coluna anterior, inclina-se a enquadrar o género num de dois prismas: femme fatale ou interesse romântico (este, muitas vezes, indefeso). Tenho perfeita consciência que não é bem assim e não o é (totalmente) há já muito tempo, mas ainda existem alguns exemplos sonantes. Adiante!
O nome é Diana de Themyscira, princesa nascida numa ilha inteiramente povoada por mulheres, as Amazonas da mitologia grega – curiosamente, a ilha tem o epíteto de Ilha Paraíso. Exiladas pelo deuses do panteão grego, depois de serem ludibriadas por servos do deus da guerra, Ares, a cometer crimes atrozes, viveram durante milénios sob a égide da paz e de uma missão, a de proteger o mundo de um mal inominável sepultado no submundo da ilha de Themyscira. Ares, contudo, com o decorrer dos milénios e o crescente domínio da guerra, desenvolve-se em poder e influência, obrigando à escolha de uma mensageira da paz a ser enviada ao mundo patriarcal (o nome dado pelas Amazonas ao nosso). Das suas fileiras e à revelia de uma mãe protetora, emerge Diana, a primeira e única criança a nascer na ilha de Themyscira, concebida imaculadamente através do barro moldado pela mãe nas praias da sua terra e soprado à vida com dádivas dos deuses - uma melhor concepção ao estilo de salvador-religioso é difícil. Diana vence um conjunto de provas e viaja para o nosso mundo, onde enfrenta os desígnios de Ares e, através mais da verdade e menos dos punhos, consegue prevalecer ao deus insano.
Vencida a prova, é escolhida pelos deuses e pelas Amazonas como embaixadora, não apenas da sua terra natal mas acima de tudo da paz, mensagem esta que prevalece sobre todas as demais tradições themyscirianas e que evoca os textos e filosofias da cultura grega, da qual a sua é uma evolução (e não somos todos nós, ocidentais, gregos?). Diana não é tanto uma super-heroína nos moldes mais tradicionais, mas antes uma mensageira de fraternidade, democracia e igualdade, alguém que escolhe a palavra e o diálogo ao invés do punho e da violência. E ainda se perguntam porque tem tão pouca fama no universo dos super-heróis.
Os leitores experimentados de BD reconhecem, nos dois parágrafos anteriores, não a Mulher-Maravilha mas antes uma das suas versões, a concebida por George Pérez, o desenhista/escritor a quem foi dada a missão de reintroduzir o personagem já nos idos de 1986. Esta é a versão pela qual conheci Diana e aquela que reconheço como a interpretação mais interessante do mito. Acontece que o personagem é já bastante mais antigo, tendo sido criada por William Moulton Marston em 1941 para a editora DC Comics. Marston é também conhecido por ser o criador do polígrafo e praticante de filosofias matrimoniais bastante liberais, mesmo para os dias de hoje.
O paralelismo entre a vida do autor e o personagem que criou é absolutamente delicioso. Passo a explicar e começo pelo segundo facto. Marston era “casado” e vivia com duas mulheres, com quem alegadamente praticava bondage. Muitas das primeiras histórias da Mulher-Maravilha continham várias cenas em que ela era sensualmente amarrada e tal era a frequência que, às tantas, o editor pediu para as minimizar. O primeiro facto, o de ter sido criador do polígrafo, é também bastante interessante. Muitos sabem que a única arma que Diana brande é um mero laço forjado por Hefaestus, um dos deuses do panteão grego, e esse mesmo laço tem uma característica muito particular: todos os a si amarrados são impelidos a dizer apenas a verdade (outra vez uma alusão ao bondage). Autores mais tardios racionalizaram que não era o laço que impelia as pessoas a dizer a verdade mas antes a própria Diana, que usava o instrumento apenas como um canal da sua influência. Inclusive, noutra evolução do personagem, John Byrne chegou a matar Diana e a ressuscitá-la como a Deusa da Verdade (ah, os fabulosos anos 90, onde todos os super-heróis morriam ou eram mortalmente aleijados).
Mas voltemos a Pérez! Nas mãos deste autor e durante cerca de 5 anos, Diana foi mais do que a Deusa da Verdade, não tanto beligerante mas antes pregadora, a voz de uma mulher belíssima mas inocente aos modos dos homens. Ainda que aparentasse ser o cordeiro abandonado aos lobos, este era um cordeiro com poderes doados pelos deuses e talentos forjados por uma personalidade pura e desinteressada, conseguindo preservar a sua missão, mesmo que exposta às contrariedades humanas. Conseguindo preservar a inspiração que criava no coração do Homem, quer fosse ele humano ou sobre-humano. A princesa Diana de Themyscira era realeza com o intuito de nos ensinar os valores da cultura grega e da paz. Dificilmente, neste mundo em que vivemos, a sua natureza, pureza e missão poderiam ser bem recebidos e interpretados. Dificilmente, num mundo de cínicos e numa arte principalmente lida e criada por e para homens, uma mulher bela, emocional e, ao mesmo tempo, racional, detentora da palavra e da força do diálogo, poderia ser recebida sem preconceitos. E, à semelhança do Super-Homem, acaba por não ser dos personagens de BD mais bem aceites. O que, a meu ver e caso ainda não tenham percebido, é mesmo muita pena.
Numa interpretação mais recente, do escritor Brian Azzarello e desenhista Cliff Chang, Diana é agora uma semideusa, filha de Zeus. Esta evolução foi bastante contestada por alguns leitores de BD mas, se virmos bem, estamos a falar de um dos mais conhecidos aspectos da mitologia grega. As indiscrições de Zeus para com Hera, a sua mulher, são bastante conhecidas, tendo originado outros semideuses como Héracles, Helena de Tróia ou Perseu, ou tendo envolvido casos bastante conhecidos, como o de Europa. Acho que esta é uma companhia que merece Diana.

As histórias da Mulher-Maravilha que mais gosto - artigo Maxim

Esta semana volto a um dos meus mais queridos personagens de BD, a princesa de Themyscira, Diana, a Mulher-Maravilha.

Olhem para esta cara laroca desenhada pelo mestre José Luis Garcia-Lopez e digam lá se não é um grande personagem?

Já agora, os volumes que sugiro do George Pérez podem considerar-se como um primeiro post de uma rubrica Ler sem Medo - Mulher-Maravilha, devendo ser lidos logo a seguir à sugestão do Ler sem medo - Universo DC.

Leiam o artigo aqui.


Colecção DC Levoir/Público – 5.º Volume: Joker

(Prometo tentar informar aos menos conhecedores de BD acerca da acessibilidade desta colecção, ou seja se é fácil ou não ler sem saber muito mais coisas)

Grau de acessibilidade: Fácil

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 8 de Agosto, junto com Público e custa 8,9€

O que podem ter nas mãos, com este quinto volume da coleção da Levoir/Público, é um clássico da literatura.

Estamos a falar da história pela qual todas as outras que protagonizaram o Joker e o Batman seriam julgadas - Batman, the Killing Joke. Publicada em 1988, reúne dois titãs, Alan Moore na escrita e Brian Bolland nos desenhos, naquele que seria o derradeiro contributo do primeiro às ordens da DC Comics (Alan Moore saíria acusando a editora de censura). Este conto, que define o termo qualidade nesta arte, relata um dos múltiplos confrontos entre estes dois personagens maiores da cultura popular do século XX, mas com complexidade psicológica e narrativa poucas vezes vista até à data. Este é o Joker de Alan Moore, não apenas o palhaço psicopata genocida, um vulcão de comportamentos caóticos, mas antes um acutilante comentador da sociedade, um pivot que, do alto da sua superioridade intelectual, tece diatribes julgadas insanas pelos comuns mortais, mas a quem a eternidade e a posteridade darão razão. Este Joker, à falta de melhor termo, é o super-vilão assassino filósofo e o Batman apenas vive no seu mundo.

O conto de Brian Azzarello (escrita) e Lee Bremejo (desenhos) é de 2008, e conta uma perspectiva diferente de Joker mas, ainda assim, emersa nas idiossincrasias dos autores e não apenas na imagem popular associada ao vilão. Este Joker é o complexo criminoso herdeiro de Moore e também um agente noir (como convém à escrita de Azzarello) da cidade rei desse estilo literário, Gotham City. Esta é uma história exclusiva de Joker e, a título de curiosidade, utiliza o mesmo efeito dramático dos lábios rasgados que Heath Ledger e Christopher Nolan utilizaram no seu Dark Knight. Azzarello afirmou, em entrevista, que a decisão de utilizar esse truque visual poderoso nada teve a ver com o filme, antes foi uma feliz coincidência (deixo ao critério de cada um tecer a sua versão deste acontecimento).

Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

Colecção DC Levoir/Público – 4.º Volume: Super-Homem


(Prometo tentar informar aos menos conhecedores de BD acerca da acessibilidade desta 
colecção, ou seja se é fácil ou não ler sem saber muito mais coisas)

Grau de acessibilidade: Fácil

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 1 de Agosto, junto com Público e custa 8,9€

Pelo Amanhã é escrita por Brian Azzarello e desenhada por Jim Lee, dois gigantes da BD norte-americana. O primeiro por ser coautor de uma das melhores BD’s dos últimos 15 anos, 100 Bullets, publicada pela Vertigo, e o segundo por representar uma geração de ouro vinda do início da década de 90, uma geração de artistas que contribuíram para a criação de uma das atuais melhores editoras de BD, a Image, mas que também deram o pontapé de saída para um dos piores períodos criativos dos comics (mas isso é história para outra altura).

A acessibilidade desta história é total, não sendo efetivamente necessário conhecer mais do personagem do que é lugar-comum: super-herói; vindo do planeta Krypton; dotado de um moralidade e éticas irreprováveis; casado com Lois Lane.

A linguagem de Azzarello, à altura, foi considerada uma escolha arriscada para este personagem. Este escritor era melhor conhecido por contos noir, policiais negros e terra-a-terra, estando melhor talhando para os contos urbanos de Batman do que para o personagem maior que a vida que é o Super-Homem. Mas, o que a início era visto como um detrimento acabou por ser uma enorme força. Azzarello trouxe uma linguagem maior, acertada para um super-herói também ele maior, elevando-o à sua humanidade e à sua condição de quase-Messias. E esta última faceta é particularmente bem focada em Pelo Amanhã, na medida em que o escritor convida-se a um particular ponto de vista (perdoem-me o pleonasmo) pela escolha de um Padre como um dos coadjuvantes do conto. Com esta visão, Azzarello traz-nos um Super-Homem diferente, ao mesmo tempo frágil (humano) e forte (divino), conseguindo conciliar estas duas versões aparentemente dispares do personagem e que, muitas vezes, têm contribuído para variados preconceitos a si dirigidos.

Este conto terá de ser dividido, na versão portuguesa, em dois volumes, sendo que o primeiro saiu na semana anterior.

Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

Colecção DC Levoir/Público – 3.º Volume: Super-Homem


Grau de acessibilidade: Fácil

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 25 de Julho, junto com Público e custa 8,9€

Pelo Amanhã é escrita por Brian Azzarello e desenhada por Jim Lee, dois gigantes da BD norte-americana. O primeiro por ser coautor de uma das melhores BD’s dos últimos 15 anos, 100 Bullets, publicada pela Vertigo, e o segundo por representar uma geração de ouro vinda do início da década de 90, uma geração de artistas que contribuíram para a criação de uma das atuais melhores editoras de BD, a Image, mas que também deram o pontapé de saída para um dos piores períodos criativos dos comics (mas isso é história para outra altura).

A acessibilidade desta história é total, não sendo efetivamente necessário conhecer mais do personagem do que é lugar-comum: super-herói; vindo do planeta Krypton; dotado de um moralidade e éticas irreprováveis; casado com Lois Lane.

A linguagem de Azzarello, à altura, foi considerada uma escolha arriscada para este personagem. Este escritor era melhor conhecido por contos noir, policiais negros e terra-a-terra, estando melhor talhando para os contos urbanos de Batman do que para o personagem maior que a vida que é o Super-Homem. Mas, o que a início era visto como um detrimento acabou por ser uma enorme força. Azzarello trouxe uma linguagem maior, acertada para um super-herói também ele maior, elevando-o à sua humanidade e à sua condição de quase-Messias. E esta última faceta é particularmente bem focada em Pelo Amanhã, na medida em que o escritor convida-se a um particular ponto de vista (perdoem-me o pleonasmo) pela escolha de um Padre como um dos coadjuvantes do conto. Com esta visão, Azzarello traz-nos um Super-Homem diferente, ao mesmo tempo frágil (humano) e forte (divino), conseguindo conciliar estas duas versões aparentemente dispares do personagem e que, muitas vezes, têm contribuído para variados preconceitos a si dirigidos.

Este conto terá de ser dividido, na versão portuguesa, em dois volumes, sendo que o segundo saíra na semana seguinte.

Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.