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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, e agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana continuamos, até dia 18 de Novembro, histórias do Renascimento da DC que acho (que acho) valerem a pena. 

Uma BD aqui, outra BD ali, 7

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

The Old Guard números 1 a 5 de Greg Rucka e Leandro Fernández (Image)

As fantasias de muitos nós (eu, inclusive) passam por ser imortal. Superar os poucos anos que vivemos, ser eternamente jovens e experimentar todas as cambiantes da vida. Essa fantasia é de tal forma poderosa que inventamos ficções e religiões que perpetuam-na e embelezam-na. É desse pressuposto que Greg Rucka Leandro Fernández partem.

Somos apresentados a quatro humanos que não morrem. Alguns com milénios de existência, outros com apenas algumas centenas de anos. Uma mulher, a mais velha, dois amantes e um francês, o mais novo. No outro lado do mundo, uma nova imortal está prestes a nascer. E enquanto isso, os poderosos e ricos desejam saber o segredo da sua vida quase infinita. Quase, porque na realidade não são imortais. Morrem. Apenas muito depois de nós. Nesses dias aparentemente infindos, ocupam o tempo a amar, a comer e em missões paramilitares de objectivos diversos. São máquinas de guerra e de morte, com mais conhecimento esquecido do que alguns exércitos inteiros conseguirão aprender numa vida.

Rucka equilibra de forma magistral o entretenimento com o peso da imortalidade. O que poderia parecer um mero exercício de fantasia adolescente transforma-se numa reflexão filosófica do que significa ter muitos ou poucos anos à disposição. Ser imortal, aos olhos de quem vive há sete milénios, não é sentido como uma bênção. Rucka pensou bastante sobre isso. As frases e as personalidades de todos não são apenas esboços. Antes seres humanos bem desenhados. Leandro Fernández é um artista que acompanho desde os tempos do seu trabalho no Hellblazer e em Loveless, ambos com Brian Azzarello, e a sua proximidade estética a Eduardo Risso é sempre bem vinda.

Uma das melhores BDs deste ainda jovem ano de 2018.

Hal Jordan and The Green Lantern Corps número 36 de Robert Venditti e Jack Herbert (DC Comics)

Existem autores que transformam de tal forma as personagens que passam também a ser suas. O Demolidor não foi criado por Frank Miller, mas este alterou-o tanto que o Homem Sem Medo passou a ser mais seu do que dos autores originais. O mesmo aconteceu com os X-Men e Chris Claremont (e John Byrne). E com o Lanterna Verde e Geoff Johns. Este escritor agarrou em todo o passado da personagem e em todos os autores que nele trabalharam e deu vida a um conceito moribundo do universo DC. Teve mesmo o "privilégio" de ser-lhe dada a hipótese de escrever um epílogo onde a sua história era levada até aos dias finais do Lanterna, como se ele fosse seu. Mas estas personagens nunca são propriedade dos que mais contribuem para a sua vitalidade (como Alan Moore bem o sabe - e ele até contribuiu com algumas ideias que Johns aproveitou).

Robert Venditti teve a pouco invejável tarefa de seguir Johns. Confesso que fui dos que abandonou a revista mensal logo após o último número deste. Mas voltei com o DC Rebirth, pela sugestão involuntária de um amigo. Hal Jordan & The Green Lantern Corps de Venditti é francamente entretido, empolgante e cósmico. O escritor controla, e bem, as vozes de todas as personagens, consegue engendrar twists e abordagens diferentes ao universo dos Lanternas. Não se esforça por ter a reinvenção delirante de Johns mas faz uso do legado para construir uma montanha russa de pura diversão de super-heróis cósmicos. Este último número fecha um arco de história e no próximo o escritor traz o General Zod (o inimigo do Super-Homem no filme Homem de Aço) para confrontar Hal Jordan e os Polícias do Universo. Para descontrair a (minha) cabeça não está nada mau.

Damage número 1 de Robert Venditti e Tony Daniel (DC Comics)


A DC tem uma nova iniciativa chamada The New Age of Heroes. Liderada por Dan Didio e Jim Lee, editores-chefe da editora, tem dois objectivos principais: devolver algum "poder narrativo" aos desenhistas; criar novos conceitos (franquias, vamos lá ser sinceros) para a DC. Damage é o primeiro.

A personagem é basicamente uma versão do Hulk e este primeiro número é pouco mais que o protagonista em modo destruição pela paisagem dos EUA. Julgar uma série inteira por estas escassas páginas é injusto mas, também a julgar por elas, a vontade de regressar a este mundo é francamente pouca. Sou da escola que uma boa história eleva um livro de BD, enquanto que desenhos maravilhosos têm muita dificuldade em fazer o mesmo. Por melhor e mais tecnicamente perfeitos que sejam, se o conteúdo, o enredo, as personagens, a mensagem, o subtexto, o entretenimento, não forem bem contados tudo pode cair por terra. Existem excepções mas Damage não é uma delas. 

Livro bonito de folhear mas, pela amostra, estamos em risco de  ter em mãos uma BD ao estilo da Image, quando nasceu na década de 90. Bonita (para quem gosta). Lê-se em dois minutos. No que a mim diz respeito preciso de mais. 

Colecção Mulher-Maravilha Levoir/Público - 3.º volume: Hiketeia de Greg Rucka e J. G. Jones


Sai hoje, dia 8 de Junho, o terceiro volume da colecção da Levoir/Público dedicada ao maior personagem da BD: Diana, Princesa de Themyscira, filha de Hipólita, a Mulher-Maravilha. Este reproduz a primeira história que Greg Rucka, confesso apaixonado pela personagem, fez para Diana, auxiliado pelos desenhos de J. G. Jones.

Este volume, tem, para o Acho que Acho, outro motivo de orgulho. Ajudamos a fazer a cronologia da personagem que foi incluída num caderno inédito nestas colecções. Houve quem achasse que a Diana merecia e ficamos felizes por contribuir.

Para além disso (e muito mais importante), João Miguel Lameiras do Blog Por Um Punhado de Imagens, faz uma deliciosa introdução ao livro

Sinopse
A Mulher-Maravilha aceita tomar sob sua protecção uma jovem humana, Danielle Wellys, de acordo com a Hiketeia, um antigo ritual consagrado pelos deuses, e terá de a proteger contra todos os que a perseguem, mesmo contra o Batman, que a quer prender por assassinato e, como sempre, não está disposto a deixar escapar a sua presa, mesmo que isso implique defrontar a sua amiga e companheira da Liga da Justiça.

Toca a comprar!

O que vou lendo! - As mulheres na Image - Velvet vol. 2, Lazarus vol. 3 e Ody-C vol. 1


A BD dos EUA é conhecida por ser a província do sexo masculino. Nunca percebi porque os criadores não se aventuravam mais. Seria medo do desconhecido? Não que não existissem mulheres como personagens, muito pelo contrário. Eram muitas e, geralmente, o interesse amoroso dos protagonistas. Existiam, sem dúvida, as super-heroínas mas, excepto por alguns exemplos, a sua presença (já para não falar de notoriedade) era a excepção e não a regra. Com o passar das décadas, a guerra foi sendo vencida batalha a batalha, criador a criador, até que, hoje em dia, não só vemos cada vez mais personagens femininas que não são estereótipos , como (dizem) que o número de leitoras está a aumentar e, finalmente, são em muito maior número os títulos por elas protagonizados. 

As editoras têm aderido a esta guerra e a Image, uma das mais interessantes e originais do panorama dos Comics, não é excepção. Falemos, por exemplo, destas três séries, todas de temáticas bem diferentes: Velvet centra-se no mundo da espionagem datada da década de 70; Lazarus lança-se num futuro pós-apocalíptico governado por famílias poderosas; Ody-C é uma reinterpretação da Odisseia de Homero, mas no espaço sideral e tendo como protagonistas apenas mulheres. Todas abraçam com naturalidade as protagonistas, sem agenda ou militantismo, apenas com a graciosidade da qualidade da história e do enredo.

Já falei neste blog das duas primeiras (vejam aqui e aqui) mas nunca é demais reiterar a qualidade de ambas. Os criadores envolvidos ficaram bastante conhecidos por trabalhos na Marvel e DC e decidiram-se pelo salto para a produção independente, escolhendo a Image. Os tiques e gostos que os haviam transformado como escolha natural para certos personagens nas duas grandes editoras são reaproveitados para a criação de personagens e histórias suas e adaptadas ao talento de todos. Brubaker e Epting já tinham conseguido uma simbiose na exploração do tema de espionagem no Capitão América. Com Velvet voltam a integrar o gosto do primeiro por estas narrativas e os desenhos do segundo, que não deixando de estar adaptado à atmosfera noir requerida, são também realistas o suficiente para não afastar os leitores pelo excesso de estética. Por seu lado, Lazarus de Rucka e Lark, tende para a prosa militarista e directa do primeiro, à qual se adapta o traço de Lark, realista, virtuoso, sem excessos e com fluidez narrativa. As histórias de ambas as séries continuam fortes, quer em termos de valor de entretenimento, quer de reflexão. Provas de que é possível  produzir nos EUA mais BD do que apenas super-heróis.

Finalmente, o OVNI que é Ody-C de Fraction, escritor, e Ward, desenhador. O último já tinha tido uma colaboração muito interessante em Infinite Vacation e com Matt Fraction, conhecido por uma prosa rebuscada e, por vezes, surreal, volta a enveredar pelo caminho do estranho. O estilo de Ody-C não é exactamente uma estética que me agrade, mas a reinterpretação que faz da Odisseia  acaba por ser um mote de entrada que é recompensador para quem conhece, mesmo que superficialmente, esse livro fundador. Ulisses (ou Odisseu) é um mulher, tal como os tripulantes, tal como os deuses do Olimpo. É um livro com o qual não me identifiquei particularmente mas que, acredito, apele ao gosto de muitos já que o trabalho dos dois criadores é diferente e apelativo. Acredito que deva ser lido.

O que vou lendo! - Lazarus vol. 1 e 2 de Greg Rucka e Michael Lark



A editora de BD Image continua a conseguir aliciar alguns dos maiores nomes da atualidade artística da 9.ª Arte para publicar sob a sua égide. Quem perdem são as grandes, DC Comics e Marvel, e quem ganham são os leitores e, acima de tudo, a Banda Desenhada. Dados rédea solta, estes criadores estão a poder fazer aquilo que sabem fazer melhor, escrever e desenhar as suas melhores histórias, colocar para fora tudo o que há ainda por dizer.

Greg Rucka e Michael Lark são dois artistas conhecidos por trabalhos não só nas grandes da BD americana como por alguns projetos paralelos pessoais. Trabalharam em personagens tão conhecidos como Mulher-Maravilha, Wolverine, Demolidor, Batman, etc., mas também em produções independentes como Queen & Country e Whiteout. Trabalharam juntos na lendária Gotham Central, série passada na cidade ficcional do Batman, colaboração que lhes conferiu o estatuto de culto, e regressaram com este LazarusGotham Central contava ainda com a imprescindível colaboração de Ed Brubaker, conhecido por trabalhos no Demolidor, Criminal e Fatale .

A arte de ambos estes artistas oferece-se a uma conjugação perfeita de ambiente e estilo, militarismo misturado com noir. Não é portanto de estranhar que algo desta veia seja aquilo que aparece em Lazarus, uma série passada num futuro distópico, onde famílias governam a paisagem norte-americana, tendo-a dividida por coutadas. São essas mesmas famílias aquelas que dispensam “benesses” pelo resto da população, que vive em diferentes estados de escravatura, diferenciados apenas pela proximidade ou não dos benfeitores. O cenário metafórico construído é simples, eficaz e óbvio e, nas mãos de outros criadores (como aliás sempre o digo) poderia ser algo perfeitamente esquecível. Contudo, as idiossincrasias de ambos, principalmente as da escrita de Rucka, imbuem a história de uma certa forma de verdade que a tornam não só profunda como relacionável. O relacionamento que temos é essencialmente feito através da heroína, Forever, uma espécie de polícia/soldado de uma das famílias, mas também mais do que isso. Não só é filha do patriarca, como também foi aprimorada física e psicologicamente de modo a melhor levar a cabo as suas missões. Contudo, e como não poderia deixar de ser, possui um código moral que, aparentemente, é bastante diferente do do seu progenitor e irmãos, o que a levará a uma inevitável rota de colisão – ou pelo menos assim se espera. Pode parecer comida requentada mas não é.


Não sendo uma das mais originais premissas a surgir em tempos recentes é, contudo, uma mistura de outras que, conjugadas pela imaginação de Rucka e Lark criam um todo único e singular. 

Mulher-Maravilha: O Mito


Primeiro: não é Super-Mulher. É Mulher-Maravilha! A sério! Aparentemente, um nome é tão bom ou tão mau quanto o outro, mas o original é Wonder Woman e, se o dicionário não me engana, Wonder traduz-se como Maravilha e não Super, OK? Mas como raios é que uma má tradução fica tanto tempo?
Segundo: Ainda estão interessados? Eu sei, eu sei. A Mulher-Maravilha não é muito estimulante (hum, má escolha de palavras) num universo literário geralmente direcionado para homens, não é testosterona aos saltos enquanto esmurra discricionariamente o vilão du jour (às vezes ela também o faz). É uma mulher, poderosa em mais sentidos do que um, algo mal visto numa arte que, já aqui falei numa coluna anterior, inclina-se a enquadrar o género num de dois prismas: femme fatale ou interesse romântico (este, muitas vezes, indefeso). Tenho perfeita consciência que não é bem assim e não o é (totalmente) há já muito tempo, mas ainda existem alguns exemplos sonantes. Adiante!
O nome é Diana de Themyscira, princesa nascida numa ilha inteiramente povoada por mulheres, as Amazonas da mitologia grega – curiosamente, a ilha tem o epíteto de Ilha Paraíso. Exiladas pelo deuses do panteão grego, depois de serem ludibriadas por servos do deus da guerra, Ares, a cometer crimes atrozes, viveram durante milénios sob a égide da paz e de uma missão, a de proteger o mundo de um mal inominável sepultado no submundo da ilha de Themyscira. Ares, contudo, com o decorrer dos milénios e o crescente domínio da guerra, desenvolve-se em poder e influência, obrigando à escolha de uma mensageira da paz a ser enviada ao mundo patriarcal (o nome dado pelas Amazonas ao nosso). Das suas fileiras e à revelia de uma mãe protetora, emerge Diana, a primeira e única criança a nascer na ilha de Themyscira, concebida imaculadamente através do barro moldado pela mãe nas praias da sua terra e soprado à vida com dádivas dos deuses - uma melhor concepção ao estilo de salvador-religioso é difícil. Diana vence um conjunto de provas e viaja para o nosso mundo, onde enfrenta os desígnios de Ares e, através mais da verdade e menos dos punhos, consegue prevalecer ao deus insano.
Vencida a prova, é escolhida pelos deuses e pelas Amazonas como embaixadora, não apenas da sua terra natal mas acima de tudo da paz, mensagem esta que prevalece sobre todas as demais tradições themyscirianas e que evoca os textos e filosofias da cultura grega, da qual a sua é uma evolução (e não somos todos nós, ocidentais, gregos?). Diana não é tanto uma super-heroína nos moldes mais tradicionais, mas antes uma mensageira de fraternidade, democracia e igualdade, alguém que escolhe a palavra e o diálogo ao invés do punho e da violência. E ainda se perguntam porque tem tão pouca fama no universo dos super-heróis.
Os leitores experimentados de BD reconhecem, nos dois parágrafos anteriores, não a Mulher-Maravilha mas antes uma das suas versões, a concebida por George Pérez, o desenhista/escritor a quem foi dada a missão de reintroduzir o personagem já nos idos de 1986. Esta é a versão pela qual conheci Diana e aquela que reconheço como a interpretação mais interessante do mito. Acontece que o personagem é já bastante mais antigo, tendo sido criada por William Moulton Marston em 1941 para a editora DC Comics. Marston é também conhecido por ser o criador do polígrafo e praticante de filosofias matrimoniais bastante liberais, mesmo para os dias de hoje.
O paralelismo entre a vida do autor e o personagem que criou é absolutamente delicioso. Passo a explicar e começo pelo segundo facto. Marston era “casado” e vivia com duas mulheres, com quem alegadamente praticava bondage. Muitas das primeiras histórias da Mulher-Maravilha continham várias cenas em que ela era sensualmente amarrada e tal era a frequência que, às tantas, o editor pediu para as minimizar. O primeiro facto, o de ter sido criador do polígrafo, é também bastante interessante. Muitos sabem que a única arma que Diana brande é um mero laço forjado por Hefaestus, um dos deuses do panteão grego, e esse mesmo laço tem uma característica muito particular: todos os a si amarrados são impelidos a dizer apenas a verdade (outra vez uma alusão ao bondage). Autores mais tardios racionalizaram que não era o laço que impelia as pessoas a dizer a verdade mas antes a própria Diana, que usava o instrumento apenas como um canal da sua influência. Inclusive, noutra evolução do personagem, John Byrne chegou a matar Diana e a ressuscitá-la como a Deusa da Verdade (ah, os fabulosos anos 90, onde todos os super-heróis morriam ou eram mortalmente aleijados).
Mas voltemos a Pérez! Nas mãos deste autor e durante cerca de 5 anos, Diana foi mais do que a Deusa da Verdade, não tanto beligerante mas antes pregadora, a voz de uma mulher belíssima mas inocente aos modos dos homens. Ainda que aparentasse ser o cordeiro abandonado aos lobos, este era um cordeiro com poderes doados pelos deuses e talentos forjados por uma personalidade pura e desinteressada, conseguindo preservar a sua missão, mesmo que exposta às contrariedades humanas. Conseguindo preservar a inspiração que criava no coração do Homem, quer fosse ele humano ou sobre-humano. A princesa Diana de Themyscira era realeza com o intuito de nos ensinar os valores da cultura grega e da paz. Dificilmente, neste mundo em que vivemos, a sua natureza, pureza e missão poderiam ser bem recebidos e interpretados. Dificilmente, num mundo de cínicos e numa arte principalmente lida e criada por e para homens, uma mulher bela, emocional e, ao mesmo tempo, racional, detentora da palavra e da força do diálogo, poderia ser recebida sem preconceitos. E, à semelhança do Super-Homem, acaba por não ser dos personagens de BD mais bem aceites. O que, a meu ver e caso ainda não tenham percebido, é mesmo muita pena.
Numa interpretação mais recente, do escritor Brian Azzarello e desenhista Cliff Chang, Diana é agora uma semideusa, filha de Zeus. Esta evolução foi bastante contestada por alguns leitores de BD mas, se virmos bem, estamos a falar de um dos mais conhecidos aspectos da mitologia grega. As indiscrições de Zeus para com Hera, a sua mulher, são bastante conhecidas, tendo originado outros semideuses como Héracles, Helena de Tróia ou Perseu, ou tendo envolvido casos bastante conhecidos, como o de Europa. Acho que esta é uma companhia que merece Diana.

Colecção DC Levoir/Público – 16.º Volume: Batwoman

(Prometo tentar informar aos menos conhecedores de BD acerca da acessibilidade desta coleção, ou seja se é fácil ou não ler sem saber muito mais coisas)

Grau de acessibilidade: Fácil


Sai amanhã, Quinta-feira, dia 24 de Outubro, junto com Público e custa 8,9€


Kathy Kane, o nome por detrás da máscara da Batwoman, iniciou a sua carreira na BD na década de 50, mas seria apenas a partir de 2006 que iria atingir qualquer tipo de relevância nesta arte. Após algumas aparições nas aventuras do seu congénere masculino, obviamente o Batman, acabaria por cair no relativo esquecimento, ao ser preterida por uma mais apelativa versão feminina do Cavaleiro das Trevas, a Batgirl. Os fãs (se existiam alguns) teriam de esperar quase 5 décadas para o regresso efetivo do personagem nas páginas da série “52” de 2006. Mas a Batwoman que apareceria seria bastante diferente daquele esforço kitsh do pós-guerra. 

A série “52” tinha como objetivo focar um ano na vida do Universo DC sem a presença dos seus três maiores heróis: Super-Homem; Batman; Mulher-Maravilha. Num esforço conjunto de 4 dos maiores escritores, a editora montou esta série semanal (52 semanas, 1 ano, perceberam?) que acabaria por ver o renascer da figura da Batwoman pelas muito competentes mãos de Greg Rucka, conhecido pelo seu estilo policial e por, em mais do que uma ocasião, ter deitado mãos e imaginação a algumas das mais interessantes figuras femininas do Universo DC (ele argumentou a Mulher-Maravilha antes de ingressar pelo “52”). A escolha foi acertada e o personagem nasceu com as devidas credenciais e com alguma relevância mediática, já que também estávamos a falar de um importante personagem assumidamente homossexual. Mas o ingresso pela diversidade não era apenas um mero chamariz mercantilista, antes era alicerçado na qualidade de um superlativo escritor que, da segunda vez que trabalha neste personagem, fez parceria com um dos mais importantes e virtuosos artistas/estilistas a trabalhar na BD americana: J.H. Williams. Este é o desenhista que começou humilde, mas cuja qualidade depressa o levou às alturas de um seminal trabalho junto com Alan Moore, o mesmo de Watchmen, trabalho esse chamado de Promethea. 

É exatamente a colaboração entre Rucka e Williams que é compilada neste volume da coleção da Levoir, constituindo uma das melhores histórias a ser incluídas nesta coleção. Verdadeiramente imperdível!
 

Nota – Não partilho da opinião que tem de se saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

As histórias da Mulher-Maravilha que mais gosto - artigo Maxim

Esta semana volto a um dos meus mais queridos personagens de BD, a princesa de Themyscira, Diana, a Mulher-Maravilha.

Olhem para esta cara laroca desenhada pelo mestre José Luis Garcia-Lopez e digam lá se não é um grande personagem?

Já agora, os volumes que sugiro do George Pérez podem considerar-se como um primeiro post de uma rubrica Ler sem Medo - Mulher-Maravilha, devendo ser lidos logo a seguir à sugestão do Ler sem medo - Universo DC.

Leiam o artigo aqui.