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Uma BD aqui, outra BD ali, 13


Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Dark Nights: Metal número 6 de Scott Snyder e Greg Cappullo (DC Comics)

Nos últimos tempos a DC ou ficou descarada ou desesperada. Abraçaram todas as idiossincrasias e contradições da sua linha editorial, desde o universo de super-heróis até à Vertigo (onde publicaram o Sandman), e  enveredaram pela junção de ambas num todo narrativo. Dark Nights: Metal de Snyder e Cappullo é isso, com uma carrada de divertimento metido pelo meio. É grande, é barulhento, é garrido, é, como dizem os autores, um concerto rock à antiga com o som puxado à séria para cima.

DN:M é descaradamente e sem remorsos uma história de pura pornografia super-heroística DC. A narrativa pode ser desfrutada por todos mas integralmente percebida apenas por alguns "iluminados", geeks como eu, que conhecem cada minúcia da História, histórias, cosmologia e cosmogonia da editora. É uma salada russa com multiversos, versões alternativas de super-heróis, um Mal Maior Que Qq Coisa Já Vista, heroísmo  à antiga, sem concessões ou ambivalências, em suma, uma história de super-heróis como elas merecem ser.

DN:M chegou ao final com este número seis e agora posso dizer, sem reservas, que é um daqueles raros eventos de super-heróis que merecem o hype. Prometeu ser um terramoto para o multiverso da DC e assim o foi. Saímos da última página com os olhos abertos para uma imensidão de oportunidades e terreno por desbravar. Como escreve Snyder: o actual multiverso DC é um aquário despejado num Oceano. E agora vamos explorar essa imensidão. Mas desenganem-se se pensam que DN:M é apenas um monte de enredos sem coração. Esse fica a cargo, primeiro, da minha Diana, a Mulher-Maravilha, que tem um dos grandes momentos do seu historial, e depois, claro, do Batman, o catalisador narrativo de Metal. Ambos têm momentos inesquecíveis e clássicos instantâneos. 

Nas últimas páginas somos presenteados com uma promessa e um elogio. A promessa é a do oceano à espera dos nossos heróis. O elogio é à antiga DC, aquela dos super-amigos, dos sorrisos e do companheirismo entre heróis. DN:M começou com as notas da música celestial e acaba com os acordes de uma canção clássica rock 'n' roll. Vamos ouvir e dançar todos juntos.

Rapidinhas de BD - Robôs também irão ser humanos: Vision e Battle Angel Alita: The Last Order vol. 1


(NOTA de blogger - Antes de mais nada, calma. Os puristas que se acalmem que eu sei que o Visão dos Vingadores da Marvel é um sintozóide e a Alita/Gally de Yukito Kishiro é uma ciborgue)

O que é ser humano? Esta pergunta parece fácil de responder. Para todos nós bastaria olhar para o espelho. Mas será suficiente? A Religião, a Filosofia, a Ciência e a Literatura todos os dias tentam responder. Elaborar e complexificar a resposta, a solução, a verdade. Mas ao virar da esquina está o advento da inteligência artificial (IA). O que acontecerá a partir daí? A resposta será assim tão menos complicada? Bastará continuar a olhar apenas para o espelho? Ou, seguindo a via cartesiana, bastará pensar para existir?

A Literatura primeiro e o Cinema depois têm sido profícuas em narrativas acerca de IA. Nomes como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Stanislaw Lem, Philip K. Dick, Stanley Kubrick, Ridley Scott, Alex Garland, Denis Villeneuve, etc, têm explorado de forma inventiva e filosófica as implicações do aparecimento do pensamento robótico. Como não poderia deixar de ser, a Banda Desenhada tem seguido um caminho similar, que oscila entre o existencial e o entretenimento ou, ainda, uma mistura dos dois. Eis então que surgem estes dois exemplares: Vision de Tom King Gabriel Hernandez Walta e Battle Angel Alita: The Last Order Omnibus vol. 1 de Yukito Kishiro

Visão é um sintozóide criado na década de 60 por Roy Thomas e John Buscema, sendo, a início, antagonista dos Vingadores, que acaba por transformar-se, logo na primeira história, num dos seus mais relevantes membros. Muitas das narrativas à sua volta tinham a ver com a óbvia dualidade de ser uma forma de vida artificial com pensamentos (e sentimentos) muito humanos. Nesse balançar, vários autores encontraram ouro para minar, resultando em variadíssimas histórias, dentre as quais uma delas resultava no casamento da personagem com a Feiticeira Escarlate, humana. Tom King vai mais longe e planta na alma cibernética do Visão a necessidade de ter uma vida ao estilo Norman Rockwell. Para isso cria uma família (já divorciado da Feiticeira - não vou elaborar porquê). O que segue é, nas mãos inspiradas de King, uma reflexão existencialista do que significa "ser um humano". O escritor recorre não tanto a solilóquios verborreicos (leia-se, a personagem falar pelos cotovelos de forma teatral), mas antes a pequenas acções, que somadas revelam a verdadeira alma das personagens. No início do quarto capítulo, por exemplo, possui um dos momentos mais belos da BD moderna, com uma subtil e arquitectada ligação entre uma conhecida cena da cultura popular, a revelação de personalidade das personagens e um comentário à pergunta maior desta obra. O final segue de forma brilhante os trâmites da tragédia clássica, escolhendo antes a inteligência e a emotividade do leitor para que ele descortine o climáx da história. Visão é uma das mais cativantes leituras dos últimos anos e um dos melhores livros que li na vida. Quase que afirmo que temos aqui os Watchmen da Marvel (em breve será editado em Portugal pela Goody).

Battle Angel Alita: The Last Order é a continuação da primeira "temporada" desta conhecida Mangá, marco da BD e do ciberpunk (já falei neste link da primeira temporada). Neste ano da adaptação para o Cinema nas mãos de James Cameron e Robert Rodriguez, decidi revisitar a leitura desta obra, que tinha iniciado na década de 90. The Last Order retoma onde a anterior história havia acabado e expande o universo e o alcance da mensagem de Gunnm (o nome original japonês da obra). Yukito Kishiro prova que, mesmo passados 20 anos, o mundo actual está ainda a apanhar a sua visão distópica e reflectida do mundo tecnológico que continua a ser construído. Os seus conceitos são tão poderosos que muitas obras ainda minam a inspiração que suscita (a recente série Carbono Alterado da Netflix parece dever também muito a Gunnm). No meio de vertiginosa e (muito) violenta acção, o autor japonês reflecte, uma vez mais, sobre o que significa essa coisa de ser um homem. Será o corpo ou a mente que nos torna mais reais? Será a combinação dos dois? Serão as nossas memórias? O verdadeiramente interessante é a assustadora previsão do que o futuro poderá ser, se não controlarmos o fascínio que temos pela tecnologia. No Japão, que está décadas à frente (para o bem e para o mal) em relação à prática destas questões, Gunnm tem a virtude da auto-análise. Para os restantes, é um conto que alerta para os dilemas que se avizinham.

As BD Vision e Battle Angel Alita, usando personagens robóticas, reflectem sobre a questão "o que é ser um humano?". Dificilmente irão encontrar melhor resposta a essa pergunta e, ainda por cima, em obras que escolhem focar-se na vida artificial (será assim tão artificial?).

Imperatriz vol. 1 de Mark Millar e Stuart Immonen (GFloy)

(a partir de 28 de Fevereiro nas bancas) 

A editora portuguesa GFloy adquiriu recentemente os direitos de publicação da Millarworld. Esta é a marca do escritor Mark Millar, escocês responsável por alguns blockbusters dos comics das duas últimas décadas, quer através da Marvel, quer da DC, quer desta incursão independente. Mas desenganem-se se acham que Millar entrou no mundo da publicação para perder. Muitas das suas BDs têm sido êxitos da 9.ª Arte mas também da 7.ª, com adaptações cinematográficas de sucesso garantido: Kick-Ass e Kingsmen. Consumado vendedor e encantador de serpentes, Millar tem conseguido convencer alguns dos maiores talentos artísticos dos comics para entrar em co-autoria de obras publicadas através da Millarworld. Estas são produções conjuntas, de esforço e recompensa partilhada. Para este Imperatriz escolheu Stuart Immonen, cinético desenhista que já trabalhou no Homem-Aranha, nos X-Men e no Super-Homem. Immonen possui uma composição e desenhos cativantes e atractivos, capazes de prender a atenção da mente mais distraída.

A história passa-se no passado distante do nosso planeta, há 65 milhões de anos, quando os nossos antecessores governavam as paisagens do planeta que viria a ser a nossa casa.  Envolve a fuga de uma rainha das mãos psicopatas de um governante ditatorial, o seu marido. Uma fuga que a levará, aos seus filhos e amigos aos quatro cantos do universo em busca de refúgio em civilizações alienígenas coloridas e multifacetadas.

Imperatriz é a definição de blockbuster. A velocidade é vertiginosa. Millar e Immonen não deixam o leitor respirar, obrigando ao frenético voltar de página, ao desespero de saber o que virá a seguir. O artista tem espaço para brilhar, ao inventar inúmeras paisagens extraterrestres, seres alienígenas, acção incontida. O escritor é parcimonioso nas palavras, estilo pelo qual é conhecido, o que contribui para a velocidade da leitura mas também da obra em si. Millar é um verdadeiro parceiro do desenhador, permitindo-o brilhar com a sua estética e design, sem limites e com o mínimo de intromissão. Digamos que é o anti-Alan Moore. As suas histórias são big concepts de diversão desregrada e (quase) acerebral. Diversão e entretenimento puros que prendem e relaxam. 

Acabamos Imperatriz com a sensação de ter visto um filme de alto orçamento. Entretidos desde a primeira à última página. E temos de agradecer à GFloy o prazer que nos dá ao imprimir as suas obras em formato maior que comic. Uns vêem televisão. Com estas edições vamos ao Cinema.

Uma BD aqui, outra BD ali, 7

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

The Old Guard números 1 a 5 de Greg Rucka e Leandro Fernández (Image)

As fantasias de muitos nós (eu, inclusive) passam por ser imortal. Superar os poucos anos que vivemos, ser eternamente jovens e experimentar todas as cambiantes da vida. Essa fantasia é de tal forma poderosa que inventamos ficções e religiões que perpetuam-na e embelezam-na. É desse pressuposto que Greg Rucka Leandro Fernández partem.

Somos apresentados a quatro humanos que não morrem. Alguns com milénios de existência, outros com apenas algumas centenas de anos. Uma mulher, a mais velha, dois amantes e um francês, o mais novo. No outro lado do mundo, uma nova imortal está prestes a nascer. E enquanto isso, os poderosos e ricos desejam saber o segredo da sua vida quase infinita. Quase, porque na realidade não são imortais. Morrem. Apenas muito depois de nós. Nesses dias aparentemente infindos, ocupam o tempo a amar, a comer e em missões paramilitares de objectivos diversos. São máquinas de guerra e de morte, com mais conhecimento esquecido do que alguns exércitos inteiros conseguirão aprender numa vida.

Rucka equilibra de forma magistral o entretenimento com o peso da imortalidade. O que poderia parecer um mero exercício de fantasia adolescente transforma-se numa reflexão filosófica do que significa ter muitos ou poucos anos à disposição. Ser imortal, aos olhos de quem vive há sete milénios, não é sentido como uma bênção. Rucka pensou bastante sobre isso. As frases e as personalidades de todos não são apenas esboços. Antes seres humanos bem desenhados. Leandro Fernández é um artista que acompanho desde os tempos do seu trabalho no Hellblazer e em Loveless, ambos com Brian Azzarello, e a sua proximidade estética a Eduardo Risso é sempre bem vinda.

Uma das melhores BDs deste ainda jovem ano de 2018.

Hal Jordan and The Green Lantern Corps número 36 de Robert Venditti e Jack Herbert (DC Comics)

Existem autores que transformam de tal forma as personagens que passam também a ser suas. O Demolidor não foi criado por Frank Miller, mas este alterou-o tanto que o Homem Sem Medo passou a ser mais seu do que dos autores originais. O mesmo aconteceu com os X-Men e Chris Claremont (e John Byrne). E com o Lanterna Verde e Geoff Johns. Este escritor agarrou em todo o passado da personagem e em todos os autores que nele trabalharam e deu vida a um conceito moribundo do universo DC. Teve mesmo o "privilégio" de ser-lhe dada a hipótese de escrever um epílogo onde a sua história era levada até aos dias finais do Lanterna, como se ele fosse seu. Mas estas personagens nunca são propriedade dos que mais contribuem para a sua vitalidade (como Alan Moore bem o sabe - e ele até contribuiu com algumas ideias que Johns aproveitou).

Robert Venditti teve a pouco invejável tarefa de seguir Johns. Confesso que fui dos que abandonou a revista mensal logo após o último número deste. Mas voltei com o DC Rebirth, pela sugestão involuntária de um amigo. Hal Jordan & The Green Lantern Corps de Venditti é francamente entretido, empolgante e cósmico. O escritor controla, e bem, as vozes de todas as personagens, consegue engendrar twists e abordagens diferentes ao universo dos Lanternas. Não se esforça por ter a reinvenção delirante de Johns mas faz uso do legado para construir uma montanha russa de pura diversão de super-heróis cósmicos. Este último número fecha um arco de história e no próximo o escritor traz o General Zod (o inimigo do Super-Homem no filme Homem de Aço) para confrontar Hal Jordan e os Polícias do Universo. Para descontrair a (minha) cabeça não está nada mau.

Damage número 1 de Robert Venditti e Tony Daniel (DC Comics)


A DC tem uma nova iniciativa chamada The New Age of Heroes. Liderada por Dan Didio e Jim Lee, editores-chefe da editora, tem dois objectivos principais: devolver algum "poder narrativo" aos desenhistas; criar novos conceitos (franquias, vamos lá ser sinceros) para a DC. Damage é o primeiro.

A personagem é basicamente uma versão do Hulk e este primeiro número é pouco mais que o protagonista em modo destruição pela paisagem dos EUA. Julgar uma série inteira por estas escassas páginas é injusto mas, também a julgar por elas, a vontade de regressar a este mundo é francamente pouca. Sou da escola que uma boa história eleva um livro de BD, enquanto que desenhos maravilhosos têm muita dificuldade em fazer o mesmo. Por melhor e mais tecnicamente perfeitos que sejam, se o conteúdo, o enredo, as personagens, a mensagem, o subtexto, o entretenimento, não forem bem contados tudo pode cair por terra. Existem excepções mas Damage não é uma delas. 

Livro bonito de folhear mas, pela amostra, estamos em risco de  ter em mãos uma BD ao estilo da Image, quando nasceu na década de 90. Bonita (para quem gosta). Lê-se em dois minutos. No que a mim diz respeito preciso de mais. 

Uma BD aqui, outra BD ali, 6

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Extremity números 1 a 10 de Daniel Warren Johnson (Skybound e Image)


Já o ouvi várias vezes. Escrevam sobre aquilo que conhecem. Acredito nesta máxima. As palavras e os conceitos tendem a fluir mais facilmente quando falamos das nossas vidas, ou melhor, das nossas perspectivas. Mas não é, decididamente, apenas isso. Para o leitor, espectador ou ouvinte, a mensagem tende a tornar-se mais verdadeira, mais, paradoxalmente, universal. Apercebemos-nos, racional e emocionalmente, da honestidade das palavras, das imagens ou dos sons. É difícil de quantificar. Fácil de sentir. Este é o maior elogio que posso escrever sobre este Extremity de Daniel Warren Johnson, publicado em conjunto pela Skybound e pela Image.

Esta BD figurou em algumas das listas das melhores de 2017 e a minha curiosidade foi atiçada. Li os dez primeiros capítulos e fui imediatamente agarrado pela premissa e, principalmente, pela honestidade emocional com que o criador veicula esta estranha aventura num mundo alienígena. Sim, ele nunca viveu num mundo extra-terrestre e muito menos no que parece ser um futuro pós-apocalíptico. Mas o worldbuilding é sólido e as personagens baseadas na experiência pessoal do autor. As vozes delas são a sua voz. As palavras lêem-se com sentimento de veracidade, ainda que estejamos a dimensões de distância da nossa realidade.

Extremity passa-se num mundo de ilhas flutuantes, após uma catástrofe, onde várias tribos humanas degladiam-se pela sobrevivência e pela vingança. Uma mistura de Senhor dos Anéis e de Avatar. Incrivelmente dinâmico e cinético, com cenas de acção poderosas, bem-coreografadas, rápidas e muito violentas. Mas desenganem-se os que lêem "violência" e inflectem logo para gratuitidade. Existe ressonância emotiva em cada golpe dado e em cada gota de sangue derramada. E as mensagem e os momentos de paz são os que ajudam a sublinhar a violência extrema que lhes segue ou antecede.

Uma das grandes BDs em publicação na actualidade. Emoção em ecrã gigante.

The Wildstorm números oito a dez de Warren Ellis e Jon Davis-Hunt (Wildstorm e DC Comics)


Uma das razões porque sou um apaixonado (mas não um fanático) pela editora DC Comics são as histórias e séries publicadas mais ou menos entre meados da década de 80 e meados da primeira do século XX. Vinte anos de risco que deram algumas das mais emblemáticas BDs da minha vida, fora e dentro do mundo dos super-heróis. Foi com pesar que assisti à lenta queda da qualidade e inclinação adulta da editora (coincidente com a entrada do editor-chefe Dan Didio). Mas é com igual alegria que, recentemente, tenho recuperado a fé que tinha na maturidade das escolhas da DC. Começou com vendas fracas e com a reacção a elas: DC Rebirth - o electrochoque dado à ala dos super-heróis; experimentações como Young Animal; as personagens da Hanna Barbera; o ressurgimento da linha Elseworlds; e este Wildstorm.

Wildstorm pertencia ao autor Jim Lee, um dos fundadores da Image no início da década de 90, e era uma das subdivisões dessa mítica editora. Anos mais tarde, separar-se-ia da casa-mãe e acabaria por ser adquirida pela DC Comics. Há semelhança de outras aquisições, as personagens de vertente super-heroística seriam absorvidas pelo universo do Super-Homem e afins, passando a viver aventuras conjuntas (o evento Novos 52 de 2011, onde a editora começava tudo do zero, serviu para juntar os mundos da DC e da Wildstorm). Eis que se passam meros sete anos e Jim Lee decide voltar a isolar o seu universo e entrega as rédeas criativas ao escritor Warren Ellis, autor de alguns dos maiores sucessos da Wildstorm antes da junção com a DC: Authority; Planetary; para citar dois favoritos pessoais e obras de reconhecida importância sísmica.

Ellis decidiu recomeçar zero e contar um épico em 24 partes. As personagens são reconhecíveis para quem leu algo da antiga Wildstorm, mas é apenas isso: familiaridade. De resto, nada têm a ver. Como o zeitgeist deste meio da década de 10 do século XXI é outro, o escritor inflecte a escrita para uma sensibilidade ultra-tecnológica, sem perder a sua assinatura super-sónica, focando-se em personalidades duras, ultra-competentes e perigosamente sarcásticas. O mundo deste The Wildstorm é um mundo Ellisiano, de conspirações, de pouca fé na natureza humana e de risco constante à escala multiuniversal. A violência, à semelhança de Extremity é, desculpem o trocadilho manhoso, extrema, coreografada e assustadoramente bela. Arrisquem-se a ler mas façam-no de uma assentada. Porque esta é do tipo de séries cuja complexidade apela a uma leitura atenta e focada. Finalmente, não é todo de descurar o trabalho do desenhista Jon Davis-Hunt, uma surpresa em capacidade de desenho e do contar de uma história. A coreografia não seria a mesma.