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Libertem o Geek! - As Crises Infinitas!


(para o Gonçalo e o Vasco, que percebem o porquê deste post)

Um amigo que, como eu, é fã do universo de super-heróis da DC Comics disse-me uma vez e parafraseio: "parecem estar a repetir sempre as mesmas histórias, mas a gente gosta!".  Achei lindo, naquela forma que apenas os fãs podem achar lindo. Aqueles que adoram certas coisas de forma irrepreensível. Não falo de saber todo e qualquer pormenor do multiverso da DC (se sabem o que é o multiverso da DC parece-me, contudo, que estão no bom caminho). Não falo de coleccionar todas as revistas, de possuir saber enciclopédico sobre os heróis, os vilões e a geografia - ainda que possa ajudar. Falo, como sempre quando refiro estas paixões, de gosto e de amor. De estarem a borrifar-se para quem não aprecia, de ficarem entusiasmados de forma infantil, juvenil, imatura (como quiserem), com um desenvolvimento de uma história, com o aparecimento inesperado de um personagem que amávamos e estava fora de cena há muito tempo. Mas também é ficar irritado quando algo que se adora já não tem o mesmo lustro, está chato e aborrecido. Pode também ser esperar ansiosamente pela estreia do Batman v Superman, mal conseguir aguentar a estreia da Wonder Woman em 2017 e ficar entusiasmado com a sequela do Man of Steel do Zack Snyder.

Recentemente, essa nossa editora favorita decidiu renascer. Chamou-lhe, de forma pouco imaginativa (ou será pós-moderna?), Rebirth e, numa revista escrita pelo grande Geoff Johns e chamada de DC Rebirth, devolveu aos fãs (ou começou a devolver) o universo de que tinham saudades. Já existiam pistas no Multiversity de Grant Morrison e na Justice League: Darkseid War também de Johns, mas é neste Rebirth que a editora assume o "erro". Erro porque esta história de Johns é um pedido de desculpa pelos mais recentes anos da DC mas também algo mais meta-textual: uma reflexão sobre o mundo dos super-heróis dos EUA pós-Watchmen, a seminal obra de Alan Moore e Dave Gibbons.  Mas não é sobre isto que vos queria falar.

Desde 1986 que a editora repete a mesma história de forma cíclica e gere as expectativas dos seus leitores de maneira quase cruel. Nesse ano fundiu o seu multiverso num único mundo na conclusão da Crise nas Terras Infinitas e este evento parece, desde então, reger todos os outros. O que, a nosso ver (sim, o dos fãs), é lindo e pode acontecer quantas vezes a editora quiser. Foi a Crise Infinita, a Infinita Crise, a Crise Final, o Hipertempo, o 52, a Multiversidade, agora o Renascimento. Iterações do mesmo conceito, teases de quem sabe que basta vestir uma lingerie comprada na loja dos trezentos para nos fazer salivar litradas.  Mas no meio de tanto entretenimento pop existe também algo mais profundo - pelo menos para nós. Uma hiper-história que começou em 1938 com a publicação do Super-Homem, que foi evoluindo num misto de atabalhoado, orgânico e ...vejam lá bem... pensado. Que continua a crescer e a acrescentar camadas cada vez mais ricas,  ao ponto de parecer estar criado um universo (um multiverso) que ...nós temos a certeza... vive lá fora algures, separado pela vibração da imaginação. É world-building mas também é uma filosofia. Quem olhar para a estrutura do multiverso da DC criada por Grant Morrison vê uma Mandala e vê um Belo. Não seria fantasticamente terrível que existisse, perdidos nas infinitas e prováveis realidades, um Darkseid, uma Source Wall e uma Speed Force? Mas divago!

A DC repete, para nosso bel-prazer, a História do Multiverso e, em cada nova variação, se estávamos perdidos voltamos a ela e, se nunca a abandonámos, somos justificados. Por isso, quando neste Rebirth vejo plantadas as sementes do regresso de algo que adoramos só posso escrever algo tão inútil quanto este post.  

"Parece estar a repetir sempre as mesmas histórias, mas a gente gosta!" - disse o tal meu amigo. Sim, é lindo e nós adoramos!

BD é um cobertor velho e aconchegante parte 2.

A DC Comics desenhada por George Pérez.

Batman vs Joker.


Batman, Asa Nocturna e Robin.


Batman e Mulher-Maravilha.


Batman e inimigos.


Mulher-Maravilha pré-Crise nas Terras Infinitas. 


Liga da Justiça da década de 70.


Crise nas Terras Infinitas.


BD é nostalgia e progresso.

"You see, I like to remember the past because those were better times than now. I mean, I'd rather live in the past than today, wouldn't you? These days... y-you just never know who's going to die... and who's going to live." - palavras do Pirata Psíquico no final de Crise nas Terras Infinitas, número 12, escritas por Marv Wolfman.

Imagens de Les Mondes D'Aldebaran de Leo.









Convergence, a terceira semana.


Aviso à navegação: este post não é para os que tem apenas atracção pela Banda Desenhada de super-heróis. Não há nada de mau em serem turistas, mas os que habitam há muitos anos estes mundos sabem que navegar no multiverso da DC Comics é só para os munidos dos melhores mapas, da melhor das memórias, do maior dos amores. Repito: não há nada de mal em serem observadores casuais mas ler Convergence e acompanhar as minisséries auxiliares não é para os que têm apenas um conhecimento geral dos personagens e eventos. Não basta olhar para as páginas e dizer: "Olha, aquele é o Super-Homem!". Não! Terão também de saber que versão, de que Terra, de que época, de que evento. E se não percebem o que acabo de dizer então estão em maus lençóis.  Convergence  é para os fãs hardcore. É assim e não é de outra maneira.

Dito isto, bem-vindos à terceira semana de Convergence, uma das mais aguardadas por muitos fãs. A semana onde regressam as versões dos personagens da DC que antecederam a mais importante de todas as sagas, Crise nas Terras Infinitas. As versões que marcaram algumas das gerações mais velhas, a versão que certos fãs guardam no coração com saudade e nostalgia. Os leitores mais assíduos deste Blog sabem que esta não é a "minha versão". Apesar de ter tido contacto com ela, não tinha acesso a número suficiente de BD's para ela me ter tocado particularmente. Contudo, fascinava-me. Mesmerizava-me. Já era o meu universo favorito de super-heróis antes de o ser.

As minisséries auxiliares continuam a ser a grande atracção deste evento. As desta semana não desapontam (tanto). As minhas favoritas foram as que se focaram no Hawkman, Mulher-Maravilha e Supergirl. Os dois primeiros são dos meus personagens favoritos da editora mas não foi apenas isso que me atraiu nas respectivas histórias. A equipa criativa esforçou-se por espremer um pouco mais deste evento, entrando na premissa geral sem esquecer o desenvolvimento  das personalidades e de um comentário mais profundo acerca deste estranho mundo de cidades engarrafadas. Larry Hama escreve sobre o mundo da Mulher-Maravilha de forma convincente e adulta (ou, pelo menos, tanto quanto lhe é permitido). Jeff Parker envereda por outra estrada, ao recuperar uma muito antiga saga de Hawkman, Shadow War, mas de forma não insular. Acompanhado pelos maravilhosos desenhos de Tim Truman (que regressa ao personagem que ajudou a crescer) e Enrique Alcanena temos um dos melhores números deste Convergence. Finalmente, Marv Wolfman entrega-nos uma Supergirl cheia de nostalgia e doçura.

Infelizmente, existem duas decepções que não mereciam sê-lo: os regressos de Marv Wolfman aos New Teen Titans e de Len Wein a Swamp Thing. Ambos são os criadores dos dois livros mas desapontam. Não só pouco ou nada surpreendem (pela qualidade e não pela inovação, que eu não esperava), como mesmo com a ajuda de dois desenhistas muito interessantes, Nicolla Scott e Kelley Jones, respectivamente, não se esforçam para entregar aos leitores algo acima do banal. Sabe a oportunidade perdida. Deveriam ser excepcionais e, infelizmente, contentaram-se com o trivial.

As restantes minisséries estão no meio-termo, não se destacando pela qualidade mas entregando momentos de diversão e saudade que, de uma forma geral, não desapontam. Destaco Batman & The Outsiders que, à semelhança da Mulher-Maravilha de Larry Hama, vai um pouco além e esforça-se por pequenos apontamentos de maturidade.

A série principal avança a passos lentos e, continuo a dizê-lo, não particularmente interessantes. O vilão é generalista. A premissa pouco entusiasmante. Os heróis, apesar de virem de uma série, Earth 2, que durante segundos gostei bastante, não são desenvolvidos de forma arrebatadora. Por exemplo (pequeníssimo spoiler), o destino final de um dos mais interessantes heróis desta série é revelado, mas de forma tão anti-climática e desprovida de catarse que sabe a fraude. A BD de super-heróis tem destas coisas. Na pressa de chegar à nova versão de um personagem, abalroam as anteriores de forma desencantada e despachada.  Já era tempo de aprenderem. Em suma, uma série que basicamente acompanha-se porque tem que se saber qual o próximo grande desenvolvimento do universo DC. A editora não precisava poupar uns trocos na equipa criativa para fazer isto.

Multiversity # 5 - Thunderworld por Grant Morrison e Cameron Stewart

Leiam sobre os números anteriores aqui.

O Capitão Marvel - também conhecido por Shazam - foi criado na década de 40 e depressa tornou-se no mais popular super-herói dessa época, eclipsando mesmo o Super-Homem. Muito desse sucesso dever-se-á à essência do personagem, que representava uma fantasia infanto-juvenil ainda mais conseguida que a do primeiro dos super-heróis. Billy Batson, um miúdo órfão de tenra idade, ao proferir o nome do mítico feiticeiro Shazam, transformava-se no apolónico e adulto Capitão Marvel, capaz de voar, munido de invulnerabilidade e força extraordinária. Em suma, um rapaz podia transformar-se no Super-Homem. Além disso, as aventuras deste herói eram imaginativas e munidas de candura e inocência nostálgicas que apelavam aos leitores para lá da simples fantasia de poder. 

A DC Comics, dona do Super-Homem, já na década de 40, vê-se "obrigada" a colocar um processo em tribunal contra o Capitão Marvel e a sua editora, alegando que este personagem era bastante similar ao seu Homem de Aço. Após alguns anos de contenda judicial, a DC acaba por vencer a Fawcett e os personagens do universo de Shazam são integrados no cada vez maior multiverso de super-heróis da gigante de BD estadu-unidense. As aventuras do alter-ego de Billy Batson irão continuar de uma forma ou de outra, quer em revistas próprias, quer como membro de equipas como a Liga da Justiça, quer ainda como convidado de outros personagens. 

Quando Grant Morrison é incumbido de reavivar o multiverso da DC para este nosso século XXI, não poderia deixar escapar à sua atenção o universo da editora Fawcett, que havia desaparecido junto com tantos outros na famosa Crise nas Terras Infinitas e se fundido ao mundo ficcional regular da editora. Este Thunderworld é um seguimento apropriado ao anterior número desta série Multiversity. Enquanto Pax Americana era um homenagem e uma reflexão acerca da BD Watchmen, que tanto alterou e amadureceu a 9.ª Arte nos EUA, esta é uma viagem nostálgica a uma época e universos mais inocentes. O Capitão Marvel e a sua equipe vivem num mundo onde não acontecem mortes violentas, onde os vilões são terrivelmente perigosos mas, no final da história, inconsequentes. É um mundo onde os super-heróis não são poços de problemas existenciais e sorumbáticos, mas têm antes a certeza que o Bem vencerá sempre . Será por isso que neste Thunderworld os heróis tem sempre um sorriso na cara quando avançam para a acção?  E é exactamente neste sorriso que reside a essência do que Morrison capta neste mais recente numero de Multiversity.  Esta é uma história de bravura, onde o Bem vence sempre o Mal de forma simples e sem consequências, onde, apesar de todos os esforços do herói, a namorada não morre de forma trágica às mãos do vilão. O mundo de Thunderworld é uma aventura de super-heróis para todas as crianças, dos 8 aos 80. 

Como já tem sido hábito em Multiversity, o desenhista é escolhido a dedo. Cameron Stewart, com um estilo cartoonesco e de linha clara, adapta-se perfeitamente ao universo de desenho animado de Thunderworld, acompanhado a narrativa (desta vez) linear de Morrison. 

Volto a dizê-lo, esta série vai se transformar, com o passar dos anos, num dos grande clássicos da Arte. 

Multiversity # 1 por Grant Morrison e Ivan Reis

Uma das BD pela qual mais aguardava chegou finalmente às minhas mãos. Em posts anteriores já escrevi sobre o eterno namoro entre mim e aquela que foi a minha editora favorita de BD durante duas décadas e meia, a DC Comics, casa do Super-Homem. Contei como, infelizmente, nos zangámos e como deixou de publicar a minha literatura de super-heróis favorita. E revelei que tem voltado a seduzir-me e que tem conseguido trazer-me de volta. Entre as várias armas de sedução maciça existia a promessa desta BD, Multiversity, projeto há muito anunciado e nunca concretizado, da autoria de Grant Morrison, para mim um dos melhores escritores de BD de super-heróis da atualidade, responsável por uma fantástica sequência de histórias da Justice League of America (JLA) nos finais da década de 90, princípios do século XXI.

Este Multiversity é, ao mesmo tempo, um regresso e uma antevisão do futuro. Comecemos pelo regresso. Aqui reencontramos o mesmo ambiente apocalíptico multiuniversal que foi iniciado pela DC Comics no longínquo ano de 1986, quando publicou a lendária Crise nas Terras Infinitas (lançada recentemente pela Levoir). Morrison regressa ao discurso poético e grandiloquente que “criou” na JLA, as meias-palavras, os discursos entrecortados, a linguagem meta-textual maior que a vida, cada verbo, sujeito e adjectivo a janela para um holocausto de proporções cosmogónicas. O palco desta nova crise é a tapeçaria multiuniversal dos 52 universos que compõe o mapa universal da nova DC Comics. A ameaça ao tecido multi-real é gigante, leviatã, um monstro por enquanto apenas composto por ameaças veladas e enigmáticas, ou seja, o melhor tipo de terror.

Morrison propõe-se, ao logo de oito livros que serão desenhados por múltiplos artistas, explorar esta tapeçaria multiuniversal, percorrendo os diferentes mundos que a compõem. Neste primeiro capítulo explana os principais atores do drama infinito e eterno, atores que compõem um multicolorido quadro que apela ao mais básico sentido de maravilhamento da criança, adulto e velho que existe dentro de nós. São eles: o Presidente Super-Homem dos EUA da Terra-23; um coelho dotado de superpoderes, apropriadamente apelidado de Captain Carrot; os heróis da Terra-8, muito similares aos da Marvel; Dino-Cop, uma homenagem a Savage Dragon de Erik Larsen; etc. E estamos apenas no início. Desejo que o futuro da BD continue a enveredar pelo caminho do elogio ao passado com roupagens e formas capazes de inspirar inovação e não apenas repetição.

Particularmente delicioso é um "truque" que Morrison utiliza para que os diferentes personagens estejam informados acerca dos congéneres das várias Terras paralelas, bem como da ameaça que paira sobre todos. Cada personagem sabe da existência do outro por via de bandas desenhadas que são publicadas no respectivo mundo. Nas filosóficas palavras de Captain Carrot: "Sempre suspeitei que a realidade de um mundo é a ficção de um outro". Aliás, esta ferramenta vai buscá-la às década de 50 e 60, quando o Flash da Terra-1 é inspirado por uma BD do Flash da Terra 2 publicada no seu mundo (mais tarde conheceria o seu herói em carne e osso).  Acrescentado uma outra camada nesta vertigem meta-textual, o próprio leitor é chamado a participar na história de Multiversity, já que o escritor fala directamente connosco, numa jogada similar a um outro trabalho do autor, Animal Man. 

Esta BD está perto da perfeição para o meu gosto. Não digo que é perfeita porque ainda não li os restantes sete capítulos e mal posso esperar para que isso aconteça. Obrigado, DC, Morrison, Reis, por me fazerem continuar a gostar de vocês.

Colecção DC Levoir/Sol – 1.º Volume: Super-Homem


(Prometo tentar informar aos menos conhecedores de BD acerca da acessibilidade desta coleção, ou seja se é fácil ou não ler sem saber muito mais coisas)
Grau de acessibilidade: Fácil

Sai hoje, Sexta-feira, dia 29 de Novembro, junto com jornal SOL e custa 8,9€

A continuação da impressionante coleção da Levoir não poderia acontecer de melhor forma, com a edição em português de Portugal deste enorme marco na BD americana, a minissérie Man of Steel da autoria do escritor/desenhista John Byrne, a quem foi incumbido o privilégio de reacender a chama do mais importante dos super-heróis. Depois da saga Crise nas Terras Infinitas (já aqui referida exaustivamente e publicada nesta coleção) a DC Comics entregou a algumas das maiores mentes criativas da BD de meados da década de 80 a missão de reanalisar, pelo prisma da maturidade e modernidade, os seus mitos. A Frank Miller coube Batman e a George Pérez a Mulher-Maravilha (Levoir, para quando também estes?). O Super-Homem ficou a cargo de outra das superestrelas, o autor John Byrne, que já se havia destacado na Marvel com impressionantes trabalhos nos X-Men (em colaboração com o escritor Chris Claremont) e no Quarteto Fantástico (a solo), apenas para referir os mais conhecidos e emblemáticos.
Esta minissérie, esta re-imaginação (que referenciei no meu artigo da Maxim dedicado ao Super-Homem – leiam-no aqui), não esteve isenta de controvérsia, não só porque era dado um trabalho tão mediático a um habitual colaborador da Marvel, como foi ele o autor da maior reinvenção do mito de que há memória. Literalmente, o Super-Homem não seria mais o mesmo, com modificações que não eram tanto cosméticas (não ocorreu nenhuma alteração do uniforme, por exemplo, como aconteceu agora em 2011) mas mais profundas, filosóficas. Por um lado, o personagem despedia-se dos seus poderes quase divinos e, ainda que continuasse a ser o mais “poderoso” da tribo dos super-heróis (aberto a debate, claro), era agora infinitamente mais “humano”. Mas mais do que isto, a este Super-Homem dava-se maior relevância à sua herança terrestre, o lado Clark Kent, e menos ao alienígena, o lado Kal-El, circunstância sublinhada pelo facto de os pais adotivos ainda estarem vivos e de boa saúde, o que não acontecia no universo DC pré-Crise. O seu alter-ego Clark Kent passou a ser o lado verdadeiro do personagem enquanto, na versão anterior, o lado Super era o definidor da personalidade. Com esta simples modificação, Byrne afasta o super-herói do lado mítico e aproxima-o do leitor, humaniza-o, para usar um termo de senso-comum.
Os contributos não se limitaram a isto. A relação entre o Super-Homem e o Batman altera-se profundamente, passando a serem antagonistas filosóficos, ainda que aliados. Esta modificação não é um original de Byrne, antes foi introduzida por Frank Miller na emblemática história Dark Knight Returns, mas é o autor da minissérie Man of Steel que a incorpora na narrativa do universo e da continuidade regular deste novo Universo da DC. Outra modificação ocorre com Lex Luthor, o maior inimigo do personagem mas, sinceramente, deixo para descobrirem na leitura deste volume. Apenas posso referir que a versão pré-Crise do personagem Luthor era a do vilão típico, um sociopata com almejos de conquista mundial, conseguidos através de escabrosos e rocambolescos esquemas. A versão pós-Crise é mais realista e maquiavélica. 
Leitura muito fácil e essencial.

DC Comics - Quando pensava que estava fora, eles voltam a puxar-me!

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Eu juro que pensava que as coisas estavam mais ou menos resolvidas na minha relação com a DC Comics, a editora norte-americana dona do Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha. Até já tinha feito uma longa diatribe expressando profundo pesar e inquietação, daquelas que interessam apenas aos que dedicam preciosa mas microscópica atenção a estes universos (leiam-na aqui). Mas como com todas as relações que no passado foram excelentes, também esta tem o dom de, na sequência de uma qualquer novidade, conseguir reacender o sentimento que se julgava controlado. Ainda que não esteja reconquistado, apareceu aquela luz ao fundo do túnel e, esticando a metáfora, quando se tem visão de túnel muito do que nos acontece à volta parece-nos acessório, dispensável. Isto acontece quando só queremos reparar no que de bom uma antiga relação nos dava e, aparentemente, promete voltar a dar.
A DC foi a minha editora favorita durante 25 anos, desde mais ou menos a segunda metade da década de 80. Recentemente, não por causa do facto de ter reiniciado do zero o seu universo de super-heróis mas porque, pura e simplesmente, tenho considerado as histórias de qualidade geralmente sofrível, afastei-me da editora e concentrei a minha atenção BDfila mensal na Marvel (sim porque existe a mensal e a outra, mais calma, menos telenovelesca, a que lê uma história completa e sem complicações).
Sempre gostei da “pureza” do super-herói típico da DC, a frontalidade com que assumia o caracter verdadeiramente preto e branco do arquétipo, colocando deste lado o Bem e daquele lado o Mal (não quero com isto dizer que a DC só tinha disto nem que desprezo a Marvel, muito pelo contrário). Se calhar por algum resquício de infantilidade, o Super-Homem e a Mulher-Maravilha, corporizações perfeitas do que acabo de referir, exerciam em mim profunda atração, principalmente quando os via contra inimigos que representavam, de forma também “pura”, o outro lado da moeda, como por exemplo um Darkseid (quem não sabe de quem se trata, informe-se aqui).
Por outro lado, quando comecei a acompanhar de forma mais regular as aventuras do Universo da DC, ou seja no pós-Crise nas Terras Infinitas (ainda não leram? Como é possível?), fui também conhecendo aquele vago e misterioso multiverso que existia antes desta Crise, onde pululavam diferentes versões do Super-Homem, do Batman e da Mulher-Maravilha, as da Terra-1, Terra-2, da Terra invertida onde eles eram vilões, etc. A DC, como qualquer empresa que gosta de atiçar a curiosidade dos seus leitores, ia dando, aqui e acolá, indícios de que esse dito multiverso estava para voltar, estava mesmo ali ao virar da esquina. Criaram o híper-tempo (quem se lembra?), as sagas Elseworlds (o que é isto? Leiam aqui), o livro Terra 2 de Grant Morrison e Frank Quietly (saiu pela Levoir, leiam sobre ele aqui), até que se chegou à Crise Infinita (pois, outra) e à minissérie 52, onde o referido multiverso voltava em força, ou melhor, 52 versões do universo. Ainda assim, não estava assumidamente igual, porque os diferentes universos não tinham a relevância e o papel que assumiram na DC pré-Crise.
Em 2011, a editora volta a fazer algo que já tinha feito várias vezes no passado: reiniciar tudo do zero, dando-lhe o nome de “Novos 52”. Apareceram novas versões de todos os personagens favoritos (e alguns menos favoritos) e, paulatinamente, reintroduzem o Multiverso à Mitologia.
O ano de 2013 assume-se, com coragem, como um marco deste regresso (para quem não lê a atual versão da Liga da Justiça e os títulos Forever Evil e Earth 2, a partir de agora há grandes spoilers). E, claro, o Super-Homem, a Mulher-Maravilha e o Batman estão na frente de batalha deste retorno. Aqui vou referir apenas o Homem de Aço.
Numa história que aliou diferentes versões da Liga da Justiça (a original, a Sombria e a da América) e à qual se apelidou de “Guerra da Trindade”, assiste-te ao regresso das versões maléficas da mesma Liga mas oriundas de um universo inverso ao nosso, aquele também existente no pré-Crise. A antítese do Super-Homem é o Ultra-Homem, o seu inverso em todos os sentidos, verdadeiramente maléfico, sem um pingo ou resquício de bondade, as antípodas do zénite de altruísmo que é Kal-El, o nosso anjo alienígena. Assim, apenas com um golpe, a DC assumia que o multiverso estava de volta e na forma de um dos seus mais interessantes conceitos, o da Terra Oposta, reconhecendo influências não só ao que havia sido feito no pré-Crise como também ao já referido trabalho de Grant Morrison no livro Terra-2.
Num outro livro mensal chamado Earth 2, passado numa terra análoga, quando se pensava que a sua versão do Super-Homem tinha perecido em batalha junto com o Batman e Mulher-Maravilha deste universo paralelo, eis que ele ressurge, tornado também ele maléfico, mas desta feita pelas mãos de um mal primordial de que já aqui vos falei, Darkseid.
O “Novos 52” ainda mal começou e já existem três versões do Super-Homem, sendo que parece que o Mal vence o Bem por 2 bolas a 1. Isto se descontarmos as que aparecem na revista Batman/Superman e na futura Justice League 3000 (passada no seculo XXX). Apesar de estar (com alguma coragem, diga-se) a reinventar os seus personagens, alguns com maior sucesso e qualidade que outros, a DC vai buscar ao seu profícuo passado as bases para construir o futuro. E eu, que já tinha assumido que a minha DC tinha desaparecido, começo a ver, de facto, a luz ao fundo do túnel. Pode ser que a esperança se concretize - ou não - e em futuros posts vos diga o que vai na minha alma no que respeita a estes assuntos, tão relevantes para uns e completamente desconhecidos para a maior parte dos que são os outros.

As histórias da Mulher-Maravilha que mais gosto - artigo Maxim

Esta semana volto a um dos meus mais queridos personagens de BD, a princesa de Themyscira, Diana, a Mulher-Maravilha.

Olhem para esta cara laroca desenhada pelo mestre José Luis Garcia-Lopez e digam lá se não é um grande personagem?

Já agora, os volumes que sugiro do George Pérez podem considerar-se como um primeiro post de uma rubrica Ler sem Medo - Mulher-Maravilha, devendo ser lidos logo a seguir à sugestão do Ler sem medo - Universo DC.

Leiam o artigo aqui.


Colecção DC Levoir/Público – 12.º Volume: Arqueiro Verde

(Prometo tentar informar aos menos conhecedores de BD acerca da acessibilidade desta coleção, ou seja se é fácil ou não ler sem saber muito mais coisas)

Grau de acessibilidade: Fácil

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 25 de Setembro, junto com Público e custa 8,9€


As duas grandes editoras de BD dos EUA têm um cardápio de personagens extenso e diversificado, fruto de sete décadas de histórias acumuladas, mas nem todos tiveram a mesma relevância ou sequer a mesma originalidade na sua concepção. O Arqueiro Verde era um destes personagens obviamente inspirado no arquétipo Robin Hood, com alguns pozinhos de Batman metidos na mistura, acabando por ser, durante um período bastante longo (foi criado na década de 40), um subproduto sem sabor. Esta situação modificar-se-ia em dois pontos na sua história. 

O primeiro apareceu já nesta coleção, quando o personagem se reuniu com um outro super-herói esmeralda e viajou pelas estradas dos EUA de inícios da década de 70, na procura de respostas para várias perguntas difíceis naqueles tempos conturbados. O segundo ocorreria vários anos mais tarde, pelas mãos de Mike Grell, e que poderão ler com este novo volume. O ano era de 1987 e a DC Comics estava em profunda revolução, contratando vários artistas para re-imaginar os seus vários personagens no rescaldo da famosa Crise nas Terras Infinitas (de que falei várias vezes neste Blog e a qual está também incluída nesta coleção da Levoir).

Devido ao pedigree adquirido na história que coprotagonizou com o Lanterna Verde, o Arqueiro nunca seria re-imaginado como um normal e indistinto super-herói. A aura de anarquista/liberal de esquerda que havia conquistado nesse título, nas subsequentes aventuras a solo, em parceria com a sua eterna companheira, a heroína Canário Negro, ou com seus colegas da Liga da Justiça, tinham consolidado uma imagem mais “realista”, menos em consonância com as aventuras escabrosas e cósmicas dos outros personagens ao dispor da editora. Assim, à semelhança de Batman ou mesmo do Questão (outro personagem fortemente urbano), a DC entregou os destinos deste seu personagem às mãos já experimentadas mas seguramente mais maduras do escritor/desenhista Mike Grell, que já havia dado provas do seu estatuto em outros títulos dentro e fora desta editora (Warlord e Jon Sable, apenas para citar aqueles que os fãs da BD melhor conhecem).

A aposta veio a verificar-se frutífera, porque a minissérie Longbow Hunters, colecionada neste volume, evoluiria para uma longa série mensal que Grell capitanearia por um longo período de tempo (cerca de 80 números).

Nota – Não partilho da opinião que tem de se saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

Ler sem medo! – Universo DC – Crise nas Terras Infinitas


Os posts Ler (BD) sem medo dão-me um prazer muito particular. Primeiro: tento, de uma forma modesta, dar a conhecer uma Arte que adoro. Segundo: tenho oportunidade de folhear livros que amo, sentir o ar a movimentar-se com o cheiro a papel enquanto passo para a página seguinte, entreter-me com as cores garridas de personagens vestidos como se o Carnaval acontecesse todos os dias, esquecer-me na vida colorida destes universos. Saber que um deus enlouquecido quer desfazer o novelo da Vida é mais divertido que as últimas novidades do Orçamento de Estado. Estas são mais desesperantes. Para vencer o deus louco basta pensar que o Super-Homem vai, de uma forma ou de outra, perseverar. Já o Orçamento de Estado, temos de confiar nas instituições da realidade e elas não são nenhum Super-Homem.

Recentemente, a Levoir lançou, junto com o jornal o Público, a famosa saga (para os fãs de BD, claro), Crise nas Terras Infinitas, que pode ser considerada como um momento 0 no universo de super-heróis da DC. Literalmente, a editora reformatou todo a sua mitologia de super-heróis e fez tabula rasa de grande parte do historial dos vários personagens, dando oportunidade a diversos autores para os reinterpretarem. Assim foi com o Super-Homem (leia este post), o Batman e a Mulher-Maravilha (leia o artigo da Maxim), apenas para citar os três maiores ícones da editora.

Mas nada disto faz jus a Crise nas Terras Infinitas. Parece que vos estou a falar de um expediente editorial carimbado e assinado por um gestor, cujo objectivo nada mais era que simplificar processos, agilizar procedimentos e optimizar a capacidade para contar histórias. Bem… também foi isso, mas existiu muita alma e coração (meu deus, o que os gestores vão dizer de mim!) e estes devem-se exclusivamente ao extraordinário trabalho de Marv Wolfman, escritor, e George Pérez, o desenhista que se tornou uma lenda com esta saga.

O Universo da DC estava bastante complicado, isto segundo alguns mandachuvas da editora. Existiam inúmeras Terras a bailar num caldo infinito composto por múltiplos universos, cada qual uma variação infinitesimal ou gigantesca dos eventos e História da Terra que conhecemos. A esse caldo deu-se o nome de Multiverso.

Existia a Terra-1, onde o Super-Homem, o Batman e a Mulher-Maravilha de 1985 exerciam a sua atividade (esta é a data da publicação da Crise), e cujas histórias vinham sendo contadas desde finais da década de 50, princípios da de 60. Existia a Terra-2, onde habitavam as versões originais dos heróis que o público conhecia de 30 e 40. Era desta Terra que provinha o Super-Homem de 1938, o original (vejam este artigo Maxim para saberem mais). Como devem calcular, estas Terras eram as principais. Mas existia uma multitude de outras: Terra-3, uma terra “invertida”, onde o Super-Homem, o Batman e a Mulher-Maravilha eram vilões e Lex Luthor era o herói; Terra-X, onde os nazis haviam vencido a 2.ª Grande Guerra e eram combatidos por um grupo de super-heróis apropriadamente apelidados de Combatentes da Liberdade; Terra-S, onde habitavam os personagens da Família Marvel pertencentes à editora Fawcett, adquirida pela DC numa disputa em tribunal; Terra-4, na qual viviam personagens comprados pela DC à falida Charlston - como curiosidade, estes personagens foram a inspiração de Alan Moore e Dave Gibbons para criar os Watchmen. E assim por diante!

Foi deste cenário que Wolfman e Pérez partiram e foi-lhes encetada uma missão: construir uma única Terra. Das cinzas deste imperativo editorial conseguiram erguer uma belíssima floresta, uma empolgante e (sim) belíssima história que contou os derradeiros momentos do velho e o nascimento do novo. Uma história do Bem puro contra o Mal absoluto e definitivo, um Mal arrebatadoramente niilista, fanático da aniquilação da Vida, do Tempo e do Espaço. O vilão era a corporização da crença no Nada. Nos escombros do seu caminho restaria a agonia do silêncio absoluto e contra este ser hediondo sobravam apenas os defensores do Bem, no sentido mais literal da palavra: o exército de super-heróis do multiverso da DC, que abandonavam todos os seus desejos egoístas e entregavam-se altruisticamente (muitas vezes ao custo da própria vida) para a preservação de Tudo.


Raras foram as vezes em que, tão claramente e numa escala como a da Crise, todos os alicerces da Existência estiveram em perigo. Nada era sagrado. Todos os mundos, simultaneamente em todas as Eras e em todos os universos, estavam em risco. Milhões e milhões de universos cheios de vida pereceram com o avanço da arma derradeira do Inimigo, uma avassaladora onda de antimatéria. Os gritos de inúmeros seres vivos ecoaram na eternidade do espaço e do tempo quando pura e simplesmente… deixaram de existir. Desde o primeiro Homem das Cavernas até ao sofisticado Homem do Futuro, todos deixaram simultaneamente de Ser. O Vazio Final e Total. A Entropia.


Esta interpretação da realidade é curiosa. A destruição ocorre simultaneamente em diferentes eras de um mesmo universo. O Tempo é visto de forma não linear, ocorrendo todo ao mesmo tempo e no mesmo “local” (a linguagem tem dificuldade em enquadrar este conceito). Vejam lá bem… até nisto a BD oferece-nos vantagens. Desliga a o cérebro de noções lineares da física, abre-nos para percepções desviantes do Real. Esta noção de tempo, que assume que todos os segundos, se assim quiserem, são "reais", que ocorrem todos ao mesmo tempo, por assim dizer, tem um nome, Eternalismo, uma corrente filosófica que vê todo o universo, na sua concepção espácio-temporal,  como um único bloco. 


No meio desta catástrofe são relatados contos de verdadeiro heroísmo. Os defensores da Terra sabem que são a última barreira contra o Nada Absoluto. Por sua vez, Wolfman e Pérez são os verdadeiros artesões deste sacrifício, os herdeiros de Heródoto que relatam uma Batalha das Termópilas à escala cosmogónica. A colaboração que estes dois criadores tinham aperfeiçoado nos Novos Titãs (o livro que os fez famosos o suficiente para herdarem a Crise) atinge níveis lendários nesta saga que marcou gerações e o panorama da BD americana. Não descurando o mérito de Wolfman e porque esta se trata de uma arte que mescla palavras e imagens, o contributo de Pérez não deve ser, de forma nenhuma, diminuído. Graças aos seus desenhos (extraordinariamente adaptados ao universo dos super-heróis), à sua capacidade de construir uma página, em suma, à sua habilidade de contar uma história usando como ferramenta a BD, a Crise nas Terras Infinitas pôde adquirir o status de que goza na biblioteca das grandes obras da 9.ª Arte. E nenhum desse status diminuiu de intensidade com o tempo. Independentemente das confusões que procurou resolver no universo da DC, de algumas destas terem entretanto voltado a acontecer e de serem necessárias outras Crises para as desfazer, o valor artístico da obra permanece inalterado. Não voltou a existir (na minha muito modesta opinião) evento tão verdadeiramente catastrófico e apocalíptico como este, onde heróis morreram, universos desapareceram, onde a realidade não saiu ilesa. E só por isso, esta saga tem um lugar no panteão das obras maiores da BD.


Estão suficientemente convencidos para lê-la?

Depois desta saga podem passar para o Man of Steel de John Byrne (que falei neste post), para a Mulher-Maravilha de George Pérez e para o Batman de Frank Miller e David Mazzuchelli. Foi nestas histórias que as reinterpretações permitidas pela Crise aconteceram, reinterpretações cheias de uma modernidade que, muito sinceramente, ainda não foi superada.


Colecção DC Levoir/Público – 8.º Volume: Universo DC


(Prometo tentar informar aos menos conhecedores de BD acerca da acessibilidade desta coleção, ou seja se é fácil ou não ler sem saber muito mais coisas)

Grau de acessibilidade: Difícil mas…

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 29 de Agosto, junto com Público e custa 8,9€

Nota – Não partilho da opinião que tem de se saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

Desta vez tive de colocar de início a nota que apenas aparecia no fim destes artigos. A razão é simples: foi mais ou menos na Crise nas Terras Infinitas, a mega saga a ser lançada nestas próximas duas quintas-feiras, que fui apresentado ao Universo de super-heróis da DC. E não me fez confusão quase nenhuma. É verdade que nunca tinha ouvido falar da maior parte dos personagens que apareciam, mas isso não foi impedimento para usufruir da história. Pelo contrário! Com o passar dos anos tornou-se num dos incontornáveis momentos da infância enquanto leitor de BD.

A DC Comics estava a festejar os seus 50 anos por volta de 1985 e decidiu reestruturar o universo de super-heróis e torná-lo mais fácil de entender. Ao longo das últimas 5 décadas haviam-se acumulado diferentes versões do Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha, cada uma habitando uma Terra diferente. Cada Terra residia num universo diferente, contribuindo para uma tapeçaria que foi apelidada de multiverso. Um multiverso infinito. Existia a Terra-1 (a atual), a Terra-2 (onde viviam o Super-Homem, Mulher-Maravilha e Batman originais, os da década de 40), Terra-X, Terra-S, etc. Segundo os donos da DC, tudo isto era confuso demais e decidiram incumbir a equipa criativa mais famosa à altura de simplificar o multiverso e reduzir as terras infinitas a apenas uma única. A equipa foi Marv Wolfman como escritor e George Pérez como desenhista e assim nasceu a primeira saga verdadeiramente apocalíptica da mitologia dos super-heróis: Crise nas Terras Infinitas.

Universos morreram, biliões de almas foram condenadas ao esquecimento. Deuses pereceram em batalhas titânicas e o destino da realidade esteve nas mãos de todos os super-heróis do cardápio ao dispor da DC. O vilão responsável, o Anti-Monitor, movia-se numa escala inaudita à data. A palavra Mal não era suficientemente grande para o descrever. Tudo isto servido em doses mensais e durante 1 ano. Não houve, até hoje, mais nenhuma história desta dimensão nem com as repercussões que teve. Continua a ser uma referência emocional para muitos leitores de BD e, caso não tenham percebido, eu sou um deles. Mesmo que a qualidade não tenha amadurecido muito bem com o passar do tempo, continua a ser um marco histórico na banda desenhada americana.

Não é, decididamente, para todos os gostos porque acaba por ser uma história pura de super-heróis. Aqui não existem subtextos ou meta-textos. Esta é a história que a meta-literatura usa como referencial. E eu, sempre que posso, releio.

O primeiro volume saiu na semana anterior.