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Uma BD aqui, outra BD ali, 11

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

The Terrifics número 1 de Jeff Lemire e Ivan Reis (DC Comics)


Sempre tive dificuldade em perceber porque é que o Quarteto Fantástico da Marvel tem problemas em afirmar-se nos tempos modernos. Porque é que tem problemas para encontrar uma equipa criativa estimulante. Será porque os associamos de tal forma aos autores originais, Stan Lee e Jack Kirby, e à sua lendária sequência de histórias, que todos os outros ficam aquém em comparação? No que a mim diz respeito, John Byrne, na década de 80, conseguiu replicar o trabalho desses dois génios da BD, mas e os outros? Que dificuldades existem para que um dos conceitos mais originais da 9.ª Arte, mais estimulantes e multifacetados, tão próximo das infinitas possibilidades desta Arte, para que esse conceito falhasse ao ponto de não termos uma revista mensal há quase dois anos?

A DC Comics, em jeito de provocação, decide preencher esse vácuo com os Terrifics, uma equipa construída sob o mesmo conceito: exploradores do desconhecido compostos por um génio, um homem elástico, um homem-forte de aspecto monstruoso e coração puro e uma mulher intangível (uma variação de invisível). Na sequência da ainda incompleta série Dark Knight Metal surge esta nova equipa de super-heróis, com o objectivo de explorar os cantos desconhecidos do Multiverso e do Multiverso Negro, fazendo-se valer de tecnologia fantástica e de personagens maiores que a vida com olhar curioso. Este primeiro número segue o espírito do Quarteto Fantástico, com apontamentos de homenagem a essa equipa - um quadrado de duas páginas faz lembrar uma amálgama de Galactus e da história de Ego, O Planeta Vivo escrita e desenhada por John Byrne; o portal para o Multiverso Negro lembra a entrada para a Zona Negativa.

Quer Lemire, quer Reis, estão ao seu mais alto nível, especialmente este último. O brasileiro continua a afirmar-se como um dos mais cativantes desenhadores a trabalhar nos super-heróis. Se há um apontamento negativo a fazer a este número é que sabemos que Reis apenas trabalhará nos três primeiros meses desta revista - segue para o Super-Homem de Bendis. Fora isso, Terrifics é perfeito.

Batman (2016) número 41 de Tom King e Mike Janin (DC Comics)


Quem diria que seria a Hera Venenosa a fazer o Batman duvidar de si mesmo. Tom King continua a sua aclamada sequência de histórias no Cavaleiro das Trevas, desta vez focado-se em mais um embate entre o herói e uma das suas mais antigas adversárias. Contudo, a vilã manipuladora de plantas e dos corações dos homens não é apenas mais um vilão du jour, afirmando-se, antes, como uma antagonista à escala global. Não mais uma piada sexista, a Hera cresce em estatuto de forma orgânica (hum... há uma piada aqui algures) e, ao mesmo tempo, prova que o Batman, apesar de estar sempre bem preparado, não o está para todas as eventualidades.

Tom King continua a escrever argumentos cativantes e únicos. O monólogo interno de Hera é o anzol que nos agarra e, ao mesmo tempo, é o comentário às cenas que se desenrolam - sabemos que é ela mas, ao mesmo tempo, a revelação final da sua aparição como vilã é uma surpresa: pela frieza; pelo poder; pela escala da ameaça. O escritor também prossegue o desenvolvimento da relação do Batman com a Mulher-Gato, procurando transpor a sua experiência pessoal para as vidas destas personagens (como também está a fazer com o essencial Mr. Miracle). Neste entrelaçar de aventura e relações pessoais, King tem se revelado um exímio contador de histórias.

A seu lado, volta a estar Mike Janin como desenhista. E que desenhista. Não só fotografa personagens com alma e carácter, como o faz de forma entusiasmante. A sua Hera é de uma terrível e temível beleza. 

Este é o primeiro capítulo de Everybody Loves Ivy. Mais uma vitória de King e de Janin. 

O que é preciso saber para ler a Guerra do Corpo Sinestro?

BD de super-heróis podem ser frustrantes. A fama de serem complicadas de seguir é merecida.

Esta semana e na anterior, na Colecção Coração das Trevas DC, a sair junto com o Público pela chancela da Levoir, foi lançada uma dessas histórias. 

Quando a li na altura em que saiu, o prazer que retirei não devia-se apenas à qualidade dos autores. O conhecimento da mitologia DC também ajudou. É como uma telenovela.

Vou tentar descrever o que lembro-me e o que acho ser relevante para tirar o máximo de entretenimento possível desta obra - ainda que também ache que parte do prazer de ler super-heróis é descobrir, à posteriori, as histórias dos personagens que lemos.



  • Os Lanternas Verdes são um corpo policial que tem como missão proteger o universo. Têm um anel de energia que "cria  desejos", o que, na imaginação limitada de muitos deles, queria dizer criar bolhas para aprisionar criminosos e luvas gigantes para os derrubar. Claramente não eram um Tolstoy ou um Frank Lloyd Wright;
  • Os patrões dos Lanternas são os Guardiões do Universo, originários do planeta Oa, situado no centro geométrico do universo. São seres quase omniscientes e omnipotentes. Eram muito mandões e mal dispostos. Deviam ter um complexo de inferioridade por serem pequerruchos e terem cabeças grandes;
  • Os Guardiões dividiram o universo em 3600 sectores (tipo esquadras), cada qual com o seu Lanterna Verde (posteriormente passaram a dois);
  • O sector da Terra é o 2814 - não me ocorre dizer nada de engraçado à conta disto;
  • Por várias razões, à altura da Guerra do Corpo Sinestro, existem quatro Lanternas no sector da Terra, todos homens: Hal Jordan, o protagonista da série; Guy Gardner; John Stewart; Kyle Rayner - sendo os escritores homens e originários do planeta Terra as razões parecem óbvias;
  • Kyle Rayner foi o Lanterna Verde que substituiu Hal Jordan. Este último enlouqueceu, destruiu o Corpo dos Lanternas Verdes, transformou-se no vilão Parallax, redimiu-se e morreu sacrificando-se pela salvação da Terra (entretanto ficou melhor, como sempre  acontece com os super-heróis);
  • Sinestro, o vilão desta história (nome kitsh mas fica clarinho qual o lado da balança para onde pende), foi, originalmente, um Lanterna Verde e mentor de Hal Jordan. Devido às inclinações despóticas e ao facto de ter infligido um regime totalitário no seu planeta natal, Korugar, foi expulso deste Corpo - no shit;
  • No planeta Qward, também no centro geométrico mas de um universo de Anti-Matéria, oposto ao "nosso", Sinestro encontrou um anel amarelo, com as mesmas propriedades do anel dos Lanternas Verdes;
  • A cor amarela foi, durante décadas, a única fraqueza do anel verde dos Lanternas. Não podiam directamente infligir qualquer acção num objecto ou pessoa com esta cor  - esta é a fraqueza mais ridícula de todos os tempos. O Poupas dava conta dum Lanterna Verde;
  • A Crise nas Terras Infinitas foi uma saga pan-cósmica que envolveu todos os heróis e vilões da DC na década 80 (leiam aqui para saber mais sobre a mesma). O vilão desta saga chamava-se Anti-Monitor e, sim, veio de Qward (ou de uma sua lua), sito no universo de anti-matéria. (SPOILER) Ele morre no final desta Crise;
(eu sei que isto está a ficar complicado. Sorry!)
  • Algures na história dos arrufos com Hal Jordan, Sinestro é aprisionado no interior da grande bateria de Oa, a fonte de energia dos Lanternas Verdes - será que há casa-de-banho dentro de uma bateria gigante?;
  • Num racional digno de uma BD de super-heróis, Sinestro continua consciente e descobre uma verdade escondida: o facto de os Lanternas não conseguirem influenciar a cor amarela deve-se a um ser que vive dentro da bateria, tipo carrapato. Esse ser chama-se Parallax;
  • Parallax é a manifestação física do Medo que, na mitologia das cores DC, é representada pelo amarelo (esta caiu do céu... eu sei! Já explico);
  • Sinestro liberta Parallax que apodera-se do corpo de Hal Jordan - daí ele ter ficado louco, como disse algures acima (engenhoso, não?!);
  • Anos mais tarde, já depois de mortinho e enterrado, Hal Jordan ressuscita, sem Parallax, e o Corpo dos Lanternas Verdes é recriado. A criatura, entretanto anda por aí à solta;
  • Descobre-se, nesta ressurreição, que existe uma coisa chamada Espectro de Emoções, com sete emoções no total, cada qual com a sua cor. O verde é a Esperança. O amarelo o Medo, como já disse. As outras não conto porque quero que leiam o que vem a seguir à Guerra do Corpo Sinestro. É engraçada esta mania dos escritores de super-heróis de materializar sentimentos. Isto para andar, literalmente, à porrada aos nossos medos, ambições e amores. Nada Freudiano.
E é mais ou menos isto. 

Existem ainda coisas relacionadas com dois dos vilões aliados de Sinestro:
  • Superboy-Prime - originário de uma Terra, que no multiverso DC, é a nossa. É o primeiro herói dessa Terra e acabou por transformar-se num temível e poderoso super-vilão. Tem os mesmos poderes do Super-Homem e, metaforicamente, representa os fãs de BD que ligam a cada pormenor de história e são pouco permeáveis à mudança (eu não sou um deles... juro);
  • Cyborg-Superman (muitas cópias do Super-Homem  faz a DC, meu deus)  - é o que o nome diz. Um humano num corpo de ciborgue com um uniforme do Super-Homem (não estou para contar o resto da história que são mais uns quantos bullets points).

Colecção No coração das Trevas DC - volume 2 Sinestro: A Guerra do Corpo Sinestro 2


O volume 3 da colecção “No coração das trevas DC”, “Sinestro: A Guerra do Corpo Sinestro 2” vai para bancas na próxima quinta-feira. Começou a batalha de Ranx, e o alvo de Sinestro é a Terra, onde as duas forças inimigas se vão encontrar, com consequências devastadoras para o planeta, e com o destino do próprio Multiverso em jogo.


Neste volume poderemos também ver a interacção entre dois dos Lanternas Verdes da Terra, Hal Jordan e Kyle Rainer: Jordan tenta livrar Kyle da influência de Parallax, que o domina, e descobrimos um pouco da história de Kyle, das suas paixões, da sua morte, e também as razões que levaram a que Parallax o conseguisse dominar tão facilmente.

A continuação da saga da Guerra do Corpo Sinestro, a conclusão de uma das grandes sagas da DC no século 21, num volume com arte de alguns dos melhores desenhadores dos comics actuais, incluindo Ivan Reis, Patrick Gleason e Ethan Van Sciver.

Esta e outras histórias para ler a partir de 23 de Março com o jornal Público pelo PVP de 9,90€.




Colecção No coração das Trevas DC - volume 2 Sinestro: A Guerra do Corpo Sinestro 1

A Levoir e o Público apresentaram dia 9 de Março a sua nova colecção de banda desenhada, composta por 10 volumes dedicados aos maiores vilões do universo DC, com o PVP de 9,90€ cada volume.

Amanhã, 16 de Março, é lançado o segundo volume da colecção: Sinestro: A Guerra do Corpo Sinestro 1.

Em A Guerra do Corpo Sinestro, o maior adversário do Lanterna Verde recebe por fim o seu há muito merecido destaque. Outrora o maior dos Lanternas Verdes, Sinestro tornou-se no seu mais implacável inimigo, movido apenas pelo rancor e desejo de vingança. Mas, agora, revelará o seu novo e terrível propósito, numa saga épica que fez de Green Lantern o título de referência da DC Comics no final dos anos 2000.

Sinestro: A Guerra do Corpo Sinestro é um dos títulos mais emblemáticos da nova DC, e também um dos que maior sucesso crítico e comercial obteve. Lançado inicialmente em Junho de 2007, foi nesse mesmo ano nomeado pela Comic Book Resources como uma das melhores obras do ano. Esgotou toda a edição do primeiro número num só dia.

Segundo o IGN.com a história era um “êxito descomunal” e a Newsarama referiu-se à saga como “uma aventura da DC repleta de acção”.

Escrita por Geoff Johns, também ele considerado um dos melhores escritores de 2007, viu também Ethan Van Sciver, um dos desenhadores da saga, ser nomeado para um prémio Eisner pelo seu trabalho em Guerra do Corpo Sinestro.






Libertem o Geek! - As Crises Infinitas!


(para o Gonçalo e o Vasco, que percebem o porquê deste post)

Um amigo que, como eu, é fã do universo de super-heróis da DC Comics disse-me uma vez e parafraseio: "parecem estar a repetir sempre as mesmas histórias, mas a gente gosta!".  Achei lindo, naquela forma que apenas os fãs podem achar lindo. Aqueles que adoram certas coisas de forma irrepreensível. Não falo de saber todo e qualquer pormenor do multiverso da DC (se sabem o que é o multiverso da DC parece-me, contudo, que estão no bom caminho). Não falo de coleccionar todas as revistas, de possuir saber enciclopédico sobre os heróis, os vilões e a geografia - ainda que possa ajudar. Falo, como sempre quando refiro estas paixões, de gosto e de amor. De estarem a borrifar-se para quem não aprecia, de ficarem entusiasmados de forma infantil, juvenil, imatura (como quiserem), com um desenvolvimento de uma história, com o aparecimento inesperado de um personagem que amávamos e estava fora de cena há muito tempo. Mas também é ficar irritado quando algo que se adora já não tem o mesmo lustro, está chato e aborrecido. Pode também ser esperar ansiosamente pela estreia do Batman v Superman, mal conseguir aguentar a estreia da Wonder Woman em 2017 e ficar entusiasmado com a sequela do Man of Steel do Zack Snyder.

Recentemente, essa nossa editora favorita decidiu renascer. Chamou-lhe, de forma pouco imaginativa (ou será pós-moderna?), Rebirth e, numa revista escrita pelo grande Geoff Johns e chamada de DC Rebirth, devolveu aos fãs (ou começou a devolver) o universo de que tinham saudades. Já existiam pistas no Multiversity de Grant Morrison e na Justice League: Darkseid War também de Johns, mas é neste Rebirth que a editora assume o "erro". Erro porque esta história de Johns é um pedido de desculpa pelos mais recentes anos da DC mas também algo mais meta-textual: uma reflexão sobre o mundo dos super-heróis dos EUA pós-Watchmen, a seminal obra de Alan Moore e Dave Gibbons.  Mas não é sobre isto que vos queria falar.

Desde 1986 que a editora repete a mesma história de forma cíclica e gere as expectativas dos seus leitores de maneira quase cruel. Nesse ano fundiu o seu multiverso num único mundo na conclusão da Crise nas Terras Infinitas e este evento parece, desde então, reger todos os outros. O que, a nosso ver (sim, o dos fãs), é lindo e pode acontecer quantas vezes a editora quiser. Foi a Crise Infinita, a Infinita Crise, a Crise Final, o Hipertempo, o 52, a Multiversidade, agora o Renascimento. Iterações do mesmo conceito, teases de quem sabe que basta vestir uma lingerie comprada na loja dos trezentos para nos fazer salivar litradas.  Mas no meio de tanto entretenimento pop existe também algo mais profundo - pelo menos para nós. Uma hiper-história que começou em 1938 com a publicação do Super-Homem, que foi evoluindo num misto de atabalhoado, orgânico e ...vejam lá bem... pensado. Que continua a crescer e a acrescentar camadas cada vez mais ricas,  ao ponto de parecer estar criado um universo (um multiverso) que ...nós temos a certeza... vive lá fora algures, separado pela vibração da imaginação. É world-building mas também é uma filosofia. Quem olhar para a estrutura do multiverso da DC criada por Grant Morrison vê uma Mandala e vê um Belo. Não seria fantasticamente terrível que existisse, perdidos nas infinitas e prováveis realidades, um Darkseid, uma Source Wall e uma Speed Force? Mas divago!

A DC repete, para nosso bel-prazer, a História do Multiverso e, em cada nova variação, se estávamos perdidos voltamos a ela e, se nunca a abandonámos, somos justificados. Por isso, quando neste Rebirth vejo plantadas as sementes do regresso de algo que adoramos só posso escrever algo tão inútil quanto este post.  

"Parece estar a repetir sempre as mesmas histórias, mas a gente gosta!" - disse o tal meu amigo. Sim, é lindo e nós adoramos!

Momentos FO**-SE! Justice League 50 e DC Universe Rebirth de Geoff Johns e vários



(este post contém SPOILERS)

Já tiveram momentos "foda-se" nas vossas vidas? Sabem do que falo? Daqueles onde são apanhados de tal forma desprevenidos que, apesar do controlo e pudor imposto pelo vosso cérebro, é desenhada pelos músculos do vosso rosto a palavra "foda-se". Pode acontecer a qualquer momento, como é óbvio, mas aqui refiro-me à Arte. Aquela que sublima, que entretém, que eleva. Arte que adoramos mais do que admitimos àquela mulher de quem gostamos. E falo de histórias. Das que são contadas nos livros, na película, nas notas de música. Falo de Banda Desenhada, falo de super-heróis, falo da Mulher-Maravilha, do Super-Homem, do Batman, de todos os personagens da DC Comics.

Multiverso DC - o calvário da ressurreição – primeira parte

A BD norte-americana de super-heróis é, desde quase sempre, palco de uma tendência: a do eterno ciclo da morte e ressurreição. Raras são as mortes que perduram. Raros são os conceitos que não voltam a ser revisitados, mesmo que abandonados durante décadas. Faz parte da mitologia, desde que editores e criadores chegaram à conclusão que ou as ideias novas faltavam ou que o desaparecimento de um personagem ou conceito foram produto de fraca inspiração. O recente regresso (de forma assumida) do multiverso da DC é a mais nova iteração deste fenómeno. E ainda bem, porque há muito que deveria ter acontecido. De cada vez que existia uma ameaça do retorno a internet (esse pulso dos desejos dos fãs) brilhava com as muitas trocas de bits e bites de conjeturas e anseios. Os teclados ardiam com a velocidade da escrita. Com Convergence, Multiversity e a Justice League de Geoff Johns o que era suspeita é agora parte do cânone.

Mas qual o caminho percorrido? Como é que se chegou aqui? A pedido de uma família (sim, Nuno, tu), aqui fica uma lista do que acho ser interessante ler para perceber como se regressou a este velho/novo multiverso. Sempre que puder remeto para o Trade Paperback. Não irei falar de Infinite Crisis, Final Crisis, 52, etc., mas apenas do novo universo que existe desde 2011, conhecido por Novo 52. Isto porque parece claro que o plano para esta ressurreição existe desde os primeiros momentos da nova iteração do mundo ficcionado da DC. Esta lista não pretende ser, de forma alguma, exaustiva ou definitiva. Estou aberto a colocar o que concordarmos que falte. Nem que seja porque não li tudo deste Novo 52.

A seguir apresento a primeira parte desta artigo.

(Escusado será dizer que, a partir daqui, existem muitos spoilers.)

Justice League volume 1: Origin TPB (The New 52) – Sim, começa no momento 0. Desde a primeira palavra que a intenção parece óbvia. Neste volume, por Geoff Johns e Jim Lee, dois dos diretores criativos da DC, temos a primeira batalha daquele que é o maior e mais importante ajuntamento de super-seres no universo da editora: a Justice League, Liga da Justiça para nós portugueses. Confrontam, pela primeira vez, Darkseid, o deus negro criado por Jack Kirby e, com ele, são imediatamente introduzidos os Novos Deuses que, nesta nova realidade, parecem ter um papel bastante mais importante que em anteriores. Para além disso, Darkseid visita a Terra na procura da sua filha, personagem da qual só anos mais tarde descobriremos a verdadeira identidade e importância.

Justice League: Trinity War TPB (The New 52) – Geoff Johns é perito em fazer-nos pensar numa coisa mas, na realidade, estar a contar outra. Assim foi com Trinity War. A brincadeira que faz com o conceito de trindade levava-nos a pensar, a início, nos eternos Super-Homem/Batman/Mulher-Maravilha, nas três versões da Liga da Justiça envolvidas e no grupo de três seres cósmicos que parecem estar no centro de vários mistérios – Pandora; Phantom Strange; Question. Contudo, o verdadeiro significado da palavra três está nas últimas páginas (spoiler, spoiler, spoiler): o glorioso regresso das versões maléficas da Liga da Justiça da Terra-3, o Sindicato do Crime. Pela primeira vez, neste Novo 52, é assumida existência de uma outra Terra. A primeira de muitas. Salta para…



Forever Evil e Justice League volume 5: Forever Heroes TPB (The New 52) – Este evento de 2014 introduziu um mundo onde os inimigos da Terra-3 vencem a Liga da Justiça e resta aos vilões do mundo de Novo 52 encontrarem uma forma de os derrotar. Resta a Lex Luthor, provavelmente o maior de todos, a capacidade de procurar a fraqueza que derrubará o Sindicato do Crime. São dois volumes que contam diferentes lados da mesma história. Ficamos a saber que o Sindicato fugiu da sua Terra, destruída por um ser de enorme poder. Nas últimas páginas descobrimos de quem se trata (spoiler, spoiler, spoiler): o Anti-Monitor, um dos mais tenebrosos vilões do universo DC, a causa do mais catastrófico evento da sua História, a Crise nas Terras Infinitas. Mas ele não está sozinho…

      

Multiversity # 2 de Grant Morrison e Ivan Reis.

A gentrificação é um dos mais interessantes e talvez irritantes fenómenos dos dias de hoje. Cidades como Nova Iorque, São Francisco e Londres têm sido alvo desta tendência. O estilo de vida e importância económica destas urbes atrai população cada vez mais rica, disposta a pagar rendas e preços de casa a valores muito acima da média, acabando por criar uma nova média, agora elevada. A escalada de preços continua a atrair segmentos da população com valores de rendimento cada vez maiores, criando clusters de habitantes endinheirados. A este fenómeno chama-se gentrificação. Uma das partes irritantes é que muita desta população é atraída por um certo estilo de vida criado por pessoas de segmentos económicos geralmente mais baixos: cenas culturais desenvolvidas e inovadoras; uma experiência de bairro recuperada. É, por exemplo, conhecida a irritação do cineasta Spike Lee quando vê a sua Brooklyn tomada por hipsters e artistas endinheirados atraídos por um estilo de vida que acabam por subverter.

Grant Morrison transporta esta fenómeno para o universo da BD e, especificamente, para a série Multiversity, que termina com este número. Os últimos 15 anos tem sido bons para a aceitação mainstream da BD. A proliferação de filmes de grande sucesso financeiro e cultural alertaram muitos para o potencial desta arte. Um potencial não só como multiplicador de receita financeira mas também como, mais importante ainda, criador de arquétipos culturais estruturantes. Os alertados são, na sua maioria, estranhos à arte mas munidos de recursos financeiros substanciais. A Disney adquiriu a Marvel depois de tomar consciência da importância dos filmes da editora. A Warner Brothers está a começar a aperceber-se do potencial verdadeiro de figuras de que há muito é proprietária: Super-Homem; Batman; etc. Ou seja, aquilo que era um segredo bem guardado pelos quase párias que eram os fãs de Banda Desenhada de super-heróis está agora nos olhos e gostos do mundo. Estão a ver a gentrificação?

Quem são os vilões deste Multiversity? Os Gentry. Sim, a alusão para além de ser mais que óbvia, é absolutamente essencial para perceber umas das múltiplas dimensões desta maravilhosa série. Com este número, Morrison acaba a epopeia que há anos preparava, mas deixa a porta escancarada para um regresso. Só posso ficar entusiasmado com essa ideia, principalmente se o escritor voltar e acompanhado pela quantidade de artistas de topo  que agraciaram as páginas dos vários capítulos. O brasileiro Ivan Reis, que se tem destacado como um consumado e virtuoso desenhista de BD de super-heróis, uma vez mais maravilha os apreciadores do género com composições pormenorizadas ao estilo de George Pérez e dinâmicas como John Buscema ou Neal Adams. É um festim para os olhos do fã ver tanta cor garrida, tanto personagem obscuro a precisar de ser descoberto. 

Infelizmente, tudo o que é bom acaba. Esta minissérie prova que um escritor e desenhista, quando deixados à liberdade da sua imaginação, são capazes do melhor que a Arte tem para oferecer (é verdade que Morrison e Reis são dos maiores nomes da BD e, portanto, com uma capacidade negocial invejável). É uma lição mesmo para a própria DC Comics que ultimamente insiste não só num tratamento menos privilegiado dos seus artistas como na contratação de talentos menos apropriados para histórias que mereciam mais (vejam Convergence). Precisamos de muitas Multiversitys. Venha a próxima e que demore o tempo que precisar porque qualidade desta só o tempo e paciência conseguem produzir.

Multiversity # 1 por Grant Morrison e Ivan Reis

Uma das BD pela qual mais aguardava chegou finalmente às minhas mãos. Em posts anteriores já escrevi sobre o eterno namoro entre mim e aquela que foi a minha editora favorita de BD durante duas décadas e meia, a DC Comics, casa do Super-Homem. Contei como, infelizmente, nos zangámos e como deixou de publicar a minha literatura de super-heróis favorita. E revelei que tem voltado a seduzir-me e que tem conseguido trazer-me de volta. Entre as várias armas de sedução maciça existia a promessa desta BD, Multiversity, projeto há muito anunciado e nunca concretizado, da autoria de Grant Morrison, para mim um dos melhores escritores de BD de super-heróis da atualidade, responsável por uma fantástica sequência de histórias da Justice League of America (JLA) nos finais da década de 90, princípios do século XXI.

Este Multiversity é, ao mesmo tempo, um regresso e uma antevisão do futuro. Comecemos pelo regresso. Aqui reencontramos o mesmo ambiente apocalíptico multiuniversal que foi iniciado pela DC Comics no longínquo ano de 1986, quando publicou a lendária Crise nas Terras Infinitas (lançada recentemente pela Levoir). Morrison regressa ao discurso poético e grandiloquente que “criou” na JLA, as meias-palavras, os discursos entrecortados, a linguagem meta-textual maior que a vida, cada verbo, sujeito e adjectivo a janela para um holocausto de proporções cosmogónicas. O palco desta nova crise é a tapeçaria multiuniversal dos 52 universos que compõe o mapa universal da nova DC Comics. A ameaça ao tecido multi-real é gigante, leviatã, um monstro por enquanto apenas composto por ameaças veladas e enigmáticas, ou seja, o melhor tipo de terror.

Morrison propõe-se, ao logo de oito livros que serão desenhados por múltiplos artistas, explorar esta tapeçaria multiuniversal, percorrendo os diferentes mundos que a compõem. Neste primeiro capítulo explana os principais atores do drama infinito e eterno, atores que compõem um multicolorido quadro que apela ao mais básico sentido de maravilhamento da criança, adulto e velho que existe dentro de nós. São eles: o Presidente Super-Homem dos EUA da Terra-23; um coelho dotado de superpoderes, apropriadamente apelidado de Captain Carrot; os heróis da Terra-8, muito similares aos da Marvel; Dino-Cop, uma homenagem a Savage Dragon de Erik Larsen; etc. E estamos apenas no início. Desejo que o futuro da BD continue a enveredar pelo caminho do elogio ao passado com roupagens e formas capazes de inspirar inovação e não apenas repetição.

Particularmente delicioso é um "truque" que Morrison utiliza para que os diferentes personagens estejam informados acerca dos congéneres das várias Terras paralelas, bem como da ameaça que paira sobre todos. Cada personagem sabe da existência do outro por via de bandas desenhadas que são publicadas no respectivo mundo. Nas filosóficas palavras de Captain Carrot: "Sempre suspeitei que a realidade de um mundo é a ficção de um outro". Aliás, esta ferramenta vai buscá-la às década de 50 e 60, quando o Flash da Terra-1 é inspirado por uma BD do Flash da Terra 2 publicada no seu mundo (mais tarde conheceria o seu herói em carne e osso).  Acrescentado uma outra camada nesta vertigem meta-textual, o próprio leitor é chamado a participar na história de Multiversity, já que o escritor fala directamente connosco, numa jogada similar a um outro trabalho do autor, Animal Man. 

Esta BD está perto da perfeição para o meu gosto. Não digo que é perfeita porque ainda não li os restantes sete capítulos e mal posso esperar para que isso aconteça. Obrigado, DC, Morrison, Reis, por me fazerem continuar a gostar de vocês.

Colecção DC Levoir/Público – 17.º Volume: Lanterna Verde


(Prometo tentar informar aos menos conhecedores de BD acerca da acessibilidade desta coleção, ou seja se é fácil ou não ler sem saber muito mais coisas)
Grau de acessibilidade: Fácil

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 31 de Outubro, junto com Público e custa 8,9€

O Lanterna Verde foi dos poucos personagens da editora de BD americana, a DC Comics, a conseguir ser adaptado para cinema além do Super-Homem e Batman, num filme recente protagonizado por Ryan Reynolds no papel titular. A encarnação focada nesta película, a do polícia intergaláctico munido de um anel que já foi descrito como “uma máquina de fazer desejos”, já existe desde finais da década de 50, mas o nome Lanterna Verde remonta aos anos da 2.ª Guerra Mundial, numa encarnação um pouco diferente. Contudo, foi a versão de Hal Jordan aquela que tem vingado ao longo destas últimas cinco décadas, a do piloto de aviões irresponsável que se vê parte de um corpo de polícia à escala cósmica e munido de uma das mais poderosas armas do Universo da DC.
Como é normal nestas coisas da BD americana, foram muitos os criadores que puseram a imaginação a trabalhar para dar vida a este personagem, mas aquele que parece ter deixado a marca mais indelével foi Geoff Johns, que escreveu Hal Jordan e o Corpo de Lanternas Verdes entre 2004 e 2013, numa das mais prolíficas e interessantes fases da vida do Gladiador Esmeralda (um dos epítetos do personagem). Johns deu corpo e substância a uma mitologia que, ainda que já tivesse muitos elementos, viria a tornar-se numa das mais plurais, ricas e imaginativas da BD americana. O escritor já tinha dado provas de que aproveitava o melhor que o passado oferecia, construindo a partir deste um presente e futuro empolgantes, mas com o Lanterna Verde superou todas as expectativas e deu origem a uma run (conjunto de histórias com um mesmo criador a trabalhar num mesmo personagem) que é já considerada histórica.
A coleção deste volume da Levoir inclui uma história que Johns escreveu sensivelmente no final do primeiro terço da sua run e reconta a origem de Hal Jordan como Lanterna Verde, dando-nos uma nova perspetiva do encontro com o extraterrestre que lhe confere o anel mas, acima de tudo, da mente e do passado do homem por detrás da máscara de super-herói. Nestas coisas dos homens e mulheres com superpoderes, problemas com os pais, quer seja pela sua morte, quer seja pela sua vida, são quase sempre uma das partes essenciais do mito, tão forte quanto a identidade secreta ou o uniforme colorido. Geoff Johns fornece um novo ponto de vista sobre a personalidade de Hal Jordan, que evolui devido a problema com os progenitores, neste caso o Pai, e este volume é (também) sobre este aspeto.
A história aqui incluída é verdadeiramente fácil de ser seguida e constitui uma introdução ao personagem bem mais interessante que a contada no filme. Além disso, tem o bónus de ser desenhada pelo brasileiro Ivan Reis, que possui um dos atuais melhores traços na BD de super-heróis.
Nota – Não partilho da opinião que tem de se saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.