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O que vou lendo! Ms. Marvel vol. 1 Hardcover de G. Willow Wilson e Adrian Alphona

A Banda Desenhada, tal como a maior parte das obras produzidas em diferentes artes, tem sido bastante etnocêntrica. Para o ponto que quero aqui aludir irei apenas focar-me neste centrismo, já que a BD é conhecida pela pouca diversidade de género, de religiões, de opções sexuais. Por força destes tempos mais plurais, democráticos e informados, a diversidade é, cada vez mais, a palavra de ordem. Daí que mesmo editoras tradicionais como o são a Marvel e a DC Comics, ambas conhecidas pelos seus super-heróis, iniciaram um movimento interno de abertura, que se tem traduzido na criação e introdução de novos protagonistas ou mesmo na releitura dos seus antigos, tudo pelo olhar de novas lentes - ou melhor, lentes que sempre existiram mas que raramente eram utilizadas. Um dos exemplos com maior sucesso, ao mesmo tempo de vendas e de crítica, é Kamala Khan, a segunda Ms. Marvel.

Kamala Khan é uma jovem habitante de Nova Jérsia, de ascendência paquistanesa e muçulmana. Um dia é atingida por uma estranha neblina que contribui, junto com um gene muito especial de que é herdeira, para uma transformação, transformação essa que a empurrará para o caminho do panteão dos super-heróis do mundo Marvel. Resoluta e opinada, é amante dos super-seres da cidade em que habita, escrevendo fanfiction cujos protagonistas são os seus poderosos ídolos. Dotada de um forte e apurado sentido de justiça, é fã em especial de Ms. Marvel, uma das maiores heroínas deste universo fictício. Porque entretanto este seu ídolo muda de nome para Capitã Marvel, Kamala decide assumir o legado, ser a nova Ms. Marvel e a nova protectora do subúrbio de NY em que vive. Isto ao mesmo tempo em que transforma-se na porta-estandarte de um modo de pensar o heroísmo que parecia longe da inclinação dos millenials dos quais faz, assumidamente, parte. O que parece ser "too good to be true" é, na realidade, um grito dos criadores a favor da diferença, do multiculturalismo, da multi-religiosidade, num tempo e numa era onde o que parecia estar assegurado afinal não está. Um mundo que parecia estar a caminhar para uma assumida pluralidade de pontos de vista, mas que o terrorismo e o ressurgimento de políticas menos globalizadas e fracturantes puseram em causa essa mudança de paradigma. Kamala representa a busca desesperada para respeitar-mo-nos nas diferenças sem pregar mensagens, antes as mostrando de forma discreta mas vivida. Aliás, este tipo de narrativa é fruto da forma como os autores G. Willow Wilson e Adrian Alphona constroem a história mas é também fruto de uma filosofia: pregar não funciona, tornar relacionável, sim.

O sucesso de Kamala não se ficou pelas terras do Tio Sam e exportou-se para a França, por exemplo, onde esta BD venceu a Fauve d’Angoulême 2016 – Prix de la Série. Num país que, como os EUA, também partilha dos mesmos problemas sociais, raciais e religiosos, Ms. Marvel é muito mais que relevante. Também dentro do universo fictício da Marvel, Kamala tem elevado o seu estatuto, não só pela participação em grupos de super-heróis como os Vingadores e os Campeões (Champions é mesmo uma das mais interessantes séries da Marvel neste momento) mas essencialmente pela sua filosofia em relação ao heroísmo. Ms. Marvel é uma BD sobre e para millenials misturada com heroísmo old school. Uma combinação que é mais do que perfeita: é necessária.

O que vou lendo! Monstress vol. 1 - The Awakening de Marjorie Liu e Sana Takeda

O género super-heróis açambarca uma percentagem significativa de vendas de Banda Desenhada nos EUA desde há muitas décadas. É o produto por excelência da BD das terras do Tio Sam, o que vende mais, o que conseguiu, ao longo de sete décadas, numa mistura de qualidade, sensibilidade pop e puro entretenimento, controlar o mercado de vendas. Não obstante, foram muitas as editoras a tentar subverter este quase monopólio. Uma delas é a Image, que começou, na década de 90, pelos super-heróis, com sucesso relativo. Mais recentemente, entre meados da primeira década do século XXI e o início desta, apostou num caminho bem diferente, o da diversidade temática e liberdade artística. Paulatinamente, foi adoptando autores com visões particulares, que vieram partilhar obras únicas no mercado, um pouco na senda e na herança do que a DC Comics fazia com uma sua imprint, a Vertigo. Desta Image nasceram Saga de Brian K. Vaughan e Fiona Staples, East of West de Jonathan Hickman e Nick Dragotta, entre muitas outras coisas. Foi ganhado velocidade, sucesso a sucesso (mas, ainda assim, relativo, tendo em consideração o ainda controlo absoluto por parte dos super-heróis), e multiplicando o número de pessoas a quererem cerrar as suas fileiras e a trabalhar as suas próprias criações. Acima der tudo, não só continuou a abrir o caminho do Autor, no sentido mais francês do termo, como diversificou a oferta ficcional e narrativa na BD dos EUA.

Eis que surge um novo produto Image, Monstress, das autoras Marjorie Liu e Sana Takeda, uma obra que mistura sensibilidade Comic com Mangá, num mundo de fantasia construído de raiz com riqueza carnavalesca. Liu e Takeda conseguem, com esta narrativa, criar um mundo que, apesar da vestimenta sobrenatural, respira e parece tão real quanto o nosso. Perdem tempo a construir história, facções, geografias, num processo de worldbuilding na mesma veia de Tolkien ou George R. R. Martin, apenas para citar os dois exemplos mais conhecidos popularmente. Este é um mundo ao estilo Renascentista e Steampunk, com inclinação romântica e aventureira e com personagens essencialmente femininos (outra das "manias" da BD dos EUA é ser feito por homens e para homens). Todos dançam a dança da guerra, da Sombra que se aproxima, do confronto entre povos e facções diferentes, emersos numa Cosmogonia que as autoras constroem com veracidade e solidez. É rico em palavras e em desenho, sendo que o trabalho de Takeda, especificamente, ainda que a necessitar um pouco de melhor construção narrativa (o ritmo nem sempre é vencedor), é forte o suficiente em design de personagens e cenários e carrega a narrativa de Liu. Os protagonistas, apesar de pareceram pouco mais que arquétipos de Fantasia, aguentam-se graças ao trabalho das autoras e à novidade que este tipo de história representa (pelo menos para mim) no catálogo da Image. Novidade essa que é bem vinda tendo em consideração o que referi no primeiro parágrafo.

Monstress cheira a novidade e a perspectiva diferente. Não deverá ser só de super-heróis e testosterona que a BD dos EUA deve viver. Eu, que gosto deles, agradeço.

O que vou lendo! Espero Chegar em Breve de Nunsky

Nunsky, português, regressou recentemente de uma sabática para voltar a produzir BD para a Chili com Carne, estando a passar por um feliz momento de desenfreada produção artística. Em 2015, deu-nos uma das melhores obras da 9.ª Arte desse ano, Erzsébet, bem como Najda - Ninfeta Virgem do Inferno, que demonstravam, para quem não o conhecia (como eu), uma amplitude de registo louvável. Em 2016, parece querer continuar e, desta vez, tenta a adaptação de um conto de Philip K. Dick, conhecido, reconhecido e muito adaptado autor de Ficção Científica dos EUA, designadamente a obra de título original I hope I shall arrive soon.

Espero Chegar em Breve é a história de Victor Kemmings e de como desperta, erradamente, de um sonho criogénico enquanto viaja para um planeta onde espera reiniciar a vida - junto com uma maior comunidade. Para que possa sobreviver aos 10 anos em que terá de permanecer fora do sono salvador, a Inteligência Artificial (IA) que gere a nave e o suporte de vida tenta ocupar a passagem de tempo com recordações agradáveis da vida de Victor. Contudo, a psique do protagonista insiste em desvios na narrativa agradável ao, de forma recorrente e paranóica, continuar a regressar a traumas e manias também elas existentes no passado.  A IA procura, repetidamente, corrigir o percurso do delírio mas sem grande sucesso, ao ponto do desespero (hilariante) do computador. A obra é uma deliciosa inversão da IA perseguidora, trocando os papéis: quem inflige o terror é o protagonista a si mesmo.  Philip K. Dick demonstra, uma vez mais, que as suas narrativas de Ficção são muito mais que uma colecção de tecnologias e seres extra-terrestres, procurado discorrer filosoficamente, psicologicamente, sobre o ser humano e as suas deficiências. A sua intemporalidade e transversalidade são perfeitamente justificadas neste conto.

Nunsky demonstra, uma vez mais, a sua qualidade, ao adaptar-se ao estilo e exigências da história, com uma cuidada estruturação da narrativa e uma adaptação de estilo. Nos momentos em que isso é exigido, o autor dança entre a sombra e a luz, num equilíbrio que já o caracterizava na adaptação da depravação de Erzsébet Bathóry. Numa obra onde as emoções são o mais importante, Nunsky consegue veiculá-las de forma clara, recorrendo à simplicidade de contornos e ao minimalismo de expressão. A palavra, usada de forma ampla, não é, contudo, redundante. Os diálogos são necessários onde o são e a expressão viva dos personagens serve como complemento ou como o elemento mais importante daquele momento da narrativa. O conto é partido de forma clara, conseguindo discorrer por todos os momentos de evolução da narrativa de forma eloquente. 

Este autor português consegue a proeza de justificar o seu regresso, insistindo em ser um dos melhores a trabalhar na 9.ª Arte. 

O que vou lendo! - Demon de Garth Ennis e John McGrea vol. 1 e 2



Muitas vezes lemos um determinado autor, gostamos dele e a curiosidade é grande para investigar obras anteriores, se não for novo nessas lides. Tudo para reproduzir o prazer através de um segredo que, até aquele momento, era escondido de nós. Não foi exactamente o que aconteceu com estes dois livros mas o sentimento é bastante parecido.  Isso porque estamos a falar de Garth Ennis, escritor, e John McGrea, desenhista, que, há duas décadas, deram-me uma das minhas histórias favoritas: Hitman. Aliás, é nos capítulos coleccionados nestas duas compilações (Hell's Hitman e Longest Day), que esse personagem criado por ambos aparece pela primeira vez. Contudo, a série Demon não é sobre Tommy Monaghan mas antes um capítulo na trágica história de Jason Blood e do demónio que é o seu castigo há mais de 10 séculos, Etrigan. Blood e Etrigan não ocupam o mesmo espaço mas trocam de lugar quando a necessidade a isso o obriga. A troca é realizada através de um poema, um cântico de evocação, que arrasta o demónio do fundo pestilento do Inferno e conjura-o em toda a sua eloquente, majestosa e terrível forma para infligir terror ao mundo. Criado por Jack Kirby na década de 70, é um dos filhos deste autor com a DC Comics e um daqueles deliciosos conceitos que pairam na periferia do catálogo da editora e no qual, de vez em quando, um autor coloca as mãos, por iniciativa própria ou porque a isso é convencido.

O Demon de Jack Kirby já tinha sofrido uma espécie de renascimento quando o também famoso Alan Moore o incluiu na saga que apresentou o autor aos EUA, Swamp Thing. Graças ao talento do escritor, muitos personagens sobrenaturais da DC Comics foram vistos de um prisma diferente, atemorizante e sobrenatural, e ganharam fãs que provavelmente não tinham. Dessa run nasceu uma nova DC, mais voltada para o estranho, para o místico, e com a recém-adquirida sensibilidade nasceria a Vertigo de Karen Berger e o Sandman de Neil Gaiman, apenas para citar os mais relevantes. Garth Ennis acabaria por produzir para a Vertigo um dos maiores êxitos da imprint, Preacher, mas não antes de provar-se com este Demon, onde o seu muito especial ponto de vista nota-se já de forma sublinhada.

O escritor escocês é conhecido por uma verborreia colorida e viva. Os seus personagens são geralmente sádicos ou sociapatas em diferentes estados de gravidade da doença, revelados não só pelos actos mas também pela tal capacidade de Ennis em produzir diálogos eloquentes e fluídos, não recomendáveis a crianças.  O escocês tem uma talhada apetência para o universo demoníaco trazido das profundezas infernais e para a tragédia patética que é a dupla Jason Blood/Etrigan. As situações que cria para ambos estão muito longe de qualquer rótulo super-heroístico que lhe quiséssemos colar. São desconfortáveis e mais perto de medo primordial do que da esperança que alguns super-heróis deixam transparecer. Disso são prova o cenário destas histórias, o recanto mais sombrio do universo DC, Gotham City, a cidade do Batman, mas também o envolvimento de Demon noutras sagas da tapeçaria da editora: Ennis agarra em enredos da saga de Alan Moore para Swamp Thing e também num particular desenvolvimento no Sandman de Neil Gaiman. Para os fãs e conhecedores, o facto desta revista envolver-se nos labirintos destas histórias míticas é, já de si, motivo suficiente para despertar a curiosidade, mas Demon de Garth Ennis e John McGrea é mais que isso. É a revelação de dois autores a começar uma parceria que produziria dois dos mais interessantes frutos da DC Comics da década de 90: este mesmo Demon e Hitman. Os enredos destas duas compilações, que coleccionam todo o trabalho dos autores no personagem, envolvem a alma negra de Gotham City, Nazis renascidos à conquista do IV Reich, o nascimento dos filhos de Jason Blood e Etrigan, as conspirações deste último para agrilhoar o primeiro e a tentativa de conquista do Inferno pelos exércitos do Paraíso - sim, leram bem, não me enganei.

Demon é prelúdio e prova do talento de Garth Ennis e John McGrea, da perenidade das criações de Jack Kirby, da diversidade do catálogo da DC Comics e da qualidade das criações na década de 90 para a editora. Uma pérola.

O que vou lendo! Injection vol. 2 de Warren Ellis e Declan Shalvey

Warren Ellis é escritor de Banda Desenhada há mais de duas décadas e foi o culpado por histórias tão emblemáticas e históricas como Authority Planetary, ambas da editora Wildstorm, agora pertencente à DC Comics. Estas duas obras são conhecidas de muitos leitores de BD estado-unidense, pois representaram uma mudança de paradigma, paradigma esse que pode não ter-se iniciado com a sua publicação mas que cristalizou-se nela. Authority, especificamente, ajudou a consolidar um nicho, o da BD de super-heróis adulta, ao estilo  de cinema blockbuster, que não perdia de vista o maravilhamento reminiscente da Idade de Prata, que fazia, à altura, falta no género.  Este ressurgimento já se tinha iniciado em obras como Kingdom Come de Mark Waid e Alex Ross, Astro City de Kurt Busiek e Brent Anderson e JLA de Grant Morrison e Howard Porter, mas Warren Ellis continuou e acrescentou mais uma linha de sofisticação. 

Esta sofisticação muito deve-se à sua assinatura autoral, patente em cada linha de diálogo e no mise en scéne, se assim o podemos chamar, que Ellis impõe aos desenhadores com quem trabalha e que ajudam ao reconhecimento de uma obra sua. A escrita é, na falta de uma palavra melhor, "eficiente", não só na parcimónia com que usa as palavras, como na intenção como são debitadas pelos personagens. Existe urgência em Ellis, que obriga os protagonistas a afirmarem-se como afinadas máquinas de personalidade. Mas desenganem-se se disto concluem que são bidimensionais. Na realidade, os personagens de Ellis são profundamente Ellisanos, geralmente anti-sistema, disruptores do status quo e, acima de tudo, furiosamente independentes - Spider Jerusalem de Transmetropolitan é um dos melhores exemplos, Appolo e Midnighter de Authority outro, ainda que por razões diferentes (são o primeiro casal abertamente gay na BD de super-heróis). 

Nesta nova obra, Injection, estão espelhados os trejeitos de Ellis. É impossível não abrir as páginas desta singular obra e não reconhecer, apesar dos desenhos de  Declan Shalvey, que estamos a ler Warren Ellis. Existem organizações governamentais secretistas e marginalmente ditatoriais que observam, nas sombras, o desenrolar da acção. Existem os personagens "eficientes" que, desconfio, são um reflexo do autor. E existe outra mania: as verdades ocultas do mundo (leiam Planetary ou mesmo Nextwave). Neste segundo volume, essas verdades não são ainda claras mas parece estarmos perante uma curiosa junção de Inteligência Artificial criada pelos cinco protagonistas, cientistas e ocultistas à procura do futuro, com um Outro Mundo, esse místico e parte da Anciã Infraestrutura do Mundo. Esta mistura entre o tecnológico e sobrenatural é também marca de Ellis, revelando um (para nós) estranho britanismo - aliás, esta é também uma obra sobre a Grã-Bretanha e os seus antigos mistérios.

A editora Image insiste em continuar a publicar algumas das mais interessantes obras no panorama da BD dos EUA e, desta vez, escolheu Warren Ellis, um dos mais antigos e conceituados escritores desta arte. Injection ganha com este segundo volume, em clareza de enredo e intenção, conseguindo transformá-la numa das favoritas do momento.

O vício do mês - versão Novembro de 2016



Já são muitos anos a virar frangos. Desde os cinco anos de idade a ler Banda Desenhada em geral e de super-heróis em particular. Começou pelo Homem-Aranha e progrediu para todos os outros. Transformou-se em mais do que um vício, que continua até hoje. Todos os meses desloco-me à minha loja de BD favorita e de lá venho com A Pilha. Alguns dos livros dessa pilha leio com mais prazer do que outros, é verdade, mas leio tudo . A lista em baixo é a deste mês.

Este mês continuamos com algo diferente. As duas maiores editoras de BD dos EUA, DC e Marvel, estão sempre metidas num evento qualquer. É um vício do qual não conseguem escapar. Pode não ser uma guerra, mas pode ser uma crise. Pode não ser um renascimento, mas é algo completamente novo e diferente. Por isso e porque, de facto, a DC está no meio do seu Rebirth e a Marvel metida numa Guerra Civil, decidimos voar sobre estes dois eventos e ver como se saíram. 

O Renascimento da DC


Action Comics #965-966 da DC Comics
Batman #08-09 da DC Comics
Cave Carson has a Cibernetic Eye #01 da DC Comics
Detective Comics #942-943 da DC Comics
Doom Patrol #01-02 da DC Comics
Justice League #06-07 da DC Comics
Shade, the Changing Girl #01 da DC Comics
Superman #08-09 da DC Comics
Trinity #02 da DC Comics
Wonder Woman #08-09 da DC Comics
Wonder Woman 75th anniversary special #01 da DC Comics

Já passaram quatro meses desde que começou o branding DC Rebirth. As vendas têm sido um sucesso. A DC Comics tem superado a Marvel, todos os meses, em unidades vendidas e total de receita. É um feito que não é inaudito mas que, ao longo dos mais de 50 anos de saudável competição, tem acontecido de forma parcimoniosa. Passados esses quatro meses, no que a mim diz respeito, o sucesso é sublinhado e, mais, aplaudido. A DC está de volta (até agora). Esta frase não a digo sem propósito. Quem se recorda da DC da segunda metade da década de 80 , toda a de 90 e a primeira do século XXI, lembra-se de uma editora em que cada canto do seu universo possuía um sabor e cheiro diferentes. A imprint Vertigo, ao início, admitia que as suas histórias passavam-se no universo partilhado mainstream mas procurava linguagens e narrativas mais sobrenaturais, psicadélicas, surreais e alternativas. Existiram, nestas décadas, coisas tão eclécticas como Hitman, Question, Demon, The Spectre, Starman, Major Bummer, Chase, Chronos. A DC experimentava nem sempre com sucesso mas experimentava. E era delicioso. Parece que esta editora está de volta.

Começo com a estreia do mês: a imprint Young Animal (YA) com três títulos a lembrar uma Vertigo em início de carreira. Doom Patrol  de Gerard Way e Nick Derington é um sucesso a todos os níveis. Faz lembrar a versão desta mesma revista por Grant Morrison mas com um pouco menos de surrealismo e com desenhos muito melhores. Os dois primeiros números são de narrativa coerente mas sem perder a pitada de surrealismo que parece ser o caminho que o escritor quer seguir. É umas das minhas BD's favoritas da pilha do mês. Outra vitória da YA é Cave Carson has a Cibernetic Eye. Não só vai ao fundo do baú dos personagens esquecidos e estranhamente deliciosos da DC da década de 60 como o faz com a panache dos tempos modernos e (novamente) com deliciosos desenhos (de Michael Avon Oeming). O argumento sai da parelha Way e Jon Rivera e promete ser daqueles comics a ler logo que se recebe a encomenda do mês. Menos prometedor (mas, mesmo assim, interessante) é Shade, the Chaging Girl, onde revisitamos um conceito e personagem da Vertigo da segunda metade da década de 80. Peca por diálogos demasiadamente truncados e desligados que não facilitam a leitura. Ainda assim, há que dar oportunidade a tão deliciosas incursões pelo diferente. 

No lado mainstream da DC deste mês há que continuar a destacar o trabalho superlativo de Rucka, Sharp e, este mês, da brasileira Bilquis Evely, na sempre eterna Wonder Woman. O número da dupla Rucka/Sharp é especialmente fabuloso, com uma sequência desenhada de forma suave e etérea pelo segundo e com uma interpretação apaixonante de Diana. O trabalho da brasileira no Ano Um, com protagonismo dado à vilã Cheeta, é uma boa promessa para os números que aí vêem, agora que substituirá Nicola Scott como desenhadora principal. Este mês, como bónus para fãs e não só, houve o especial de 75 anos do personagem, com um conjunto desequilibrado de histórias que talvez não valha a pena para os que não são dedicados à Princesa Amazona.

Os títulos Batman e Detective Comics continuam a saga do Cavaleiro das Trevas e dos seus ajudantes, numa das mais interessantes sequências de histórias da memória recente, principalmente no segundo título, o melhor dos dois. Depois de despachar a saga dos Homens-Monstro (num crossover com Nightwing de qualidade acima da média), voltam ambos os títulos à programação normal, com novos desenhadores e renovado entusiasmo. De facto, tenho de reconhecer que é muito difícil não encontrar autores que nada tenham a dizer em relação ao universo do Batman. Mais desequilibrado continua o canto do Super-Homem. De um lado temos Superman de Peter Tomasi (este mês com os desenhos de Doug Manhke), que continua a desenvolver a relação paternal do Homem de Aço com o seu filho de forma quente e entusiasmante. O Action Comics de Jurgens não é maravilhoso mas também não desanima completamente. Como já referi em posts anteriores, vive muito do saudosismo de trabalhos anteriores. Finalmente, a completar os títulos que parecem projectar a DC para um futuro risonho, temos Trinity, que aproveita a projecção derivada do filme Batman V Superman ao reunir num único título a Mulher-Maravilha, o Super-Homem e o Batman. O trabalho de Francis Manapul ainda que não totalmente inspirador é seguro e parece-nos guiar para uma história interessante e divertida. 

A desanimar cada vez mais está a Justice League de Brian Hitch. Decididamente, o desenhador não tem a mesma qualidade como escritor e, todos os meses, a mais poderosa a interessante das equipas de super-heróis da DC é uma oportunidade perdida. Volta Geoff Johns que estavas tão bem e temos tantas saudades. A continuar assim não terei outra escolha que não seja desistir do título. 

A segunda Guerra Civil da Marvel


Avengers #14 da Marvel
Civil War II #06 da Marvel
Champions #01 da Marvel
Dr. Strange #12-13 da Marvel
Ms. Marvel #12 da Marvel
Spider-Man / Deadpool #10 da Marvel
Spider-Woman #12 da Marvel
Ultimates #12 da Marvel

A segunda Guerra Civil continua a assombrar uma parte dos títulos da Marvel mas já com menos incidência (a bem ver, era para já ter terminado, não fossem os atrasos e extensão da mini-série).  O título da editora que se destaca neste mês é, sem duvida, Spider-Woman de Dennis Hopeless. Muito à semelhança do número cinco da mesma revista (ler Vício do mês de Abril) é em momentos de ponte entre mega-eventos e aventuras super-heroísticas que o escritor brilha. Este mês sente-se menos a ausência do desenhador Rodriguez ao ver o trabalho de Veronica Fish, a que parece ser a nova colaboradora de Hopeless. 

A mini-série Civil War II prossegue a passos largos para a conclusão (que muitos já conhecem devido ao referido atraso), continuando com o entretenimento certeiro de Bendis e Marquez mas com um pouco menos de entusiasmo neste mês.  Uma das revistas sistematicamente prejudicada pela ligação a este evento é Avengers. Mark Waid é um dos grandes escritores de super-heróis desde há mais de duas décadas mas esta constante interrupção da progressão natural das suas histórias não tem contribuído para uma run equilibrada. O trabalho deste autor em Champions é um pouco superior mas ainda não brilha com aquele fulgor que quem o lê desde sempre sabe que Waid tem. A força dos protagonistas desta revista, exclusivamente populada pela nova geração de super-heróis da Marvel, é aquilo que mais contribui para uma leitura suficientemente entretida - Kamala Khan é uma das melhores coisas a sair da editora nos últimos anos e aqui, uma vez mais, temos prova disso. Aliás, a presença da heroína em Champions equilibra um mês menos interessante na sua revista homónima, Ms. Marvel. Apesar de termos a apresentação de um novo super-herói muçulmano, esse evento não compensa a ausência de Takeshi Miyazawa nem uma história menos robusta.

Do lado do continuem-assim-e-não-estraga temos Spider-Man/Deadpool e Dr. Strange. Este último está a atravessar uma das melhores fases de sempre do mestre das artes místicas, pelas mãos de Jason Aaron e Chris Bachalo, o que não deixa de vir em boa altura, já que existe uma maior percepção pública do herói graças ao filme que está agora nas salas de cinema. Finalmente, Ultimates. Apesar destes dois últimos números não continuarem de forma satisfatória o trabalho superlativo dos primeiros dez, este ainda aparece quando a história afasta-se do evento Guerra Civil II. Este número prepara caminho para um novo número 1 no próximo mês (volvidos apenas 12 deste - esta mania da Marvel já cansa. Daqui a uns anos ninguém conseguirá acompanhar as muitas iterações de novos números um a cada virar de esquina). Espera-se o regresso à qualidade do costume.

O que vou lendo! - Criminal, Wrong Time, Wrong Place de Ed Brubaker e Sean Philips

Quando vi o quatro episódio da série de TV Westworld reconheci, entre os escritores, um nome: Ed Brubaker. Alguém que conheço de ler nas páginas da Banda Desenhada a escrever algo para além da 9.º Arte é sempre um prazer, principalmente para ele mas também para nós. Neste mundo do século XXI, da imagem em movimento, da informação digitalizada disponível em pequenos ecrãs que carregamos para todo o lado, neste mundo ascendem, por via desta tecnologia, novas artes ou, pelo menos, novas formas de abordar antigas artes. A série de TV transporta para o pequeno ecrã a narrativa, a capacidade de contar histórias, e a BD faz o mesmo, apenas com imagens estáticas. Quer uma quer outra arte são recentes, principalmente se as colocamos no contexto das anciãs e sempre eternas Prosa, Poesia, Dramaturgia. Contudo, gosto de pensar que são mais que complementos ou substituições, são evoluções, iterações de uma mesma intenção, a tal de contar uma história. Ed Brubaker faz parte dos contadores, dos trovadores, que manipulam a arte da narrativa e aplicam-na a diferentes meios. O curioso no caso deste autor (e em todos, se virmos bem as coisas) é não esquecer-se do passado, antes inspira-se nele e reproduz, nos dias de hoje, obsessões presentes desde sempre em várias artes. O escritor é um incontestável fã do noir, abordagem que já teve nomes e histórias sonantes ao seu serviço, a maior parte delas conhecidas de quem vê cinema ou aprecia histórias de detectives conturbados e violentos mas honrados.

Ed Brubaker e Sean Philips são colaboradores de longa data. O trabalho conjunto dura à décadas e é testemunho da sua total sincronia que o continuem a fazer sem perder qualidade. Criminal é uma série da editora Image onde ambos dão vazão à veia noir, expelindo pequenos contos de redenção e pecado (muitas vezes nesta ordem) que envolvem os mais diferentes protagonistas possíveis. Não existe padrão excepto o da tragédia do crime, o da repetição de padrões de destino. Os personagens são homens e mulheres conturbados, omissos à lei e à ordem, envolvidos em situações violentas e das quais a única solução implica empregar mais e mais violência. Não que Criminal seja o tipo de narrativa a sobejar testosterona. Antes falamos de violência rápida e incisiva, direccionada, pessoal, e, por isso, mais trágica. Depois, claro, Brubaker e Philips lidam com as consequências e causas dessa violência, principalmente por via dos seus personagens. 

Nos dois contos interligados deste Wrong Time, Wrong Place acompanhamos um pai e um filho. No primeiro conto, o progenitor terá de lidar como uma azarada incursão na prisão. No segundo é a vez do filho lidar com a vida criminosa do pai, na melhor das duas narrativas. Uma das curiosidades destas duas histórias é a introdução de BD's imaginadas ao estilo da década de 70 e que fazem lembrar outras como Conan, o Bárbaro e uma curiosa mistura de Master of Kung Fu e Homem-Aranha

Criminal  é sistematicamente uma das mais consistentes obras de qualidade a sair da imaginação de Brubaker e Philips. Este sétimo não é excepção. 

Vício do mês - versão Outubro de 2016




Já são muitos anos a virar frangos. Desde os cinco anos de idade a ler Banda Desenhada em geral e de super-heróis em particular. Começou pelo Homem-Aranha e progrediu para todos os outros. Transformou-se em mais do que um vício, que continua até hoje. Todos os meses desloco-me à minha loja de BD favorita e de lá venho com A Pilha. Alguns dos livros dessa pilha leio com mais prazer do que outros, é verdade, mas leio tudo . A lista em baixo é a deste mês.

Este mês vamos tentar algo diferente. As duas maiores editoras de BD dos EUA, DC e Marvel, estão sempre metidas num evento qualquer. É um vício do qual não conseguem escapar. Pode não ser uma guerra, mas pode ser uma crise. Pode não ser um renascimento, mas é algo completamente novo e diferente. Por isso e porque, de facto, a DC está no meio do seu Rebirth e a Marvel metida numa Guerra Civil, decidimos voar sobre estes dois eventos e ver como se saíram. 

Action Comics #963-964 da DC Comics
Batman #6-7 da DC Comics
Detective Comics #940-941 da DC Comics
Justice League #4-5 da DC Comics
Superman #6-7 da DC Comics
Trinity #1 da DC Comics
Wonder Woman #6-7 da DC Comics


O Renascimento da DC

Jim Lee e Dan Didio , editores chefe da DC, afirmaram na Comic Con de Nova Iorque deste ano que, na do ano passado, tinham tido uma revelação. Num painel dedicado a todas as coisas DC notaram o desinteresse dos fãs. Muitos abandonavam a apresentação. Claro que sou cínico o suficiente para ter a certeza que o que os alertou não foi nada mais que o insucesso financeiro. Assim, e com o contributo mais do que essencial da mente criativa de Geoff Johns, decidiram devolver à DC o seu sentido de legado e a sua larga história. Daí surgiu Rebirth, um evento mas também um conceito-chapéu, no qual procuram devolver a quintessência dos seus muitos personagens. O sucesso comercial tem sido arrebatador.

Começo, como sempre nestas coisas, pelo melhor: Wonder Woman, a minha Diana, a nossa Mulher-Maravilha. Como afirma o escritor Greg Rucka, finalmente todos os outros começam a perceber porque nós, os fãs, tanto admiramos este personagem ficcional. Muito deve-se ao actual trabalho do autor na Princesa Amazona que, emparelhado com os desenhos de Liam Sharp e Nicola Scott, continua a redefinir a origem de Diana, desenvolvendo, de forma singular, a concebida há trinta anos por George Pérez e Greg Potter (que, claro, agarrava no molde de William Moulton Marston). O meu lado favorito deste renascimento.

Os dois outros membros da Santíssima Trindade, Super-Homem e Batman, não ficam muito atrás da nossa Princesa. O primeiro foi quem mais beneficiou do renascimento já que os seus títulos sofriam de falta de direcção, sendo mesmo dos mais fracos, com autores e editores que pareciam não saber o que fazer com o Homem de Aço. Dos dois títulos, Superman é assumidamente o mais interessante. Uma das características particulares dos personagens DC é que crescem, casam, têm filhos. Para personagens tão icónicos, mudanças deste gabarito são sempre um risco, principalmente porque há que manter os rios de dinheiro em merchandise (a Marvel tenta, há algum tempo, evoluir e manter as características do seu mais icónico personagem, o Homem-Aranha, ao nível de este ser, actualmente e a meu ver, uma pálida imagem do que era). A DC não teve medo de dar um filho ao Super-Homem e ao Batman, ao ponto de, em breve, os irmos ver a partilhar a mesma revista. O trabalho de Tomasi, Gleason e Manke no título homónimo do Super-Homem é um dos mais interessantes deste Rebirth. Já o Action Comics sobrevive graças ao factor nostalgia, não só porque tem capitalizado no regresso de conceitos saudosistas como do trabalho do homem responsável pela morte do Homem de Aço há mais de 20 anos, Dan Jurgens. É um título agradável, sem dúvida, mas, até agora, sem chama.

O Cavaleiro das Trevas, por sua vez, não necessitava de melhorar. O trabalho de Snyder e Cappulo foi dos mais memoráveis no personagem e Tom King não o veio melhorar - até piorou um pouco. Contudo, o nível alcançado pela equipa anterior era tão elevado que qualquer descida era quase inevitável. Assim, a revista Batman continua a ser uma leitura bem entretida mas longe do nível de Snyder. O ponto alto parece estar a vir do trabalho de Tynion e Barrows no Detective Comics. Este mês, para além da qualidade habitual, teve o benefício de engrossar o mistério por detrás das maquinações macro-cósmicas de Rebirth e de continuar o crossover dedicado aos homens monstro. Uma das grandes vitórias da DC.

E depois existe o título, iniciado este mês, que reúne os três maiores ícones da DC num único tecto: Trinity. Manapul prova ser capaz de suportar o peso de lidar com tão importantes personagens, começando de forma serena ao invés de optar por ameaças titânicas. Abre as hostilidades com um singelo jantar organizado pela mulher do Super-Homem, Lois Lane, e decide centrar-se na essência da personalidade e menos no poder dos punhos e nas acrobacias super-heroísticas.

No pólo oposto da Wonder Woman está, desoladamente, a Justice League. A escrita de Hitch ainda está muito aquém da promessa que o seu talento (como desenhador) deixa adivinhar. Resta o interesse de, aparentemente, esta primeira história contribuir para a macro-tapeçaria de Rebirth. Será que já temos o título para o evento que ocorrerá daqui a dois anos? Será o nome Forever Crisis?

Avengers #13 da Marvel
Civil War II #5 da Marvel
Dr. Strange #11 da Marvel
Hercules: Gods of War #3-4 da Marvel
Karnak #5 da Marvel
Ms. Marvel #11 da Marvel
Spiderman #8 da Marvel
Spider-Man / Deadpool #9 da Marvel
Spiderwoman #11 da Marvel
Ultimates #11 da Marvel


Mais outra Guerra Civil na Marvel

Na Marvel a palavra mote é Civil War II. Começou por ser algo que capitalizava no filme do Capitão América: Civil War mas, enquanto este de guerra civil tinha muito pouco, já a da BD assume-se como tal. A mini-série com o mesmo nome é, até ver, uma franca vitória em qualidade - e, como já o disse em posts anteriores, superior à primeira. Este número, apesar de ser uma longa sequência de combate entre os antagonistas, é bem arquitectada por Bendis e Marquez que conseguem olear quer as batalhas primárias quer secundárias.

Das séries que acompanham este evento, continuo a destacar Ms. Marvel e Spiderman. Ambas apresentam franca qualidade e dignificam estes sucessores de outros grandes nomes do panteão dos personagens Marvel. O primeiro, principalmente, tem sido uma revelação todos os meses, firmando o desenvolvimento da personalidade de um dos mais encantadores personagens a sair desta editora nos últimos tempos. Por seu lado, Spiderwoman desanima não só porque perdeu o desenhador mas também porque a escrita e enredo não são interessantes. Hercules: Gods of War fecha de forma pouco satisfatória uma revista que prometia quando foi lançada à menos de um ano. Esperava-se mais do trabalho do escritor Abnett. Finalizando as revistas ligadas a Civil War II temos o Avengers que continua a exibir, por enquanto, uma qualidade desequilibrada, com meses melhores (os desligados do evento) e outros piores (sim, os ligados, como este). Apesar de tudo, a nova Vespa, foco deste número, parece ser, nas mãos do escritor Mark Waid, um personagem a vigiar. 

Das revistas que seguem o seu próprio caminho, destaco Dr. Strange, Karnak e Spiderman/Deadpool. A primeira continua o excelente trabalho do escritor Jason Aaron, que, com uma muito sua aproximação à escrita do mestre das artes místicas, cultiva o interesse num personagem difícil de escrever. A escolha de enredo de diminuir os poderes ao quase-omnipotente Dr. Estranho, apesar de pouco original, graças ao seu talento, acaba por brilhar. Também graças à qualidade da escrita de Warren Ellis, outra revista desequilibrada, Karnak, consegue um número interessante e ao puro estilo do autor ao, finalmente, revelar algumas rupturas no monólito que é a personalidade deste personagem.  Spiderman/Deadpool, nas mãos de Joe Kelly e Ed McGuiness, é puro entretenimento pop.

Acabo no título com o qual começava os meses anteriores: Ultimates. Não, não está mau, nada disso e longe disso. Mas estava à espera de mais, principalmente neste capítulo que conclui parte da história que contavam desde o primeiro número. Acredito que muito deve-se ao facto de Rochafort não ter desenhado a totalidade do capítulo. E também acredito que a história ao ser lida sem interrupções mensais ganhe (ou perca) alguma dimensão. Independentemente disto tudo, estava à espera de mais. Os finais são muitas vezes cruéis quando a expectativa é elevada. 

Sandman: a matéria da qual os sonhos são feitos.

A partir do próximo dia 6 de Outubro, numa parceria jornal Público e editora Levoir, no integra e pela primeira vez em Portugal, será publicado o Sandman de Neil Gaiman. Este é, junto com a colecção Novelas Gráficas II, o acontecimento editorial do ano no que à publicação de Banda Desenhada em terras lusas diz respeito. Esta BD é uma das minhas favoritas de sempre e o sétimo volume, Vidas Breves, é mesmo um dos mais importantes livros da minha vida. Corram a reservar os vossos exemplares. Deixo-vos com umas palavras que escrevi há uns anos sobre esta obra-prima não só da BD como da Literatura (só assim, sim, sem mais nada).




No final da década de 80, a casa mãe de personagens tão famosos como o Super-Homem, o Batman e a Mulher-Maravilha, a DC Comics, vivia uma profunda revolução no formato da narrativa dos seus personagens. O ano de 1986 (considerado por alguns como o melhor ano da História da BD Americana) foi palco de importantes eventos nesta casa editorial, com histórias como Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, The Dark Knight Returns, de Frank Miller, e Crise nas Terras Infinitas, de Marv Wolfman e George Pérez. As duas primeiras foram responsáveis pela assumida maturidade desta Arte, a terceira pela reformulação do universo de super-heróis da DC Comics. Neste panorama destacou-se a Senhora Editora Karen Berger, que tinha como missão recrutar novos autores para que, com novos prismas, com diferentes pontos de vista, ajudassem a revitalizar a velha casa, seguindo a linha de Watchmen e The Dark Knight Returns, que haviam atingido impressionante sucesso crítico e comercial. Berger procurou do outro lado do oceano nomes que lhe pudessem ajudar nessa tarefa, à semelhança de Alan Moore e Dave Gibbons, ambos ingleses. Dentre esses autores surge um jovem de nome Neil Gaiman, que viria a transformar-se num dos nomes mais sonantes da chamada “invasão britânica” dos Comics. 

A ideia para Sandman surgiria de uma única imagem concebida pelo autor e da liberdade criativa que Karen Berger deu a Gaiman. Ofereceu-lhe carta branca para usar o nome de um personagem obscuro da década de 70 detido pela DC e, a partir dele, criar universos e conceitos completamente novos. Assim, da tal imagem de “um homem, novo, pálido e nú, prisioneiro numa cela, à espera que os seus captores morram (...), morbidamente magro, com longo cabelo negro, e estranhos olhos” nasceu a história do Senhor dos Sonhos, o de muitos nomes, Dream, Morpheus, Sandman (em português o João Pestana). A sua publicação começaria em Outubro de 1988, duraria 75 capítulos até 1996 e viria a transformar-se numa das mais premiadas séries de BD de sempre, arrebatando honras fora do mundo dos Comics como o World’s Fantasy Award em 1991 e o New York Times Best Seller List

A importância de Sandman não pode ser menosprezada. Não só introduziu a primeira série longa de autor com um princípio, meio e fim (na altura, um feito raro numa Arte controlada pelas intermináveis telenovelas dos super-heróis), como daria origem a uma Imprint da DC, a Vertigo, liderada por Karen Berger, que seria a residência dos mais idiossincráticos trabalhos de autor, e que mesmo hoje continua a ser das maiores e mais literárias referências do panorama criativo da BD mundial. Sandman seria também uma das primeiras BD americanas em que as colecções dos seus capítulos (serão 11 no total na edição da Levoir) acabariam por tornar-se volumes sempre disponíveis, ajudando à percepção de tratar-se de um trabalho finito e de autor.

A série foi também palco para o aparecimento de inúmeros outros personagens, tão famosos como o protagonista, dos quais obviamente destaca-se a irmã mais velha, Death, uma antropomorfização sexy, gótica e infinitamente sábia da Morte, que ajudaria a cimentar a profunda visão pessoal de Neil Gaiman. Os pedaços de sabedoria debitados pelas aparições esporádicas deste personagem são parte de algumas das mais memoráveis passagens da obra. 

Gaiman não limita-se a ser um mero contador de histórias, ainda que o execute de forma exímia, antes imprime uma qualidade intelectual até ao momento com muito poucos exemplos na BD dos EUA. As frases que saem quer da boca dos seus personagens, quer das longas descrições que ocorrem amiúde nos vários capítulos, são profundamente citáveis, mantras capazes de transformar ou sintetizar vidas e pensamentos (existe mesmo um livro chamado “The Quotable Sandman: Memorable Lines from the Acclaimed Series”). Independentemente de todas as hipérboles que possam tecer-se acerca do trabalho de Gaiman em Sandman a realidade é que trata-se de uma obra sem par, que não só inspirou a carreira de inúmeros autores como também marcou a vida de leitores de diferentes gerações. O meu livro favorito de sempre é Brief Lives, o sétimo da colecção, um dos poucos a que regresso inúmeras vezes para procurar um pouco de encanto.

O que vou lendo! - A Asa Quebrada de Antonio Altarriba e Kim

É curioso que o catalão Antonio Altarriba, escritor deste livro, tenha sido chamado à atenção para escrever sobre a sua mãe. No ano passado e na primeira iteração desta fabulosa colecção da Levoir, Novelas Gráficas, foi lançado em Portugal A Arte de Voar, pelos mesmos autores. Nesta obra, o escritor decide contar a história rocambolesca da vida do pai, retratando a mãe não só como uma personagem coadjuvante mas também como alguém negativo na vida do progenitor. Numa conferência sobre o livro alguém da audiência pergunta a Altarriba uma simples questão: "então e a sua mãe?". O facto de nunca ter-se dado conta desta "falha" e, posteriormente, de a reconhecer, acaba por estar patente no início deste A Asa Quebrada. No leito de morte da mãe (ambos os livros começam com o falecimento dos progenitores) é revelado a Altarriba uma deficiência física da mãe que ninguém, nem ele nem o pai, haviam se apercebido em tantos anos de convivência conjunta, deficiência essa que ela tinha desde nascença. Este apontamento (que de apontamento não tem nada) serve como prólogo para um livro que retrata a vida não só da mãe, mas das mulheres de uma forma geral, nesta sociedade ibérica, católica e ditatorial - estamos a falar de boa parte do período franquista. Numa sociedade altamente machista.

Enquanto a vida do pai parecia um redemoinho de política, militarismo e revolta social, parecendo mais do que um mero observador das várias evoluções em terras espanholas, este A Asa Quebrada fica nos arrabaldes dos eventos. A mãe trabalha de forma sempre afincada e honrada, funcionando como o mecanismo que faz a máquina da evolução social funcionar. Tudo de forma discreta e diligente. É também neste livro que vimos muito mais do próprio Altarriba. Porque nos focamos na mãe, a presença do autor, na sua juventude, é mais ubíqua o que, em si, é um forte comentário ao papel do homem e da mulher nesta sociedade da qual Portugal faz também parte. Desenganam-se os que acham que Altarriba elabora algum tipo de discurso panfletário. O escritor "limita-se" a ser documental - as aspas servem para enfatizar que, sim, reconheço existir sempre trabalho na escolha do que se relata. De facto, nenhuma das escolhas que faz são "meramente factuais". Enquanto em A Arte de Voar dividia os capítulos em períodos temporais na vida do pai, aqui espartilha a vida da mãe em homens, figuras masculinas relevantes na vida da sua progenitora. Obviamente que tendo em consideração a temática subjacente ao livro esta divisória é muito mais irónica que factual.

Altarriba, com o trabalho também absolutamente essencial do desenhador Kim, fecha assim um díptico sobre a vida de quem o trouxe ao mundo o que, obviamente, é sempre um relato também sobre ele mesmo. 

O que vou lendo! - Parque Chas de Ricardo Barreiro e Eduardo Risso

Na Folio deste ano, festival literário de Óbidos, o autor islandês Jón Kalman Stefánsson afirmou que o Realismo Mágico "está em todo o lado". Esta corrente literária está associada principalmente a autores da América do Sul como o famoso e brilhante Gabriel García Marquez, mas o islandês diz que no seu país desde há muito que ela ali existe. Por causa da sazonal falta de sol inventaram histórias e mitologias para assim subverter e entender a realidade do dia-a-dia: "Surgiram os Elfos e outros seres fantásticos. Temos poucos habitantes. No século XVIII, quase nos extinguimos. Nós contámos essas histórias para sobreviver. Agora chamam a isso realismo mágico…". Contudo, não se fica por aí: diz que a Bíblia ela própria é um exemplo de Realismo Mágico. Não parece exagerado. Se estendermos ainda mais a geografia e recuarmos mais no tempo, A Ilíada de Homero, obra fundadora do mundo ocidental, mescla o fantástico com a brutalidade da sangrenta Guerra de Tróia. Desde cedo, o Homem procura fazer sentido do lógico (ou ilógico) do Real através do Fantástico. Verdade que existe uma grande diferença entre os 100 Anos de Solidão e O Senhor dos Anéis mas, no essencial, não andarão à procura de uma mesma coisa? 

Outro dos conceitos que chamaram-me a atenção no discurso de Stefánsson foi a questão do Determinismo Geográfico. Num país onde o Sol desaparece durante largos meses, onde a dureza do clima e das temperaturas é constante, onde a escuridão não é um mero conceito literário, os islandeses inventaram Elfos. Apesar de o Parque Chas não ser uma geografia natural (o Determinismo Geográfico a isso obriga), a orografia urbana do bairro de Buenos Aires é ela própria, numa inversão cativante, propensa à invenção de histórias, de mitologias. É disso que Barreiro e Risso, ambos argentinos, aproveitam-se para construir uma Banda Desenhada que é, ao mesmo tempo, parte Realismo Mágico e parte crónica social. Os autores aproveitam para contar uma história de entretenimento e comentário político, misturando, para o efeito, o fantástico e a ficção científica com os arruamentos de um bairro labiríntico da capital Argentina. 

Risso é bastante conhecido, no que a mim diz respeito, pelo seu trabalho nas fabulosas 100 Bullets e neste Parque Chas tem um estilo mais detalhado e menos noir. Não deixa, contudo, de ser apropriado e apenas revela a versatilidade do desenhador. A história é também ela labiríntica e recorre a uma prosa por vezes floreada ao ponto da distracção. Não tira prazer à leitura mas fica a sensação de que alguma contenção não seria descabida. O que acaba por acontecer nos últimos capítulos, os da resolução do enredo, em que o escritor parece adquirir maior "confiança" no desenhador.

Parque Chas é, ele próprio, uma entidade viva, um bairro cheio de identidade que Barreiro e Risso aproveitam para construir uma Banda Desenhada que procura encontrar o Mito dentro do Real. Uma boa companhia nesta colecção de BD da editora Levoir, Novelas Gráficas.

Vício do mês, versão Setembro de 2016






Já são muitos anos a virar frangos. Desde os cinco anos de idade a ler Banda Desenhada em geral e de super-heróis em particular. Começou pelo Homem-Aranha e progrediu para todos os outros. Transformou-se em mais do que um vício, que continua até hoje. Todos os meses desloco-me à minha loja de BD favorita e de lá venho com A Pilha. Alguns dos livros dessa pilha leio com mais prazer do que outros, é verdade, mas leio tudo . A lista em baixo é a deste mês.

Action Comics #961-962 da DC Comics
Batman #04-05 da DC Comics
Detective Comics #938-939 da DC Comics
Justice League #02-03 da DC Comics
Superman #04-05 da DC Comics
Wonder Woman #04-05 da DC Comics
Avengers #12 da Marvel
Dr. Strange #10 da Marvel
Ms. Marvel #10 da Marvel
Scarlet Witch #09 da Marvel
Spider-Man #07 da Marvel
Spider-Man / Deadpool #08 da Marvel
Spiderwoman #10 da Marvel
Ultimates #10 da Marvel


Já irrita, não é?!

Quem tem a paciência de ler este meu vomitado de ideias sobre as BD's de super-heróis que leio todos os meses já sabe que os destacados são tão repetidos que enjoam. Ultimates de Ewing e Rochafort é dieta cósmica de proporção omnisciente. São deuses enjaulados por entidades de fúria multiversal. São super-heróis ridiculamente poderosos e eficientes sem capacidade de resposta às ameaças. É muito do que gosto em super-heróis.

Outra personagem que todos já sabem ser a minha favorita é a Diana, a Mulher-Maravilha, a Wonder Woman. Nas mãos, imaginação e reverência de Rucka, Sharpe e Scott não estava tão bem há uns meses  - desde Azzarello, que o casal Finch me perdoe. Andamos entre o passado e o presente, a investigar uma versão conhecida e desconhecida da nossa princesa.  Está muito bem escrita e desenhada e recomenda-se.

Acho que Acho que também já irrita estar assim tão bem

Não estão no Olimpo mas quem dera a muitos serem assim. Do lado da minha favorita DC, parece que o regresso às bases que sempre fizeram esse universo ser único está a resultar.  É o Rebirth e, dos títulos que leio, Batman, Superman e Detective Comics estão com equipas criativas a debitar aventuras interessantes e empolgantes. Continuo com as reservas dignas de quem já vira frangos há muitos anos mas, ao mesmo tempo, a criança que me obriga a lê-los todos os meses está bastante entusiasmada. Os títulos do Cavaleiro das Trevas são, de forma geral, melhor escritos e desenhados mas a revista homónima do Super-Homem não deve envergonhar-se. Tomasi e Gleason provam, uma vez mais, que os dois maiores ícones da DC com filhos não é um erro e antes uma evolução natural e certeira. 

Do lado da Marvel, e apesar de continuarem a intersecção com o evento/mega-história Civil War II, os títulos não descolam-se da qualidade. Falo de Avengers, que o escritor Mark Waid parece estar a conseguir agarrar de forma mais independente dos ditames editoriais, falo de Ms. Marvel, uma das melhores revistas publicadas pela editora, falo de Spider-Man, Spider-Woman e Scarlet Witch, que este mês decidiu pausar um pouco a história normal mas sem soluços. Apenas Dr. Strange e Spider-Man/Deadpool são cartas fora do baralho Civil War II e prosseguem as suas histórias com a mesma qualidade e com a mesma equipa criativa. Tanto uma como outra concluem os primeiros arcos de história de forma convincente e divertida. 

Ai que estás quase, quase, quase a ir

É injusto para o trabalho de Jurgens no Action Comics estar debaixo deste toldo. Nunca foi um enorme escritor e sempre navegou as águas da terra do meio. O seu regresso ao super-herói que lhe deu nome é carregado de nostalgia e muito disso consegue aguentar o enredo. Contudo, não estou seguro que consiga levar este barco por muito tempo. A ver vamos.

A maior decepção da minha Pilha de Rebirth está a cabo da Justice League de Hitch e Daniel. Por enquanto, sabe a pouco mais do que uma versão diluída em (muita) água da Liga da Justiça escrita por Grant Morrison. A grandiloquência e verborreia tonitruante do escritor escocês é difícil de copiar, para não dizer impossível. Morrison não limitava-se a colocar a Liga contra ameaças impossíveis à escala cósmica, ele convencia-nos disso com palavras a beirar o teatral. Ewing nos Ultimates consegue-o refugiando-se no seu estilo e, portanto, afastando-se de comparações exageradas. Hitch ainda não. Pode ser que nos próximos meses melhore.

Presas Fáceis de Miguelanxo Prado

Sempre achei que existe uma ligação entre a Estatística e a Arte. Será apenas na minha cabeça e, mesmo nela, é labiríntica. A Estatística é, de forma muito simples, o levantamento exaustivo ou amostral de informações de diferentes naturezas e sobre elas apurar tendências, padrões, realidades, através de diferentes métodos quantitativos. A Arte não tem definição fácil mas pode ser, entre tantas e tantas coisas, uma das formas que nós, enquanto Humanidade, encontramos para lidar e interpretar o Real. A primeira tem a capacidade de ajudar a sintetizar este Real, de ajudar a perceber de onde veio e para onde, tendencialmente, poderá ir. A média é um dos seus métodos mais utilizados mas não é o único e está longe de ser o mais complexo. Mas qualquer que seja a volta que dêmos à Estatística o individuo é, na maior parte das vezes, dissolvido na multidão do total ou da amostra. A Arte permite-se ser diferente. A Arte pode agarrar na média, no desvio padrão, na excepção, na regra, analisar uma, muitas, todas, tudo cozinhado com narrativa e com ponto de vista e voilá.  Se o talento e a sorte foram muitos ou apenas apropriados então teremos uma obra que revela tanto do Real quanto a Estatística. Essa revelação está longe de ser quantitativa ou, se quiserem analogias arquitecturais, uma linha recta. Mas é nesse emaranhado que reside o Belo e o Verdadeiro - um dos verdadeiros, não O verdadeiro. Eu bem vos disse que a relação era labiríntica

Presas Fáceis é o mais recente livro de Miguelanxo Prado e foi lançado em Portugal na fabulosa colecção Novelas Gráficas II, que está a sair junto com o jornal Público todas as quintas-feiras. Conta uma história plenamente imersa no actual zeitgeist. A crise financeira de 2008 arrastou consigo múltiplas consequências que afectaram de forma variada as populações. Como é sempre nestes casos, são os mais frágeis os que sofrem mais, os alvos fáceis dos predadores. Uns chamariam a isso Darwinismo. Prado não. O enredo mistura, como o próprio autor o afirma, casos reais com ficção, começando no suicídio de um casal de idosos e continuando numa investigação policial envolvendo o assassinato em série de altos quadros de vários Bancos da Galiza, terra natal do autor. O posicionamento de Prado, ainda que dissolvido pelas perguntas que levanta através da narrativa, não parece deixar muito espaço para dúvidas. Deixo ao vosso cargo descobri-lo, mas envolve a tal tangente entre Estatística e Arte.  A tal capacidade que uma e outra têm em interpretar o Real, em o destilar. A tal forma de ver que cada um de nós escolhe. Porque a nossa Humanidade, a nossa Empatia, reside, por vezes, na relação que temos com os acontecimentos, que pode ser estatística e/ou artística. 

Não sendo, para mim, um dos melhores trabalhos do autor, não deixa de ser uma obra ímpar e de leitura obrigatória. A escolha do preto e branco é particularmente feliz e a capacidade de Prado em contar uma história  é cativante e fluída, como não poderia deixar de ser. 

O Homem que é normal - Terras dos Sonhos e L'Homme Qui Marche de Jiro Taniguchi


Jirô Taniguchi vê o mundo como todos nós e, ao mesmo tempo, de forma tão singular. Ler um livro deste autor japonês de Banda Desenhada é mergulhar no mundano, no de tal forma corriqueiro que perguntamo-nos: só isto? Onde está a poesia? A grandiloquência? A arte? Está lá tudo, não duvidem, disfarçado pela patina do normal, do banal dos dias que passam sem notícia digna de jornal. Pode ser apenas um homem que encontra um cão, decide levá-lo para junto da sua esposa, cuidam dele e, anos mais tarde, o animal morre. Pode ser um homem que ama caminhar ao ponto de perder um dia de trabalho por causa disso. 

O delicioso passar das horas nos dias calmos pode parecer pouco interessante para qualquer obra de arte ou de entretenimento. Uns lêem Taniguchi e nele não vêem nada de especial. Para mim, é exactamente nesta calmaria que ele se enche de mestria e de arte. Os quadradinhos e as páginas sucedem-se de forma fluída e enchem este leitor de paz e de alegria por poder ver e rever algo maior no simples abanar das folhas das árvores ou de um encontro fortuito. O maior não tem necessariamente de ser divino ou de ser uma epifania. Se acreditam no banal e no real podem encontrar em Taniguchi alguém que partilha da vossa poesia. Mas se acreditam numa força mais pura e animal, a da mãe natureza, também podem ler Taniguchi e sentirem-se preenchidos. Nessa mistura que é, no fundo, o de encontrar o belo na rotina e nos pequenos prazeres, reside muito do que faz este autor uma das enormes referências da 9.ª Arte. 

Adorado em França, onde foi descoberto para a Europa, a sua sensibilidade é um pouco a deste nosso continente, mas sou dos que acreditam que ela deve-se  muito mais ao país de origem, à leveza com que interpretam e vivem o dia-a-dia, à aproximação que fazem entre o natural, o religioso e o tecnológico. Taniguchi destila esse saber-estar de forma cândida. Um mestre em todos os sentidos que atribuo à palavra e estes dois livros são prova disso: Terra dos Sonhos, publicado em Portugal pela Levoir, e L'Homme que Marche, editado em Portugal em 2005 numa parceria da Devir com o Correio da Manhã.