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Filmes favoritos baseados em BDs (parte 1 de 2)

Esta é uma lista pessoal, como não poderia deixar de ser. Misturam-se inclinações, preferências, uma pitada de coração, algum cérebro e, acima de tudo, a vontade de os querer rever sempre. Seguem em baixo, por ordem alfabética.

Podem consultar aqui uma lista de todos os filmes, passados e futuros, baseados em BD. Escusado será dizer que vi apenas uma pequena parcela deles.

300 de Zack Snyder (2006)

Zack Snyder é um dos realizadores mais polarizadores para os fãs de BD. Existem os que odeiam o seu trabalho e outros (como eu) que gostam da forma com que trabalha personagens e livros da 9.ª Arte.

Lady Macbeth de William Oldroyd

(para quem estiver interessado, o realizador estará presente hoje, dia 20 de Julho, na Sala 4 do Cinema Monumental em Lisboa, para falar sobre este seu primeiro filme) 

Desenganem-se os que se guiam pelo título. Este filme não é sobre a conhecida esposa do Macbeth da peça de teatro de Shakespeare. Esta mulher, como o realizador o diz, não é movida pela ambição de poder. Esta é uma jovem, em fins do século XIX na Inglaterra rural, forçada a casar-se com um homem vários anos mais velho e a habitar uma casa, quase em forma de clausura, e a ser pouco mais que um pedaço de mobília e uma produtora de prole para prosseguir o nome da família na qual se casou.

Baseado no romance homónimo do russo Nikolai Leskov, este é um filme sobre mulheres. Sobre a revolta que as força a serem mais do que o destino aparentemente lhes reservou. Mas também é sobre uma pessoa, uma personalidade, e o modo espontâneo como reage ao seu mundo e ao seu tempo.  Como se uma mulher moderna se rebelasse contra a prisão onde via-se obrigada a viver. Uma rebelião violenta, assassina, de moralidade questionável. Uma explosão de individualidade, de querer viver, que quebra as barreiras da justiça e do correcto. Uma busca incessante por liberdade, por liderança no próprio destino, mesmo contra o bom senso. Nessa força libertadora encontramos a Lady Macbeth do titulo (a personagem chama-se Katherine). Uma força da natureza, cruel, apática à moral, apenas com um intuito: ser ela própria, viver e não apenas sobreviver.

Esta é a primeira longa-metragem de William Oldroyd, realizador vindo do Teatro. Mas a passagem para a 7.ª Arte é feita sem soluços, como se o palco o tivesse preparado, de forma exemplar, para o Cinema. Existe atenção ao trabalho do actor mas também ao décor, ao mise en scéne. Cada plano é estudado sem o parecer, como se a câmara procurasse, sem pensar, a forma perfeita para ali estar. Não existe banda sonora que, o realizador afirma, serve para que o espectador não tenha refúgio emocional ou indicador de como deve pensar. A interpretação das acções das personagens deve ser decidido pelos códigos de cada um que as vê.  A cor é fria, gelada. Sentimos o vento do norte de Inglaterra, como na Escócia de Macbeth. Uma frieza apropriada à tempestade que é a personalidade de Katherine, um prodígio de trabalho da actriz Florence Pugh, cujos olhos não escondem, desde o primeiro momento, a rebeldia, o desafio e a luxúria de viver.

Um extraordinário filme sobre a rebeldia feminina, sobre a luta contra a clausura.

Forushande (O Vendedor) de Asghar Farhadi

Asghar Farhadi, realizador de origem iraniana, tem, nos últimos anos, conseguido cativar a atenção dos apreciadores de cinema (e mesmo da academia de Hollywood) com filmes pertinentes.  Uma Separação e O Passado falavam já de uma ruptura necessária na tradição islâmica, principalmente no que respeita ao papel da mulher. Tal como acontece com as suas protagonistas, essa cisão tem de ser feita de forma discreta e quase não assumida e, acima de tudo, com a complacência e a anuência natural dos companheiros. Nesse sentido, Uma Separação e este O Vendedor acabam por ser faces de uma mesma questão, a questão de que a mulher, enquanto ser livre, tem a sua liberdade constantemente posta em causa, não tanto pelo que faz mas pela forma a que se vê obrigada a proceder de modo a evitar escândalo e a "vergonha" - muitas vezes sua, sim, mas também a do seu marido.

Tal como com Uma Separação, a história deste novo filme de Asghar Farhadi roda em torno de um jovem casal iraniano, ele professor, ela doméstica, ambos colegas de uma companhia de teatro amador. Depois de um curioso acontecimento que os obriga  a procurar uma nova casa para habitar, algo desastroso ocorre na vida de ambos. Algo que envolve a integridade física da esposa. A forma como ela e ele lidam com esta mesma situação são reflexo de uma cultura em que o tratamento desigual do sexo feminino é uma realidade, mas também é reflexo da força deste sexo frente a um evento que significa (taxativamente) mais para ela do que para o seu marido.  O que parece distinguir o realizador é a construção de uma narrativa que não se escusa ao comentário mas fá-lo de forma subtil e segura, deixando a história descrever tudo o que tem a dizer, pela limpeza dos acontecimentos que se seguem uns após os outros sem serem forçados a ser alguma coisa que não a sua própria verdade. Não existe nada de transcendente mas existe algo de realista e forte.

O Vendedor de Asghar Farhadi é um filme sobre mulheres e sobre o que uma cultura opera, de forma subtil, no seu comportamento. É um filme apropriado para este presente e um aviso para o futuro.

I, Daniel Blake de Ken Loach

Tenho um desafio para quem quiser ver este filme: sair da sala sem sentir uma enorme carga de emoção que pode (ou não) acabar em lágrima (claro que não se forem homens de barba bem rija). I, Daniel Blake venceu a prestigiada Palma D'Ouro de Cannes deste ano de 2016 o que não aconteceu por acaso. Sim, é um filme profundamente político mas, neste caso, a política é aquela que interessa, a ligada ao Homem, ao Humano. Claro que podemos vê-lo da sua perspectiva demagógica, aquela que, através da história do homem que empresta o nome ao título, procura denunciar um sistema de segurança social moralmente falido (já é a segunda vez, em dois posts, que uso este termo) e cuja função essencial, a de proteger os mais fracos, não é de forma alguma atingida. Mas, como pessoas, somos obrigados a ver a tragédia de Daniel Blake e de todos à sua volta de uma perspectiva diferente, de uma escala mais, desculpem o termo, mundana. Esta é a história de uma pessoa (ou mais que uma, se queremos ser exactos) a quem um sistema de ajuda do estado, considerado de forma consistente como uma das grandes vitórias do pós-segunda guerra, não funciona. Não funciona porque, na incessante procura de uma professa eficiência e justiça, falha no seu único objectivo máximo, ao confundir as árvores com a floresta. Um único número de segurança social não significa nada face ao somatório desse com todos os outros. Aqui reside a trágica ironia: não somos indivíduos mas antes números de uma estatística de médias.

Um homem, já na terceira idade, tem um ataque cardíaco e enceta uma dolorosa demanda por ajuda do estado, o mesmo que, à revelia de profissionais de saúde efectivos, nega-lhe uma pensão enquanto recupera para poder voltar a uma vida produtiva (a recusa é feita através do que aparenta ser uma empresa privada subcontratada). A busca de Daniel Blake é similar à tortura de Sísifo, aquele que no Tártaro é obrigado, durante a eternidade, a empurrar uma pedra montanha acima. Esta minha analogia não procura credenciar o filme com qualquer tipo de pedigree clássico ou de reverência a elevada literatura. Se há algo em que Ken Loach se excede é no carácter documental com que se aproxima dos protagonistas e dos eventos retratados. Esta não é uma história Skakespeareana vislumbrada por Deuses. Se existem Deuses, esses são bem terrenos e são Homens, detentores de poder discricionário sobre a vida de pares que repudiam como estatísticas da sua própria competência ou incompetência. Este é um atestado à inutilidade de um sistema onde seres humanos não conseguem ver outros em profunda dor e abandono. É particularmente difícil ver este filme sem uma carga gigante de lugares comuns porque é impossível não nos vermos ali, espelhados, muitos de nós, distantes daquele destino por apenas um ordenado.

Junto com Hell and High Water (que vi imediatamente antes deste em sala de cinema), I, Daniel Blake forma uma carta desesperada a um sistema que não serve quem vota nele e para quem ele deve trabalhar. É um apelo e um grito. Não é um filme político mas não consegue deixar de o ser porque, tal como é referido no Batman v Superman e perdoem o exagero, "todos os actos neste mundo são políticos". Ken Loach sabe disso e dessa sapiência constrói uma poderosa ficção em forma de documentário. Outro filme que me fez rever os meus melhores do ano.

Hell and High Water de David Mackenzie

Neste novo filme de David Mackenzie parece que os personagens que compõem o drama pouco mais são que fantasmas. Resquícios de uma era passada, à espera de passar o testemunho a uma geração nova, distraída do seu papel mas adaptada à nova realidade, qualquer que ela seja. Nas planícies de horizonte infinito do Texas, dois irmãos têm um plano que envolve assaltar diversos bancos de uma mesma empresa e pagar a dívida de um deles com esse mesmo dinheiro. Do outro lado da lei, estão dois polícias: um quase a atingir a idade de reforma e outro ainda longe disso mas já a sonhar com os preguiçosos dias da terceira idade. Obviamente que os segundos estão no encalço dos primeiros mas este está muito longe de ser um filme de polícias e ladrões.

Este é um filme sobre a crise económica de 2009, das consequências da mesma, dos bailouts de bancos e de todos os que sofreram com as prevaricações não vingadas daqueles que os geriam. Ironicamente, passa-se no estado do Texas, em vilas perdidas e abandonadas, onde pouco resta e nada sobra. Este é um filme de substituições. De como, por mais tempo que achamos que uma tradição dura, ela pouco representa no inabalável passar das eras. São referidos exemplos de forma repetida, como um mantra, de humanos que desapareceram, desde os homens das cavernas até os nativos dos EUA, agentes do tempo onde existiram e obsoletos na geração que se segue. É também de gerações que Hell and High Water fala, das que tentam que as próximas persistam, porque mais adaptadas. Das que, ao tentar, sublinham a sua própria incapacidade de adaptar-se e de subsistir num mundo novo que desconhecem. Um mundo novo que é o resultado dos destroços de um antigo em que acreditavam e que uma Crise (a tal de 2009) devastou. Essa é apenas a desculpa para, neste filme, falar de temas que são queridos, da devastação imposta por uns poucos a uns muitos, das injustiças criadas por um sistema bancário corrupto e moralmente falido. De como as vidas de milhões valem menos que a inabalável crença em instituições monolíticas úteis mas não tanto quanto quem as criou (nós, Homens, se querem mesmo ler as palavras). Tudo tecido por uma narrativa ironicamente devastadora:  roubar ao Banco para lhe devolver, pagando dívidas. Dificilmente poder-se-ia sintetizar a crítica mais forte ao sistema.

Este é um filme que segue a premissa "show, don't tell", tão querida pelo escritores, de forma magistral. Ao espectador é deixado espaço para concluir acerca da verdadeira narrativa do filme e das camadas que quer explorar. É tanto um dos melhores do ano que tive de refazer a lista dos filmes que mais gostei neste ano de 2016.

O filme que mais gostei em 2016 ou Cinema que mais gostei em 2016, o primeiro lugar do pódio

Alguém tinha dúvidas de que seria este? Aliás, como poderia ser outro? Existe uma gigantesca carga de subjectividade na minha escolha? Acredito que sim. Contudo, ser o meu filme favorito do ano não deve-se apenas a isso. Não é apenas um filme de culto. Acima de tudo, é de qualidade. É inesperado porque leva os super-heróis a sério (na 7.ª Arte) ao mesmo tempo que é uma tragédia clássica vestida com os cores garridas da cultura pop. Não tanto humaniza os personagens mas antes afirma que sempre foram humanos e, ao mesmo tempo, mais do que isso. Muito mais do que isso: são arquétipos com falhas no rosto. Frases como "a democracia é um diálogo" não são sublimes mas perfeitas no contexto da narrativa. Arriscou ser um filme sério sobre super-heróis. Para muitos falhou e pagou por isso - é odiado e vilificado por todos os críticos e mesmo por muitos fãs. Para mim foi um sucesso. O momento-chave, onde um nome salva e une estes dois personagens gigantes da cultura mundial, foi gozado. Para mim é sublime e operático, a coda perfeita de uma união inevitável. Não tenho nem quero ter desculpas a dar por gostar de Batman v Superman. Acredito que é uma obra-prima em qualquer arte e acredito que envelhecerá bem - já o vi cinco vezes e no Natal acontecerá a sexta. Já escrevi muito sobre ele e continuarei a escrever.

Cliquem na imagem em baixo para descobrir o que achei que achei dele. Mas antes dêem uma olhada nos filmes que são quase tão bons quanto este e que ficaram na terceira e na segunda posição do meu ranking de gostos (aqui admito, de peito aberto, a subjectividade, porque, na realidade, são tão bons quanto este).


Cinema que mais gostei em 2016, o segundo pódio

A semana passada foi a vez da BD de super-heróis e da Música. Esta é a do Cinema. Todos os anos fazem-se listas em que uns quantos (convencidos) falam do que mais gostaram de ver, de ler e de ouvir no ano que passou. Ontem, falei-vos dos que ocupavam o terceiro degrau do meu gosto. Hoje seguem-se os que estão no segundo. Reparem: todos os aqui enumerados são tão bons, mas tão bons, tão bons, que sou obrigado a dizer que são obras-primas. Acima destes só mesmo o filme que irá aparecer mais pela tarde (e os que me conhecem já sabem qual será).

Cliquem nas imagens abaixo para lerem o post onde achei o que achei à altura. Tal como ontem, a ordem não é nada mais do que alfabética.

 

 

 




Cinema que mais gostei em 2016, o terceiro pódio

A semana passada foi a vez da BD de super-heróis e da Música. Esta é a do Cinema. Todos os anos fazem-se listas em que uns (convencidos) falam do que mais gostaram daquilo que viram, leram e ouviram no ano que passou. Há semelhança do que fiz no ano passado, seguem-se, por nenhuma outra ordem que não a alfabética, os filmes que ocupam a terceira posição de um pódio imaginado - cliquem nas nas imagens para lerem o post onde achei o que achei à altura.


 



 

American Honey de Andrea Arnold

É este os EUA? Ou melhor... é este um dos EUA? O que se esconde por detrás dos motéis, nos parques de estacionamento feitos de betão gretado pelo sol? No ensopado de sangue dos pântanos entre estrada e indústria? Nos jactos de fogo que perpetuam luz ao lado de poços de petróleo? Nas vivendas de subúrbios abastados, frequentadas por cowboys de trazer por casa, com tempo e dinheiro a mais, passeando-se em descapotáveis e vestidos de branco? Nos subúrbios pobres onde as crianças sonham com o Homem-Aranha e com o Super-Homem enquanto as mães afundam-se em sessões contínuas de vício? Não sei que EUA é este a não ser que é um dos EUA e aquele do qual American Honey de Andrea Arnold conta a história.

Teen Road movie: género de valor próprio. Em American Honey são os adolescentes aqueles que saem à procura de dinheiro, numa sociedade que rege-se por quem mais o reproduz, por quem não é loser, por quem mais mente para o conseguir. A protagonista, Star, essa odeia a falta de sinceridade, a desonestidade, e tudo o que faz é revestido do brilho da verdade, nem que seja apenas a sua, nem que para isso tenha de recorrer a actos menos limpos. Nas estradas, onde corre os sangue da civilização, todos tentam ser indivíduos apesar de estarem perpetuadamente a afogarem-se na pesada pluralidade. Existem aqueles que conseguem sobreviver, baptizar-se, imergir renovados das águas. Para esses é escrito o conto de Star, que também vive uma história de amor, bela, conturbada e cheia de bom sexo, como todas as boas historias de amor devem ser. Isto e muito mais é American Honey, um dos grandes filmes do ano.

Filmado em formato quase quadrado, a realizadora admite emular fotos do Instagram e reduzir a escala à humana - tem dificuldades em perceber porque se usa o formato letterbox quando os actores, quando sós, não preenchem o enquadramentoAndrea Arnold é inglesa e filmou a América como ninguém, como Robert Frank a fotografou em The Americans. Andrea Arnold não gosta de atribuir intenções aos seus filmes. Faz bem. Isso é para o espectador. Ela tem "apenas" de continuar a dar-nos obras destas.

Elle de Paul Verhoeven (Ela)

O que tem Isabelle Huppert que cativa tanto os realizadores? Sei que Paul Verhoeven não tinha em vista a actriz quando começou a trabalhar neste Ela mas, após várias tentativas, esbarrou em Huppert, que tomou conta do papel da protagonista, Michèlle. O curioso é que, no que a mim diz respeito, dois dos meus filmes favoritos do ano, este e L'Avenir, têm como actriz principal a maravilhosa Isabelle. A sua presença é, se não omnisciente, pelo menos omnipresente, a figura e os diálogos conquistam cada frame e cada enquadramento ao ponto de todos à volta serem pouco mais que coadjuvantes - mesmo quando o personagem não controla a acção. Não é por acaso que este filme se chama Ela, porque a narrativa navega por todos os caminhos da vida de Michèlle. É ela que guia cada passo da história porque é dela a história. Podem, claro, perguntar: mas não é sempre assim? Não sempre e não desta forma.

O primeiro plano logo disso nos informa porque vemos uma acto violento envolvendo a protagonista visto primeiro pelo véu do ecrã negro e, depois, pelos olhos de um curioso sujeito. Ao escolher o ecrã negro, Verhoeven  pode estar a dizer-nos que nenhum outro ponto de vista interessa a não ser o de Michèlle. Portanto, é nas consequências do acto bárbaro da primeira cena que devemos centrar a nossa atenção. E por consequência entendamos "o que Michèlle irá fazer". Quanto ao sujeito curioso (ou curioso sujeito) escuso-me a comentar porque deixo as conclusões à vossa liberdade. O filme, a partir daí, é uma profunda análise (fria, distante) à personalidade de uma mulher cativante, que consegue, na sua capacidade centrífuga, deslocar para si as atenções de todos à volta. Parte dessa inevitável atracção deve-se a eventos do passado mas, e aí reside um dos mistérios do filme, também à sua enigmática personalidade. Uma personalidade atraente, sim, mas estranhamente destrutiva, como (perdoem o lugar comum) uma força da natureza. É difícil perceber se estamos do lado de Michèlle ou não, porque a narrativa ziguezagueia pela vitimização e controle. Quem é Michèlle é uma pergunta que a princípio não colocamos de forma definitiva mas que, no final, forma-se em letras garrafais e sublinhadas. O que, na maior parte das narrativas, acontece ao contrário. Começamos pelo mistério e este resolve-se. Aqui começamos pelo mistério e ele adensa-se e nunca se revela (será?).

Verhoeven é o mesmo realizador de Robocop, Starship Troppers, Basic Instinct e Total Recall e este Ela não poderia estar mais longe de cada um dos mencionados. Não falo (nunca) de qualidade mas de temática. É um filme assumidamente europeu e francês, com uma actriz desse mesmo país com uma capacidade de risco raramente (ou nunca) visto nas senhoras de Hollywood. Parece que muitas recusaram-se a este papel e ainda bem porque dificilmente alguém tira o lugar de "melhor actriz do ano" à maravilhosa Huppert. Não só por este maravilhoso Ela mas também por outro grande filme, o já mencionado L'Avenir. Vão ver antes que saia das salas do cinema. 

Arrival de Denis Villeneuve (Primeiro Encontro)

(contém pequenos spoilers)

O tempo é a nossa maior prisão. Pode ser também  uma forma da natureza controlar os nossos ímpetos. Sem os limites do tempo quem sabe a que alturas ou profundezas poderíamos chegar. Às vezes gosto de concordar com Steve Jobs quando dizia que a maior invenção da vida é a morte - assim, a Humanidade pode evoluir e progredir, ao substituir o pensamento datado pelo moderno. Outras vezes gostava que existisse alguém com a capacidade de perceber e viver o tempo de forma muito diferente da nossa. Poderia viver muitos e muitos anos e chegar à conclusão que, apesar das formas diferentes, a Humanidade porta-se sempre da mesma maneira. Ou, então, como acontece neste filme, poderia perceber o tempo de forma não-linear, como se o início, desenvolvimento e fim de uma história acontecessem todos ao mesmo tempo, contribuindo para um propósito, esse, sim, o último objectivo do caminho.

Arrival é um OVNI. Um filme de ficção científica que não se refugia em tiros e pirotecnia para fazer valer a sua narrativa. Esses vamos deixar para daqui a umas semanas e para (o muito esperado) Star Wars: Rogue One. A história de Arrival começa de forma perfeitamente provincial: a chegada de 12 naves espaciais em vários pontos do mundo. Enquanto estas permanecem imóveis a pairar sobre diferentes geografias da Terra, os vários governos procuram formas de comunicar com os alienígenas. Uma professora de linguística, interpretada por Amy Adams (que até conhece bem o nosso Português), é convidada pelos serviços secretos dos EUA para ajudar na comunicação verbal com os visitantes - que, de forma bastante interessante, falam através de ruídos que têm mais em comum com os cânticos das baleias do que com a articulação de sílabas que nós utilizamos. Nas diferentes interacções, ela descobre que a forma mais expedita para comunicar involve letras, as palavras que formam e a ligação com pessoas, objectos e acções. Nesse diálogo descobrem o "alfabeto" dos extra-terrestres, alfabeto esse que envolve diferentes formas de círculos. Lembram-se do que escrevi no primeiro parágrafo? Da forma limitada com a qual nos apercebemos do tempo? Também a simbologia dos insondáveis alienígenas tem a ver com esse prisma. E, sinceramente, mais não digo, com risco de vos estragar o prazer da descoberta e da interpretação.

Arrival é um filme que recorre-se das roupagens da ficção científica para nos contar uma história profundamente Humana, principalmente sobre as nossas limitações enquanto seres sociais, universais e temporais.  É também um filme religioso no sentido mais metafísico do termo, não se coibindo de entrar pelo reino do esotérico (mas sem perder vista do científico) para nos contar a sua verdade. Da forma que apenas as grandes narrativas podem conseguir, Denis Villeneuve entrelaça emoção com pensamento de forma escorreita mas, ao mesmo tempo, e pela natureza da história, não-linear. Quem não se liberta de modos mais convencionais de narração pode sair defraudado com o filme. Quem está disposto a assumir que existem formas diferentes de perceber a realidade (mesmo que apenas uma que exista só nesta narrativa) pode sair da sala de cinema como eu, mesmerizado e apaixonado com um grande filme.

The Accountant de Gavin O'Connor (Acerto de Contas)

Quem afirma que Hollywood é, neste momento, pouco mais que uma colecção de gestores em busca do próximo franchise rentável se calhar não está muito longe da verdade. Contra mim falo quando digo que são os filmes de super-heróis em particular e os de BD em geral uma das grandes fontes de "inspiração" para novos filmes. Contudo, talvez por medo da fadiga do espectador, os ditos gestores procuram incessantemente por soluções alternativas. Na realidade, procuram a mesma coisa mas com uma forma diferente - e, se possível, menos custosa. Não há nada de mau com isso a não ser quando os sucessivos "produtos" (porque é disso que falamos) são de qualidade inferior e pouco mais servem do que satisfazer um específico grupo de idade ou de perfil cultural - se bem que, à medida que escrevo isto, percebo que estou a ser tendencioso, ou seja, quem sou eu para dizer o que as pessoas devem ou não gostar. 

Este relambório serve para introduzir o novo filme de Ben Affleck (é assim que a máquina de marketing o vende) que, ao contrário do que digo acima, não é, de todo, um filme mau. Muito pelo contrário. O enredo parece vir da cabeça de um adolescente com sonhos gerados pelo profundo da sua timidez (eu sei que pareço paternalista mas juro que não o estou a ser): um rapaz com Asperger  é criado por um pai militar para ser não só apenas funcional numa sociedade que sempre o julgará como "diferente" como uma arma de combate eficaz e mortífera. Devido à mente brilhante cresce para ser um contabilista de excepção mas que, paralelamente, faz muito mais que uma perninha como "Robin dos Bosques pós-moderno". Uma espécie de Batman meets Rainman - até imagino o argumentista a vender a ideia com qualquer coisa como isto.

O que poderia não funcionar e ser pouco mais que um produto generalista de acção acaba por não o ser. Muitos serão os factores com certeza. Os actores, passando por Affleck e Anna Kendrick, que carregam com enorme carisma personagens que, noutras mãos, seriam pouco mais que caricaturas. O realizador e o argumentista que trabalham de forma entretida por sobre o inverosímil da situação que eles próprios geram. Em suma, um filme que funciona, diverte, carrega-nos durante duas horas e faz-nos esquecer o que se passa "lá fora". No final, cria-se espaço para continuar. Talvez os deuses do franchise tenham sido simpáticos para com The Accountant (ironicamente, serão os contabilistas de Hollywood que decidirão o seu futuro). 

PS - Um dos momentos mais interessantes do filme é a colecção de arte do personagem de Ben Affleck. Para quem, como eu, não aprecia elitismo cultural, intelectual, social, que não gosta de quem se centra apenas num tipo de "gosto", acaba por ser um momento especial. 

Dr. Strange de Scott Derrickson (Dr. Estranho)

Já tinham ouvido falar do Dr. Estranho? Sim? Se não são leitores de Banda Desenhada, da Marvel e, mais especificamente, de super-heróis, então dou-vos os parabéns. Já agora, conto-vos um segredo: mesmo os experimentados podem não conhecer de forma aprofundada a personalidade e aventuras do mestre das artes místicas. O personagem apareceu, pela primeira vez, em 1963 graças à imaginação de Steve Ditko (desenhista credenciado como o principal criador) e de Stan Lee - ambos também os responsáveis pela criação do maior personagem da Marvel: o Homem-Aranha. A revista foi a Strange Tales número 110 e relatava a história de um cirurgião egocêntrico, Stephen Strange (a aliteração e referência on-the-nose é típica de Stan Lee), que sofre uma lição em humildade quando, vitima de um acidente rodoviário, perde o uso funcional das mãos, essenciais para a actividade que exerce. Na busca de medicinas alternativas que o ajudem à cura, encontra nos Himalaias um idoso de nome Ancient One que o guiará no caminho das artes místicas, abrindo caminho para que Strange transforme-se no Mago Supremo deste universo. Pela influência da estética de Ditko, as aventuras originais do Dr. Estranho são uma viagem alucinogénea por reinos psicadélicos onde as leis da nossa física não se aplicam. Infelizmente, o desenhador sai em confronto com Stan Lee mas, claro, o Dr. Estranho continua nas mãos da Marvel. Ao longo dos anos serão vários os criadores que trabalham nos labirintos esotéricos do mundo das artes místicas, com resultados de qualidade variante. Não será um personagem de publicação regular já que nunca é dos favoritos dos leitores da Marvel. Ainda assim é dos mais importantes do panteão da editora, o que claramente justificou a sua introdução no universo cinematográfico.

A produtora de filmes Marvel possui uma arte que tem auxiliado no sucesso dos seus filmes, isto apesar do relativo anonimato dos personagens: o casting. Foi a capacidade de perceber que Robert Downey JR era um Tony Stark/Homem-de-Ferro perfeito que catapultou o sucesso destes universos. Agora é a vez de Benedict Cumberbatch como Stephen Strange/Dr. Estranho. O actor britânico, com o seu carisma e talento, foi uma escolha mais do certa... foi óbvia. Ainda que a interpretação do Dr. Estranho escolhida seja bastante diferente da concebida por Ditko/Lee e por muitos dos autores que seguiram as suas pisadas, a mudança não choca, bem pelo contrário, parece melhorar alguns aspectos menos interessantes do original. Enquanto o Stephen Strange da BD era soturno, sério, como deveria ser um personagem que lida nas artes esotéricas e existenciais, este é cheio de humor, one-liners e tantos outros deliciosos momentos de riso - aliás, provavelmente é o mais humorístico de todos os filmes da Marvel competindo mesmo com o primeiro Avengers. Claro que os puristas podem sempre advogar que se era para ter uma versão feiticeira de Tony Stark mais valia não haver esforço. No que a mim diz respeito, ainda bem que decidiram tornar mais leve a personalidade de Stephen Strange sem, contudo, perder o mais importante aspecto da origem concebida pelos criadores: uma lição em humildade. Em todos os aspectos, Benedict é uma escolha fabulosa para a Marvel e, como já li algures na internet, "nasceu uma nova estrela". 

Mas não é só de Benedict Cumberbatch que o Dr. Estranho vive. Outra das escolhas deliciosas é Tilda Swinton como Ancient One, a mentora do protagonista, o mestre que o guiará na busca de redenção e de arte. Todo o poder e gravidade exigidos a um personagem destes são veiculados pela actriz, uma das melhores de qualquer geração. Por seu lado, Chiwetel Ejiofor faz de um competente Dr. Mordo, ainda que não seja uma revelação. Finalmente, chego ao velho problema dos filmes da Marvel: os vilões. Esse continua a não ter solução neste Dr. Estranho. Mads Mikkelsen é um dos grandes actores que fazem parte do elenco do filme (lembrem-se de A Caçada e Hannibal, a série de TV) mas, ainda que existam laivos de um passado trágico, o seu personagem não evolui muito para além do "antagonista que tem de ser derrotado". É muito mais competente que os inimigos bidimensionais do Guardiões da Galáxia ou do Homem-Formiga, para citar dois exemplos, mas, infelizmente, não demarca-se o suficiente. 

Uma das grandes vitórias deste filme são os  efeitos especiais. São usados de forma bastante criativa, emulando o trabalho de Ditko, outro de autores mais recentes que colaboraram com o escritor Brian Michael Bendis, e filmes como o óbvio Inception de Christopher Nolan. Indutores de vertigem, funcionam como viagens psicadélicas pela multitude de universos e realidades disponíveis à futura imaginação dos criadores do universo cinematográfico da Marvel. Infelizmente, do lado da realização continuamos no reino da normalidade quase tarefeira. Um filme da Marvel é sempre um filme da Marvel e, salvo pequenos pormenores, este continua a sê-lo. É uma marca e quem não gosta tem uma opção: não os ver. 

Dr. Estranho é dos filmes mais divertidos da Marvel (lá em cima com os Vingadores, no que a mim diz respeito) e um dos mais entretidos do ano. Benedict Cumberbatch é uma escolha certeira e bem-vinda aos super-heróis da 7.ª Arte. 

Café Society de Woody Allen

Nunca pensaram se têm uma época favorita? Um momento no passado onde achavam estar mais em casa? Esqueçam que a esperança média de vida era bastante inferior à de hoje. Não liguem ao facto de podermos morrer por um simples corte num prego enferrujado. Quando lemos um livro ou vemos um filme passado numa época de que gostamos muitas vezes esquecemos que um dos mais curiosos padrões de beleza era o facto de termos os dentes todos e direitos. Woody Allen já tinha falado disto no filme Midnight in Paris. Os personagens desse filme (que são sempre, de alguma forma, ele próprio) viajavam para épocas que consideravam ser melhores que aquela onde viviam. Contudo, descobriam que, afinal, as coisas não são nada assim. Em qualquer altura na História existe desejo por uma outra do passado, sempre idealizada. Em Café Society fica a sensação que Woody Allen esquece-se da lição de Midnight in Paris e mergulha de cabeça no saudosismo de uma época, neste caso Hollywood da década de 30.

Este filme é Allen vintage, com todos os tiques que lhe podemos atribuir, até com um sempre bom Jesse Eisenberg a fazer de Woody. Eisenberg representa um jovem judeu de Nova Iorque que viaja para Hollywood com sonhos de vencer na industria cinematográfica com a ajuda do seu tio, agente famoso na Tinseltown. No meio disso apaixona-se por uma bela moça, Kristen Stewart, e o resto são peripécias, gangsters violentos e trapalhões, concertos jazzone liners deliciosos, conversas cheias de duplo sentido e de palavras trocadas a 100 à hora. Em resumo, Woody a ser Woody e claro que não há nada de mau com isso. No que a mim diz respeito adoro e ver um filme do realizador de NY é, na maior parte dos casos, um prazer despreocupado e não desprovido de sentido. Pode parecer redundante o tema e a abordagem de Café Society à luz do que disse no primeiro parágrafo mas Woody Allen está numa época da sua vida (tem 80 anos) em que aparenta estar mais preocupado em ter prazer nas coisas e, no seu caso, ter prazer implica mergulhar naquilo que lhe dá gosto. 

Este é um filme sobre, entre com certeza muitas outras coisas, escolhas. Não só aquelas que fazemos mas, acima de tudo, aquelas que nos são impostas. Nisso é uma interessante obra sobre a idade, sobre o que fica por fazer e o caminho que poderia ter sido seguido. É verdade que não perde-se  nestas conjecturas, preferindo o puro prazer da diversão, mas, como em muitos dos filmes de Allen, existe uma pitada de agridoce nos seus personagens, um arrependimento que pede pela imortalidade e pela capacidade de podermos fazer todas as escolhas possíveis no cardápio. Fica ainda a sensação de algumas das escolhas serem feitas sem paixão, de que tivemos de nos contentar e, por causa disso, somos obrigados a, por vezes, trair aqueles de quem gostamos - mas não com amor ardente. Se isto não é Woody Allen eu não sei o que é. 

Boi Néon de Gabriel Mascaro - e The Witch

(repomos um post onde falamos do filme Boi Néon, estreado esta semana, e que recomendamos com muita veemência, amor e carinho. Não tenham dúvidas que é dos nossos filmes do ano)



Ir a um festival como o Indie é ficar com pena. Pena em como muitos dos filmes que temos a sorte de ver não poderão ser apreciados por mais espectadores. Porque não terão estreia comercial e, mesmo que a tenham, hoje em dia é impossível ver tudo o que aparece nas salas de cinema, por melhores que sejam as recomendações dos amigos. É o caso destes dois que tive a sorte de ver: The Witch: A New England Folktale de Robert Eggers e Boi Néon de Gabriel Mascaro.

Tinha ouvido falar de The Witch: A New England Folktale. Tratava-se de um filme de terror que, segundo as criticas e reportagens, não deixava ninguém indiferente, tal a experiência emocional e sensorial que oferecia. Para quem não sabe, sou completamente viciado em filmes de terror. O meu festival de cinema favorito em Lisboa é o maravilhoso MOTELx. Procurar reproduzir sensações como as que tive quando vi The Descent ou It Follows, apenas para falar de recentes, é uma busca constante. Quando soube da estreia deste no Indie, corri a comprar bilhete. 

Este é um filme de terror, sim, mas também de época. Passado na Nova Inglaterra de 1630, com uma piosa família de colonos ingleses nas terras ainda relativamente virgens do futuro EUA. A grande força deste filme, como em muitos dos bons de terror, reside na sensação de medo e na exiguidade de explicações. A omnipotente floresta é desenhada como uma barreira insondável do desconhecido e do primordial, ao mesmo tempo que guarda outros terrores, em partes iguais mundanos e demoníacos. A devota família é, membro a membro, "comida" pela escuridão. Contudo, nunca nos são dados a conhecer os detalhes do que se passa.  Todos os espaços ocultos do mistério terão de ser preenchidos pelo espírito inquiridor de cada um de nós. Não é um filme que tenha me entusiasmado da mesma forma que os dois que referi acima, mas tenho a impressão que, com o tempo e uma nova ida ao cinema, isso pode modificar-se.

Boi Néon é outro bicho. Filme recomendado por mais do que um site e jornal como sendo um dos grandes momentos do Indie. Novamente, a curiosidade era muita. A sensação de poder ver algo verdadeiramente novo é imprescindível no que a mim diz respeito. O título era maravilhoso tal como o enredo: um homem vagueia pela pobreza do nordeste brasileiro, acompanhando uma trupe que leva bois de rodeo em rodeo. Ao mesmo tempo que cuida dos animais e do espectáculo, procura na poeira e na lama forma de concretizar o seu sonho: ser estilista. A metáfora é óbvia: o belo encontra-se em todo o lado, não tem apenas roupagens engomadas e paisagens minimalistas.  Ele insiste em aparecer sempre e por todo o lado. Mas existe também algo mais do que apenas isso. Este é um filme brasileiro e não quer esconder isso. Um filme que se passa no nordeste brasileiro e não quer esconder disso. Assume-o nos corpos nus, quer pelas roupas rasgadas do uso, quer no sexo que, desprendidamete, acontece em cada canto, sem cama, quarto ou privacidade. Assume-o nas paisagens de poeira e nos anúncios desenhados nas rochas. Assume-o nas palavras dos protagonistas e nos actos desprendidos.  Assume-o na esperança. Este é um filme único e com uma assinatura bem desenhada. E, já agora, com uma das melhores cenas de sexo alguma vez filmadas no cinema. 

Snowden de Oliver Stone

Todos sabemos que, nesta era do digital, nesta era onde cada pormenor é convertido em linguagem lida por muitos aparelhos electrónicos, a privacidade é difícil de manter. O que se passa na realidade é que apenas o suspeitávamos. Até Edward Snowden ter divulgado o alcance da vigilância à nossa vida o conceito de ausência de privacidade parecia-nos marginal. Muitos de nós mantemos uma identidade que se multiplica pelas muitas plataformas da internet e do mundo digital. Temos os smartphones, o facebook, instagram, snapchat, whatsapp, messenger. Mesmo a "inocente" procura de informação no Google acaba por ser um indicador dos nossos gostos e inclinações. A nossa história de navegação do browser está ali, listada e investigável. Nos smartphones activamos os serviços de localização sem racionalizarmos que esse acto permite a gravação dos nossos padrões de mobilidade. Os cartões das nossas lojas favoritas gravam os padrões de consumo. Isto não é fantasia ou exagero. É a realidade. Procurem os tutoriais. O passo que faltava era alguém ter acesso imediato a esse panóplia esmagadora de informação e, sob a desculpa da segurança, advogar ser legítimo o acesso de forma livre e desimpedida. E, acima de tudo, fácil. Tão simples como o clicar de um botão. Foi isso que Edward Snowden nos revelou.

Não é difícil imaginar Oliver Stone a sentir-se atraído por esta história. O realizador sempre afirmou-se como contrapoder. Muitos dos seus filmes sublinham a corrupção do governo, o desânimo em relação ao "sonho americano". Este é mais um deles e com uma temática totalmente actual. Temática é um termo que tenho alguma reticência em utilizar, com medo de diminuir a importância da história de Edward Snowden. Desenganem-se se acham tratar-se de mais um filme de conspirações tecidas por quem pouco mais tem o que fazer do que pensar neste tema. O assunto da vigilância constante, ubíqua, panóptica, é de gigantesca importância. Ele centra-se em duas frases antigas mas que, nos dia de hoje, na era do digital, têm ainda mais impacto: informação é poder; o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Sob a égide da segurança e da ameaça foi erigido um gigantesco edifício de procura e controlo de todo o tipo de dados, ao ponto de nem a privacidade do lar estar disponível - se estivermos desavisados.

O filme não é, do ponto de vista cinematográfico, uma obra de referência, mas a importância da sua história é, nos dias de hoje, jornalística e não fictícia. Nada do que aqui é dito e abordado deve ser descurado e esquecido. A nossa decisão pode passar por disponibilizar toda a informação sobre a nossa vida. Isso é algo que temos a liberdade de fazer. Mas também temos de ter noção dos riscos a que estamos sujeitos. Edward Snowden disse adeus a uma vida confortável para revelar-nos isto. O que é que vamos fazer com ela? 

Julieta de Pedro Almodóvar

Pedro Almodóvar sempre esteve confortável na poltrona de autor. Nunca alinhou-se em linguagens mais generalistas de cinema. Olhamos para um filme seu e sabemos que estamos dentro da sua cabeça. Os matizes inclinam-se para as cores garridas, assumidas, como em reflexo da geografia do sol de Espanha. As emoções são dançarinas e gritantes, porque a falta de contenção latina a isso o obriga. E os personagens principais são, muitas vezes, as mulheres. A mãe, a filha, a avó, a jovem, a mulher, a velha, espécie de Parcas ao estilo ibérico. Mesmo não sendo os personagens principais sempre pareceram-me parte condutora (manipuladora?) do destino de todos à sua volta. Esta assinatura, que marca os realizadores que fazem vingar a sua personalidade no Cinema, faz com que reconheçamos um filme de Almodóvar à distância. Basta ligar as sensações.

Julieta é a história, sim, de uma mulher. Começamos na sua meia idade, migramos para a juventude e voltamos ao momento inicial. No meio, conhece homens, tem uma filha e perde ambos. De diferentes formas. Parece que o controlo de destino de que vos falei no parágrafo acima não é uma característica desta Julieta de Almodóvar. Talvez assim seja mas, ao mesmo tempo, a personagem exerce pressão sobre os caminhos que ela e os outros seguem. De forma subtil e quase tirânica. Ao ponto de infligir rupturas que a ferem e, principalmente, ferem os que lhe estão à volta. 

O realizador em mais do que um filme pinta o sexo masculino em pinceladas que não são totalmente abonatórias. Alguns são animais, vergados a uma essência primal. Em Julieta, Almodóvar afasta-se desse quadro. Os Homens deste filme (são dois no total) são diferentes, mais suaves e, acima de tudo, vítimas da protagonista e dos seus desígnios de tecedeira. Assumem-se como coadjuvantes numa história maior e acabam por ser vítimas (conscientes disso ou não) dela mesma. Não é por acaso que Julieta seja professora dos clássicos gregos e que, quando encontra o pai da sua filha num comboio, esteja a ler um livro sobre a Tragédia Grega. Sim, obviamente que é uma preparação para o enredo que aí virá mas, como venho a tentar dizer de forma atabalhoada, ela não é vítima dos Deuses. Ela própria é um Deus. Mais do que um Deus. Ela é a única força a que os Deuses também se vergam: o destino. Contudo, e como se verá ao longo do decorrer da história, até a encarnação do Destino pode sucumbir à sua própria natureza.

Pedro Almodóvar está de volta e em grande forma. 

Shan he gu ren de Jia Zhang-ke (Se as Montanhas se Afastam)

Não é novidade para ninguém que a China é um dos potentados económicos que têm (re)emergido nas últimas décadas - quem leia um pouco da História económica mundial sabe que ela deixou de o ser apenas no século XX. Mesmo que, paradoxalmente, viva num regime dito comunista não deixa de ser uma força capitalista de vigor impressionante. A cinematografia deste país começa a reafirmar-se não só com realizadores ou mais pop, ou mais de "regime", construindo uma relevância que começa já a ser notada pelos EUA (o segundo maior mercado dos blockbuster, por países, é já a China), como também deixa que filmes como este reflictam sobre o seu crescimento e abertura comercial ao mundo. O realizador Jia Zhang-ke já nos tinha dado a conhecer uma reflexão sobre esta China do século XXI com China - Um Toque de Pecado, um dos filmes que mais gostei em 2013. De forma e conteúdos bastante diferentes volta a falar-nos do mesmo tema, de um pais em evolução, focando três períodos que centram-se literalmente no passado (1999), presente (2014) e futuro (2025). 

A história centra-se em três amigos, dois homens e uma mulher, um triângulo, sim, amoroso, mas que depressa evolui para incorporar camadas e tensões que vão para lá do romance. Deste triângulo nascerá um filho que, nas sequências do presente e futuro, será um quatro personagem, reflexo desta evolução económica e da necessidade de globalização subjacente ao crescimento da China. O realizador consegue entretecer dramas familiares com a afirmação deste país e com a evolução necessária dos seus habitantes a uma nova realidade. As montanhas afastam-se, a China deixa de ser a Terra do Meio, fechada ao mundo na sua cultura, na sua ideologia. Mas poderá perder a conexão à figura materna, quer seja literal, na forma da mãe e do filho do poster, quer seja metafórica, nas figuras da cultura e do idioma. Se a realização não é das mais inspiradas, a história possui uma projecção e reflexão que tornam este filme um dos mais interessantes do ano. Escrito com parcimónia e sem respostas fáceis, trata-se de um espelho erguido à imagem da China do passado, do presente e (quem sabe ) do futuro, para que esta possa melhor projectar o caminho que segue e reflectir sobre o que deixa para trás. Para nós, que a observamos de fora, é um documento interessante sobre um país e cultura que é, ao mesmo tempo, estranho e atraente. 

Diz-se que a China poderá ser para o século XXI o que EUA foram para o XX. Este filme ajuda-nos a compreender isso, do ponto de vista económico, social e artístico. Arrisco-me a dizer que vê-lo é essencial.

Batman, The Killing Joke - The Movie de Sam Liu

Pelo que se vai dizendo na internet, este filme tem sido alvo de alguma polémica, orquestrada pela comunidade que lê BD de super-heróis. Para os restantes, para as pessoas que não devoram nada da 9.ª Arte, que são poucas, ou de super-heróis, que são ainda menos, estes são assuntos que não interessam rigorosamente nada. 

A Banda Desenhada original de Batman, The Killing Joke é o equivalente a uma lenda. Escrita por um dos seus maiores escritores, Alan Moore, e desenhada por um dos seus mais prestigiados desenhistas, Brian Bolland, é o relato definitivo (?) de uma das maiores rivalidades da mitologia dos super-heróis: Batman e Joker. Hoje em dia, estas são figuras suficientemente conhecidas (por causa do Cinema) para que mesmo os que nada lêem de BD não sejam indiferentes aos nomes. A obra apareceu naquele que é considerado um dos períodos áureos desta Arte em geral e da produzida nos EUA em particular. Um período que iniciou-se no principio dos anos 80 pelas mãos deste mesmo escritor no seu Swamp Thing, continuado pelo mesmo (no seminal Watchmen) e por tantos outros autores, e acabado algures pelos fins da mesma década. Nesta época nasceu este Batman, The Killing Joke (publicado em Portugal pela Levoir - procurem-no no volume dedicado ao Joker na Colecção da DC Comics). Imediatamente transformou-se num clássico, pela arte dos criadores, pelo tema que abordou e a forma como o abordou. Uma visão madura e complexa da rivalidade e de como a mesma poderia ser vista pelo prisma da transversalidade, do transporte para o "mundo real". Resumindo, um livro do caraças!

A adaptação poderia seguir um de dois caminhos: fiel, palavra a palavra, estilo a estilo, enquadramento a enquadramento; desvio do original. O que este desenho animado fez foi as duas e aí reside parte do descontentamento (para esclarecer as coisas, eu gostei bastante do filme). É dividido em duas partes, uma primeira focada em Barbara Gordon, a Batgirl (a parte original do filme e a mais criticada), e uma segunda que é, então, a adaptação propriamente dita. Esta segunda segue de forma bastante fiel a obra, recriando enquadramentos, diálogos e mesmo o estilo de Brian Bolland, numa passagem fiel que tem tudo para agradar aos fãs e não só. Apercebemos-nos do gigantismo das palavras de Moore e dos desenhos de Bolland, que transformam-se em falas e movimentos sem soluços e com o alcance e a qualidade reservados às grandes obras de Arte. Chegamos a perguntar porque não foi isto feito mais cedo e para quando uma adaptação desta categoria para o Cinema em live-action. As vozes e interpretações são sublimes e acertadas. Tudo funciona. Não é, obviamente, a BD, mas é uma forma de a passar para a 7.ª Arte.

Para muitos, o problema reside na primeira parte, a que perde um pouco de tempo a tornar relevantes (para os que não lêem BD) os eventos que acontecem a Barbara Gordon (spoiler): ela é baleada pelo Joker e perde o uso da suas pernas. O "prólogo" é escrito por Brian Azzarello, conhecido dos leitores de BD por obras como 100 Bulllets ou uma recente e aclamada interpretação da Mulher-Maravilha. Azzarello é famoso por visões urbanas, noir e adultas dos personagens (seus ou de outros). É também conhecido por uma personalidade irascível, que raramente pede desculpas, dono de uma honestidade desarmante para uns e refrescante para outros (sou dos últimos e já fui alvo dela).  A sua leitura desta Barbara Gordon/Batgirl é tudo isso e muito mais. Acontece que a personagem, nesta leitura, exibe uma sexualidade activa e adulta (outros dirão outras coisas) e ocorre uma cena em particular que deverá ter deixado alguns desarmados e relutantes. Nada do que acontece choca-me e vejo-o apenas como o quebrar de algumas barreiras que muitos consideram invioláveis, as da natural revelação que os super-heróis são seres sexualmente activos (nada que Alan Moore, por exemplo, já não tenha feito). Claro que a interpretação de Azzarello não se cinge a isso e desenvolve a personalidade de Barbara para que nós, espectadores, sintamos o que o Joker acaba por lhe fazer. Para algo que é um desenho animado é, a meu ver, um passo em frente, principalmente para os habituados a uma dieta Disney (quem vê Anime sabe que existem outras gastronomias, para continuar na metáfora).

Este é, para mim, um filme interessante e uma interpretação válida da obra, acrescentando camadas que apenas enriquecem um dos personagens da história. É melhor que a BD? É claro que não, mas que adaptação é melhor que o original? (calma, eu sei que isto é uma discussão complexa e longa).