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Arrival de Denis Villeneuve (Primeiro Encontro)

(contém pequenos spoilers)

O tempo é a nossa maior prisão. Pode ser também  uma forma da natureza controlar os nossos ímpetos. Sem os limites do tempo quem sabe a que alturas ou profundezas poderíamos chegar. Às vezes gosto de concordar com Steve Jobs quando dizia que a maior invenção da vida é a morte - assim, a Humanidade pode evoluir e progredir, ao substituir o pensamento datado pelo moderno. Outras vezes gostava que existisse alguém com a capacidade de perceber e viver o tempo de forma muito diferente da nossa. Poderia viver muitos e muitos anos e chegar à conclusão que, apesar das formas diferentes, a Humanidade porta-se sempre da mesma maneira. Ou, então, como acontece neste filme, poderia perceber o tempo de forma não-linear, como se o início, desenvolvimento e fim de uma história acontecessem todos ao mesmo tempo, contribuindo para um propósito, esse, sim, o último objectivo do caminho.

Arrival é um OVNI. Um filme de ficção científica que não se refugia em tiros e pirotecnia para fazer valer a sua narrativa. Esses vamos deixar para daqui a umas semanas e para (o muito esperado) Star Wars: Rogue One. A história de Arrival começa de forma perfeitamente provincial: a chegada de 12 naves espaciais em vários pontos do mundo. Enquanto estas permanecem imóveis a pairar sobre diferentes geografias da Terra, os vários governos procuram formas de comunicar com os alienígenas. Uma professora de linguística, interpretada por Amy Adams (que até conhece bem o nosso Português), é convidada pelos serviços secretos dos EUA para ajudar na comunicação verbal com os visitantes - que, de forma bastante interessante, falam através de ruídos que têm mais em comum com os cânticos das baleias do que com a articulação de sílabas que nós utilizamos. Nas diferentes interacções, ela descobre que a forma mais expedita para comunicar involve letras, as palavras que formam e a ligação com pessoas, objectos e acções. Nesse diálogo descobrem o "alfabeto" dos extra-terrestres, alfabeto esse que envolve diferentes formas de círculos. Lembram-se do que escrevi no primeiro parágrafo? Da forma limitada com a qual nos apercebemos do tempo? Também a simbologia dos insondáveis alienígenas tem a ver com esse prisma. E, sinceramente, mais não digo, com risco de vos estragar o prazer da descoberta e da interpretação.

Arrival é um filme que recorre-se das roupagens da ficção científica para nos contar uma história profundamente Humana, principalmente sobre as nossas limitações enquanto seres sociais, universais e temporais.  É também um filme religioso no sentido mais metafísico do termo, não se coibindo de entrar pelo reino do esotérico (mas sem perder vista do científico) para nos contar a sua verdade. Da forma que apenas as grandes narrativas podem conseguir, Denis Villeneuve entrelaça emoção com pensamento de forma escorreita mas, ao mesmo tempo, e pela natureza da história, não-linear. Quem não se liberta de modos mais convencionais de narração pode sair defraudado com o filme. Quem está disposto a assumir que existem formas diferentes de perceber a realidade (mesmo que apenas uma que exista só nesta narrativa) pode sair da sala de cinema como eu, mesmerizado e apaixonado com um grande filme.

American Hustle de David O.Russel (Golpada Americana)


A época dos óscares tem destes filmes, daqueles que todos parecem se esforçar um pouco mais para conseguir atingir o nirvana da cinematografia americana. Os escritores dedicam-se a dedilhar argumentos assentes em temas fracturantes ou relevantes. Os realizadores tiram todos os coelhos da cartola e exibem o máximo da sua proeza técnica. Os actores escolhem personagens de margem e excedem-se em esforços que, por vezes, chegam perto das sevícias físicas auto-infligidas.  

Este American Hustle é disto tudo um pouco mas com panache e qualidade. O argumento é daqueles que são muito apreciados pelos americanos, o do "self made man", "the lovable rogue", o vigarista com coração de ouro que faz de tudo para perseguir a sua muito pessoal interpretação do "big old americam dream". Este homem é Christian Bale, numa interpretação que vai além da entrega à personalidade do seu personagem mas também à da condição física, transfigurando o corpo - como aliás já nos habituou em filmes como American Psycho, O Maquinista e mesmo a trilogia de Batman . Ao seu lado, duas mulheres belíssimas e belissimamente interpretadas por Amy Adams e Jennifer Lawrence, completando a santíssima trindade de actores que fazem desta golpada um filme que supera a banalidade. Sim porque, apesar de David O. Russel não ser um realizador estilo tarefeiro, este é, acima de tudo, o trabalho de um "ensemble cast", onde todos os diferentes atores contribuem para a sinfonia, trocando entre si melodias e acordes, não se entregando ao egoísmo e egocentrismo e contribuindo para um todo onde todos lucram. 

O argumento de Russel e a magnifica construção de personagens não será alheia à qualidade do produto final. Apenas com uma matriz da qualidade do script deste American Hustle, principalmente do lado das personalidades dos vários intervenientes,  podemos ter atores a conseguir tirar prestações muito acima da média, mesmo quando o enredo não se desvia de tantos outros em volta do tema da golpada,  mafiosos e das traições em cima de traições em cima de traições.