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Rapidinhas de Cinema - Wind River e Batman & Harley Quinn



Não. Um filme nada tem a ver com o outro. Um é uma narrativa fria e cruel, um faroeste passado nas montanhas geladas do estado de Wyoming. Outro é um desenho animado descomprometido, leve e humorístico. Um é sobre vidas reais esquecidas pela Lei, outro é sobre vigilantes fantasiosos e uma anti-vilã sociopata (e não psicopata, como é, aliás, bem sublinhado pela personagem no filme). Gostei de ambos.

Wind River é a primeira incursão de Taylor Sheridan na cadeira da realização, escritor dos maravilhosos Sicario e Hell and High Water. Estes dois filmes eram já uma subversão de géneros e uma visão desapaixonada e anti-glamourosa de dois mundos muitas vezes vistos de forma leve pelo Cinema. O primeiro descrevia a luta contra o mundo criminoso do tráfico de droga e o segundo sobre a crise financeira de 2008, as suas consequências e enveredava pelo caminho de um heist movie social. Wind River é um thriller policial a início, uma normal descoberta de "quem-matou?", com a participação da polícia local, do FBI e de um wild-card autóctone que acaba por revelar-se como a peça mais importante da investigação. Claro que, como nos provou nos seus dois filmes anteriores, Sheridan usa o ambiente como forma de comentar uma outra realidade. Neste caso, a do isolacionismo. De um local para onde a Lei não estende o seu braço dito longo. Onde a justiça é feita pela fauna, flora e geografia locais. Existe Lei. Mas não a dos homens. A escolha dos dois actores principais, Jeremy Renner e Elizabeth Olsen, prova que estes dois interpretes são capazes de muito mais do (pouco ou nada) que lhes dão para fazer em filmes de muito orçamento (nos Vingadores são criminosamente subaproveitados). Aqui respiram o ar frio do mundo onde as suas personagens passeiam, cada olhar e gesto um reflexo de uma história maior, de universos que colidem com o drama do enredo. Infelizmente, será daqueles filmes que passarão despercebidos nas salas de cinema, sem o merecer.

Longe, muito longe, da narrativa de Wind River está Batman & Harley Quinn, a ultima incursão da DC Comics pelo seu já duradouro universo de desenhos animados. Desde o início da década de 90 que a editora decidiu tentar novas abordagens, mais adultas, pelo mundo ficcional das suas personagens em formato de desenho animado. Começaram exactamente com o Batman, na lendária série de Bruce Timm e Alan Burnett. Foi nesta que o primeiro e Paul Dini criaram Harley Quinn, a namorada do Joker, o arqui-inimigo do Homem-Morcego. A fama desta personagem expandiu-se nas décadas que se seguiram ao ponto de ser a personagem principal do filme Esquadrão Suicida de 2016, com Margot Robbie no papel da anti-vilã. Com a fama no seu pico, Bruce Timm regressa não só à personagem a quem deu forma mas também ao universo onde a criou. Este filme tem como ambiente a série da década de 90, ainda que se assuma como mais adulta e muito menos apropriada a crianças. Enquanto a Marvel continua a apostar num publico jovem, a DC esforça-se para que as suas personagens e histórias reclamem um público mais adulto (ainda que não necessariamente maduro - e isto não é uma critica). Este Batman & Harley Quinn é uma busca nesse sentido e, no que a mim diz respeito, bem sucedida. Há algum tempo que não me ria tanto - mesmo com piadas um pouco, digamos, adolescentes. Esta Harley é mais arriscada e o Batman mais sisudo (mas com laivos de descontracção, o que atesta bem da latitude da personagem). Nightwing, um dos discipulos do Cavaleiro das Trevas, tem também um papel muito importante e revelador. Um filme bastante divertido para fãs e (acho) não só.

Arrival de Denis Villeneuve (Primeiro Encontro)

(contém pequenos spoilers)

O tempo é a nossa maior prisão. Pode ser também  uma forma da natureza controlar os nossos ímpetos. Sem os limites do tempo quem sabe a que alturas ou profundezas poderíamos chegar. Às vezes gosto de concordar com Steve Jobs quando dizia que a maior invenção da vida é a morte - assim, a Humanidade pode evoluir e progredir, ao substituir o pensamento datado pelo moderno. Outras vezes gostava que existisse alguém com a capacidade de perceber e viver o tempo de forma muito diferente da nossa. Poderia viver muitos e muitos anos e chegar à conclusão que, apesar das formas diferentes, a Humanidade porta-se sempre da mesma maneira. Ou, então, como acontece neste filme, poderia perceber o tempo de forma não-linear, como se o início, desenvolvimento e fim de uma história acontecessem todos ao mesmo tempo, contribuindo para um propósito, esse, sim, o último objectivo do caminho.

Arrival é um OVNI. Um filme de ficção científica que não se refugia em tiros e pirotecnia para fazer valer a sua narrativa. Esses vamos deixar para daqui a umas semanas e para (o muito esperado) Star Wars: Rogue One. A história de Arrival começa de forma perfeitamente provincial: a chegada de 12 naves espaciais em vários pontos do mundo. Enquanto estas permanecem imóveis a pairar sobre diferentes geografias da Terra, os vários governos procuram formas de comunicar com os alienígenas. Uma professora de linguística, interpretada por Amy Adams (que até conhece bem o nosso Português), é convidada pelos serviços secretos dos EUA para ajudar na comunicação verbal com os visitantes - que, de forma bastante interessante, falam através de ruídos que têm mais em comum com os cânticos das baleias do que com a articulação de sílabas que nós utilizamos. Nas diferentes interacções, ela descobre que a forma mais expedita para comunicar involve letras, as palavras que formam e a ligação com pessoas, objectos e acções. Nesse diálogo descobrem o "alfabeto" dos extra-terrestres, alfabeto esse que envolve diferentes formas de círculos. Lembram-se do que escrevi no primeiro parágrafo? Da forma limitada com a qual nos apercebemos do tempo? Também a simbologia dos insondáveis alienígenas tem a ver com esse prisma. E, sinceramente, mais não digo, com risco de vos estragar o prazer da descoberta e da interpretação.

Arrival é um filme que recorre-se das roupagens da ficção científica para nos contar uma história profundamente Humana, principalmente sobre as nossas limitações enquanto seres sociais, universais e temporais.  É também um filme religioso no sentido mais metafísico do termo, não se coibindo de entrar pelo reino do esotérico (mas sem perder vista do científico) para nos contar a sua verdade. Da forma que apenas as grandes narrativas podem conseguir, Denis Villeneuve entrelaça emoção com pensamento de forma escorreita mas, ao mesmo tempo, e pela natureza da história, não-linear. Quem não se liberta de modos mais convencionais de narração pode sair defraudado com o filme. Quem está disposto a assumir que existem formas diferentes de perceber a realidade (mesmo que apenas uma que exista só nesta narrativa) pode sair da sala de cinema como eu, mesmerizado e apaixonado com um grande filme.

American Hustle de David O.Russel (Golpada Americana)


A época dos óscares tem destes filmes, daqueles que todos parecem se esforçar um pouco mais para conseguir atingir o nirvana da cinematografia americana. Os escritores dedicam-se a dedilhar argumentos assentes em temas fracturantes ou relevantes. Os realizadores tiram todos os coelhos da cartola e exibem o máximo da sua proeza técnica. Os actores escolhem personagens de margem e excedem-se em esforços que, por vezes, chegam perto das sevícias físicas auto-infligidas.  

Este American Hustle é disto tudo um pouco mas com panache e qualidade. O argumento é daqueles que são muito apreciados pelos americanos, o do "self made man", "the lovable rogue", o vigarista com coração de ouro que faz de tudo para perseguir a sua muito pessoal interpretação do "big old americam dream". Este homem é Christian Bale, numa interpretação que vai além da entrega à personalidade do seu personagem mas também à da condição física, transfigurando o corpo - como aliás já nos habituou em filmes como American Psycho, O Maquinista e mesmo a trilogia de Batman . Ao seu lado, duas mulheres belíssimas e belissimamente interpretadas por Amy Adams e Jennifer Lawrence, completando a santíssima trindade de actores que fazem desta golpada um filme que supera a banalidade. Sim porque, apesar de David O. Russel não ser um realizador estilo tarefeiro, este é, acima de tudo, o trabalho de um "ensemble cast", onde todos os diferentes atores contribuem para a sinfonia, trocando entre si melodias e acordes, não se entregando ao egoísmo e egocentrismo e contribuindo para um todo onde todos lucram. 

O argumento de Russel e a magnifica construção de personagens não será alheia à qualidade do produto final. Apenas com uma matriz da qualidade do script deste American Hustle, principalmente do lado das personalidades dos vários intervenientes,  podemos ter atores a conseguir tirar prestações muito acima da média, mesmo quando o enredo não se desvia de tantos outros em volta do tema da golpada,  mafiosos e das traições em cima de traições em cima de traições.