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Filmes de 2017, os que mais gostei - pódio um

Os critérios que me ajudam a escolher os filmes de um ano são simples: os que gostava de ter na prateleira de minha casa para um dia rever (dos que vi, claro, e faltam ver alguns, portanto isto pode mudar). Dito de outra forma: os que mais gosto. Sem critérios intelectuais (OK, um ou dois, se quero ser totalmente sincero). Muito coração e muita emoção. Parece lamechas mas é assim mesmo. Não sou especialista em Cinema e, portanto, não vou pôr-me a jeito para comparar cromos e conhecimentos.  Se bem que essa de "especialista" em qualquer Arte tem o que se lhe diga (não fui eu quem o disse mas um homem muito melhor que eu, Tolstoy).

Dito isto, dentro dos que gostei mesmo à séria, tive de os dividir em três pódios, ao estilo dos jogos olímpicos.  Um para Bronze, outro para Prata e, claro, Ouro. Hoje vamos ao primeiro, ao de ouro. Cliquem na imagem para ler o que escrevi sobre cada um deles.

Se calhar deveria ir ao Platina. Hoje percebem porquê. Dos quatro filmes abaixo, é quase impossível escolher os que mais aprecio. Os que mais me emocionam. Quase. Não totalmente. Se fosse forçado, mesmo forçado, com ferro a ferver e tortura chinesa, tinha de pender para dois: o absurdamente perfeito e maravilhoso A Criada e, claro, aquele que, finalmente, passou para o grande ecrã a minha personagem favorita de ficção, Diana, a Mulher-Maravilha.

  
 

Filmes de 2017, os que mais gostei - pódio dois

Os critérios que me ajudam a escolher os filmes de um ano são simples: os que gostava de ter na prateleira de minha casa para um dia rever (dos que vi, claro, e faltam ver alguns, portanto isto pode mudar). Dito de outra forma: os que mais gosto. Sem critérios intelectuais (OK, um ou dois, se quero ser totalmente sincero). Muito coração e muita emoção. Parece lamechas mas é assim mesmo. Não sou especialista em Cinema e, portanto, não vou pôr-me a jeito para comparar cromos e conhecimentos.  Se bem que essa de "especialista" em qualquer Arte tem o que se lhe diga (não fui eu quem o disse mas um homem muito melhor que eu, Tolstoy).

Dito isto, dentro dos que gostei mesmo à séria, tive de os dividir em três pódios, ao estilo dos jogos olímpicos.  Um para Bronze, outro para Prata e, claro, Ouro. Se calhar deveria ir ao Platina mas... bem, depois explico.



Hoje vamos ao segundo, ao de prata. Cliquem na imagem para ler o que escrevi sobre cada um deles.

 

120 Battements par Minute (120 Batimentos por minuto) de Robin Campillo

Não sei se é de propósito mas o final do ano costuma ter estreias de filmes que acabam nas listas dos melhores do ano por vários "especialistas". É o caso deste 120 Batimentos por Minuto, uma história em tom documental sobre o movimento LGBT em França no início da década de 90, movimento esse especificamente focado na controle da disseminação da epidemia da SIDA. 

Estávamos num momento já avançado da propagação dessa doença e a comunidade civil e política tinha dificuldade em avançar com medidas e comportamentos verdadeiramente mitigantes. Quem sofria literalmente no corpo e na pele as consequências da doença viu-se, então, na necessidade de se organizar em grupos de intervenção que passavam a mensagem de forma veemente e directa, abordando fisicamente (sem violência) os responsáveis pelas políticas, pelos medicamentos, etc. Para isso, informavam-se ao ponto de transformarem-se em especialistas em farmacêutica e biologia, numa tentativa desesperada de se salvarem. Literalmente, tinham a própria vida nas mãos e lutavam contra todos os preconceitos que proliferavam na sociedade civil à época: que este era um problema exclusivo da comunidade LGBT e, portanto, os esforços para a resolução dos problemas era visto como mínimo.

O filme divide-se em dois momentos. O primeiro, filmado e contado de forma semi-documental, aborda este movimento e todas as medidas de intervenção social que usaram para fazer valer a sua perspectiva. O segundo, escolhe um dos casais desse grupo e foca-se na lenta deterioração do corpo de um deles, vitima da doença. Ambos estes "capítulos" são abordados de forma sentida e próxima, a câmara perto dos rostos. Esta tendência de realização foca-se na emoção e na força da intenção dos actores, que fazem todos um excelente trabalho.

Citando o Público "120 Batimentos Por Minuto" foi o filme-sensação da 70.ª edição do Festival de Cinema de Cannes, onde recebeu o Grande Prémio do Júri. A realização fica a cargo de Robin Campillo ("Les Revenants", "Eastern Boys"), segundo um argumento seu e de Philippe Mangeot, presidente da Act Up francesa nos anos 1990." Act Up é o movimento foco do filme e a história espelha bem o envolvimento próximo de quem produziu este filme. Existe experiência e olhos de quem sofreu de perto. 

Um filme verdadeiramente sentido e pungente sobre a epidemia da SIDA e sobre os esforços da comunidade LGBT para alertar a sociedade civil para este problema.

Kingsman, The Golden Circle de Matthew Vaughn

Querem saber qual o filme baseado em BD mais BD que passou nos cinemas neste ano da graça de 2017? Não precisam de ir mais longe do que este maravilhosamente hedonista Kingsman, the Golden Circle, sequela do também delirante Kingsman: The Secret Service de 2014. Regressam (quase) todos os intervenientes do primeiro, desde realizador a actores, com algumas adições valiosas na pele de Channing Tatum, Halle Berry, Jeff Bridges, Pedro Pascal, Julianne Moore e... Elton John (a fazer dele próprio). Se este último nome não vos convence da loucura que é este novo Kingsman, então não estão preparados para ele.

Tudo é hiperbólico sem deixar de ser ao estilo do primeiro. Cenas de acção que, de tão únicas, ficam para sempre associadas a Kingsman. Câmara "real", a acompanhar os movimentos vertiginosos dos protagonistas como se colada às suas costas. Rodopio, cambalhotas, hiperviolência, sexo, nada aqui é acção destilada e pronta a ser consumida por petizes inocentes. Isto é para adultos com sentido de humor e com cérebro desligado (não estou a ser irónico e é antes um elogio). Existe um lado de não-estamos-a-levar-isto-muito-a-sério-e-estamos-aqui-a-nos-divertir. E isso transpira em cada cena de acção escabrosa, cada enredo descabelado, cada décor tão berrante que poderia ter nascido do cruzamento entre BD de Jack Kirby e o 007. Delirantemente pop e muito, mas mesmo muito, divertido. 

Não pensem daqui tirar grandes lições de vida ou reflexões profundas sobre a razão de ser da Humanidade. A entrega do realizador é toda para um entretenimento sem desculpas, delirante, divertido e, digo-o uma vez mais porque é mesmo preciso reforçá-lo, adulto. Os adolescentes vão gostar mas isto não é para vender bonecos à lá Disney. Não se lava a mensagem nem o enredo com Omo Mais Branco para incluir o maior número de pessoas sensíveis a tudo e mais alguma coisa. Há ofensa. Há politicamente incorrecto. Há diversão (para quem gosta destas coisas).

Sim, é o filme de BD mais BD do ano. E graças a Deus por isso. Parabéns a Matthew Vaughn.

Star Wars VIII, The Last Jedi de Rian Johnson

(aqui há spoilers)

Como escrever sobre algo que se gosta desde o ínicio da década de 80? Desde que se sabe que o favorito é o consensual episódio V e o muito menos consensual III? Sabe-se que existem fãs e fanáticos mais acirrados, que devoram todos os pormenores da mitologia (como os compreendo, sou assim com outras). Que devotam vida, secundam moral e ética. Que constroem imaginações alicerçadas em mundos imaginários de ficção científica. Como escrever sobre este novo episódio VIII, Os Últimos Jedi? Apenas de uma maneira: com verdade.

Rian Johnson foi ambicioso com este novo filme da eterna saga de Star Wars. Desviou-se do caminho já várias vezes trilhado, sem esquecer os toques de nostalgia que sublinhavam o anterior de J.J. Abrams. O realizador/escritor escolheu rechear o enredo e as personagens de metáforas que aludem à passagem de testemunho e ao abandono de alguns paradigmas da saga da família Skywalker. É exactamente com este "abandono" dessa importante família que Johnson sublinha qual a sua intenção e o seu legado para o universo criado por George Lucas. Este oitavo episódio é sobre, entre algumas outras coisas, a democratização da omnipresente Força. É sobre como qualquer ser pode descobrir os seus segredos e transformar-se num guerreiro Jedi. Essa intenção é sublinhada na protagonista Rey, não só pelo facto de descobrirmos que os seus pais não são "ninguém em especial" (leia-se, não são de linhagem nobre, não são parte do clã Skywalker - que também já não eram só nobres - vejam o episódio I) mas também no episódio surreal-soft da jovem numa gruta. Ao tentar descobrir quem são os seus pais, a sua própria imagem é reflectida, numa alusão que mais tarde ficará clara - ela não precisa de ninguém, de sangue ou de mestre para tornar-se numa Jedi e prosseguir esse legado.  Esta mensagem de inclusão, se não era clara por altura da revelação, é martelada de maneira pouco subtil na cena final, quando vimos uns jovens escravos a usarem os poderes telecinéticos dos Jedi.

Este episódio tem ainda outras mensagens poderosas e bastante actuais, como seja o elogio ao Vegetarianismo e Veganismo em alguns momentos curiosos. Chewie é "forçado" a não comer um pássaro já cozinhado quando os congéneres da vítima ainda vivos o confrontam com olhares "fofinhos". Luke ordenha umas "vacas" extra-terrestres numa plácida e bucólica paisagem mas sem disruptar a vida das mesmas (não estão domesticadas nem vivem em quintas). Quem salva a Resistência são umas raposas-diamante - elas são as únicas que sabem a saída de uma gruta que nem a tecnologia avançada consegue descobrir. 

Também existe uma mensagem anti-bélica na figura da personagem de Benicio Del Toro e na cidade-casino povoada por hiper-ricos que vivem em condições paradisíacas. Ou melhor, uma mensagem sobre quem lucra com a guerra e sobre quem contribuiu para que lucrem com a guerra. Sim, são os dois lados dela, quer os maus, quer os bons.

Existe um esforço para incluir mensagens profundas, esforço esse que é feito de forma mais ou menos interessante. Ao mesmo tempo, Rian avança a mitologia dos Jedi, da Força e da Star Wars, preparando-a e a nós para um futuro sem as rixas e contendas da linhagem Skywalker, manchada que está com tantos dos seus membros a sucumbir ao lado negro da Força. Essa conspurcação está bem patente na mais interessante das personagens desta nova trilogia: Kylo Ren, filho de Han Solo e Leia Organa. Adam Driver entrega-nos uma personagem trágica, marcada por traição, pela sede de poder, uma verdadeira força Shakespereana com os dias contados, porque o futuro da Guerra é outro. Adeus à tragédia filial. Venha a aventura inclusiva. 

Contudo, no meio de tanta renovação existe algo que falha. A história é gorda demais. Batalhas a mais. Pirotecnia a mais. Algo a mais para o que parece muito de intenção mas que falha na execução. Como se se ficasse apenas no esboço - o que é estranho sendo que o filme tem duas horas e meia (que, confesso com amargo de coração, já me estavam a cansar). Também posso falar da frenética construção de merchadising, de bonecos para vender, de personagens que têm um aspecto lindo ou fofo ou as duas coisas ao mesmo tempo mas cujo tempo em cena é nulo ou, havendo, é ténue, sem corpo, sem alma, sem diálogos, sem personalidade a não ser a do lugar comum (Phasma, por exemplo, Snoke, outro). Snoke morre sem ser pouco mais (por enquanto?) que um rol de frases feitas em filmes anteriores da saga. Admito que há que focar principalmente em Kylo Ren e, portanto, Snoke é apenas uma forma de percorrer esse caminho mas, ainda assim, não poderiam ultrapassar a tragédia de os vilões serem uni-dimensionais? Mas posso perfeitamente desculpar a construção de brinquedos porque desde cedo que esta saga também se assume como tal, mas sem um alicerce de história robusto, qualquer metáfora ou venda de produtos cai por terra (ou deveria, porque cheira-me que neste filme nada vai cair e tudo ir-se-á vender que nem pãezinhos quentes).

Adoro entretenimento. Adoro filmes pipoca. Adoro Star Wars. Sou fã mas não fanático. Outros há que amam muito mais que eu. Haverá os que se sentiram tocados por este episódio VIII. Força para eles. Eu, infelizmente, não. E gostava de fazer parte desse lado. 

Lucky de John Carroll Lynch

Será que existe uma idade certa para começar a pensar na morte, na mortalidade? Será que existe uma idade certa para começar a  temer a escuridão final, a incerteza do que se passa depois de fechar definitivamente os olhos? Será que existe um momento certo para a sabedoria que vem com a clareza da proximidade da morte?

Lucky de John Carroll Lynch, com Harry Dean Stanton num papel gigantesco, é um filme soberbo, uma peça de arte realista e poética. É algo que apenas o cinema pode ser. É um tratado de silêncios, de humor, de vida e de morte. É a história de um homem no fim dos seus dias, não porque tenha qualquer tipo de trágica doença terminal mas porque o corpo está a chegar ao fim do funcionamento, como uma máquina que já preencheu todos os dias da vida útil. É a crueza da natureza que "apenas" nos dá mais ou menos 80 anos para sermos qualquer coisa - feliz de preferência. Este homem vive numa comunidade rural dos EUA, circunscrevendo a vida a rotinas diárias de que gosta, sem ter perdido a curiosidade para a aprendizagem. Esta não é a história trágica de um velho solitário que encontra redenção nos últimos anos da vida. Antes é de alguém que viveu a vida sem sobressaltos e, aparentemente, sem arrependimentos. Mas, ainda assim, não quer deixar o mundo e sente saudades dele e do que um corpo jovem lhe permitia fazer.

O realizador escolhe uma abordagem quase europeia, cheia de silêncios que permitem ao espectador a absorção serena dos momentos. O código genético não deixa, felizmente, de ser americano e a história é contada de forma calma mas decidida, deixando-nos respirar e, principalmente, à obra. O também actor John Carroll Lynch parece ter aprendido algo dos melhores (David Lynch é actor neste filme) e consegue oferecer-nos uma realização discreta mas poderosa.

Lucky é, no que a mim diz respeito, um dos melhores filmes a estrear nas salas portuguesas em 2017. Verdadeiramente obrigatório!

The Square (O Quadrado) de Ruben Östlund

Ruben Östlund já tinha surpreendido com o maravilhoso Force Majeure, um filme sobre comportamentos primais em situações de perigo.  Três anos depois, volta a fazer o mesmo com este O Quadrado, parte do que poderia ser um díptico sobre a moralidade dos comportamentos humanos. Sobre a imagem que projectamos em condições civilizadas e aquilo que realmente somos quando confrontados com situações, extremas ou não, do nosso dia-a-dia. É também uma critica não muito subtil ao mundo da arte contemporânea, aos que vivem dela e aos que a produzem. Na junção orgânica destes dois mundos, somos forçados a entrar neste filme-instalação-de-arte, onde temos de nos questionar se seríamos ou faríamos diferente das personagens que nos aparecem no grande ecrã. 

O Quadrado é a história de um homem, curador de um dos mais importantes museus de Estocolmo, divorciado e pai de duas raparigas, que vive numa confortável qualidade de vida e possui comportamentos sustentáveis - tem um Tesla. O seu museu irá apresentar uma instalação de arte baseada num Quadrado delineado no chão. Dentro desse quadrado, a artista propõe o seguinte: naquele espaço não existem fronteiras nem diferenças entre seres humanos, e todos os que necessitaram de alguém ou de algo podem pedi-lo a outro e esse outro terá de satisfazer o pedido. Este poderoso pressuposto será alvo de uma campanha de marketing para a qual o museu contrata uma equipe de jovens publicitários, versados neste mundo moderno da net e da atenção fugaz.

Östlund equilibra de forma brilhante o enredo e a mensagem através de casos inusitados que, muitas das vezes, pendem para o hilariante. O realizador socorre-se do humor para sublinhar as diferentes situações, quer sejam desconfortáveis ou não. Por vezes, estica esse desconforto até ao ponto em que a vontade de rir desaparece e dá lugar a uma sensação de vergonha existencial - principalmente no maravilhoso jantar de inauguração da exposição. Sem qualquer tipo de artifícios de câmara ou de efeitos especiais, recorrendo apenas ao simples enquadramento, mise en scéne e edição, o realizador é veemente na apresentação de um conto moral, cheios de conotações que podem mesmo parecer pretensiosas. Os actores vertem para o ecrã toda a intenção da história, destacando-se o trabalho do protagonista, Claes Bang, mas também o aparecimento de dois actores mais conhecidos do público em geral (ou, se calhar, nem tanto), Elisabeth Moss (dos Mad Men e Handmaid's Tale) e Dominic West (do The Wire e 300).

Não tenham dúvidas de que estamos a falar de um dos grandes filmes do ano. Um conto moral cheio de humor e desconforto, como provavelmente todos os contos morais devem ser. Deve ser por isso (também) que venceu a Palma D'Ouro de Cannes em 2017.

Justice League de Zack Snyder (Liga da Justiça)

A que é que nos leva a paixão? 

Esperem!... Acho que já leram esta pergunta algures neste blog de cada vez que se começa a falar de algo sobre o qual será difícil ser objectivo. Ou, pelo menos, o objectivo que se deveria ser quando escreve-se sobre uma peça de arte ou de entretenimento. Nestas coisas da "crítica" todos temos um ponto de vista. O meu é de alguém que ama Banda Desenhada, lê-a há quase 40 anos, sempre foi apaixonado pela mitologia dos super-heróis e, principalmente, é alguém que adora a editora DC Comics. A Mulher-Maravilha é a minha personagem favorita de qualquer arte e a Liga da Justiça é uma das equipas destes personagens de ficção que mais me entusiasma. Portanto, seguem daqui para a frente por vossa conta e risco.

Dizer que os fãs esperavam há décadas por um filme deste grupo é usar a figura do eufemismo de forma eufemística. Se os filmes da Marvel foram um marco importante na passagem da BD à 7.ª Arte, para os que gostam da DC e do universo desta editora este é o Santa Graal (para mim foi antes o filme da Diana, mas adiante). Falamos dos maiores ícones da 9.ª Arte dos EUA. Falamos da reunião do Super-Homem (não pode ser considerado spoiler dizer que ele volta à vida), da Mulher-Maravilha, do Batman, do Flash, do Aquaman - e ainda do Cyborg (vamos ser claros, nada tenho contra a personagem mas não tem a mesma importância dos cinco primeiros). Durante duas horas vão poder ser entretidos pela dinâmica entre as personalidades destas seis figuras que se unem sobre a égide de uma ameaça global. E é esse um dos maiores méritos deste filme: o entretenimento. Se a seriedade e negritude do Batman v Superman vos fez impressão, então a Liga da Justiça é a antítese que precisavam (eu adorei os dois). se gostam de duas horas sentados numa sala de cinema com a cabeça desligada, então preparem-se porque este filme é para vocês. Argumento simples (talvez simples demais), directo, com uma ameaça que os heróis têm que derrotar depois de conciliarem as diferentes personalidades. 

E que personalidades. Essa é maior força do filme. As trocas de picardias e de miminhos entre as personagens são descontraídas, sérias quando necessário e, acima de tudo, ditas por personalidades únicas. Apesar do Batman sorrir mais do que o Batman deveria sorrir, é ele quem tenta motivar os seus companheiros de equipa a se unirem. Flash assume o lado humorístico e deslumbrado mas não deixa de ser um herói na busca da sua coragem. Aquaman é uma torrente (perdoem o trocadilho) de força bárbara e de masculinidade (talvez o mais diferente da versão da BD). Cyborg é um homem conturbado pelo seu aspecto físico e por poderes que desconhece e o perturbam. E a Diana é a cola que os une. Gal Gadot continua a deslumbrar no papel da Mulher-Maravilha, cada vez mais assumindo ser um dos maiores casting (se não o maior) de sempre em filmes de super-heróis. Por causa do sucesso do filme homónimo temos muito de Diana no filme e a Liga só tem a ganhar com isso. Ela é, tal como esta personagem deve ser, força, graça, determinação e, acima de tudo, compaixão e compreensão. É ela a líder que a Liga precisa e tem.

A história é épica, como todas as histórias da Liga devem ser. O vilão deveria ser mais complexo mas parece que a DC decidiu inflectir para o caminho da Marvel e dar mais atenção aos heróis e menos ao vilão. Ainda assim, somos presenteados com o passado do antagonista, que aparece contextualizado numa visão unida do universo dos super-heróis desta versão de cinema. Poderiam ter ido mais longe? Poderiam e muito, mas para quem acha que estas coisas devem ser servidas de forma parcimoniosa, então têm o prato perfeito. 

Os detractores do estilo de Zack Snyder podem ficar descansados - dos quais não faço parte porque adoro Man of Steel e BvS. O factor Joss Whedon teve o efeito desejado. Existe mais humor e descontracção. A palete de cores é luminosa (o que podem confirmar comparando os trailers pré e pós contratação de Whedon). Ainda assim, a assinatura de Snyder não está completamente ausente. Existe, abordada muito ao de leve, uma temática transversal às personagens: os progenitores dos membros da Liga. Todos têm uma relação ou situação conturbada com os pais, o que é sublinhado em mais do que uma circunstância. Nota-se existir um linha narrativa mais profunda relacionada com esta temática mas que, infelizmente, não é explorada o suficiente. É francamente pena.

Sim, adorei o filme mas nem tudo são rosas. O maior problema é o bigode do Super-Homem. Sim, eu não me enganei a escrever. Quando fizeram refilmagens no verão passado, Henry Cavill trabalhava já no Missão Impossível, onde usa um bigode que não podia cortar. Esse bigode é apagado digitalmente e nota-se - muito. Outro problema, também relacionado com os efeitos digitais, é o uso desnecessário dos mesmos. Quando é que os produtores de grandes blockbusters irão aprender que um pôr-do-sol é mais belo quando verdadeiro e não feito por computador? Os directores de fotografia estão ali para isso. Não será difícil encontrar um bom pôr-do-sol ou, faltando, um ambiente realista capaz de veicular o peso emocional da cena. Num filme desta envergadura e com este orçamento estas duas falhas são grandes demais para passarem despercebidas e serem desculpadas. 

Um filme divertido e entretido em que as personalidades são o forte. Um enredo simplista mas que funciona melhor do que estava à espera.

PS - Não se esqueçam de esperar pelas duas cenas pós-crédito que são, ao mesmo tempo, um gigantesco presente para os fãs da DC e uma preparação para o próximo filme da Liga.

Thor Ragnarok de Taika Waititi

O que faz um filme dos estúdios da Marvel? São sempre de entretenimento puro e pop. Diversão a rodos. Complexidade moral no mínimo essencial. Personagens divertidos e com conflito interno q.b., o suficiente para que o enredo avance. Imagens claras e límpidas, bem iluminadas, de cores primais suaves e primaveris. E, claro, carradas de humor. Tudo cozinhado para saírem do forno umas duas horas de puro prazer quase, quase acerebral. Nada de mal com isso e este terceiro filme protagonizado pelo Thor de Chris Hemsworth é exactamente o produto dessa receita. Provavelmente estamos a falar do filme mais divertido e humorístico desta já longa série de longas-metragens dos estúdios da Marvel. Esse é o maior forte de Thor Ragnarok.

Do princípio ao fim, somos bombardeados por sketch de humor atrás de sketch de humor, com Chris Hemsworth a ser ele mesmo, um divertido surfista que veste a pele dos Deus do Trovão. O Loki de Tom Hiddleston é também ele um companheiro de pândega, o conflito entre os dois irmãos, tal como "shakespearianamente" explorado no primeiro desta série, agora um conjunto de oneliners e de momentos de humor dignos dos Three Stooges. Mesmo o aparecimento do Hulk acaba por descambar no buddy-movie, fazendo bom aproveitamento da parceria e conflito iniciados no primeiro filme dos Vingadores.  

Os vilões, a Hela de Cate Blanchett, o Surtur, o Grandmaster de Jeff Goldblum e o Executor de Karl Urban, cortejam ou assumem de forma descarada este lado leve e humorístico que parece ser a assinatura do realizador neozelandês, Taika Waititi, que chega a fazer a voz de uma das mais divertidas personagens do filme. Cate consegue fazer uma Hela tenebrosa mas, uma vez mais, incorre no problema dos vilões da Marvel: pouca complexidade. Goldblum é mais divertido e interessante como Grandmaster. Karl Urban é dos poucos a quem é dado algum (mas pouco) conflito emocional com que trabalhar (à semelhança do que foi feito com a personagem na BD, especificamente a escrita por Walt Simonson). 

Vou vos contar um segredo. Se ao lerem o que está acima não conseguem perceber o que eu acho do filme é porque o fiz de propósito. Até aqui não quis condicionar  a sua leitura ou sujeitar-vos a um lado menos favorável da minha opinião. Tudo o que escrevi pode ser entendido como um elogio ou uma crítica. Um paradoxo que representa o que senti. Foram duas horas divertidas mas este podia ser um filme do Thor como um episódio do Seinfeld (mas com piadas muito menos complexas). Cheguei a falar do primeiro, o de Kenneth Brannagh, e essa alusão não é despropositada. O conflito emocional entre Thor, Loki e Odin é aqui pouco mais que barulho de fundo e preparação para as piadas . O cliffhanger do segundo filme é resolvido em duas penadas, para dar espaço ao enredo de Hela e ao do mundo onde o Thor encontra o Hulk e a Valquíria (esta uma das mais interessantes personagens deste filme). O que parecia ser um plano desde o primeiro filme é descartado para dar lugar ao humor e ao deboche. Uma vez mais, nada de mal com isso, mas este não é o Thor do primeiro filme e muito menos o Thor da BD. Este é Chris Hemsworth a ser aquilo que é no mundo real: um surfista australiano, super porreiraço e pronto para a galhofa. 

Um dos mais interessantes aspectos de Thor Ragnarok é a homenagem, muito mais que merecida, a Jack Kirby, um dos mais importantes criadores do Thor na BD. Foi ele quem criou a escala cósmica e divina ao universo do Deus do Trovão. O seu maravilhoso estilo de desenho, nos décors e nas personagens, está presente, principalmente no mundo onde Thor encontra o Hulk. Nem que seja só por isso já este filme vale a pena ser visto pelos fãs da 9.ª Arte.

Thor Ragnarok é, provavelmente, o mais divertido dos filmes da Marvel. Cheio de humor, do primeiro ao último momento. Resta é saber se isso faz um filme do Thor. Pelo menos um da Marvel é sem duvidas. 

Blade Runner 2049 de Denis Villeneuve

Todos trememos quando soubemos que o clássico Blade Runner de Ridley Scott teria uma continuação, 35 anos depois e pelas mãos de um outro realizador, deste vez o Franco-Canadiano Denis Villeneuve. O primeiro faz parte da constelação dos filmes gigantes, um caso raro de confluência entre a crítica e os fãs. Adorado. Analisado. Um marco para uma geração e para a História do Cinema.  Como podem calcular, as expectativas eram elevadas.

Blade Runner 2049 é muito mais que um digno sucessor do primeiro. Teremos de dar tempo para assentar mas o trabalho de Denis e do argumentista Hampton Fancher (peça essencial neste filme e que já tinha trabalhado no primeiro) é, pelo menos, tão bom quanto o clássico. A história não é um revisitar do que já antes tinha sido dito mas um evoluir e aprofundar, à luz deste mundo moderno de iPhones e de internet, de isolamento facilitado pela tecnologia,  de mega-corporações monolíticas e predatórias. Neste mundo vagueia a personagem de Ryan Gosling, que tem aqui um dos mais interessantes papéis da sua vida (junto com Drive e Only God Forgives), na busca da sua identidade e de uma figura que é a peça central de todo o enredo (e que recuso-me a revelar quem é para que tenham a mesma surpresa que tive). Nessa demanda, vagueia pelas paisagens frias, chuvosas e distópicas da costa oeste dos EUA,  que se transformou, ao longo dos anos, em algo ainda mais aterrador e desumano. As ruas são linhas intermináveis de prédios uniformes, à volta de outros edifícios, de linhas fascistas e imperiais, que erguem-se na paisagem como um Olimpo de Trevas. 

O argumento centra-se nas personagens e na demanda e o cenário serve "apenas" como contexto. Ou melhor, como um mistério. O mundo é solidamente construído mas indagamos como se chegou ali, o que representa aquela desolação tão familiar. Essa familiaridade facilita a identificação da paisagem e da arquitectura mas, ao mesmo tempo, repugna-nos e assusta-nos. Este mundo pode ser o nosso num futuro próximo. 

À volta da busca que é o núcleo do argumento, outras buscas e outras personagens orbitam, como forma de sublinhar a principal. Uma das mais interessantes é a história de amor da personagem de Ryan Gosling, que nos proporciona momentos antológicos e que ficarão para a História do Cinema. Existe uma veracidade irónica nesta paixão que eleva os outros elementos do filme.  É muito mais que uma nota de pé de página. É o coração de Blade Runner 2049.

Villeneuve tem uma visão mais fria e kubrickiana que Ridley Scott. A limpeza de alguns espaços, a posição das personagens,  as cores primais e uniformes, o tempo frio de espera, contribuem para uma atmosfera tenebrosa e grávida de tragédia. Estamos sempre à espera da queda da espada.  De forma paradoxal, permanecemos longe e perto deste mundo, um conflito entre a emoção e o coração. O trabalho deste realizador continua a ser um dos mais interessantes da actualidade da 7.ª Arte, depois de Arrival, Selvagens ou O Homem Duplicado (filme inspirado no livro do nosso Saramago).

Cada actor é escolhido de forma exemplar, desde a interessantíssima Ana de Armas (que já tinha visto em Knock Knock), passando pelo temível Jared Leto, a sempre maravilhosa Robin Wright e o regresso do ícone Harrison Ford. Cada contribui e engorda o peso da tragédia. 

Blade Runner 2049 de Denis Villeneuve é um filme para ficar na História. A prova de que podemos voltar a visitar um clássico sem perder um átomo do que ganhamos com ele e, ainda mais raro, acrescentando ao original. Difícil, para mim, saber qual dos dois o melhor. É dar tempo ao tempo.

Logan Lucky de Steven Soderbergh (Sorte à Logan)

Steven Soderbergh estava afastado do Cinema. Disse mesmo que não queria regressar. Queria agora dedicar-se à TV. Produziu e realizou a brilhante série The Knick, focada num hospital em Nova Iorque no início do século XX. Pelos vistos algo ou alguém (ou os dois) conseguiram mudar as ideias ao realizador. E ainda bem para nós porque este Logan Lucky não seria o mesmo filme se não tivesse Soderbergh por detrás da câmara. Não é apenas ele a estrela da banda mas é mais importantes dos elementos. Os outros são os actores escolhidos a dedo. Uma passadeira vermelha de talento.

A história é terreno familiar para Soderbergh e companhia: um heist movie (todos reconhecemos Ocean's 11, 12 e 13). Mas desta vez podemos acrescentar um sub-género, ou melhor uma geografia e uma cultura: um heist movie passado no sul dos EUA e impregnado da cultura dessas latitudes. Actores e ritmo desenham a paisagem muito americana do estado de West Virginia, de Charlotte e das corridas de NASCAR. Aqui há hillbilly's, blue-color workers que fazem o que podem para conseguir mais um dólar na sua carteira. É a descrição de uma cultura, misturada com muito humor para, ao mesmo tempo, a ridicularizar e enaltecer.  Há espaço para tudo neste delicioso filme, divertido do início ao fim, com actores que não só são brilhantes como parecem estar a divertir-se à grande. 

Adam Driver é uma das estrelas do grupo, com uma interpretação controlada, serena e cheia de personalidade. Daniel Craig é quem atrai mais as atenções já que estamos a falar do mais recente James Bond numa interpretação que nada tem a ver com o agente secreto. Apesar de conseguir entrar completamente no mundo rural dos EUA fica como uma curiosidade excêntrica bem explorada. Channing Tatum é o protagonista e o fio moral da história mas, ainda assim, eclipsado por Driver e mesmo por Craig. Riley Keough continua a ser uma revelação, depois de American Honey e da série de TV The Girlfriend Experience, cada vez mais assegurando um lugar seguro nos canto dos actores corajosos.

Logan Lucky é resultado de uma colaboração deliciosa entre realizador e actores, de um capitão de equipa completamente seguro da sua arte, que sabe-se estar lá mas que deixa o diálogo e talento da representação respirar. Um filme a não perder.

MOTELx - Housewife e It!

O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!


E com estes dois filmes acabou o meu MOTELx. Apesar de, uma vez mais, neste festival, ter visto filmes cada vez mais diversificados, estava com vontade de uma sobremesa mais familiar. Algo entre o gore, com sangue, vísceras e desmembramentos, e o "borra-cueca". E surgiram, para saciar essa fome, Housewife do turco Can Evrenol e o esperado It de Andy Muschietti. Dois filmes muito diferentes mas dentro do "verdadeiro" espírito de um festival de cinema de terror.

Comecemos por Housewife, cujo realizador esteve presente, pelo segundo ano consecutivo (no ano passado apresentou o seu Baskin), no MOTELx. Já no primeiro filme, Can tinha deixado bem clara a sua predilecção por gore extremo, com rituais sanguinários difíceis de digerir pelos que têm estômagos e sensibilidades fracos. Housewive, apesar de ser, como o próprio o diz, um slow-burner, assim que chegamos ao acto final, entremos de cabeça e sem rede no imaginário dantesco do realizador turco. Voltamos ao ritual satânico, voltamos ao uso da carne como barro na arte de cerimónias infernais. A história centra-se numa jovem que, na infância, foi testemunha de um acto demoníaco. Anos mais tarde, abordada por um culto/igreja, é recrutada para um destino escrito nas letras da Besta. Filme curto e directo, não se perde em narrativas paralelas ou momentos de reflexão existencial. Este é um filme que avança em crescendo até à revelação apocalíptica final. Um dos melhores que vi no MOTELx deste ano.

Um dos  filmes mais aguardados deste MOTELx e mesmo nas salas de cinema (onde estreia no próximo dia 14 de Setembro) é a segunda adaptação do livro It do renomeado escritor de terror Stephen King. A expectativa é sempre alta quando envolve este autor, as suas adaptações e um filme de terror que os críticos cedo começaram por classificar como "a ver". No que a mim diz respeito, fico sempre em pulgas quando oiço o rumor que "este assusta mesmo". Habituados que estamos a muitas sensações, a promessa, quase como droga, de sustos valentes, é uma perspectiva aliciante. It não decepciona. Assustador, despoja-se de alguns lugares comuns do ritmo e enredo de filmes de terror para converter os que poderiam não ser convertidos. É com a expectativa do espectador que Andy Muschietti brinca, permitindo alguns sustos verdadeiros e novos. Verdade que estamos de frente a um filme de orçamento pouco modesto (ou muito, se compararmos com outras produções do EUA), mas o realizador faz uso do mesmo, preferindo a escolha criteriosa de momentos a um espectáculo de sustos e gore desconcertantes mas, no final, inconsequentes. Constrói personagens e depois manda-os contra o monstro de serviço. E que monstro. A sua indefinição, aspecto real mas assustador, são o ganha-pão da narrativa aterrorizadora. 

Este Palhaço Pennywise é uma boa adição ao panteão a que pertencem Jason e Freddy Krueger, para citar os mais conhecidos. A escolha de permanecer na década de 80 tem uma razão narrativa (este é apenas o primeiro capítulo... mas auto-contido) e está dentro desta nova tendência de regresso ao passado, à nostalgia dos quarentões (como eu) que foram criados por uma dieta rigorosa de Craven e Carpenter. Quem diria que os Anos 80 seriam fonte de coolness

Dois filmes de verdadeiro terror e gore. Excelente forma de acabar o meu MOTELx. Para o ano há mais!

MOTELx - Prey e Bad Batch

O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!


Os que julgam o filme de terror como um cavalo de um truque só estão muito enganados.  Mesmo dentro do obrigatório do género, o sangue, o suspense, o temor, existem variações tão numerosas quanto os realizadores que trabalham nele. As duas apostas que ontem tive o prazer de ver são disso bem prova: Prey do holandês Dick Mass e Bad Batch da iraniana-americana Ana Lily Amirpour.

Prey é um objecto estranho mas sui generis. Parece ser uma homenagem ao Jaws de Steven Spielberg, mas ao invés de um tubarão escolhe um leão assassino que caça humanos nas ruas da cidade de Amesterdão. Ao mesmo tempo, Dick Mass leva-se muito pouco a sério e escolhe o caminho do camp e do humorístico, entrecortados com cenas gore de vertiginoso desmembramento. A principio, existiu alguma dificuldade de entrar no registo na medida em não parecia clara o tipo de abordagem. Depressa qualquer duvida foi dissipada e foi possível sentar, desligar o cérebro (no bom sentido) e deixar levar pela premissa e execução que são tão ridículas que deram a volta e regressam verosímeis. Sabíamos de antemão os destinos de todos os protagonistas, já que o seu papel narrativo era tão óbvio que mais valia estar escrito a letras vermelhas garrafais. Ainda assim, a perspectiva leve e descomprometida conseguiu levantar o filme da banalidade. Os actores são convincentes, na medida em que o camp pode e deve ser convincente,   e parecíamos estar num domingo à tarde com uma família que goste de ver cabeças devoradas de uma dentada por leões computadorizados.  Divertido e leve, é uma das mais curiosas apostas para prémio de melhor longa-metragem europeia no MOTELx 2017.

Bad Batch é um outro campeonato. Ana Lily Amirpour já vem com algum peso no seu currículo, depois de A Girl Walks Home Alone At Night, filme iraniano de 2014 sobre uma vampira, e que conseguiu atrair muita atenção pela premissa e pela execução (inclusive no MOTELx). O hype à altura era já tão grande que, quando o vi, o desânimo entrou um pouco pela minha apreciação a dentro (é o que dá ter expectativas elevadas). De Bad Batch conhecia apenas um trailer delicioso e a participação de  Jason Mamoa (o Kahl Drogo e o Aquaman). Nada me preparou (felizmente) para a estranha e deliciosa experiência que é este filme, um Mad Max misturado com western spaghetti, um futuro que não parece assim tão longínquo e pergunto-me se será antes um futuro ou uma interpretação do presente - o dos EUA de Trump. Parcimonioso em palavras e completamente alicerçado na pureza da imagem, sublinha uma certa inclinação do Cinema que diz que nunca deveria ter deixado o mudo ou que, mais simplesmente, uma imagem vale mil palavras. Esse elogio está em quase todos os momentos de Bad Batch, que vale-se mais da geografia, do décor e dos actores para escrever a narrativa e as emoções.  Isso acontece principalmente com Suki Waterhouse e Jason Mamoa, cuja presença física e feições controlam e monopolizam o enredo. É um prodígio de casting e de talento. Menos omnipresente mas igualmente poderoso está Keanu Reeves, cuja breve aparição é também impressionante.

Digno de elogio é também a incrível Banda Sonora, com músicas escolhidas a dedo e estranhamente apropriadas à atmosfera quase alienígena do deserto que funciona como pano de fundo. Poderiam não funcionar mas funcionam e são testamento ao bom gosto musical de quem a escolheu (oiçam-na legalmente aqui). 

Dois filmes tão diferentes que não pareço estar a frequentar um festival de cinema temático. Prey é entretenimento descomprometido e Bad Batch é um dos grandes filmes do MOTELx e mesmo do ano - já que vai estrear comercialmente. 

Rapidinhas de Cinema - Wind River e Batman & Harley Quinn



Não. Um filme nada tem a ver com o outro. Um é uma narrativa fria e cruel, um faroeste passado nas montanhas geladas do estado de Wyoming. Outro é um desenho animado descomprometido, leve e humorístico. Um é sobre vidas reais esquecidas pela Lei, outro é sobre vigilantes fantasiosos e uma anti-vilã sociopata (e não psicopata, como é, aliás, bem sublinhado pela personagem no filme). Gostei de ambos.

Wind River é a primeira incursão de Taylor Sheridan na cadeira da realização, escritor dos maravilhosos Sicario e Hell and High Water. Estes dois filmes eram já uma subversão de géneros e uma visão desapaixonada e anti-glamourosa de dois mundos muitas vezes vistos de forma leve pelo Cinema. O primeiro descrevia a luta contra o mundo criminoso do tráfico de droga e o segundo sobre a crise financeira de 2008, as suas consequências e enveredava pelo caminho de um heist movie social. Wind River é um thriller policial a início, uma normal descoberta de "quem-matou?", com a participação da polícia local, do FBI e de um wild-card autóctone que acaba por revelar-se como a peça mais importante da investigação. Claro que, como nos provou nos seus dois filmes anteriores, Sheridan usa o ambiente como forma de comentar uma outra realidade. Neste caso, a do isolacionismo. De um local para onde a Lei não estende o seu braço dito longo. Onde a justiça é feita pela fauna, flora e geografia locais. Existe Lei. Mas não a dos homens. A escolha dos dois actores principais, Jeremy Renner e Elizabeth Olsen, prova que estes dois interpretes são capazes de muito mais do (pouco ou nada) que lhes dão para fazer em filmes de muito orçamento (nos Vingadores são criminosamente subaproveitados). Aqui respiram o ar frio do mundo onde as suas personagens passeiam, cada olhar e gesto um reflexo de uma história maior, de universos que colidem com o drama do enredo. Infelizmente, será daqueles filmes que passarão despercebidos nas salas de cinema, sem o merecer.

Longe, muito longe, da narrativa de Wind River está Batman & Harley Quinn, a ultima incursão da DC Comics pelo seu já duradouro universo de desenhos animados. Desde o início da década de 90 que a editora decidiu tentar novas abordagens, mais adultas, pelo mundo ficcional das suas personagens em formato de desenho animado. Começaram exactamente com o Batman, na lendária série de Bruce Timm e Alan Burnett. Foi nesta que o primeiro e Paul Dini criaram Harley Quinn, a namorada do Joker, o arqui-inimigo do Homem-Morcego. A fama desta personagem expandiu-se nas décadas que se seguiram ao ponto de ser a personagem principal do filme Esquadrão Suicida de 2016, com Margot Robbie no papel da anti-vilã. Com a fama no seu pico, Bruce Timm regressa não só à personagem a quem deu forma mas também ao universo onde a criou. Este filme tem como ambiente a série da década de 90, ainda que se assuma como mais adulta e muito menos apropriada a crianças. Enquanto a Marvel continua a apostar num publico jovem, a DC esforça-se para que as suas personagens e histórias reclamem um público mais adulto (ainda que não necessariamente maduro - e isto não é uma critica). Este Batman & Harley Quinn é uma busca nesse sentido e, no que a mim diz respeito, bem sucedida. Há algum tempo que não me ria tanto - mesmo com piadas um pouco, digamos, adolescentes. Esta Harley é mais arriscada e o Batman mais sisudo (mas com laivos de descontracção, o que atesta bem da latitude da personagem). Nightwing, um dos discipulos do Cavaleiro das Trevas, tem também um papel muito importante e revelador. Um filme bastante divertido para fãs e (acho) não só.

Atomic Blonde de David Leitch

A mudança de nome do material-fonte em que este filme é baseado é apropriada.  O nome da Banda Desenhada original, Coldest City, da autoria de Antony Johnston e Sam Hart, é alterado para Atomic Blonde, para claramente aludir à personagem principal interpretada por Charlize Theron. Este filme não seria o que é sem esta actriz no papel principal. 

Theron é o filme. O empenho com que se entrega não só às cenas de acção mas à construção da personagem faz o filme e torna-o suportável. Logo na primeira cena em que aparece, somos presenteados com a sua intensidade: as feridas que abundam no rosto e no corpo, disfarçando a sua beleza; o corpo nu violentado pelo trabalho de espia; a dor e manchas negras escondidas por roupa de designer. Theron deita fora a beleza e substitui-a pela brutalidade  desta vida dita glamorosa. Ela é o anti-James Bond não só em género como também nas consequências da violência, que não é bonita de se ver. 

Esta entrega é mais notória na melhor cena de todo o filme, um impressionante plano sequência que vale não tanto pela técnica (que não é nova ou novidade), mas pela conjugação desta com o trabalho físico da actriz. A luta, enquanto desce vários lances de escada e que depois segue para a rua, é crua e sanguinária. Coreografada sem se fazer notar.

Infelizmente, os elogios que posso fazer a este filme acabam por aqui. A história é redundante, sem complexidade e demasiado ocupada com twists para se fazer entender. A realização, excepto pelo plano sequência, é pouco inspirada e muito preocupada em fazer pequenos videoclips de êxitos musicais da década de 80 (o filme passa-se em Berlin de 1989, aquando da queda do muro de Berlim). Esses êxitos são bons de ouvir, sem dúvida, mas um filme é mais do que isso e, neste caso, seguem-se sem ligação às cenas e com pouca mais intenção do que despertar algum saudosismo. Compare-se com Baby Driver, outro filme de acção com muita música, em que esta é parte integrante da história e nunca se sobrepõe à "legibilidade" das cenas.

Um filme que vale a pena ver pela imponente presença de Charlize Theron. Mas muito pouco mais.

Baby Driver de Edgar Wright

É difícil construir um blockbuster pessoal mas existem realizadores que o conseguem. Christopher Nolan é um deles - ainda que este seu último, Dunkirk, deixasse algo a desejar. Michael Bay não possui tanto um toque pessoal mas uma inflexão para imagens e movimentos que são muito seus - e já apelidados de BayhemEdgar Wright faz parte do grupo do primeiro realizador e, quer gostemos ou não, Baby Driver está a ser um sucesso.

Um filme favorito pessoal foi feito por Wright, Scott Pilgrim, cheio de energia cinética que não só espelhava a BD mas também as intenções do realizador. Contudo, reconheço que dos seus anteriores filmes mais nenhum conseguiu despertar o meu interesse para lá de uma recordação agradável (Shaun of the Dead, Hot Fuzz, The World's End). Felizmente, Baby Driver faz parte do mesmo grupo de Scott Pilgrim.

O conteúdo de Baby Driver é banal. Um jovem casal apaixonado. Um grupo de assaltantes sempre em processo de executar o próximo golpe. O jovem protagonista, mestre em condução, capaz de fugas vertiginosas in extremis, com uma característica peculiar: devido a um acidente quando criança, ouve constantemente um zumbido que é apenas apaziguado pelos headphones sempre ligados e a ouvir música do seu iPod. É nesta última premissa e no aproveitamento que Wright faz da mesma que o filme consegue toda a alma e originalidade. Os primeiros dois terços de Baby Driver não são tanto sobre as capacidades automobilísticas de Baby (o nome do protagonista) mas sobre o amor da personagem e do realizador por música. Um e outro deliciam-se na sincronicidade do movimento (um com o mundo, o outro com a narrativa), na banda-sonorização da vida. O que aparece por necessidade transforma-se na essência do filme e da obra. Movimentos de câmara e personagens, momentos -chave, são orquestrados de forma perfeita, umas vezes discreta, outras declaradamente, ao sabor e bater da música. Cada canção é escolhida com o cuidado de artesão preocupado com a excelência do produto final.

O ambiente lembra uma actualização dos décors e vestuários da década de 50, com o protagonista a emular versões jovens dos heróis dessa época. O cabelo. Os óculos. A simplicidade da t-shirt branca evoca Marlon Brando ou James Dean. A jovem namorada, empregada num diner de estrada é também um lembrete dessa época - como é sublinhado por alguma cenas a preto e branco. Existe cuidado com o legado do imaginário cinematográfico, que Wright agarra e faz seu. 

Testamento à qualidade deste realizador é o rol de excelentes actores que dão a cara por trabalho "secundário": Kevin Spacey; Jon Hamm; Jamie Fox. A todos é dada carne para mastigar e todos fazem o melhor que sabem (excepto por Bella Thorne que, infelizmente, pouco mais é dado para fazer do que ser eye-candy e interesse amoroso).

É apenas no terceiro acto, o da resolução, que a narrativa falha, invertendo para uma normalidade que nada tem a ver com os dois anteriores. O filme inflecte para uma mera perseguição e luta que oferece pouca originalidade e, pior, diálogos minimalistas. Wright tenta fazer algo épico mas falha ao comparar-se consigo mesmo. Ainda assim, não é suficiente para apagar os dois terços que o precederam e Baby Driver é um dos mais gratificantes filmes da silly season

Valerian and the City of a Thousand Planets de Luc Besson

Tinha de acontecer. O sucesso das múltiplas adaptações de BD de super-heróis tem provado ser uma considerável fonte de receitas para os muitos estúdios de cinema. Mas como os fãs de BD bem o sabem, a 9.ª Arte não é de maneira nenhuma feita apenas de super-heróis nem tampouco de BD norte-americana. Já muitas foram as adaptações quer de franco-belgas, quer de Mangás, mas, no que diz respeito à primeira, ainda faltavam alguns nomes mais conhecidos. A BD das terras gaulesas já adaptou, com mais ou menos sucesso, Astérix, Lucky Luke, para falar de dois grandes nomes, mas ainda faltam alguns: Valérian era um deles. Ou melhor, Valérian e Laureline, agentes espácio-temporais ao serviço da Galaxity, "metrópole do futuro, (...) capital do império galáctico terrestre" (in A Cidade das Águas Movediças) do século XXVIII. Ambos são agentes da lei que viajam pela imensidão espaço-temporal do brilhante e brilhantemente imaginativo universo criado pelo escritor Pierre Christin e pelo artista Jean-Claude Mézières em fins da década de 60.

Com 22 volumes no total (23 se considerarmos o número zero), esta série marcou várias gerações de admiradores não só de BD mas também de ficção-científica. Conhecida pelas suas personagens idiossincráticas e pela singularidade da imaginação vertiginosa, influenciou de forma indelével a cultura popular do século XX (a Guerra das Estrelas de George Lucas consta como um produto dessa influência ao ponto de ser considerado plágio - mas essa é uma outra história).  Luc Besson, o realizador que escolheu (finalmente) adaptá-la, consta como um dos seus fãs e assume-se como fortemente influenciado. Um dos seus mais conhecidos filmes, O Quinto Elemento, é também uma carta de amor a Valérian (tanto que Jean-Claude Mézières ajudou no design do mesmo). Ora, a obra que tanto contribuiu para a cultura popular precisava de ser adaptada à 7.ª Arte e dada a conhecer a um público mais vasto.

Apesar do nome, Valérian e a Cidade dos Mil Planetas, o álbum que mais contribui para o enredo da adaptação é O Embaixador das Sombras, o sexto volume da série (o segundo álbum tem o nome O Império dos Mil Planetas, mas as semelhanças de enredo ficam-se pelo nome). A adaptação é livre, com tantos pontos de toque como de desvio. 

Uma das características mais magnéticas da BD era a velocidade da acção, com certeza produto das quase cinco dezenas de páginas em que a história ocorria mas essencialmente da fulgurante imaginação e world-building dos autores que a criaram. Os pormenores estranhos e alienígenas seguiam-se em catadupa, não possibilitando respirar antes de fornecer um novo elemento de uma cultura extra-terrestre ou de uma paisagem cósmica. Éramos largados de forma abrupta neste futuro carnavalesco e tínhamos de nos adaptar. Muito do charme desta BD vinha daí. Besson consegue adaptar essa vertigem. Os eventos, a estranheza, a verdadeira "extra-terrestrealidade" de Valérian passa do papel para a imagem em movimento. E que imagem em movimento. Esse é, sem dúvida, um dos maiores atractivos desta adaptação. O cuidado de cada pormenor, a sumptuosidade das geografias, das criaturas e dos locais são evocativos da obra original e tentam ir um pouco mais à frente (existe mesmo, aqui e ali, tempo para retirar cenas directamente dos quadradinhos).

Como em qualquer história que fique para a História, é a atractividade das personalidades que solidifica a narrativa e o world-building. Se na BD isso é um dos pontos fortes na adaptação vacila, muito por causa da escolha do actor para corporizar Valérian. No enredo d'O Embaixador das Sombras, a personagem titular esteve ausente da maior parte da narrativa. Era substituído pela forte e emancipada Laureline, que navegava pelos labirintos de Ponto Central em busca do seu companheiro raptado. Enquanto via o filme esperançava que Besson tivesse seguido mais à risca a obra, não só porque Laureline é, de uma forma geral, uma personagem mais interessante que Valérian, como a actriz, Cara Delevingne, de quem eu não esperava nada e receava tudo, é francamente superior ao seu companheiro, o muito-difícil-de-simpatizar-e-de-ver Dane DeHaan. DeHaan é a prova que um mau casting pode fazer coxear um filme - será que a minha escolha pessoal, Louis Garrel, não sabe falar inglês ou não quer meter-se em filmes-pipoca? Felizmente que Cara consegue ser aquilo que se esperava, ainda que não seja genial. E, já agora, a aparição de Rihanna é, de facto, um cameo delicioso.

Um divertido filme para o Verão e um dos mais interessantes blockbusters do ano.

Dunkirk de Christopher Nolan


Christopher Nolan faz parte de um número reduzido de realizadores com uma rara qualidade. Aqueles que conseguem agradar a críticos e a espectadores. Deu-se a conhecer ao mundo com Memento, um exercício de estilo sobre o tempo (uma das suas "manias"), e continuou com um misto de filmes pessoais e de blockbusters cerebrais, dos quais os mais conhecidos e aplaudidos são o Dark Knight e Inception.

Muitas das suas obras são reflexos fractais e multicamadas sobre o tempo, a realidade e a psique. Existe um jogo de espelhos que parece dever mais a Hitchcock e Welles do que aos filmes-pipoca com que nos entretemos. Foi com Nolan que o filme de super-heróis atingiu uma certa maturidade, ao provar que é possível ser capaz de contar uma história sobre esta mitologia popular americana de forma ao mesmo tempo entretida e profunda. Falo, claro, outra vez, de Dark Knight. A trilogia dos filmes dedicada a Batman possibilitaram que pudesse entreter-se, entre películas, com projectos mais pessoais mas que não deixavam de ser rentáveis (desculpem o atalho de lógica). Assim surgem The Prestige e Inception. Depois de acabada a referida trilogia seguiram-se Interstellar e agora Dunkirk.

De todos os seus filmes este é, provavelmente, dos mais lineares em termos narrativos, ainda que jogue com a noção de tempo e da sua relatividade. Dunkirk é parco em diálogos e em sons, situação que é logo apresentada nos minutos iniciais. Existe uma simplicidade na forma como Nolan apresenta a história, como que a pontuar a também "simplicidade" da situação apresentada nas praias de Dunquerque durante a 2.ª Guerra Mundial: os soldados ingleses estão aí cercados pelos nazis, entre esse exército e o mar, e apenas podem esperar pela salvação que os liberte da morte certa e cada vez mais próxima. O mundo é reduzido ao seu estado mais primitivo, o da linear sobrevivência.

Partilhamos das dificuldades dos protagonistas enquanto a narrativa oscila entre a praia de Dunquerque, os barcos de civis, que navegam desde a costa inglesa até esta outra, e o ar, enquanto acompanhamos três pilotos que tentam, a todo o custo, defraudar as tentativas assassinas da força aérea inimiga. Tudo reduzido ao mínimo essencial. Talvez por isso, e porque esperamos sempre algo mais de Nolan, muitos saíssem defraudados do filme. Não sendo um dos meus favoritos dele (oscilo entre o Dark Knight e Inception) também não partilho do desânimo. Confesso que na linearidade e simplicidade dos planos e narrativa, no seu espartano enquadramento, vi um pouco de Full Metal Jacket de Kubrick. 

Spider-Man Homecoming (Homem-Aranha: Regresso a Casa) de Jon Watts

Vou tentar ser objectivo mas não sei por onde começar. Sou fã de BD desde tenra idade e comecei exactamente pelo Homem-Aranha. A paixão que ainda alimento iniciou-se com a revista Amazing Spider-Man número 156 feita pelo talento de Len Wein e Ross Andru. Ultimamente estou separado desta personagem. As actuais histórias em BD não me atraem e prefiro, quando posso, regressar aos clássicos. Gosto do trabalho dos criadores Stan Lee/Steve Ditko e tenho a certeza que tudo o que interessa saber sobre o alter-ego de Peter Parker está descrito nessa sequência de histórias. Outros autores seguiram-nos com mais ou menos sucesso e tantos deles li com gosto. Hoje não o faço.

Esta versão de Jon Watts é a terceira tentativa em trazer para o grande ecrã o Trepador de Paredes. Desta vez, o actor é Tom Holland e a Sony e a Marvel fizeram uma parceria para incluir o Homem-Aranha no Universo Cinematográfico da segunda, universo esse que é um sucesso de espectadores e receita. A personagem já havia sido introduzida no Captain America: Civil War e agora é a vez de ser protagonista de mais um filme com o seu nome. 

Cinematograficamente, o filme segue o molde que a Marvel tem cultivado desde o primeiro Homem de Ferro. Ser Jon Watts ou um outro realizador é completamente irrelevante. O dedo de artista é controlado pela mão da máquina Marvel/Disney. Existe uma mensagem e uma imagem que quer transmitir-se e ela é limpidamente transmitida. Volto a dizê-lo: tirando honrosas excepções (Guardiões da Galáxia) os filmes da Marvel parecem uma longa sequência sem interrupção. As mesmas cores. A mesma luminosidade. O mesmo estilo de argumento. O mesmo humor. Também neste a fórmula é seguida à risca. O que faz com que seja mais do mesmo. 

Tom Holland é um bom Homem-Aranha, divertido, solarengo, ao estilo de um determinado molde da personagem. A versão que aparece faz lembrar uma mais recente da BD, a do escritor Brian Michael Bendis, mas sem perder referências basilares. Existe o lado do excluído, o do sacrifício, o do super-herói do homem comum, com problemas e dificuldades. Contudo, não totalmente. Este Peter Parker não é o Peter Parker de Lee e Ditko. Existe um lado de integração no limite de acontecer. Talvez sublinhado pela ligação ao Homem de Ferro. Talvez por não serem visíveis enormes dificuldades na vida deste Homem-Aranha. A bem ver, ele tem um fato fornecido por Tony Stark munido de uma parafernália de tecnologia que faz um iPhone parecer uma ferramenta do neolítico. O Homem-Aranha não deveria ter a vida facilitada por tecnologia futurista. O Homem-Aranha não deveria ser uma versão adolescente do Homem de Ferro.

E cheguei ao meu ponto. O filme é divertido, cheio de acção, mas este não é o meu Homem-Aranha. Existe algo da sua alma, como já o disse, mas, a meu ver, falta muito do que faz esta personagem uma das mais interessantes da mitologia dos super-heróis. Tom Holland é um Homem-Aranha mais interessante que Toby Maguire mas este filme não é melhor que os dois primeiros de Sam Raimi. E digo-o incluindo um dos mais interessantes vilões do Universo Cinematográfico da Marvel (apenas superado por Loki). O Abutre de Michael Keaton é um passo na direcção correcta para a produtora resolver o seu problema de adversários dos super-heróis. Este não é um boneco sem espessura dramática, apesar desta versão do vilão não ter rigorosamente nada a ver com a original da BD. O arco narrativo que o envolve é dos mais relevantes neste filme e um dos mais adultos da Marvel. Mas o cerne é o Homem-Aranha e este não é o meu.

A parceria Marvel/Sony quis levar o Homem-Aranha noutra direcção. Não quis repetir a fórmula das duas tentativas anteriores. Vai resultar em termos de bilheteira. Contudo, no que a mim diz respeito, não funciona.

PS - Será que numa quarta iteração do Homem-Aranha a Tia May será uma adolescente?
PS 2 - Tentei ser objectivo e falhei redondamente.

Paterson de Jim Jarmush


(este artigo contem spoilers)

O escritor da BD Salto, Mark Bellido, quis abandonar a vida solarenga do sul de Espanha para ser guarda-costas de autarcas do País Basco ameaçados de morte pela ETA. O objectivo era conseguir ter uma vida cheia de aventuras e eventos fora do normal e, assim, poder ser escritor. O que Paterson de Jim Jarmush conta é a história de como, tal como Bellido deveria ter sabido desde o primeiro momento, não é necessária nenhuma vida excepcional para se ser um escritor fora do comum. Basta um olhar diferente para o mundo ou, pura e simplesmente, observá-lo e ouvi-lo com atenção. E descobrir onde se esconde a poesia. 

Paterson é um motorista de autocarro que vive na cidade de Paterson, Nova Jérsia, EUA. Vive com uma artista que se multiplica a fazer cupcakes, a tocar guitarra, a cozinhar e a decorar a casa com diferentes padrões de preto e branco. Mas Paterson é mais uma coisa: ele é poeta. Daqueles que se contentam em rabiscar no seu caderno, a caneta de feltro, sequências de palavras, a transformar pensamentos em poemas.  A vida deste motorista de autocarro não é extraordinária. Acorda todos os dias da semana à mesma hora, beija a mulher que ama, dirige-se para o depósito de autocarros, conduz durante horas, regressa a casa, passeia o cão e bebe uma cerveja. Todos os dias. Sem excepção. Qualquer mudança na sua rotina não é recebida com particular entusiasmo. Na repetição dos seus dias há conforto. Contudo, do meio da normalidade nasce a excepção, um homem para quem as palavras são fáceis e a poesia um modo de vida.

O novo filme de Jarmush é feliz no não-acontecimento. Vive cada banalidade, cada conversa trivial, como se um evento cósmico se tratasse. Isso porque o vemos sempre na perspectiva de um homem atento e excepcional. Calmo, reservado, respeitador, educado, ele observa, sem esforço, tudo à sua volta e encontra as palavras que descrevem o seu universo. Não há sobranceria. Apenas o desejo impoluto de escrever sem querer sequer que se saiba da sua existência. No bar que visita todos os fins de dia para a sua cerveja, o barman insiste em coleccionar recortes de jornal com figuras ilustres nascidas em Paterson ou eventos dignos de nota. O protagonista não procura fama, apenas a simplicidade e a felicidade do dia-a-dia.

Paterson é um filme antítese aos nossos dias. Num mundo ligado e interligado (Paterson não tem smartphone) todos procuramos ser indivíduos no palco global (tal como eu ao escrever neste blog), quando basta olhar para o lado na cama, beijar quem amamos e conduzir um simples autocarro. Esta simplicidade é o mantra do filme e não é por acaso que, no final, aparece um japonês para aconselhar o protagonista. Nesse país que se esforça pela pureza das palavras e pela adoração de tudo o que é simples, o convidado só poderia vir daí.