Wonder Woman de Patty Jenkins (Mulher-Maravilha)


(não contém spoilers)

Já o disse várias vezes neste blog mas, porque acredito que muitos não querem saber da opinião de alguém perdido nas teias da net, volto a dizê-lo: Diana, princesa de Themyscira, a Mulher-Maravilha, é a minha personagem favorita de Banda Desenhada e (lá está o exagero) da Literatura. Se, por um lado, conheço-a relativamente bem, por outro sou bastante tendencioso. Se isto não vos faz confusão, por favor continuem.

Dizer que esperava por este filme há algum tempo é um eufemismo. Será desde há 30 anos, desde que li, pela primeira vez, o trabalho do escritor/desenhista George Pérez (que em breve poderão ler em português na colecção da Mulher-Maravilha da Levoir, que sai junto com o jornal Público às quintas)? Será desde que soube da escolha de Gal Gadot para o papel de Diana? Será desde por volta de 1980, quando li Super-Homem vs Mulher-Maravilha de Gerry Conway e José Luis Garcia-Lopez? Não interessa. Esperava com ansiedade.

Gadot já se tinha estreado na pele de Diana, mas é a primeira vez que protagoniza um filme, aliás também o primeiro exclusivamente dedicado à Mulher-Maravilha (76 anos depois da personagem ter sido criada). Antes tinha-mo-la visto no excelente (mas muito criticado) Batman v Superman e fora um dos seus maiores atractivos. O tempo de ecrã era pouco, as falas ainda menos mas o entusiasmo gerado (para fãs e, acredito, não só) tinha sido grande. Um ano depois, aparece este que, cronologicamente, ocorre muito antes de BvS. Aliás, uma das maiores "mudanças" (já explico as aspas) em relação às histórias da BD é que, no Cinema, Diana chega ao Mundo Patriarcal (nome pelo qual o seu povo, as Amazonas, nos conhece)  durante a Primeira Guerra Mundial (na BD varia mas, originalmente, era na 2.ª Grande Guerra). A razão, contudo, é maravilhosa (perdoem-me o trocadilho).

Qual o veredicto? Será que está perto da perfeição? Sim, está quase (a vontade que tenho é de escrever que é perfeito mas vocês não vão acreditar em mim).

Diana, neste filme e tal como contado pelo seu criador, William Moulton Marston, nasceu numa ilha chamada Themyscira (só depois do trabalho de Pérez adquiriu este nome), habitada pelas Amazonas da mitologia grega. Esta ilha encontra-se isolada do mundo e a Princesa vive uma vida de treino guerreiro intensivo mas protegida. Um dia, um avião despenha-se nas costas da sua ilha natal e nele viaja um homem, Steve Trevor. Steve é soldado e o mundo encontra-se em guerra. Numa sequência de eventos (que não importa relatar para não estragar a surpresa) Diana acaba por viajar junto com Trevor para Londres e para a frente da batalha da Primeira Grande Guerra.

Gal Gadot é Diana. Zack Snyder deve ser felicitado (e quem o ajudou), já que uma escolha que poderia ser considerada estranha, porque falamos de uma relativa desconhecida, acaba por ser perfeita. A actriz israelita encarna todos os momentos emotivos e físicos necessários para fazer-nos crer na Diana, na sua missão, na sua inocência, na sua força e na sua filosofia. Esta Mulher-Maravilha (que nunca assume o epíteto no filme) é um fenómeno da natureza, um bastião de esperança num campo de desespero. Em palavras mais claras, ela é uma boa pessoa num mundo onde faltam boas pessoas. Pessoas sem maldade, sem ironias, sem cinismos, pessoas opostas aos derrubados pelas próprias derrotas e por injustiças. É esta a Diana que entra no mundo patriarcal e que irá conhecer o caminho da guerra.

Uma das outras forças do filme é a maturidade da relação entre Diana e Steve Trevor, uma raridade em filmes de super-heróis (principalmente os da Marvel/Disney). Não só a dinâmica e sintonia emocional entre os dois actores é forte, como a troca de diálogos entre ambos é cativante. Chris Pine encarna um perfeito contraponto ao idealismo contagiante de Diana, sublinhado-o e fornecendo um necessário apego à realidade.

Themyscira é um paraíso onde queremos viver e as Amazonas guerreiras que queremos que estejam ao nosso lado. A Grande Guerra é vista em alguma da sua tenebrosa magnitude mas Diana funciona como um analgésico à mesma, sem desmerecer os sacrifícios e as atrocidades. Os vilões são, como já é apanágio na DC, uma das forças do filme ao invés de um detrimento. Gostaria de tecer mais considerações em relação a eles (e mesmo um reparo ou outro) mas terei de me conter para não vos estragar o prazer de os ver. Poderia ainda falar das várias modificações à mitologia da personagem, mas não vale a pena. Poderei, contudo, dizer que escolher a Primeira Grande Guerra como o momento em que Diana aparece no nosso mundo é perfeito e uma jogada que, em termos de História e história, faz todo o sentido. Esta mudança ao cânone não é descabida. É aplaudida.

Poderia continuar mas já vou longo no discurso. Foram anos à espera deste filme. Anos à espera de ver a Diana no grande ecrã. Valeu a espera mas, ao mesmo tempo, partilho da opinião de Hipólita, mãe da Mulher-Maravilha: vivemos num mundo que não a merece. Obrigado Patty Jenkins, Gal Gadot, Chris Pine e DC Comics. Obrigado William Moulton Marston, George Pérez, Phil Jimenez, Greg Rucka, Brian Azzarello. Obrigado por nos darem uma personagem luminosa. Vamos fazer por merecê-la.

2 comentários:

Nuno Amado disse...

Infelizmente e por razões várias só posso ver o filme na 2ª feira... -_-


Abraço

SAM disse...

É pena. Mas despacha.te... eheh