Mostrar mensagens com a etiqueta Matthew Vaughn. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Matthew Vaughn. Mostrar todas as mensagens

Kingsman, The Golden Circle de Matthew Vaughn

Querem saber qual o filme baseado em BD mais BD que passou nos cinemas neste ano da graça de 2017? Não precisam de ir mais longe do que este maravilhosamente hedonista Kingsman, the Golden Circle, sequela do também delirante Kingsman: The Secret Service de 2014. Regressam (quase) todos os intervenientes do primeiro, desde realizador a actores, com algumas adições valiosas na pele de Channing Tatum, Halle Berry, Jeff Bridges, Pedro Pascal, Julianne Moore e... Elton John (a fazer dele próprio). Se este último nome não vos convence da loucura que é este novo Kingsman, então não estão preparados para ele.

Tudo é hiperbólico sem deixar de ser ao estilo do primeiro. Cenas de acção que, de tão únicas, ficam para sempre associadas a Kingsman. Câmara "real", a acompanhar os movimentos vertiginosos dos protagonistas como se colada às suas costas. Rodopio, cambalhotas, hiperviolência, sexo, nada aqui é acção destilada e pronta a ser consumida por petizes inocentes. Isto é para adultos com sentido de humor e com cérebro desligado (não estou a ser irónico e é antes um elogio). Existe um lado de não-estamos-a-levar-isto-muito-a-sério-e-estamos-aqui-a-nos-divertir. E isso transpira em cada cena de acção escabrosa, cada enredo descabelado, cada décor tão berrante que poderia ter nascido do cruzamento entre BD de Jack Kirby e o 007. Delirantemente pop e muito, mas mesmo muito, divertido. 

Não pensem daqui tirar grandes lições de vida ou reflexões profundas sobre a razão de ser da Humanidade. A entrega do realizador é toda para um entretenimento sem desculpas, delirante, divertido e, digo-o uma vez mais porque é mesmo preciso reforçá-lo, adulto. Os adolescentes vão gostar mas isto não é para vender bonecos à lá Disney. Não se lava a mensagem nem o enredo com Omo Mais Branco para incluir o maior número de pessoas sensíveis a tudo e mais alguma coisa. Há ofensa. Há politicamente incorrecto. Há diversão (para quem gosta destas coisas).

Sim, é o filme de BD mais BD do ano. E graças a Deus por isso. Parabéns a Matthew Vaughn.

Kingsman, the Secret Service de Matthew Vaughn

Os amantes de Banda Desenhada americana conhecem os nomes Mark Millar e Dave Gibbons. O segundo, desenhador, é uma das mentes criativas por detrás do essencialíssimo Watchmen. O primeiro, escritor, escocês, entrou pela porta grande dos Comics e teve sempre o talento e a sorte de escrever para as maiores empresas e para os maiores personagens. Foi responsável pelo Super-Homem ser adoptado por Stalin e por uma Guerra Civil entre os personagens da Marvel, opondo, de um lado, o Capitão América e, do outro, o Homem de Ferro. Contudo, depressa percebeu que os seus talentos seriam melhor aplicados na criação de ideias originais e concebeu o conceito Millarworld. Com esta marca, publicada em várias editoras, pôde, junto com os melhores desenhistas do universo da BD americana, desenvolver histórias que o catapultaram para o primeiro plano não só da 9.ª Arte mas também do Cinema. Os espectadores já puderam ver Kick-Ass, que criou junto com John Romita JR, e agora é a vez de Kingsman, um filme que antes de o ser foi uma BD (eu não me esqueci de Wanted mas o filme pouco ou nada teve a ver com o original).

Esta introdução tem duplo intento. Primeiro, ficar bem claro que este filme tem uma história retirada de uma mente criativa muito particular, a de Mark Millar. Segundo, a estética do mesmo deve muito à arte na qual foi buscar inspiração. 

Kingsman é um filme de acção como há muito não se via. Divertido, idiossincrático, fora do comum. Não existem aqui tantos lugares-comum quanto é costume neste tipo de narrativa, muito por causa da sua origem geográfica: este é um filme britânico feito por britânicos. Essa origem nota-se em todos os momentos do filme e, principalmente, na história e ambiente. Ambiente que deve muito, sim, a Ian Fleming e ao seu mais famoso personagem, 007, mas também à cultura e História da ilha de Sua Majestade: a importância do sotaque; a forte hierarquização social; a nobreza como instituição; a educação; o amor por classe e alfaiates; etc. No que respeita ao primeiro, existe mesmo uma muito divertida inversão em relação ao vilão do filme. Ele é interpretado por Samuel L. Jackson a falar no seu melhor sotaque americano (com um twist que só ouvido) e envergando roupas que são o inverso da sobriedade. Em muitos filmes com origem nos EUA o vilão ou é inglês ou tem sotaque desta ilha. É um lugar comum. Por outro lado, são sempre ultra-sofisticados e instruídos (vejam Die Hard, por exemplo). Kingsman é o oposto. O herói é sofisticado, bem vestido, com sotaque impecável e educado. O vilão é, sem duvida, inteligente, mas rude, mal vestido e com um sotaque absolutamente deplorável - ainda que o nesta coisa do sotaque um outro herói da história também tem um apontamento a fazer.

A ação do filme, uma das mais fortes razões porque nos deslocarmos a vê-lo (para as mulheres é Colin Firth), é fora do comum para um filme que procura atrair um público mais abrangente. A violência é sanguinária, de um esteticismo que não deixa de a embelezar mas que também a analisa de uma forma diferente: hilária, por um lado, dura, por outro. Existem dois momentos altos no que respeita a ela e que devem ser muito bem apreciados: um passado numa igreja dos EUA e outro num dos momentos climáticos do filme - que mete muitas explosões. Estas duas cenas sublinham também uma outra característica da violência Millariana: a catarse. Millar aproveita-se sempre dos seus personagens para ajustar contas com coisas que, pessoalmente, lhe metem pirraça e parte para a ignorância da violência extrema. 

Sinceramente, não tenho qualquer tipo de reserva a fazer a este filme, já um dos mais divertidos e melhores que vi neste ano. Realizador, actores, escritor, estão todos de parabéns, por nos ter oferecido momentos originais muito fora de comum. E, já agora, desses momentos, tenho mesmo de destacar o que involve uma princesa Sueca (a primeira a resistir aos avanços do vilão americano - uma metáfora muito pouco subtil). Acontece mais para o final e dá a pincelada final num quadro  completamente diferente. 5 estrelas.