Dunkirk de Christopher Nolan


Christopher Nolan faz parte de um número reduzido de realizadores com uma rara qualidade. Aqueles que conseguem agradar a críticos e a espectadores. Deu-se a conhecer ao mundo com Memento, um exercício de estilo sobre o tempo (uma das suas "manias"), e continuou com um misto de filmes pessoais e de blockbusters cerebrais, dos quais os mais conhecidos e aplaudidos são o Dark Knight e Inception.

Muitas das suas obras são reflexos fractais e multicamadas sobre o tempo, a realidade e a psique. Existe um jogo de espelhos que parece dever mais a Hitchcock e Welles do que aos filmes-pipoca com que nos entretemos. Foi com Nolan que o filme de super-heróis atingiu uma certa maturidade, ao provar que é possível ser capaz de contar uma história sobre esta mitologia popular americana de forma ao mesmo tempo entretida e profunda. Falo, claro, outra vez, de Dark Knight. A trilogia dos filmes dedicada a Batman possibilitaram que pudesse entreter-se, entre películas, com projectos mais pessoais mas que não deixavam de ser rentáveis (desculpem o atalho de lógica). Assim surgem The Prestige e Inception. Depois de acabada a referida trilogia seguiram-se Interstellar e agora Dunkirk.

De todos os seus filmes este é, provavelmente, dos mais lineares em termos narrativos, ainda que jogue com a noção de tempo e da sua relatividade. Dunkirk é parco em diálogos e em sons, situação que é logo apresentada nos minutos iniciais. Existe uma simplicidade na forma como Nolan apresenta a história, como que a pontuar a também "simplicidade" da situação apresentada nas praias de Dunquerque durante a 2.ª Guerra Mundial: os soldados ingleses estão aí cercados pelos nazis, entre esse exército e o mar, e apenas podem esperar pela salvação que os liberte da morte certa e cada vez mais próxima. O mundo é reduzido ao seu estado mais primitivo, o da linear sobrevivência.

Partilhamos das dificuldades dos protagonistas enquanto a narrativa oscila entre a praia de Dunquerque, os barcos de civis, que navegam desde a costa inglesa até esta outra, e o ar, enquanto acompanhamos três pilotos que tentam, a todo o custo, defraudar as tentativas assassinas da força aérea inimiga. Tudo reduzido ao mínimo essencial. Talvez por isso, e porque esperamos sempre algo mais de Nolan, muitos saíssem defraudados do filme. Não sendo um dos meus favoritos dele (oscilo entre o Dark Knight e Inception) também não partilho do desânimo. Confesso que na linearidade e simplicidade dos planos e narrativa, no seu espartano enquadramento, vi um pouco de Full Metal Jacket de Kubrick. 

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