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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, e agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana optamos pela miscelânea. Um pouco daqui, um pouco dali, e prova-se do que a BD é capaz.

O que vou lendo! - Ekho, Monde Miroir, vol. 3 e 4 - Hollywood Boulevard e Barcelona

(leiam o post anterior de Ekho, para saberem um pouco mais acerca desta BD)



As aventuras da sensual Fourmille Gratule no misterioso Mundo Espelho continuam nestes dois volumes de encher o olho. A impressionante arte de Barbucci continua a estontear com o controle de personagens cartoonescos e de cenários exuberantes. Não existe rigorosamente nada que este senhor não consiga delinear de forma cativante e sem perder legibilidade. A história escorre languidamente (tal como Fourmille), página após página, quadradinho após quadradinho, complementada pelas cores de Nolwenn Lebreton, que arranjam o quadro de forma plena e digna de figurar em galerias de arte. Cada folhear é palco aberto ao deslumbre do olho. Poderemos perder horas a escrutinar cada detalhe, cada expressão facial, cada personagem perdido na multidão dos grandes planos (quem é que consegue descobrir onde estão Harry Potter e os seus dois famosos amigos?).

A história de Arleston é deliciosamente pop, uma homenagem de sensibilidade francesa à cultura estado-unidense, no caso do Hollywood Boulevard, e à catalã, no caso de Barcelona. Mistura-se aventura com uma pitada de mistério à la Agatha Christie, litros de sobrenatural, erotismo soft e um sentido de humor ao estilo de desenho animado malandro. Tudo para construir dois livros e uma aventura de puro entretenimento que é muito mais que um guilty pleasure. A Banda Desenhada francesa é L'Arabe du Futur, mas também é Natasha, é Corto Maltese mas também pode ser este deliciosamente carnavalesco Ekho

Em Hollywood Boulevard os autores escolhem uma homenagem à idade de ouro da mítica cidade do cinema, envolvendo versões deste mundo espelho que emulam Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, entre outros. Em Barcelona escolhem Salvador Dali. Tudo servido com homenagens às cidades que dão o nome a cada volume, à semelhança do que já acontecia com os dois tomos anteriores, Nova Iorque e Paris. Porque as cidades elas próprias são personagens em todas as aventuras de Fourmille e dos seus companheiros neste estranho mundo mágico onde dragões são aviões e a electricidade não existe. Uma espécie de steampunk mágico.  Não sei quantos volumes terá Ekho no total, mas com entretenimento desta qualidade espero que continue de boa saúde por muitos e mais. Mal posso esperar pelo próximo número, Rome, onde o mistério dos Preshauns será finalmente revelado (e - quem sabe - o que é na realidade este delicioso Mundo Espelho).

BD é o comboio de regresso.

"Alec Holland - I'm just a ghost made of flowers.
Electric Messenger - You woke from a reality into a dream. It's time to return."
Swamp Thing, número 142, escrito por Grant Morrison e Mark Millar.

Imagens de Ekho Monde Miroir, desenhos de Alessandro Barbucci.










Rapidinhas de BD - Ekhö, Monde Miroir, Hollywood Boulevard e Secret Service

Ekhö, Monde Miroir vol.3 , Hollywood Boulevard de Christophe Arleston e Alessandro Barbucci

Cliquem neste link para um post sobre os dois volumes anteriores.

Continuam neste terceiro volume da série Monde Miroir as aventuras de Fourmille Gratule e Yuri Podrov. A primeira é a mega-voluptuosa e muito histriónica heroína, ele o companheiro que se viu apanhado por acaso no destino da primeira. Neste novo volume, os dois viajam para a versão de Hollywood deste mundo espelho governado por esquilos mágicos e onde a electricidade não foi descoberta. Ao invés disso, são utilizados estranhos substitutos de toda e qualquer tecnologia do nosso mundo: uma espécie de dimensão steampunk

Esta nova história continua no espírito dos duas primeiras, misturando humor, cenários extraordinários, alguma sensualidade, tudo passado num universo cartoonesco, ou não estivéssemos a usufruir  dos maravilhosos desenhos de Barbucci, que trabalhou para os estúdios Disney. É aliás, o desenho deste autor o grande atractivo da série, com a sua atenção ao detalhe, com o enorme controlo da acção e com uma beleza que não sendo nada discreta não deixa de ser particularmente atraente. A história em si é simples, sem grandes pretensões para além do puro entretenimento - e isso não é nada de errado. Neste novo volume o enredo anda à volta de uma interpretação da já eterna história de Marilyn Monroe e John F. Kennedy. Não acrescenta mas diverte. 

Secret Service de Mark Millar e Dave Gibbons

Esta é a BD que inspirou o muito divertido filme Kingsman. Saído da mente do escritor Mark Millar e do desenhador Dave Gibbons, desde o seu início que os leitores sabiam que a mesma iria passar para o grande ecrã. O que eu, particularmente, não esperava era a BD não ser tão boa quanto o filme. Sim, leram bem... a BD não teve o mesmo impacto que a sua versão cinematográfica. Porquê? Pura e simplesmente porque não é tão divertida e tão cheia de ideias. Enquanto o filme, por exemplo, procura uma atmosfera puramente britânica, analisando os trejeitos da cultura, a BD fica-se por um enredo cujo vilão (que pouco ou nada é aquele mostrado por Samuel L. Jackson) tem uma ligação ao universo dos geeks não só dessa arte como de outras que atraem a adoração destes. 

Eu sei que estou a fazer algo que nunca se deve fazer: comparar duas artes e duas histórias que, ainda que provenientes da mesma origem, têm soluções narrativas completamente diferentes. Mas, ao mesmo tempo, é-me difícil não o fazer, porque o avalanche de ideias que geralmente se associa a Millar não está particularmente reflectido neste Secret Service - em boa verdade, eu não tenho sido um grande fã da maior parte dos seus esforços na série Millarworld , uma marca que criou para englobar todas as suas mais recentes produções, como sejam Wanted e Kick-Ass. Existe de facto um deserto de ideias quando comparado com o filme Kingsman (sei que erradamente, volto a referir). Ocorrem, aqui e ali, alguns momentos mais interessantes e inspirados e verifica-se alguma partilha de código genético entre as duas obras. Contudo, a distância de qualidade é muito grande e óbvia para a simplesmente colocar de lado. É pena, porque estamos a falar de dois grande criadores da 9.ª Arte. 

O que vou lendo! - Ekho Monde Miroir volumes 1 e 2 - New York e Paris Empire


(isto vai parecer estranho)

Encontrei um personagem de BD provavelmente perfeito para a Beyoncé. Eu sei que a famosa cantora-actriz-performer-dançarina-etc. gostava mesmo era de ser a Mulher-Maravilha mas, para o bem e para o mal, esse papel já tem protagonista.  Este é, de facto, um desejo premente da senhora Knowles, tanto mais se dermos uma olhada a alguns dos excelentes (sim, leram bem, excelentes) vídeos que acompanham o seu mais recente e muito badalado novo álbum. Neles aparecem, amiúde, alusões claras e às vezes não muito claras à minha querida Diana de Themyscira, sublinhando o amor que a famosa cantora dedica à mais famosa das super-heroínas. Não temas, minha cara Beyoncé, se tu ou alguns dos teus conhecidos tiver dotes de ler a melhor língua do mundo (leiam-se, o português), aqui fica o meu conselho: pede aos agentes ou capangas, ou lá o que quer que tenhas como ajudantes, para darem uma olhada na excelente e muito divertida BD Ekho, le Monde Miroir, e pode ser que te enamores de Fourmille Gratule e do maravilhoso mundo espelho, Ekho

(isto tudo apenas possível se os franceses não se passarem por ter uma americana a protagonizar um filme baseado num personagem das suas terras. Mas, vejam a minha lógica, se um dia acharem que vale a pena sequer passar esta excelente BD para o grande ecrã, vai ser necessário muito dinheiro e um nome como a Beyoncé assegura orçamentos elevados. Food for thought!)

(vamos agora ao que interessa)

Fourmille Gratule e Yuri Podrov viajam juntos num voo intercontinental entre Paris e Nova Iorque, quando são misteriosamente transportados para um mundo paralelo de nome Ekho graças à intervenção de uma estranha criatura de nome Prehauns. Estes seres, uma espécie de esquilo versão Disney mas não muito fofinho,  não só parecem ser advogados, já que informam a menina Granule de que é receptora de uma estranha herança, como  são também os monitores da curiosa ordem deste mundo paralelo. 

Acontece que em Ekho a electricidade não foi descoberta e, se estão a pensar "mas como raios é que eles aterraram em Nova Iorque?" não tenham medo. Neste mundo, dragões são um dos preferenciais meios de locomoção local, nacional e intercontinental, centopeias gigantes funcionam como Metropolitano, em suma, estamos defronte de um mundo a meio caminho entre o fantástico e o quasi-Steampunk, um mundo deliciosamente concebido pelas imaginações delirantes dos seus dois autores, Christophe Arleston, na escrita, e Alessandro Barbucci, no desenho. 

Como é verdadeiro e louvável apanágio da BD franco-belga, esta é totalmente a província do autor. Ainda que a americana seja muitas vezes injustamente julgada exclusivamente pelos super-heróis, não estamos longe da verdade quando afirmamos que na franco-belga é dada maior latitude à imaginação dos criadores e menos às imposições editoriais (excepto, actualmente, para grande nomes como Astérix, no seu mais recente álbum, por exemplo).  BD's como este Ekho provam exactamente essa teoria. 

Nesta BD não vamos ter labirínticas confabulações sobre o sentido da vida mas antes um aventura verdadeiramente enternecedora e divertida envolvendo uma protagonista cheia de pêlo na venta, decidida, por vezes até um pouco irritante, enquanto se mete de corpo inteiro num mundo maravilhoso que só dá vontade de habitar. Ao seu lado, temos uma pletora de coadjuvantes também eles verdadeiramente divertidos, a começar pelos deliciosos mas misteriosos Prehauns, pelo interesse amoroso mas também parte integrante do enredo de nome Yuri Podrov, pela dançarina exótica Grace Lumumba, etc.  Cada volume passa-se numa versão reimaginada de uma famosa cidade mundial, sendo o primeiro em Nova Iorque e o segundo em Paris. Tudo isto servido pelo fantástico desenho de Alessandro Barbucci, que é um verdadeiro virtuoso do corpo humano, da arquitectura, da construção narrativa em BD (em Portugal já o vimos, por exemplo, em Skydoll da Vitamina BD).

Esta, meus amigos, é uma excelente prenda de Natal e, quem sabe, um dia a vejamos no nosso português.